A Descoberta de Gizé

A Descoberta de Gizé

Peter Goodgame

Parte I

A Busca pela Tumba Escondida
de Peter Goodgame

“Pessoalmente acredito que a camara secreta de Khufu está escondida dentro da pirâmide’ –  Zahi Hawass, de uma palestra na Filadélfia no início de julho de 2005

Em outubro de 2005 o mundo testemunhará um outro sério esforço para descobrir alguns dos mistérios que estão enterrados sob a rocha e areia em Gizé. Há uma possibilidade muito boa que este esforço não será em vão, e que resultará na maior descoberta arqueológica até hoje feita na história da humanidade. Esta série de artigos explicará o que possa ser esta descoberta e, mais importantemente, o que a descoberta pode significar para o mundo não apenas arqueológica e historicamente, mas espiritualmente também. Os maiores componentes do complexo de Gizé incluem as três maiores pirâmides e também a enigmática estátua de pedra maciçaconhecida ucomo a Esfinge. A Grande Pirâmide, a maior das três pirâmides principais, foi a primeira construida e também a última remanescente das Seta Maravilhas do Mundo Antigo. É um fato bem estabelecido que a Grande Pirâmide foi construída pelo Rei Khufu, da Quarta Dinastia egípcia, cujo reinado começou por volta de 2500 AC. O que não é um fato estabelecido, embora seja uma explicação comum, é que Khufu construiu a Grande Pirâmide para ser sua própria e pessoal câmara funerária. Este não era o propósito da Grande Pirâmide – a verdade é mais interessante. O próprio  Zahi Hawass explica que o Platô de Gizé era conhecido pelos egípcios como a ‘Casa de Osiris, Senhor dos Túneis Subterrâneos’. Então, se quisermos entender Gizé e a Grande Pirâmide devemos entender o antigo deus egípcio Osiris, muito mais do que focar em Khufu, o rei que meramente teve a tarefa de iniciar a construção deste monumento duradouro. Para começar estar história devemos voltar a 1998, quando o Dr. Hawass tinha acabado de fazer o que ele chamou de sua maior descoberta, uma descoberta que definitivamente diz respeito ao deus egípcio Osiris. Você deve estar perguntando? “Quem é o Dr. Zahi Hawass?’ Bem, seus títulos oficiais são Secretário Geral do Supremo Conselho das Antiguidades do Egito e Diretor da Escavação das Pirâmides de Gizé. E outras palavras, o Dr. Zahi Hawass é o homem principal no comando das antiguidades egípcias. Nada acontece arqueologicamente no Egito sem a aprovação dele e sua assinatura, e nada acontece em Gizé sem geralmente ele estar fisicamente presente, ou pessoalmente dirigindo a pesquisa ou escavação ou observando com um olho amigável e crítico.

O Corredor de Osiris

De volta a novembro de 1998 Hawass fez uma descoberta que ele relata em suas próprias palavras, como tomadas de uma divulgação a imprensa naquele tempo: ‘Tenho encontrado um poço, indo 29 metros verticamente para baixo para o solo, exatamente a meio caminho entre a Pirâmide de Kefren [a pirâmide média] e a Esfinge. No fundo, que estava cheio de água, temos encontrado uma câmara funerária com quatro pilares. No meio está um grande sarcófago de granito que espero ser a tumba de Osiris, o deus… Tenho estado escavando nas areias do Egito por mais de trinta anos e até hoje esta é a descoberta mais excitante que tenho feito… Encontramos o poço em novembro e começamos a bombear a água recentemente. Assim vários anos se passarão antes que tenhamos terminado de investigar a descoberta.’  Zahi Hawass acreditava naquele tempo que ele tinha encontratado o local funerário de Osiris, o deus, e ele se referiu a isto como a maior descoberta de sua inteira carreira. Esta descoberta eventualmente veio a ser conhecida mundialmente e a rede de televisão FOX transmitiu um programa especial em 2 de março de 1999 intitulado ‘A Abertura das Tumbas Perdidas: Ao Vivo do Egito’. O especial foi uma enorme sucesso para a FOX no que diga respeito aos niveis de audiência, mas no que diga respeito ao mundo academico isto foi uma dissimulação e um embaraço para a a arqueologia e a egiptologia, a despeito do que pareciam ser boas intenções de Zahi Hawass. A chamada tumba e o sarcófago de Osiris foi eventualmente explicado por Hawass como sendo ‘simbólicos’, provavelmente tendo sido usados para propósitos iniciáticos e/ou rituais como parte da religião egipcia, e datando de 2.000 anos depois da construção das pirâmides [665-525 AC]. De qualquer modo, o poço no qual ele foi localizado abria para túneis previamente não explorados mas o mundo ainda está esperando que Hawass faça uma apresentação pública documentando de onde vem estes túneis, quão extensos eles são, e para onde eles levam. Esta história não está morta, mas agora tem estado quieta por um tempo. Pra examinar isto posteriormente os leitores podem ler uma excelente série de artigos escritos por Nigel Skinner-Thompson chamada “The Shaft, The Subway & The Causeway,” ou eles podem ler um artigo intitulado “Ananda in the Hallway of Osiris” que contém uma narrativa em primeira pessoa do que contém os túneis e camaras e um número de fotografias coloridas. Desta aventura podemos deduzir que Zahi Hawass mantém uma crença que Osiris foi de fato uma figura histórica e que sua tumba, e possivelmente seu corpo mumificado, devem ainda existir em algum lugar dentro do complexo de Gizé. O que também está claro é que, por alguma razão  desconhecida, Hawass quer ter certeza que quando esta tumba seja encontrada o mundo inteiro seja capaz de observar quando seus conteúdos forem revelados.

A Iniciativa Francesa

Da passada excitação a respeito da possível descoberta da tumba de Osiris agora dirigimos a nossa atenção a atual excitação a respeito da ‘tumba de Khufu’. De 6 a 12 de setembro de 2004 o 9o. Congresso Internacional de Egiptologistas se reuniu em Grenoble, França. Esta conferência incluiu uma apresentação dada por dois pesquisadores franceses que publicaram sua teoria [e livro] que as anomalias estruturais sugeriam a existência de uma câmara oculta dentro da própria Grande Pirâmide. Gilles Dormion e Jean-Yves Verd’hurt admitem serem amadores em áreas tais como história, cultura e religião egípcias, mas a especialidade deles é no campo da arquitetura e o método deles tem alcançado sucesso no passado quando eles foram capazes de localizar duas câmaras então previamente desconhecidas na Pirâmide Meidum ao sul de Gizé. A teoria de Dormion e Verd’hurt é que a câmara escondida existe sob a Camara da Rainha em uma localização simbólica no próprio coração da Grande Pirâmide. Como evidência para isto eles argumentam o buraco no chão do nicho na parede leste da Camara da Rainha que foi usado para passar cordas através e instalar o que são chamados de “portcullis blocks” que são usados primariamente para bloquear as entradas e saídas das câmaras ou passagens. A teoria deles pareceu ter sido confirmada em setembro de 2000 quando o radar de sondagem de solo foi usado no chão da Câmara da Rainha revelando uma passagem ou vazio 3.5 metros abaixo. Dormion e Verd’hurt também forneceram evidência que as pedras de pavimentação da Câmara da Rainha tinham uma vez sido removidas para ganhar acesso a esta alegada passagem, o que é ilustrado em um artigo aqui localizado. Dormion e Verd’hurt parecem ter ganho o apoio de muito do estabelecimento Egiptológico Francês, incluindo Jean-Pierre Corteggiani do Instituto Francês de Arqueologia Oriental no Cairo e Nicolas Grimal o chefe de Egiptologia do Collège de France. Grimal até mesmo escreveu o prefácio do livro deles ‘A Câmara de Queóps’, escrevendo que as idéias deles, ‘podem levar, sem dúvida, a uma das maiores descobertas na Egiptologia’. Conquanto esta iniciativa francesa pareça ter evidência sólida e sustentação de alto nível de seu lado, ela inevitavelmente não irá a qualquer lugar sem o apoio do Dr. Zahi Hawass. Para testar a teoria deles a equipe francesa tem feito lobbby por uma permissão para perfurar o chão da Câmara da Rainha e Zahi Hawass, que esteve presente na conferência de Grenoble e ouviu a apresentação, se recusa a conceder. Há um par de razões pelas quais Hawass se opõe á iniciatica francesa. Em primeiro lugar, a teoria de Dormion é baseada na idéia de que os construtores egípcios da Grande Pirâmide eram incompetentes e que a localização da tumba de Khufu teve que ser mudada de sob a Câmara do Rei para sob a Câmara da Rainha porque a pirâmide exibia sinais de falha estrutural quando estava sendo construída. Esta possibilidade não é atraente para Hawass, ele próprio um egípcio, e nem é atraente a outros indivíduos consultados por Hawass, Mark Lehner dos EUA e Rainer Stadelmann da Alemanha, que Hawass considera os maiores especialistas na Grande Pirâmide. A outra razão porque Hawass se recusa a permitir a iniciativa francesa vai mais adiante, e é porque ele quer se concentrar em sua própria teoria de onde esta tumba escondida de Khufu possa ser encontrada, e buscando dentro da Grande Pirâmide.

A Iniciativa de Hawass

A atual teoria que Hawass mantém a respeito da localização da ‘Câmara Escondida de Khufu’ remonta ao UPUAUT Projeto de 1992-93 liderado por Rudolf Gantenbrink. Este foi o projeto no qual um robô foi enviado acima de dois poços anômalos que se projetam para cima e para fora, ao norte e ao sul, da Câmara da Rainha. Em 22 de março de 1993 este robô fez seu caminho ao fim do poço sul, 210 pés acima e a 54 pés da superfície da pirâmide, onde ele encontrou o que pareceu uma porta de pedra com cabos manuais. A subsequente testagem mostrou que esta ‘porta’ tinha apenas três polegadas de espessura. A descoberta de uma ‘porta’ no fim do ‘poço-estrela’ ao sul criou uma tempestade de atenção e debate na media, mas nada foi feito até 2002. Foi então qunado uma outra equipe especial de TV foi estabelecida, custeada pela  National Geographic Society e transmitida ao vivo, como antes, pela rede de TV FOX, em 16 de setembro de 2002. O mundo observou um robô subir o poço e perfurar um pequenino buraco pela “Porta de Gantenbrink” depois do que foi inserida uma câmera oferecendo imagens do outro lado. O que se mostrou foi simplesmente o fim de um poço na forma de um grosseiro bloco lavrado, desta vez sem cabos de metal. O robô também foi capaz de ascender com sucesso o poço norte e encontrou uma outra ‘porta’ lisa de pedra com cabos de metal. Contudo, neste caso, foi tomada a decisão de não perfurar a porta. Para trazer esta história atualizada devemos ir ao Museus de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia onde Zahi Hawass deu uma palestra em julho de 2005. Segundo um relato apresentado no ‘ The Daily Star’, foi então que Zahi Hawass expressou sua confiança que a ‘a câmara secreta de Khufu está dentro da pirâmide’. Hawass explicou que suas esperanças residem além do ‘fim’ do poço sul da Câmara da Rainha e o que está além da ‘porta’ no poço norte. Segundo Hawass, em outubro de 2005 um robô construido pela Universidade de Cingapura seria enviado pelos poços para escavar ambos os blocos. Desta vez, para evitar qualquer maior desapontamento como antes, Hawass diz que a perfuração não será transmitida ao vivo, mas os resultados serão anunciados em uma divulgação de imprensa. Contudo Hawass explicou que ‘se algo interessante for descoberto, iremos mostra-lo às pessoas de todo mundo’. Ao mesmo tempo que a perfuração estará ocorrendo na Grande Pirâmide haverá também uma equipe de Birmingham, Inglaterra, realizando mapeamento por radar em localizações selecionadas no platô de Gizé. Talvez isto tenha a ver com novos túneis que foram abertos com a descoberta da chamada ‘Tumba de Osiris?’

A Parede de Gizé

Seja o que for que possa estar guardado para Gizé este outubro, parece que Zahi Hawass e as autoridades egípcias tem estado se preparando para algo grande. Em 2002 a construção começou de uma maciça parede de segurança de concreto que cerca o platô de Gizé, que, por razões desconhecidas, também se estende ao deserto vazio para abranger toda a área de aproximadamente oito quilometros quadrados. O egiptologista e místico J.J. Hurtak comenta sobre esta parede dizendo que uma tal muralha nunca teria sido necessária para os turistas, mas somente para a preparação de uma maior descoberta: “A realidade psicológica dos guardas estacionados como sentinelas em intervalos ao longo da inteira muralha leva a intriga de uma maior feição de equipe cinematográfica, destinada a poucos especialistas que estão para encontrar uma esfinge subterrânea ou obelisco, ou uma conexão entre Osiris e a constelação de Orion, muito mais do que uma característica de porta aberta para milhares de estudantes internacionacionais bem comportados de história e de arqueologia que nunca tiveram a necessidade de serem extensamente controlados”. É agora em 2005 e esta parede deve agora estar quase que certamente completa. Que tipo de evento pode possivelmente ser programado para exigir um tal alto nível de segurança? Que tipo de descoberta possivelmente pode ser esperado? É interessante que Hurtak se referiu a possibilidade de encontrar evidência ligando Osiris a Orion. Esta conexão é algo bem conhecido por muitos pesquisadores da religião e da história do Egito antigo, mas ainda não é aceita pela principal comunidade academica de Egiptologia. No artigo seguinte examinaremos porque esta conexão é importante e argumentaremos que a Grande Pirâmide do Egito, se ela de fato foi construida como uma tumba, é mais provável de conter a múmia de Osiris, muito mais do que a de Khufu, o construtor da pirâmide.

Parte II

O Mito e a Religião de Osiris, o Deus

“Glória a ti, Osiris Un-nefer, o grande deus que habita dentro de Abtu (Abydos), tu, o rei da eternidade, tu, o senhor da eternidade, que passou por milhões de anos no curso de sua existência. Tu, o filho mais velho do útero de Nut, e que foi engendrando por Seb, o Ancestral… Deixa teu coração, oh Osiris, que está na Montanha de Amentet, estar contente, porque seu filho Horus está estabelecido no trono… Ele lidera em seu barco o que é e o que ainda não é… ele é excessivamente poderoso e o mais terrível em seu nome Osiris; ele durará para sempre e para sempre seu nome será ‘Un-nefer.’ Homenagem a vós, Oh Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Governante dos Príncipes, que do útero de Nut vieste para governar o Mundo e o Submundo. Louvações devem ser dadas a ti, Osiris, Senhor da Eternidade, Un-nefer-Heru-Khuti, cujas formas são muitas, e cujos atributos são majestosos… tu que guias o Submundo, a quem os deuses glorificam quando tu te pões na noite do céu de Nut… Aqueles que se tem deitado [isto é, os mortos] se levantam para te olhar, eles respiram o ar e olham tua face quando o disco se eleva no horizonte; seus corações estão em paz contanto que eles te observem. Oh tu que é a eternidade e a Eternidade’. – Hino a Osiris  do Livro Egípcio dos Mortos [1400 AC]

Quando as pirâmides de Gizé foram construidas pelos faraós da Quarta Dinastia (circa 2600-2500 AC) o centro da religião egípcia era localizado na cidade egípcia de Anu ou Innu, mais tarde conhecida pelos gregos como Heliópolis, a ‘Cidade do Sol’. Esta capital religiosa era localizada no lado oposto do Nilo do platô de Gizé a aproximadamente doze milhas a nordeste. As pirâmides foram construídas como um monumento religioso e se fomos completamente entende-las, devemos primeiro ter um entendimento básico das crenças religiosas egípcias daquele tempo.

A Religião Egípcia

Segundo o que é chamado Sistema Eneade de criação, que foi desenvolvido e promovido de Heliópolis, havia nove maiores deuses na chefia do panteão egípcio. O deus principal era Atum, também conhecido como Ra ou Re. Foi ele que emergiu sozinho do nada primordial e ele foi representado e venerado como o Sol. O estágio seguinte da criação de Atum foram os elementos ‘ar’ e ‘água’, deificados como o deus Shu e a deusa Tefnut. Desta união veio a geração seguinte das divindades egípcias que eram o deus Geb [também conhecido como Keb ou Seb] que representava a Terra e a deusa Nut ou Nuit, que era uma deificação do céu e paraíso. Este par, o céu e a terra, foram eventualmente separados, com a canópia do céu se arqueando sobre e cobrindo a terra prostrada. Foi da união de Geb e Nut que a história egípcia começou, porque antes de sua separação Nut ficou grávida e deu nascimento a quatro filhos: os irmãos Osiris e Set e as irmãs Isis e Neftis. Segundo antigas narrativas egípcias de cada era Osiris foi o próprio primeiro rei do Egito que governou sabiamente e compassivamente em uma primordial Idade Dourada referida como  Zep Tepi – “A Primeira Vez”

O Mito de Osiris

A história da vida e morte de Osiris é relatada no mito chamado “A História de Osiris e Isis”. Este mito é recontado em partes e pedaços pelo Egito em inscrições hieróglifas, em textos funerários em papiros, e em pinturas e esculturas, mas não é estabelecido em uma completa forma literária até o escritor grego Plutarco o resumir no primeiro século de nossa era. Brevemente, segundo esta versão do mito, quando Osiris apareceu na terra do Egito esta estava em um caos e as pessoas viviam como bárbaros ignorantes. Osiris civilizou os egípcios e trouxe ordem para a terra ao ensina-los a agricultura e a escrita, ao dar a eles um código de leis, e ao instrui-los na veneração apropriada dos deuses. Depois de seu grande sucesso na terra do Egito Osiris foi em uma jornada para civilizar e trazer ordem à inteira terra. Enquanto ele estava fora sua irmã/esposa Isis governou em seu lugar, enquanto seu ciumento irmão Set conspirava para se ver livre dele e tomar seu trono. Durante uma visita de retorno ao Egito Set realizou um banquete em honra de Osiris. Ele tinha secretamente medido o corpo de Osiris e tinha fabricado um maravilhoso baú para as exatas especificações dele. Durante a festa este baú foi trazido e admirado por todos. Como se de brincadeira Set ressaltou que ele daria este maravilhoso objeto seja quem for que coubesse perfeitamente dentro dele. Todo mundo na festa o tentou, mas somente Osiris se encaixou perfeitamente e então quando ele estava lá dentro Set, juntamente com 72 companheiros conspiradores, fechou a porta do bau e cerrou-o com pregos e chumbo derretido. Eles então carregaram o baú e o atiraram o rio, onde Osiris afundou e o baú foi carregado para o mar. Eventualmente este bau foi dar no litoral de Biblos, onde a vegetação litoranea o cercou e encobriu. Esta vegetação cresceu mais espessa até parecer um tronco de uma árvore, depois do que ela foi cortada com o bau escondido dentro, e instalada como um pilar na côrte de um rei local. Depois de uma série de eventos miraculosos eventualmente Isis encontrou o bau, recuperou o corpo de Osiris e o trouxe de volta ao Egito onde ela o escondeu. Infelizmente, enquanto caçava em uma noite o maligno Set encontrou o bau, descobriu o corpo de Osiris, o cortou em quatorze pedaços e os espalhou pela terra. Então Isis foi pela terra para recuperar os pedaços do corpo de seu marido/irmão e ergueu um templo ou tumba para Osiris em cada lugar que encontrou um pedaço. Ela encontrou cada pedaço do corpo de Osiris exceto o falo e magicamente os reuniu novamente. No lugar do falo ela criou um artificial e o consagrou aos deuses, depois do que ela copulou com Osiris e ficou grávida. O corpo de Osiris foi então mumificado e enterrado em um local não revelado, o que é a primeira referência histórica ou mitológica à prática da mumificação. Osiris foi então a primeira múmia do mundo, o que é um fato importante a lembrar. O filho que nasceu de Isis foi chamado Horus e ele foi criado em segredo até a idade adulta. O espírito de Osiris frequentemente visitaria seu filho, o instruindo em assuntos de guerra e no meio apropriado de governar como um rei. Horus gradualmwente tornou-se talentosa e reconhecidamente suficiente para desafiar seu tio Set, e expulsa-lo em um número de batalhas épicas. Horus eventualmente superou Set militarmente e então também legalmente, quando o Conselho dos Deuses deu a Horus a autoridade para governar a inteira terra do Egito. Osiris também foi recompensado pela virtude que ele apresentou em sua vida ao ser transformado em um deus e recebeu a autoridade para julgar os mortos e governar o Submundo. Desde então cada rei do Egito foi conhecido como um descendente de Horus e de Osiris.

Os Símbolos de Osiris

Na arte egípcia Osiris quase sempre é representado como uma figura que está mumificada em linho branco do seu pescoço para baixo, com apenas seus braços ou mãos desatados. Ele geralmente é mostrado usando uma coroa branca, o ‘hedjet’, que é a coroa que sempre se refere ao Egito Superior [sul do Egito]. Há também uma coroa vermelha, a ‘desret’, que é geralmente reservada para o Egito Inferior, e havia também uma coroa dupla, ‘a pschent’, que simbolizava a autoridade de quem a usava sobre ambos, o Egito Superior e o Inferior. Osiris quase sempre usa a coroa branca, e raramente a coroa vermelha, mas Horus é frequentemente apresentado usando a coroa dupla. Osiris também é representado com uma pele verde, que os egiptologistas explicam com o fato dele estar morto, ou uma alusão a seu papel como um deus agrícola. Osiris é frequentemente representado segurando um objeto curvo, ou bastão curvado, e um mangual. O objeto curvo era um instrumento de pastor, enquanto que o mangual era usado como um instrumento de trilhagem na agricultura. Estes se tornaram símbolos da realeza e foram adotados pelos faraós através das idades, inclusive por Tutankamon. As imagens de Osiris são frequentemente acompanhadas pelo símbolo hieroglífico conhecido como ‘ankh’, que parece uma cruz com uma volta no topo. Este símbolo hieroglífico é o antigo símbolo egípcio que significa ‘vida’ e era usado no caso de Osiris, como o é a cruz no cristianismo, para se referir a vida depois da morte e a vida eterna. Um outro símbolo usado em conexão com Osiris que tinha as mesmas conotações era a ave Bennu, ou fênix, o passaro legendário de presa que morre uma morte em chamas e sempre renasce das cinzas. Algumas narrativas afirmam que este pássaro primeiro emergiu do coração de Osiris, enquanto outras igualam o pássaro Bennu a alma de Ra-Atum. Como continuaremos a mostrar, o tema da ‘ressurreição’ é uma companhia constante da figura de Osiris. Um outro importnte símbolo para Osiris é a constelação de Orion. Como explicado na Parte I, esta é uma conexão ainda debatida dentro do campo da Egiptologia, ainda que a evidência pareça ser clara. Abaixo estão várias traduções de várias inscrições que datam aproximadamente de 2175-2350 AC. Eles são as mais iniciais referências a Osiris em existência e elas claramente conectam o deus com a constelação de Orion:  Expressão 219: “Em seu nome de habitante de Orion, com uma estação no céu e uma estação na terra. Oh Osiris, volte sua face e olhe este Rei, porque sua semente que saiu de você é eficaz”. Expressão 442: “Este Grande tem caído sobre seu lado, ele que está em Nedit é caido. Sua mão é tomada por Ra, sua cabeça é levantada por duas Eneades. Observe que ele vem como Orion, observe, Osiris tem vindo como Orion… Oh Rei, o céu lhe concebe com Orion, a luz do amanhecer o sustenta com Orion. Ele que vive, vive pelo comando dos deuses, e você vive. Você regularmente ascenderá com Orion da região leste do céu, você regularmente descenderá com Orion na região oeste do céu…’ Expressão 466: “Oh Rei, você é esta grande estrela, o companheiro de Orion, que atravessa o céu com Orion, que navega o Mundo dos Mortos com Osiris, você ascende a leste do céu, sendo renovado em sua devida estação e rejuvenecido em seu devido tempo. O céu tem lhe nascido com Orion, o ano tem posto um friso em você com Osiris, as mãos tem sido dadas a você, a dança tem ido a você, uma oferenda de comida é dada a você, o Grande Ancoradouro grita para você como Osiris em seu sofrimento’. Estas inscrições são parte de Textos da Pirâmide que são uma chave importante para revelar os mistérios da religião egípcia, a origem do Egito Dinástico, e a identidade histórica de Osiris, o homem que se tornou um deus.

Os Textos da Pirâmide

As três principais pirâmides de Gizé foram construídas durante a Quarta Dinastia do Egito (c.2600-2500 AC) e elas são curiosamente vazias de qualquer tipo de inscrições hieroglíficas ritualísticas. Menos de duzentos anos mais tarde um outro maior complexo de pirâmides começou a ser construido em Saqqara, aproximadamente a dez milhas a sudeste de Gizé. Ao todo cinco reis da Quinta e Sexta Dinastias eregiram cinco pirâmides principais neste novo local de culto. Estas pirâmides eram muito menores do que aquelas de Gizé e elas eram também diferentes pelo fato que as paredes e câmaras dentro destas piramides eram completamente cobertas com as inscrições que hoje cohecemos como textos das pirâmides. Havia mais de setecentos grupos de inscrições, conhecidas como ‘Expressões’, gravadas nestas cinco pirâmides e a maioria delas são encantamentos ou versos ritualísticos cujo propósito é assegurar o bem estar do rei morto no pós vida. Estranhamente, as próprias primeiras destas ‘expressões’ parecem ter muito em comum com as páginas iniciais do Novo Testamento: Expressão 1: ‘o Rei é o meu filho mais velho… ele é o meu amado, com quem eu estou muito agradado’. Expressão 2: “Recitação por Geb: O Rei é meu filho corporeo…’ Expressão 3: “… o Rei é o meu filho amado, meu primogenito sobre o trono de Geb, com quem eu estou agradado e a ele tem sido dada sua herança na presença da Grande Eneade. Todos os deuses estão em alegria e eles dizem: “Quão bom é o Rei! Seu pai Geb está agradado por ele’. Por todo o texto das pirâmides o Rei é o foco e seu relacionamento com os deuses é explicado. Ele é referido frequentemente como Osiris e Horus, e ele é referido repetidamente como o filho de Ra, o deus principal da Eneade, ou como filho de Geb, o deus da Terra da Eneade. Durante sua vida o Rei era visto como um tipo de Osiris/Horus vivo/reencarnado e então em sua morte ele tomava o lugar na Terra dos Mortos entre os deuses e estrelas depois de passar por um julgamento presidido por Osiris. Uma das mais importantes doutrinas da religião egípcia é assim desenvolvida, como explica o egiptologista francês Ledrain, “Osiris era o deus cujos sofrimentos e morte os egípcios esperavam que seu corpo pudesse se levantar novamente em alguma forma glorificada e transformada, e para ele que tinha conquistado a morte e tinha se tornado rei do outro mundo os egípcios apelavam em preces pela vida eterna por meio de sua vitória e poder. Em toda inscrição funerária que conhecemos, dos textos das pirâmides as preces grosseiramente escritas sobre os caixões do período romano, o que é feito para Osiris é também feito para o morto, o estado e condição de Osiris e o estado e condição do morto; em uma palavra o morto é identificado com Osiris. Se Osiris vive para sempre, o morto viverá para sempre; se Osiris morre, então o morto perecerá.

Gizé e o Culto de Osiris

A evidência que Gizé foi construída como um magnífico memorial a Osiris pode ser encontrada pela história egípcia. Em seu livro ‘ Secret Chamber'(1999), o autor e pesquisador Robert Bauval reune muito desta evidência e a organiza em um argumento formidável. Por exemplo, no ‘Livro dos Dois Caminhos’ que data de 2000 AC Bauval cita uma referência a “a Área Montanhosa de Aker, que é o lugar de habitação de Osiris” e um outro afirma ‘Osiris que está na área Montanhosa de Aker”. Bauval então se refere ao egiptologista Selim Hassam cuja pesquisa tem concluido que Aker, uma deidade em figura de leão apresentada frequentemente em conexão com Osiris e o Mundo dos Mortos, é mais provavelmente simbolizada pela Grande Esfinge, e que ‘a Área Montanhosa de Aker’ deve então se referir ao elevado platô de Gizé onde foram construidas a Esfinge e as pirâmides. Em outras palavras, Gizé é o lugar de habitação de Osiris. Uma outra referência vem da inscrição na Pedra Shabaka que data de 700 AC. Contudo, o escriba que gravou om texto afirma que a inscrição é uma cópia de um original anterior, um que os eruditos acreditam datar da idade das pirâmides: Esta é a terra ////// o funeral de Osiris na casa de Sokar. ////// Isis e Neftis sem demora, porque Osiris foi afogado em sua água. Isis e Neftis olham [o observam e o atendem] Horus fala para Isis e Neftis: “Apresse, agarre-o ////” Isis e Neftis falam a Osiris: “Viemos e o tomaremos /////”´ [Elas prestam atenção em tempo] e o trazem para [terra. Ele entrou nos portais ocultos na glória dos senhores da eternidade]. ///// [então Osiris veio a terra na fortaleza real ao norte de [da terra de onde ele veio]. Segundo este texto Osiris foi enterrado na “Casa de Sokar” depois que seu corpo tinha sido tomado por Isis e Neftis  e trazido a terra, onde ele entrou pelos portais ocultos e “veio a terra na fortaleza real”, que está ao norte da terra do Egito.

Os textos da pirâmide explicam que Sokar é meramente um outro nome para Osiris. Alguns pesquisadores atuais acreditam que Sokar era uma deidade antiga mas sua evidência é pequenina e baseada primariamente em conjecturas e suposições. Sokar pode ter sido o nome pelo qual os egipcios originalmente conheciam Osiris, e um de seus muitos aspectos, mas Sokar nunca foi completamente distinto de Osiris. Na Expressão 300 dos Textos da Pirâmide o rei, que é frequentemente identificado como Osiris, afirma: “… Sou Sokar de Rostau, estou ligado ao lugar que habita Sokar.” Na Expressão 532 a conexão é estabelecida ainda mais explícita: “… eles tem encontrado Osiris, seu irmão Seth tendo colocado-o baixo em Nedit; quando Osiris disse: “Afaste-se de mim” quando seu nome se tornou Sokar”. A “Casa de Sokar” portanto é a mesma “Casa de Osiris”. A questão seguinte é, o que é e onde é Rostau? Lembre-se que na Parte I Zahi Hawass foi citado como se referindo a Osiris como “Senhor dos Túneis Subterrâneos”? Bem, a palavra Rostau sinifica túneis subterrâneos, e o “Senhor de Rostau” é um dos muitos títulos mantidos por Osiris. “Rostau” era simplesmente um outro nome para o platô de Gizé e os muitos túneis sob ele. Este entendimento é esclarecido por uma estela que uma vez ficava entre as patas da Esfinge que é atribuiada a Tutmés IV (c.1400 AC). A linha sete desta estela afirma que a Esfinge jaz ‘ao lado da casa de Sokar… em Rostau”. Bauval acha prova posterior que Rostau se refere a Gizé nos chamados Textos do Caixão que foram inscritos nas camaras funerárias perdo do fim do Velho Reino (c.1800-2000 AC): “Eu sou Osiris, venho a Rostau para conhecer o segredo do Duat… Tenho vindo equipado com mágica, tenho saciado minha sede com ela, vivo no carvão branco, enchendo o Caminho de água Espiralado…”. “… no dia da ocultação dos mistérios do profundo lugar em Rostau… Sou ele [Osiris] que vê as coisas secretas em Rostau… E você que abre os caminhos e as trilhas para as almas perfeitas na Casa de Osiris”.  “… Sokar… está feliz e contente quando ele vê que esta mansão minha é fundada entre as águas… enquanto Sokar pertence a Rostau”.  “Tenho viajado pelas estradas de Rostau sobre a água e sobre a terra… estas são as estradas de Osiris e elas estão no céu…” “Tenho passado pelos caminhos de Rostau, seja sobre a água ou sobre a terra, e estes são os caminhos de Osiris, eles estão no limite do céu…” ” Não devo retornar aos portões do Duat. Ascendo aos céus com Orion… Sou um que cometa para si seu efluxo na frente de Rostau…”

Robert Bauval primeiro fez sua marca internacionalmente com o livro ‘O Mistério de Orion’, co-escrito com Adrian Gilbert em 1995. Este volume levou adiante a hipótese, que tem incessantemente conquistado apoio popular, que as três pirâmides de Gizé foram localizadas e construídas como uma representação deliberada dos três cinturões de estrelas de Orion na terra. Rostau, Gizé, a “área Montanhosa de Aker’, ‘A Casa de Sokar’ ou a “Casa de Osiris’, seja pelo nome que for que isso seja conhecido, foi construído para representar o céu sobre a terra. Bauval explica, “Gizé, a Rostau terrena, é localizada na margem leste do Rio Nilo. Então, por transposição, podemos deduzir que a celestial Rostau é uma região do céu estrelado na ‘margem’ oeste da Via Láctea. Sobretudo Gizé… é uma contraparte de uma porção do céu perto da Via Láctea que contém Orion, Sirius e a constelação de Taurus e Leo. Tudo então fortemente aponta para a idéia que somos convidados a considerar  esta região celestial como um tipo de ‘mapa de orientação’, um que talvez, possa nos levar a tumba ou lugar funerário de Osiris.

