Pseudo Identidade e Cultos

Pseudo-Identidade e o Tratamento da Mudança de Personalidade nas Vítimas de Cativeiro e Cultos

Da Dissociação: Perspectivas Cínicas e Teóricas. Lynn, SJ ed Rhue JW, eds.
©1994 The Guilford Press.
Louis Jolyon West
Paul R. Martin

O fenômeno dissociativo não é necessariamente sintomático de doença, e provavelmente represente um início contínuo com a modulação da informação psico-biológica normal – o recebimento, o armazenamento e a liberação – pelo cérebro (West, 1967). Em anos recentes tem havido um agudo aumento de interesse no fenômeno dissociativo que acompanha as desordens psiquiátricas, especialmente a personalidade múltipla e as relatadas desordens da identidade, incluindo os estados de possessão. (Bliss, 1986; Kluft, 1991; Suryani & Jensen, 1993). Os sintomas dissociativos também são importantes em muitos outros tipos de psicopatologia e geralmente acompanham uma variação da desordem psicológica, desde as doenças esquizofrênicas até reações severas de stress. Ainda que a distorção ou a alteração da identidade de uma pessoa e o aparecimento de uma nova e diferente persona permaneça uma das manifestações mais interessantes da dissociação.

O prolongado stress ambiental, ou situações de vida profundamente diferentes das usuais, podem interromper as funções normalmente integrantes da personalidade. Os indivíduos submetidos a tais forças podem se adaptar através da dissociação, em geral dando lugar a uma persona alterada, ou pseudo-identidade. (West, 1994). Uma tal pseudo-identidade capacita o indivíduo a lidar melhor com a situação extraordinária na qual ele se encontra, a despeito de como ele tenha chegado lá,. Os pais e outras pessoas próximas ao indivíduo que tem se tornado membros de cultos totalitários, frequentemente ficam perplexos com tais mudanças,, dizendo que “A pessoa se tornou uma outra diferente”. Este artigo é baseado nas observações de tais desafios sob um ponto de vista clínico.

As condições de um cativeiro brutal, tais como aquelas vivenciadas por prisioneiros de guerra (POWs) ou vítimas civis tomadas com o reféns, nas quais o captor busca forçar uma falsa confissão ou induzir um comportamento de cumplicidade, podem gerar um tipo de desordem de stress pós traumático (PTSD) no qual as características dissociativas são proeminentes. Durante a guerra da Coréia, o relativo sucesso dos comunistas chineses em obterem falsas confissões de crimes de guerra [por exemplo, guerra biológica], auto denúncias e participação em atividades de propaganda eram em grande medida obtidos por causa do absoluto controle dos captores sobre o meio ambiente dos prisioneiros. Para obter este controle, os comunistas usaram uma variedade de estressantes, que produziam nos cativos um estado de debilidade, dependência, apreensão crônica ou terror (Farber, Harlow, & West, 1957; West, 1964).

Os prisioneiros civis também foram submetidos a uma manipulação prolongada por seus captores comunistas para produzirem convicções políticas alteradas, como é descrito na discussão de Lifton de reforma do pensamento (Lifton, 1961). Igual aos prisioneiros de guerra, estas vítimas civis foram submetidas a stress prolongado em situações as quais, ao menos por uma vez, não havia forma de escapar. Necessariamente, eles se tornaram dependentes se seus captores para suas várias necessidades físicas e psicológicas. Em resposta a estas condições, suas personalidades em muitos casos começaram a mudar. O’Neil e Demos (1977) tinha igualmente dado o primeiro passo no processo de reforma do pensamento para a criação de uma crise de identidade. Em nossa opinião, é durante uma tal crise que uma nova pseudo identidade pode começar a emergir. Uma vez formada, é provável persistir, e gradualmente se tornar mais forte e melhor definida, tão longe as caraterísticas da demanda da situação exijam isto.

Muito antes de aparecer o termo “Síndrome de Estocolmo“, os sentimentos difíceis de explicar de simpatia e até mesmo de identificação com o captor de alguém, eram relatados pelos ex prisioneiros. Um deles foi o falecido cardeal húngaro Mindszenty, que foi preso, examinado e aprisionado de 1948 até 1956 no levante de Budapeste. Nas memórias dele (1974), Mindszenty escreveu que dentro de duas semanas de sua prisão, sob constante interrogatório coercivo ele se encontrou pensando em linhas diferentes das anteriores e vendo as coisas do ponto de vista de seus captores. O julgamento dele, raciocínio e senso de ego se tornaram distorcidos. Ele escreveu: “Sem saber o que havia me acontecido, eu tinha me tornado uma pessoa diferente”.

Patricia Hearst foi violentamente raptada por membros do Exército Simbionês de Libertação em fevereiro de 1974, brutalizada, estuprada, torturada, e forçada a participar de atos ilegais começando com um roubo de banco pelo qual ela mais tarde foi condenada. O sequestro traumático e os subsequentes dois meses de tortura produziram nela um estado de regressão emocional e cumplicidade temerosa com exigências e expectativas dos captores dela. Isto foi rapidamente seguido da transformação coerciva de Patty em Tania e subsequentemente (menos bem conhecido pelo público) em Pearl, depois do trauma adicional de muitos meses (Hearst & Moscow, 1988; O Julgamento de Patty Hearst, 1976). Tania era meramente um papel coercivo na dor da morte; foi Pearl que mais tarde representou a pseudo-identidade que foi encontrada no exame psiquiátrico por um de nós (West) pouco depois da prisão de Hearst pelo FBI. Os sintomas crônicos de PTSD também eram proeminentes neste caso.

O termo “Síndrome de Estocolmo” foi criado para descrever um certo fenômeno psicológico em reféns seguindo uma detenção em 1974 em um banco na Suécia. Quatro empregados foram mantidos cativos por dois assaltantes por 5 horas e meia. Durante a experiência, alguns reféns se tornaram simpáticos aos assaltantes. De fato, uma refém repentinamente se apaixonou por um de seus captores e então publicamente recriminou o primeiro ministro sueco por seu fracasso em entender a opinião dos criminosos. Por um período limitado de tempo depois de sua libertação, a ex refém continuou a expressar afeição pelo captor dela (Ochberg, 1978).

Outros reféns também tem desolvido simpatia ou identificação para com seus captores. Por exemplo, em 1975, durante a prisão durante 13 dias em um trem holandês por atiradores das Molucas do Sul, que exigiam a liberdade para as ilhas deles no arquipélago malaio, a despeito da execução de dois reféns, alguns dos cativos sobreviventes rapidamente desenvolveram sentimentos de afeição ou simpatia por seus assassinos captores, juntamente com atitudes de desconfiança em relação às legitimas autoridades holandesas. Um psiquiatra pode melhor definir o fenômeno usando uma frase mais psicodinamicamente descritiva: “a identificação com o agressor” (usada para um propósito diferente durante a Segunda Guerra Mundial por Anna Freud). Se este processo é suficientemente profundo e prolongado, em nossa opinião, a mudança de personalidade pode ser melhor compreendida em termos da pseudo identidade, como
explicado abaixo.

