O GOVERNO INVISÍVEL

O GOVERNO INVISÍVEL

de John Pilger
20 de julho de 2007

Em uma palestra realizada na Conferência do Socialismo de 2007, em 16 de junho de 2007, em Chicago, John Pilger descreve como a propaganda tem se tornado uma tal força potente em nossa vidas e, nas palavras de um de seus fundadores, representa “um governo invisível”. O titulo desta palestra é Liberdade na Próxima Vez, que é o título de meu livro, e o livro significa um antídoto para a propaganda que frequentemente é disfarçada em jornalismo.

Assim embora hoje eu fale sobre a guerra pelo jornalismo, propaganda e silêncio e como o silêncio pode ser quebrado. Edward Bernays, o chamado pai das relações públicas, escreveu sobre um “governo invisível”, que é o verdadeiro poder regente de nosso país. Ele estava se referindo ao jornalismo, a media.

Foi quase a oitenta anos atrás, não muito depois que foi inventada a media corporativa. Ito é uma historia da qual poucos jornalistas falam, e começou com a chegada da propaganda corporativa. Na medida em que as grandes corporações começaram a tomar a imprensa, algo chamado “jornalismo profissional” foi inventado. Para atrair os grandes anunciantes, a nova imprensa corporativa tinha que parecer respeitável, os pilares da instituição sendo objetivos, imparciais e equilibrados.

Foram criadas as primeiras escolas de jornalismo e uma mitologia de neutralidade liberal foi lançada sobre o jornalismo profissional. A liberdade da expressão foi associada com a media de notícias e com as grandes corporações, e a coisa toda era, como muito bem colocou Robert McChesney, “inteiramente falsa”.

Para que o público não soubesse o que era para ser profissional, os jornalistas tinham que assegurar que as notícias e a opinião fossem dominadas por fontes oficiais e isto não tem mudado. Vá qualquer dia ao New York Times, e cheque as fontes das principais histórias políticas – domésticas ou estrangeiras – e você descobrirá que elas são dominadas pelo governo e outros interesses estabelecidos. Isto é a essência do jornalismo profissional. Não estou sugerindo que o jornalismo indepente foi ou é excluído, mas ele é mais provável de ser uma honrosa exceção.

Pense no papel que Judith Miller desempenhou no New York Times na corrida para a invasão do Iraque. Sim, o trabalho dela se tornou um escândalo, mas somente depois que desempenhou um poderoso papel em promover uma invasão baseada em mentiras. Ainda que Miller estivesse papagueando as fontes oficiais e os vestidos interesses que não foram de todo dfiferentes do trabalhho de muitos famosos repórteres do Times, como o celebrado W.H.Lawrence, que ajudou a encobrir os verdadeiros fatos dos verdadeiros efeitos da bomba atômica lançada em Hiroshima em agosto de 1945. “Nenhuma radiatividade na ruína de
Hiroshima,”
foi a manchete de seu relato e isto era falso.

Considere como o poder deste governo invisível tem crescido. Em 1983, a principal media global era de propriedade de 50 corporações, a maioria delas americanas. Em 2002, isto tinha caído para apenas nove corporações. Hoje, aproximadmente elas são apenas cinco. Rupert Murdoch tem previsto que haverá apenas três gigantes da media e a companhia dele será um deles. Esta concentração de poder não é exclusiva dos EUA. A BBC tem anunciado isto e está expandindo suas transmissões para os EUA porque acredita que os americanos querem um jornalismo neutro, objetivo e de princípios, pelo qual a BBC é famosa. Eles tem lançado a BBC para a América. Você pode ter visto o anúncio.

A BBC começou em 1922, apenas antes da imprensa corporativa começar na América. Seu fundador foi Lord John Reith, que acreditava que a imparcialidade e a objetividade eram a essência do profissionalismo. No mesmo ano a istituição britânica estava sob cerco. As uniões tinham convocado uma greve geral e os Tories estavam aterrorizados que uma revolução estivese a caminho. A nova BBC veio ao resgate deles. Em alto sigilo, Lord Reith escreveu falas anti unionistas para o Primeiro Ministro Tory Stanley Baldwin e as transmitiu a nação, enquanto recusava aos líderes trabalhistas expor seu lado até que a greve tivesse terminado. Asim foi estabelicido um padrão. A imparcialidade certamente era um princípio: um princípio a ser suspenso toda vez que a instituição estivesse sob ameaça. E este princípio tem se mantido desde então.

