Afganistão – Uma contabilidade compreensiva

Um Dossiê das Vítimas Civis dos Bombardeios Aéreos Americanos no Afganistão
Uma contabilidade compreensiva

“o que causa o documentado alto nível de baixas civis – 3.767 [de 6 de dezembro de 2001] mortes civis em oito semanas e meia de guerra- na guerra aérea america sobre o Afganistão? A explicação é a aparente voluntariedade dos estrategistas militares americanos de dispararem mísseis e bombas sobre áreas pesadamente populadas do Afganistão”.

Professor Marc W. Herold
Ph.D., M.B.A., B.Sc.
Dezembro 2001

Departmento de Economia e Estudo das Mulheres
McConnell Hall
Escola de Negócios e Economia Whittemore
Universidade de New Hampshire
Durham, N.H. 03824, U.S.A.
FAX: 603 862-3383

Sumário

O que causa o documentado alto nível de baixas civis – 3.767 [de 6 de dezembro de 2001] mortes civis em oito semanas e meia de guerra- na guerra aérea americana sobre o Afganistão? A explicação é a aparente voluntariedade dos estrategistas militares americanos de dispararem mísseis e bombas sobre áreas pesadamente populadas do Afganistão. Um legado de dez anos de guerra civil durante a década de 1980 é que muitas guarnições e instalações militares estão localizadas em áreas urbanas onde o governo apoiado pelos soviéticos as tinha colocado para que elas pudessem proteger melhor de ataques dos mujahideen rurais. Os governos afegãos sucessores herdaram estes locais. Sugerir que o Talibã usou “escudos humanos” é mais revelador que a histórica amnésia e racismo daqueles que fazem tais afirmações, muito mais que procedimentos do Talibã. Estruturas anti-aéreas serão naturalmente colocadas perto de Ministérios, guarnições militares, instalações de comunicações, etc. Um pesado assalto de bombardeio deve necessariamente resultar em números substanciais de baixas civis simplesmente em virtude da proximidade dos “alvos militares”, uma realidade exacerbada pelo admitido ocasional alvejamento pobre, erro humano, mau funcionamento do equipamento e o uso irresponsável de velhos mapas soviéticos desatualizados. Mas o elento crítico permanece de muito pouco valor colocado nas vidas civis afegãs pelos planejadores militares dos EUA e a elite política, como claramente revelado pela voluntariedade de bombardear regiões pesadamente populadas. As atuais vidas de civis afegãos deve e serão sacrificadas para [possivelmente] proteger as futuras vidas americanas. As ações falam enquanto que as palavras podem obscurecer: o vazio dos pios pronunciamentos de Rumsfeld, Rice e da media corporativa cúmplice sobre o grande cuidado tomado para minimizar o dano colateral é claro para todos verem. Outros alvos de bombardeio dos EUA são impossíveis de se explicar em outros termos que a procura americana de inflingir a máxima dor sobre a sociedade afegã e “inimigos” percebidos: o bombardeio alvejado da represa e estação de força de Kajakai, as estações telefônicas de Kabul, o escritório da Al Jazeera em Kabul, caminhões e ônibus cheios de refugiados que fugiam e os inúmeros ataques a caminhões civis que transportavam combustíveis. De fato, o bombardeio da infraestrutra civil afegã tem paralelo com aquele da população civil.

Na segunda feira, 29 de outubro, citando a agência Reuters, The Times da India relatou de Kabul,

“uma bomba americana achatou a humilde casa de barro em Kabul no domingo explodindo sete crianças quando tomavam o café da manhã com o pai. A explosão abalou a casa vizinha matando outras duas crianças… as casa estavam na área residencial chamada Qalaye Khatir perto de uma montanha onde a linha dura da milícia Talibã havia colocado uma arma anti-aérea.”

O cento afegão de Charikar, 60 kms ao norte de Kabul, tem sido o recipiente de muitas bombas e mísseis americanos. No sábado, 17 de novembro, as bombas americanas mataram duas famílias inteiras – uma com 16 membros e a outra com 14 membros – juntas na mesma casa

No mesmo dia, uma bomba caiu em Khanabad perto de Kunduz, matando 100 pessoas. Um refugiado, Mohammed Rasul, conta que ele próprio enterrou 11 pessoas, retiradas das ruínas de lá.

Multipique estas cenas por algumas centenas e a realidade no solo afegão de outubro e novembro é aproximada. Esta é a mesma realidade desmentida pelo Pentágono e a cúmplice media corporativa com “as afirmações não podem ser independentemente verificadas”. Enquanto que a imprensa militar divulga relatórios de altas baixas civis como sendo “infladas pelo ar”. E um outro comente sobre a “humanidade da guerra aérea’, ainda que algum outro possa choramingar sobre muita cobertura da imprensa das baixas civis por uma media incapaz de entender que algumas baixas civis devem ocorrer mas “o que é digno de notícia é que tantas bombas tenham atingido seus alvos.”

Pouca menção feita na principal imprensa americana.[Até mesmo melhor, com sete semanas de guerra, um repórter do Los Angeles Times pode escrever sem vergonha,

“. . . embora as estimativas ainda sejam grandemente suposições, alguns experts acreditam que mais de 1.000 tropas de oposição Talibã tenham provavemente morrido no combate, ao longo de ao menos dúzias de civis. ”

Dúzias? Centenas? Milhares, como devemos documentar.

