Operação Condor

Rendição no Cone Sul: Documentos da Operação Condor revelados dos arquivos do terror paraguaios

O Arquivo Paraguaio continua a produzir evidência da repressão coordenada entre os regimes militares do Cone Sul.Os documentos estão sendo usados das côrtes do Paraguai, Chile e Argentina, pela Europa e EUA.

Livro de Orientações do Arquivo de Segurança Nacional No. 239 – Parte II
Editado por Carlos Osorio e Mariana Enamoneta
Postado em 21 de dezembro de 2007

21 de dezembro de 2007, Washington D.C., “No 50.o aniversário da descoberta do Arquivo do Terror no Paraguai, o Arquivo de Segurança Nacional postou documentos em espanhol que revelam novos detalhes de como os regimes militares do Cone Sul colaboraram com a caçada, interrogatório e desaparecimento de centenas de latino americanos durante as décadas de 1970 e 1980.

A colaboração, que se tornou oficialmente conhecida como “Operação Condor”, “inspirou-se nos raptos em fronteiras, centros secretos de detenção, tortura e o desaparecimento dos prisioneiros”. que alguns advogados de Direitos Humanos estão comparando aquelas usadas hoje pelo governo Bush em sua campanha de contraterrorismo.

A seleção dos documentos postados hoje incluiram registros não censurados relacionados ao caso central do chileno Jorge Isaac Fuentes Alarcón e do argentino Argentine Amílcar Santucho, que foram detidos no Paraguai em maio de 1975 e cujo interrogatório sob tortura levou a decisão do chefe de polícia secreta chilena, Manuel Contreras, a formalizar a coordenação contra a esquerda entre ps Estados militares do Cone Sul. Um documento postado hoje, pela primeira vez, é a lista de perguntas criadas pelo agente de inteligência argentina José Osvaldo Ribeiro [Alias Rawson] para ser usada no interrogatório de Santucho e Fuentes Alarcón no Paraguai. Os agentes chilenos subsequentemente enviaram Fuentes Alarcón para um campo de detenção secreto em Santiago de onde ele “desapareceu”.

O Arquivo também postou uma nota de “agradecimento” à polícia secreta paraguaia do Coronel Contreras pelo tratamento de Fuentes Alarcón, bem como um convite de Contreras e documentos suplementares, para o primeiro encontro Condor em novembro de 1975. “Os documentos encontrados vários anos atrás no Arquivo Paraguaio tem sido amplamente usados em livros sobre a Operação Condor. As postagens incluem comunicações entre “Condor 1” [Chile] e Condor 4 [Paraguai], registros de encontros entre D-2 do serviço de inteligência paraguaio, e oficiais do SIDE (o Serviço de Inteligência do Estado) na Argentina, e SID (o Serviço de Defesa de Inteligência) no Uruguai, e documentos relacionados aos esforços coordenados de capturar montoneros em Assunção em 1980, entre outras facetas da coordenação Condor durante a era das ditaduras militares no Cone Sul.

“Estes documentos fornecem a chave mestra histórica para as câmaras de horrores dos regimes militares do Cone Sul”, disse Carlos Osorio, que dirige o Projeto de Documentação do Cone Sul dos Arquivo de Segurança Nacional. “As atrocidades que eles registram do passado permanecem relevantes para o debate sobre a conduta das operações contra terrorismo de hoje e no futuro.”

Desde sua descoberta em dezembro de 1992, o Arquivo do Terror tem se tornado a fonte principal de evidência para os procedimentos de direitos humanos nas côrtes através do mundo, como pesquisadores paraguaios tais como Alfredo Boccia Paz, Rosa Palau e Miriam Gonzalez tem trabalhado incansavelmente para localizar e fornecer documentos a advogados e juízes em países tais como a Espanha, Itália, França, Chile, Argentina e Uruguai. O livro deles, ‘Es mi informe: los archivos secretos de la policía de Stroessner”, primeiro identificou alguns dos documentos mais significativos desta coleção única.

