Irã e a Política dos EUA no Iraque

Que tal se o Irã tivesse invadido o México?

Noam Chomsky
TomDispatch, 5 de abril de 2007

Não surpreendentemente, o anúncio de George W. Bush de que uma “agitação” no Iraque aconteceu a despeito da firme oposição a tais movimentos dos americanos e até mesmo a oposição mais forte [embora irrelevante] dos iraquianos. Isto foi acompanhado pelos ominosos vazamentos oficiais e declarações – de Washington e Bagdá – sobre como a intervenção iraniana no Iraque estava destinada a interromper a nossa missão de conquistar a vitória, um objetivo que, por definição, é nobre. O que então se seguiu foi um debate solene sobre se os números seriais nos avançados bombardeios ao longo da estrada (IEDs) podiam realmente ser rastreados de volta até o Irã; e se assim fosse, até a Guarda Revolucionária daquele país ou até mesmo autoridades até mesmo mais altas.

Este “debate” é uma ilustração típica de um princípio primário de propaganda sofisticada . Nas sociedades cruas e brutais, a Linha do Partido é publicamente proclamada e deve ser obedecida – ao menos. O que você realmente acredite ser o seu próprio negócio é de muito menos preocupação. Nas sociedades onde o Estado perdeu a capacidade de controlar pela força, a Linha do Partido é simplesmente pressuposta; então, o debate vigoroso é encorajado dentro dos limites impostos pela ortodoxia doutrinaria não declarada. A grosseria dos dois sistemas leva, naturalmente o bastante, a descrença; a variante sofisticada dá uma impressão de abertura e liberdade, e assim é muito mais eficaz para servir e instilar a Linha do Partido. Isto se torna além da questão, além de si próprio, como o ar que respiramos.

O debate sobre a interferência iraniana continua sem examinar a ridícula assunção que os EUA possuem o mundo. Nós não podiamos, por exemplo, engajar em debates similares na década de 1980, se os EUA estavam interferindo no Afganistão ocupado pelos soviéticos, e duvido que o Pravda, provavelmente reconhecendo o absurdo da situação, mergulhasse no ultraje sobre este fato [que os oficiais americanos e nossa media,em qualquer caso, não fazem esforço em esconder). Talvez a oficial imprensa nazista também apresentasse debates solenes sobre se os aliados estavam interessados na soberania da França de Vichy, embora se assim esivessem, as pessoas sãs então teriam caido no ridículo.

Neste caso, contudo, até mesmo ridículo – notavelmente ausente – não seria o suficiente porque as acusações contra o Irã são parte das batidas de tambor de pronunciamentos que significam mobilizar apoio para a escalada no Iraque e para um ataque ao Irã, a “fonte do problema”. O mundo está aterrorizado com a possibilidade. Até mesmo nos vizinhos Estados sunitas, não amigos do Irã, as maiorias, quando perguntadas, favorecem uma respsta armada nuclear iraniana sobre qualquer ação militar contra o país. Da limitada informação que temos, parece que partes significativas dos militares americanos e comunidades de inteligência se opõem ao ataque, juntamente com o mundo inteiro, até mesmo mais do que quando Bush e Tony Blair invadiram o Iraque, desafiando uma enorme oposição popular mundial.

“O Efeito Irã

Os resultados de um ataque ao Irã podem ser horrendos. Afinal, segundo um estudo recente do “efeito Iraque” pelos especialistas em terrorismo Peter Bergen e Paul Cruickshank, usando dados do governo e da corporação Rand, a invasão do Iraque já levou a um aumento de sete vezes no terror. O “efeito Irã” provavemente seria muito mais severo e de longa duração. O historiador militar britânico Corelli Barnett fala para muitos quando adverte que “um ataque ao Irã efetivamente lançaria a Terceira Guerra Mundial”.

Quais são os planos da “camarilha” crescentemente desesperada que estreitamente sustenta o poder político nos EUA? Não sabemos. Tal planejamento de Estado é, com certeza, mantido secreto no interesse da “segurança”. A revisão de registro desclassificado revela que há mérito considerável nesta afirmação – embora somente se entendermos que “segurança” signifique a segurança da administração Bush contra seus inimigos domésticos: a população sob cujo nome eles age.