Muitos pesquisadores acreditam que a Tumba de Osiris, bem como seus restos corporais ou ‘efluxo’ serão encontrados e publicados em um futuro muito próximo. Contudo, há outras referências entre os Textos do Caixão que parecem afirmar que os restos de Osiris podem de fato ser sobrenaturalmente protegidos: “Isto é a coisa lacrada que está na escuridão, com fogo sobre ela, que contém o efluxo de Osiris, e foi colocada em Rostau. Ele tem estado oculta lá desde que caiu dele, e é dele que veio na areia do deserto; isto significa que pertence a ele [seu corpo] e foi colocad em Rostau…” E o Ecanto do Texto do Caixão 1080 “Esta é a palavra que está na escuridão. Já que qualquer espírito que a conheça; ele viverá entre os vivos. O fogo está sobre isso, que contém o efluxo de Osiris. Como para qualquer homem que deva saber disso, ele nunca perecerá lá, já que ele sabe o que deve estar em Rostau. Rostau está oculto desde que ele caiu lá… Ristau é um outro nome para Osiris…” Encanto dos Textos do Caixão 1087: Talvez não caiba a nós encontrar isso, mas a algo ou alguém mais permitir que isso seja encontrado, quando for o tempo certo”.

Os Mistérios de Osiris

Aqui está o que o celebrado Egiptologista E. A. Wallis Budge tinha a dizer sobre Osiris: “A única mais importante deidade do Egito” no ínício de seu livro “Osiris e a Ressurreição Egípcia”, pela primeira vez publicado em 1911 [e dedicado a Lionel Walter Rothschild]: “A literatura religiosa de todos os grandes períodos da história egípcia é cheia de alusões a incidentes ligados com a vida, morte e ressurreição de Osiris, o deus e juiz do morto egípcio; e do primeiro ao último os autores dos textos religiosos tomavam por garantido que seus leitores eram bem familiarizados com tais incidentes em todos os seus detalhes. Em nenhum texto encontramos qualquer história ligada ao deus e em nenhum lugar é afirmado em detalhe as razões porque ele assumiu sua posição exaltada como juiz de almas, ou porque, por quase quatro mil anos, ele permaneceu o grande tipo e símbolo da ressurreição. Não existe qualquer inscrição funerária, contudo anterior, na qual a evidência não possa ser encontrada provando que o falecido tinha colocado sua esperança de imortalidade em Osiris, e em nenhum tempo da longa história do Egito encontramos que a posição de Osiris foi usurpada por qualquer outro deus. Ao contrário, é Osiris que é feito usurpar os atributos e poderes dos outros deuses e ao traçar a sua história… devemos encontrar que a importância do culto deste deus cresceu em proporção ao crescimento do poder e riqueza do Egito, e que finalmente sua influência encheu a vida privada e nacional de seus habitantes, do Mar Mediterrâneo até a Sexta Catarata de Shablûkah. A fama de Osiris se estendeu as nações ao redor, e é nas mãos dos estrangeiros que estamos em débito de conectar, em resumo, narrativas de sua história”. Osiris tornou-se um dos deuses mais reverenciados do Egito e até mesmo pelo mundo civilizado no milênio anterior ao aparecimento do cristianismo, mas suas origens ainda permanecem obscuras. Era ele uma figura histórica, ou era ele um produto da imaginação do homem? Os antigos egípcios enfaticamente argumentariam que uma vez foi um homem de carne e osso e que morreu e tornou-se um deus. Robert Bauval concorda com este entendimento antigo sobre Osiris. Ele acredita que uma vez Osiris andou sobre a terra, mas como Budge ele está mistificado por muitos desconhecidos que cercam esta figura. Bauval escreve, “Há um grande paradoxo na Egiptologia que há muito não tem sido devidamente explicado. Embora a mais inicial referência a Osiris seja encontrada nos Textos da Pirâmide que datam de por volta 2300 AC, um estudo precipitado revela que a mitologia, doutrina, liturgia e rituais que eles contém não podem possivelmente terem se desenvolvido do dia para a noite, mas teriam requerido um longo processo de evolução intelectual e religiosa muita antes desta data. Embora todos Egiptologistas pareçam concordar com isso, nenhum pode concordar, contudo, a quanto tempo antes desta data este processo teria começado. Uma data temporária de por volta de 6.000 AC foi sugerida por Jane B. Sellers com base astronômica, mas uma data até mesmo mais anterior de 10.500 AC também baseada em considerações astronômicas é, na minha opinião, mais provável. Sobretudo, os Egiptologistas também estão faltando explicar porque em grandes quantidades de inscrições que são anteriores aos Textos das Pirâmides, nem uma única menção de Osiris tem sido encontrada. É como se o culto de Osiris, e seus rituais, doutrinas, liturgia e mitologia repentinamente se materializassem de nenhum lugar e, quase do dia para a noite, fossem prontamente adotados como a principal religião do Estado faraônico”. Na citação de Budge acima ele teorizou que as origens do culto de Osiris remontem a por volta de 4.000 AC. A citação de Bauval se refere a Sellers que acredita que o culto remonte de 6.000 AC enquanto que Bauval pessoalmente acredita que o culto de Osiris seja até mesmo tão anterior quanto 10.500 AC. Estas todas são conjecturas interessante, ainda que permaneça o fato como concede Bauval, que antes de 2300 AC entre as grandes quantidades de inscrições que tem sido encontradas, absolutamente nenhuma delas menciona ou se refere a Osiris ou ao seu alter ego Sokar. Com este fato em mente é muito mais provável então que a figura histórica de Osiris seja encontrada a apenas umas poucas centenas de anos, muito mais do que milenios, antes de seu aparecimento, completamente evoluído e completamente funcional, no coração da religião egípcia. A busca pelo Osiris histórico continuará no próximo seguimento.

Parte III

Os Salvadores do Mundo Antigo

“A figura central da antiga religião egípcia era Osiris, e os principais fundamentos de seu culto eram a crença em sua divindade, morte, ressurreição e absoluto controle dos destinos dos corpos e almas dos homens. O ponto central de cada religião Osiriana era sua esperança de ressurreição em um corpo transformado e de imortalidade, que apenas podia ser realizado por ele por meio da morte e ressurreição de Osiris”. – E. A. Wallace Budge, Osiris & the Egyptian Resurrection, 1973 (1911), Prefácio “Os filósofos do mundo antigo eram os mestres espirituais dos mistérios internos… No coração dos mistérios estavam os mitos relativos a um homem-deus que morre e ressuscita que era conhecido por diferentes nomes. No Egito ele era Osiris, na Grécia Dionísio, na Ásia Menor era Attis, na Síria era Adonis, na Itália Baco e na Pérsia Mitras. Fundamentalmente, todos estes homens-deuses são o mesmo ser mítico” – Timothy Freke and Peter Gandy, ‘ Jesus Mysteries – Was the Original Jesus a Pagan God?’, 1999, p.4

Antes do nascimento do cristianismo o mundo antigo estava cheio de mitologia, rituais, cerimônias e crenças religiosas que se conformavam em muitos níveis com o que mais tarde se tornaram as doutrinas fundamentais do cristianismo. Este fato pode ser desconhecido da maioria dos cristãos praticantes de hoje, ou ao menos ignorados, mas este tem sido um entendimento comum no mundo secular intelectual desde ao menos 1890. Este foi o ano em que o livro de Sir James G. Frazer ‘The Golden Bough’ foi pela primeira vez publicado. Neste volume, agora universalmente reconhecido como um clássico, Frazer se torna o primeiro erudito da corrente principal a ressaltar os temas comuns encontrados pelos mitos e histórias de muitas diferentes culturas, temas que antecedem o cristianismo mas que ainda assim são muito similares – o mais importante deles sendo a história de um deus que morre e ressuscita. As implicações da análise de Frazer foram rapidamente agarradas pelos seus contemporâneos que já estavam no processo de desmantelar a visão mundial judaico-cristã, auxiliados e abrigados pelas preconcepções materialistas de Darwin, Freud, Marx e Nietzsche. O papel de Frazer é provavelmente sub-apreciado mas sua influência contribuiu grandemente para a emergência da visão geral moderna secular filosófica de hoje, especialmente como ela existe dentro da academia. Desde a publicação do livro ‘ The Golden Bough’ muitos eruditos tem tomado a tese de Frazer, construido sobre ela, e proclamado muito mais nítidas e mais explícitas conclusões a respeito da ligação que certamente deve existir entre Jesus de Nazaré e o ‘Deus que Morre’ do paganismo. Abaixo está uma amostra de alguns dos livros que tem sido publicados durante anos que tem oferecido respostas a esta curiosa questão:
‘The Historical Jesus and the Mythical Christ’, Gerald Massey, 1900
‘Christianity Before Christ’, John G. Jackson, 1985
‘The Book Your Church Doesn’t Want You To Read’, editado por Tim C. Leedom, 1993
‘The Christ Conspiracy – The Greatest Story Ever Sold’, Acharya S, 1999
‘The Jesus Mysteries’, Timothy Freke and Peter Gandy, 1999
‘The Jesus Puzzle’, Earl Doherty, 1999
‘That Old-Time Religion’, Jordan Maxwell, 2000
‘The Truth Behind the Christ Myth’, Mark Amaru Pinkham, 2002
‘The Pagan Christ – Recovering the Lost Light’, Tom Harpur, 2005
‘The Messiah Myth’, Thomas L. Thompson, 2005
Os livros listados acima representam o trabalho de uma minoria de eruditos que são motivados frequentemente por suas próprias crenças religiosas e com um eixo a girar contra o cristianismo. Seus livros são destinados a uma audiência geral e eles não hesitam em promover teorias sensacionais ou controvertidas que frequentemente não resistem a um rigoroso exame crítico. Contudo, a lista acima representa apenas um lado, o lado radical, do debate academico que eventualmente se disseminou depois da publicação de Frazer de ‘The Golden Bough’.

O Real Debate

A mais recente análise erudita em escala completa do antigo fenômeno mitológico/religioso dos deuses que morrem e ressuscitam é um manuscrito academico de Tryggve N. D. Mettinger, Professor da Bíblia Hebraica da Universidade de Lund, Suécia, intitulado ‘The Riddle of Resurrection’ – “Dying and Rising Gods” in the Ancient Near East, publicado em 2001. Segundo Mettinger, a tese de Frazer, que deuses que morrem e ressuscitam eram uma maior elemento da religião pagã do Oriente Médio, permaneceu relativamente não desafiada por um número de anos até que ela sofreu um ‘severo ataque’ de um erudito francês chamado R. de Vaux em 1933. Então a partir daquele ponto isto levou ‘uma vida de certa modo precária’ até que isso aparentemente ‘morresse uma morte de mil ferimentos’ por meio de uma listagem na Enciclopédia de Religião Eliade (1987). Esta listagem, sob o título de ‘deuses que morrem e ressuscitam’ escrita pelo erudito Jonathan Z. Smith, afirmou resumir o atual consenso academico sobre a matéria, e o que isto tinha a dizer estava longe de ser favorável à tese de Frazer. Segundo J.Z. Smith, a inteira categoria de ‘deuses que morrem e ressuscitam’ era uma fabricação, e todas as deidades colocadas nesta categoria, depois de um exame estreito, provaram ser deuses que desapareceram e depois retornaram, mas não morreram, ou deidades que morreram e nunca ressuscitaram. Para Smith isto era um ou outro, mas nunca ambos, como Frazer havia afirmado, para uma multitude de deidades pagãs e o que aconteceu no caso de Jesus Cristo. Smith até mesmo afirmou que em alguns casos pareceu que Frazer estivesse ‘fortemente influenciado pelo desejo de demonstrar que o cristianismo não era uma inovação, mas que todas suas características essenciais eram para serem encontradas nas religiões anteriores’.  Se o artigo de J. Z. Smith de 1987 fosse a morte da tese de Frazer, então o trabalho subsequente de Mark S. Smith intitulado “The Death of ‘Dying and Rising Gods’ in the Biblical World,” publicado em 1998, era uma tentativa de enterrar isso de uma vez por todas. Neste trabalho M.S. Smith focalizou-se em todos as alegadas deidades que morrem e ressuscitam e foi capaz de alegar que morreram realmente, ou eles não ressuscitaram depois da morte. O século XX terminou com a tese de Frazer em uma condição muito maltratada. Mas que tal se a reação contra Frazer tenha ido longe demais na direção oposta? Isto é o que conclui Tryggve Mettinger no fim de sua análise sobre o atual status da erudição sobre os ‘deuses que morrem e ressuscitam’, que é um estado de coisas que o fez escrever seus livro ‘ The Riddle of Resurrection’ em primeiro lugar. Em seu livro Mettinger faz um exame meticuloso dos deuses do Oriente Médio que tem sido colocados de uma vez ou outra sob o título dos ‘deuses que morrem e ressuscitam’. Estes incluem o Baal Ugaritico,  Melqart-Heracles, Adonis, Eshmun-Asclepius, Dumuzi-Tammuz, e Osiris. Para Mettinger a questão é simples: há qualquer evidência, literaria ou inscricional, ritual ou mitológica que qualquer um destes deuses foi até mesmo entendido pelas pessoas que os veneravam como tendo realmente morrido e então retornado a vida novamente? Esta é uma pergunta simples, mas Mettinger não acredita que os eruditos que se colocaram reagindo contra a tese de Frazer tenham sido completamente honestos. Em seu livro Mettinger estabelece o registro direto e dá sua própria interpretação da evidência. Nós agora iremos adiante e examinaremos cada uma destas deidades e nos dirigiremos a alguns assuntos que influenciam se elas devem ou não serem vistas como ‘deuses que morrem e ressuscitam’. Nós também veremos como elas são estreitamente inter-relacionadas, a despeito de que uma delas seja Canaanita [Baal], três delas sejam fenícias (Melqart, Adonis e Eshmun), uma seja Suméria-Assíria (Dumuzi), e uma seja Egípcia (Osiris). Este é de fato o caso, como alega Tim Freke dentro da citação no título deste estudo que ‘Fundamentalmente todos estes homens-deuses são o mesmo ser mítico”?

Baal Ugaritico

Em aproximadamente 1.200 AC o complexo do Templo de Ras Shamra, no antigo porto sírio norte de Ugarit, foi catastroficamente destruído e enterrado. Quando este sítio foi finalmente escavado pelos arqueologistas em 1929 um tesouro floresceu de textos antigos que foram desenterrados e se tornaram a fonte primária para os historiadores estudarem a religião dos antigos Canaanitas e Fenícios. O que eles tem descoberto é que a cultura canaanita tinha uma visão altamente estruturada do universo, dos deuses, e do relacionamento da humanidade com ambos. O panteão canaanita era uma estrutura hierárquica de quatro níveis. No topo estava o grande antigo deus El, com sua consorte a deusa mãe Asherah. El era descrito como o pai dos deuses, ainda que ele não tivesse um papel muito ativo nos assuntos do mundo e os eruditos o tenham rotulado como uma deidade ‘supérflua’. Ele era uma figura principal apenas e permanecia longe removido e inativo. O segundo nível era composto pelos setenta filhos de El e Asherah. Estes eram os grandes deuses que tinham um papel ativo nos assuntos humanos. Cada um deles tinha alocadas áreas de atividade e eles constantemente lutavam uns com os outros direta bem como indiretamente por meio da manipulação dos seres humanos. O terceiro nível consistia de deidades menores, os anjos, que agiam como serventes, mensageiros e soldados a pé dos deuses, e cada deus tinha um grupo enorme deles. O quarto nível era o nível no qual os seres humanos existiam. Eramos escravos e propriedades dos deuses. A sociedade humana também estava organizada em uma estrutura hierárquica, com um sacerdócio ditando a vontade dos deuses, uma monarquia que assegurava que esta fosse obedecida, e uma complicada rede de serviço civil de oficiais e escribas assegurando a organização, a eficiência e a piedade. Na religião canaanita El era honrado e venerado mas não era reconhecido como a principal figura divina que governava diretamente sobre os deuses e a humanidade. Esta principal figura divina era o deus Baal, e este é o mito conhecido como o Ciclo de Baal que explica como Baal se elevou para se tornar universalmente conhecido “Rei dos Deuses’. É também deste mito que existe a evidência de colocar Baal dentro da categoria dos ‘deuses que morrem e ressuscitam’. O Ciclo de Baal começa com o mundo em um período de transição. El está olhando carinhosamente na direção de uma ‘aposentadoria’ e então ele indica o deus Yam, seu filho, como seu sucessor para agir como Rei dos Deuses. Yam assume a cabeça do panteão mas governa o mundo como um tirano. Asherah, a rainha mãe, tenta apasiguar Yam, seu filho, ao se oferecer como um sacrifício mas ela é evitada por Baal, que então confronta Yam e o derrota em uma batalha depois de uma complicada série de eventos. Baal assume como Rei dos Deuses mas então ele é confrontado pelo novo favorito de El que é Mot, o deus do Submundo. O que acontece a seguir é discutido pelos eruditos. Os textos antigos são claros que Mot é vitorioso e que Baal desaparece por um período de tempo, mas se Baal realmente foi morto e seu período de desaparecimento foi passado no Submundo?  O que acontece a seguir é discutido pelos eruditos. Depois de considerar a evidência de muitas fontes diferentes, Mettinger faz um argumento muito convincente que Baal de fato foi morto e que ele existiu no Submundo antes de ser ressuscitado. Para Mettinger, o Baal Ugaritico é de fato ‘um deus morto e ressurecto’.

Uma outra maior questão que os eruditos discutem é a fonte e evolução do mito de Baal. Como esta veneração de Baal evoluiu e porque os canaanitas criaram uma história de um deus usurpador que se elevou em oposição como Rei dos Deuses? Os eruditos modernos tem concluido que Baal tem muito em comum com o deus babilonio Marduk cuja ascendência a releza divina é relatada no épico da criação babilônica Enuma Elish, que é anterior ao Ciclo de Baal de Ugarit. No Enuma Elish Marduk é o filho de Ea/Enki que é um dos primários deuses sumérios, que examinaremos em um artigo futuro. Historiadores antigos tais como Philo de Biblos, Plutarco de Delfo e Berissus da Babilonia todos concordam que Baal e Marduk eram de fato o mesmo deus.

Melqart de Tiro

Os Canaanitas eram habitantes do Levante ao tempo do êxodus hebreu do Egito e seus assentamentos se estendiam do que agora é o sul de Israel todo caminho até o norte da Síria. Há muitos paralelos entre os fenícios e os canaanitas e frequentemente eles parecem ser da mesma cultura. Contudo a seguinte distinção pode ser feita: os canaanitas eram primariamente habitantes de terra a dentro que eram mais influenciados pelos babilonios e os assírios enquanto que os fenícios eram habitantes costeiros das cidades portuárias de Tiro, Sidon, Biblos e Aradus, conhecidos por seus talentos como navegadores e por suas atividades como colonizadores da inteira bacia mediterrânea. Portanto os fenícios eram mais influenciados pelos egípcios, como opostos a Babilonia e a Assíria, e eles por sua vez tiveram uma grande influência sobre os gregos. Os Fenícios parecem terem reconhecido Baal como a deidade principal de seu panteão, ainda que cada cidade fenícia também venerasse um único deus da cidade que eles reverenciavam especialmente. Em Tiro o nome deste deus era Melqart. Os gregos o conheciam como Heracles [o Hercules romano] e de seus contactos fenícios eles absorveram Heracles em seu próprio panteão cedo e criaram uma identidade separada para ele durante séculos. Os historiadores antigos eram portanto sempre cuidadosos em fazer distinção entre o Grego Heracles e o Melqart de Tiro. A história de Melqart é muito mais misteriosa do que aquela de Baal, Markuk ou Osiris, porque elas não são narrativas mitológicas em completa extensão de sua carreira e tudo o que temos são pedaços e partes. Em sua análise Mettinger se refere a Philo de Biblos que escreveu que, “Demarous tinha um filho Melkarthos, que é também conhecido como Heracles.” No Ugarit Baal é referido como Dmrn, que significa “O Guerreiro” e disto Mettinger conclui que podemos ter uma tradição aqui que Melqart era uma vez conhecido como filho de Baal. O que é importante para este estudo, contudo, é se Melqart era ou não visto como um deus ‘morto e ressuscitado’. Mettinger se refere a duas tradições diferentes que descrevem a ‘morte’ de Melqart. Ele primeiro oferece a seguinte citação de Edoxus de Cnidus de uma inscrição datando de de por volta 200 AC,  “… os Fenícios sacrificam codornas a Heracles, porque Heracles, o filho de Asteria e Zeus, foi a Líbia e foi morto por Typhon, mas Iolaus trouxe uma codorna para ele, e a tendo colocado perto dele, ele sentiu o cheiro dela e voltou novamente a vida”.

A referência é aos fenícios, e isto, mais a evidência de outras fontes antigas, torna claro que esta tradição se refere ao Heracles de Tiro que é Melqart. Sua morte é dada como tendo sido inflingida por Typhon que paraleliza as tradições de Osiris sendo morto por Set e Baal sendo morto por Mot. Typhon era um deus grego que era visto pelos mesmo antigos historiadores como o mesmo deus egípcio Set, enquanto há paralelos entre Typhon e Mot também. A segunda tradição a respeito da morte de Melqart parece ter se desenvolvido da prática fenícia de cremação e Mettinger dá um número de fontes que descrevem a morte pelo fogo como o fim final de Melqart. Em resumo, é muito bem atestado que Melqart era entendido ao menos como um ‘deus que morre’. A evidência que Melqart também era entendido como um ‘deus que ressuscita’ é muito interessante mas de certo modo controvertida, embora não para Mettinger. Isto tem a ver com a tradição ritual conhecida pelos fenícios como ‘O Despertar de Heracles”. Esta tradição é relatada pelo historiador judeu Josephus e é uma das diferentes traduções de uma passagem de seu livro ‘Antiguidades dos Judeus”. Ele se refere ao tempo do Rei Salomão e as atividades do Rei Hiram de Tiro, “Ele [Hiram] construiu o templo de Hercules e aquele de Astarte, e ele foi o primeiro a celebrar o Despertar de Heracles no mês de Peritius”. Em apoio a esta tradução Mettinger também se refere a outras várias inscrições que aludem ao culto de Heracles e mencionam uma pessoa específica conhecida como “Despertador” ou “Ressuscitador” de Heracles. Mettinger resume isto deste modo, “Nossa conlusão é que haja certas razões para acreditar que havia, na principal terra fenícia e na Palestina, nos tempos helenisticos, uma celebração cultica referente ao despertar de um deus, uma celebração na qual algum agente era referido como o ‘despertador’, ‘o ressuscitador’ de Heracles. O Velho Testamento também oferece evidência que os fenícios veneravam um deus que era sabido estar adormecido e precisava ser despertado. Em Reis 18:19-46 o profeta Elias enfrentou o Rei Ahab, que era casado com Jesebel, uma princesa de Tiro. Ahab e Jesebel tinham levado Israel a idolatria pela veneração de Baal e Elias foi chamado para demonstrar que o Senhor Deus de Israel era de fato o verdadeiro deus de Israel. Elias foi capaz de convencer Ahab em concordar com uma divina revelação dos fatos no topo do Monte Carmelo perto do mar ao sul de Tiro. Dois altares foram preparados, um para Baal e o outro para o deus de Israel, e Elias desafiou os 450 profetas de Baal a chamarem o fogo do céu em nome de Baal e queimar seus sacrifícios. Depois que os profetas de Baal tinham rezado e saltado ao redor por toda manhã, sem sucesso apelando a Baal pelo milagre do fogo, Elias começou a zombar deles dizendo: “Chamem com uma voz alta, porque ele é um deus; ou ele está ocupado ou foi a outro lugar, ou ele está em uma viagem ou talvez esteja adormecido e precise ser acordado.”

O lembrete final de Elias foi um insulto dirigido especificamente para a veneração de Tiro de Melqart/Heracles, que era conhecido estar ‘adormecido’ e que era ritualmente ‘despertado’ durante a anual cerimonia cultica da cidade de Tiro.  Neste evento particular no topo do Monte Carmelo nem Melqart e e nem Baal [talvez Melqart fosse o Baal de Tiro] respondeu aos esforços de seus sacerdotes, mas o fogo desceu do céu depois que Elias ofereceu uma rápida palavra de prece, que queimou os sacrifícios, as pedras do altar, e as cercanias da trincheira cheia de água.

Adonis de Biblos

Adonis é o segundo deus fenício de uma cidade que examinaremos. Seu centro original de culto era Biblos, localizado aproximadamente a 20 milhas ao norte da moderna cidade de Beirute, no Líbano. Mettinger explica que há duas versões diferentes do mito de Adonis que explicam sua relação com o Submundo e a categoria dos ‘deuses mortos e resurrectos”. Um versão simplesmente afirma que Adonis era um jovem caçador que foi morto por um porco do mato e esta versão do mito é depois elaborada pelo trabalho do segundo século de Lucian, ‘De Dea Syria’, “Vi… em Biblos um grande santuário… no qual eles realizam os ritos de Adonis… Eles dizem… que o que porco do mato fez a Adonis ocorreu no território deles. Como um memorial de seu sofrimento, a cada ano eles batem em seus peitos, lamentam e celebram os ritos… eles primeiro sacrificam a Adonis como se fosse uma pessoa morta, mas então, no dia seguinte, eles proclamam que ele vive e o enviam ao ar… Há também uma outra maravilha na terra de Biblos. Um rio do Monte Líbano se esvazia no mar. Adonis é o nome dado ao rio. A cada ano o rio se torna vermelho sangue e, tendo mudado sua cor, flui para dentro do mar e avermelha grande parte dele, dando um sinal para as lamentações dos habitantes de Biblos. Eles contam a história que neste dias Adonis está sendo ferido lá no Monte Líbano…”.  A outra versão é muito mais antiga e um sumário dela vem do autor do quinto século AC Panyassis: Algum dia quando Adonis ainda era uma criança Afrodite, pelo amor de sua beleza, o escondeu em um baú desconhecido pelos deuses e o confiou a Perséfone. Mas quando Perséfone o observou, ela não o devolveu. O caso então foi levado diante de Zeus, e o ano foi divido em três partes, de forma que Adonis pudesse estar por ele próprio uma parte do ano, com Perséfone uma outra parte e com Afrodite na parte remanescente. Contudo Adonis deu a sua própria parte em adição a de Afrodite. Por esta razão Adonis pode ser contado entre aqueles que estavam no Submundo e voltam para estar entre os vivos. Perséfone era a esposa de Hades, o deus grego do Submundo, que é o porque é dito que Adonis passa um terço do ano lá. Mettinger cita do escritor cristão Cirilo de Alexandria que se referir a um festival pagão alexandrino que foi baseado neste mito. Ele começava com o choro e o lamento em benefício de Afrodite pela perda de seu filho e então terminava com ela se regozijando depois de ter voltado do Submundo o tendo encontrado. Origenes e Jeronimo são dois outros escritores cristãos iniciais que perceberam o mito de Adonis e o ritual de ambos, em seus comentários sobre Ezequiel 8:14, igualaram Adonis com o deus sumério Tammuz. Eles também claramente identificaram Adonis/Tammuz como uma deidade ‘que morre e ressuscita’ no culto de Adonis. Isto desperta o seguinte comentário: “Devemos entender que os cultos de Adonis foram expostos a forte competição da Igreja Cristã. Poderia a noção da ressurreição de Adonis talvez ser uma caratéristica ‘confiscada’ do cristianismo? Para responder esta pergunta temos que perguntar se temos ou não razão para pensar que Adonis era um deus morto e ressurrecto já em tempos pré-cristãos. Ao fim de sua análise Mettinger conclui que simplesmente não existem dados suficientes sobre o culto inicial de Adonis para dar uma resposta conclusiva a esta última pergunta.

Eshmun de Sidon

Eshmun é o terceiro deus de cidade fenícia que examinaremos que é alegado por muitos eruditos pertencer a categoria dos ‘deuses mortos e ressurrectos’. Sua sede primária de culto é a cidade fenícia de Sidon, mas ele era reverenciado por todo Oriente Medio. Ele era conhecido pelos gregos como o deus Asclepius, um deus notado pelos seus poderes de cura. Uma narrativa curta e útil de sua vida vem de Damascius, um filosofo neo-platônico do quinto século da nossa era, “Asclepius de Berytus, ele diz, nem era grego e nem egípcio, mas um nativo fenício. Porque os filhos de Sadykos eram nascidos, que eram explicados como Dioscouri e Kabeiri. Então como o oitavo filho, Esmounos nasceu [dele]; e Esmounos é interpretado como Asclepius. Ele era de muito boa aparência, um jovem homem de feições admiráveis, e portanto se tornou, segundo o mito, o querido de Astronoe, a deusa fenícia, a mãe dos deuses. Ele costumava ir caçar nestes vales. Então uma vez aconteceu que ele descobriu a deusa o buscando. Ele fugiu, mas quando ele viu que ela continuava a caça-lo e estava a ponto de pega-lo, ele cortou seus próprios genitais com um machado. Grandemente aborrecida pelo que tinha acontecido, ela chamou Paian e recompôs a vida do jovem homem por meio do calor que traz a vida e fez dele um deus. Os fenícios o chamam de Esmounos por causa do calor da vida. Outros, novamente, interpretam Esmounos como ‘o oitavo’ explicando que ele era o oitavo filho de Sadykos.

Mettinger é cauteloso em aceitar demais a narrativa de Damascius como face de valor. Talvez o devolver a vida de Asclepius fosse apenas a cura de seus ferimentos. Outras fontes devem ser apresentadas se vamos concluir que Eshmun é de fato um ‘deus morto e ressurecto’, o que Mettinger imediatamente fornece. A primeira referência é simplesmente aquela de um nome de lugar libanês que deve certamente datar de tempos antigos, conhecido como Qabr Smun, localizado a quinze quilometros a sudeste de Beirute. O nome é traduzido como ‘A Tumba de Esmun”. Se Eshmun uma vez teve uma tumba, então ele uma vez deve ter morrido. Mettinger encontra uma segunda referência nos escritos de um erudito islâmico medieval que cita de um trabalho do segundo século de Galeno. Estas curtas linhas atestam a ressurreição de Eshmun, “É geralmente conhecido que Asclepius foi elevado pelos anjos em uma coluna de fogo, de modo similar ao relatado sobre Dionísio, Heracles e outros…” Metinger concede que a informação sobre Eshmun é muito limitada e que provavelmente não seja suficiente para oferecer firmes conclusões. Contudo, o nosso entendimento de Eshmun pode ser suplementado se aceitamos que Eshmun fosse provavelmente muito estreitamente relacionado a Baal e também a Melqart. Então, em dois tratados entre a Assíria… e cidades a oeste encontramos Meqart e Eshmun juntos. O que é provavelmente uma relação de genes, é encontrada em Cypros [Kition] durante o quarto século AC. Este nome duplo pode ser entendido de modos diferentes. Em qualquer caso, ele parece testificar uma proximidade cultica ou até mesmo uma fusão dos deuses Eshmun e Melqart. Esta proximidade cultica pode indicar que os dois deuses eram amplamente do mesmo tipo. O fato de que ambos tenham Ashtart como esposa apoia esta assunção. O que sabemos de Melqart como um deidade que morre e ressuscita pode então lançar luz sobre Eshmun. Mas admitidamente, esta última possibilidade é altamente hipotética.

Dumuzi da Sumeria

Agora nos voltamos a um dos muito mais antigos deuses ‘que morrem e ressuscitam’ do antigo Oriente Médio – Dumuzi da Suméria. O texto mais inicial que relata a história de Dumuzzi e suas ligações como Submundo vem de um poema sumério chamado a Descida de Inanna [ou a Herança de Inanna] que tem sido datado do século XXI AC. Esta história envolve as figuras sumérias que se tornarão muito mais familiares em artigos futuros, mas por agora aqui está a história básica: Inanna, a deusa e rainha da Suméria um dia determinou se apoderar do Submundo. Ele reuniu tudo que precisava e abandonou suas responsabilidades na terra e no céu e ele passou pelos setes portões. A cada portão era exigido que ela deixasse algo para trás e quando ela finalmente ficou diante de sua irmã gemea Ereshkigal, a Rainha do Submundo, ela estava completamente nua. Inanna forçou sua irmã para fora de seu trono no Submundo e tomou o lugar dela. Então sete juízes Annunakis apareceram e tomaram uma dura decisão contra Inanna, acusando-a de abuso de poder. Eles deram a ela a aparência da morte e penduraram seu cadáver em um gancho, devolvendo o trono a Ereshkigal. Depois de saber que Inanna estava sendo mantida sem vida no Submundo o ministro dela Nincubura se aproximou dos deuses sumérios Enlil e Nana por ajuda, mas eles se recusaram. Somente depois de se aproximar de Enki em sua cidade sagrada de Eridu, Nincubura encontrou esperança. Depois de ouvir Nincubura, Enki criou dois resgatantes da terra sob as pontas de seus dedos, dando a um deles a água da vida e ao outro o alimento da vida. Eles então foram enviados e com sucesso entraram no submundo encontrando Inanna e dando a ela a água e o alimento da vida depois do que ela foi trazida de novo à superfície. Depois de escapar do Submundo Inanna descobriu que ela estava sendo caçada por demonios que exigiam leva-la de novo para o Submundo. Inanna barganhou com eles e descobriu que eles voluntariamente aceitariam um substituto, mas ela hesitou ao pensar que os demonios levassem alguém que ela amava. Contudo, ela finalmente concordou que eles levassem o marido dela, Dumuzzi, o rei humano da Suméria, em seu lugar. Logo depois de ter entregue Dumuzzi, Inanna sentiu-se culpada e lamentou a perda de seu marido; então ela decretou que a irmã de seu marido Geshtinanna devia ser uma segunda substituta e eles deviam cada um servir metade de cada ano no Submundo. Na ‘Descida de Inanna’ Dumuzzi aparece apenas como uma figura secundária, mas a coisa importante é o resultado final e como isto foi refletido na religião suméria e nas religiões assiria e babilonia que a seguiram. Está claro de textos posteriores, bem como do Velho Testamento, que Damuzzi, mais tarde conhecido como Tammuz, era lamentado a cado ano pelo aniversário de sua entrada no Submundo [sua morte] e então celebrado a cada ano no seu reaparecimento do Submundo [sua ressurreição]. Isto é o bastante para muitos eruditos classifica-lo como um ‘deus morto e ressurrecto’.  Mettinger é mais cuidadoso em chegar a uma conclusão e ele primeiro considera a questão se Dumuzzi era ou não um verdadeiro deus. Os textos são claros que Dumuzzi, embora um rei mítico, ainda era um ser humano. Seu nome até mesmo aparece na lista dos Reis Sumérios como o governante inicial depois do Dilúvio que imediatamente precedeu o herói Gilgamesh:  1) Meskiagkasher, filho de Utu, se tornou alto sacerdote e rei e reinou 324 anos … 2) Enmerkar, filho de Meskiagkasher, rei de Uruk, aquele que construiu Uruk – reinou 420 anos 3) Lugalbanda, um pastor – reinou 1200 anos  4) Dumuzzi, o […], sua cidade era Kua[ra] – reinou  100 anos 5) Gilgamesh, seu pai era um ‘lillu-demon’, um alto sacerdote de Kullab – reinou 126 anos

Até mesmo embora Dumuzzi fosse claramente um ser humano Metinger argumenta que ele ainda era reconhecido como um deus pels sumérios e grupos posteriores. A distinção suméria entre humanos e divinos nem sempre era clara, mais ainda temos o caso de Gilgamesh que nasceu parcialmente divino mas ainda era completamente venerado como um deus. Mettinger conclui que o culto de Dumuzzi tinha dado a ele o reconhecimento de um deus. Dumuzzi/Tammuz também possuia um número de caraterísticas que paralelizam com outros ‘deuses mortos e ressurrectos’ que temos analisado. Por exemplo, Dumuzzi e Adonis eram ditos viverem uma parte de suas vidas no Submundo. Com Dumuzzi isto era metade do ano e com Adonis era um terço. Também, o ritual de lamentação de Tammuz era realizado no verão, que era o mesmo tempo em que a celebração anual de lamentação de Adonis acontecia, enquanto que a ressurreição de Tammuz deve ter acontecido no inverno, perto do mês de Peritius [fevereiro-março] quando a celebração do ‘Despertar de Heracles” acontecia, Recorde também que Origines e Jeronimo [veja acima Adonis] claramente acreditavam que Adonis e Tammmuz eram a mesma figura.