Desde 1998, O Arquivo de Segurança Nacional tem trabalhado com o Centro Paraguaio de Documentação e o Arquivo para Defesa de Direitos Humanos (CDyA) que inspecionam os Arquivos do Terror. O Arquivo de Segurança Nacional tem colaborado com o centro para criar uma coleção completamente digitalizada de mais de 300.000 registros: o Arquivo Digital do Terror (ATD). Esta base de dados única, agora sendo postada em seções na web, é destinada a facilitar a pesquisa em andamento sobre os crimes contra os direitos humanos, e a descoberta de nova evidência na história do terrorismo patrocinado pelo Estado no Cone Sul. Em maio de 1975, a polícia de fronteira paraguaia deteve Jorge Isaac Fuentes Alarcón, um mensageiro chileno para a Junta Coordenada Revolucionária, um grupo de abrigo das organizações militantes no Cone Sul, junto com um argentino chamado Amílcar Santucho. Este relato de cinco páginas do Departamento de Investigações da Polícia de Assunção está entre os primeiros dos muitos registros internos relatando a detenção deles. “Grupo para Investigar, leia os detalhes sobre os detidos número 15 e 16: “Amílcar Latino Santucho Juárez, Argentino”, detido em 16-V-75, um esquerdista argentino, um jornal foi encontrado entre seus pertences. A pedido das autoridades, ele usou o nome falso de Juan Manuel Montenegro.” e “Jorge Isaac Fuentes Alarcón ou Ariel Nodarse Ledesma, Chileno, detido em 17-V-75, porque era companheiro de viagem de Amílcar Latino Santucho Juárez.” Santucho, irmão do líder da guerrilha argentina do Exército Revolucionário do Povo (ERP), permaneceria na prisão do Paraguai por muitos anos, e Fuentes Alarcón, um líder de alto escalão do Movimento Chileno da Esquerda Revolucionária (MIR), foi submetido a tortura durante o interrogatório e então entregue aos agentes da polícia secreta para ser transportado de volta para o Chile, onde ele “desapareceu”. Seus casos se tornaram um estudo sobre a colaboração entres os serviços de polícia secreta do Cone Sul, e catalístico para a formalização desta coordenação em uma aliança formal contra a “subversão” esquerdista chamada Operação Condor.

Alertados pelos paraguaios, as agências de inteligência do Cone Sul começaram a participar do interrogatório de Santucho e Fuentes Alarcón. Nests dois documentos, o agente da inteligência argentina José Osvaldo Ribeiro [aka Rawson] lista uma série de perguntas para interrogar Santucho (chamado de “Alicia” nos documentos) e Fuentes Alarcón (chamado de “Nene”). O interrogatório visava obter informação sobre a força e as atividades da Junta Coordenada Revolucionária (JCR), uma coalisão de guerrilhas do MIR chileno, do ERP argentino, dos MLM-tupamaros uruguaios e do ELN boliviano. Os agentes de inteligência “solicitaram” que Santucho “Esclareça as razões desta viagem, mas sem mentiras, já que ele tem mentido o tempo todo e tem prolongado a investigação; Qual a posição dele dentro do JCR?”.

Em relação a Nene, Rawson exige: “Desde quando ele conhece Patricio Antonio Biedma? Qual era o papel de Biedma dentro do JCR?”. Um chileno, Biedma, “desapareceu” depois de ser secretamente mantido no centro de detenção Automotores Orletti em Buenos Aires em 1976. Durante a pressa dos interrogatórios de Fuentes Alarcon e Santucho no Paraguai, um agente de inteligência de ato escalão recebeu “um pacote de presente” de um oficial argentino de escalão muito alto, o Brigadeiro General Otto Carlos Paladino. General Paladino, segundo este documento, também envia “fotos de Illich Ramírez Sanchez (Carlos).”É conhecido que Santucho e Fuentes Alarcón foram interrogados sobre as ligações deles com terroristas internacionais, em particular Carlos.” Dentro de um ano, Paladino é promovido para chefe da SIDE, o Serviço de Inteligência do Estado da Argentina, e dirige o infame centro clandestino de tortura em Buenos Aires, Automotores Orletti. Dois dias depois que Fuentes Alarcón foi entregue ao serviço de inteligência chileno e secretamente levado ao centro de detenção clandestino de Villa Grimaldi em Santiago, Chile, o chefe do DINA, Manuel Contreras Sepúlveda enviou uma nota ao Chefe de Investigações no Paraguai, Pastor Coronel, para “agradecer sinceramente” a ele “pela ajuda para facilitar as atividades relacionadas a missão que minha equipe tem que desempenhar no Paraguai”. Contreras termina a
nota dele com a sugestão que “esta cooperação mútua continuará a crescer na direção das metas comuns de ambos nossos serviços.”