A identificação com o agressor tem sido analisada em relação a uma variedade de situações psiquiatricamente importantes, variando do aprisionamento nos campos de concentração nazista, onde os prisioneiros condenados algumas vezes buscavam insígnias descartadas e outros fragmentos dos uniformes das SS com os quais adornavam seus trapos, até espancarem as crianças que cresciam para se tornarem crianças espancadas pelos pais. Contudo, alguns casos não envolvem prisioneiros ou cativos. Por exemplo, Solomon Perel, o indivíduo de um filme recente (Europa, Europa [Holland, Menegoz, & Brauner, 1911), era um menino judeu alemão que assumiu uma identidade não judaica para administrar as suas condições ameaçadoras de vida daquele tempo. Ele se transformou em Joseph (“Jupp”) sob circunstâncias extremamente estressantes.

Sabendo que os judeus seriam mortos, ele se livrou de todos os documentos que o identificavam como judeu, no caos da guerra, dizendo, “Sou um alemão patriota.” Ele até mesmo serviu no Exército alemão. Gradualmente, contudo, o papel do adolescente se tornou uma nova identidade por causa das caraterísticas de exigência da situação. Por anos depois da guerra, depois de sua imigração para Israel, Perel vivenciou momentos em que ele tinha que se certificar se era Sol ou Jupp que estava respondendo a pergunta (Williams, 1992). Como o incompreensivelmente cúmplice de Jozsef/Cardeal Mindszenty e a anormalmente passiva Patricia/Tania/Pearl/Hearst, sob stress, a identidade de Solomon Perel tinha mudado. A nova pseudo identidade inicialmente formada como um papel desempenhado em resposta a circunstâncias estressantes, foi uma diferente personalidade de tipos. Esta personalidade foi superimposta sobre a original, a qual, embora não completamente esquecida, estava envelopada dentro da concha da pseudo identidade.

Embora o exercício das forças psicossociais sejam mais sutis do que aquelas descritas acima, as pessoas podem ser deliberadamente manipuladas, influenciadas e controladas em um grau considerável, e induzidas a expressar crenças e exibir comportamentos muito diferentes daqueles de sua própria viva que então teriam sido lógica ou razoavelmente previstos. Conquanto o programa de reforma de pensamento dos comunistas chineses para converter as pessoas ao “pensamento correto” dificilmente tenha sido sutil, as técnicas de doutrinação aplicadas a novos recrutas pelos contemporâneos cultos totalitários de fato podem ser muito sutis. (West, 1989, 1993). Os indivíduos são forçados a comunicar verbal e continuamente, de um modo estritamente controlado. A maioria destes cultos confiam também nos efeitos da dinâmica estruturada de grupo, manipulação ambiental e controle, o relacionamento dos líderes dominantes com os membros dependentes, o inicial isolamento relativo dos recrutas das idéias prévias e relacionamentos, e a evolução para uma nova identidade com constantes pressões do grupo para trazer para a linha os indivíduos errantes.

Um culto totalitário é definido como se segue: “O culto de tipo totalitário: um grupo ou movimento exibindo uma grande ou excessiva devoção ou dedicação a mesma pessoa, idéia ou coisa, empregando técnicas não éticas, manipuladoras e coercivas de persuasão e controle [isto é, isolamento de antigos amigos e famílares, debilitação, uso de métodos especiais de elevar a sugestionabilidade e subserviência, poderosa pressão do grupo, manipulação da informação, promoção da dependência total ao grupo e medo de sair dele, suspensão do julgamento individual e crítico, e assim por diante, destinado a avançar as metas dos líderes do grupo, para o possível ou real detrimento dos membros, das famílias deles, ou da comunidade]”. A base para esta definição e uma discussão geral do problema do culto, é dada em todos os lugares (West, 1983).

Entre os vários cultos totalitários, pode haver algumas diferenças na medida em quanto intensas e persuasivas sejam as atividades, e o grau no qual os recrutas podem ser separados de suas anteriores redes sociais. Até mesmo embora ele possa ter sido atraído para o culto por elaboradas e mentirosas técnicas de recrutamento, o cultista neófito entra nisto “voluntariamente”. Com raras exceções, ninguém põe uma arma na cabeça deles. Ainda que a doutrinação bem sucedida de um membro do culto frequentemente inclua muitos elementos similares a doutrinação política por tais grupos como os comunistas chineses, que Schein (1961) descreveu como persuasão coerciva. Nos cultos, como na “lavagem cerebral” chinesa, “reforma do pensamento” ou “persuasão coerciva” as pessoas são frequentemente encorajadas a se auto criticarem em pequenos grupos confissionais como meios de fortalecimento da dependência deles para com o grupo. Na medida em que o processo continua, os membros são sistematicamente treinados para abrirem mão da ação independente e pensamento, já que apenas comportamentos obedientes e atitudes passivas são recompensados, enquanto a resistência ou auto avaliação é punida.

Até mesmo grupos que são derivados de respeitadas seitas religiosas [ tais como o culto de Lundgren, uma dissenção ou seita do LSD] ou que tenham evoluido de comunidades terapêuticas como Synanon, podem evoluir em cultos totalitários se a autonomia dos membros é progressivamente diminuida, enquanto a concentração do poder na liderança cresce mais e mais absoluta. Sob estas condições, geralmente a ênfase muda do bem estar do membro para sua manipulação e exploração. Desta forma, é fácil entender como os seguidores de Jim Jones (Templo do Povo), L. Ron Hubbard (Igreja da Cientologia), Sun Myung Moon (Igreja da Unificação), Moses David (Filhos de Deus), Elizabeth Clare Prophet (Igreja Universal e Triunfante), Rajneesh, e outros são bem sucedidamente influenciados para se tornarem “pessoas diferentes”.

Lifton (1961) descreve como certos cidadãos chineses e ocidentais tem sido submetidos a um estressante processo de “reforma de pensamento” e aparentemente mudaram suas crenças políticas, e depois da liberação continuaram a papaguear os programados clichês maoistas por um tempo, até que em um novo ambiente livre, aquelas crenças e a fórmula dos participantes começaram a ser demolidas, deixando cada sobrevivente perplexo com o agudo problema da identidade. Lifton caracteriza este processo como similar a morte e ao renascimento. Ex membros de cultos religiosos, ou veteranos de terapias de grupo marqueteadas de massa e técnicas de auto ajuda, tem pedido formas abruptas de tal “rachadura” na transformação (Conway & Siegelman, 1978). Isto corresponde as observações de muitas vítimas de cultos anteriores, que tem passado por uma “deprogramação” e, como resultado, reverteram abruptamente de sua pseudo identidade induzida pelo culto para algo parecido com sua personalidade anterior ou original. De fato, a “rachadura” parece ser o termo apropriado quando a vítima, tendo sido coagida ou manipulada para esta estranha pseudo personalidade, eventualmente “se recupera”. Ela é novamente seu velho ego, mas com alguns sérios problemas novos como resultado da experiência relacionada ao culto e ao trauma encolvido em relação a isto. Sobretudo, anos podem passar para que a identidade original esteja funcionando normalmente; enquanto isto, o mundo tem se tornado um lugar diferente.