Tome a invasão do Iraque. Há dois estudos das reportagens da BBC. Um deles mostra que a BBC deu exatamente 2% de sua cobertura para os dissedentes da guerra ao Iraque. 2%. Isto é menos do que a cobertura anti guerra da ABC, NBC e da CBS. Um segundo estudo pela Universidade de Gales mostra que na construção da invasão, 90% das referências da BBC eram a armas de destruição em massa, e sugeriam que Saddam Hussein realmente as possuia, e a impllicação clara era a de que Bush e Blair estavam certos. Agora nós sabemos que outras medias britânicas foram usadas pelo serviço secreto de inteligência MI-6. No que elas chamaram de Operação Apelo em Massa, os agentes do MI-6 plantaram histórias sobre as armas de destruição em massa de Saddam, tais como armas escondidas nos palácios dele e nos secretos bunkers subterrâneos. Todas estas histórias eram falsas. Mas este não é o ponto. O ponto é que o trabalho do MI-6 era desnecessário, porque o jornalismo profissional por si só teria produzido o mesmo resultado.

Ouça o homem da BBC em Washington, Matt Frei, logo depois da invasão. “Não há dúvida’, ele disse aos espectadores no Reino Unido e a todo o mundo, “que o desejo de trazer o bem, trazer os valores americanos ao resto do mundo, e especialmente agora no Oriente Médio, é especialmente ligado ao poder militar americano.” Em 2005 o mesmo repórter aplaudiu o arquiteto da invasão, Paul Wolfowitz, como alguém “que acredita apaixonadamente no poder da democracia e no desenvolvimento do nacionalismo”. Isto foi antes do pequeno incidente no Banco Mundial.

Nada disso é não usual, os noticiários da BBC rotineiramente descrevem a invasão como um mau cálculo. Não ilegal, não não provocada, não baseada em mentiras, mas como um mau cálculo.

As palavras “engano” e “erro crasso” são comuns na moeda das notícias da BBC, juntamente com ‘fracasso” que ao menos sugere que se o ataque deliberado, calculado, não provocado e ilegal sobre o Iraque indefeso tivesse tido sucesso, tudo estaria bem. Seja onde for que eu ouça estas palavras lembro-me do maravilhoso ensaio de Edward Herman sobre a normalização do impensável. Para o qual a linguagem clichê da media faz e é destinada a fazer: a normalização do impensável, da degradação da guerra, dos membros lesionados, das crianças aleijadas, tudo que tenho visto.

Uma das minhas histórias favoritas sobre a Guerra Fria diz respeito a um grupo de jornalistas russos que estavam fazendo um tour pelos EUA. No dia final da visita deles, eles foram perguntados pelo anfitrião quais eram as impressões deles: “Tenho a lhe dizer”, disse o portavoz,”que estamos atônitos do que encontramos depois de lermos todos os jornais e assistir a TV dia após dia, que todas as opiniões sobre todos os assuntos vitais sejam as mesmas. Para ober este resultado em nosso país enviamos os jornalistas para o gulag. Nós até mesmos arrancamos as unhas deles. Aqui vocês não tem que fazer isto. Qual é o segredo?”

Qual é o segredo? Esta é uma pergunta raramente feita nas salas dos notíciários, nas faculdades de media. em revistas de jornalismo, ainda que a resposta a esta pergunta seja crítica para a vida de milhões de pessoas. Em 24 de agosto do ano passado o New York Times declarou em seu editorial: “Se tivéssemos sabido o que sabemos agora sobre a invasão, o Iraque teria sido detido por um berreiro popular”. Esta surpreendente admissão estava dizendo, de fato, que os jornalistas haviam traído o público não fazendo o trabalho deles e ao aceitar e amplificar e ecoar as mentiras de Bush e sua gangue, ao invés de desafia-los e expo-los. O que o Times não disse foi que se o jornal e o resto da media tivessem exposto as mentiras, mas de um milhão de pessoas hoje estariam vivas. Isto é uma crença agora para um certo número de jornalistas seniores da Instituição. Poucos deles – eles tem falado comigo sobre isto -, poucos deles dirão isto em público.