A cooperação entre os serviços de inteligência paraguaios, argentinos e chilenos em meados de 1975 sobre Fuentes Alarcón e Santucho criou a fundação para a Operação Condor que seria lançada em Santiago, no Chile, em novembro daquele ano. Quando isto foi descoberto no Arquivo do Terror, este convite ao General paraguaio Francisco Britez de Manuel Contreras Sepúlveda forneceu a primeira evidência documental da conferência de Santiago, onde foi criada a Operação Condor. A carta afirma que a polícia secreta chilena “tem a honra de lhe convidar para um Encontro de Trabalho de Inteligência Nacional que aontecera em Santiago, Chile, entre 25 de novembro e 1 de dezembro de 1975. O encontro é extritamente secreto e o assunto objeto está anexado”.

Junto com o convite de Contreras veio uma agenda de onze páginas para o primeiro encontro de trabalho do que foi conhecido como Operação Condor. Assuntos a serem discutidos por convidados militares da Argentina, Chile, Bolivia, Brasil, Paraguai e Uruguai, inclusive estabelecendo “uma coordenação eficiente que permitiria uma adequada troca de informação e experiência”. Segundo a análise no documento, “a subversão tem se desenvolvido centralizada continental, com comandos regionais e sub regionais para coordenar as atividades”. Por esta razão, os serviços secretos do Cone Sul precisavam de seu próprio sistema de coordenação centralizada.

O “Sistema de Segurança e Coordenação” proposto pelos chilenos incluiria uma base de dados sobre dissidentes e um escritório central de informação com capacidades de transmissão por telex; as forças das polícias secretas incluiram regulares “encontros de trabalho”. E, como durante o interrogatório de Fuentes Alarcón e Santucho no Paraguai, “encontros bilateriais e extraordinários deviam ser encorajados quando a situação assim exigir”. Esta transmissão, uma das várias encontradas no Arquivo do Terror, forneceu evidência de como as nações do Condor se comunicavam. O Ministro do Interior paraguaio recebeu este cabograma no qual Condor 1 [DINA chileno] informava Condor 4 [inteligência paraguaia] sobre a captura de um estudante paraguaio em Corrientes, Argentina. Quando o sistema de comunicações da Operação Condor já estava funcionando, seus membros trocavam cabogramas usando rótulos do Condor. Como ressalta o jornalista John Dinges em seu livro, “The Condor Years”, os rótulos designavam qual era o serviço de inteligência: Condor 1 (Chile), Condor 2 (Argentina), Condor 3 (Uruguai), Condor 4(Paraguai), e Condor 5 (Bolívia).

Já que o Chile fornecia o centro de operação para a Operação Condor, o DINA recebia informação de um país e enviava a outro. Este documento, uma solicitação de inteligência de outras nações do Condor, fornece evidência posterior de como as nações do Condor colaboravam. Neste caso, o chefe do Segundo Departamento de Inteligência dos Chefes de Staff do Exército Paraguaio, Benito Guanes Serrano, divulgou uma solicitação de busca enderaçada entre outros a Condor 1 e SIE (Serviço de Inteligência do Exército Argentino) solicitando informação sobre o movimento de guerrilha no Paraguai que tinha sido detectado pela inteligência argentina. Depois que o Departamento de Investigação em Assunção capturou uma argentina chamada Dora Marta Landi em março de 1977, este registro de polícia foi criado. Ela foi detida, “e então desapareceu” junto com seu marido Alejandro José Logoluso Di Martino, e José Nell, ambos da Argentina, juntamente com dois cidadãos paraguaios, Nelson Rodolfo Santana Scotto e Gustavo Edison Inzaurralde. Todos os cinco tinham fugido para o Paraguai para escapar da dura repressão na Argentina.

Não foi até a descoberta do Arquivo do Terror em 1992 que este e outros documentos de detenção revelaram o destino da coordenação da Operação Condor das forças de segurança do Paraguai, Argentina e Uruguai. Os registros de Dora Marta afirmam: “Por ordens superiores, em 16 de maio de 1977, eles viajaram para Buenos Aires, na Argentina… a disposição das autoridades argentinas”.

O Diretor de Investigações paraguaio organizou dois dias de interrogatório conjunto para os cinco detidos com “a presença de pessoal do Serviço de Inteligência do Uruguai e no segundo dia de atividades com o pessoal do SIDE [Serviço de Inteligência do Estado Argentino]”. Como notado pelos pesquisadores paraguaios Boccia Paz, Palau e Gonzalez, ao invés de estabelecer ligações com a guerrilha de todos os prisioneiros, o sumário de inteligência relatou que Dora Marta Landi Gil “não tinha militância” e que ela “não teria ligações às atividades anteriores de seu marido”. Este relato de atividades foi enviado pel chefe do Departamento de Investigações, Pastor Coronel, ao seu superior, Diretor de Assuntos Políticos, Alberto Cantero, e revela como agentes de diferentes nações do Cone Sul participaram como uma equipe.