O termo pseudo-identidade tem somente sido usado duas vezes anteriormente na literatura científica. Em 1974, Glatzel o utilizou para descrever uma alteração ilusória do ego em casos de maiores depressões envolvendo doença ciclotímica (Glatzel, 1974). No melhor de nosso conhecimento, este uso, desde então, não foi repetido. Mais recentemente, Girodo (1985) empregou o termo quando descrevia problemas vivenciados por certos agentes de narcóticos descobertos que, depois de um prolongado papel, achavam difícil descontinuar seu uso, assumindo comportamentos diferentes quando uma operação havia terminado. Empregado apenas uma vez no arigo de Girodo, o termo foi usado casualmente para comunicar o sentido de um papel assumido por muito tempo, não uma desordem dissociativa, e estava limitado a circunstâncias altamente especializadas de trabalho sob acobertamento. De fato, Girodo minimizou a possibilidade de reações dissociativas nos indivíduos que ele estudou. Contudo, uma revisão cuidadosa do material clínico dele sugere que alguns casos de pseudo identidade em nosso sentido podem de fato ter ocorrido em certos casos, estudados por Girodo, de agentes de cumprimento legal que eram exigidos representarem a parte de ciminosos por meses e até mesmo anos. Em nossa opinião, alguns destes agentes mostraram sintomas de PTSD também.

Por meio da sugestão hipnótica, pode ser possível criar distorções temporárias de valor, opiniões ou percepções da realidade, que são suficientes para induzir em alguns indivíduos comportamentos que de outra forma seriam inaceitáveis para eles. Certos hipnoterapeutas (e.g., o falecido Harold Rosen e Milton Erickson) se especializam na indução hipnótica que não envolve a indução do transe ou o exercício das técnicas tradicionais, tais como fechar os olhos. A literatura clínica também está repleta de exemplos com sugestionabilidade aumentada ou controlabilidade de indivíduos durante estados alterados de consciência, tais como aqueles induzidos por substâncias psicotrópicas, manipulação ambiental, isolamento sensorial, poderosa emoções liberadas por dinâmica de grupo, especialmete em grandes grupos), cerimônias religiosas, e outras circunstâncias especiais. Latah é um caso especial no qual a hiper sugestionabilidade geralmente ocorre como consequência do sujeito ser pego de surpresa por meio de uma manobra inócua (e.g., um barulho abrupto, cócegas, etc.) (Suryani & Jensen, 1993).

A pseudo identidade é mais do que um papel temporário assumido por um indivíduo em um exercício laboratorial ou durante um período passageiro de intoxicação. é mais como um “alter” no caso da desordem da personalidade múltipla (MPD). Contudo, a pseudo identidade difere do alter da MPD nos seguintes aspectos importantes:

1. Patogênese. MPD mais provavelmente é uma consequência de um trauma iniciado na infância, com sintomas aparecendo mais tarde na vida como resultado dos conflitos internos interagindo com circunstâncias vivenciais. Uma peudo identidade é geralmente gerada pelo stress externo originado do ambiente de uma pessoa que anteriomente tinha sido livre de qualquer sinal ou sintoma de disfunção da personalidade, e para quem a nova persona representa uma transformação necessária para preencher as características da demanda de uma situação de vida marcantemente diferente da anterior daquela pessoa.

2. Psicopatologia. O paciente de MPD pode ter mais de um alter; no caso da pseudo identidade, a personalidade muda, seja esta mudança rápida ou gradual, geralmente envolvendo a geração de uma única personalidade diferente. Na pseudo personalidade, sob certas condições que podem ser abruptas, mudando adiante e para trás entre características de comportamento de duas personalidades separadas (um fenômeno algumas vezes chamado de “flutuação”), mas sem as típicas fronteiras do senso do paciente de MPD que um ego é separado do outro. Na pseudo personalidade, os diferentes alters ou personalidades primariamente refletem as novas forças situacionais e exigências. Reflete primariamente as facetas do caráter original. Na MPD, a identidade original é geralmente inconsciente da existência dos alters na medida em que eles emergem e submergem. Na pseudo identidade, a persona original permanece, mas é envolvida pela nova identidade.

3. Prognóstico. A MPD é notoriamene difícil de tratar (Braun, 1986; Kluft, 1984b). A previsão é geralmente melhor para o paciente da pseudo personalidade, embora a síndrome possa se tornar crônica como qualquer outra desordem dissociativa ou – na velha terminologia – histeria maior mono sintomática. Algumas vezes meramente devolver o paciente a sua situação original de vida [ou até mesmo um ambiente neutro onde a informação é livre e honestamente trocada e pessoas não exploradoras estão disponíveis para apoio], em poucas semanas, resultará em um desaparecimento abrupto ou gradual da pseudo identidade. Contudo, o paciente então enfrenta reassumir muitas funções a muito tempo negligenciadas de sua personalidade anterior, e trabalhar para a complexa consequência emocional de ter – seja qual for o período e o grau – se tornado uma pessoa diferente.

4. Tratamento. A terapia de ambas as síndromes exige a apreciação dos mecanismos mentais envolvidos, a realidade do trauma ou stress – todavia sutil – na patogênese e as manobras técnicas conhecidas serem úteis no gerenciamento das desordens dissociativas. Enquanto na psicoterapia da MPD a meta usual é primariamente a reconciliação e a interação dos alters em um todo novo e mais saudável, a meta na terapia do paciente com pseudo identidade é a restauração da identidade original. Contudo, então o paciente geralmente necessita de tratamento para a PTSD residual, que é o legado do stress que produziu e manteve a síndrome da pseudo identidade. Casos de pseudo identidade observados entre vítimas de cultos são frequentemente muito bem definidos, exemplos clássicos de transformação por meio de forças situacionais deliberadamente planejadas de uma personalidade normal do indivíduo naquela de uma pessoa diferente. (Outras são coloridas por certos sintomas adicionais proeminentes em tipos que tem sido descritos como “vira casacas,” “contempladores,” e “sobreviventes,” veja abaixo.) A seguinte breve descrição de um caso ilustra mais ou menos o caso clássico de pseudo identidade em um pequeno culto totalitário.

Danny Kraft cresceu em uma pequena cidade do meio oeste. O testemunho de mais de 60 membros de sua família, amigos e antigos professores indicaram que Danny era um jovem muito normal. Ele parecia estar bem ajustado, sociável, ia bem na escola, tinha muitos amigos e não mostrava sinais de comportamento anti social. Não havia evidência de que Danny sofresse de qualquer desordem mental ou de personalidade. Os pais dele eram divorciados e ele algumas vezes parecia vivenciar lealdades conflituosas entre seu pai e sua mãe, mas não inapropriadamente.