Osiris do Egito

Osiris é claramete o mais velho [de antes de 2500 AC] e provavelmente o mais entendido de todos dos alegados ‘deuses mortos e ressurrectos’ do antigo Oriente Médio. Seu mito foi relacionado na Parte II, então não temos necessidade de cobrir isto novamente aqui. Porque Osiris era o mais velho desta classe de deuses então podemos esperar que seu culto fosse também o mais infuente, que é o que encontramos quando comparamos Osiris com membros do resto do grupo. A respeito de Adonis de Biblos descobrimos que há conexões entre Biblos e o Egito que alcançam profundamente de volta a antiguidade. Mettinger escreve que ‘devemos calcular com a possível presença de um culto a Osiris em Biblos da antiga Idade de Bronze em diante, talvez até mesmo mais cedo”. Mettinger também se refere novamente ao trabalho de Damascius, ‘De Dea Syria’, no qual foi escrito que “há alguns habitantes de Biblos que dizem que o Osiris egípcio está enterrado entre eles e que todos os lamentos e ritos eram realizados não para Adonis mas para Osiris”. Damascius também escreve que os veneradores de Adonis raspavam suas próprias cabeças para a cerimonia anual da mesma maneira que eles o faziam no Egito.  Há várias conexões entre os mitos de Osiris e Adonis que existem. Em primeiro lugar, segundo a versão de Plutarco, o caixão fúnebre de Osiris depois de deixar o Egito foi banhado em Biblos, e foi lá que Isis recuperou o corpo de Osiris. Também, o próprio nome Biblos significa papiro em grego, e a cidade provavelmente recebeu este nome por causa que em tempos antigos ela era o principal distribuidor dos papiros egípcios na região. Há também evidência que Biblos foi uma vez talvez uma colônia ou até mesmo uma propriedade do Egito. Mettinger explica que em Biblos ‘o governante local usa a linguagem egípcia e a escrita, reconhece o faraó como seu senhor por direito, e carrega o título de um oficial egípcio… Nas cartas de Amarna, o governante de Biblos diz que Biblos é como Menfis para o rei [faraó]”. Dizer então que Osiris e Adonis são figuras que se desenvolveram separadamente, mas da mesma fonte antiga, é certamente uma conclusão razoável.

A cidade fenícia de Biblos era localizada ao norte de suas cidades irmãs Sidon e Tiro, e todos os três destes deuses primários das cidades: Adonis, Eshmun e Melqart eram estreitamente relacionados, se não originalmente o mesmo. Sobretudo, todos eles parecem estar ligados a Osiris. A conexão entre Osiris e Eshmun existe no nível mítico e é talvez a menos óbvia das três. Depois que o corpo de Osiris foi trazido de volta de Biblos para o Egito, ele foi descoberto por Set que o cortou em quatorze pedaços  que então foram espalhados pela terra. Todos estes pedaços foram então encontrados por Isis exceto o falo. No mito de Eshmun também encontramos uma ênfase no falo, quando Eshmun corta seus próprios genitais após estar prestes a ser capturado por sua perseguidora, a deusa Astrone, que é Asthart, que então se torna esposa de Eshmun, que é simplesmente a versão fenícia de Isis, a esposa de Osiris. No mito grego Eshmun é conhecido como Asclepius e, como exploraremos mais tarde, uma estranha conexão entre Asclepius e Gizé é dada nos escritos herméticos que datam dos séculos segundo e terceiro de nossa era. Quando isto vem a Melqart/Heracles há também uma extensiva evidência que o liga a Osiris. Nós já temos visto que há um alto funcionário do culto em Tiro que era conhecido como ‘O Despertador’ ou ‘Ressuscitador’ de Melqart. Mettinger ressalta que no quarto século AC inscrições de Tiro no qual o líder do culto se refere especificamente ao deus Osiris como ‘meu senhor Osiris’. Mettinger também considera se haveria uma conexão entre os rituais de Tiro do ‘despertar de Melqart/Heracles’  e numerosas litanias de ‘levante-se’ encontradas no culto de Osiris, especialmente dentro dos Textos da Pirâmide. Abaixo estão apenas uns poucos exemplos: Expressão 498: “Desperta Osiris! Desperta oh rei! Fique  de pé e se sente, atire fora da terra o que está com você! Venho e lhe dou [o olho de] Horus… Vá, tome este pão seu de mim”. Expressão 532: “Levante-se, oh Osiris, o filho primogenito de Geb, para quem as Duas Eneades tremem… Seus mão é tomada pelas almas de On, sua mão é agarrada por Ra, sua cabeça é levantada pelas duas eneades e eles tem estabelecido você, Oh Osiris, na cabeça do Conclave das Almas de On. Viva, viva e levante-se!” Expressão 603: “Levante-se, Oh meu pai o Rei, costure sua cabeça, reuna seus membros, eleve-se sobre seus pés, que você pode lhe guiar…” Expressão 628: “Eleve-se Oh Rei! Vire-se Oh Rei! Eu sou Neftis, e tenho vindo que posso sustentar você e lhe dar seu coração e seu corpo”.

Um dos maiores centros do culto de Melqart/Heracles era localizado em Gades na Espanha, perto da antiga localização do monumento dos Pilares de Hercules. O escritor do segundo século de nossa era Filostratus, em sua ‘Vida de Apolonio’ comenta neste lugar e dá apoio para a noção que Melqart era simplesmente a versão de Osiris em Tiro. Mettinger explica, a descrição de Filostratus do culto de Melqart/Heracles em Gades contém uma caraterística que pode talvez ser vista a luz de uma conexão entre Melqart e Osiris. Apolonio fala de um culto dual em Gades de ‘ambos de um e outro Hercules” e continua para distinguir entre o “Hercules egípcio” e o ‘o Tebano”. O último é o Heracles grego. ‘De Dea Syria’ fala do santuário de Heracles em Tiro, que não é “o Heracles que os gregos celebravam”. O Hercules egípcio é então, presumivelmente, o Melqart de Tiro. Se assim, deve haver alguma razão para descrever o Melqart de Tiro como o Hercules egípcio. Se ele tivesse se tornado associado com Osiris, entenderiamos este modo de se referir a ele. A associação se torna até mesmo mais sólida se recordamos novamente que o mito de Melqart/Heracles diz que ele foi morto pelo deus Tyfon, que é o equivalente grego do deus egípcio Set, o assassino de Osiris. Sobretudo, o assassinato de Heracles aconteceu na Líbia, e em um futuro artigo explicaremos como isto possivelmente possa ser uma referência ao antigo Egito e não a Líbia dos dias modernos. A conexão que existe entre Osiris e ou outros deuses antigos ‘que morrem e ressuscitam’ do Oriente Médio parece ser real e parece ser sólida. O caso seria fechado se não fosse por um problema maior. É o fato de que todos estes deuses é Osiris que realmente é o menos adequado a ser um membro desta categoria. Isto tem a ver com o aspecto da ‘resurreição’ de Osiris e é algo que um estudante amador de Egiptologia pode facilmente ressaltar. Mettinger olha o egiptologista Henri Frankfort para trazer isto a nossa atenção: “Osiris, de fato, era pertencente ao mundo dos mortos; era de lá que ele dotava suas bençãos sobre o Egito. Ele nunca retornou entre os vivos; ele não foi libertado do mundo dos mortos… Ao contrário, Osiris pertencia ao mundo dos mortos;  era de lá que ele doava suas bençãos ao Egito. Ele sempre era apresentado como uma múmia, um rei morto…”. Falando claramente, Osiris não era um deus ‘morto e ressurecto’ mas um deus que ‘morreu e se foi’! A chamada ressurreição de Osiris não era deste mundo, mas do seguinte, que é o porque ele era conhecido como Senhor do Submundo, e porque também os gregos o igualavam ao seu deus Hades. Se Osiris foi o criador inicial da categoria dos ‘mortos e renascidos” de quem todos os outros se originaram, então o que pode explicar esta flagrante discrepância?

A Agenda de Osiris

Em meados de outubro de 2005 a mais recente análise erudita de Osiris e de seu culto deve ser divulgada. O livro é escrito pelo altamente credenciado e muito respeitado egiptologista Bojana Mojsov e o título é ‘Osiris: Death and Afterlife of a God’. Pode ser uma coincidência, mas deve ser notado que a divulgação deste volume ocorrerá quase ao mesmo tempo em que novas investigações ocorrerão sob Zahi Hawass, como notado na Parte I. Se uma coisa é encontrada relativa a Osiris então o livro de Mojsov provavelmente receberá atenção internacional e aclamação. Estranhamente, um dos principais impulsos do livro de Mojsov parece não ser cultural ou arqueologico, mas muito mais espiritual. Aqui está a descrição do livro como ela é dada por Amazon.com: “Osiris, governante do Submundo, desempenhou um papel central na vida religiosa dos antigos egípcios, e seu culto cresceu em popularidade através de eras, ressoando em todas as culturas do antigo Mediterraneo. Este é o primeiro livro a contar a história do culto de Osiris do princípio ao fim. Retirando de vários registros sobre Osiris do terceiro milenio AC a conquista romana do Egito, Bojana Mojsov esquematiza o desenvolvimento do culto por 3.000 anos de história egípcia. O autor prova que o culto de Osiris era o mais popular e duradouro na antiga religião. Ela mostra como ele forneceu antecedentes diretos para muitas idéias, traços e costumes no cristianismo, incluindo a ressurreição depois de três dias, o conceito de deus como uma trindade, o batismo em um rio sagrado, e o sacramento da eucaristia. Ela também revela a influência do culto sobre outras tradições e grupos místicos ocidentais, tais como os alquimistas, rosacruzes e maçons livres.” Novamente, temos uma ênfase no relacionamento entre Osiris e seu culto e Jesus e as doutrinas do cristianismo. Temos visto neste artigo, bem como na Parte II, que esta estranha conexão é real e que não é algo artificialmente criado meramente para desacreditar o cristianismo. O fenômeno existe. Devemos lidar com ele. Ignora-lo ou explica-lo afastando-o como tantos cristãos o fazem seria covarde ou desonesto. Perto do fim de seu livro Mettinger concede que uma estranha conexão de fato existe entre o cristianismo e o paganismo dos ‘deuses mortos e ressurrectos’. Contudo, ele não acredita que a existência deste fenômeno pré-cristão deve necessariamente significar a não existência de Jesus Cristo e do Novo Testamento do cristianismo. Aqui está o que ele escreve: “Há, até onde estou ciente, nenhuma evidência prima facie que a morte e a ressurreição de Jesus seja uma construção mitológica, retirada de mitos e ritos dos deuses mortos e ressurrectos do mundo adjacente. Conquanto estudada com lucro contra a base da crença da ressurreição judaica, a fé na morte e ressurreição de Jesus retém seu caráter único na história das religiões. O enigma permanece.”. A Parte IV continuará com uma investigação da origem da civilização egípcia e de Osiris, seu deus mais importante. Uma resposta ao enigma existe, mas estará o mundo voluntário para aceitar isso?

Parte IV

As Origens Esquecidas do Egito

“As origens da civilização faraônica sempre tem sido envolvidas em mistério. O que fez com que a cultura dinástica irrompesse no Vale do Nilo dentro de um período de tempo relativamente curto? … Há pouca evidência da realeza e de seus rituais muito antes do início da Primeira Dinastia; nenhum sinal de desenvolvimento gradual de trabalho em metal, arte, arquitetura monumental e escrita – o critério definidor da civilização inicial. Muito do que sabemos sobre os faraós e sua cultura complexa parece vir a existência em um flash de inspiração.” –  David Rohl, Legend – the Genesis of Civilisation, 1998, p.265

Uma das questões mais controvertidas no inteiro campo da Egiptologia é também a mais básica; De onde veio a avançada civilização faraônica? No próprio início das primeiras dinastias o Estado egípcio parecia estar completamente desenvolvido, intrinsecamente estruturado, tecnologicamente avançado e economicamente vibrante. Como pode algo tão completo aparecer tão repentinamente e aparentemente de nenhum lugar? Hoje a resposta que você mais frequentemente ouve  é ‘que isso apenas aconteceu deste modo’, que o Egito foi construído pelos africanos egípcios, que eles próprios fizeram isto por sua própria conta usando seu próprio conhecimento e recursos, e argumentar uma outra resposta é um insulto aos egípcios e africanos seja onde for! Este tom ‘politicamente correto’ que é tão penetrante dentro da academia principal hoje era, contudo, nem sempre tão influente no passado. Quando o estudo do Egito antigo estava se tornando uma ciência perto do fim do século XIX os eruditos envolvidos no campo tinham muito mais liberdade para advogar suas próprias idéias únicas, não importa quão controversas ou ridículas eles pudessem parecer. Foi neste mercado aberto de idéias que alguns dos fatos mais importantes sobre o Egito antigo foram descobertos e quando alguns dos métodos mais importantes para estudo e escavação do Egito antigo foram desenvolvidos.

Flinders Petrie

Ninguém pode começar a descrever a origem e evolução da ciência da Egiptologia sem se referir a William Matthew Flinders Petrie. Outro que Jean Francois Champollion, que primeiro decifrou a Pedra da Roseta e os hieróglifos egípcios, a influência de Petrie sobre o campo é muito inigualável. Petrie começou suas escavações no Egito em 1884, como um diretor do Fundo de Exploração Britânico baseado no Egito e suas experiências o levaram a ser muito crítico dos métodos destes escavadores que o precederam, que estavam mais preocupados em descobrir e pilhar tesouros sensacionais do que em aprender a história real do Egito. Ele escreveu: ‘Nada parece ser feito com qualquer plano uniforme e regular, o trabalho começou e foi deixado inacabado; nenhum respeito é prestado às futuras exigências de exploração e nenhum aparelho civilizado ou de trabalho poupador são usados. É doentio ver o nível no qual tudo está sendo destruído e o pouco respeito prestado a preservação.” Os métodos de Petrie foram inteiramente contra aqueles de seus contemporâneos. Eles eram completados cientificamente, muito meticulosos, e no fim muito frutíferos, e hoje ele é visto como o Pai da Egiptologia bem como talvez o Pai da Arqueologia. Segundo o autor James Baikie que escreveu ‘A Century of Excavation in the Land of the Pharaohs’, “se o nome de qualquer homem deve ser associado à moderna escavação como o principal doador de seus princípios e métodos, este deve ser o nome do Professor Sir W.M. Flinders Petrie.” Flinders Petrie era um gênio inspirado e suas opiniões sobre a origem do Egito dinástico não devem ser rejeitadas ligeiramente, até mesmo embora, como seus detratores aleguem, elas possam ter sido subconscientemente apoiadas ou desenvolvidas em uma linha de suas próprias tendências.

A Raça Dinástica

Petrie veio a se dirigir ao problema da origem do Egito dinástico como um resultado de sua escavação do maciço sítio antigo funerário perto da vila de Nakada aproximadamente a vinte milhas ao norte de Luxor no Alto Egito. No inverno de 1894-95 a equipe de Petrie metodicamente escavou e registou os conteúdos de mais de 200 tumbas, que mostraram datar de um período na história do Egito exatamente anterior à emergência da Primeira Dinastia. Dos dados reunidos da escavação Petrie entendeu que o sitios das tumbas de Nakada continham os funerais de dois grupos inteiramente diferentes de pessoas. Um grupo era caraterizado pelos corpos colocados em simples buracos, postos em posição fetal e cobertos com folhas de palmeira. Este grupo, designado Nakada I, era enterrado com simples objetos da vida diária incluindo a básica cerâmica egipcia que era encontrada em numerosas outras escavações que datavam deste período de tempo. O outro grupo, Nakada II, era marcantemente diferente.  Os corpos eram enterrados em buracos que era cobertos de tijolos, que então eram cobertos por troncos de palmeira. Este buracos continham objetos valiosos tais como joalheria em lapis lázuli, e também cerâmica de novos tipos e funções. Os corpos não eram enterrados intactos, mas somente depois de serem desmembrados, com o cranio enterrado separado do torso e dos membros. Havia também sinais de canibalismo ritual tendo ocorrido dentro do grupo de Nakada II e que estava completamente ausente em Nakada I.

A escavação de Nakada forneceu muito a evidência que levou Flinders Petrie a levar adiante sua teoria da origem de uma civilização magnificente e muito antiga do Egito. Ela tornou-se conhecida como a “Teoria da Raça Dinástica” e ela alega que na era pré dinastica o Egito foi invadido por um grupo tecnologicamente superior de estrangeiros de elite [Nakada II] que vieram oriinalmente da Mesopotamia. Esta Raça Dinástica invadiu e conquistou o Egito Superior e se estabeleceu na cidade deles de Nekhen, também conhecida coo Hierakonpolis, próximo de onde importantes centros de culto de Abidos, Tebas, Luxor e Edfu mais tarde emergiriam. Petrie se referiu a esta força invasora como ‘A Tribo do Falcão” e o nome de sua cidade capital de Nekhen significa cidade do Falcão. Seus descendentes tornaram os Reis Horus do Egito com a Primeira Dinastia sendo estabelecida sob um Rei chamado Horus-Aha, ou “Horus o Combatente”, depois do que sua tribo finalmente subjugou e unificou a inteira terra do Egito.

A Elevação a Queda e a Ressurreição de uma Teoria

A idéia de que o esplendor do antigo Egito veio de uma cultura que era originalmente estrangeira ao Egito não foi de início apenas impalatável demais para o mundo academico aceitar. De fato, por muitas décadas esta foi vista como a mais provável solução para o problema. Egiptologistas bem respeitados e altamente credenciados adotaram a teoria e continuaram a reunir evidência adicional para sustenta-la. Até aproximadamente a Segunda Guerra Mundial este era o ponto de vista dominante no mundo academico. E então Hitler entrou em cena e depois de seu desastroso legado qualquer conversa sobre uma ‘raça mestre’ começou a ser vista sob uma luz negativa. O fim da Segunda Guerra Mundial também assinalou o fim do colonialismo europeu e com isto veio o nacionalismo do Terceiro Mundo quando os países recentemente independentes começaram a enfatizar e celebrar suas identidades culturais. Repentinamente os campos da arqueologia e da história antiga se tornaram muito influenciados pela política, especialmente no Egito que era liderado por Nasser, que com suceso lutou contra os britânicos e os franceses na Guerra de Suez de 1956. No início dos anos de 1960 um último maior empurrão academico am apoio da “Teoria da Raça Dinástica” foi feito por Bryan Emery o Professor de Egiptologia do University College de Londres. Infelizmente sua escolha de termos foram até mesmo mais politicamente incorretas do que aquelas de Petrie – Emery se referiu aos invasores do Egito como uma ‘super raça’. A reação contra Emery era previsível e devastadora, e eruditos ambiciosos foram espertos o suficiente para entenderem que o estabelecimento academico não mais consideraria seriamente qualquer conversa sobre uma ‘Raça Dinástica” ter construído a civilização egípcia. Esta situação permaneceu a mesma por aproximadamente trinta anos, durante tal tempo muitos eruditos eram muito recompensados por suas tentativas de mostrar como a civilização egípcia se espalhou completamente por si só tão de repente, apenas por meio de renovações internas. A questão da origem dos fundadores dinásticos do Egito teria permanecido ignorada até o século XXI se não fosse pelo trabalho notável de David Rohl. Em 1998 ele publicou seu segundo maior estudo sobre história antiga intitulado ‘ Legend – the Genesis of Civilisation’. Com este volume campeão de vendas a validade da “Teoria da Raça Dinástica” foi extensivamente documentada e apresentada ao público, muito para consternação do mundo academico.

David Rohl é um Egiptologista profissional formado pela University College de Londres (UCF), a mesma universidade afiliada a Flinders Petrie e Bryan Emery. O principal foco da carreira de Rohl tem sido o retrabalho da cronologia geralmente aceita que artificialmente estende os dados da antiga história remontando a uns extra trezentos anos aproximadamente. Por causa desta cronologia falha, a maioria dos academicos se sentem seguros em dizer que a história do Velho Testamento é um mito e que eventos tais como o Exodus, a conquista israelita de Canaã, e as Monarquias Unidas de David e Salomão, nunca aconteceram realmente. Em seu primeiro livro ‘A Test of Time: The Bible – From Myth to History’, publicado em 1995, David Rohl mostrou que os arqueologistas tem estado procurando no lugar certo pela evidência dos eventos bíblicos, mas eles não tem olhado o tempo certo. David Rohl oferece um número de explicações possíveis pelas quais o porque da cronologia geralmente aceita da história antiga é falha, e então ele mostra como a história bíblica vem viva e como todas as peças se encaixam no quebra-cabeças se vistas de uma perspectiva de sua proposta Nova Cronologia (NC). É desnecessário dizer, seu trabalho tem sido grandemente apreciado por grande parte do público geral, mas redondamente criticado pelo mundo academico que não está ávido de aceitar o fato que tudo de seus livros didáticos sobre história antiga precisam ser retomados e reeescritos. Em seu primeiro livro David Rohl se concentrou na história dos israelitas e como os eventos do Velho Testamento se encaixam nos registros da história antiga, enquanto em seu segundo livro, ‘Legend – the Genesis of Civilisation’, ele voltou ao Egito antigo e mostrou como sua história estava intimamente ligada com muitos dos eventos descritos no Livro do Geneses. O que se segue é uma curta lista e explicação de alguns dos dados que apoiam a teoria que invasores da Mesopotamia foram os responsáveis pela criação das glórias do Egito Dinástico.

Dados: Os Artefatos de Nakada

A descoberta do sítio maciço funerário em Nakada por Flinders Petrie foi brevemente mencionado acima, ainda que mais seja necessário ser dito. O que Petrie encontrou foi a evidência conclusiva de um grupo de invasores que eram associados a artefatos cujas origens eram claramente rastreaveis de volta a Mesopotamia. Entre estes artefatos estava a cerâmica feita em estilos similares aquela dos Sumérios. Rohl se refere ao aparecimento de cerâmica exatamente de tipo Mesopotamico entre os funerais de Nakada II e ele cita da respeitada erudita Helene Kantor, “Entre as formas dos potes decorados estão jarros relativamente grandes com três ou quatro ‘alças’ triangulares para os ombros. Estas ‘alças’ são reminiscentes daquelas que já estavam em uso na cerâmica mesopotamia no período Ubaide e que se tornaram particularmente típicas e frequentes da ceramica pré- alfabetização”. “Mais convincente são os vasos de manchas redondas… Embora eles sejam feitos de velha cerâmica indígena vermelha, as bolas são completamente não egípcias; como um todo estes jarros se assemelham a aqueles mesopotamios da parte inicial do périodo pré alfabetização”. Incluidos entre os muitos artefatos unicamente associados com os funerais de Nakada II estão joalheria e ornamentos feitos da preciosa pedra azul lápis lázuli. Rohl explica como os modernos eruditos se dirigem a este fato importante: “Tão surpreendente quanto possa parecer, esta pedra é presumida pelos eruditos ter vindo apenas de uma fonte de localização conhecida na região – as montanhas de Badakshan no Afeganistão, a mais de 3.700 quilometros do Egito… o lápiz lázuli era altamente valorizado pelos sumérios [Mesopotamia] e era importado todo o caminho de Meluhha [no Vale Indus] via Dilmun [Bahrein]… o padrão de distribuição é o mesmo: um produto ou material primeiro aparece na Suméria e Suziana antes que ele chegue ao Egito”. Um outro importante item presente nos funerais de Nakada II era uma maça em forma de pera. Os apoiadores da Teoria da Raça Dinástica argumentam que a introdução desta arma [da Mesopotamia] dava uma margem tecnológica aos invasores de Nakada II, que o utilizavam efetivamente para dominar os egípcios indigenas que estavam armados com armamento mais frágil e menos eficaz. A maça em forma de pera então se torna uma parte importante do legendário simbolismo  e imagens associadas aos invasores. O artefato final único que discutiremos dos sítios funerais de Nakada II é o selo de cilindro. Este instrumento cerimonial foi usado para deixar um padrão quando rolado sobre a argila úmida e sua origem é mais do que certamente Mesopotomia. Rohl fornece a conclusão óbvia: ” Não é coincidência que o selo de cilindro primeiramente apareceu no Egito ao mesmo tempo da maça em forma de pera e o lápiz lázuli. O selo de cilindro não era uma invenção do povo do Vale do Nilo porque, como temos visto, estes notáveis pequenos objetos já estavam sendo usados para o mesmo propósito na cidade de Uruk durante o últmo período Ubaide. O selo de cilindro é portanto uma invenção suméria”. Uma análise dos artefatos associados aos alegados ‘Invasores Dinásticos’ pode parecer ser conclusiva por si só, ainda que a evidência para os sítios funerários de Nakada II vá muito mais profundo do que isto. Como podemos provar conclusivamente que estas eram pessoas que vieram de fora do Egito? Podemos olhar as próprias pessoas. Rohl cita do antropologista Douglas Derry que estudou os restos físicos dos corpos enterrados em Nakada e encontrou diferenças óbvias entre os gupos de Nakada I e Nakada II. ‘As pessoas pre-dinásticas são vistas terem cranios estreitos com uma medida de altura excendendo a de largura, uma condição comum nos negros. O inverso é o caso da Raça Dinástica, que não apenas tinha cranios mais largos mas a altura destes cranios, conquanto excedendo aquela na raça pré-dinástica, era ainda menor que a largura”. ‘Isto também é sugestivo da presença de uma raça dominante, talvez relativamente poucos em números, mas grandemente excedendo os habitantes originais em inteligência; uma raça que trouxe ao Egito o conhecimento da construção em pedra, da escultura, da pintura, relevos, e acima de tudo a escrita; portanto um salto enorme do egípcio primitivo pré-dinástico para a civilização avançada do Velho Império”. Já que no tempo de Derrel a prática de usar mensurações do cranio para determinar o nível de ‘inteligência’ tem sido desmentido, contudo os dados que provam as diferenças físicas entre os dois grupos ainda permanecem. É claro que os invasores do Egito eram de origem Asiática e eles estavam ao menos muito melhor motivados e organizados do que os habitantes indígenas africanos. O resultado final é que este grupo eventualmente conquistou o Egito e emergiu como a classe social dominante que produziu os Reis Horus e a aristocracia Iru-Pat do Velho Reino.

Dados: A Escrita

Uma das mais misteriosas obtenções da civilização egípcia inicial é seu máximo desenvolvimento instantaneo e perfeição em um sistema complexo de escrita. Foi a escrita egípcia desenvolvida completamente independente da influência externa e da ingenuidade dos próprios indigenas egípcios, ou ela veio de uma influência externa que pavimentou o caminho? Rohl cita do Egipologista da UCL Henri Frankfort que deu a seguinte explicação em seu livro ‘The Birth of Civilisation in the Near East’, “Tem sido costumeiro postular os antecedentes pré-históricos para a escrita egípcia, mas esta hipótese nada tem a seu favor… a escrita que primeiro apareceu sem antecedentes no início da Primeira Dinastia não era de forma alguma primitiva. Ela tinha, de fato, uma estrutura complexa.  Ela inclui três diferentes classes de sinais: ideogramas, sinais fonéticos, e determinantes. Este é precisamente o mesmo estado de complexidade que já havia sido alcançado na Mesopotamia em um estágio avançado de período proto-alfabetização. Há, contudo, um estágio mais primitivo que é conhecido nos tabletes iniciais, que usavam apenas ideogramas. Negar, portanto, que os sistemas egípcio e mesopotamio de escrita estão relacionados significa manter que o Egito inventou independentemente um sistema complexo e não muito consistente no mesmo momento de ser influenciado em sua arte e arquitetura pela Mesopotamia onde um sistema precisamente similar tinha exatamente sido desenvolvido de um estágio mais primitivo”. Para Frankfort a resposta era óbvia. Os hieróglifos egípcios apareceram pela primeira vez com o mesmo nível de sofisticação que aquele encontrado na Suméria por causa que a idéia por trás da arte foi trazida ao Egito da Suméria. Contudo, como o ressalta Rohl, depois de seu aparecimento inicial a escrita egípcia tomou um caminho diferente de desenvolvimento por causa dos materias de escrita que eram disponíveis. O Egito possuia o papiro e tinta, enquanto os sumérios apenas tinham argila e junco. O Egito portanto desenvolveu um estilo muito mais impressivo pictoricamente e florescente enquanto a Suméria continuou a desenvolver a escrita conhecida como cuneiforme que usava uma ponta cortada de um junco para gravar impressões na lama úmida, que então era cozida e preservada como tabletes de tijolos e selos de cilindro.

Para muitos egiptologistas, a despeito de como eles interpretam os dados, uma das áreas mais óbvias da influência mesopotomia no antigo Egito veio no campo da arquitetura. Nós já tinhamos visto como os poços funerais de Nakada II eram alinhados com tijolos de lama, e pouco depois do uso inicial da inovação mesopotamia [porque  a Suméria não tinha pedra prontamente disponível], lá apareceu a primeira arquitetura monumental no Egito, também feita no estilo sumério de tijolos de lama. Estas construções iniciais eram tumbas maciças construídas para os mais importantes líderes dos invasores. Elas apareceram perto da cidade de Tjenu (Gr. Thinis) perto do sítio de culto de Abidos, onde originalmente foi pensado estar enterrado o corpo de Osiris. O historiador egípcio Manetho escreve que Tjenu era a capital da Primeira Dinastia começada por Menes – que era provavelmente Horus-Aha. [Pelo tempo da Primeira Dinastia a capital tinha sido movida Nilo abaixo a um numero de milhas da original capital de Nekhen]. Juntamente com estas grandes tumbas construídas para os primeiros líderes da Tribo do Falcão  havia também sítios de tumbas subsidiárias de montes de indivíduos que foram provavelmente ritualmente sacrificados ao mesmo tempo em que o indivíduo primário era enterrado. O sacrifício humano bem como o canibalismo parecem ser aspectos importantes da religião da Tribo do Falcão e do sistema ritual, embora estes elementos sejam decididamente minimalizados por alguns dos eruditos modernos. Uma posterior inovação arquitetural que tem óbvios paralelos com a Mesopotamia veio com a utilização egípcia das ‘fachadas em nicho’ o que simplesmente significa o uso de projeção alternada e paredes recuadas ao redor do perímetro de uma construção. A este ponto Rohl é capaz de citar um número de eruditos que concordam que isto seja uma das coisas mais importantes a fornecer uma ligação entre a Raça Dinástica e sua origem na Suméria. As fachadas em nicho eram usadas pela Mesopotamia e elas eram um metodo arquitetural que antecedeu o aparecimento dos grandes zigurats com degraus que se espalharam pelas cidades Estado na medida em que a cultura Suméria alcançava seu zênite. No Egito, mais uma vez, este parelo mesopotamio aparece repentinamente e completamente desenvolvido. Este método é usado no Egito Superior para as tumbas localizadas em Abidos e em Nakada, e então ele aparece novamente mais tarde para a construção feita em Saqqara no Egito Inferior e nas Primeira e Segunda Dinastias depois que o Egito foi unificado sob os Reis Horus. A influência Mesopotamia é novamente vista na Terceira Dinastia com o criação da grande pirâmide em degrau de Djoser em Saqqara que é reconhecida como a primeira pirâmide egípcia e obvimante modelada segundo o sigurat sumério. Este monumento é também um dos primeiros casos onde os construtores começaram a utilizar a pedra que estava prontamente disponível, muito mais do que usar os tijolos de lama que estavam acostumados a usar. As obtenções e inovações em Saqqara então pavimentaram o caminho para as pirâmides e templos eregidos durante a Quarta Dinastia, tipificados pelo complexo de Gizé.