Ironicamente, comecei a entender como a censura funcionava nas chamadas sociedades livres quando relatei a partir das sociedades totalitárias. Durante a década de 1970, filmei secretamente na Tchecoslováquia, então uma ditadura estalinista. Entrevistei membros do grupo dissidente Charter 77,
incluindo o novelista Zdener Urbanek, e isto é o que ele me disse. ‘Nas ditaduras somos mais afortunados do que vocês no ocidente a um respeito. Não acreditamos em nada do que lemos nos jornais e nada do que assistimos na televisão, porque sabemos que são propagandas e mentiras. Gosto de vocês no ocidente. Temos aprendido a ver por trás da propaganda e ler entre linhas, e como vocês, sabemos que a verdade é sempre subversiva”. ”

Vandana Shiva tem chamado a isto de conhecimento subjugado. O grande vituperador irlandês Claud Cockburn vai direto quando escreve, “Nunca acredite em alguma coisa até que seja oficialmente negada”.

Um dos mais velhos clichês da guerra é que a verdade é a primeira baixa. Não é. O jornalismo é a primeira baixa. Quando acabou a Guerra do Vietnã, a revista Encounter publicou um artigo de
Robert Elegant, um importante correspondente que havia coberto a guerra. “Pela primeira vez na história moderna”, ele escreveu, a consequência de uma guerra não é determinada no campo de batalha, mas em uma página impressa e sobretudo na tela da televisão”. Ele sustentou que os jornalistas foram responsáveis por perderem a guerra ao se opor a ela em seus relatos. A opinião de Robert Elegant se tornou uma sabedoria recebida em Washington e ainda é. No Iraque, o Pentágono inventou o jornalista anexado a uma unidade militar porque acreditou que o relato crítico tinha perdido o Vietnã.

O oposto foi verdadeiro. No meu primeiro dia como um jovem repórter em Saigon, chamei todos os escritórios dos principais jornais e companhias de TV. Prercebi que alguns deles tinha um painel de pinos na parede no qual estavam fotografias pavorosas, a maioria de corpos de vietnamitas e de soldados americanos segurando várias orelhas e testículos. Em um escritório estava uma fotografia de um homem sendo torturado; acima da cabeça dos torturadores estava um balão cômico com as palavras ” o que eu vou lhe ensinar a falar à imprensa”. Nenhuma destas imagens chegou a ser publicada ou até mesmo colocadas no ar. Perguntei porque. Disseram-me que o público nunca as aceitaria. De qualquer modo, publica-las não era ser objetivo ou imparcial. De início, aceitei a aparente lógica disto. Eu também havia crescido com as histórias da boa guerra contra a Alemanha e o Japão, o banho ético que limpou o mudo anglo americano de todo mal. Mas quanto mais eu ficava no Vietnã, mais entendia que as nossas atrocidades não eram isoladas, nem eram aberrações, mas que a própria guerra era uma atrocidade. Esta era a grande história e raramente era notícia. Sim, as táticas e eficácia dos militares eram questionadas por alguns bons repórteres. Mas a palavra “invasão” nunca foi usada. A palavra inócua que foi utilizada é que a América “foi envolvida” no Vietnã. A ficção de um gigante bem intencionado, que cometeu um erro estúpido, preso em um pântano asiático, foi repetida incessantemente. Foi deixado para os informantes que voltavam a casa contar a verdade subversiva, aqueles como Daniel Ellsberg e Seymour Hersh, com todo seu alcance do massacre de My-Lai. Havia 649 reporteres no Vietnã em 16 de março de 1968 – o dia em que aconteceu o massacre de My-Lai -, e nenhum deles o relatou.

No Vietnã e no Iraque, as políticas e estretégias deliberadas tem estado fronteiriças ao genocídio. No Vietnã, a forçada desposessão de milhões de pessoas e a criação de zonas livres de tiro; no Iraque, um embrago forçado pelos EUA que durou a década de 1990 como um cerco medieval, e que matou, segundo a ONU, 500.000 crianças abaixo de cinco anos. Tanto no Vietnã quanto no Iraque, armas proibidas foram usadas contra civis como experimentos deliberados. O Agente Laranja mudou a ordem genética e ambiental no Vietnã. Os militares chamaram a isto Operação Hades. Quando o Congresso descobriu, foi renomeado para um nome mais amigável de Operação Ranch Hand, e nada mudou. Isto é muito similar a como o Congresso tem reagido a guerra no Iraque. Os democratas tem condenado isto, mudado seu nome, e o estendido. Os filmes de Hollywood que se seguiram a Guerra do Vietnã eram uma extensão do jornalismo, da normalização do impensável. Sim, alguns filmes foram críticos das táticas militares mas todos eles foram cuidadosos em se concentrar sobre a ansiedade dos invasores.