Por volta de seus anos de adolescência, Danny se tornou interessado em religião e eventualmente se juntou a uma seita [por nossa definifição um culto totalitário] que era um desdobramento da Igreja Reorganizada de Jesus Cristo dos Últimos Dias Santos (LDS). Os pais dele ficaram muito preocupados sobre a mudança de personalidade que eles viram no filho. O pai de Danny fez várias viagens a cidade onde o culto se localizava e falou com pastores, policiais e o FBI. Eles lhe asseguraram que o filho dele estava meramente passando por uma “fase” e que logo ele ficaria entediado do grupo e voltaria para casa. Contudo, eventos muito mais ominosos transpiraram. O líder do culto, Jeffrey Lundgren, declarou que Deus havia lhe dito que os membros de certa família dentro do grupo deveriam ser julgados. O “Julgamento” significava que sangue deveria ser derramado. Danny participou do assassinato da família vitimizada por Lundgren. Ele auxiliou os Lundgrens a matarem os dois pais e todas as três irmãs, de 7, 13 e 15 anos. Os membros da família foram atraídos um a um para um celeiro, amarrados e amordaçados e então colocados em um grande buraco que tinha sido cavado no chão do celeiro, onde Lundgren atirou neles com uma pistola automática de calibre 45 e enterrou os corpos. Lundgren, a família dele, e seus seguidores então se mudaram na direção oeste. Eventualmente, foram presos na Califórnia, retornaram a Ohio e julgados por assassinato.

Em entrevistas subsequentes, Danny parecia calmo e não perturbado. Não havia evidência de desordem de personalidade, exceto pelo aparecimento de elevações de alta dependência e altas elevações normais em escalas narcisísticas do Inventário Multiaxial da Clínica Millon (MCMI). Todos os outros testes e repetidas entrevistas clínicas não mostraram evidência de desastre emocional ou desordem do pensamento.

Inicialmente Danny negou que tivesse qualquer coisa a ver com o assasinato da família. Mas quando perguntado pelo julgamento de Deus, ele admitiu que serviu como instrumento de Deus para executar o julgamento Dele. Enquanto confessava, Danny não apresentava remorso aparente. De fato, havia uma dura matéria de fato na qualidade de sua admissão e no seu inteiro comportamento.

Na audiência de sentença, o pai de Danny apelou sem sucesso para ajuda profissional para que seu filho “quebrasse o encanto” que Lundgren aparentemente havia lançado sobre ele. Como um repórter observou, “o mais jovem Kraft (Danny) somente sorria forçadamente e parecia indiferente na medida que o juiz James W. Jackson do Condado de Lake ouvia as testemunhas, no segundo dia da audiência de senteciamento dos membros do ex culto (McGillivray, 1990, p. 2). O advogado de defesa dele, Elmer Giuliani, argumentou, “Ele (Lundgren) tinha dividido este jovem do que ela já tinha sido para o que você vê hoje. Ele dividiu a mente deste jovem de um livre pensador para uma imagem espelho [de Lundgren]” (McGillivray, 1990, p. 2).

Além da esposa e filho de Lundgren, Danny é a única pessoa que aparentemente ainda está sob controle de Lundgren. As zelosas crenças de outros cultistas eventualmente se esmaeceram e eles agora percebem Jeffrey Lundgren como qualquer outra coisa, menos um profeta de Deus. Permanece a ser visto se o caso muito clássico de Danny de pseudo identidade resistirá ao tratamento. (se algum for fornecido na prisão) ou com a passagem do tempo.

Algumas vezes, a pseudo identidade se torna desestabilizada. Tal desestabilização pode ocorrer quando se rompem os mecanismos internos de defesa. quando mudanças ocorrem dentro do grupo que não podem ser explicadas ou toleradas por um membro; quando a informação é recebida de fontes externas que é dissonante às atuais crenças mantidas, ou ao contrário provocam ansiedade; quando a fadiga gradual e a tensão ocorrem depois de um período de trabalho árduo em benefício do culto, talvez com as concomitantes ameaças de punição por uma performance pobre; ou quando o membro do culto é traumatizado por eventos tais como a humilhação por seus superiores. A desestabilização pode também ser vista quanddo um membro do culto vivencia um sentimento de fracasso ou condenação iminente por não ser capaz de preencher as demandas do grupo ou satisfatoriamente se conformar. As três imagens clínicas descritas abaixo podem ser vistas em recentes correligionários que vivenciam a desestabilização a ponto que caem antes que uma pseudo identidade consertada seja formada. Elas também podem ser vistos depois que uma pseudo identidade é formada e depois desestabilizada, até mesmo depois da saída do culto.

1. O “Vira Casaca.” Nada aflige mais pais e seres amados do que testemunhar uma recuperação de um ex membro de um culto quando ele começa a “flutuar”. A flutuação é um fenômeno dissociativo que é melhor descrito como a mudança repentina de volta para a pseudo identidade, uma regressão que mais geralmente é desencadeada por certas visões, sons, toques, cheiros ou gostos na vida diária, que eram estímulos salientes e onipresentes no ambientes cultista. Caracteriscamente, a flutuação ocorre em membros de culto que tem deixado o grupo por sua própria vontade, tendo recebido aconselhamento incompleto ou ainda estando nas primeiras fases de aconselhamento. Um ex membro que flutua depois de telefonar para um membro do culto, pode, como resultado, até mesmo retornar ao culto.

Jennifer, uma universitária graduada, tinha servido como professora no exterior por sete anos para uma organização religiosa bem respeitada. Ela voltou aos EUA e se uniu a uma igreja diferente. Gradualmente, ela e outras da congregação tornaram-se encantadas pelo seu carismático pastor. Com o passar do tempo, Jennifer começou a acreditar em idéias e praticar comportamentos que anteriormente tinham sido inimagináveis para ela. A despeito de suas anteriores crenças cristãs fundamentalistas a respeito de ética e de moralidade, Jennifer repetidamente se engajou em atividades sexuais ilícitas com seu pastor cultista, que lhe disse que isto a tornaria “mais espiritual”. Nenhuma quantidade de persuasão de amigos e família pode convence-la que o grupo ou os seus ensinamentos e práticas não eram sadios. Ela concordou em buscar aconselhamento, mas somente para convencer seus pais e amigos que o culto era de fato sadio e que os medos deles eram infundados.

Inicialmente Jennifer apresentou mais que uma imagem robótica ao terapeuta. O afeto dela estava achatado e sua fala era mecânica, como também o eram os movimentos de seu corpo. Ela exibia sinais clínicos de dependência, ansiedade e depressão . Depois de muitas sessões diárias, um dia o terapeuta disse alguma coisa que mudou Jennifer de sua pseudo-identidade. Na sessão seguinte o afeto e os movimentos corporais não mais eram artificiais e ela começou a expressar alguma dúvida e dor que eram apropriadas às realidades de suas experiências no culto. Em resumo, “a velha Jennifer” começou a reemergir. A mudança foi dramática. É desnecessário dizer que os pais de Jennifer foram muito encorajados.