A Invasão do Barco Quadrado

Se aceitarmos a  premissa que um grupo altamente cheio de recursos e tecnologicamente avançado invadiu e subjugou o Egito antes das primeiras dinastias não temos que procurar muito longe pela evidência de como e onde eles o fizeram. Por muitos anos esta evidência tem existido ainda que não seja muito bem explicada pelos principais eruditos, que negam que uma tal invasão até mesmo tenha acontecido. A invasão veio ao Vale do Nilo do Mar Vermelho através dos vales do deserto oriental. Este vales eram conhecidos como ‘wadis’ e há três wadis (Hammamat, Abad e Barramiya), oposto aos acampamentos de Nakada e Nekhen, onde a evidência desta invasão foi deixada na forma do grafite primitivo. As imagens mais comuns gravadas nas pareces de rocha dos vales são imagens de grandes barcos quadrados no estilo mesopotamio com proas altas e remos que são inclinados para trás, que frequentemente apresentam chifres, antenas ou bandeiras. Estes barcos são frequentemente cheios de pessoas, algumas vezes com uma figura principal carregando uma maça em forma de pera que fica alto no centro. Os wadis correm de leste a oeste e as proas dos barcos fdicam de frente para oeste na direção do Nilo. Muitas das apresentações mostram os barcos sendo puxados por cordas por membros da tripulação. O que aconteceu quando este grupo de invasores finalmente alcançou o próprio Nilo depois de arrastar seus barcos pelo deserto a partir do Mar Vermelho? David Rohl se refere a vários dos mais importantes artefatos antigos egípcios para uma resposta, incuindo os dois seguintes. O primeiro é conhecido como a faca Gebel el-Arak. Este artefato de marfim foi encontrado perto da margem leste do Wadi Hammamat e é importante para as imagens encontradas em seu intricado cabo gravado que os especialistas concluem dar a ele uma firme datação pré-dinástica. Por um lado as imagens gravadas apontam inconfundivelmente para uma fonte suméria, da cena do ‘Mestre dos Animais” usando um estilo de cabelo sumério e um casaco longo não egípcio, os dois cães troncudos, musculosos de focinho curto mesopotamios apresentados embaixo. Por outro lado encontramos o resultado final do aparecimento dos invasores sobre o Nilo. David Rhol chama a isto “A Primeira Batalha da História”. Há duas cenas de batalha, uma batalha por terra no topo e uma batalha naval na parte inferior. Na batalha de terra encontramos um grupo de cabelos curtos carregando maças em forma de pera e porretes que está derrotando um grupo de cabelos longos que combate, mas parece desarmado. Na batalha naval o mesmo tipo de barcos quadrados são apresentados nas paredes das rochas dos wadis orientais e são mostrados derrotando uma fila de barcos em forma de crescente que são típicos do Nilo.

Um outro maior artefato pré-dinástico que explica o resultado da invasão dos barcos quadrados é conhecido como Narmer Palette, encontrado em Nekhen em 1897 e agora guardado no Museu do Cairo. Narmer era um rei do Egito Superior que imediatamente precedeu Horus-Aha, o conquistador do Egito. Um lado desta palheta mostra uma grande imagem de um rei segurando uma maça em forma de pera em uma pose de golpe, enquanto na outra mão tem o cabelo de uma vítima que se contrai. Sob seus pés dois outros inimigos fogem em terror. Do outro lado a maior apresentação é esta de duas bestas como dinossauros com as cabeças interligadas do típico modo sumério, controladas com cordas mantidas por dois homens barbados. Abaixo disto o rei é apresentado como um touro esmagando um inimigo e invadindo uma cidade, enquanto ali encima há o que parece ser uma procissão de vitória. Narmes é a principal figura e ele novamente sustenta sua maça. Ele é auxiliado por um servente, sua rainha, e quatro figuras carregando estandartes. Contra esta procissão há figuras de dez corpos decapitados, sobre o que é retratado o mesmo barco quadrado de proa alta como encontrado no punho da faca de Gebel el-Arak e no grafite do deserto oriental. Desde os mais iniciais começos da cultura egípcia tem sido mantido que o barco seja sagrado, como evidenciado pelos enormes chamados ‘barcos solares’ que foram desenterrados perto da face sul da Grande Pirâmide em 1954. Este barcos foram enterrados quando a pirâmide foi construida e os eruditos acreditam que eles eram apresentações cerimoniais do barco mitológico que transportava Ra através do céu a cada dia. Contudo os barcos não eram reverenciados meramente por sua utilidade no Nilo, ou por suas tradições mitológicas, mas também porque os conquistadores do Egito vieram ao Egito através do mar por barco. De fato, os barcos desenterrados na Grande Pirâmide, com suas altas proas, fundo chato, e cabines centrais pareciam mais como os barcos que foram puxados através do deserto para o Nilo do que com os barcos tradicionalmente usados no Nilo. Talvez os barcos enterrados em Gizé não fossem afinal ‘cerimoniais’.

A Grande Migração

No capítulo 10 do Geneses há uma longa lista de muitas tribos diferentes da terra que existiam depois que a humanidade emergiu do Dilúvio de Noé. Esta passagem é conhecida como a Tabela das Nações e a lista é organizada sob os três filhos de Noé:  Shem, Ham e Japheth. É a esta lista que David Rohl se dirige depois que ele traz seus leitores a aceitarem a inevitavel conclusão que o Egito dinástico foi fundado por invasores vindos da Mesopotamia. Segundo a narrativa da Tabela das Nações havia quatros filhos de Ham, e três deles se estabelecram a África, especificamente Cush, Mizraim e Put. A terra de Cush é conhecida pelo Velho Testamento como a região atual do Sudão/Etiópia ao sul do Egito; a própria terra do Egito é chamada pelo Velho Testamento como Mizraim. Josephus o historiador judeu apoia e elabora sobre a narrativa do Geneses: “… o tempo não tinha de todo ferido e o nome de Cush; para os etíopes sobre os quais ele reinou, eles são até mesmo hoje em dia, por eles próprios e por todos os homens na Ásia, chamados Cushitas. A memória também dos Mesraitas é preservada por seu nome; para todos nós que habitamos este país da Judeía chamamos o Egito Meste e aos egípcios Mestreanos. Put também foi o fundador da Líbia, e chamou os habitantes de Putitas, por causa dele mesmo; há também um rio no país dos Mouros que em este nome… mas o nome agora tem sido trocado por causa dos filhos de Mizraim, que eram chamados de Libios”. David Rohl acredita que Cush, o filho mais velho de Ham, aparece dentro da lista dos Reis Sumérios como o primeiro regente da dinastia de Uruk pós Dilúvio, onde sua partida da Suméria e jornada para a África é notada,  “Meskiagkashar, filho de Utu, se tornou alto sacerdote e rei e reinou 324 anos. Meskiagkashar desceu pelo mar e subiu as montanhas”.(SKL coluna iii, linhas 4-6) Se este rei antigo e seus irmãos viajaram para fora da antiga Suméria por mar, então a rota deles teria que ter sido através do Golfo Pérsico e ao redor da Península Árabe, navegando os barcos quadrados de junco revestidos de betume que eram típicos do Golfo Pérsico nesta antiga data.

Isto nos leva direto ao quarto filho de Ham, que era Canaã. Segundo o Geneses 10:19, os canaanitas se estabeleceram nas terras na margem leste do Mediterrâneo. Eles também eram conhecidos como fenícios. Como eles chegaram lá foi notado pelo historiador grego do século V Heródoto, e também Estrabo, o geógrafo grego do século I, Herodoto: “Os homensa sábios da Pérsia  dizem que os fenícios foram a causa da rixa [entre os gregos e os persas]. Estes [eles dizem] vieram aos nossos mares [isto é, ao Mediterrâneo oriental] do Mar da Eritréia, e tendo se estabelecido no país que ainda ocupam [isto é, Fenica/Líbano] e uma vez começaram a fazer longas viagens”.  Strabo: “Ao navegar mais distante [descendo o Mar da Eritréia] se vem a outras ilhas. Quero dizer Tiro e Aradus, que tem templos como aqueles dos fenícios. É avaliado, ao menos pelos habitantes das outras ilhas, que as ilhas e cidades dos fenícios que tem o mesmo nome sejam colônias deles”.  David Rohl explica onde estava o Mar da Eritréia e também como este entendimento da origem dos antigos fenícios tem sido passado aos dias modernos através dos séculos, “Vá visitar uma escola libanesa e sente-se em uma aula de história. Lá você ouvirá o profesor explicar às crianças que os modernos libaneses são descendentes dos antigos fenícios que, por sua vez, se originaram das ilhas do Golfo Pérsico. As origens legendárias dos fenícios não são uma invenção da comunidade cristã libanesa puramente para fornecer uma separada tradição étnica de seus vizinhos muçulmanos. A idéia de que os ancestrais dos fenicios vieram de muito além de Bahrein para encontrar novas cidades de Canaã na costa leste do Mediterrâneo era bem conhecida pelos escritores clássicos. Justin, Plinio, Ptolomeu e Strabo todos tinham a original terra natal dos fenícios no Golfo como um fato histórico… Os Tirianos [ da cidade de Tiro] proclamavam sua terra natal como a ilha de Tilos no Mar da Eritréia. Agora o Mar da Eritréia ou Vermelho não era nos tempos antigos o que hoje conhecemos como Mar Vermelho… O original Mar Vermelho era o que hoje chamamos de Golfo Pérsico ou árabe e o Oceano Índico além. Ele assim era chamado por causa de Eriteas, que, segundo a lenda, “foi enterrado detro de um grande monte na ilha de Tilos”. Rohl continua para explicar que o nome Tilos é uma forma grega da palavra arcadiana Tilmun, e a legendária ilha paraíso de Dilmun, bem conhecida no mito sumério, é de fato a ilha de Bahrein. Isto foi provado em 1970 pela erudição de Geoffrey Bibby em seu livro clássico, ‘Looking For Dilmun’, uma narrativa de sua escavação de doze anos de Bahrein e sua pesquisa de suas origens. Bahrein foi a verdadeira pedra em degrau para a antiga Mesopotamia quando os filhos de Ham foram dispersados depois do Dilúvio. Um dos mais impressivos símbolos naturais desta região é o falcão, a ave de presa rápida e nobre que hoje é valorizada pelos sheiques do Golfo Árabe. Talvez isto explique o símbolo tribal que foi adotado pelos invasores do Egito. Rohl cita de Flinders Petrie para resumir as explorações deste poderoso grupo guerreiro, ‘Esta Tribo Falcão tinha certamente se originado de Elam [Susiana], como indicado pelo herói e leões no cabo da faca de Ara. Eles desceram o Golfo Pérsico e se estabeleceram no ‘chifre da África’. Lá eles nomearam a Terra de Punt, sagrada para os egípcios posteriores, como fonte da raça. O povo de Pun fundou a fortaleza da ilha de  Ha-fun que comanda a inteira costa, e dai veio o povo púnico ou fenicio da antiguidade clássica…  Aqueles que subiram o Mar Vermelho formaram os invasores dinásticos do Egito entrando pela estrada de Kuseir-Koptos. Outros foram para a Síria e fundaram Tiro, Sidon e Aradus, assim chamadas por sua terra natal as ilhas do Golfo Pérsico’.

Se os egípcios e os fenicios partilharam ancestrais comuns e um comum caminho de migração de origem no mar para fora da Mesopotamia, então estes fatos vão um longo caminho na direção de explicar suas similares crenças religiosas evoluindo ao redor da veneração de um primordial deus morto. Estamos a um passo mais perto de identificar este deus morto como uma figura histórica.

Parte V

O Mundo do Espírito e a Civilização

“Era uma vez um tempo… que não havia medo, nem terror. O homem não tinha qualquer rival… o inteiro universo, as pessoas em uníssono… para Enlil em uma lingua dar louvor” – “Enmerkar e o Senhor de Aratta”, épico sumério, c.2000 AC

Seres humanos são únicos entre todas as criaturas vivas pelo fato que temos uma capacidade e uma necessidade de expressão religiosa. Este elemento da atividade humana tem sido entendido como racional, necessário e básico deste o nosso mais inicial começo até aproximadamente meados do século XIX. Foi a este ponto, guiado por uma filosofia de base materialista, que a religião começou a ser vista como irracional e ‘não científica’. Gradualmente o materialismo secular infiltrou o mundo academico e eventualmente substituiu a ética judaico-cristã como o ponto de vista dominante. Foi desta nova perspectiva que James G. Frazer desenvolveu suas teorias sobre como a religião pode ter evoluido em uma tal parte essencial da vida humana. O que era a religião e de onde ela veio? Como Sigmund Freud, Frazer acreditava que a resposta não poderia ser encontrada no mundo do espírito, mas muito mais no mundo da matéria – em termos que podem ser percebidos pelos cinco sentidos. Desta perspectiva Frazer concluiu que as mais iniciais crenças religiosas da humanidade eram meramente tentativas de entender e trazer ordem ao mundo físico da natureza. Esta nova hipótese se encaixa bem com as atuais tendências filosóficas e rapidamente se tornou o concenso academico aceito. Era a idéia de que a religião, até mesmo embora ela tenha evoluido em diferentes formas complicadas em muitas culturas diferentes, isto era simplesmente a raiz da “Veneração da Natureza”. Na medida em que o século XX progredia esta teoria crescia mais forte e foi adotada e promovida em uma escala em massa por especialistas influentes como Joseph Campbell e Bill Moyers, entre outros. Ao longo do componente da “Veneração da Natureza” da religião inicial isto também era entendido que na medida em que o homem primitivo avançava, uma tendência se elevou para deificar alguns dos mais influentes ancestrais humanos que tinham deixado para trás significantes ou significativos legados. Esta prática de “Veneração da Natureza” era reconhecida pelas próprias culturas antigas e amplamente escritas sobre ela pelos gregos. Por exemplo, no “Euthydemus” de Platão, Socrates se refere aos deuses antigos como seus ‘senhores e ancestrais’, enquanto Euphemerus [300 AC] foi um outro filósofo grego que argumentou que a ‘Veneração Ancestral’ foi a fonte primária da religião. Hoje os eruditos modernos reconhecem este elemento como desempenhando um maior papel na religião pagã e em seu componente primário de abordagem histórica usado por eruditos tais como David Rohl. Além destes maiores componentes havia uma parte das iniciais crenças humanas lá um outro componente. Ele era chamado pelos próprios antigos como a base original de suas crenças, ainda que isto seja geralmente minimalizado ou ignorado dentro da academia principal. Hoje isto é prontamente reconhecido no Oriente, nos círculos alternativos ou New Age. Mas isto também é algo que tem sido compreendido dentro da tradição judaico-cristã desde o início. Este componente mais importante e mais fundacional da religião é a “Veneração do Espírito”. Para entender como a humanidade tem sido influenciada e dirigida desde o início por entidades espirituais de outras dimensões voltaremos no tempo tão longe quanto possamos. Iremos a onde este estudo nos tem levado por todo o tempo – aos registros dos antigos sumérios da Mesopotamia. Esta antiga civilização foi realmente a primeira a inventar a arte da escrita, e o que eles tinham a dizer inicialmente sobre sua própria história e crenças ajudará a fornecer as respostas que buscamos.

A Perspectiva Suméria

Antes que investiguemos o sistema de crença encontrado na religião suméria devemos primeiro dar uma visão geral da história suméria. Os eruditos modernos datam a origem desta civilização por volta de 4500 AC, e seu desaparecimento por volta de 1750 AC, quando ela finalmente foi extinta e absorvida pelas conquistas de Hammurabi. Além de inventarem a escrita os sumérios também são creditados com um número de ‘primeiros’ históricos incluindo a roda, trabalho em metal, cerâmica, e fabricação de cerveja. Esta última invenção talvez tenha permitido que a primeira monarquia mundial tomasse o poder, o que prontamente estabeleceu o primeiro sistema conhecido de impostos. A mais inicial história suméria é relatada na Lista dos Reis Sumérios, cópias da qual tem sido encontradas em vários tabletes cuneiformes ou blocos datando de diferentes períodos. Ela começa como isto: Depois que a realeza desceu do céu, a realeza estava em Eridug. Em Eridug, Alulim tornou-se rei; ele governou por 28.800 anos. Alaljar governou por 36.000 anos. 2 reis. eles governaram por 64.800 anos. Então Eridug caiu e a realeza foi tomada para Bad-tibira. Em Bad-tibira, En-men-lu-ana governou por 43.200 anos. En-men-gal-ana governou por 28.800 anos. Dumuzid, o pastor, governou por 36.000 anos. 3 reis; eles governaram por 108.000 anos. Então Bad-tibira caiu (?) e a realeza foi tomada para Larag.

Em Larag, En-sipad-zid-ana governou por 28.800 anos. 1 rei; ele governou por 28.800 anos. Então Larag caiu (?) e a realeza foi tomada para Zimbir. Em Zimbir, En-men-dur-ana tornou-se rei; ele governou por 21.000 anos. 1 rei; ele governou por 21.000 anos. Então Zimbir caiu (?) e a realeza foi tomada para Curuppag. Em Curuppag, Ubara- Tutu tornou-se rei; ele governou por 18.600 anos. 1 rei; ele governou por 18.600 anos. Nas cinco cidades 8 reis; eles governaram por 241.200 anos. Então veio o Dilúvio. A própria primeira linha da Lista dos Reis da Suméria implica em algo de uma natureza espiritual ou religiosa, o que nos traz de volta ao assunto da religião suméria. Os Sumérios veneravam um enorme panteão de deuses maiores e menores, mas os deuses primários que governavam do topo da hierarquia eram Anu, Enlil e Enki. Deste três foi Enki que era entendido como o fundador da civilização, e era ele que era associado com a cidade de Eridu, onde ‘a realeza desceu do céu”. Aqui estão as descrições destes deuses como dadas no importante obra ‘Gods, Demons and Symbols of Ancient Mesopotamia’, An é a palavra suméria para ‘céu’ e é o nome do deus céu que é também o primeiro movimentador da criação, e o distante supremo líder dos deuses… Ele é o pai de todos os deuses… é An que, na tradição suméria, se apoderou do céu quando ele é separado da terra [ki], criando o universo como o conhecemos… Embora em quase todos os períodos uma das mais importantes deidades da Mesopotamia, a natureza de An foi mal definida e ele é raramente [senão sempre] representado na arte, sua específica iconografia e atributos são obscuros. Enlil é um dos mais importantes deuses no panteão mesopotamio. Segundo um poema sumério, os outros deuses não podem até mesmo olhar para o seu resplendor. Algumas vezes ele é dito ser da prole de An… O grande centro de culto a Enlil era o tenplo de E-kur (a ‘Casa da Montanha’) em Nippur, na margem norte da Suméria, e Enlil é frequenemente chamado ‘A Grande Montanha” e “Rei das Terras Estrangeiras, o que pode sugerir uma conexão com as Montanhas Zagros. Outras imagens usadas para descrever sua personalidade são rei, supremo senhor, pai e criador; ‘tempestade raivosa’ e ‘touro selvagem’. Enki [o Acadiano EA] era o deus da água potável subterrânea do oceano [abzu] e era especificamente associado à sabedoria, mágica e encantamentos, e com as artes e artesanatos da criação… Enki/EA era filho de An/Anu… O mais importante centro de culto de Enki era o E-abzu (‘A Casa de Abzu’) em Eridu. Como o fornecedor da água potável e um deus criador e determinador de destinos, Enki sempre foi visto como favorável a humanidade… No poema sumério ‘Inanna e Enki’ ele controla tudo relativo a cada aspecto da vida humana, e em ‘Enki e a Ordem Mundial’ ele tem o papel de organizar em detalhe cada característica do mundo civilizado.

Na mitologia suméria Anu é retratado [como o deus canaanita El da Parte III] como a principal figura ou deidade ‘supérflua’ que tem pouco interesse nos eventos terrenos e pode melhor ser descrito como ‘aposentado’. A real ação acontece entre Enlil e Enki, os dois filhos primários de Anu, que gerenciam e organizam a civilização humana e são frequentemente retratados como amargos rivais. Na linguagem suméria a palavra ‘en’ significa ‘senhor’ e a palavra ‘lil’ se refer ao céu, vento, ou atmosfera inferior, e a palavra ‘ki’ significa terra. Portanto En-lil, que aparece no mito sumério como o primário tomador de decisões entre os deuses, possui um nome que o torna um ‘deus céu’ similar a Anu e de certo modo similar ao deus grego Zeus. En-ki, por outro lado, até mesmo embora seus desejos sejam frequentemente frustrados por En-lil , é conhecido como ‘senhor da terra’. O relacionamente combativo deles é retratado pelo mito sumério e nos mitos acadianos e babilonio que foram escritos mais tarde.

A Criação do Homem

Nos mitos sumérios da criação Enki permanece a figura central. No mito conhecido como ‘Enki e Ninmah’, Enki é encarregado de aliviar os deuses do trabalho duro que eles faziam por todo dia. Nammum, a deusa mãe que tinha dado nascimento a todos os deuses, tem misericórdia da súplica dos deuses e diz a Enki, “Levante-se, meu filho, de sua cama, pratique seu talento percetivelmente. Crie serventes para os deuses. Deixe que ele atirem longe seus cestos’. Enki faz exatamente isto, depois do que Enki coloca de pé as novas criaturas e olha para elas com atenção. O texto então diz, ‘Depois Enki, o moldador da forma, tinha, por ele próprio, colocado sentido na cabeça deles, ele diz a sua mãe Nammu, ‘Minha mãe, a criatura cujo nome você determinou, existe. O labor/trabalho dos deuses tem sido atribuido a ela” No mito sumério o Gado e o Grão a criação do homem é novamente citada, mas apenas como uma aparente nota lateral, implicando novamente que o homem havia sido criado para servir e agradar aos deuses. Uma narrativa mais detalhada da criação do homem é dada no início do Épico Acadiano Atrahasis, que dada de por volta 1700 AC. Nesta narrativa similar os deuses menores que tinham estado sobrecarregados pelo trabalho se revoltaram contra os deuses superiores e confrontaram o próprio Enlil. Enlil convoca o Conselho dos deuses em uma tentativa de resolver a situação. Enki sugere que um dos deuses menores seja sacrificado para criar uma criatura que ‘sustentará o fardo dos deuses’. A carne e o sangue deste vítima é misturado com argila, que Enki então tece e sobre o qual uma deusa recita encantamentos. Desta massa de argila quatorze pedaços são retirado e eles são inseridos nos úteros das ‘deusas do nascimento’. Dez meses depois nascia a humanidade, com sete machos e sete femeas, que foram então forçados a assumirem o trabalho dos deuses menores, escavando canais, crescendo comida e atendendo às necessidades diárias dos deuses.

O Grande Dilúvio

Atrahasis é o nome acadiano para uma figura similar a Noé que é conhecida nas narrativas sumérias como Ziusudra [ O Eridu Geneses] ou Utnapishtim (O Épico de Gilgamesh). Segundo todas estas narrativas a criação da humanidade eventualmente tornou-se lamentada pelo deus principal Enlil. O Épico Atrahasis diz, ‘E o país estava barulhento como um touro falando alto. O deus cresceu em desassossego em sua algazarra; Enlil tinha que ouvir o barulho deles. Ele se dirigiu aos grandes deuses, ‘O barulho da humanidade tem vindo até mim demais, estou perdendo o sono com a algazarra dela’. Para lidar com o problema da super-população humana Enlil causa primeiro uma praga, e então uma fome, para atacar a terra. Em cada caso Atrahasis chama Enki para ajudar a humanidade e oferecer uma solução para a calamidade. Enki responde dando conselho a Atrahasis mas sua interferência em benefício da humanidade faz com que Enlil se torne muito zangado. A solução final, que é concordada pelos deuses, a despeito do argumento apaixonado de Enki, é que um dilúvio será causado para dizimar completamente a humanidade. Esta decisão é mantida secreta mas Enki é forçado a fazer um juramento que ele não falará sobre isto com qualquer ser humano. A despeito de seu juramento Enki sagazmente concebe um plano para salvar Atrahasis e ainda permanecer sem trair sua palavra. Ele contacta  Atrahasis por trás de uma parede de junco, e então dá instruções como se estivesse falando com a parede de junco. Deste modo Atrahasis é informado do que está vindo e ensinando como ele pode se preparar para a calamidade. É dito a ele para construir um barco tão longo e tão largo e construir um teto sólido no topo. O épico de Gilgamesh inclui as instruções de “Carregar a semente de cada coisa viva no barco’. Depois que o dilúio passa Enlil se torna enraivecido ao descobrir que a humanidade sobreviveu por meio de Atrathasis e sua família. Contudo os outros deuses se regozijam e louvam a sabedoria e compaixão de Enki. A raiva de Enlil eventualmente é passada depois que Atrathasis reverentemente constrói um altar e oferece sacrifícios a ele. No fim Enlil se reconcilia com Enki, abençoa Atrathasis e dá a Atrhatasis o dom da imortalidade.

A Transferência da Autoridade Divina

Um dos mais importantes conceitos sumérios associados aos deuses e a civilização humana, na medida em que eles são relacionados ao mundo tanto antes quanto depois do Dilúvio, era aquele do ‘me’: A definição aqui é de ‘Gods, Demons and Symbols of Ancient Mesopotamia’: me: O termo sumerio ‘me’ [pronunciado mei] é um plural, um nome inanimado, e expressa um conceito muito básico na religião suméria. Então ‘me’ são as propriedades e poderes dos deuses que capacitam um grupo inteiro de atividades centrais à vida humana civilizada, especialmente a religião, para acontecer. Um termo relacionado, gis-hur [o plano, o projeto] denota como estas atividades podem, idealmente, serem; o ‘me’ são os poderes que tornam possíveis a implementação do gis-hur e que asseguram a continuação da vida civilizada. Eles são antigos, duradouros, sagrados, valiosos. A maioria deles é mantida por An ou Enlil, mas eles podem ser destinados ou dados a outros deuses de, por implicação, menor escalão. Como esta definição explica, originalmente o ‘me’ era mantido por An e/ou Enlil. Os sumérios reconhecem Enlil como um deus supremo ativo, mas os mitos deixam claro que o ‘Pai Enki’, o deus que ajudou a criar a humanidade em primeiro lugar, era muito mais amado e reverenciado. Eventualmente o laço estreito de Enki com a humanidade se tornou reconhecido por Enlil, o que trouxe uma mudança importante no modo que a humanidade deveria ser governada. Foi decidido que o ‘me’, previamente mantido por Enlil em seu grande templo em Nippur, seria tranferido ao templo em Eridu e entregue nas mãos de Enki. Este evento momentoso na história e na religião suméria é descrito em um mito bem preservado de 467 linhas chamado ‘Enki e a Ordem do Mundo’. Este mito é relatado no livro de Samuel Noah Kramer, ‘Myths of Enki, the Crafty God’ (1989). Ele começa com as palavras abaixo, com o poeta louvando Enki em termos reverentes, O Senhor que anda nobremente no céu e na terra, auto-confiante, Pai Enki, engendrado por um touro, produzido por um touro selvagem, valorizado por Enlil, o Grande Kur, amado pelo sagrado An, o rei que voltou ao mes-tree em Abzu, elevou isto acima de todas as terras, grande usumgal [dragão] que plantou em Eridu – sua sombra se espalhando sobre o céu e a terra… Enki, senhor da hegal [abundância] que os deuses Anunna possuem, Nudimmud (um outro nome para Enki), o poderoso de Ekur, o forte de An e Uras. Nudimmud, o poderoso de Ekur, o forte de Anunna, cuja casa nobre se estabeleceu em Abzu é a pessoa de plantão no céu e na terra. ‘ Depois de 59 linhas de prece, louvação e exultação similares o poeta então permite a Enki uma chance de se auto louvar. Dentro destas linhas encontramos que Enlil, o irmão de Enki, entregou a Enki o ‘me’ que são tão essenciais para governar sobre os assuntos da humanidade. Enki, rei de Abzu, celebra sua própria magnificência – como está correto: “Meu pai, governante acima e abaixo, faça com que minhas feições ardam acima e abaixo. Meu grande irmão, governante de todas as terras, reuna para todo ‘me’, coloque o ‘me’ em minhas mãos. De Ekur, casa de Enlil, passei minhas artes e artesanato para meu Abzu, Eridu… Sou o primeiro entre os governantes. Sou o pai de todas as terras. Sou o grande irmão dos deuses, o hegal é aperfeiçoado em ‘me’. Sou o guardião do selo acima e abaixo. Sou esperto e sábio nas terras. Sou aquele que dirige a justiça ao lado de An, o rei, sobre o ‘dais’ de An. Sou aquele que tendo vindo kur, decreta os destinos ao lado de Enlil: ele tem colocado em minha mão o decretar dos destinos no lugar onde o sol se eleva…’ Depois de sua primeira fala em auto-louvor Enki para por um momento, permitindo que os deuses reunidos ofereçam sua veneração e louvor, e então Enki continua com mais pronunciamentos auto-laudatórios que tomam aproximadamente outras cinquenta linhas:

Depois que o senhor havia proclamado sua altura, depois que o grande príncipe havia pronunciado seu próprio louvor, os deuses Anunna ficaram em prece e súplica: “Senhor, que observa as artes e artesanatos, especialista em decisões, o adorado – Oh Enki, louve” Uma segunda vez, pelo prazer que isto deu a ele, Enki, rei de Abzu, celebra sua própria magnificência – como está correto: “Sou o senhor. Sou aquele que permanece. Sou eterno…” (etc., etc., etc.). Depois desta fala os deuses respondem, comentando mais uma vez o fato de que Enki é o possuidor ‘do grande nobre e puro me’ – solidificando o lugar de Enki como o mais importante deus da humanidade e confirmando sua dignidade de ser reconhecido como “O Senhor da Terra”: Para o grande príncipe que tinha retirado perto de sua terra, os deuses Anunna falam com afeição: Senhor que corre o grande ‘me’, o puro ‘me’, que fica de pé e observa o grande ‘me’, o miríade ‘me’, que é o mais importante em todos os lugares acima e abaixo, Em Eridu, o lugar puro, o mais precioso lugar, onde o nobre ‘me’ foi colocado. Oh Enki, senhor acima e abaixo, louve!” Embora o próprio nome de En-ki signifique a associação do deus com a terra, realmente não há indicação dentro dos mitos sumérios que a veneração de Enki evoluiu de uma forma primitiva de veneração à terra. Também não há indicação que os mitos, como com muitas outras deidades, que Enki uma vez foi um ser humano. Não, Enki não evoluiu da veneração da natureza, ou da veneração de ancestral. Enki era um espírito e ele era venerado como espírito. Um de seus aspectos mais importantes portanto tinha a ver com seu relacionamento com o mundo espiritual. Kramer explica, ‘O trabalho manual de Enki está em todos os lugares melhor representado do que na mágica. Aquele que conhece os segredos dos deuses e os caminhos do outro mundo é, não surpreendentemente, o deus que conhece as palavras e rituais que contratam os espíritos. Um grande número de textos preservados na ‘corrente da tradição’ são textos de encantamento, e Enki é proeminente na tradição”. “Enki é o senhor da profundeza aquosa, ‘, o ‘senhor do conhecimento oculto e impenetrável’ na profundidade de sua ‘casa de sabedoria’. Ele sempre era o mágico principal dos deuses, o grande exorcista. Sua água purificadora era usada nos encantamentos e ritos mágicos. Governante das águas do Submundo, senhor dos regatos e riachos, das colheitas abundantes, Enki era também o deus associado aos outros bens da terra, metais e pedras preciosas. Ele era o patrono dos trabalhos em metal e dos trabalhos manuais em geral. O patrono das fundações, ele deu as instruções de construir coisas… A bacia da água sagrada, uma imagem de Abzu, era colocada nos templos em honra a Enki. E a árvore sagrada cresceu em sua cidade culto de Eridu”. Talvez o leitor se recordará que há uma outra antiga tradição religiosa que tem suas raizes como elas eram, na memória de uma árvore antiga.

Esta tradição contém muitos temas similares a estes dos sumérios, mas estas similaridades apenas ajudam a ressaltar as muitas diferenças que claramente as separam.

A Perspectiva Hebraica

Segundo a tradição os primeiros cinco livros do Velho Testamento foram escritos por Moisés, que os recebeu diretamente da mente de deus. As primeiras palavras estabelecidas eram radicalmente arrogantes e completamente revolucionárias, se comparadas com as tradições da criação das culturas adjacentes que existiam naquele tempo, ao redor de meado do segundo milênio AC. Naquele tempo na Mesopotamia a cultura suméria a muito tinha acabado e a linguagem suméria não mais era falada ou escrita. A linguagem da terra era Acadiana e a Babilonia era a cidade de poder. A religião era ditada pelo Estado e a narrativa aceita da criação – a própria base da sociedade babilonia – era um texto conhecido como Enuma Elish. Segundo esta narrativa o grande deus Anu não mais era visto como o deus primordial e ancestral de todos os deuses. Ao invés, ele tinha se tornado um ser criado, que havia nascido de uma união entre um deus que era meramente a deificação do céu [Asthar] e uma deusa que era uma deificação da terra [Kishar]. No Egito a tradição Heliopolitana da Grande Eneade tinha sido aceita por centenas de anos. O ‘início’ era concebido como ‘Nun’, que era uma deificação das águas primordiais ou primevas. Nun nem até mesmo era um deus porque ele não tinha culto, templos, poucas representações e não era venerado. De Nun veio Atum , mais tarde conhecido como Ra.  Atum então masturbou-se para criar o par Shu e Tefnut, que então produziu o deus Geb [também conhecido como Seb ou Keb] e sua irmã e deusa Nut. Geb representava a terra e Nut representava o céu. Deste par veio os quatro irmãos, entre os quais o mais importante era Osiris. Não há existentes mitos de criação canaanitas,  mas temos os mitos gregos da criação, que foram desenvolvidos de uma síntese das fontes do Oriente Médio. Com os gregos o padrão é basicamente o mesmo. O ‘começo’ é grandemente não definido [Caos] ainda que fora do Caos a deusa terra Gaia seja capaz de emergir. Ela então dá nascimento a um número de deidades que representam as diferentes facetas da realidade, incluindo o ‘céu’ que é um deus chamado Urano. Finalmente é das relações dela com seu filho Urano que vieram os deuses iniciais, que incluem Cronos, que mais tarde tornou-se Zeus. Com este padrão universalmente aceito em mente, de céu e terra de certo modo dando nascimento aos deuses, o próprio começo do Geneses 1:1 é revelado como uma declaração revolucionária: “No início deus criou o céu e a terra’. Moisés foi levado a acreditar que o deus que ele servia não era um ser criado, meramente um entre iguais, não um deus que poderia morrer um dia, mas que seu deus era de fato o criador do inteiro universo, Aquele que existia antes que o mundo existisse e que existirá quando este mundo acabar.