Até mesmo se a “camarilha” da Casa Branca não esteja planejando a guerra, empregos navais, apoiando os movimentos seccionistas e atos de terror dentro do Irã, e outras provocações podem facilmente levar a uma guerra acidental. As Resoluções do Congresso não oferecerão muita barreira. Elas invariavelmente permitem exceções para “segurança nacional”, abrindo buracos amplos o bastante para vários grupos de batalha nos porta aviões logo estarem no Golfo Pérsico para seguirem dali – tão longo quanto uma liderança inescrupulosa divulguem proclamações de ruína (como fez Condoleezza Rice com aquelas “nuvens de cogumelos” sobre cidades americanas em 2002). E estão preparando os tipos de incidente que “justifiquem” tal ataque como uma prática familiar. Até mesmo os piores monstros sentem a necessidade de tal justificação e adotam o conselho: A defesa de Hitler da Alemanha inocente do “terror selvagem” dos poloneses em 1939, depois que eles tinham rejeitado a sabedoria dele e suas generosas propostas de paz, é apenas um exemplo.

A barreira mais eficaz para que a Casa Branca se decida a lançar a guerra é o tipo de oposição organizada popular que amedrontou a liderança político-militar o bastante em 1968, a ponto deles ficaram relutantes de enviarem mais tropas ao Vietnã – temendo, aprendemos dos papéis do Pentágono, que eles podem precisar delas para controle da desordem civil.

Indubitavelmente o Irã merece dura condenação, inclusive por suas ações recentes que têm inflamado a crise. No entanto é útil perguntar como reagiriamos se o Irã tivesse invadido e ocupado o Canadá e o México e estivesse prendendo os representantes do governo americano lá nos solos onde eles estivessem resistindo a ocupação iraniana [com certeza chamada de “libertação”]. Imagine tão bem que o Irã estivesse empregando maciças forças navais no Caribe e divulgando incríveis ameaças para lançar uma onda de ataques contra uma ampla variedade de locais – nucleares e outros – nos EUA, se o governo dos EUA não termine imediatamente todos seus programas nucleares [e naturalmente desmantele todo seu arsenal de armas nucleares]. Suponha que tudo isto tenha acontecido depois que o Irã tenha derrubado o governo dos EUA e instalado uma viciosa tirania [como os EUA fizeram no Irã em 1953], e então mais tarde apoiasse uma invasão russa dos EUA que matasse milhões de pessoas (exatamente como os EUA apoiaram a invasão de Saddam Hussein ao Irã em 1980, matando centenas de milhares de iranianos, uma imagem comparável a milhões de americanos]. Nós assistiriamos silenciosamente?

É fácil entender uma observação de um dos principais historiados israelenses, Martin van Creveld. Depois que os EUA invadiram o Iraque, sabendo que ele estava indefeso, ele ressaltou, “Se os iranianos não tentassem construir armas nucleares, eles estariam loucos.”

Certamente nenhuma pessoa sã quer que o Irã [ou qualquer outra nação] desenvolva armas nucleares. Uma resolução razoável da crise presente permitiria que o Irã desenvolvesse enegia nuclear, de acordo com seus direitos sob o Tratado de Não Proliferação de Armas, mas não armas nucleares. Este é um porvir possível? Poderia ser, dada uma condição: que os EUA e o Irã fossem funcionais sociedades democráticas na qual a opinião pública tivesse um impacto significativo na política pública.

Como isto contece, esta solução teria apoio completo entre iranianos e americanos, que geralmente estão de acordo sobre assuntos nucleares. O consenso americano-iraniano inclui a completa eliminação de armas nucleares em todos os lugares [82% dos americanos]; se isto não pode ser alcançado pela oposição da elite, então ao menos uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio que incluiria os países islâmicos e Israel” [71% dos americanos]. 75% dos americanos preferem construir melhores relações com o Irã em lugar de ameaças de força. Em breve, se a opinião pública tivesse que ter uma influência significativa na política de Estado dos EUA e Irã, a resolução da crise pode estar a mão, junto com soluções de muito maior alcance para o consenso global nuclear.

Promovendo a Democracia — em Casa

Estes fatos sugerem um meio possível de evitar que a crise atual exploda, talvez até mesmo em alguma versão da Terceira Guerra Mundial. A ameaça surpreendente pode ser evitada ao buscar uma proposta familiar: a promoção da democracia – desta vez em casa, onde ele está urgentemente necessária. A promoção da democracia em casa certamente é possível e embora não possamos levar diretamente este projeto ao Irã, podemos agir para melhorar as perspectivas dos corajosos reformadores e oposicionistas buscando alcançar justamente isto. Entre tais figuras que são, devem ser, bem conhecidas, estariam Saeed Hajjarian, o laureado do prêmio Nobel Shirin Ebadi, e Akbar Ganji, bem como aqueles que, como usual, permanecem no anonimato embora em seu trabalho de ativismo sobre o qual ouvimos tão pouco; aqueles que publicam o Boletim dos Trabalhadores Iranianos podem bem ser um caso a ressaltar.