Uns poucos dias mais tarde, em uma sessão de terapia de grupo, um outro paciente disse algo crítico sobre o líder do culto de Jennifer. O terapeuta observou os olhos de Jennifer perderem o foco. Ela ficou encarando o espaço vazio. Repentinamente, a pseudo identidade estava de vota. A crítica do líder aparentemente serviu como o gatilho para que ela automaticamente recitasse a programação que ela recebeu no grupo: que era defender o líder de todas as críticas. Subsequentemente, Jennifer precisou de 5 a 6 horas de discussão contínua durante a revisão terapêutica do comportamento abusivo e sem ética do líder do culto para com ela. Com este exercício cognitivo, o afeto congelado de Jennifer começou novamente. Ela já tinha permanecido livre do culto e agora está casada, tem um filho e voltou a lecionar como professora de uma escola.

2. o “Contemplador.” Sintomas dissociados com o transe são frequentemente vistos em membros de cultos ou seitas nas quais os exercícios contempativos são praticados, tais como cantar ou meditação. “Falar em Linguas” pode também produzir este efeito.

Sabrina foi membro de um culto de artes marciais por alguns anos. Os pais dela se tornaram preocupados sobre suas mudanças progressivas de comportamento e personalidade, juntamente com sua gradual estranheza da família. Eventualmente Sabrina buscou aconselhamento quando ela começou a vivenciar significativamente sintomas de desespero. Foi descoberto que ela estava sofrendo de um maior episódio depressivo, com características passivas dependentes e personalidade esquizóide. O terapeuta dela notou que algumas vezes Sabrina ficava parada olhando para o nada, seus olhos se tornavam desfocados e ela não tinha consciência do que a cercava. O terapeuta literalmente tinha que chamar Sabrina várias vezes para que ela se reorientasse no tempo, lugar, como pessoa e evento. Com Sabrina, não havia pistas ou gatilhos aparentes para estes estados como transe. Quando ela entrava nestes estados, ela se encontraria automaticamente participando de algumas atividades que tinham sido parte de seu treinamento em artes marciais. Durante as várias semanas de terapia, os episódios de Sabrina de contemplação dissociativa diminuiram de frequência. Com o tempo, desapareceram completamente.

Sabrina foi afortunada. Em alguns casos, a dissociação contemplativa é muito resistente à modificação. Ex membros de culto que tem praticado o canto e a meditação por horas ou dias durante um período de muitos anos, podem necessitar de reabilitação especial ou extensas medidas terapêuticas (veja “Matérias Gerais de Tratamento, abaixo).

3.O “Sobrevivente.” Certos sintomas dissociativos são frequentemente evidentes em pessoas que sobreviveram a eventos severamente traumáticos. Herman (1992) ressalta que as vítimas de incesto, estupro, campos de concentração e cultos partilham de respostas comuns ao trauma, que podem incluir o sentimento desconectado ou desligado de seus egos ou adjacências [despersonalização, desrealização],
resposta aguda ao stress psico-fisiológico, memórias impertinentes do trauma e/ou constrição emocional e comportamental.

Nosas experiências clínicas com ex membros de cultos confirmam que eles podem desenvolver sintomas similares aqueles vistos nas vítimas de aprisionamento, tortura, terrorismo, incesto, abuso físico, ou estupro. Em aproximadamente 25% dos casos, é descoberto que os cultos tem praticado coação física e sexual e outos abusos, incluindo a inculcação do medo, terror e pânico. Posteriormente, os cultos são vistos explorarem dinâmicas de grupo para controle social, e empregarem técnicas específicas para induzir estados alterados de consciência. É interessante ressaltar que um estudo de ex cultistas (Martin, Langone, Dole, & Wiltrout, 1992) não revelou diferenças significativas no MCMI entre aqueles que haviam sido submetidos a abuso sexual e/ou físico, e aqueles que não relatam uma história de abuso. Conquanto geralmente o caso, aparentemente nem o tratamento brutal nem o confinamento, é necessário para produzir o tipo de imagem clínica do sobrevivente, como ilustrado no caso seguinte.

Charles era um graduado de uma grande universidade estadual. Seus pais tinham um casamento sólido. Seu pai era anestesista. Charles se uniu a um grupo de estudos bíblicos enquanto estava na universidade e depois da graduação ele, com outros membros do grupo, se mudou para mais perto do líder do grupo. Estes membros de estudos bíblicos se encontraram como parte de um pequeno composto rural cultico que advogava a supremacia branca, a militância, e a crença nos demônios como fonte de virtualmente todos os problemas pessoais. O líder advogava uma série de medidas extremas para libertar os cultistas destes demônios. Estas medidas incluiam jejuns longos e difíceis, espancamentos, ameaças físicas de morte, prolongado abuso verbal, isolamento, confissão pública e quase que constante vergonha e humilhação. Charles foi submetido a todos estes métodos para exorcizar os demônios dele. Seus pais, temendo que ele pudesse morrer devido aos jejuns, contactaram a polícia local e tiveram o filho deles visto por um conselheiro. Charles mais tarde foi encaminhado para um aconselhamento mais extenso em um local residencial.

No primeiro momento Charles estava magro, abatido, com os olhos fundos e tinha o olhar parado no espaço, incessantemente. Ele estava sem ouvir e passivo, lembrando um sobrevivente do Holocausto. Embora Charles não estivesse mais no culto, ele de fato veio a acreditar que estava sem esperanças, mal e demonizado. Clinicamente, Charles sofria de doença depressiva com características obsessivo compulsivas. Ele também satisfez o critério do Manual Estatístico de Desordens Mentais, quarta edição (DSM-IV; American Psychiatric Association, 1994) de diagnóstico de Desordem Aguda de Stress e Desordem Dissociativa Breve. Os sintomas dissociativos incluiam estados como transe, desrealização, despersonalização, e adormecimento psíquico: “Não sinto nada. Me sinto morto”. Charles vivenciava medo, lembranças intrusas ou flashbacks, desesperança e desespero. Charles recebeu psicoterapia diária intensiva por mais de cinco semanas. Ele também recebeu medicação antidepressiva. Ao tempo que Charles deixou o centro de tratamento, ele havia ganho preso e não estava mais despersonalizado, paralisado ou sentindo-se desesperado. Ele continuou a terapia externa por aproximadamente um ano. Atualmente, ele está passando muto bem como um estudante graduado e casou-se recentemente.