A Criação do Homem

Moisés aprendeu que seu deus foi o responsável pela criação da humanidade em primeiro lugar. A humanidade foi criada na imagem de Deus e dado uma importante responsabilidade de governar e cuidar da terra. Contudo, devido a decepção vinda de um ser-espírito que trabalhava contra deus, da tentação que veio de uma árvore proibida, e da desobediência voluntária nascida do orgulho egoista, a humanidade caiu de sua posição de autoridade sobre a terra e pureza diante de deus.

O Crime e o Banimento de Caim

Depois da ‘queda’, como foi chamada, Deus continuou a instruir e cuidar da humanidade, ainda que ele esperasse em troca reverência e veneração. O primeiro pecado registrado depois da ‘queda’ foi cometido pelo ciúme e envolvia a exigência de Deus que ele fosse venerado em seus próprios termos, muito mais do que nos termos dos homens. No livro do Geneses esta história é aquela do assassinato de Abel por Caim. A mesma história básica é encontrada, com uma poucas mudanças sutis, na mitologia suméria. No mito de Emesh e Enten – dois deuses menores – um fazendeiro e o outro pastor, entram em uma briga. Eles finalmente apresentam o caso a Nippur para ser julgado por Enlil que, em uma decisão que contradiz aquela dada pelo Deus do Geneses, escolhe o fazendeiro ao invés do pastor. No mito do Gado e do Grão os irmãos Lahar, um deus do gado, e Ashnan, um deus do grão, entram em uma briga sobre quem merece mais reconhecimento, mas infelizmente o fim do mito não tem sobrevivido. O mito de “Inanna Prefere o Fazendeiro” é uma outra variação do tema de Caim e Abel. Nesta história Inanna rejeita os avanços do pastor que então se torna beligerante em relação ao favorito de Inanna, o fazendeiro. Soment depois que o fazendeiro oferece palavras suaves de apaziguamento e um número de presentes como consolação, incluindo aquele da própria Inanna, a raiva do pastor cede. Na narrativa do Geneses é o fazendeiro, Caim, que mata Abel, o pastor, em uma raiva ciumenta. Depois da rejeição do sacrifício de Caim e o assassinato de Abel o livro do Geneses dá uma narrativa detalhada do que aconteceu a Caim e seus descendentes. Esta história ajuda a esclarecer alguns dos mistério que cercam as similaridades e contradições dentro das tradições hebraicas e sumérias. ‘E Caim falou com Abel seu irmão, e isto se passou quando eles estavam no campo, que Caim se elevou contra Abel seu irmão e o matou. E o Senhor disse a Caim, Onde está Abel, seu irmão? E ele disse, não sei. Sou eu o guardião de meu irmão? E ele disse O que você fez? A voz do sangue do seu irmão gritou a mim do solo. E agora você é amaldiçoado sobre a terra, que abriu sua boca e recebeu o sangue de seu irmão de sua mão; Quando você marcou o solo, o sangue do seu irmão em sua mão, e portanto não deve ser mantido a você sua força, um fugitivo e vagabundo deva você ser sobre a terra. Minha punição é maior do que eu posso suportar. Preste atenção, você expulsou-me neste dia da face da terra; e de sua face eu devo estar oculto; E o Senhor disse a ele, seja quem for que mate Caim, a vingança será tomada sete vezes. E o Senhor colocou uma marca em Caim para que quem o encontrase não o matasse. E Caim saiu da presença do Senhor e habitou na terra de Nod, a leste do éden. E Caim conheceu sua esposa e ela concebeu e ele construiu uma cidade, com o nome de seu filho Enoque”.  (Genesis 4:8-17, KJV)

Eridu: o Lugar da Descida

Segundo a Bíblia a primeira cidade foi construída por Caim e chamada como seu filho Enoque. Segundo a história suméria a primeira cidade que foi construida foi estabelecida por seres humanos sob os cuidados do deus Enki; e chamada Eridu. Conquanto a narrativa do Geneses possa de fato estar correta há uma grande dose de evidência que a primeira cidade eventualmente tornou-se conhecida pelo nome do filho de Enoque, que era Irad. Em outras palavras, o nome ‘Eridu’ vem do nome Irad. De fato, baseado nesta análise, David Rohl acredita que o texto do Geneses 4:17 tem sido cuidado. Ele acredita que o sujeito da segunda sentença, segundo as regras usuais de gramática,  deve ser entendido como se referindo a Enoque. Rohl também acredita que a última palavra do Geneses 4:17 aparece fora de ligar e deve certamente ser uma inserção do escriba. Se você ler as referidas correções de Rohl o verso então deverá ser lido: “E Caim conheceu sua esposa, e ela concebeu, e nasceu Enoque; e ele [Enoque] construiu uma cidade e deu a cidade o nome de seu filho Irad. ” Rohl ressalta que o nome Irad mais provavelmente derive da palavra hebraica ‘yarad’, que significa ‘descer’. (Irad em hebraico é soletrado ayin-yod-resh-dalet, e yarad é soletrado yod-resh-dalet). Recorde-se novamente das primeira palavras da Lista dos Reis Sumérios: “Depois que a realeza desceu do céu, a realeza estava em Eridu”. Seja qual for o caso, se há erros dos escribas no texto Masorético do Geneses ou não, há uma clara conexão entre os descendentes de Caim, as primeiras cidades dos Sumérios, e o grande deus sumério Enki. Segundo o livro do Geneses Lamech foi um descendente de Caim através de Irad, e Lamech teve duas esposas. Uma esposa era chamada Zillah e ela deu a luz a Tubal-Caim que se tornou ‘o forjador de todos implementos de bronze e ferro”. Novamente David Rohl liga esta informação do Geneses com as narrativas sumérias, especificamente com a segunda cidade da Lista dos Reis Sumérios,  Bad-tibira: “Badtibira significa ‘Assentamento do Trabalhador em Metal’. Se tomamos as consoantes hebraicas que compõem o nome Tubai obtemos T-B-L. Sabemos que a consoante ‘l’ é frequentemente representativa de ‘r’. Então podemos obter um original T-b-r que pode, por sua vez, responder pela antiga Tibira. Muito interessantemente, o epítiteto semítico ‘Caim’ Em Tubal-Caim também significa ‘forjador de metais’  o que sugere que este epíteto tinha sido acrescentado como um esclarecimento da pouco conhecida palavra suméria pelo autor hebraico do Geneses. Etão estas são pistas que sugerem que Tubal-Caim e Badtibira estão ligados de algum modo”. Segundo a narrativa do Geneses, o meio irmão de Tubal-Caim era Jubal, que era ‘o pai de todos aqueles que tocam a lira e a flauta’. Estas duas artes da civilização, a músia e o trabalho em metais, estão sempre estreitamente associados a Enki, e elas são especificamente mencionadas no mito de Inanna e Enki como uma parte do ‘me’ que se tornou controlado por Enki. No livro apócrifo de Enoque, que contém uma outra antiga narrativa da ‘descida do céu’, a humanidade foi ensinada a arte de fazer armas [bem como feitiçaria, mágica, cosméticos, astronomia, astrologia, adivinhação e outras de tais ‘artes’] pelos anjos caídos que desceram do céu e tomaram as mulheres humanas para esposas, como escrito no Geneses 6. Se esta última possibilidade é considerada então Enki começa a ser visto sob uma luz diferente. No mito sumério Enki constrói o E-Engurra, a história é contada de como Enki construiu seu templo em Eridu e das bençãos e louvores que ele recebeu dos outros deuses depois que ele o havia completado: “Depois que a água da criação tinha sido decretada, Depois que o nome hegal [abundância] nasceu o céu, como plantas e ervas vestiram a terra, o Senhor do Abismo, o Rei Enki, Enki o Senhor que decreta os destinos, Construiu sua casa de prata e lápis-lázuli, como uma luz faiscante. O pai se adaptou adequadamente no abismo. As criaturas de semblantes brilhante e sábias, vieram do abismo, ficaram todas de pé ao redor do Senhor Nudimmud (Enki); A pura casa que ele construiu Ele ornamentou grandemente com ouro, Em Eridu ele construiu a casa do banco de água, Seu trabalho de tijolos, murmurio da palavra, doação de conselhos etc… como um touro rugindo, A Casa de Enki, os oráculos murmurando”

O Grande Dilúvio

No livro do Geneses o Grande Dilúvio é causado por um Deus não porque a humanidade fosse barulhenta demais, como o afirma o épico de Atrahasis; mas porque a humanidade tinha se tornado corrompida por suas interações sexuais, espirituais e tecnológicas – com os anjos caídos: “O Senhor viu quão grande havia se tornado a perversidade do homem sobre a terra, e que cada inclinação dos pensamentos de seu coração era apenas má o tempo todo. O Senhor lamentou ter criado o homem sobre o terra, e seu coração se encheu de dor. Então o Senhor disse: “Dizimarei a humanidade, que criei, da face da terra – homens e animais e as criaturas que se movem ao longo do solo, e os pássaros no ar – poque lamento te-los criado”. Agora a terea está corrupta aos olhos de deus e cheia de violência. Deus viu o quanto corrupta a terra tinha se tornado porque todas as pessoas sobre a terra tinham corrompido seus caminhos. Então deus disse a Noé, “Irei colocar um fim em todas as pessoas, porque a terra está cheia de violência por causa delas. Certamente irei destruir a ambos e a terra” (Genesis 6:5-7, 11-13) Noé foi escolhido para ser poupado porque apenas ele e sua família tinham resistido às influências negativas do mundo do espírito, e permaneceram verdadeiros ao Criador. Noé era ‘um homem justo, sem culpa em seu tempo” e como Enoque ele ‘andava com Deus’. Depois do dilúvio Noé venerou Deus e recebeu uma benção em troca. Contudo não demorou muito para que a humanidade fosse novamente seduzida pelos espíritos.

A Torre de Babel

A genealogia da família humana é dada em uma lista conhecida como Tabela das Nações no Geneses 10. Nesta lista há exatamente setenta nomes dados aos descendentes dos três filhos de Noé, Shem, Ham e Jafé. Foi através destas tribos que a terra foi novamente repovoada e reassentada depois do Grande Dilúvio. Contudo, o livro do Geneses também dá uma estranha narrativa que descreve como a intervenção de Deus era necessária para fazer o processo continuar: “Agora o mundo todo tinha uma linguagem em comum. Na medida em que os homens se moviam para leste, eles encontraram uma planície em Shinar e se assentaram lá. Eles disseram um ao outro, ‘Venha, vamos fazer tijolos e cozinha-los cuidadosamente’. Eles usaram o tijolo ao invés da pedra, e piche como cimento. Então eles disseram, “Vamos nós mesmos construir uma cidade, com uma torre que alcance o céu de forma que façamos um nome para nós próprios e não sejamos espalhados pela terra inteira”. Mas o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo. O Senhor disse, “Se eles como pesoas falando a mesma lingua tem começado a fazer isto, então nada que eles planejem fazer será impossível para eles. Vamos, vamos descer e confundir a linguagem deles de forma que não entendam um ao outro”.

Então o senhor os espalhou de lá por toda a terra, e eles pararam de construir a cidade. Isto é porque esta foi chamada de Babel – porque lá o Senhor confundiu a linguagem do mundo inteiro. De lá o Senhor os espalhou sobre a face da inteira terra. (Genesis 11:1-9, NIV) Segundo a narrativa do Geneses Deus sobrenaturalmente “confundiu a linguagem do mundo inteiro”. Isto tornou impossível que a Torre de Babel fosse completada e também tornou necessário que as tribos diferentes, todas falando linguagens diferentes, se ramificassem e declarassem seus próprios territórios para habitação. A narrativa suméria deste evento pode ser escolhida pelas pistas encontradas dentro de uma grande narrativa épica de 636 linhas sobre Nudimmud e nas” linhas 136-155 ela fala sobre uma idade há muito tempo atrás quando as pessoas viviam sem medo, quando a humanidade estava unida em uma veneração monoteista, e quando a fala humana tinha uma linguagem unificada. Este texto é importante porque ele aponta claramete para Enki  (Nudimmud) como a força por trás das cenas que ajudou a trazer a confusão de linhas: “Era uma vez, então, quanto não existia serpente, não havia escorpião, não havia hienas, não havia cães selvagens, nem lobos, nem terror; os humanos não tinham rivais. Uma vez, então, as terras de Shubur-Hamazi, a poliglota Suméria, que a grande terra que tinha o ‘me’ por soberania, Uri, a terra com tudo exatamente assim, a terra Martu, repousando seguramente, o mundo inteiro – as pessoas eram um – para Enlil em uma lingua dava voz. Então o fez o competidor – o en [senhor], o competidor, o mestre, o competidor; o rei, o competidor; o rei Enki, en de hegal, o um com palavras incessantes, en de esperteza, aquele perspicaz da terra, o sábio dos deuses, dotado de pensamento, o en de Eridu, a mudança das falas de suas bocas, ele não tendo criado a rivalidade nisto, na fala humana que havia sido uma só.”

O historiador do século I Josephus em sua obra, Antiguidade dos Judeus, explica que a construção da Torre de Babel foi um ato de desobediência em relação a Deus e aqueles que trabalhavam nisto estavam motivados por seus próprios desejos egoístas e orgulho. Ele também explica que seu principal proponente era um rei chamado Nimrod, o filho de Cush, e neto de Ham. Nimrod aparece dentro da Tabela das Nações como o verdadeiro primeiro potentado bíblico: “Cush era o pai de Nimrod, que cresceu para ser um poderoso guerreiro sobre a terra. Ele era um poderoso caçador diante do Senhor; isto é o porque é dito: “Como Nimrod, um poderoso caçador diante do Senhor’. Os primeiros centros de seu reino eram a Babilonia, Erech, Akkad e Calneh, em Shinar. Desta terra ele foi para a Assíria onde ele construiu Nínive, Rehoboth Ir, Calah e Resen, qie está entre Nínive e Calah; que é a grande cidade.” (Genesis 10:8-12, NIV) A figura conhecida na bília como Nimrod, que se opôs ao deus do Velho Testamento, era conhecida pelos sumérios por Enmerkar. Ele é o herói do épico ‘Enmerkar e o Senhor de Aratta’. Em hebraico as quatro letras que compõem o nome Nimrod grosseiramente se traduzem em n-m-r-d Em sumério o nome Enmer se traduz para n-m-r enquanto o sufixo -kar simplesmente significa ‘caçador’. Na bíblia é Nimrod O Caçador e no mito sumério ele é ‘Enmer o Caçador’. Depois do Grande Dilúvio a Lista dos Reis Sumérios dá os reis que governaram a primeira dinastia de Uruk. O primeiro na lista é o rei Meskiagkasher que, como explicamos na Parte IV, era de fato o Cush bíblico. O segundo nos dado é o de Enmerkar]: “Enmerkar, filho de Meskiagkasher, rei de Uruk, aquele que construiu Uruk – reinou 420 anos…” A Lista dos Reis Sumérios registra que Enmerkar construiu Uruk, e segundo o Geneses o centro do reino de Nimrod era a Babilonia [Babel] e Erech, que é Uruk (nos dias modernos “Iraque”).

Enmerkar e o Templo de Abzu

O pema épico ‘Enmerkar e o Senhor de Aratta’ conta a história do plano de Enmerkar de construir um templo para a deusa Inanna em Uruk, e suas tentativas de forçar seus vizinhos no reino montanhoso de Aratta a fornecer todo o material necessário para a construção. Além deste projeto, Enmerkar estava altamente engajado em renovar e grandemente expandir o templo de Enki que era localizado em Eridu. é este projeto que David Rohl acredita foi registrado no Geneses como uma tentativa de construir a Torre de Babel. Segundo David Rohl, as referências em Geneses 10 e 11 à cidade de Babel [Babilonia] devem ser compreendidas como referências a Eridu. O nome sumério original para a sede de culto a Enki era Nun.ki, que significa ‘lugar poderoso’. Quando o sagrado precinto da Babilonia foi construido para Marduk mil anos mais tarde ele também foi conhecido como Nun.ki mas era conhecido primariamente pelo seu nome acadiano de Bab-ilu. Em outras palavras, Bab-ilu se iguala a Nun.ki e o Nun.ki original estava localizado não na Babilonia, mas em Eridu. Aqui ésta como Rohl explica isto,

“(Nun.ki) é conhecido como Eridu – a primeira capital real na Suméria e a residência do deus do abismo, Enki. De fato, isto parece o precinto sagrado na Babilnia que era chamado como o original Nun.ki, até mesmo indo tão longe para chamar o templo dedicado a Marduk, E-sagila ou a ‘casa elevada’ e também conhecido como o ‘porto ancoradouro do céu e terra’, como o templo da torre original em Eridu. Então a bíblica Torre de Babel/Nun.ki não foi o velho zigurat do segundo milenio do Velho Testamento, mas muito mais o protótipo do terceiro milenio do zigurat construído em Eridu/Nun.ki no final do período Uruk. A história épica suméria, Enmerkar e o Senhor de Aratta, começa com Enmerkar de Uruk chamado a deusa Inanna e pedindo a ajuda dela para que ele criasse um templo para ela que fosse digno de sua grandeza. Até este tempo Inanna era associada ao reino de Aratta das Montanhas Zagros ao norte da Suméria, mas no poema Enmerkar alega que estas pessoas não veneram e a honram como ela merece. Enmerkar se refere a Inanna como ‘minha irmã, deixe que Aratta molde talentosamente o ouro e a prata em meu benefício para Unug [Uruk]. Deixe que eles cortem o frágil lápiz lázuli dos blocos, deixe com eles a translucêencia do lapis lázuli. .. construam uma montanha sagrada em Unug. Deixe que Aratta construa um templo que desça dos céus – seu lugar de adoração, o Templo E-ana; deixe Aratta talentosamente moldar o interior do sagrado gipar, sua morada; e possa eu, a juventude radiante, possa eu ser abraçado lá por você. Deixa que Aratta se submeta sob o domínio de Unug em meu benefício.” Além deste templo para Inanna, o E-ana, a ser construido em Uruk, Enmerkar também pede materiais para um outro projeto, a que ele se refer como o ‘grande templo’, ‘a grande morada dos deuses’, que seria uma renovação de Abzu, o centro de culto a Enki em Eridu: “Deixe que as pessoas de Aratta desçam das montanhas as pedras de sua montanha, contruam o grande templo para o ‘me’, erijam o grande abrigo para o ‘me’, façam a grande morada, a morada dos deuses, famosa para o ‘me’, faça-me próspero  em Kulaba (Uruk), faça abzu crescer para mim como uma montanha sagrada, faça Eridug brilhar para mim como o alcance da montanha, faça o templo de abzu brilhar para mim como a prata no lodo”. Inanna responde a súplica de Enmerkar, e ela dá a ele instruções a respeito de como lidar  com o reino de Aratta. Ele diz a ele paras escolher um mensageiro forte e eloquente e envia-lo as montanhas para falar  com o povo de Aratta e repetir as demandas de Enmerkar. Ela prevê que o povo de Aratta ‘saudará humildemente Inanna como um pequenino camundongo’ e que ‘Aratta deve se submeter sob o domínio de Unug (Uruk)”; eles fornecerão os materiais para os projetos de Enmerkar que permitirá que o abzu de Eridu “cresça para você como uma montanha’. Enmerkar segue o conselho de Inanna e o resto do épico consiste de uma série de trocas diplomáticas entre Enmerkar e o rei de Aratta. Enmerkar se refere a ele próprio como ‘o senhor que Nudimmud tem escolhido em seu sagrado coração’ e ele exige que Aratta se submeta a ele ‘como um assentamento amaldiçoado por Enki e completamente destruido, eu também destruirei completamente Aratta!” Na troca final Enmerkar dá ao seu mensageiro uma longa lista de exigências para fazer de Aratta, terminando coma exigência que Aratta ‘tome as pedras da montanha, e reconstrua para mim o grande templo de Eridu, o abzu, o E-nun; deixe que eles adornem sua arquitrava para mim… deixe que eles façam sua proteção se espalhar sobre a terra para mim.”  No fim, o rei de Aratta se recusa a se submeter a Enmerkar  mas sabemos quwe eventualmente Enmerkar invadiu e subjugou Aratta por outros poemas épicos, tais como Lugulbanda e a Caverna da Montanha. A carreira de Enmerkar é resumida por David Rohl: “A conquista da Aratta rica em recursos foi a culminação da política expansionista de Enmerkar. Pelo fim de seu longo reinado o rei de Uruk controlava grande parte da Mesopotamia e tinha grandemente enriquecido os centros de culto da Suméria. Ele também controlava as rotas de comércio de mulas pelas Montanhas Zabros e o comércio marítimo via Golfo Pérsico. Ao norte, as colônias grandemente fortificadas foram estabelecidas perto dos principais caminhos por água e portanto ligavam o coração do império por meio de barcos de movimentos rápidos. Bens exóticos e metais estavam chegando a cidade capital de Uruk e, com certeza, aos cofres do palácio de Enmerkar. Isto realmente faz dele o primeiro potentado da terra, exatamente como a tradição do Geneses afirma. Em seu disfarce de guerreiro-herói Enmer/Nimrod é lembrado como o fundador das mais poderosas cidades na Assíria e na Babilonia, bem como um grande construtor nos velhos centros religiosos da Suméria”.

A Evidência para a Torre de Eridu

A história da Torre de Babel é descartada pelos historiadorese modernos como ficção porque não há evidência histórica que a Babilomia existisse como uma cidade nesta data inicial, por volta de 2800-3000 AC, e porque não há evidência arqueológica para a própria Torre, que deve ter sido uma das mais importantes maravilhas do mundo, até mesmo se ela nunca fosse absolutamente completada. O fato é que a cidade da Babilonia não se torna importante até antes da elevação e Hammurabi por volta de 1800-2000 AC, e a Babilonia não possuia um maior zigurat até que um fosse construido por Hammurabi em honra do novo deus Marduk. Contudo, este problema desaparece, uma vez se torne claro que a Torre de Babel era realmente a Torre de Eridu. Mais uma vez, David Rohl vem com a evidência que muitos historiadores localizaram mal ou ignoraram. No final dos anos de 1940 o antigo sítio de Eridu – o moderno Tell Abu Shahrain – foi escavado por uma equipe conjunta iraquiana e britânica liderada por Fuad Safar. O que Safar descobriu foi a evidência de um centro de culto continuamente mantido ao deus Enki. O próprio primeiro templo era um simples caso provavelmente feito de juncos, mas uma estrutura quadrada de tijolos foi logo construida e depois disso os habitantes fizeram contínuas renovações e expansões. A escavação revelou dezessete níveis diferentes de construção deste templo, o abzu de Enki, que durante o período Uruk se tornou o lugar mais sagrado em toda a Mesopotamia. A mais impresiva descoberta foi conhecida como Templo I, uma estrutura maciça com um enorme templo construido sobre uma plataforma maciça, com a evidência de uma até mesmo maior fundação por baixo dele que teria sido elevada quase na altura do próprio templo. David Rohl acredita que seja o que for que foi construido no topo desta fundação maciça, era provavelmente a estrutura que é descrita no Geneses como a Torre de Babel. O que é até mesmo mais intrigante para os escavadores foi sua descoberta que precisamente no ponto mais alto desta obtenção arquitetonica, o asentamento de Eridu foi abandonado. Rohl escreve que ‘muito subitamente, a ilha de Eridu sofreu de algum destino cataclismico’ A análise academica de Fuad Safar do sítio afirma, “… o período Uruk… parece ter sido trazido a uma conclusão por não menos um evento do que o total abandono do sítio… Foi o que parece ter sido um tempo incrivelmente curto, retirando a areia que tinha enchido as construções desertas do complexo do templo e obliterou todos os traços de uma pequena comunidade uma vez própspera… A este ponto, há um considerável hiato na história do sitio, como ele é conhecido por nós dos resultados de nossas escavações… a época Jemdet Nasr … não é representada em Eridu. Durante o período Inicial Dinástico também, não há razão para supor que as fortunas do templo de Enki em Eridu tenham alcançado um declínio extremamente baixo. De fato, apenas restos medíocres deste período, foram indicações sobre os aclives do monte que agora representavam as ruinas do templo pré-histórico, que algum tipo de santuário empobrecido ainda sobreviveu em seu pico”. Então o que aconteceu a Eridu? Mais importantemente, o que aconteceu a Enki? O que pode ter causado o abandono e a desolação do primário sítio sagrado do mais influente e reverenciado deus da Mesopotamia? Se a narrativa do Geneses está correta e Nimrod de algum modo esteve envolvido, então o que aconteceu a Enmerkar? Estranhamente, os mitos e histórias sumérias não oferecem respostas diretas ou satisfatórias para qualquer uma destas perguntas. O mito sumerio pode não oferecer boas respostas, mas o livro do Geneses o faz. Eles nos conta uma tentativa de construir a Torre de Babel que fez com que deus intervisse e confundisse a linguagem ds construtores, depois do que as diferentes tribos e grupos saissem da Mesopotamia para reclamar e habitar terras suas próprias. A Parte IV se concentra nos filhos de Ham e explicou como eles viajaram de barco, primeiro para Bahrein e depois para a África, Egito e Mediterrâneo. Há evidência que este grupo – a Tribo Falcão -, mantinha uma lembrança de seu lar original em Eridu e, mais importantemente, de seu líder Enmerkar e de seu deus Enki, depois que eles foram conquistar e habitar novas terras.

A Conexão Egípcia

Os mitos egípcios da criação representam um maior desafio para os eruditos que os tentam interpretar. Na Parte II resumimos brevemente o mito da criação da Eneade de Heliopolis, que promove o deus Atum como o criador do mundo, mas parece que cada maior centro religioso no Egito achou necessário desenvolver sua própria versão da história da criação. Então, por exemplo, em Menfis o criador era Ptah; em Hermopolis a criação veio conjuntamente pelos deuses enigmáticos Ogdoad; e em Sails no Egito Inferior era a deusa Nit, ou Neith, que ‘fez com tudo viesse a ser’. Superando todos estes estava a narrativa dada pelos sacerdotes de Tebas cujo criador era um deus de cabeça de carneiro chamado Amun, que tinha se tornado associado a Zeus pelo tempo em que Alexandre o Grande anexou o Egito. A despeito das diferenças nas narrativas da criação parece que todos eles tem coisas em comum. Em primeiro lugar, todos eles parecem ter ao menos alguns elementos de sua teologia baseados nos iniciais Textos da Pirâmide, e secundariamente eles geralmente descrevem o universo antes da criação como aquoso, um vazio sem forma e caótico, personificado pelo deus Nun. E de Nun que se eleva o monte primevo, da qual vem o criador que traz o resto dos deuses e a humanidade. Em Helioipolis este criador era Atum, cuja associação com a Monte Primevo é representada por Benben, uma pedra de forma piramidal. Atum era personificado como a ave Benu, a auto-criadora fênix que logo era colocada no topo da pedra piramidal e Atum também era associado a Ra e visto como um deus sol. A cidade de Menfis era pensada ter sido fundada por Menes em tempos pré-dinásticos e era um importante centro administrativo durante o Velho Reino. Os sacerdotes desta cidade acreditavam que Ptah fosse realmente o criador de Atum, e eventualmente Ptah foi absorvido na concepção egípcia de Nun. Ao examinar Ptah David Rohl se refere a um texto menfita onde se lê: “Ptah que está sobre o Grande Trono; Ptah-Nun, o pai que gerou Atum; Ptah-Nunet, a mão que deu a luz à Atum; Ptah o Grande que é, o coração e a lingua da Eneade; Ptah que deu nascimento aos deuses…” Em Hermopolis o próprio início era personificado como quatro pares de relacionais casais primordiais. Estes eram Nun e Nunet, que persionificavam as águas primevas; Heh e Haunet que representavam o infinito; Kek e Kauket, que personificavam a escuridão; e Amun e Amaunet, que representavam o ar. Os sacerdotes de Hermopolis desenvolveram a idéia que em algum ponto inicial estes pares interagiam e lançavam uma grande explosão, da qual veio a existencia o Monte Primevo. Este monte era conhecido como ‘Ilha da Chama” porque era onde o deus sol Atum/Ra nasceu e onde ele primeiro irradiou. Em Tebas os sacerdotes escolheram se concentrar no deus Amun. Ele era o ‘deus oculto’ e seus sacerdotes foram a grandes distância para faze-lo parecer  tão misterioso e poderoso quanto eles podiam. O sacerdócio tebano reconheceu Amun como um membro do grupo Ogdoad, ainda que eles acreditassem  que Amun também precedeu isto e fosse de fato seu criador. Ele transcendeu a criação e precedeu as águas primordiais de Nun, criando todos os deuses e a própria matéria. Amun cresceu em poder na Décima Primeira Dinastia quando ele foi unido a Ra o deus sol e se tornou conhecido como Amun-Ra. Fora do estranho culto de vida curta instalado por Aknaton, a veneração de Amun era o mais perto que os egípcios vieram a abraçar algo vagamente similar ao monoteismo.

A ascendência de Amun como um deus primário egípcio pode de algum modo se relacionar ao período do cativeiro israelita no Egito depois da morte de José, quando a monarquia egípcia começou a ver os israelitas como inimigos internos que precisavam ser destruidos e escravizados. Para David Rohl, cuja tarefa em seu livro ‘História’ é mostrar  que os governantes dos Dinastias Egípcias vieram da Mesopotamis, a coisa comum que é importante em todas as narrativas da criação é o Monte Primevo que era o lar original dos deuses. Durante o período do governo Ptolomeico no Egito houve uma maior renovação e expansão do templo de Horus em Edfu. Gravado ns paredes deste templo há importantes referências a este Monte Primordial e a era a muito acabada dos deuses conhecidos como Zep-Tepi, ou ‘A Primeira Vez’. David Rohl se refere a estas gravações e encontra evidência que os egípcios possuiam sólidas memórias de sua jornada, primeiro de Eridu para Bahrein e então de Baherein para o Egito. A fundação do primeiro templo mítico sobre o Monte Primordial é mostrada em uma inscrição na parede em Edfu que é chamada de “Toth e os Sete Sábios”. Este templo primordial é simplesmente chamado de “o Grande Trono” e Toth e os sete sábios são atendidos por dois deuses enigmáticos conhecidos como Wa e Aa. Rohl ressalta que um grupo de ‘sete sábios’ também são personagens  proeminentes  no mito sumério. Eles são honrados como os pais da civilização suméria e no épico de Gilgamesh a cidade de Uruk é referida com as seguintes palavras, ‘Não foram os prórios sete sábios que estabeleceram seus planos?’ Em uma outra cena de Edfu há uma apresentação central de um Falcão sentado sobre um galho cerimonial conhecido como Djeba. Em frente dele está de pé um rei em uma atitude de adoração e por trás dele seis deuses diferentes sentam-se ao longo de Wa e Aa. Estes deuses são referidos como ‘Os Seniores’, ‘A Prole do Criador’, ‘Os Gloriosos Espíritos da Inicial Idade Primeva’, “a Irmandade dos Sábios’, ‘Os Deuses Contrutores’, ‘O Glorioso Shebtiu, e também como “Os Filhos do Elevado’. Nesta cena Wa e Aa são referidos como ‘Os Senhores da Ilha de Agressão’ que ‘fundaram este lugar  e que foram os primeiros a existir na companhia de Re’. Este grupo, o Shebtiu, é interpretado por Rohl serem os descendentes dos originais ‘Ancestrais’ que viveram durante a era Zep-Tepi. Seu lar original era o ‘Ilha da Agressão’ ou ‘Ilha da Chama’ onde Ra foi dito ter primeiro brilhado – o original Monte Primordial. Contudo, por razões não claramente explicadas, o Shebtiu se relocalizou e fundou um novo lugar conhecido como ‘Ilha Abençoada’ que era a localização do Djeba do Falcão. Esta ‘Ilha Abençoada’ era Bahrein e as inscrições de Edfu também se referem a ela como a ‘Ilha de Re’, ‘    O Exaltado Trono de Horus’, ‘O Solo de Fundação do Governante da Asa’ bem como ‘O Lugar de União da Companhia’. Rohl comenta que este último título sugere ‘uma reunião de forças ou aliança de algum tipo. é como se embora a ilha se torne um posto intermediário para algo muito maior. Esta possibilidade é reforçada por alguns dos outros nomes que são dados ao original Shebtiu dentro dos textos de Edfu. Seus nomes são ‘o Distante’, ‘O Grande’, ‘O Marinheiro’ ,  ‘A Cabeça Sagrada’, ‘O Criador-serpente da Terra’, ‘O Senhor dos Corações Gemeos’, ‘O Senhor da Vida e Poder Divino’ e também o feroz ‘O Senhor do Peito Poderoso que fez a matança; o Espírito que vive no sangue’.