Poderíamos melhorar as perspectivas para promoção da democracia no Irã ao agudamente reverter a política de Estado aqui de forma que ela reflita a opinião popular. Isto compreenderia parar de fazer ameaças regulares que são um presente para os linha dura iranianos. Estes são amargamente condenados pelos iranianos que verdadeiramente estão preocupados com a promoção da democracia (diferente daqueles “apoiadores” que liberam slogan democráticos vazios no Ocidente como grandes “idealistas”, a despeito de seu registrado ódio visceral à democracia].

A promoção da democracia nos EUA podem ter consequências muito mais amplas. No Iraque, por exemplo, uma firme retirada programada seria iniciada de uma vez, ou muito brevemente, de acordo com a vontade da esmagadora maioria dos iraquianos e uma significativa maioria de americanos. As prioridades do orçamento federal seriam virtualmente revertidas. Onde o gasto está aumentando, como nas contas suplementares militares para realizar as guerras no Iraque e no Afganistão, deveriam declinar agudamente. Onde o gasto está parado ou declinando [saúde, educação, treinamento para trabalho, promoção de conservação de energia e fontes de enegia renováveis, benefícios aos veteranos, custear operações de paz da ONU e assim por diante], aumentariam agudamente. Os cortes de impostos de Bush para pessoas com rendimentos acima de US$200.000 por ano seriam imediatamente recindidos.

Os EUA teriam adotado um sistema de saúde de muito tempo atrás, rejeitando o sistema privatizado que consome duas vezes mais fundos per capita do que aqueles encontrados em sociedades similares e algumas das piores consequências no mundo industrial. Os EUA teriam ratificado o Protocolo de Kioto para reduzir as emissões de dióxido de carbono e tomar medidas até mesmo mais fortes para proteger o ambiente. Isto permitiria a ONU tomar a liderança nas crises internacionais, inclusive o Iraque. Depois de tudo, segundo pesquisas de opinião, logo depois da invasão em 2003, a grande maioria dos americanos tem querido que a ONU assuma a transformação política, reconstrução econômica e ordem civil naquela terra.

Se a opinião pública importasse, os EUA aceitariam as restrições da Carta da ONU sobre o uso de força, ao contrário do consenso bipartidário que apenas este país tem o direito de usar a violência em resposta a ameaças potenciais, reais ou imaginárias, inclusive as ameaças ao nosso acesso aos mercados e recursos. Os EUA [junto com outros] abandonariam o veto no Conselho de Segurança da ONU e aceitariam a opinião da maioria até mesmo quando em oposição a deles próprios. A ONU teria permissão para regulamentar a venda de armas; enquanto os EUA cortariam tais vendas e exigiriam que outros países também o fizessem, o que seria a maior contribuição para reduzir a violência em grande escala no mundo. O Terror seria tratado através de medidas duplomáticas e econômicas, não pela força, de acordo com o julgamento da maioria dos especialistas sobre este tópico mas novamente em oposição completa a política dos dias atuais.

Sobretudo, se a opinião pública influenciasse a política, os EUA teriam relações diplomáticas com Cuba, beneficiando os povos de ambos países [e, incedentalmente, agronegócios dos EUA, corporações de energia e outros], ao invés de permanecer virtualmente só no mundo impondo o embargo (unido somente a Israel, a República de Palau, e as Ilhas Marshall). Washington se uniria ao amplo consenso internacional sobre o assentamento de dois Estados no conflito de Israel e Paestina, o qual [com Israel] tem bloqueado por 30 anos – com espalhadas e temporárias exceções – e que ainda bloqueia na palavra, e mais importantemente nas ações, a despeito das declarações fraudulentas de seu compromisso com a diplomacia. Os EUA devem equalizar a ajuda a Israel e Palestina, cortando a ajuda a qualquer uma das partes que rejeitar o consenso internacional.

A evidência sobre estes assuntos é revista no meu livro ” Failed States” bem como no livro “The Foreign Policy Disconnect” de Benjamin Page (com Marshall Bouton), que também fornece extensa evidência que os assuntos de opinião pública sobre a política exterior [e provavelmente sobre a política interna] tendem a ser coerentes e consistentes durante longos períodos. Estudos da opinião públicas tem que ser visto com cautela, mas eles certamente são altamente sugestivos.

A promoção da democracia em casa, embora sem ser uma panacéia, seria um passo útil em ajudar nosso próprio país a se tornar um “acionista responsável” na ordem internacional [para adotar o termo usado pelos adversários], ao invés de ser um objeto de terror e antipatia por grande parte do mundo. Além de ser por si mesma um valor, a democracia funcional em casa tem uma promessa real de lidar construtivamente com muitos problemas atuais, internacionais e domésticos, incluindo aqueles que literalmente ameaçam a sobrevivência de nossa espécie.
http://www.chomsky.info/

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Published in: on abril 9, 2008 at 8:08 pm  Deixe um comentário  
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