Assuntos Gerais do Tratamento

Desentendimentos sobre as vítimas de cultos e seu tratamento são abundantes (Martin, 1983; Singer & Addis, 1992). Talvez o mito mais perturbador é que somente indivíduos problemáticos ou aqueles de lares disfuncionais se unem a cultos, enquanto jovens bem ajustados estão imunes. Embora vários estudos bem projetados e inúmeros relatos clínicos tenham refutado esta idéia, ela teimosamente persiste (Wright & Piper, 1986; Maron, l988). Uma outra concepção errada comum sobre os cultos é que seus perigos são grandemente exagerados ou nada mais são do que elocubrações ficcionais de pais super controladores, neuróticos ou ignorantes; de fanáticos religiosos [ou anti-religiosos] desinformados; ou de terapeutas inescrupulosos inclinados a aterrorizar as famílias, traumatizando os seguidores de “novas religiões” por meio de brutais sessões de desprogramação e recebendo pagamentos enormes (Bromley & Shupe, 1981; Bromley & Richardson, 1983; Barker, 1984; Robbins, 1988). Terapeutas objetivos rejeitarão estas opiniões [frequentemente promulgadas por não clínicos, se não filósofos de poltronas] e preferirão confiar na evidência de sua própria informação como obtida por colegas experientes, pacientes, membros da família e outros informantes confiáveis. Tais terapeutas rapidamente perceberão que as situações cúlticas se impõem sobre as particularidades de cada membro e a história comportamental para produzir uma resultante constelação de sintomas, ou até mesmo precipitar uma séria doença psiquiátrica.

Alguns métodos específicos utilizados no tratamento de vítimas de culto tem sido descritos em alguns livros e artigos recentes (Martin, 1989; Martin, Langone, Dole & Wiltrout, 1992; Martin, 1993a; Martin, 1993b). Estas publicações ressaltam que o tratamento apropriado pode ser dificil e é mais educacionalmente orientado do que muitas outras terapias, e que isto progride por meio de várias fases claramente previsíveis. Seguindo este breve sumário de algumas características que se destacam destes métodos de tratamento.

A meta ao tratar um ex cultista é aliviar a psicopatia introduzida pelo culto no paciente e assim reforçar a restauração de sua personalidade anterior ao culto. Isto pode ser uma tarefa assustadora. A dificuldade e o desafio necessário de toda terapia com ex membros de cultos é cuidadosamente reestruturar as respostas doentias do paciente para as demandas estressantes feridas pelo culto no anterior sentimento de identidade do paciente, incluindo valores, humor, pensamento e comportamento.

O terapeuta deve também claramente definir os sintomas dissociativos do paciente, de forma que o tratamento possa ser orientado na direção do tipo particular de psicoterapia que esteja presente. Por exemplo, a dissociação causada por práticas meditativas podem exigir uma abordagem diferente da dissociação secundária a um trauma físico. Sobretudo, mais do que um sintoma dissociativo pode estar manifesto no mesmo paciente, seja simultaneamente, seja sequencialmente. Diferentes tipos de dissociação devem ser identificados claramente e tratados apropriadamente para melhores resultados terapeuticos.

Casos clássicos de pseudo idendidade exigem tratamento muito similar aquele empregado pela maioria dos terapeutas de pacientes oriundos de cultos. Geralmente o tratamento das vítimas dos cultos contêm vários elementos. Alguns ou todos eles podem ser necessários:

1. . Cuidado médico para a doença, frequentemente relacionada a má nutrição, avitaminose, desordens negligenciadas ou crônicas tais como diabete, úlcera péptica e negligenciamentos de medidas preventivas de saúde como vacinas, dieta apropriada, exercício regular e similares.

2. Tratamento psiquiátrico para doença mental, incluindo medicação para aliviar sintomas de depressão, ansiedade, pânico, etc., e talvez o uso de métodos especiais tais como hipnose ou narco síntese para sintomas dissociativos resistentes.

3. Psicoterapia individual.

4. Psicoterapia de grupo.

5. Aconselhamento de saída.

6. Terapia familiar.

7. Orientação educacional e aconselhamento.

8. Reabilitação vocacional e treinamento.

9. Referências especiais a aconselhamento pastoral se indicado (e.g., quando o paciente em recuperação busca affiliação com grupos religiosos legítimos ou deseja retornar a igreja original de sua família).

10. Consultoria legal, se necessária, para ajudar o paciente a colocar seus assuntos de volta na ordem própria se – como frequentemente acontece – eles tem sido muito negligenciados, interrompidos ou explorados durante o período de afiliação ao culto. A ação legal, incluindo a punição dos ofensores e recuperação dos danos à vitima, podem ser muito terapêuticos em muitos casos.

Estratégias de Tratamento

Pacientes mostrando imagens clínicas dos subtipos descritos acima podem precisar de especiais estratégias de tratamento. Sugestões a respeito delas incluem as seguintes. 1. Tratar o “contemplador”. Os sintomas dissociativos e outros resultantes das práticas contemplativas do culto podem continuar a serem problemáticas no tratamento, muito depois que outros sintomas tenham melhorado. Os sintomas contemplativos podem incluir a inabilidade de se concentrar, ansiedade induzida pelo relaxamento, e fenômeno dissociativo tais como lapsos automáticos na meditação, canto ou estados como transe. Ryan (1993) descobriu que um dos métodos mais eficazes para remediar a “elevação” são os exercícios físicos. Os exercícios tabém podem ajudar a aliviar outros sintomas contemplativos, tais como a falta de consciência de sensações corporais, tensão muscular, fadiga, e a associação destes com a disfunção emocional ou agonia. Outras técnicas úteis incluem aspectos identificadores do ambiente para criar sobrecarga de estímulo, vagarosamente construindo a estamina de leitura, ao estabelecer um marcador de tempo e portanto gradualmente prolongar a leitura do tempo e aprender a conter o pensamento mágico por meio de uma série específica de exames da realidade.

A dissociação tem sido vista como um fenômeno que é associado a áreas subcorticais do cérebro (West, 1967; Putnam, 1989). Em um certo grau, embora menor, os problemas do processo cognitivo de problemas que os ex cultistas experimentam, se parecem com as dificuldades encontradas por algum trauma na cabeça de pacientes de derrame. Entretanto, como com os pacientes que tem conhecidas lesões neurais, as vítimas selecionadas de cultos podem se beneficiar do emprego de remediação linguística estruturada. Alguns pacientes relatam que tais métodos, que tem foco na memória, concentração e codificação e decodificação linguística, são muito úteis na redução de vários tipos de disassociação. Exercícios específicos incluem (1) leitura alta de vários parágrafos para o paciente e pedindo a ele para reiniciar com as idéias expressadas na passagem , (2) fazer perguntas pertinente á sequência do conteúdo lido ao paciente, (3) pedir ao paciente para analisar a história ou repeti-la , e (4) convidar o paciente para responder a sentenças que exigem uma expressão de opinião relevante ao conteúdo. O clínico deve notar a latência das respostas, a necessidade de esclarecimento da tarefa ou tópico, a memória do paciente para detalhes, problemas em sua habildade de se focalizar e concentrar na tarefa, e déficits nos talentos expressivos verbais.

Já que os estados alterados podem ser o resultado de um estreitado foco de atenção e uma limitação ou restrição de estímulos externos [como ocorre nos ambientes dos cultos], o treinamento da consciência de modo visual, auditivo e estético podem ser úteis. Por exemplo, ao encorajar os clientes a nomear todos os sons diferentes que ele ouve em trinta segundos, e então todas as cores e formas que ele vê em uma sala, o terapeuta reforça a consciência do estímulo sensorial que o estado dissociativo pode ter diminuído ou até mesmo [no caso do transe] abolido.