O primeiro destes filmes é agora considerado um clássico. É Deerhunter, cuja mensagem foi que a América tinha sofrido, a América foi golpeada, os jovens americanos tinham feito o melhor possível contra os bárbaros orientais. A mensagem até foi mais perniciosa porque Deerhunter foi brihantemente feito e interpretado. O aclamado filme de Oliver Stone, Platoon foi dito ser contra a guerra e ele mostra momentos dos vietnamitas como seres humanos, mas também promove sobretudo que o invasor americano é uma vítima. Sem mencionar o filme Boinas Verdes quando escrevo isto, até que outro dia li que este filme de John Wayne era o filme mais influente que já existiu. Vi Boinas Verdes estrelado por John Wayne em uma noite de sábado de 1968 em Montgomery Alabama. (estava lá para entrevistas com o então infame governador George Wallace).

Eu tinha acabado de voltar do Vietnã e não pude acreditar de como absurdo era o filme. Assim eu ri tão alto e sem parar. E isto não durou muito antes que a atmosfera que me cercava ficasse bem fria. Meu companheiro, que havia sido um Freedom Rider no sul, disse, “Vamos sair daqui correndo como o diabo”. Fomows caçados or todo o caminho de volta para o hotel, mas eu duvido que qualquer um de nossos perseguidores estivessem cientes que John Wayne, o herói deles, tinha mentido para não ter que combater na Segunda Guerra Mundial. E ainda que o falso modelo do papel de Wayne enviasse milhares de americanos para morrer no Vietnã, com as notáveis exceções de George W. Bush e Dick Cheney.

No ano pasado, em sua aceitação do Prêmio Nobel de Literatura, o teatrólogo Harold Pinter deu uma fala de época. Ele perguntou porque e eu o citei, “A brutalidade sistemática, as atrocidades diseminadas, a supressão desenfreada do pensamento independente na Rússia estalinista eram bem conhecidos no ocidente enquanto os crimes de Estado americano eram meramente superficialmente registrados, abandonados, documentados”. E ainda que pelo mundo a extinção e sofrimento de incontáveis seres humanos podiam ser atribuídos ao desenfreado poder americano. Mas”, disse Pinter, “Vocês não sabem disso. Isto nunca aconteceu. Nada nunca aconteceu. Até mesmo enquanto estava acontecendo, não estava acontecendo. Isto não importa. Isto não tem qualquer interesse”. As palavras de Pinter eram mais que surreais. A BBC ignorou a fala do mais famoso draumaturgo britânico.

Tenho feito vários documentários sobre o Cambodia. O primeiro foi Ano Zero: A Morte Silenciosa do
Cambodia. Ele descreve o bombardeio americano que forneceu o catalítico para a subida de Pol Pot. O que Nixon e Kissinger tinham começado, Pol Pot completou. Os arquivos da CIA sozinhos não deixam dúvidas disto. Ofereci Ano Zero para o PBS e levei isto a Washington. Os executivos do PBS que o assistiram ficaram chocados. Eles sussuravam entre eles. Eles me pediram para esperar lá fora. Um deles finalmente apareceu e me disse, “John, adimiramos seu filme. Mas estamos perturbados porque ele diz que os EUA preparam o caminho para Pol Pot.” Eu disse, “vocês discutem a evidência?” Tinha citado inúmeros documentos da CIA. E ele responder: “Oh, não”. “Mas temos decidido chamar um árbitro jornalístico”.

Agora, o termo “árbitro jornalistico” pode ter sido inventado por George Orwell. De fato ele manusearam para encontrar algum dos somente três jornalistas convidados ao Cambodia por Pol Pot. E de fato ele condenou o filme e eu nunca ouvi nada novamente da PBS. Ano Zero foi transmitido em aproximadamente 60 países e se tornou um dos documentários mais assistidos no mundo. Ele nunca foi apresentado nos EUA. Um dos filmes que fiz no Cambodia, foi apresentado pela WNET, a estação PBS em New York. Acredito que tenha sido apresentado aproximadamente a uma hora da madrugada. Com base nesta única apresentação, quando a maioria das pessoas estava dormindo, ele recebeu um prêmio Emmy. Era uma maravilhosa ironia. Ele é digno de um prêmio mas não de audiência.

