Mais sobre urânio reduzido

Uma Camâra de Horrores perto do Jardim do Eden

O efeito de usar urânio reduzido no Iraque – estaremos utilizando isto também no Afganistão?

de Andy Kershaw, The Independent, 1o. de Dezembro de 2001

Pensava ter um estômago forte – habituado as campos minados e os feios hospital da linha de frente de Angola, pelo trabalho manual dos esquadrões da morte no Haiti e pela matança por atacado em Ruanda. Mas quase perdi meu café da manhã na semana passada na maternidade de Basrah e no Hospital Infantil no sul do Iraque.

Dr Amer, diretor do hospital, tinha me convidado para uma sala na qual me apresentou fotografias coloridas do que, na fria linguagem médica, é chamado de “anomalias congênitas”, mas que você e eu melhor entenderíamos como horríveis deformidades do recém nascido. As imagens destes bebês eram tão grotescas de virar a cabeça – e graças a Deus – eles não tinham mostrado as coisas reais, guardadas em formaldeido. A este ponto eu tive que me segurar em uma cadeira para me sustentar em minhas pernas.

Não lhe pouparei dos detalhes. Você deve saber porque – segundo os iraquianos e a OMS, a qual logo publicará seus achados no avassalador número de defeitos de nascimento no sul do Iraque – nós somos responsáveis por estas obcenidades.

Durante a Guerra do Golfo, a Inglaterra e os EUA encurralaram a cidade e seus arredores com 96.000 “conchas” de urânio reduzido. As miseráveis criaturas nas fotografias – porque elas eram escassamente humanas – são o resultado, disse o Dr Amer.

Ele me guiou por fotografias passadas de crianças nascidas sem os olhos, sem cérebros. Uma outra havia chegado ao mundo com apenas metade da cabeça e sem nada acima dos olhos. Então havia uma cabeça com pernas, bebês sem genitália, uma pequena recém nascida com o cérebro dela fora do crânio e seja como for, seus olhos estavam abaixo do nariz.

No momento em que agarrei a cadeira — uma fotografia que posso somente inadequadamente descrever como um par de nádegas com uma face e dois braços anfíbios. Misericordiosamente, nenhum destes bebês viveu muito tempo.

O urânio reduzido tem um período de incubação de cinco anos em humanos. Nos quatro anos a partir de 1991 [o fim da Primeira Guerra do Golfo] até 1994, o Hospital Maternidade de Basrah viu 11 anomalias congenitas. No último ano, elas foram em um total de 221.

Então há um alarmente aumento nos casos de leucemia entre os bebês de Basrah, felizes o bastante para terem nascido com o completo complemento de pernas e características no lugar certo. O hospital tratou de 15 crianças com leucemia em 1993. Em 2000 foram 60. Ao fim deste ano esta estatística ainda subiu. E assim vai acontecendo. Para sempre.

(O urânio reduzido tem uma vida média de 4.1 bilhões de anos. A desintegração total ocorre depois de 25 bilhões de anos, a idade da Terra.)

Em um outro país, no qual as drogas vitais estão disponíveis, 95% destes casos de leucemia infantil serão tratados com sucesso. Em Basrah, somente 20 %. Mais dolorosamente, muitas crianças no caminho da recuperação recaem quando o suprimento minguado e esporádico das drogas falta. E então elas morrem.

Mas na própria admissão da ONU, 5.000 crianças iraquianas morrem a cada mês por causa da falta de remédios criadas por sanções impostas pela… ONU.

Tony Blair, em inúmeras ocasiões, tem enganado ao Parlamento e ao país (talvez involuntariamente) ao dizer que Saddam Hussein está livre para comprar todos os remédios que o Iraque necessita sob o programa “petróleo por comida”. Isto não é verdade. O Petróleo por comida é de apenas 60 centavos por iraquiano por dia para tudo – comida, educação, saúde e reconstrução da infraestrutura – tudo tem que sair daí. Isto simplesmente não é suficiente.

E tem Mr Blair ouvido o Comitê 661 do Conselho de Segurança da ONU? Se ele tem, então fica calado sobre isto. O comitê era desconhecido para mim até que visitei os tristes hospitais de Basrah.

Este comitê, que se encontra em segredo em New York e não publica minutas, supervisiona as sanções sobre o Iraque. As necessidades do país têm que ser submetidas ao comitê 661 e, depois de uma demora burocrática, é feito um julgamento sobre o que o Iraque pode e não pode comprar. Obtive uma cópia das recentes regras 661 e algumas decisões parecem desenhadas, se não irritantes. “Dual uso” é a razão mais comum para recusar uma compra, significando que o item requisitado pode ser colocado em uso militar.

Como o comitê 661 espera que Saddam Hussein faça guerra “com estrato em pó de carne e sopa”? Como o comitê 661 espera que ele se vire contra os curdos jogando neles “extrato de malte”? Ou como enviar sua guarda presidencial de volta ao Kuwait armada até os dentes com lápis? Lápis, como você vê, contém grafite e portanto pode ser colocado em uso militar.(embora as famintas crianças escolares de Basrah tenham muito pouco com o que escrever).

Atravessando a cidade para o Hospital de Ensino de Basrah, as obsecadas regras da 661 não são cômicas. O Dr Jawad Al-Ali, o diretor da oncologia, treinado no Reino Unido e membro do Royal College of Physicians, falou de uma epidemia de cânceres e tem havido um aumento de câncer entre os jovens, disse ele.

Na semana passada ele estava lutando para tratar 20 pacientes de câncer com uma falta de drogas de quimioterapia, e apenas dois dias de suprimento de morfina. Ele disse: “estamos inválidos pelo Comitê 661”. O doutor solicitou, mas não foi atendido, maquinário salvador de vidas – equipamentos de raios X profundos, separadores de componentes sanguíneos, até mesmo agulhas para biópsias. Tudo isto, disse o Comitê 661, poderia ter uso militar.

Fale isto a Mofidah Sabah, a mãe de Yahia com quatro anos de idade. O pequeno menino tem leucemia em recaída e um neuroblastoma, um câncer atrás do olho que tem esbugalhado e torcido seu globo ocular esquerdo. Ms Sabah viaja milhas a cada dia para se sentar e confortar o filho dela em sua pobre cama. Se Yahia vivesse em Birmingham, suas chances de sobrevivência não estariam tanto em dúvida. Mas não em Basrah. “Tenho medo que ele não viva muito,” Dr Amer sussurou.

Ms Sabah disse: “Entregarei tudo a Deus, mas quero que Deus se vinge naqueles que nos atacaram.” A doença de Yahia não é seu primeiro contacto com a tragédia. Ela perdeu 12 membros da família dela durante um bombardeio aliado em 1991. O marido dela, um soldado, combateu na Guerra do Golfo. Ele ainda está no exército iraquiano e tem sido deslocado para Qurna, 50 milhas ao norte de Basra e entre os contaminados antigos campos de batalha. Qurna, segundo a história, era o local do Jardim do Éden

© 2001 The Independent

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Published in: on abril 5, 2008 at 5:17 pm  Deixe um comentário  
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