Este é um sumário das atividades realizadas pela equipe de trabalho nos dias 5, 6 e 7 deste mês, composta pelo Coronel Benito Guanes [Chefe do Departento II de Inteligência Militar] e o Tenente Coronel Galo Escobar do Departamento II do Staff dos Chefes de Exército [Paraguai]; Primeiro Tenente Angel Spada e Sargento Juan Carlos Camicha, da Área militar 234 [Argentina]; Jose Montenegro e Alejandro Stada do SIDE, ambos da Argentina e Major Carlos Calcagno do Serviço de Inteligência do Exército no Uruguai.

Esta nota de apertar o coração, escrita por Dora Marta Landi uns poucos dias antes de desaparecer, foi encontrada pelos pesquisadores paraguaios entre os arquivos relativos á detenção dela. “Senhor Diretor,” ela escreve presumidamente a Alberto Cantero. “Quando lhe falei esqueci de mencionar o seguinte. Penso que seria útil para esclarecer esta matéria de documentação, você falar com os pais de meu marido. Para isto, será suficiente nos permitir um telefonema ou o envio de uma carta pedindo a eles para virem aqui. Se eles ainda não vieram penso que seja por não saberem que estamos aqui. Eu lhe agradeço imensamente por ter me ouvido e me desculpo por minha insistência”. Os próprios pais dela e aqueles de seu marido, procuraram durante anos por eles…

Este relato registra a entrega secreta dos cinco prisioneiros do Paraguai para a Argentina. O Chefe de Investigações Pastor Coronel escreve ao Diretor Cantero que: “Nesta data, às 16:34 horas, um avião bimotor da marinha argentina, de número de registro 5-7-30 0653, pilotado pelo Capitão de Corveta José Abdala, levou os seguintes detidos para Buenos Aires (Argentina): Gustavo Edison Inzaurralde (Uruguaio), Nelson Rodolfo Santana Scotto (Uruguaio), Jose Nell (Argentino), Alejandro Jose Logoluso (Argentino) e Dora Marta Landi Gil (Argentina). Estas pessoas foram entregues por este escritório na presença do Coronel Don Benito Guanes e o Comandante [Capitão de Fragata] Lázaro Sosa, ao Primeiro Tenente Jose Montenegro e Juan Manuel Berret, ambos do SIDE “. Este relato paraguaio reflete os arranjos entre as forças de segurança para caçar alvos específicos.

Depois que os militares argentinos capturaram dois insurgentes Montoneros, um membro da Escola de Mecânica da Marinha, onde os prisioneiros eram torturados, abordaram a inteligência paraguaia para permissão de trazer um dos prisioneiros a Assunção para ajudar a identificar uma outra dupla suspeita de atitivades militantes. Segundo o relato paraguaio: “Eles pediram para vir ao nosso país trazendo com eles um dos prisioneiros para identificar a dupla” e gostariam de coordenar conosco as operações para identificar, monitorar e se necessário capturar esta dupla”. Um telex de rotina entre a Argentina e o Paraguai forneceu evidência que Horacio Campiglia e sua irmã, Elcira, estavam “desaparecidos” pelas forças de segurança da Argentina. A comunicação foi enviada por uma agência de inteligência argentina não conhecida para a polícia paraguaia relatando vários argentinos suspeitos de estarem envolvidos no assassinato recente do General da Nicarágua Anastasio Somoza em Assunção. Depois de listar os detalhes sobre vários indivíduos, o cabograma oferece informação sobre o insurgente Montonero Jorge Omar Lewinger, inclusive sua última posição conhecida”: maio de 1980: Chefe do Departamento Americano “sobre Petrus (Detido). Ele [Lewinger] estava em um golpe com Alcira Campiglia (Detida).”

Horacio Campiglia (aka Petrus) desapareceu em 1980. 22 anos depois, documentos desclassificados dos EUA confirmaram que ele havia sido capturao pelo esquadrão da polícia secreta argentina no Rio de Janeiro, Brasil, e enviado ao Centro de Detenção clandestino Campo de Mayo em Buenos Aires, Argentina. Sua irmã havia desaparecido mais cedo. Embora o corpo dela tenha sido mais tarde recuperado, estes documentos tem fornecido a primeira evidência concreta que as forças de segurança foram responsáveis pela morte dela.

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Published in: on abril 30, 2008 at 3:32 pm  Deixe um comentário  
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