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A verdade subversiva de Harold Pinter, acredito, foi que ele fez a ligação entre o imperialismo e o fascismo e descreveu uma batalha pela história que nunca é relatada. Este é o grande silêncio da Idade Média. E isto é o coração secreto da propaganda hoje. Uma propaganda tão vasta que sempre fico perplexo como tantos americanos sabem e entendem tanto quanto fazem. Estamos com certeza falando sobre um sistema, não de personalidades. E ainda que hoje muitas pessoas pensem que o problema é George W. Bush e sua gangue. E sim, a gangue de Bush é extrema. Mas a minha experiência é que eles não são mais do que uma versão extrema do que tem acontecido antes. Em meu tempo de vida, mais guerras tem sido começadas pelos liberais democratas do que pelos republicanos. Ignorar esta verdade é uma garantia de que o sistema de propaganda e o sistema de fazer guerra continuará. Temos um ramo do Partido Democrático governando a Bretanha pelos ultimos dez anos. Blair, aparentemente um liberal, tem levado a Bretanha a guerra mais vezes do que qualquer outro Primeiro Ministro da era moderna. Sim, atualmente ele é parceiro de George Bush, mas seu primeiro amor foi Bill Clinton, o presidente mais violento do século XX. O sucessor de Blair, Gordon Brown também é devoto de Clinton e Bush. No outro dia, Brown disse, “Os dias da Bretanha ter que se desculpar pelo Império Britânico estão acabados. Devemos Celebrar.”

Como Blair, como Clinton, como Bush, Brown acredita na verdade liberal que a batalha pela história tem sido ganha; que os milhões que morreram nas fomes impostas na Índia imperial britânica serão esquecidos. Como os milhões que morreram no Império americano serão esquecidos. E com o Blair, seu sucessor está confiante que o jornalismo profissional está do lado dele. Para a maioria dos jornalistas, se eles acreditam ou não nisto, eles são adulados para serem os tribunos de uma ideologia que se vê como não ideológica, que se apresenta como o centro natural, o verdadeiro fulcro da vida moderna. Esta pode muito bem ser a mais perigosa ideologia que viemos a conhecer porque ela não é limitada. Isto é liberalismo. Não estou negando as virtudes do liberalismo, longe disso. Todos somos beneficiários dele. Mas se negamos seus perigos, seu projeto sem limites, e o poder todo consumidor de sua propaganda, então estamos negando o nosso direito a uma verdadeira democracia porque liberalismo e democracia não são a mesma coisa.

O Liberalismo começou como uma preservação da elite no século XIX, e a verdadeira democracia nunca foi manipulada pelas elites. Sempre houve uma luta e um combate entre eles. Um membro senior da coalisão anti guerra, United For Peace and Justice, disse recentemente, e eu a cito, ” Os democratas estão usando as políticas da realidade”. Seu ponto de referência histórica liberal era o Vietnã. Ela disse que o Presidente Johnson começou a retirada das tropas do Vietnã depois que um Congresso democrático começou a votar contra a guerra. Isto não foi o que aconteceu. As tropas foram retiradas do Vietnã depois de quatro longos anos. E durante este tempo os EUA mataram mais pessoas no Vietnã, Cambodia e Laos com bombas do que todas aquelas que foram mortas nas guerras precedentes. E isto é o que está acontecendo no Iraque. O bombardeio tem sido dobrado desde o ano passado, e isto não está sendo relatado. E quem começou este bombardeio? Bill Clinton o começou. Durante a década de 1990 Clinton atirou bombas no Iraque no que era eufemisticamente chamado de “zonas sem vôo”. Ao mesmo tempo ele impôs um cerco medieval chamado de sanções econômicas, matando como já mencionei, talvez um milhão de pessoas, inclusive as documentadas 500.000 crianças. Quase nenhuma desta carnificina foi relatada pela chamada media principal.

No ano passado, um estudo da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins descobriu que desde a invasão do Iraque, 65.000 iraquianos tem morrido como resultado direto da invasão. Documuntos oficiais mostram que o governo de Blair sabia que esta estatística era crível. Em fevereiro, Les Roberts, o autor do relatório , disse que as estatísticas eram iguais as estimativas de morte do estudo Universidade Fordham sobre o Genocídio de Ruanda. A resposta da media a revelação de Les Robert foi um chocante silêncio. O que pode muito bem ser o maior episódio de matança organizada de uma geração, nas palavras de Harold Pinter, “Não aconteceu.Não importa.”