Aparentemente, as únicas baixas reais notadas são aquelas ligadas ao empreendimento ocidental ou organização, ou aquelas “independentemente verificadas” por indivíduos ocidentais e/ou suas organizações. Em outras palavras, os altos níveis de baixas civis são simplesmente escritos pela propaganda “inimiga” e ignorados.

A guerra americana afegã — historicamente a quarta guerra afegã – é qualquer coisa menos uma “guerra justa” como James Carroll tem talentosamente apontado. Em primeiro ugar, a resposta desproporcionada americana de fazer com que uma outra nação inteira pague pelos crimes de uns poucos é óbvio para qualquer um que busque os “custos” reais perpetrados sobre o povo afegão. A ação deve ser baseada em alguma medida de proporcionalidade, que nesta situação não é claramente o caso. Em segundo lugar, esta guerra faz pouco para impedir o ciclo de violência dos quais os ataques ao WTC são meramente uma manifestação. O macilo poder de fogo desencadeado pelos americanos irá sem dúvida convidar a similares carnificinas indiscriminadas. As injustiças florescerão. Em terceiro lugar, ao definir estes eventos como uma guerra muito mais que como uma ação política, sem fornecer qualquer argumento para a necessidade de uma guerra, a guerra americano-afegão é desnecessária e portanto não é “justa”. Como escreve Carroll, “os criminosos, não uma nação empobrecida, devem estar recebendo o fim da punição.”

É simplesmente inaceitável que civis sejam massacrados como um efeito colateral de um ataque internacional contra um alvo especificado. Não há diferença entre os ataques ao WTC cuja meta primária era a destruição de um símbolo, e a coalisão de vingança de bombardeio de alvos militares localizados em populosas áreas urbanas. Ambos são criminosos. Matança é matança. Matar civis até mesmo se não intencionalmente é criminoso.

Para fazer a guerra americana-afegã parecer `justa’, se torna imperativo completamente desbloquear o acesso à informação sobre os reais custos humanos desta guerra. As ações do trio Bush-Rumsfeld-Rice falam eloquentemente para estes esforços: chamar as maiores redes de notícias americanas para dar a elas a ordem de marcha, comprando todas as imagens dos satélites disponíveis para o público geral, enviando Powell a Qatar para palestrar com a independente rede de notícias Al Jazeera, e por último, quando tudo tenha fracassado, alvejar o escritório em Kabul da Al Jazeera e atirar um míssel diretamente ali. Em meados de outubro, Duncan Campbell relatou como o Pentágono estava gastando milhões de dólares para evitar que a media ocidental comprasse imagens altamente acuradas civis por satélite dos efeitos do bombardeio americano. A decisão do Pentágono foi tomada em 11 de outubro, depois dos relatos de pesadas baixas civis da noite para o dia [10/11] no bombardeio de Darunta perto de Jalalabad. O Pentágono comprou os direitos excluivos de todas as imagens do satélite Ikonos da Space Imaging Inc. baseada em Denver. Por último, como tem sido ressaltado, a maior media americana corporativa tem dedicado apenas esparsos momentos ao tópico das baixas civis, obedecendo as diretivas de Bush-Pentágono.

Evitar que as imagens do sofrimento humano causado pelo bombardeio americano alcancem as audiências, cria precisamente o que buscam Bush e o Pentágono: “uma guerra sem testemunhas”. O poder das imagens na idade da informação global é agora claramente reconhecido. Segundo Gilbert Holleules do Centro de Direitos Humanos Francois-Xavier Bagnoud, as imagens tinham começado a substituir a realidade. É só quando vemos as imagens se movendo que processamos os eventos como uma experiência real e somente quando vemos pessoas reais sofrendo que fazemos uma ligação com elas. Por este razão, a Al Jazeera TV news de Kabul oferece uma tal ameaça a guerra de Bush.

“Ainda que uns poucos parem para fazer a pergunta do fim versus os meios. Este entorpecimento da consciência é um outro preço oculto que pagamos pela guerra. No Afganistão, como na Sérvia e no Golfo Pérsico, tudo isto parece tão sem esforço, tão indolor e tão correto. Porque se preocupar com questões morais? Desde que o preço em vidas humanas americanas seja tão pequeno, porque perturbar as nossas consciências? Cada guerra torna mais fácil começar uma outra guerra sem perguntas respondidas e sem corpos contados.

Mas a questão de fins e meios não desaparecerá tão facimente. Devemos fazer um tapete de bombas de cada nação onde os direitos humanos são violados? Se a resposta for sim, estaremos bombardeando — e fazendo inimigos — constantemente, ao redor do mundo. É uma tentativa de pensar que cada futura guerra será mais fácil do que esta. Mais cedo ou mais tarde, estaremos correndo com um inimigo seriamente capaz, como no Vietnã.

Os EUA ignoraram durante anos as horrendas violações do Talibã. Nosso governo aceitou e até mesmo ajudou o regime deles, a despeito das súplicas dos grupos de direitos femininos. Aparentemente faremos guerra contra regimes brutais apenas quando algo mais esteja em jogo.

http://www.ratical.org/ratville/CAH/civiDeaths.html

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Published in: on abril 5, 2008 at 4:33 pm  Deixe um comentário  
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