Conversas entre Israel e Síria

Conversas entre Israel e Síria

de Srdja Trifkovic

27 de maio de 2008

Israel e Síria anunciaram na quarta-feira passada [21 de maio] em declarações simultâneas que eles tinham iniciado conversas indiretas na Turquia, assim confirmando que estes dois inimigos de muito tempo novamente estão se falando em quase uma década. O Primeiro Ministro do Exterior de Israel, Tzipi Livni, disse no dia seguinte que Israel queria a paz com seus vizinhos, mas a Siria precisava se “distanciar completamente de seus laços problemáticos” com o Irã. O Ministro do Exterior da Síria, Walid Muallem, diz que Israel tem indicado disponibilidade para uma retirada completa das ocupadas Colinas de Golan, tomadas em junho de 1967, embora oficiais israelenses não tenham estado dispostos a confirmar ou negar esta declaração.

O objetivo chave de Israel é desmantelar a aliança Síria-Irã para neutralizar o Hezbollah. O novo Presidente libanês, Michel Suleiman, está ciente desta realidade, tendo atuado conjuntamente com a milícia shiita e com a Síria quando serviu como comandante do exército. Em sua fala inaugural, Suleiman disse que “a elevação da resistência [i.e. Hezbollah] era uma necessidade, a luz da fragmentação do Estado”. Ele também falou da necessidade de uma “estratégia de defesa para proteger o Líbano” e avisou contra o posterior envolvimento do ‘Hezbollah‘ “nos combates domésticos.”A reabertura das conversas de paz de Israel com a Síria é um movimento benvindo por duas razões, uma geopolítica e a outra doméstica.

O recente triunfo cru do Hezbollah no Líbano tem deixado o Presidente Bashir al Assad desconfortável e justificadamente nervoso. Ele é um secularista e seria um reformador, empurrado a uma aliança desconfortável de conveniência com o Irã pela incansável hostilidade da administração Bush. Ele não é um muçulmano devoto nem mesmo um vionário islâmico [e os muçlmanos sunitas da corrente principal diriam que, como um Allawita, ele é um herético). Ele sabe que, dada a chance, a unidade da irmandade muçulmana local faria a ele o que os garotos de Nasrallah tem feito a Fouad Seniora e Walid Jumblat. Bashir portanto está pronto e voluntário para diversificar suas opções. Isto significa que finalmente é possível efetuar a separação da Síria do Hezbollah, e – mais importantemente -, do Irã. Ao mesmo tempo, eo Primeiro Ministro de Irael, causador de problemas, Ehud Olmert, precisa de um maior sucesso diplomático para equilibrar sua decadente credibilidade em casa. Ele parece pensar que Golan é um preço que vale a pena pagar.

Secundariamente, o espetáculo de Israel conversar com a Síria sem pré condições é igualmente impalatável para o governo Bush, para o Sanador John McCain, o que significa que isto é Uma Coisa Muito Boa. A insistência de Bush, McCain e seus conselheiros e manipuladores que a mera prontidão para falar com aqueles que eles tem designado como párias se iguala a conciliação, se não traição, não é apenas falsa e tediosa: é perigosa. Tal estado mental busca erradicar os vestígios remanescentes da habilidade de Washington em se engajar um um discurso diplomático significativo, não somente no Oriente Médio mas também em Cuba, Venezuela, Balcãs e outros pontos problemáticos. Se Olmert pode conversar incondicionalmente com Assad, diretamente ou por meio de um intermediário, é ridículo para McCain continuar insistindo que os EUA não podem conversar com Ahmadinejad, ou Hugo Chavez, ou Raul Castro.

Por anos tem sido óbvio que uma alternativa islâmica para Assad (ou para qualquer outro regime autoritário ainda que secularista na região, por exemplo em Algiers) se provaria muito mais prejudicial para os interesses americanos do que o status quo. A Síria se apresenta como um realista diplomático com muitas possibilidades criativas. Tanto Assad quanda a ineficaz velha guarda que ele herdou de seu falecido pai estão nervosos e entusiásticos para fazer um acordo com Israel primeiro, e a América a seguir, se eles então são deixados em paz. O desejo deles de evitar problemas é evidente nas Colinas de Golan, a área síria que Israel ocupou em 1967 e está mantendo desde então: não há escaramuças, infiltrações, lançamentos de granadas ou disparos de foguetes Kassam; nada. É uma das fronteiras mais pacíficas do Oriente Médio. Bashir está pronto para assinar um tratado de paz com Israel, e deixar que Israel tome partes de Golan “por arrendamento”- vamos dizer, de 99 anos -, se a Síria for removida da lista de Washington de Estados Hostis que eles precisam de um tom de cor e código para uma revolução, se não um robusta reeeducação pela USAF.

A ligação de Assad com o Irã pode e deve ser quebrada. Ela não é natural e ne inevitável. Além de ser um secularista, ele é um árabe, e portanto improvável de ser indiferente às implicações dos desejos do Irã de proteger seu poder e influência através do Fértil Crescente e todo o caminho na direção do Mediterrâneo. Se Assad pode ser vencido pela idéia de um tratado de paz com Israel, em troca que Washington, dê o reconhecimento da legitimidade de seu regime, um link chave no projeto estratégico do Irã terá que ser quebrado. Dado o incentivo certo, Assad também selaria qualquer canal remanescente de apoio aos insurgentes no Iraque e ajudaria a fazer o atoleiro mais gerenciável para os EUA.