Muitas pessoas que se vêem na esquerda, apoiaram os ataques de Bush ao Afeganistão. Que a CIA tem apoiado Osama Bin Laden foi ignorado, que a admistração Clinton secretamente custeou o Talibã, até mesmo dando a ele instruções de alto nível na CIA, é virtualmente desconhecido nos EUA. O Talibã era o parceiro secreto da gigante do petróleo Unocal na construção de oleoduto através do Afeganistão. E quando um oficial lembrou a Clinton que o Talibã perseguia as mulheres, ele disse, “Podemos viver com isto.” Existe compelente evidência que Bush decidiu atacar o Talibã não com o resultado de 11 de setembro, mas dois meses antes, em julho de 2001. Isto é virtualmente desconhecido nos EUA, publicamente. Como a escala de baixas civis no Afeganistão. Até onde sei, apenas um repórter, Jonathan Steele do Guardian em Londres, tem investigado as baixas civis no Afeganistão e ele estima a morte de 20.000 civis a três anos atrás.

Suportar a tragédia da Palestina é devido em grande parte ao silêncio e cumplicidade da chamada esquerda liberal. O Hamas repetidamente é descrito como tendo jurado a destruição de Israel. O New
York Times, a Associated Press, o Boston Globe – dê uma olhada. Todos eles usam esta linha de anúncio padrão e isto é falso. O Hamas a dez anos pede um cessar fogo e isto nunca é relatado. Até mesmo mais importante, o Hamas tem passado por uma mudança ideológica histórica nos últimos poucos anos, que soma a um reconhecimento da realidade de Israel, é virtualmente desconhecido; e que Israel está jurando a destruição da Palestina é impronunciável.

Há um estudo pioneiro da Universidade de Glasgow sobre a Palestina.Eles entrevistaram jovens que assistem os noticiários da televisão na Bretanha. Mais de 90% pensavam que os assentamentos ilegais eram palestinos. ‘Quanto mais asistem, menos sabem’; a famosa frase de Danny Schecter.

Atualmente o silêncio mais perigoso é sobre as armas nucleares e o retorno da Guerra Fria. Os russos entendem claramente que o chamado escudo de defesa americano na Europa Oriental está destinado a humilha-los e subjuga-los. Ainda que as páginas principais daqui digam que Putin esteja começando uma nova Guerra Fria, e haja um silêncio sobre um sistema americano inteiramente novo nuclear chamado Reliable Weapons Replacement (RRW), que está destinado a tornar indistinta a diferenciação entre a guerra convenional e a guerra nuclear. Uma ambição a muito tempo perseguida.

Enquanto isto, o Irã está sendo amaciado, com a media liberal fazendo quase que o mesmo papel que desempenhou antes da invasão do Iraque. E quanto aos democratas, olhe como Barak Obama tem se tornado a voz do Conselho das Relações Exteriores, um dos órgãos de propaganda da velha Instituição liberal de Washington. Obama escreve que embora ele queira que as tropas voltem para casa, “Não devemos descartar nossa força militar contra os adversários de muito tempo, tais como o Irã e a Síria”. Ouça isto do liberal Obama: “No momento do grande perigo no século passado, nossos líderes aseguraram que a América, por açção e por exemplo, liderasse e elevasse o mundo, que mantemos e lutamos pela liberdade devida a milhões de pessoas além de nossas fronteiras.”

Isto é parte essencial da propaganda, lavagem cerebral se você quiser, que penetra a vida de cada americano , e muitos de nós que não somos americanos. Da direta a esquerda, o secular temor a Deus, que tão poucas pessoas sabem o que é na metade do século, as administrações dos EUA tem derrubado 50 governos – muitos deles democracias. Neste processo, trinta países tem sido atacados e bombardeados, com a perda incontável de vidas. A pancada de Bush está muito bem, e é justificada; mas é o momento de começarmos a aceitar a chamada da sirene das besteiras dos democratas sobre ficar de pé e lutar pela liberdade de bilhões; a batalha pela história está perdida e nós estamos silenciados.