Vários aparelhos mneumônicos para lembrar detalhes necessários para aderir às atividades diárias podem ser ensinados a ex membros de forma que eles se recordem melhor, por exemplo, de cinco ou seis itens que compraram recentemente na loja de verduras. Leituras diárias de jornais, revistas, ou histórias curtas também podem ser úteis, particularmente quando o paciente interrompe a atividade em intervalos regulares para examinar sua habilidade de recordar e sua consciência da presente situação ambiental.

2. Tratando os “Vira Casacas.” Tipicamente, um ex membro de um culto “flutua”, ou retorna ao estado de pseudo identidade, como um resultado de um “gatilho” que pode ser visual (e.g., ver um livro escrito pelo líder do culto), verbal, físico, gustativo e até mesmo olfativo. Para esvaziar o “gatilho”, este deve ser identificado e a linguagem cúltica ou jargão associado com ele, deve ser examinado. As palavras recebem um significado único ou idiossincrático pelo culto e devem ser corretamente redefinidas ao mostrar ao paciente a definição da palavra no dicionário. Algumas vezes, meramente se concentrando em palavras cruzadas e outros jogos de palavras, pode ajudar ao paciente a diminuir ou evitar a flutuação (Tobias, 1993).

A crise imediata ou de tratamento para a flutuação envolve orientação do paciente agudamente para a realidade presente no tempo, espaço, pessoa, evento e ego. Pode ser necessário relembra-lo repetidamente que ele não está mais no culto, para encoraja-lo a participar da conversação, e revisar os fatos que promovem a experiência de ser ele próprio no aqui e agora. A crise de tratamento também deve incluir uma revisão do porque ele deixou o culto e os problemas associados a ele (e.g., comportamente explorador ou criminoso). Os pacientes devem ser encorajados a tomar notas e listar as razões porque eles deixaram o culto, juntamente com seus problemas pessoais e sociais que apareceram de sua experiência do culto. Se eles não podem alcançar seus clínicos quando os episídios de flutuação ocorrem, eles podem rever seus cadernos de anotações até que a flutuação pare ou eles recebam ajuda.

Geralmente a flutuação é diminuida por uma saída bem pensada e compreensiva por meio do processo de aconselhamento. Quanto mais o ex membro aprende sobre o culto, e mais ele é ajudado a compreender o impacto negativo que o culto tinha sobre ele, menos provável ele vivenciará episódios de flutuação. Se os episódios persistem, métodos mais rigorosos – similares aqueles empregados no tratamento das maiores desordens dissociativas – podem ser necessários.

3. Tratando o “Sobrevivente.” As pessoas forçadas por líderes manipuladores de cultos para aderirem e/ou testemunharem atos odiosos frequentemente manifestam sintomas de PTSD. Pesadelos, pensamentos intrusivos ou imagens, terrores, várias disfunções psicossomáticas são reações comuns. Contudo, a formação de uma pseudo identidade não é necessariamente associada a traumas específicos, e os sintomas que os membros dos cultos vivenciam depois que saem do culto podem não ser exatamente estes que prrenchem o critério diagnóstico para PTSD. Não obstante, a própria experiência do culto, o processo de abandono do culto, inevitavelmente envolvem algum grau de trauma para a pessoa. A imagem de um sobrevivente de um campo de concentração pode ser o resultado. Para promover uma recuperação completa das sequelas da adesão ao culto, o terapeuta deve ajudar o ex membro a aprender sobre a dinâmica dos grupos cúlticos e entender como indivíduuos em tais situação podem ser induzidos a se comportarem de modo altamente desviado de seus padrões anteriores, ou fracassam em se comportar do modo que era característico anteriormente. A terapia deve ser concentrar em “desengatilhar” e “reestruturar” os incidentes traumáticos que continuam a afetar o ex membro do culto por meio de estratégias educadoras, técnicas cognitivas comportamentais, trabalho de memória, psicoterapia orientada dinamicamente, são indicados.

ASPECTOS ESPECÍFICOS DO TRATAMENTO

Durante o curso da terapia, os segintes aspectos devem ser abordados no tratamento do traumatizado antigo membro.

1. Formular como o trauma cúltico interagiu com os aspectos únicos do paciente, os fatores pré abuso devem ser avaliados, incluindo a idade do paciente, gênero, pesonalidade, estilo de competição, família de origem, história pessoal pré culto:

a. A personalidade ou fatores situacionais tornaram o membro do culto vulnerável ao recrutamento? É importante notar que a maioria das pessoas que são recrutadas pelos cultos não estavam procurando se tornarem membros do culto, não sofriam de qualquer deficiência psicológica significativa e não vieram de situações familiares atípicas. Embora seja importante explorar as vulnerabilidades individuais do paciente ao processo de recrutamento, pode também ser útil para ex membros de cultos reconhecerem que os recrutadores do culto regularmente tiram vantagem de uma miríade de características pessoais que são normais ou até mesmo desejáveis na população geral, características tais como lealdade, honestidade, idealismo e uma natureza confiante.

b. Como foi a pseudo identidade do membro do culto desenhada pelo uso de mentira, culpa, coação, técnicas de condicionamento, manipulação ambiental, métodos hipnóticos e outras manobras para aumentar a sugestionabilidade ou produzir estados semelhantes ao transe?

c. Como era o paciente: afetado psicologicamente por elementos de “reforma do pensamento” no ambiente cúltico? Temas específicos e sintomas que podem ser abordados incluem negativa, fragmentação do ego, depressão, fobias, dissociação, gatilhos de dissociação, e como estes vários mecanismos mentais e sintomas estão relacionados ao meio ambiente cúltico.

d. Como eram armazenados estes específicos incidentes traumáticos? A armazenagem pode ser cognitiva por meio da estrutura doutrinária, sensorial por meio de estímulos auditivos e visuais, ou interpessoal em termos de comportamentos automatizados, tendências de ação, ou papéis determinados pelo grupo. Posteriormente, o que são os meios pelos quais o estímulo-gatilho relacionado ao paciente desencadeia as memórias de experiências culticas dolorosas, confusas e produtoras de culpa?

e. Como podem as memórias dolorosos da experiência do culto, e o eventual desengano, serem neutralizados? Como com as vítimas de outros tipos de trauma, três assunções básicas tem sido violadas ou condenadas a respeito da auto visão dos ex membros de cultos e do mundo: “a crença na invulnerabilidade pessoal, a percepção do mundo como significativo e a percepção de si próprio como positiva” (Janoff-Bulman, 1985, p. 15). O clínico deve facilitar a tarefa do ex membro do culto de recapturar ou reeestruturar as atitudes positivas sobre a vida, o ego, a família, a sociedade e similares.