A localização do próprio Monte Primordial, que segundo os mitos egípcios da criação se elevou da águas caóticas de Nun, é esclarecido por alguns dos mais comuns mitos de criação babilonios e sumérios, dos quais e segue um exemplo: ‘um junco não tinha brotado, uma árvore não tinha sido criada, uma casa não tinha sido feita, a cidade não tinha sido construida. Todas as terras eram mar. Então Eridu foi feito’. A conexão entre a cidade suméria de Eridu e o Monte Primodial do Egito é tornada clara por alguns nomes que são associados a ambos. Por exemplo, as águas primordiais eram conhecidas como Nun pelos egípcios, enquanto o nome para o templo de Eki em Eridu era, como o leitor pode se recordar, ‘Nun.ki’ e também ‘E-nun’. Uma outra conexão existe com as muitas referências a Eridu como o ‘Abzu’ de Enki. Esta é raiz que conhecemos hoje para a palavra ‘abismo’ e Enki era o Senhor do Abismo. Um dos primeiros importantes centros de culto para os invasores do Egito era um lugar que veio a ser conhecido pelos gregos como Abidos. Contudo, o nome egípcio é melhor representado como ‘Abedjou’. O som ‘dj’ é frequentemente dado como ‘z’ tal como na apresentação comum da Pirâmide em degrau de Djoser ou Zoser. Com isto em mente achamos que Abidos=Abdju=Abzu, que diretamente se iguala ao centro de culto a Enki conhecido como o Abizu em Eridu. O deus da Tribo Falcão, a tribo que invadiu e conquistou o Egito, era claramente Enki. Há uma bem conhecida inscrição pictográfica suméria de Enki que o apresenta sustentando um falcão em uma das mãos, com as águas frescas que ‘dão a vida’ do abismo fluindo de seus ombros.

Enki sempre era associado com as correntes de água doce, que eram consideradas portais para a terra dos mortos subterrânea. Em Eridu seu templo foi construido sobre um riacho, e em Bahrein há numerosas correntes de água doce que borbulham na ilha e para o oceano perto do litoral. As localizações escolhidas para os sítios de culto no Egito na vizinhança de Abidos provavelmente foram escohidas porque lá havia muitas de tais corentes de água. [Em uma nota lateral, esta conexão entre as águas subterrâneas e o mundo dos mortos foi também claramente compreeendida pelos antigos maias e era essencial ao seu elaborado rito de sacrifício humano, como examinado recentemente em investigações do National Geographic.) No mito sumério Enki era conhecido como ‘O Senhor da Terra’ e ele desempenha um papel maior nos mitos que explicam o aparecimento do deus sol Utu e da grande deusa Inanna que foi trazida das montanhas e recebeu um papel central. No caso de Utu descobrimos que Meskiagkasher (Cush) e Enmerkar (Nimrod) são referidos como ‘filhos de Utu’. O que parece ter acontecido é que depois que o centro deculto a Enki em Eridu foi abandonado ele se reinventou dentro da Tribo Falcão. Eles eram seus mais devotos veneradores e através deles ele foi capaz de criar para si próprio um novo sistema religioso bem como uma nova civilização. David Rohl encontra muitas conexões entre o Enki sumério e os deuses egípcios Ra, Atumn e Ptah. Enki foi capaz de se apropriar do papel de criador primário através de Atun, enquanto ao mesmo tenpo utilizando o simbolo do sol, Ra, que tinha sido dado a Utu nos mitos sumérios. Isto explica porque o Monte Primordial era conhecido como a ‘Ilha da Chama’, o lugar de onde primeiro Ra se irradiou e do qual Atum se criou, e também explica porque Bahrein, a Ilha Abençoada, era também conhecida como a Ilha de Ra. Nas escavações feitas em Bahrein a evidência é completa que em seus dias mais iniciais ela era um paraíso do culto para os veneradores de Enki. No épico “Enki e a Ordem Mundial” foi Enki que estabeleceu Bahrein, ou Dilmun, como uma civilização, e é Enki que era conhecido como O Senhor de Dilmun. Na narrativa de sua escavação de Bahrein o arqueólogo Geoffrey Bibby comenta sobre a descoberta de um riacho especial e piscina em um templo antigo dedicado a Enki: ‘Uma tal piscina de ablução era uma caraterística muito não suméria em um templo que de outro modo não era Mesopotamio em carater. E pensamos do Grande Banho na cidadela de Mohenjo-Daro, e os lugares de lavagem que são uma caraterística indispensável de todas as mesquitas hoje. Mas talvez houvesse mais do que isto. Para os sumérios, e provavelmente até mesmo mais para o povo de Dilmun, um tal riacho não era um fenômeno natural. Aqui estavam as águas do Abismo, aqui as águas doces de mar-sob-o-mundo se quebraram através da superfície. Este pode ser o mesmo riacho que Enki, o Senhor do Abismo, fez fluir em Dilmun, em benefício da deusa Ninhursag.”  Enki o Senhor do Abismo era conhecido pelos egipcios como Atun do Monte Primordial bem como Ra da Ilha Abençoada de Bahrein. Como Enki que ajudou a moldar a humanidade da argila, Atun era conhecido pelos egípcios como ‘o Primeiro Primevo’ que ‘moldou a terra de sua roda de cerâmica’, que criou os homens e deu nascimento aos deuses. Através de seu controle sobre a Tribo Falcão a terra do Egito se tornou o feudo pessoal de Enki e Enki se tornou a força primária espiritual que dirigiu seus três mil anos de história.

O Osiris Histórico

A Idade Dourada dos deuses, a era conhecida como Zep-Tepi, foi para os egípcios a era do reino de Osiris. Se o original ‘Monte Primordial’ era localizado em Eridu, e não em uma ilha do Rio Nilo no Egito, então a identidade histórica de Osiris é revelada. Ele não é nenhum outro que Enmerkar, também conhecido como Nimrod no livro do Geneses, que governou sobre o primeiro super reino da história com uma base política em Uruk e uma base espiritual em Eridu. Quando o reinado de Enmer/Osiris chegou ao fim, e quando o grande rei morreu, seu círculo interno foi obrigado inteiramente a fugir da Mesopotamia. Eridu foi abandonada, juntamente com sua Torre inacabada. depois do que deve ter havido um conflito maior porque as inscrições de Edfu se referem a casa original dos deuses como ‘A Ilha da Agressão’ e Ilha do Combate. Depois de reagrupar e cosolidar suas forças na Ilha Abençoada de Bahrein uma facção importante desta Tribo Falcão então invadiu o Alto Egito. Ele levaram com eles o corpo cuidadosamente preservado de seu rei morto e navagaram por volta da Península Arábica, acima do Mar Vermelho, e então reembarcaram no Rio Nilo depois de arrastar seus barcos pelos wadis do deserto oriental do Egito. Um dos primeiros centros de culto deste grupo invasor foi localizado em Abidos, e foi aqui que o corpo de Enmer/Osiris foi temporariamente colocado para repousar: “Abidos, ou Abdju, fica no oitavo ‘distrito’ do Alto Egito, aproximadamente a 300 milhas ao sul do Cairo, na margem oeste do Nilo e a aproximadamente 9.5 milhas do rio. Ela abrange mais de cinco milhas quadradas e contém restos arqueológicos de todos os períodos da história do Egito antigo. Ela foi mais importante nos tempos históricos como o principal centro de culto a Osiris, o Senhor do Submundo. Na boca do canion en Abidos, que os egípcios acreditavam ser a entrada para o submundo, uma das tumbas dos reis da primeira dinastia foi confundida como a tumba de Osiris. Mil anos mais tarde, e romeiros deixariam oferendas ao deus por mais mil anos. A área é então agora conhecida como  Umm el Qa’ab, ‘A Mãe dos Potes.'” Talvez esta tumba fosse de fato a tumba original de Osiris e os antigos egípcios não estivessem enganados. Se ela era ou não, podemos estar certos que o local conhecido como Umm el Ga’ab era um sítio importante para a invasora Tribo Falcão desde o início. Neste local arqueologistas tem determinado um total de dez àreas delimitadas de tumbas reais pré-dinasticas e dinásticas iniciais que lá foram construídas, das quais oito tem sido encontradas e escavadas. Muitas destas áreas delimitadas funerais também incluem sepulturas subsidiárias para os auxiliares que eram oferecidos como sacrifícios humanos ao tempo do funeral real. Os Egiptologistas acreditam que as áreas delimitadas de Umm el Ga’ab estão relacionadas as inscrições iniciais que mencionam a ‘fortaleza dos deuses’, como explica o egiptologista Richard H. Wilkinson, “(As áreas delimitadas) parecem ter sido locais de reunião cerimonial para os deuses conhecidos como shemsu-her, o ‘séquito de Horus,’ que estava associado ao rei como a manifestação do deus falcão Horus – provavelmente visto como a mesma deidade venerada em Hierakonpolis (Nekhen – Cidade do Falcão). … Os pátios abertos destas áreas delimitadas podem ter contido um monte sagrado similar aquele encontrado no templo de Hierakonpolis bem como em outro templos posteriores. O Monte é de particular importância já que ele pode ser visto como símbolo do original monte da criação na mitologia egípcia, da qual o deus falcão primordial foi dito ter observado o mundo de seu galho ou estandarte”. Os ‘montes sagrados’ destes iniciais sítios sagrados se relacionam diretamente  de volta a Eridu na Mesopotomia. A prova posterior da origem da Tribo Falcão vem de outros artefatos enterrados nas vizinhanças que os principais egiptologistas tem um tempo difícil de entender: “Perto do templo de Khentyamentiu, uma milha ao norte do cemitério de Umm el Ga’ab (Qa’ab) e aninhado entre as áreas delimitadas estavam quatorze [encontrado até a data] grandes tumbas de barcos. Os restos dos barcos antigos, datando da primeira dinastia, foram descobertos no deserto. Cada um tem em média 75 pés de comprimento e todos tem sido revestidos em uma estrutura da espessura de dois pés com paredes de tijolos de lama pintados de branco. Se eles eram para representar barcos solares, antecipando o barco construído por Khufu e encontrado dentro da Pirâmide de Gizé, ainda não é conhecido”. Estes barcos eram vistos como sagrados pela Tribo Falcão porque eles eram os meios pelos quais os invasores Shemsu-Hor chegaram ao Egito em primeiro lugar. Seu uso original era funcional e apenas mais tarde eles passaram a ser vistos como culticos ‘barcos solares’ e se tornaram assimilados dentro da religião egípcia. No século XIII AC o rei egício Seti I, o pai do grande Ramsés II, construiu um dos mais impressivos e notáveis templos do Egito. Este templo, o Templo de Seti I em Abidos, tem sete santuários, dedicados a ele próprio, Path, Re-Harakhte, Amun-Re, Osiris, Isis e Horus. Ele é construido em um curioso padrão de L, com a costa final da qual uma outra notável estrutura monolítica é conhecida como Osireion.

O Osireion foi construído como uma outra ‘Tumba de Osiris’ e quando ele foi completado ele apresentava inúmeras pinturas elaboradas e inscrições em suas paredes detalhando muitos aspectos de Osiris e seu papel na religião egípcia. No centro da construção foi levantada uma ilha retangular, com receptáculos cortados no chão para manter um sarcófago e baus canópicos. Cercando a ilha estava um canal de água cortado no chão, nos quais degraus da ilha desciam. Wilkinson explica um fator provável que ditou esta localização do templo, “A localização do Osireion no templo de Sethos I em Abidos… é devido a proximidade de um riacho natural. Isto parece ter sido usado para servir uma piscina de água ao ao redor da ‘tumba’ subterranea para fazer disso um modelo do mítico monte da criação que os egípcios acreditavam se elevar das águas primevas”. Novamente, esta descrição do riacho de água doce integrado dentro do plano de um templo de Osiris em Abdju é muito similar as descrições dadas nos textos sumérios da água doce fluindo do Abzu de Enki na sagrada ilha da cidade de Eridu, a capital-culto governada por Enmer antes de seu abandono. A respeito da datação da construção do Osireion a maioria dos eruditos acredita que ele foi começado por Seti I e completado por seu neto. Contudo, o egiptologista místico John Anthony West discorda. Em sua série de DVD ‘O Egito Mágico’ West oferece vários fatores que apointam para uma data anterior para a construção do Osireion. Primeiro que tudo, há o fato curioso que a elevação do Osireion é quase 50 pés mais baixa do que o templo de Seti I. Segundo, há o estranho padrão em L para o layout do templo de Seti, e terceiro, há o fato estranho que há uma camara dedicada a Osiris dentro do templo de Seti. Porque dedicar uma camara dentro do templo se uma outra construção inteira foi planejada em honra da mesma deidade desde o início? West acredita que o plano original do templo de Seti pedia que ele fosse construido em angulo reto e que isto foi mudado apenas depois que os trabalhadores descobriram o Osireion enquanto escavavam para fazer a fundação do templo de Seti. A descoberta do Osireion forçou os arquitetos a mudarem a ‘ala direita’ para o lado, o que criou o padrão em L. A descoberta do Osireion teria sido tomada como um sinal divino e a antiga construção teria sido remobiliada, renovada e redecorada e incorporada no plano so sítio completo. Com certeza a teoria de West pode estar errada e Osireion pode de fato datar do século XIII AC. Não obstante, existe a intrigante possibilidade que ele pode ter sido realmente servido como um temporário lugar de descanso para o corpo de Osiris mais de 1500 anos antes. Não podemos saber com certeza onde repousou o corpo de Osiris enquanto esteve em Abidos, mas podemos estar razoavelmente certos que ele repousou lá. Contudo, uma vez a maciça necrópole de Gizé foi completada durante a Quarta Dinastia o corpo foi trazido ao norte e colocado em sua atual localização não descoberta, talvez em uma câmara oculta no próprio coração da Grande Pirâmide [Parte II] Gizé se tornou o maior monumento a Osiris que foi construído, mas Abidos ainda continuou como uma localização primária para o culto de Osiris e seus relacionados rituais e festivais. Talvez o mais importante destes festivais fosse o festival de Khoiak, realizado no quarto mês da estação de Akhet (Inundação). O alto ponto do ritual era a encenação de três dias do mito de Isis e Osiris, e a morte de Osiris nas mãos de Set. Isto incluia uma procissão com uma efígie do morto Osiris carregada em uma barca cerimonial de seu templo para o deserto e então para seu local funerário no cemitério de Umm el-Ga’ab ou mais tarde no próprio Osireion.

Muito do que sabemos desta inicial ‘Peça da Paixão’ vem da “Stela de Ikhernofret” que data do Reino Médio, a qual aqui é resumida: “O primeiro dia – a procissão de Wepwawet: Wepwawet abre o caminho da procissão. Os inimigos de  Wesir (Osiris) estão golpeados em uma batalha falsa. Parece um assalto que foi programado pelos ‘seguidores de Set’, este que era para ser golpeado, ou os sacerdotes ou pelos romeiros atuando como ‘os seguidores de  Wesir,’ ou talvez ambos. O deus chacal Wepwawet que está andando principal em todas as procissões reais e conquistas, recebe o nome de ‘Abridor dos Caminhos’ . Neste contexto ele abre o caminho para Wesir ganhar acesso a tumba. O Segundo Dia – A Grande Procissão de Wesir: O falecido Wesir, carregado em uma barca chamada ‘Neshmet’ (a barca da noite na qual Re corre toda a noite) é levada de seu templo a sua tumba. A procissão se move pelo cemitério adjacente nos solos da tumba [parece que eles fazem um tour no deserto antes de terminar no Osireion]. As Lamentações de Aset (Isis) e Nebt-Het são realizadas or mulheres personificando a deusa, por todos estes três dias. A Noite da Vigília: Durante esta encenação noturna, os inimigos de Wesir são mortos nos ‘bancos de Nedyet’ [a tumba] e a noite termina com o julgamento de Set diante do Tribunal Divino. O Terceiro Dia – Wesir é Renascido: O deus foi renascido no amanhecer e coroado com a coroa de Ma’at. A estátua de Wesir sobre a barca Neshmet é trazida de volta em triunfo a seu templo, seguida pelas massas jubilantes. A purificação e a instalação do deus em sua Casa a seguir e antes dos ritos serem concluidos, a ‘elevação do pilar Djed’ acontece. Esta última parte não era aberta ao público. A notável caraterística desta encenação [fora a familiar ressurreição no terceiro dia] é o fato de que Osiris é apresentado como sendo retirado de seu templo depois que ele já está morto, e sendo transportado por barco ao seu lugar funerário. Isto faz sentido se o templo original de Osiris fosse realmente em Eridu, e a jornada de seu barco de morte signifique a remoção e transporte de seu corpo de Eridu ao seu último destino no Egito. Evidência adicional encontrada dentro dos mitos de Osiris também parecem liga-lo a Mesopotamia, ao deus Enki, e com Enmer o grande rei que governou exatamente antes do abandono de Eridu. Segundo as narrativas de Plutarco Osiris foi o grande rei que trouxe a civilização ao Egito e ao mundo, Osiris foi o inventor da agricultura e ele presidiu a invenção da escrita, que é atribuida a seu grande deus Thoth.

Osiris foi também aquele que organizou a sociedade com base em leis uniformes, e também ensinou a humanidade o caminho apropriado de veneração e honra aos deuses. No mito sumério é Enki que recebe o crédito como grande civilizador da humanidade. Foi ele que inventou a agricultura, e ele que deu leis a humanidade bem como estabeleceu a tradição da realeza hereditária, que foi primeiro adotada em Eridu. Segundo o épico “Enmerkar e O Senhor de Aratta” foi Enmer que buscou renovar e expandir o templo em Eridu como ‘a grande morada dos deuses’. Além deste projeto Enmer também introduziu a veneração da deusa na terra, especificamente a veneração de Inanna, que era chamada irmã de Enmer, exatamente como Isis é irmã de Osiris.  David Rohl comenta o fato de que o símbolo de Inanna na Suméria era uma estrela de seis pontas, e este é o mesmo símbolo usado repetidamente nas referências iniciais egípcias a Isis, que era também a esposa e a resgatante do falecido Osiris. Em uma outra provocante similaridade, segundo o épico do Senhor de Aratta (linhas 500-514), foi Enmer que primeiro transformou as palavras faladas em escrita: “Anteriormente, o escrito de mensagens na argila não era estabelecido. Agora, sob o sol e neste dia, isto de fato foi assim”. A evidência ligando Enmer a Osiris é também aparente no próprio nome de Osiris como ele é reproduzido nos mais iniciais hieróglifos. Aqui está ‘O Que os Deuses Antigos Falam –   Um Guia para a Religião Egípcia’ tem a dizer sobre este importante assunto: “O nome do deus Wsir (em copta, Oycipe ou Oycipi) foi escrito de início com o sinal para um trono, seguido pelo sinal de um olho; mais tarde a ordem foi invertida. Entre os muitos significados sugeridos está um cognato com Ashur, implicando uma origem síria: mas também, “ele que toma seu assento ou trono’, ‘ela ou aquela que tem o soberano poder e é criativa’, ‘o lugar da criação’, ‘o assento do olho’, com o olho explicado como o sol; ‘o asento que cria’ e o ‘Poderoso’ que deriva de wsr [poderoso]. Se o significado original do nome de Osiris era ‘O Poderoso’ e se ele de alguma forma está associado ao deus assírio Ashur, então ambos os itens apontam na direção de Nimrod no Livro do Geneses que se tornou ‘o poderoso sobre a terra’ e ‘o poderoso caçador diante do Senhor’ que fundou a cidade de Nínive que se tornou a capital da Assíria. David Rohl explica como tudo isto se liga: “Este Ashur ‘viveu na cidade de Niníve’ e era o epônimo fundador da nação assíria, enquanto Ninus fundou Nínive, como o fez Nimrod. Parece que estamos lidando aqui com um único personagem histórico que estabeleceu o primeiro império sobre a Terra e que foi deificado por muitas nações sobre quatro principais agrupamentos de nome:  (1) O inicial sumério Enmer, mais tarde o mesopotamio  Ninurta (originalmente Nimurda), o bíblico Nimrod, o grego Ninus; (2) O velho babilonio  Marduk, o bíblico Merodach, mais tarde simplesmente conhecido como Bel ou Baal (‘Senhor’); (3) O mais tarde sumério Asar-luhi (um principal epíteto de Marduk), o assírio  Ashur, o egípcio Asar (Osiris); (4) o sumério Dumuzi, o bíblico Tammuz, o fenício Adonis, o grego Dioniso, o romano Baco…

Ambos Marduk e Ashur tiveram sua origem na deidade suméria Asar (ou Asar-luhi) ‘filho de Enki e Damkina’ se originando de Eridu. Damkina (a suméria Damgalnuna) parece ter sido um outro nome para Inanna. Depois que Eya [Enki] tinha derrotado e pisado seus inimigos, tinha assegurado seu triunfo sobre seus inimigos, e tinha descansado em profunda paz dentro de sua câmara sagrada que ele chamou de ‘abzu’ … no mesmo lugar ele fundou seu templo cultico. Eya e Damkina, sua esposa, moraram lá em esplendor. Há uma câmara de destinos, a morada dos destinos, um deus nasceu, o mais capaz e sábio dos deuses. No coração de abzu, Marduk foi criado. Quem o gerou foi Eya, seu pai. Quem deu luz a ele foi sua mãe Damkina. [o épico babilonio da criação] Por seus nomes os deuses tremem e abalam em suas moradas. Asar-luhi é seu nome principal que seu pai Anu deu a ele… Asar, o doador da terra cultivada, que estabelece suas fronteiras, o criador do grão e das ervas que fazem com que a vegetação floresça. [épico babilonio da criação] O novo nome do deus sumério – Asar – era escrito com o sinal para o trono que era também um dos hieróglifos usados para escrever o nome de Osiris. Com certeza, Osiris é a vocalização grega para o egípcio deus do milho dos mortos. As pessoas do vale do Nilo simplesmente o conheciam por Asar. O épico sumério ‘Dummuzi e Inanna’ nos conta que a deusa da fertilidade Inanna ‘se casou’ com o Rei Dumuzzi [Asar] de Uruk exatamente como a egípcia Isis, deusa da fertilidade, era esposa e rainha do Rei Osiris. Com a morte de  Enmer/Osiris, e o desmoronamento do império mesopotamio, uma nova forma de veneração religiosa veio a dominar o mundo. Segundo o mito, antes que Enki se estabelecesse para criar a rivalidade na terra, ‘o povo em uníssono … em uma só lingua dava louvor a Enki’. Depois que a situação era muito diferente e muito caótica, e o monoteismo foi substituido pelo politeismo. Junto com esta nova estrutura politeista pagã o mundo parecia reconhecer a ascendência de um novo deus como chefe do panteão, e este deus tinha um filho que era conhecido por muitos nomes diferentes, que era universalmente entendido ter morrido e renascido novamente, neste mundo ou o próximo.  O próximo capítulo desta série focalizará o lado espiritual oculto do que parece ser um conflito épico entre duas forças opostas. Estas forças utilizam temas espirituais que parcem ter muitos paralelos e similaridades ainda que também hajam importantes distinções que claramente as separam ao longo das velhas linhas do Bem e do Mal. Estas linhas tem sido propositalmente esmaecidas através dos séculos, mas pelo fim destas séries elas serão reunidas em um foco muito mais agudo.

Parte VI

Dominação por Engano

“Os Espíritos narram coisas inteiramente falsas, e mentem. Quando os espíritos começam a falar ao homem, cuidado deve ser tomado para não acreditar neles, porque a maior parte do que eles dizem é composta por eles, e eles mentem; então se é permitido a eles relatar o que é o céu, e como as coisas são no céu, eles diriam tantas falsidades, e com tal forte avaliação que o homem ficaria atonito; por conseguinte não me foi permitido quando os espíritos estavam falando ter qualquer crença no que eles declararam. Eles amam fingir. Seja qual for o tópico que possa ser falado, eles pensam que eles o conhecem e se o homem ouve e acredita, eles insistem, e em vários modos enganam e seduzem”.  – Emanuel Swedenborg (1688-1772), Miscellaneous Works

Em virtualmente todas as mitologias do mundo há o tema de um antigo conflito entre os deuses. No mito egípcio este é o conflito de Osiris e Horus contra Set; no mito babilonio este é a batalha de Marduk contra a deusa primeva Tiamut; nos mitos canaanitas de Ugarit é Baal contra Yam e Mot; e no mito grego é Zeus contra os Titãs. Todos estes conflitos se relacionam de um modo ou outro ao conflito original, ao primeiro conflito divino até mesmo estabelecido na escrita, que era um conflito em andamento entre Enlil e Enki como é contado pelos antigos sumérios. Este conflito nunca envolveu violência física mas não obstante era muito amargo. Os sumerios não registraram sua resolução mas os mitos deles mostram que eles claramente favoreceram Enki e as narrativas posteriores dos babilonios retratam Enki como o eventual vitorioso. Muito da mitologia pagã e da religião, em suas muitas formas diferentes e expressões culturais, podem ser rastreadas de volta a este conflito original, mas é interessante que as narrativas que mostram os mais estreitos paralelos com as narrativas sumérias da criação, dos deuses, e da civilização humana e religião,  não são para serem encontradas nas tradições pagãs posteriores mas ao invés sejam encontradas nas narrativas hebraicas, especificamente no Livro do Geneses. Os sumérios e os hebreus contam uma história da humanidade sendo criada da terra ou da argila pela assistência divina; ambas fontes se referem a uma antiga disputa entre um fazendeiro e um pastor; ambos dão uma narrativa de deuses ou anjos descendo dos céus e influenciando a civilização humana; ambos mencionam a criação da primeira cidade; ambos testificam uma grande inundação que cobriu a terra e que dizimou a civilização e quase toda humanidade; e ambas as fontes falam de conquistas de um grande rei que estava envolvido de algum modo com um grande templo ou torre e com a criação das muitas linguas que dividiram as nações.

Quando os tabletes cuneiformes foram descobertos em meados dos anos de 1800 de escavações arqueológicas em Nínive, Nippur, Babilonia e outros lugares, as descobertas enviaram ondas de choque ao redor do mundo. Muitos eruditos bíblicos foram grandemente encorajados e acreditaram que as narrativas do Geneses finalmente estavam justificadas. Para eles, era óbvio que os sumérios tinham manuseado, com umas poucas distorções, as memórias dos mesmos eventos históricos que Deus tinha inspirado Moisés a registrar no Geneses. Para outros especialistas bíblicos, contudo, os recentemente descobertos textos sumérios foram interpretados de modo diferente. Os críticos céticos bíblicos tomaram a opinião que porque os textos sumérios eram anteriores ao livro do Geneses em 500 a 1000 anos, então era óbvio que os textos sumérios devam ser as narrativas autênticas. Ambas as narrativas foram vistas pelos críticos como meramente mitos, e certamente não baseados em eventos históricos, mas porque os textos sumérios eram muito mais velhos foi assumido que ‘a antiguidade se iguala a autenticidade’ e então eles tinham que ser os verdadeiros mitos. O livro do Geneses foi então visto como meramente uma compilação distorcida ou lembrança dos originais mesopotamios. Esta interpretação do relacionamento entre o ‘mito’ sumério e o livro do Geneses permanece a opinião dominante no mundo academico de hoje. Há muitos paralelos entre o mito sumério e o livro do Geneses, ainda que também hajam importantes distinções que, se examinadas, trazem um número de perguntas importantes. Talvez a mais importante destas perguntas tenha ainda que ser respondida pela comunidade academica, e ele é: Como pode uma forma estrita de monoteismo hebraico ter ‘evoluido’ da religião politeista liberal e diversa dos sumérios? Um outro modo e formular esta pergunta é: Onde está o deus de Israel a ser encontrado dentro do panteão sumério? Este é uma boa pergunta a se fazer porque Abraão, o fundador da nação de Israel, foi supostamente chamado por Deus da cidade de Ur, que era localizada no coração da terra dos sumérios.

O Deus de Israel e os Deuses da Suméria

O Deus de Israel era certamente único quando comparado com os deuses regentes dos panteões venerados pelas nações que cercavam Israel. Para os hebreus a identidade do deus de Israel pode ser entendida em dois níveis relacionados. O primeiro nível era a identidade do deus como ele se relaciona ao próprio Israel, e a segunda era a identidade do deus como ele se relaciona com toda a realidade. Até onde diga respeito o primeiro nível, Deus se revelou a Israel e deu seu nome como YHWH (Yahweh ou Jehovah), que geralmente é traduzido como algo como ‘aquele que é’ ou ‘eu sou quem eu sou’. YHWH  era o deus pessoal de Israel e o relacionamento de Israel com YHWH era baseado em sucessivas alianças ou acordos entre as duas partes. Este tipo de relacionamento raramente era encontrado dentro das nações pagãs. O segundo nível pelo qual os hebreus entendiam a identidade do deus deles era o nível no qual ele se relaciona com toda a realidade. Quando Moisés elaborou sobre a identidade do Deus de Israel como o Criador do inteiro universo e como o máximo governante e poder soberano sobre o universo, estas declarações devem ter sido vistas como completamente ultrajantes e presunçosas pelos contemporaneos pagãos de Moisés. Os pagãos tinham suas tradições sobre a criação [Parte V] e eles tinham suas tradições de como o deus dominante adquiria supremacia sobre a criação, mas eles não uniam o Criador e o Regente em uma só figura e veneravam apenas esta figura com a exclusão de todos os outros deuses. A despeito destas maiores distinções entre o Deus de Israel e os deuses das nações vizinhas, há poucos eruditos que tem tentado identificar o Deus de Israel como uma figura que, é acreditado, tinha que ter ‘evoluido’ de tradição suméria anterior e muito similar. Estas tentativas grealmente se concentram nas similaridades entre YHWH e três maiores deus sumérios: Anu, Enlil e Enki. YHWH é similar ao enigmático deus Anu porque ambos são vistos como deidades ‘pai’. Anu era compreeendido como o pai da primeira geração de deuses incluindo os dois irmãos Enlil e Enki, enquanto  YHWH foi o ‘pai’ da hoste angélica que são referidos no Velho Testamento como B’nai Ha Elohim, ou “Filhos de Deus”. Anun pode também ter sido visto pelos sumérios como o criador original do universo, mas gradualmente se tornou visto como um processo ‘natural’ envolvendo forças primordiais. Para os sumérios Anu realmente não era importante e ele existia como uma deidade “otiose” muito longe no céu, que era também o lugar de onde YHWH governava segundo os hebreus.

O aparente relacionamento entre YHWH e Enlil é muito mais substancial. Enlil não era visto pelos sumérios como o original criador do universo mas ele era visto como o máximo governante dos deuses e da humanidade. Os mitos sumérios também descrevem Enlil como o pai de uma geração de deuses e vários mitos se referem a Enlil [em oposição a Enki] como o criador e pai da humanidade. O centro de culto a Enlil era na cidade sagrada de Nippur, que nunca foi uma capital política e não aparece como cidade capital na lista dos reis sumérios. Nippur era ao invés um tipo de capital religiosa onde os reis da Suméria iam receber a aprovação de Enlil e honrar o mais poderoso e temido dos deuses sumérios. Segundo o épico de “Enmerkar e o Senhor de Aratta”, antes do reinado de Enmerkar os sumérios apenas veneravam a Enlil, o que implica em algo similar a veneração monoteístca hebraica de YHWH. Os sumérios também viam Enlil como o supremo tomador de decisões dentro do conselho dos deuses e, como YHWH no livro do Genesis, era Enlil que decidiu enviar o Grande Dilúvio para dizimar a humanidade. O relacionamento entre YHWH e Enki apresenta muito mais um desafio para os eruditos dos textos antigos e permanece uma questão altamente debatida. Se algum deus pode ser dito ser o deus ‘pessoal’ dos sumérios este teria sido Enki. Como o relacionaento de YHWH com os hebreus, Enki era visto pelos sumérios como poderoso, rei e sábio em seus esquemas para proteger os sumérios da animosidade dos outros deuses [especialmente Enlil] e das tribos vizinhas inimigas. Exatamente como YHWH cuidava de seu povo, os hebreus, assim Enki era retratado como cuidando dos sumérios. Como mencionado na Parte V, o aparente amor de Enki pela humanidade pode ser rastreado de volta a tradições sumérias que Enki, exatamente como YHWH no Geneses, esteve pessoalmente envolvido com a criação da humanidade retirando-a da argila. Enki também desempenhou um papel similar a YHWH quando, através de suas ações, uma família em particular foi escolhida, avisada e poupada do Grande Dilúvio ao receber instruções para construir uma arca. Para David Rohl, YHWH tem mais em comum com Enki do que com Anu ou Enlil, e as similaridades entre YHWH e Enki superam as diferenças. Em seus livros ‘Legend’ e ‘The Lost Testament’, que tem sido citados tão frequentemente por este estudo, Rohl conclui que o deus que foi revelado a Moisés não era outro que Enki, que era conhecido na linguagem acadiana como Ea. YHWH é retratado como um deus positivo e cuidadoso na bíblica hebraica, e Enki/Ea é retratado como igualmente benevolente nos mitos sumérios, então para David Rohl isto é onde existe a conexão entre os sumérios e os hebreus. Rohl até mesmo acredita que YHWH realmente declarou sua identidade como Enki/Ea a Moisés de um modo direto no episódio da sarça ardente: ” Moisés então disse a Deus, ‘Olhe, se eu for aos israelitas e disser a eles, ‘o deus de seus ancestrais tem me enviado a vocês” e eles dizem para mim, “Qual é o meu nome?” o que vou dizer a eles?”. Deus diz a Moisés “Eu sou quem Eu sou” [Exodus 3:13-14]. Aqui está como David Rohl explica este curioso diálogo entre Moisés e a Voz da sarça ardente: “Como temos aprendido, Enki, ‘O Senhor da Terra’ foi chamado de Ea em acadiano [semítico oriental] – que é dizer na tradição babilonica. Os eruditos tem determinado que Ea era vocalizado como Eya. Então, Moisés ficou diante da sarça ardente e perguntou o nome do deus da montanha, a que ele respondeu ‘sou quem eu sou’ [ em hebraico Eyah asher eyah]?. Esta frase intrigante a muito tem deixado perplexos os teólogos mas agora há uma explicação simples. A voz de deus simplesmente respondeu  ‘Eyah asher Eyah’ – ‘Eu sou aquele que é chamado Eyah’ – o nome de Ea em sua forma semítica ocidental [isto é, hebraica]. Os eruditos tem simplesmene falhado em reconhecer que esta é uma outra característico trocadilho que abundam no Velho Testamento. Eu sou (Eyah) aquele que é chamado (asher) Ea (Eyah)’ é um clássico jogo de palavras biblico. Isto também explica a instrução aparentemente se sentido de Deus: “Isto é o que você vai dizer aos israelitas, “Eu sou tem me enviado a vocês”. As palavras de Deus devem realmente ser traduzidas como ‘Eya tem me enviado a vocês”. Eya ou simplesmente Ya é uma forma hipocoristica do nome YAHWEH encontrado como um elemento de tantos nomes do Velho Testamento. Então Enki/Ea o deus que criou o Homem e então mais tarde avisou  Ziusudra/Utnapishtim da iminente destruição da humanidade é um e o mesmo deus de Moisés.