Então, o que devemos fazer? Este pergunta é frequentemente apresentada em encontros a que tenho comparecido, até mesmo em encontros tão informados quanto esta conferência, e é por si só interessante. É minha experiência que as pessoas do chamado Terceiro Mundo raramente fazem esta pergunta, porque eles sabem o que fazer. E alguns tem pago com sua liberdade e suas vidas, mas eles sabem o que fazer. Está é uma pergunta que muitos na esquerda democrática tem ainda que responder.

A informação real, a informação subversiva, permanece o poder mais potente de todos e acredito que não devamos cair na armadilha de acreditar no que a media fala ao público. Isto não era verdade na Checoslováquia estalinista e não é verdade nos EUA.

Em todos estes anos que tenho sido um jornalista, nunca soube da consciência pública ter se elevado tão rapidamente quanto agora. Sim, sua direção e forma aida não estão claras, parcialmente porque as pessoas agora estão profundamente suspeitosas das alternativas políticas e porque o Partdo Democrático tem tido sucesso em seduzir e dividir a esquerda eleitoral. E ainda que esta crescente consciência pública seja mais notável quando você considera a escala total da doutrinação, a mitologia de um modo superior de vida e o atual estado fabricado do medo.

Porque o New York Times veio limpo em seu editorial do ano passado? Não porque ele se oponha as guerras de Bush – olhe a cobertura sobre o Irã. Este editorial foi um raro reconhecimento de que o público estava começando a ver o papel oculto da media, e que as pessoas estavam começando a ler entre linhas.

Se o Irã é atacado, a reação e a rebelião não pode ser prevista. A segurança nacional e doméstica da diretiva presidencial dá a Bush o poder sobre todas as facetas do governo em uma emergência. Não é improvável que a Constituição seja suspensa. As leis para cercar dezenas de milhares dos chamados terroristas e combatentes inimigos já estão nos livros. Acredito que estes perigos sejam compreendidos pelo público. que tem seguido o caminho desde 11 de setembro. E um longo caminho desde a propaganda que ligou Saddam Hussein a al-Qaeda. Isto é o porque eles votaram para os democratas em nomembro passado e foram traídos. Mas eles precisam da verdade e os jornalistas devem ser os agentes da verdade, não os mensageiros do poder.

Acredito que um quinto estado seja possível, o produto de um movimento de pessoas, que monitore, desconstrua, e contenha a media corporativa. Em cada universidade, em cada faculdade de media, em cada sala de noticiário, os próprios jornalistas precisam se perguntar sobre a parte que eles agora desempenham no banho de sangue em nome de uma falsa objetividade. Um tal movimento dentro da media poderia ser o arauto de uma perestroika de um tipo que nunca conhecemos. Tudo isto é possível. Os silêncios devem ser quebrados

Na Bretanha a União Nacional dos Jornalistas tem passado por uma mudança readical, e tem pedido um boicote a Israel. O website Medialens.org tem sem qualquer ajuda chamado a BBC à responsabilidade. Nos EUA os espíritos maravilhosamente livres e rebeldes populam a web. Nao posso mencionar a todos aqui. da
International Clearing House de Tom Feeley, a ZNet de Mike Albert, ao CounterPunch online, e ao esplêndido trabalhado de FAIR.

A melhor reportagem sobre o Iraque aparece na web : o jornalismo corajoso de Dahr Jamaile e os relatos de cidadãos como Joe Wilding, que relatou o cerco de Fallujah de dentro da cidade.

Na Venezuela, as investigações de Greg Wilpert desfizeram grande parte da propaganda virulenta agora destinada a Hugo Chávez. Sem cometer engano, é uma ameaça a liberdade da expressão da maioria na
Venezuela que está por trás da campanha no ocidente em benefício do corrupto RCTV. O desafio para o resto de nós é levantar este conhecimento subjugado do subterrâneo e leva-lo às pesoas comuns.

Precisamos ter pressa. A Democracia Liberal está se movendo adiante em uma forma de ditadura corporativa.Isto é uma mudança histórica e a media não deve se permitir a ser sua fachada, mas ela própria se tornar uma divulgação popular indo na direção correta. O grande informante Tom Paine avisou que se fosse negada a verdade à maioria das pessoas e as idéias da verdade, era tempo de desencadear a Bastilha das palavras. Este tempo é agora.

John Pilger é um jornalista investigativo de renome internacional e faz documentários. Seu último filme foi A Guerra a Democracia. Seu livro imais recente é Liberdade na Próxima Vez (Bantam/Random House, 2006). Lei outros de John, ou visite o website de John .

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