As consequências de abuso anterior ao culto [se algum] e o subsequente abuso cúltico são tratados inicialmente por educar o ex membro do culto a respeito das técnicas de manipulação psicológica que foram usadas para engana-lo ou desvia-lo. Neste modo, ele aprende que ele não foi o único responsável por seu infortúnio. [culpar a vítima é onipresente; até mesmo as vítimas o fazem]. Alguns ex membros podem dizer, “estou bem” e mostrarem uma auto defesa extrema sobre os flagrantes abusos dos membros do culto. Tal negativa deve ser confrontada ao educa-los sobre os efeitos posteriores do abuso do culto de maneira análoga ao trabalho inicial de intervenção com as vítimas de estupro, abusos físicos e outros tipos de trauma interpessoais.

Ex membros podem ganhar senso de perspectiva sobre o envolvimento cúltico deles ao aprender sobre o ensinamento manipulador de seu culto em particular, as práticas do líder do culto, e os dogmas éticos do culto e uso explorativo dos relacionamentos pessoais. Isto pode ser alcançado ao apresentar material didático sobre as técnicas de reforma do pensamento utilizadas; mostrar ao ex membro os testemunhos de outros ex membros do culto que tem feito uma recuperação bem sucedida pós culto; encorajar o ex membro a falar ou visitar outros ex membros do culto; fornecer leituras gerais e outros materiais educativos sobre os cultos; examinar como um culto, se ele afirma ser religioso, realmente se desvia das tradições principais da religião da qual presumidamente derivou (e.g., cristandade protestante), ou como um culto psicoterápico se afasta dos padrões aceitos de cuidado e ética praticados por idoneos profisssionais de saúde mental.

Os aspectos educacionais do tratamento são primariamente parte do primeiro de três estágios de recuperação, que se entrelaçam uns com os outros. Os três estágios de recuperação podem geralmente serem avaliados pelo tipo de perguntas que os ex cultistas fazem. Por exemplo, quando um terapeuta ouve as seguintes perguntas e declarações, saberemos que o ex membro do culto está na primeira fase de recuperação: “O grupo é realmente um culto?”, “Talvez eu pudesse ter tentando com mais força”, “Estou tão confuso”, “As minhas necessidades realmente eram preenchidas pelo grupo?”, “O grupo tem alguns problemas mas não é mau”, “Sei que algo está errado mas não consigo encontrar o que seja”.
A meta inicial do tratamento para o paciente que faz tais perguntas é acabar com o processo existente. Isto contém um cuidadoso exame do dogma cúltico, o trauma resultante, e os vários fatores pré abuso que podem ser relevantes. Em resumo, um clínico deve educar o paciente, como descrito acima. Insights valiosos podem ser alcançados neste estágio ao usar instrumentos como o MCMI e fazer aos pacientes perguntas específicas sobre o culto e porque eles saíram. Altos escores nas escalas de dependência, orientação negativa, esquizóide, ansiedade e distimia estão tipicamente associados com ex cultistas não tratados. Respostas defensivas e protegidas sobre o grupo podem indicar que o paciente ainda esteja processando ou negando uma história bem documentada de abuso dentro do culto.

Quando os assuntos da recuperação pós culto em seu primeiro estágio estão resolvidos, os pacientes começarão a fazer comentários nas seguintes linhas: “Perdi meus amigos do grupo’, “sinto-me tolo”, “quero de volta as minhas coisas do culto”, ‘não sei mais no que acreditar sobre Deus, grupos, religião ou amigos”, “Há matérias com as quais nunca lidei antes do culto”, “quero aprender tudo que puder sobre cultos’, “Eles nunca virão atrás de mim?”, “Perdi meu tempo”.
Pacientes que expressam tais pensamentos estão no segundo estágio de recuperação. Conquanto o primeiro estágio tenha seu foco no passado, os comentários durante o segundo estágio de recuperação refletem uma habilidade para se concentrar no presente, e ver o envolvimento do culto como uma experiência passada. Similarmente, a primeira fase pós traumática perplexa e de afeto congelado está frequentemente muito diminuida, embora em alguns ex membros, estados dissociativos contemplativos possam se esgueirar e persistir pelo segundo e até mesmo terceiro estágio de recuperação.

Os aspectos de tratamento do segundo estágio correspondem mais a terapia tradicional. A permissão para o “luto” é de vital importância. Fúria e raiva neste estágio podem ser intensas. Verbalizações agoniadas tais como “Sinto-me como se tivesse sido assassinado” não são raras. Além do trabalho do “luto” os pacientes agora são capazes de examinar como foram recrutados. Porque os cultos manipulam as forças e fraquezas de cada pessoa, é importante para o paciente entender completamente como ele foi atraído pelo envolvimento do culto. Neste estágio, é importante para o ex cultista recuperar sua habilidade de validar o ego anterior ao culto e aprender em mais detalhes como este ego foi suprimido e substituído por uma pseudo identidade. O trabalho na expressão emocional e na auto consciência dos estados de sentimentos é essencial por causa do adormecimento psíquico que pode ainda persistir neste estágio de tratamento. Exércicios especiais são necessários para pacientes que ainda não podem experienciar normalmente as emoções, ou que estão tão cheios de culpa para expressarem raiva ou zanga.

O estágio três é mais orientado para o futuro e otimista que o estágio dois. Nesta fase de tratamento, o paciente faz perguntas pertinentes ao que eles farão no futuro a respeito de trabalhos, encontro de carreira, onde viverão, se voltarão para a escola, como namorarão, e como se reunirão com suas famílias. Aqui o tratamento é mais orientado para aconselhamento de carreira e orientação. Terapia familiar, treinamento e gerenciamento de tempo e talentos, treinamento de talentos para entrevistas de empregos podem muito bem ser abordados nesta fase. Certas vítimas de culto podem precisar de aconselhamento legal se existem acusações criminosas ou civis contra o culto ou se estas estão pendentes.

Cada estágio de recuperação pode ser marcado não apenas pelo insight progressivo mas também por emoções apropriadas. É importante para o clínico retornar repetidamente à fonte do desastre emocional. Por exemplo, a depressão inicial que um ex membro pode sentir por ter “fracassado com Deus” que responde pelo porque ele não está mais no grupo, é muito diferente da depressão de um ex membro que chega a entender completamente que seu fundo de confiança foi roubado pelo líder do culto ou que sua esposa se tornou amante do líder do culto. É importante para o clínico analisar a natureza dos conflitos e os aspectos que enfrenta o paciente, além de avaliar a psicopatologia do paciente, na medida em que o tratamento avança.

Forças naturais e bens podem ser diferenciados na recuperação dos cultistas, e o clínico será gratificado ao perceber o momento de acelerar a melhora que ele estimula no progresso do ex membro do culto dos estágios iniciais aos mais avançados de recuperação. De todo modo, o clínico deve se empenhar em facilitar o processo de recuperação e ajudar a fornecer os recursos apropriados, apoio e instrumentos necessários para que o paciente percorra o caminho da recuperação. Finalmente,se tudo vai bem, o clínico que facilitou a recuperação do paciente ficará profundamente gratificado na medida em que os sintomas da sindrome da pseudo identidade desaparecem, e o ego anterior ao culto é restaurado, reparado e volta a vida normal.

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