David Rohl stá correto para a vocalização da frase hebraica “EU SOU” que soou muito similar, se não o mesmo que, a vocalização semítica oriental para o nome de Ea, que é de fato o nome acadiaco do deus sumério Enki. Contudo, se YHWH tivesse realmente significado o próprio nome como “EU SOU”, o que tem sido o entendimento ortodoxo no judaismo desde seu início, isto não é inicialmente tão perplexante e intrigante quanto Rohl tenta retratar isto. “EU SOU” é realmente um nome muito apropriado para o Deus que declara ser o único eternamente existente, que se refere a ele próprio em Revelação 1:8 como Aquele “que é e que foi e que está por vir, O Poderoso”. O argumento etmológico de Rohl para igualar YHWH e Enki pode parecer bom, mas está longe de ser conclusivo. Ao igualar YHWH com Enki David Rohl se focaliza quase completamente nas percebidas similaridades e ele minimiza ou ignora as muitas profundas diferenças que existem entre os dois. Estas diferenças, se cuidadosamente examinadas, torna altamente improvável que YHWH e Enki sejam a mesma entidade. Em primeiro lugar, devemos retornar novamente a concepção hebraica única da identidade de YHWH. Esta concepção era baseada no duplo papel de YHWH como criador e regente do universo. Em muitos mitos sumérios que louvam e glorificam Enki não existe qualquer um onde Enki seja dito ser o criador original da realidade material, uma declaração feita por YHWH nopróprio início do Geneses 1:1. A respeito do aspecto de governo de YHWH, dentro do mito sumério este aspecto é melhor representado por Enlil. É verdade que em algum ponto Enki ganha posse do ‘me’ no mito de “Enki e A Ordem Mundial”, como explicado na Parte V, mas esta autoridade é dada a Enki apenas sob permissão de Enlil, que retém o máximo poder como o primário tomador de decisão dentro do conselho dos deuses. A linha inferior é que para os sumérios Enki nem era o criador e nem o supremo governante, enquanto para os hebreus YHWH era ambos. Há muitos mais aspectos de Enki que contradizem diretamente o entendimento hebraico da identidade de YHWH. Segundo os textos sumérios a prática de uma realeza hereditária foi pela primeira vez estabelecida em Eridu, que era o centro de culto a Enki onde os descendentes do bíblico Caim se estabeleceram. Por outro lado, dentro da nação israelita o costume de uma realeza hereditária não existiu de seu início com Abraão, por todo cativeiro egípcio até o Exodus, pelos séculos dos Juízes a todo caminho até o tempo do profeta Samuel. Este foi o ponto no qual os israelitas exigiram que YHWH desse a eles um rei, que primeiro YHWH recusou antes de rancorosamente permitir a instituição da monarquia (Samuel 8:7-22). A este respeito YHWH e Enki são novamente provados diferentes. Para Enki uma monarquia era essencial e necessária para manter seu poder e influência, mas para YHWH uma monarquia era vista como indesejável e desnecessáriamente opressiva para seu povo. Uma outra maior diferença entre YHWH e Enki vem de examinar algumas das práticas religiosas associadas aos dois deuses. Quando examinamos a concepção suméria de Enki encontramos que uma de suas características primárias era sua associação com a mágica e a feitiçaria, com rituais permitindo contacto com o mundo do espírito, e com a advinhação do futuro. Quando examinamos YHWH e seu relacionamento com Israel, e especialmente a Lei da Torah que ele deu a Israel descobrimos que estas práticas ocultas eram completamente proibidas: “Não deve ser encontrado entre vocês alguém que faça seu filho ou sua filha passar pelo fogo, alguém que use a adivinhação, alguém que pratique a feitiçaria, ou alguém que interprete presságios, ou um feiticeiro, ou alguém que lance um encanto , ou um médium, ou um espiritista, ou um que chame os mortos. Porque seja quem for que faça estas coisas é detestável ao senhor seu Deus que o retitará de vocês ” (Deuteronomio 18:10-12)

Estas práticas ocultas eram a fundação da religião suméria e elas evoluiram para se tornar a base dos ritos iniciáticos e sacerdócios hierárquicos ao redor do mundo, do Egito a Índia, e dos gregos ao romanos, dos maias aos astecas do Novo Mundo. Estes sistemas religiosos e práticas ocultas eram todas similares, então alguém tem a imaginar porque o deus venerado pelos israelitas exigisse uma tal separação estrita de seu povo do resto do mundo? Estava YHWH os guardando de práticas espirituais que eram necessárias para seu próprio avanço espiritual, ou Ele os estava simplesmente protegendo de um mundo do espírito que enganava todo mundo mais com fugazes experiências metafisicas e falsas promessas e espectativas? Se estamos corretos em concluir que YHWH e Enki são realmente duas entidades separadas, então se torna mais plausível igualar YHWH ao sumério Enlil que por muito tempo tinha sido um adversário de Enki nas narrativas sumérias. Isto nos traz um conjunto de problemas inteiramente novo, contudo, por causa da retratação negativa e depreciativa de Enlil pelo mito sumério. Enlil é retratado como vingativo, zangado, abusivo e cruel, e ele comete crimes incluindo adulterio, estupro e genocídio. YHWH as vezes é retratado como zangado e violento no Velho Testamento hebraico, mas as ações de YHWH para os hebreus sempre são justificadas, não importa quão cruéis elas pareçam ser. Para os sumérios raramente há justificativa para os duros abusos de poder que caracterizam o governo de Enlil. Ao examinar YHWH e Enki e suas respectivas tradições devemos também nos dirigir ao fato que eles fazem declarações conflitantes. No livro do Geneses YHWH é creditado com a criação da humanidade, enquanto na maioria dos textos sumérios Enki é retratado como o criador do homem. Um outro caso é a tradição similar do Grande Dilúvio. O livro do Geneses explica que YHWH trouxe o dilúvio como um julgamento sobre a sociedade humana que tinha se tornado perversa por meio das influências negativas dos ‘anjos caídos’. Nas narrativas sumérias é Enlil que traz a inundação para exterminar a população humana que tinha se tornado ‘barulhenta demais’. Contudo, o livro do Geneses conta que YHWH misericordiosamente salvou Noé e a última família justa da terra da destruição iminente. Contrastando com esta narrativa, no mito sumério é Enki que salva Atrahasis e a família dele da inundação contra a vontade de Enlil. Estes declarações conflitantes e narrativas não podem ambas serem verdadeiras se Enki e YHWH fossem de fato entidades separadas. Se YHWH é a fonte espiritual da tradição hebraica, e se Enki é a fonte espiritual da tradição suméria, então devemos enfrentar a realidade que um deles está mentindo. Se YHWH na tradição suméria é representado como Enlil, o adversário de Enki, então onde podemos esperar encontrar Enki dentro da tradição hebraica? Talvez precisemos examinar o adversário bíblico de YHWH para encontrar a resposta. Enquanto Rohl iguala YHWH a Enki, ele não obstante fornece a seguinte descrição de Enki que se asemelha a este adversário bíblico muito mais estreitamente do que se assemelha ao próprio YHWH: “Está claro pelos numerosos incidentes nos mitos associados a Enki que ele é uma deidade sagaz, até mesmo perspicaz. Ele é travesso e não conformista; em seu aspecto de criador da humanidade ele é um deus da fertilidade. Ele se liga aos humanos ao murmurar pelas paredes de junco de forma a contornar uma proibição, coloca sobre eles pelas deidades colegas, que evita a comunicação direta com os humanos. Pode-se olhar para ele com um pouco de um travesso malicioso. Ele algumas vezes é mostrado com pernas de um bode completo com patas com cascos rachados, enquanto seu corpo superior é vestido de escamas de um peixe. Enki é também, como temos visto, muito mais protetor de sua criação – a humanidade – e o provedor da vida sustentada pela água doce”.

Enki Desmascarado

Por mais de cento e inquenta anos aproximadamente, desde a descoberta e a tradução dos antigos textos sumérios, os eruditos modernos tem sido dirigidos a Enki como o mais interessante e enimgmático de todos os deuses sumérios. Perto do fim de sua carreira, Samuel Noah Kramer, talvez o mais respeitado sumeriologista do século XX, escolheu se concentrar em Enki em um livro que ele publicou em 1989 intitulado ‘Os Mitos de Enki, o Deus dos Trabalhos Manuais”. Com este livro o falecido Dr. Kramer examinou os muitos diferentes mitos e tradições de Enki, em textos sumérios e acadianos e ele fez um número de observações cruciais a respeito do papel de Enki na evolução do paganismo depois da queda da civilização suméria. Kramer é lembrado dentro do mundo academico como um gigante em seu campo, mas dentro do mundo da cultura popular, um mundo influenciado por shows no rádio e o mercado das brochuras em massa, ele permanece relativamente desconhecido. Zecharia Sitchin é um autor/erudito que é exatamente o oposto de Kramer. Sitchen não pode declarar quaisquer obtenções academicas dentro do campo dos estudos sumérios, ainda que ele tenha alcançado uma popularidade internacional e aclamado como um reputado especialista nos textos sumérios desde o aparecimento de seu livro “o 12o Planeta” em 1976. A teoria básica por trás do livro de Sitchin, que desde então tem se expandido em uma serie de seis volumes chamada “Cronicas da Terra” é que os deuses do panteão sumério eram realmente visitantes extraterrestres de um alegado planeta ‘Nibiru”, que chegaram a Terra a 450.000 anos atrás em busca de ouro. As raizes judaicas de Sitchin se tornam aparentes com a publicação de ‘Encontros Divinos’ em 1995, no qual ele argumentou que YHWH da tradição hebraica é o criador do universo que também criou o panteão sumério dos deuses extraterrestres, incluindo Anu, Enlil e Enki. As primárias afeições de Sitchin, contudo, são reservadas para o deus Enki. Exatamente como David Rohl e Samuel Noah Kramer, Sitchin é tomado pelas caracterizações positivas de Enki que são encontradas pelos textos sumérios. O último trabalho de Sitchin – ‘O Livro Perdido de Enki’ – se concentra em Enki e afirma ser ‘as memórias autobiográficas e profecias cheias de insight de um deus extraterrestre’. Conquanto Sitchin argumente em ‘Divinos Encontros’ que YHWH é realmente o criador dos ‘visitantes extraterrestres’ Anu, Enlil e Enki ele concede que há muitas similaridades entre YHWH e Enlil, muito mais do que aquelas existentes entre YHWH e Enki. A respeito do relacionamento YHWH/Enki Sitch apresenta a segunte hipótese temporária no livro ’12o Planeta’ [1976]: “A possibilidade que os antagonistas bíblicos – a deidade e a Serpente – representem Enlil e Enki nos parece inteiramente plausível”. Sitchin elabora esta teoria em seu livro posterior ‘Geneses Revisitada’ [1990]: “Na história bíblica de Adão e Eva no Jardim do Eden, o antagonista do Senhor Deus que fez com que eles adquirissem o ‘conhecimento’ [a habilidade de procriar] era a Serpente, Nahash em hebraico… na original versão suméria a ‘serpente’ era Enki. Seu emblema era duas serpentes enroladas; este era o sínbolo de seu centro de culto Eridu, de seus domínios africanos em geral, e das pirâmides em particular. E isto aparecia nas ilustrações dos selos de cilindro sumérios dos eventos descritos na bíblia”. A idéia da Serpente no Jardim do Eden, identificada como Satã na tradição judaico-cristã, é de fato uma representação do deus sumério Enki, o que parece ser indicado pelo próprio Professor Kramer pelo próprio título de seu livro “Mitos de Enki, o Deus das Artes Manuais” que é uma caraterização encontrada em Genesis 3:1, “Agora a serpente era mais austuta do que qualquer besta no campo que o Senhor Deus havia feito…” Desde os anos iniciais de 1980 as teorias radicais de Sitchin dos deuses extraterrestres [baseados na aceitação como face de valor do mito sumério como história legítima e frequentemente utilizando a erudição conservadora de Kramer], tem aberto um genero inteiramente novo de pesquisa alternativa envolvendo a interferência extraterrestre, a conspiração política e a espiritualidade New Age. Este novo gênero é predominantemente cético de, e antogonista em relação a, tradição judaico-cristã e geralmente promove a ‘sabedoria’ esquecida do paganismo e dos Antigos Misterios como chave para o avanço espiritual da humanidade. Desta perspectiva a Serpente no Jardim do Eden é vista como um Iluminador e Libertador da humanidade e Lucifer/Satã se torna uma figura positiva repetidamente identificada como o deus sumério Enki.

Laurence Gardner é um membro bem conhecido desta escola de pesquisa alternativa, e ele combina muitas das teorias de Sitchin com algumas das idéias conspiratórias anti-cristãs encontradas no livro best seller ‘Holy Blood, Holy Grail’ [veja a tradução completa neste blog  https://conspireassim.wordpress.com/2009/05/21/sangue-sagrado-santo-gral/%5D (1983). Suas credenciais são impressivas: Laurence Gardner é Membro da Sociedade de Antiquários, e um Membro Profissional do Instituto de Nanotecnologia. Distinguido como Cavalheiro de Saint Germain, ele é um historiador constitucional, um Cavaleiro Templário de Santo Antonio, e é o Adido Prsidente do Conselho Europeu de Príncipes. Baseado na Inglaterra, ele é autor do best seller do  The Times e Sunday Times, ‘Bloodline of the Holy Grail’. Isto foi serializado nacionalmente no Daily Mail e deu a Lawrence o premio de Autor do Ano da Inglaterra em 1997. Gardner aborda o assunto de Enlil e Enki em seu livro de seguimento “Genese dos Cavaleiros do Gral’ [1999] e para ele a identidade de  YHWH/Jehovah é muito óbvia: “O Jehovah dos judeus (El Elyon dos canaanitas) foi, portanto, sinônimo com Enlil do Anunaki, filho do grande Anu”. Gardner então continua para identificar Enki: “A serpente que conversou longamente com Eva claramente não era uma criatura burra e inferior, mas um guardião do conhecimento sagrado…” é posteriormente evidente da ilustração mesopotamia da serpente que ela tem uma direta associação com Enki, já que Enki [Ea] era tradicionalmente apresentado como o Senhor Serpente do Eufrates. Exatamente como a serpente é o doador da sabedoria, assim Enki é constantemente referido como Enki o Sábio… Para Gardner os ‘Cavaleiros do Gral’ são os verdadeiros reis que tem o direito divino de governar a humanidade. Ele traça a genealogia desta iluminada elite de volta a Caim, o primogenito de Eva, e Gardner ressuscita a antiga história Talmudica que o verdadeiro pai de Caim era Samael a serpente, identificada por Gardner como Enki. Ele escreve: “em termos de genealogia soberana, a linhagem de Ham e Nimrod [na descendência de Caim, Lamech e Tubal-cain] manteve a verdadeira herança da realeza do Gral, enquanto a linhagem Setiana através de Noé e Shem era de menor importância…” Segundo Gardner, Ham era de fato o primogenito de Tubal-Cain e não o filho de Noé como afirmado no Geneses. Com este passo Gardner é capaz de assegurar uma linhagem de descendência humana diretamente do próprio Enki, até mesmo embora a catástofe do Grande Dilúvio. Ao comentar o conceito judaico-cristão de Satã/ Lúcifer como o Grande Adversário de Deus e do homem, Gardner afirma que isto é uma espíria invenção teológica criada para ajudar a intimidar e subjugar os cristãs iniciais sob o domínio da Igreja Romana.  Para Grdner, o deus-serpente Enki  era o criador original da humanidade , nosso mais importante professor , nosso protetor contra a animosidade de Enlil/YHWH e esencialmente o verdadeiro campeão da humanidade.

Mark Amaru Pinkham é um bem sucedido autor que também alega que o verdadeiro criador da humanidade é Luficer, um nome que ele diz ser sinônimo de Enki dos sumérios. As idéias de Pinkham são explicadas em seu livro ‘O Retorna das Serpentes da Sabedoria’ [1997] enquanto em um outro livro, ‘A Verdade Por Trás do Mito de Cristo’ [2002] ele explica que Jesu Cristo foi simplesmente um de uma série de manifestações desta figura divina. Pinkham também tem escrito sobre a conexão entre o verdadeiro ‘cristo’ e os medievais Cavaleiros Templários, e ele é o fundador de uma organização chamada A Ordem Internacional dos Templários Gnósticos.

William Henry é um outro nome associado a teoria das origens extraterrestres de Sitchin. Henry se refer a si próprio como um ‘mitologista investigativo’ e ele tem publicado aproximadmente doze livros e pode ser ouvido frequentemente nos shows de rádio tarde da noite tal como Coast-to-Coast AM que discutem assuntos alternativos e esotéricos. Em um de seus artigos online Henry explica como o conflito entre Enki/Ea e Enlil continua no presente dia: “Ea e seus sacerdotes, buscam elevar a humanidade ao nível dos deuses pr meio da educação global e revelação de todos os segredos sagrados. Os sacerdotes de Enlil buscam manter a humanidade no nível de escravos e objetos sexuais, a propriedade de um estado de polícia criptocrática”.

Philip Gardiner e Gary Osborn são dois escritores britânicos que, juntos e separadamente, tem escrito um número de livros cobrindo os mesmos temas. O titulo da mais recente colaboração deles é suficiente para explicar a perspectiva deles: “O Gral da Serpente: A Verdade por trás do Santo Gral, a Pedra Filosofal e o Elixir da Vida” [2005].  Alan Alford é um outro escritor britânico que toma os mitos sumérios como face de valor. Ele publicou ‘Deuses do Novo Milênio’ em 1997, e seguiu este livro com vários outros, recentemente passando a focalizar o Egito. Em um artigo que apareceu na revista New Dawn Alford se refere a Enki como ‘o deus Serpente do Jardim do Eden”.  Alford admira grandemente Enki, cujo centro de culto mesopotamico era Eridu, que é refletido no endereço do website de Alford  http://www.eridu.co.uk], e no nome de sua casa publicadora:  Eridu Books. Dagobert’s Revenge é uma revista que foi iniciada em 1996 pelo editor e publicador Tracy Twyman. Originalmente concentrada em temas como o Santo Gral, a Dinastia Merovíngia e os Cavaleiros Templários, mas ela rapidamente se ampliou para incluir muitos mais assuntos alternativos e esotéricos. Em 2004 Twyman publicou o livro dela “Os Mitos Merovíngios e o Mistério de Rennes-le-Chateau’. Twyman se antém com a tendência creditando a Enki ser o criador estraterrestre da humanidade e a escrita dela é mais nítida na medida em que ela sem vergonha se refere a Enki como Satã no livro dela, com Jeovah/YHWH assumindo o papel familar do ‘abominável’ Enlil. Desde 1994 a revista  Atlantis Rising tem sido um outro repositorio para erudição e pesquisa lidando com as origens extraterrrestres da humanidade e outros assuntos relacionados. Na primavera de 2005 o editor J. Douglas Kenyon publicou “A História Proibida: Tecnologias Pré-históricas, Intervenção Exterrestre e as Origens Suprimidas da Civilização”. O livro é uma coleção de 42 artigos que tem aparecido na Atlantis Rising durante anos, escritos por dezessete autores diferentes. Como uma coleção ele representa o consenso New Age que o aparecimento do moderno homo sapiens sapiens é o resultado da intervenção extraterrestre. Este entendimento inclui a noção que os antigos textos sumérios são as narrativas mais literais e mais confiáveis das origens humanas, e que o personagem primário neste episódio foi Enki, conhecido no livro do Geneses como a Serpente do Jardim do Eden, cujo caráter benevolente tem desde então sido caluniado pelo estabelecimento judaico-cristão.

A glorificação de Enki às custas do Criador judaico-cristão também tem sido abraçado por aqueles que se consideram parte do sistema de crença que se chama ‘Satanismo’. O website  http://www.exposingchristianity.com é editado e promovido Satanistas e ele inclui a seguinte citação: “o cristianismo é baseado em material roubado que tem sido distorcido, dobrado, manipulado para confundir e incitar o medo na humanidade. CONTROLE. Isto tem tomado o Deus original e criador da humanidade, EA/Enki em Satã/Lucifer e feito com que ele seja assumido como um inimigo da humanidade. Isto tem sido usado para blasfemar, ridicularizar e malignizar os Velhos Deuses, criar estranheza e inimizade de deuses legítimos os quais são substituidos pelo falso deus “Yaweh/Jehova.” Um website satanista chamado “Joy of Satan” também iguala Enki a Satã o que prece ser uma tendência dentro do satanismo que está incessantemente ganhando terreno: “As Igrejas Cristãs tem ordenado a populaça que se desligue de todo antigo conhecimento e dos deuses originais, indicadamente osso deus criador Ea, também conhecido como Enki, ‘Senhor da Terra’ e Satã, sobre o que supostamente dee se referir o satanismo”. Um dos livros mais interessantes e compelentes escritos sobre o assunto do alegado controle extraterrestre e manipulação da humanidade é ‘Os Deuses do Eden’ (1989) de William Bramley. A maioria dos pesquisadores neste campo iram os deuses antigos como cuidadores beneficentes da humanidade, mas Bramley é um que argumenta contra este consenso. A capa de trás de seu licro explica a perspectiva única de Bramley: “Eles vieram a terra milhões de anos atrás para disseminar o veneno do ódio, guerra e catástrofe… Eles ainda estão conosco… A histíra humana é aparentemente uma sucessão de conflitos sangrentos e turbilhão devastador. Ainda que, inexplicavelmente, a luz do perplexante avanço intelectual e tecnológico, o progresso do Homem tenha sido parado em uma área crucial: ele ainda indulge a besta primitiva interna e faz guerra a seus vizinhos.” Como um resultado de sete anos de intensa pesquisa, William Bramley tem descoberto o sinistro fio que liga os mais negros eventos dad humanidade – das guerras dos antigos faraós ao assassinato do Presidente Kennedy [JFK]. Neste traballho notável, chocante e absolutamente compelente, Bramley apresenta a evidência perturbadora de uma presença alienígena na Terra – visitantes extraterrestres que tem conspirado para dominar a humanidade através da violência e do caos desde o incio dos tempos… uma conspiração que continua até mesmo nos dias presentes. Bramley ressalta os textos sumérios para explicar que os humanos foram criados por estes ‘deuses’ para serem escravos dos ‘deuses’. Aqui está sua tese básica: Os seres humanos parecem ser uma raça escrava enlanguecendoi em um planeta isolado em uma pequena galáxia. Como tal, a raça humana foi uma vez a fonte de trabalho para uma civilização extraterrestre e ainda permanece uma posse hoje. Para manter o controle sobre sua posse e manter a Terra como algo similar a uma prisão, esta outra civilização tem engendrado o conflito sem fim entre os sers humanos, tem promovido a deterioração espiritual e tem regido na Terra condições de permanentes dificuldades físicas. Esta situação tem existido por milhares de anos e continua até hoje. Bramley se refere a estes alegados controladores extraterrestres como os ‘tutores’, e ele os vê como a suprema fonte dos males mais profundamente enraizados e perplexantes que afetam a humanidade. Contudo, como todo o resto, Bramley identifica Enki como a única figura positiva e como um ‘tutor’ renegado que sempre tentou ajudar a humanidade. Isto, a despeito do fato de que os registros sumérios afirmem que Eki é o deus que criou a humanidade para servir como escravos em primeiro lugar. De fato, na linguagem suméria a palavra ‘veneração’ é a mesma palavra usada para ‘trabalho’, avod.Sitchin e seus seguidores imediatos todos vêem os deuses antigos, bem como o fenômeno moderno da visitação UFO, como visitações de entidades físicas cuja origem é de outros planetas ou galáxias. O Dr. Jacques Vallee é um cientista francês que tem estudado os UFOs por toda sua vida e é um dos membros mais altamente respeitados da comunidade ufológica. Valllee entende a premissa extretarrestre que subjaz tanto da pesquisa UFO, mas ele discorda com isto completamente. Para Vallee as entidades que tantos pesquisadores se referem como sendo extraterrestres são mais apropriadamente descritas como ‘extra-dimensionais’. Em outras palavras, elas não são puramente seres físicos, mas são melhor compreendidas como sendo primariamente espirituais. Em seu livro ‘Menasgeiros da Mentira’ [1979] Valee escreveu que ‘o que nós vemos de fato aqui não é uma invasão alienígena. É um sistema de controle que atua sobre humanos e usa humanos.” Em seu livro ‘Dimensões’ [1989] Valee elabora sobre esta hipotese; Proponho que haja um sistema de controle espiritual para a consciência humana e que fenômenos paranormais como os UFOs sejam uma de suas manifestações. Não posso dizer se este controle é natural e espontaneo; se ele é explicável em termos de genética, de psicologia social, ou de fenômenos comuns – ou se isto é de natureza artificial sob o poder de alguma vontade sobre-humana. Osto pode ser inteiramente determinado por leis que nós ainda não descobrimos.” Se, de fato, os ‘deuses’ antigos estão manipulando e controlando a consciência humana de outras dimensões então podemos esperar que Enki esteja desempenhando um maior papel neste programa em andamento. Mas é este papel positivo, como os sumérios e os modernos autores New Age nos asseguram, ou ele é o Grande Enganador e o maior inimigo de ambos – de Deus e do Homem – como as tradições judaico cristãs tem avisado desde o início?

A História é escrita pelo Vitorioso

A batalha entre Enki e Enlil unca é completamente resolvida dentro do próprio mito sumério, mas textos como Enki e a Ordem Mundial e Inanna e Enki dão a impressão que Enki teve a mão superior, ao menos no que diga respeito a autoridade sobre a humanidade. Depois de tudo isto foi em Eridu, a sede de culto a Enki, onde o ofício da realeza hereditária foi estabelecido, e foi Enki que eventualmente ganhou posse do ‘me’ [veja Parte V] que era associado com a organização da sociedade humana. Os pesquisadores modernos que olam nos textos sumérios como narrativas imparciais e autênticas da origem da humanidade precisam reavaliar suas posições e levar em consideração este desenvolvimento. O velho adágio “a história é escrita pelos vitoriosos” tem sodo provada verdadeira no tempo novamente, e se Enki foi de fato o vitorioso em seu embate com Enlil, então talvez isto explique porque ele é retratado emtais termos positivos pelas sociedades que ele verdadeiramente veio a dominar. Pelo mesmo princípio isto também explica porque Enlil é retratado em tais termois negativos. Isto nos traz ao desenvolvimento da própria arte da escrita. Segundo o mito sumério Enmerkar e o Senhor de Aratta a primeira pessoa a originar ‘a escrita de mensagens sobre a argila’ não ourto que o próprio Enmerkar, que temos identificado como Osiris e Nimrod. Enmerkar era um devotado servente de Enki e ele também esteve envolvido na renovação do grande templo de Enki em Eridu. David Rohl coloca o fim do reinado de Enmerkar por volta de 2.850 AC. Os eruditos modernos mascam o Péríodo Proto-alfabetizado, quando a primitiva escrita pivtográfica emergiu e evoluiu, em aproximadamente 3500-2800 AC. Perto do fim dete período o sistema pictográfico foi substituído por um sistema silábico e milhares de sinais no vocabulário sumério foram reduzidos a umas poucas centenas, o que tornou a escrita muito mais práyica e funcional.

Sob o sistema silábico a arte da escrita, que anteriormente tinha sido útil apenas para propósitos financeiros e burocráticos, repentinamente produziu a literatura, e este nova invenção rapidamente se tornou um instrumento importante para propósitos de propaganda.  Samuel Noah Kramer explica como Enki era visto pelos sumérios como o protetor desta importante inovação: “Enki é, em adição a ser o senhor da mágica e o grande resolvedor de problemas dos deuses, o deus das artes manuais, incluindo o que agora podemos chamar de artistas e de escritores… Enki era, talvez do que qualquer outra deidade antiga, essencialmente identificado com a palavra falada e escrita”. O eminente assiriologista Georges Roux também resalta a conexão histórica entre Enki e a arte da escrita: “Enki-Ea, o deus tutelar de Eridu, estava acima de todos os outros deuses da inteligência e da sabedoria, ‘aquele de amplas orelhas que sabe tudo que tem um nome’. Ele permaneceu como o iniciador e protetor das aretes e trabalhos manuais, da ciência e da literatura, o patrono dos mágicos, o Grande Mestre e o Grande Superintendente que, tendo organizado o mundo criado por Enlil, assegurou seu funcionamento apropriado”. O recentemente puyblicado Atlas  Histórico da Antiga Mesopotomia nota as associações de Enki com a escrita também: “Segundo o poema épico sumério de Inanna e Enki, o ‘ umum cento de elementos básicos da civilização’ foram transeferidos de Eridu, a Cidade dos Primeiros Reis, para Uruk. Entre estes elementos básicos estava a escrita, considerada ser divina pelo decreto ds deidades e sob o patrocínio de Enki, o Deus da Sabedoria. Desde seu início, a escrita eras portanto considerada ser uma dádiva dos deuses e carregava com ela tanto poder quanto conhecimento”.  É certamente verdade que o controle sobre a arte da escrita significava poder e conhecimento. Deste o próprio início, quando os reinos individuais pela primeira vez apareceram, a política e a religião eram estreitamente ligadas  e não havia a seperação da Igreja e do Estado. O sacerdócio servia ao Estado, e o Estado era obrigado a seguir os decretos do sacerdócio, que eram entendidos virem diretamente do mundo do espírito dos deuses. Os poucos escolhidos aprendiam os talentos da escrita e da leitura e eram membros privilegiados da clase dos escribas que por si só era parte do sacerdócio oficial. Considere as seguintes poucas breves biografias dos historiadores do mundo antigo, como prova da conexão entre o que vemos como ‘história’  e o sistema pagão de veneração eregido para a humanidade pelos ‘deuses’. Berossus da Babilonia era um homem altamente educado que viveu em aproximadamente 340-260 AC. Ele testemunhou pessoalmente Alexandre O Grande conquistar a Pérsia e grande parte da Ásia, e depois os gregos tomaram a Babilonia. Berossus rapidamente foi assimilado pelo novo regime. Berossus é conhecido por nós por seu ‘Babyloniaca’, ou História da Babilonia, que era um estudo em três volumes escrito em grego que usava os textos antigos tais como o Enuma Elish e Atrahasis para dar a perspectiva babilonica sobre a história do mundo. Segundo os eruditos este trabalho  ou foi comissionado pelo Rei Seleucida Antiochius I, ou pelo alto sacerdote de Marduk pela Babilonia sob os gregos Seleucidas. Segundo Berossus, Marduk era o mesmo deus que o grego Zeus e o egípcio Ammon. Berossus era ele próprio um sacerdote de Marduk e seu ome acadiano mais provavelmente  seria  Bel-re-ushu, que significa “Bel é meu pastor”, com Bel simplesmente sendo um outro nome para Marduk.