Do lado do crédito, a Síria nunca tem sido culpada de um ultraje terrorista comparável ao ultraje do Lockerbie, ainda que a Libia de Gaddafi, tenha feito sua penitência e tenha sido reabilitada, Nas consequências de 11 de setembro, Damasco entregou aos EUA centenas de arquivos sobre a Al Qaeda e outros movimentos e indivíduos terroristas anti-ocidentais pelo Oriente Médio, muitos dos quais alvejavam a Jordânia, Arábia Saudita e outros o lado dos EUA. Em uma entrevista ao New York Times em 2004, o então Secretário de Estado Colin Powell disse que oficiais sírios “deram-me alguma informação a respeito das atividades financeiras [de insurgentes no Iraque] e como podemos cooperar mais completamente sobre isto”. Em resumo, a Síria tem o potencial de se tornar o parceiro mais útil dos EUA na “Guerra ao Terror” do que a Arábia Saudita tem sido. Qualquer “mudança de regime” em Damaso permanece uma proposta perigosa já que a Irmandade Islâmica representa a única alternativa provável a Assad.

O “Processo de Oslo,” como concebido por aqueles que o iniciaram, tem chegado ao fim anos atrás, e não há uma iminente substituição. O princípio político de Oslo estava em uma troca em andamento de vários itens nas negociações bilaterais entre os israelenses e os palestinos trabalhando conjuntamente em direção a um acordo final e permanente de paz. Já que tem sido confirmadas as fúteis visitas da Secretária Rice e do Presidente Bush nas recentes semanas, este princípio tem sido quebrado: não há negociações significativas sobre o status final, não há conversas de acordos neste interim, e não há cooperação e coordenação em matérias relacionadas à segurança. Algum momentum é necessário, e as negociações em Istambul podem fornecer isto.

Na quarta-feira os EUA expressaram verbalmente e distintamente um apoio indiferente para estas conversações. Oficiais dos EUA disseram que eles receberiam bem um acordo de paz entre a Síria e Israel, mas também deixaram claro que seu foco está na rota israelense-palestina. A Casa Branca disse “não ter objeções” a iniciativa – na qual os oficiais americanos não estão envolvidos mas tem sido mantidos informados -, e ressaltou suas preocupações sobre o alegado apoio da Síria ao terrorismo no exterior e sua “repressão” doméstica. O Presidente George W. Bush apaparentemente continua a ter esperança que possa obter que israelenses e palestinos alcancem algum tipo de acordo de paz pelo fim do ano, a despeito do profundo ceticismo entre todas as partes envolvidas. A Secretária de Estado Condoleezza Rice buscou compactar a opinião que os EUA não estavam entusiásticos sobre as conversações israelenses-sírias mas ela ressaltou que via as conversações com os palestinos como ‘um caminho mais maduro”.

Em outras palavras, Ms. Rice e seus chefes querem que as conversações fracassem, ou serem vistas como tendo falhado, e asim Damasco possa ser firmemente empurrada de volta no Mal Multilateral onde -no esquema neo-conservador das coisas -, ela corretamente pertence. Com a cautelosa escolha de palavras de Rice, não obstante, a administração dos EUA continua a rejeitar qualquer reabilitação da Síria e acredita – enganadamente, como acontece -, que tem feito progressos em isolar Damasco e Teerã. Ninguém em Washington dirá isto alto, mas qualquer movimento positivo na direção da Síria ou do Irã continua a ser visto, dentro de Beltway, como prejudicial para os EUA e sua estratégia no Oriente Médio. O “Schadenfreude” de Washington está em marcante contraste com as opiniões dos oficiais israelenses. Qualquer acordo de paz entre Israel e Síria mudaria dramaticamente a face do Oriente Médio, em particular ao isolar o Irã e silenciar o Hizbullah, segndo o Ministro da Infraestrutura de Israel, Benjamin Ben-Eliezer. “Estamos falando sobre uma paz verdadeira, um fim das hostilidades, uma abertura de fronteiras e Israel está pronto para pagar o preço por uma tal paz e coexistência com a Síria”, ele disse.

Até mesmo se o apoio dos EUA a esta abordagem de Israel quanto a Síria esteja ausente neste estágio, vale lembrar que cada contacto significativo árabe-israelense – como o das conversas de Dayan-Tohami em Marrocos que iniciaram o processo de paz Israel/Egito -, os contactos entre Ephraim Halevy, agindo em benefício de Yitzhak Rabin e o Rei Hussein, e os acadêmicos israelenses e palestinos que começaram a adiantar as coisas em Oslo, todos comoeçaram como canais de apoio de contactos que inicialmente foram mantidos secretos de Washington.

O apoio americano será crucial se e quando o acordo sírio-israelense seja finalmente concluido. Bashir al-Assad não prejudicará a sua aliança com o Irã em troca de meras promessas de uma retirada israelense das Colinas de Golan. Para que Bashir considere seriamente tais promessas é necessário obter garantias americanas. Tais garantias não serão dadas nos meses finais de Bush. Mas seja o que for que venha da atual rodada de conversas sírio-israelenses, o próximo Prsidente dos EUA seria bem aconselhado para se lembrar que Assad não é um ideólogo, e que ele pode ser induzido a um acordo compreensivo que serviria aos interesses americanos na região a pouco ou nenhum custo do prestígio ou Tesouro americano.

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Published in: on maio 31, 2008 at 12:44 pm  Deixe um comentário  
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