Manetho de Heliopolis foi um historiador que viveu aproximadamente em 300-220 AC. Como Berossus, Manetho viveu no périodo a seguir das conquistas de Alexandre. O maior trabalho de Manetho foi seu livro em três volumes Aegyptiaca, ou História do Egito, também escrito em grego. Os eruditos acreditam que o trabalho de Manetho foi inspirado nas Histórias de Heródoto, e era destinado a corrigir muitos erros cometodos por Herodoto e dar uma perspectiva egípcia sobre a história mudial. Durante seus dias, a maior contribuição de Manetho era trazer a unidade aos povos grego e egípcio por meio da criação do novo culto de Serapis. Segundo Plutarco, este projeto foi iniciado por um sonho recebido por Ptolomeu I, depois do que Manetho o Sacerdote Chefe de Ra em Heliopolis foi apresentado a Timóteo o Eumolpide, o Alto Sacerdote grego dos Mistérios Eleusianos, para trabalharem as doutrinas e rituais do novo culto. A maioria dos eruditos vê Serapis como uma combinação do deus grego Zeus e do deus egípcio Osiris, que também era venerado como Apis, o touro do Nilo. Então, Osir-Apis, ou Sarapis. Por outro lado, Samuel Noah Kramer está inclinado a ver o culto de Serapis como um retorno a veneração direta de Enki: “Em sua observação dos eítetos acadianos dos deuses, Knut Tallqvist dá muitas citações para o título de sar apsi, Rei de Abzu [Apsu]. Somente um deus é chamado de sar apsi, Ea.  E. Douglas van Buren estava intrigado pela possibilidade de que o epíteto de Ea desse elevação ao popular deus helenista Sarapis. A história da invenção ou descoberta de Sarapis é razoavelmente bem atestada na antiguidade, mas as origens do deus permanecem obscuras. Foi dito a Tacito pelos sacerdotes egípcios que Ptolomeu I teve um sonho de um ‘jovem homem do céu’ que disse a Ptolomeu para enviar uma estátua para Serapis. Em Sinope a estátua foi encontrada, venerada como Jupiter Dis ao longo com Proserpina. Os sacerdotes de Apolo em Delfi avisaram os egípcios para pegarem a estátua de Serapis e a enviarem para Alexandria, mas para deixar sua consorte para trás. A estátua chegou em Alexandria e um templo fdoi erigido para ela, onde os egípcios assimilares Serapis a Osiris. O deus causou um bom bocado de especulação etmológica e histórica no mundo antigo, mas as explicações de Serapis não são muito convincentes. A sugestão de Van Buren que Serapis é Ea  é baseada no conhecimento que Sinope tinha sido uma colpnia litoranea assíria… Serapis era grandemente popular como um dos deuses salvadores, um fazedor de milagres e curador. Zeus Serapis era um benfeitor da humanidade, especialmente aqueles como os marinheiros que faziam seu caminho pela água.” Se a história do soho e Ptolomeu I é verdadeira, e uma estátua conhecida como representar Serapis foi encontrada em Sinope em Pontus na costa do Mar Negro, uma colonia com conexões acadianas, então isto é virtualmente uma conclusão precedente que a estátua fosse de fato uma estátua de Ea/Enki, o único deus acadiano que foi conhecido como Sar Apsi., o Senhor do Abismo. Sustentando esta conclusão está o fato de que Serapis favoreceu especialmente Alexandre O Grande, de seus diários reais  (Arrian, Anabasis, VII. 26). Aqui Sarapis tem um templo na Babilonia e de tal importância que apenas ele é indicado como sendo consultado em benefício do rei morto”. O Serapis honrado por Alexandre é com certeza o Sar Apsi conhecido como Ea/Enki, um ponto que todos os eruditos concordam. Então deve ser óbvio que o culto de Serapis criado por um dos maiores generais de Alexandre era um culto ao deus do mesmo nome. O que pode ter acontecido  é que depois que Serapis foi instalado na Alexandria talvez a identificação do deus com Osiris/Apis fosse algo que os líderes do culto permitam para assegurar sua popularidade dentro do Egito, enquanto sua verdadeira identidade permanecia conhecida pelo círculo interno dos iniciados. Durante os períodos helenista e romano a Alexandria era entendida ser a capital do mundo. Era a cidade mais populosa do mundo e o centro do ensino e da religião. Muitos deuses eram venerados em Alexandria e Serapis estava acima de todos os demais.

Segundo Franz Cumont, por volta de 30 AC havia 42 Serapeums, ou Templos de Serapis, apenas no Egito. Hvia também uma maior Serapeum na cidade de Pergámo [na antia Turquia, uma cidade também conhecida por seu centro de cura dedicado ao deus Asclépio, e por seu maciço altar a Zeus, que foi levado para Berlim exatamente antes da subida de Hitler. Em Revelação 2:13 Jesus Cristo declara que o ‘Trono de Satã” está localizado em Pérgamo, ‘onde mora Satã’. Plutarco de Delfo foi um outro alto iniciado nos Mistérios pagãos que deixou um legado como historiador. Ele viveu de 46 -127 de nossa era e foi um Alto Sacerdote de Apolo baseado no famoso oráculo de Delfo . O mais famoso trabalho de Plutarco é ‘Vidas Paralelas’, uma série de biografias apresentando pares de famosos gregos e romanos. Durante sua vida Plutarco era um homem muito rico e muito influente e também bem sucedido como político. Seu prestíhgio permitiu que ele viajasse ao Egito onde ele foi iniciado em muitos dos Mistérios Egípcios, depois do que ele escreveu até mesmo a narrativa em prosa do mito de Osisis em ‘Isis e Osiris’. Por seus muitos escritos sobre assuntos espirituais Plutarco frequentemente se refere aos ‘segredos’ que ele não tem permissão para revelar na narrativa de seus votos de iniciação.

Philo de Biblos viveu de 64-141 de nossa era e foi um importante escritor que fez pelos fenícios o que Berossus e Manetho fizeram para os Babilonios e egípcios. Seu trabalho primário é a História Fenícia e o que sabemos deste texto grego vem primariamenet de citações  encontradas nos escritos de Eusebius e Porfirius. Segundo Philo, as  bases da história eram os textos fenícios atribuídos a um sacerdote de Baal chamado Sanchuniathon, que viveu antes ad Guerra de Tróia, provavelmente dentro século XIII AC. Philo escreve que  Sanchuniathon começou sua busca pelo conhecimento por meio de sua devoção ao deus Tauthus, que “era o primeiro a ensinar da invenção das letras, e começou a escrita dos registros” . Philo explica que Tauthos é conhecido como Thoth pelos egípcios e Hermes Trimegistus pelos gregos. Segundo sua História, o universo foi criado por meio de uma sequência de eventos que são notavelmente similares a teoria moderna da evolução. Fora do caos, água, vento e lama eventualmente desenvolveu-se o homem inicial, e depois de várias gerações os mais iniciais deuses nasceram. O primeiro conflito divino foi entre Urano e seu filho Cronos, e depois que Cronos foi vitorioso, com a ajuda crucial de seu secretário Tauthos, ele fundou a primeira cidade que era, como devia ser esperado de um escriba fenício, a cidade fenícia e Biblos. Depois da morte eventual de Urano nas mãos de Cronos [no 32o ano do reinado de Cronos], o texto registra: ‘Esta, então, é a história de Cronos, e tais são as glórias do modo de vida, tão exaltadas entre os gregos, dos homens dos dias de Cronos, que eles também afirmam terem sido a primeira e a raça dourada  de homens que falam articuladamente., que felicidade abençoada do velho tempo!” O costume pagão do sacrifício humano, uma ocorrência comum durane a ‘felicidade abençoada’ da ‘Idade Dourada’ é também reastreado de volta a Cronos: “Era costume dos antigos em grandes crises de perigo para os governantes de uma cidade ou nação, em ordem de evitar a ruína comum, dar as mais amadas de suas crianças para sacrifício como um resgate dos demônios vingadores; e aqueles que ram assim dados eram sacrificados com ritos místicos. Cronos então, que os fenícios chamam de Elus, que era rei do país e subsequentemente, depois de sua morte, foi deificado como a estrela Saturno, teve com uma ninfa do campo chamada Anobret um único filho gerado, que eles em sua narrativa chamam de Lelud, o único gerado sendo ainda assim chamado entre os fenícios; e quando grandes perigos de guerra tinham crcado o país, eles aparelharam seu filho de modo real, prepararam um altar e o sacrificaram”.

A identidade de Cronos é revelada pelo trabalho de Berossus, que estava intimamente familiarizado  com os mitos e histórias sumérias e acadianas. Em sua interpretação grega de várias partes do Enuma Elish, “Enki’ é simplesmente traduzido por Berossus como Cronos, aparentemente sem qualquer necessidade de explicação.  Philo conclui que esta deidade agora está morta, mas infelizmente para nós os fatos mostram que estes rumores são grandemente exagerados. Em tempos antigos a escrita era um talento muito exclusivo, valioso e altamente protegido. Do temo de sua invenção ela existiu por centenas de anos como propriedade do Sacerdócio e do Estado, que eram eles próprios virtualmente inseparáveis. Como temos visto, a religião no mundo antes do aparecimento do cristianismo era similar em virtualmente cada aspecto chave de cultura a cultura. Cada uma era governada por uma monarquia hereditária e liderada por uma hierarquia de sacerdotes iniciados que se comunicavam com os deuses de modos muito similares ao shamanismo praticado dentro das religiões orientais e das culturas indígenas de hoje. Cada uma destas antigas culturas via os deuses em uma estrutura panteística, com o próprio panteão sendo liderado por um alto deus que exercia autoridade sobre o céu e a terra. Na antiguidade inicial este deus era conhecido como Cronos ou Enki, e seu nome era Marduk, Baal, ou Zeus, que eram deuses que todos representavam o planeta Júpiter. Até onde diga respewito ao mundo pagão havia apenas uma história a ser contada, até mesmo embora cada cultura a contasse de um modo único com nomes diferentes com seus próprios detalhes culturalmente relevantes. Na análise final esta história é a história de Enki, e o grande rival de Enki é Enlil, entendido por tantos sendo o deus de Israel YHWH, que teve que esperar 1.500 anos antes de poder contar o seu lado da história. Esta foi a aproximada extensão de tempo da invenção da escrita até o momento quando Moisés se encontrou com Deus no topo do Monte Sinai. Será interessante sabermos o que Ele tem a dizer.

A Resposta Bíblica

Os capítulos iniciais do livro do Geneses são escritos de acordo o seguinte desenho: Genesis 1: Criação do céu e da terra e todas as coisas vivas em seis dias.  Genesis 2: Criação de Adão e Eva. Genesis 3: O Jardim do Eden, a Serpente e a Queda do Homem. Genesis 4: A história de Caim e Abel, e a primeira cidade construída para os descendentes de Caim. Genesis 5: Os descendentes de Adão de Seth a Noé. Genesis 6: “Os Filhos de Deus” descem a terra, produzem os Nefilim por relações com as mulheres humanas. Genesis 7-8: A história do Dilúvio. Genesis 9: A Aliança Noaquita, a indiscrição de Ham e a praga de Canaã.  Genesis 10: Os setenta descendentes dos filhos de Noé e a separação das nações. Genesis 11: A Torre de Babel, a diversidade das línguas, a e dispersão das nações. Genesis 12: A chamada de Abraão para criar a própria nação do Senhor. Os eruditos modernos acham muitas similaridades quando eles comparam o Geneses com as narrativas de criação dos sumérios e dos babilonios. Por exemplo, segundo o Geneses, a criação aconteceu em sete dias, literal ou não, enquanto que a criação no Enuma Elish na narrativa babilonica foi escrita em uma divisão de sete tabletes. Outras similaridades existem que foram cobertas na Parte V, mas estas muitas similaridades apenas servem para ressaltar as poucas diferenças importantes que de fato existem. Estas diferenças são o suficiente para provar que os hebreus tinham um entendimento da criação e das história inicial em comum com as histórias pagãs, mas eles viam estes eventos de uma perspectiva completamente difererente e  em muitos casos oposta. A respeito da Queda do Homem este é um evento no Geneses que estabelece um estágio para todos os futuros relacionamentos humano-divinos, seja ele o relacionamento da humanidade com Deus ou o relacionamento da humanidade com os Filhos de Deus, também conhecidos como anjos caídos, que manipulavam os assuntos humanos  do mundo do espírito. Este evento também apresenta o primário adversário de Deus e do Homem, que é referido em hebreu como  nachash do Jardim do Eden. O erudito em  linguagem semítica Dr. Michael S. Heiser acredita que esta palavra, que gralmente é traduzida como ‘serpente’ pode também ser traduzida como ‘o brilhante’. Isto significa que esta criatura não era uma mera serpente, mas ser um ser divino capaz de usar a fala para bajular e enganar. Heiser associa este nachash com as descrições de Satã  em Isaias 14 e em Ezequiel 28. Em Isaias  seu nome é dado como  Helel ben Shakar, que significa “o brilhante, filho do amanhecer’ traduzido em algumas bíblias como Lúcifer, filho da manhã enquanto que Ezequiel ajuda a explicar as origens de seu orgulho exagerado: “Você tinha o selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em beleza. Você estava no Eden, o jardim de Deus…” Conquanto o tentador de Eva pode não ter sido uma real serpente, ele tem sempre sido associado com a serpente de um odo ou outro. O livro da Revelação (12:9) o descreve como um dragão vermelho, e se refere a ele como ‘A serpente da antiguidade que é chamada de diabo ou Satã, que engana o mundo todo”. No livro do Geneses sua punição por enganar Eva também parece estar relacionada ao seu aspecto ‘serpentino’: “Porque você tem feito isto, amaldiçoado será sobre todo reebanho e animais selvagens! Você se arrastará sobre sua barriga e você comerá poeira todos os dias de sua vida. E colcarei a inimizade entre você e a mulher, e entre sua prole e a dela; ele esmaga sua cabeça e você morderá seu calcanhar”. (Genesis 3:14-15) Destro desta maldição a serpente  também está uma previsão da condenação da serpente, que viria de um homem descendente da própria Eva. Os hebreus entendiam esta promessa como o Proto Evangelho, ou a primeira profecia, da vinda do Messias do mundo que forneceria o remédio e reverteria os efeitos da Queda. Para os hebreus “Satã a Serpente” era conhecido desde o início como um perspicaz enganador que foi amaldiçoado por Deus e um dia seria destruído pelo Messias. Compare isto com a visão pagã da ‘serpente brilhante’ como dada por Philo de Biblos, traduzida de até mesmo anteriores textos fenícios: “A natureza então do próprio dragão e das serpentes Tauthos [ o egípcio Thoth, o grego Hermes]  vista como divina, e então novamente depois ele fez os fenícios e egipcios: pporque este animal foi declarado por ele ser de todos os répteis o mais cheio de respiração e feroz. Em consequência do que ele também exerce uma insuperável rapidez por meios de sua respiração, sem pés e sem mãos ou qualquer outro membro externo pelos quais os outros animais fazem seus movimentos. Ele também exibe formas de vários formatos, e em seu progresso faz saltos em espiral tão rápido quanto escolher. Ele também é o de mais longa vida, e sua natureza é se desfazer da velha pele e assim não apenas crescer jovem novamente, mas também assumir um maior crescimento; e depois que isto foi cumprido sua indicada medida de idade, é auto-consumida como do modo que o próprio Tauthos tem estabelecido nos livros sagrados; por esta razão este animal tem sido adotado nos templos e nos ritos místicos… Os fenícios o chamam de “Bom Demônio” da maneira que os egípcios também o nomeiam Cneph; e eles acrescentam a ele a cabeça de um falcão por causa da atividade do falcão. Epeis também [que é chamado entre eles um principal hierofante e escriba sagrado, e cujo trabalho foi traduzido por Areius de Heracleopolis] fala em uma palavra alegórica verbatim como se segue:  ‘O primeiro e mais divino ser é uma serpente com a forma de um falcão, extremamente gracioso, que seja onde for que ele abra os olhos coberto de toda luz de seu lugar natal original, mas se ele fecha os olhosa, vem a escuridão”. Epeis aqui intima que ele é também de um substância fogosa, ao dizer que ‘ele brilhou através’, porque brilhar através é uma característica da luz.”  A pergunta que exige ser feita é esta: “O que pode explicar estas perspectivas radicalmente diferentes sobre a natureza da serpente? Para os hebreus, ela era amaldiçoada por Deus a um nível mais baixo do que o dos animais e forçada a comer poeira, enquanto que para os pagãos ele era o ‘Bom Demonio’ e ‘o primeiro entre os seres divinos’.

Depois da maldição de Deus da serpente, a próxima maldição cai sobre Caim por matar seu irmão Abel. Na Parte V vimos como a disputa entre o pastor e o fazendeiro é resolvida diferentemente nos textos sumérios do livro do Geneses, com o fazendeiro recebendo o favor divino sobre o pastor, e o pastor se tornando beligrante em relação ao fazendeiro. Há também uma ênfase diferente sobre as linhagens da descendência. O Geneses dá os descendentes de Caim e relatada a fundação por eles da primeira cidade , mas a linhagem de Seth é muito mais importante porque leva a Noé. Por ouro lado, os sumérios parecem se concentrar sobre a linhagem de Caim, com a instituição da monarquia hereditária ‘descendo do céu’ para a cidade de Enki, a cidade de Eridu, que recebeu seu nome por causa de Irad, o neto de Caim. Em contraste, tanto quanto diga respeito a YHWH a instituição de uma monarquia era desnecessária e foi vista como inevitavelmente levando a opressão. ( Samuel 8:10-22). A outra narrativa da ‘descida do céu’ é a dos proprios anjos caídos. Isto é retratado no Geneses 6 e envolve relações não sagradas  entre alguns ‘Filhos de Deus’ e as mulheres humanas, um relacionamento que gerou os Nefilim. Desta inteeração humano-angélica o mundo se tornou corrupto as vistas de Deus e cheio de violência, o que se tornou a justificativa para enviar o Grande Dilúvio. Segundo as mitologias pagãs esta foi a Idade Dourada de Cronos quando os deuses viveram com os homens durante a era do reino de Atlantis. Contudo, até mesmo embora esto foi visto como um tempo idealista quando a ‘verdadeira religião’ governou, escritores gregos tais como Platão explicam que a Atlantida se tornou corrupta em seus ensinamentos espirituais  e usou seu grande poder para dominar e abusar do mundo inteiro. O livro não canonico de Enoque explica como os anjos caídos ensinaram a humanidade astrologia e astronomia, encantos e encantamentos, e a propriedade das plantas e das ervas. Um anjo em particular chamado Azazel ‘ensinou os homens a fazerem espadas, e facas, e escudos, e armaduras de peito e ensinou aos homens sobre os metais da terra e a arte de trabalha-los”. [Enoque 8:1]. No Geneses a arte de trabalhar metais  é atribuida a Tubal-cain, um descendente de Caim. David Rohl associa este nome a Bad-tibira, que é a segunda cidade na Lista dos Reis Sumérios, seguindo Eridu onde ‘a realeza desceu do céu’. Segundo sa narrativas sumérias  o grande ‘civilizador’ da humanidade era o grande deus Enki, o Senhor de Abzu em Eridu, que rea retratado como um firme amigo e campeão da humanidade. Por outro lado, o livro de Enoque explica que as inovações dadas a humanidade foram usadas para propósitos perversos. Os Nefilim governaram com uá mão de ferro, ‘e quando os homens não podiam mais sustenta-los, os gigantes se viraram contra eles e devoraram a humanidade [Enoque 7:4]. A respeito do próprio Azazel lemos em Enoque 10:8: “A inteira terra tinha sido corrompida pelos trabalhos que foram ensinados por Azazel e é atribuido a ele todo o pecado”.

Depois do Grande Dilúvio chegamos ao curioso incidente no qual Ham, um dos três filhos de Noé, desonra seu pai. Isto traz uma outra maldição, que é a maldição de Noé, dada por causa da indiscrição de Ham a ser aplicada ao filho de Ham, Canaã. Na lista dos reis sumérios e no mito de Enmerkar e o Senhor de Aratta tanto  Meskiagkasher (Cush) andquanto Enmerkar (Nimrod) são ditos serem descendentes de Utu. Se Utu é para ser encontrado dentro do livro do Geneses então Utu só pode ser Ham, o terceiro filho de Noé que é descrito negativamente no Geneses. Por outro lado, dentro da mitologia suméria, especificamente no mito Enki e a Ordem Mundial descobrimos que Utu/Ham é glorificado:”Enki colocou a cargo do inteiro céu e a terra o herói, o touro que vem da floresta de a-ur falando alto truculentamente, o jovem Utu., o touro que fica de pé triunfantemente, audaciosamente, majestosamente, o pai da grande cidade, o grande arauto  no este da sagrada An, o juiz que busca os verecitos para os deuses, com uma barba de lápis lázuli, se elevando no horizonte para dentro do céu sagrado”. Utu se tornou conhecido como deus sol na mitologia suméria e o deus da Verdade e da Justiça. Na linguagem acadiana Utu era conhecido como Shamash. Foi o neto de Ham, Nimrod, que foi o responsável pela Torre de Babel e já temos mostrado como isto é retratado no mito sumério como a tentativa de Enmerkar de renovar o sagrado abzu de Eridu em honra de Enki. Nas descrições do papel dado a Utu por Enki, podemos talvez ler como o jovem Ham [o jovem Utu] deixou a casa de seu pai Noé [que era a montanhosa terra das florestas], em uma fúria de indignação ´falando alto truculentamente] pelo que ele havia percebido como um veredito injusto contra ele próprio, seu filho. Então Enki aparece, oferecendo palavras lisongeiras e promessas enganosas, depois do que descobrimos que Ham se torna deificado por Enki como o Deus dqa Verdade e da Justiça!

No mito egípcio descobrimos que Ham é mais provavelmente representado como o deus Horus. Esto pode soar confuso superficialmente, porque Horus é geralmente visto como o filho de Osiris, que tem sido mostrado ser Nimrod, o neto de Ham. O problema é resolvido uma vez entendamos que os mais iniciais mitos egípcios descrevem Horus ou como irmão ou tio de Osiris. Evewntualmente apareceram duas identidades separadas de Horus a que Pluytarco se refer como Horus o Velho e Horus o Jovem, este sendo o bem conhecido filho de Osiris e o grande unificador do Egito. Esta imterpretação faz sentido porque os fatos motram que o culto de Horus era bem conhecido algum tempo antes  que o culto a Osiris fose estabelecido. A veneração a Horus remonta aos tempos pré-dinásticos da Cidade do Falcão de Nekhen, enquanto a evidência concreta para a veneração de Osiris aparece pela primeira vez apenas na Quarta Dinastia. Horus era o deus da Tribo Falcão, que eram os invasores dinásticos do Vale do Nilo que vieram da Mesopotamia no seguimento imediato da queda de Eridu. Como veneradores de Enki eles identificaram acima  todos com Ham seu mais importante ancestral pós dilúvio que era, como temos mostrado, honrado por Enki como o deus sol. No Egito também descobrimos que Horis era estreitamente identificado com o sol; Como  Horakhty (Harakhty), ou “Horus dos dois horizontes”, Horus era o deus do nascer e por do sol, mas mais particularmente o deus do oriente e nascer do sol. Nos Textos da Pirâmide, o rei falecido é dito ser renascido no céu oriental como Horakhty. Eventually, Horakhty se tornou uma parte deo culto ao sol de Heliopolis e foi fundido com seu deus solar como Re-Horakhty. Como  Behdety, ou “ele de behdet”, Horus era o sol com asas de falcão que parece incorporar a idéia da passagem do sol pelo céu. Como  Hor-em-akhet (Harmachis) ou “Horus no horizonte”, Horus era visualizado co o um deus sol na forma do falcão ou leonina. Evidência posterior que Horus pode ser identificado como o bíblico Ham vem do fato que pelos textos egípcios há repetidas referências aos deificados Quatro Filhos de Horus, que é documentado no livro ‘The Ancient Gods Speak – A Guide to Egyptian Religion’. Este quatro filhos são mencionados quatorze vezes nos Textos da Pirãmide, por muitos textos de caixão do Reino Médio, pelo Livro dos Mortos e o Livro dos Portões e eles até mesmo aparecem como representações em recipientes canópicos contendo órgãos do falecido em tumbas reais. Se Horus é de fato uma deificação de Ham, então os nomes bíblicos destes quatro filhos seriam Cush, Mizraim, Put e Canaaan. Os descendentes e Ham eram da Tribo Falcão de  Flinders Petrie conhecidos pelos egípcios como Shemsu Hor, ou “Seguidores de Horus”, que migraram da Mesopotamia e se estabeleceram no nordeste da África e ao redor da bacia Mediterrânea. Eles todos veneravam as várias formas do deus Enki como deus primário deles, que podem ser rastreadas de volta a sedução espiritual e Ham por Enki depois do desafortunado episódio na casa de Noé.  Parece que em cada importante estágio do livro do Geneses encontramos uma descrição sw eventos muito similar as narrativas pagãs, mas a interpretação dos eventos  é dada de forma completamente oposta. O que pode responder pelo fato de que os hebreus, uma tribo aparentemente insignificante de refugiados fugindo do Egito, buscariam criar uma história da criação e civilização que repetidamente contradiz o modo pelo qual as nações vizinhas viam a mesma história? A próxima seção ajudará a responder esta pergunta.

Deus Contra os Deuses

Depois da narrativa da indiscrição de Ham o livro do Geneses continua no capítulo 10 com uma listagem de setenta dos descendentes de Shem, Ham e afé, os três filhos de Noé. No fim desta listagem está uma explicação: ‘e destes as nações foram separadas sobre a terra depois do dilúvio”. O capítuo 11 então continua com a história que ajuda a explicarf exatamente como estas nações foram separadas, o que é a história da Torre de Babel. A tradição hebraica, bem como Josephus, mantém que este episódio foi dirigido por Nimrod, cujo império incluia virtualmente o inteiro mundo civilizado.  r   9 d the account of the indiscretion of Ham the book of Genesis continues in chapter ten with a listing of seventy of the descendents of Shem, Ham, and Japheth, the three sons of Noah. At the end of this listing is an explanation: “and out of these the nations were separated on the earth after the flood.” Chapter eleven then continues with the story that helps to explain exactly how these nations were separated, which is the story of the Tower of Babel. Hebrew tradition, as well as Josephus, maintains that this episode was directed by Nimrod, whose empire included virtually the entire civilized world. Ao espetar seu povo da terra disse: “Vamoos, deixe-nos construir para nós mesmos uma cidade, e uma torre cujo topo alcaçará o céu, e vamos fazer para nós mesmos um nome, porque caso contrároi seremos espalhados pela face da terra”. Segundo o Geneses, a construção da cidade e da torre foi começada por duas razões: [1]- para fazer para nós próprios um nome e [2] – para estabelecer uma base da qual resistir ao divino comando dado no Geneses 9 como parte da Aliança Noaquita de ‘multiplicar e encher a terra’. Como resultado desta desobediência Geneses 11:5 explica que o Senhor ‘desceu para ver a cidade e a torre que os filhosdos homens tinham construído”. A resposta de Deus a esta situação é explicada em Geneses 11:6-7, o que incluiu um apelo do Senhor a sua hoste celestial: “O Senhor disse, ‘Preste atenção, eles são um povo e todos eles tem a mesma linguagem. E isto é o que eles começaram a fazer, e agora nada que eles se proponham fazer será impossível para eles. Vamos, vamos descer e lá confundir a linguagem deles de tixepr  b  .crescer eAavomo [o t his prodding the people of the earth said “Come, let us build for ourselves a city, and a tower whose top will reach into heaven, and let us make for ourselves a name, otherwise we will be scattered abroad over the face of the earth.” According to Genesis the buildingforma que eles não entendam a fala um do outro”. O Livro de Jasher é um livro não canonico que é mencionado em Josué 10:3 e em Samuel 1:18 e ele explica a identidade do ‘nós’ a que Deus se refere em Geneses 11, “E eles construiram a torre e a cidade, e eles fizeram esta coisa diariamente até muitos dias e anos se passarem. E deus disse aos setenta anjos que eram mais próximos dele, para aqueles que permaneciam mais próximos dele, dizendo, “Vamos, deixe-nos descer e confundir as linguas deles, que um não possa entender a linguagem do seu vizinho’ e assim eles o fizeram a eles”. (Jasher 9:31)

Este estranho episódio doi concluído depois que estes ‘anjos’ aceitaram o convite de Deus para fazer uma ‘descida’ do céu a terra. O resultado final é dado em Geneses 11:8-9, que explica como as pessoas da terra que resistiram a serem espalhadas foram forçadas a chegarem ao termos da Aliança Noaquita de Geneses 9: “Então o Senhor os espalhou sobre a face da terra; e eles pararam de construir a cidade. Portanto o nome dela é chamado Babel, porque lá o Senor confundiu a linguagem da terra inteira, e de lá o Senhor os espalhou sobre a face de toda a terra”.  Na Parte V foi explicado como o nome desta cidade, dado no Geneses como Babel, era conhecido como “Nun.ki” em acadiano, que era o nome da original cidade de Eridu que foi abandonada no fim da carreira do rei sumério Enmerkar, que foi o bíblico Nimrod. No mito sumério Eridu e Enmerkar ambos estão intimamente associados com o deus sumério Enki. Com o apoio de Enki Enmerkar foi capaz de conquistar o mundo civilizado, rehabitar e reconstruir a capoital Eridu de Enki pré dilúvio, e começar a construir o Grande Templo ou Torre em honra de Enki, enquanto ao mesmo tempo resistindo ao divino comando de se espalhar e povoar a inteira terra. Sob a autoridade de Enmerkar o mndo foi esencialmente revertido de volta a sua condição pré dilúvio. Através de Enmerkar Enki tinha tido sucesso em estabelecer a opressiva ‘realeza’, e por seus projetos de construção a humanidade tinha sido afastada da veneração de Deus  e na direção do não sagrado adversário de Deus. Com o sinal do arco-iris Deus tinha prometido nunca destruir a humanidade novamente, então um outro remédio para a situação tinha que ser encontrado. Este é o contexto doi qual interpretar a resposta de Deus à situação, que incluiu um apelo aos setenta ‘anjos’ que permaneciam diante dele, e em um acordo que permitia a eles ‘descerem’ a terramais uma vez novamente. Foi esta ‘descida dos anjos’ bem como a criação das diversas linguagens que serviram para separar e dividir a humanidade daquele ponto em diante, com a ‘descida’ se provando ser o mais espiritualmente importante. O livro do Geneses não elabora sobre como  estes anjos descidos afetaram a humanidade naquele tempo da divisão das nações. De fato, as explicações deste evento não aparecem até o livro do Deuteronomio onde ela pode ser encontrada dentro da fala final que Moisés dá ao povo de Israel exatamente antes de sua morte: “Quando o Mais Alto deu às nações sua herança, quando Ele separou os Filhos do homem, ele estabeleceu as fronteiras dos povos segundo o número dos Filhos de Deus”  [Deuteronomio 32:8].  Estes “filhos de deus” eram membros da hoste celestial de seres angélicos que Deus originalmente criou para ajudar a gerenciar a terra e toda criação. Este explicação para estes estes ‘filhos de deus’ é esclarecida por um velho Targum judaico sobre este texto encontrado em um manuscrito conhecido como Pseudo-Jonatas. “Quando o Mais Alto fez o loteamento do mundo em nações que procederam dos filhos de Noé, na separação das linguagens e das escritas dos filhos dos homens ao tempo da divisão, Ele lança o lote entre os setenta anjos, os príncipes das nações”. A decisão de dividir as nações do mundo aconteceu em uma reuniãoi do Conselho Divino, com Deus consultando com um conselho de setenta ‘filhos de Deus’ antes de chegar a uma decisão. Os ‘filhos de Deus’ eram seres avançados, tamém conhecidos como ‘anjos’, e porque eles foram criados com o Livre Arbítrio nem todos eles sempre tinham agido em obediência a Deus e ao seu divino plano. Os setenta filhos de Deus que apareceram diante de Deus neste particular Conselho Divino chegaram a um acordo com Deus a respeito do problema da Torre de Babel eram os anjos rebeldes cuja interação com a humanidade antecede em muito o Dilúvio. Em outras palavras, eles eram uma facção dissidente de anjos que pensava que podiam gerenciar a gumanidade muito melhor do que Deus podia.

Para lidar com o poblema da dominação de Enki do mundo por meio de Nimrod e seu império, Deus decidiu permitir a estes anjos uma chance de provar o argumento deles. O resltado final foi queo mundo foi divido segundo o ‘número dos filhos de Deus’. ‘Setenta” era o número completo de membros detro desta particular facção angélica, que é o porque a Tabela das Nações do Geneses 10 lista exatamente setenta descendentes de Shem, Ham e Jafé, que compuseram as nações que ‘foram separadas sobre a terra depois do dilúvio’. Da perspectiva de Deus uma situação na qual a humanidade estava unida contra Deus    sob o controle dos setenta prícipes angélicos. Da perspectiva destes setenta príncipes angélicos caídos eles voluntariamente concordaram em desmembrar o império e Nimrod porque isto permitia a eles tomar o controle de sua própria nação individual e provar seu talento como gerentes humanos. Agora como eles podiam tentar a mão de ‘brincar de deus’ sem a interferêcia de YHWH. Da perspectiva de Satã/Enki, o rompimento do império de Nimrod e a queda e o abandono de Eridu foi certamente um efeito negativo. Contudo, como o mais poderoso membro deste grupo de anjos dissidentes Satã estava confiante que ele rapidamente conquistaria a dominância.  A vida de Nimrod foi um sacrifício que Satã estava voluntário em oferecer porque isto removia Deus da imagem e isto permitiu a Satã e aos anjos caídos a liberdade de governar sobre a humanidade. Nimrod se tornou a base histórica para todos os diferentes deuses ‘que morrem e ressuscitam’ encontrados na antiga mitologia e ele pode sre visto como um sacrifício humano oferecido em ‘benefício’ dos deuses, porque sem a morte de Nimrod eles não teriam a chance de governar como ‘deuses’. A antiga mitologia reflete a transição espiritual  que ocorreu na Torre de Babel. Segundo o mito sumério Enmerkar e o Senhor de Aratta, uma vez “o povo em uníssono… para Enlil em uma lingua dava louvor”. Depois a autoridade de Enlil foi diminuida e foi Enki que cresceu em proeminência , o que é celebrado no mito Enki e a Ordem Mundial, que inclui uma narrativa de Enki ganhando o controle sobre o enigmático ‘me’ , os sagrados e valiosos ‘poderes’ associados a autoridade divina e o gerenciamento da civilização humana. O desparecimento de YHWH dos assuntos humanos pela tranferência da autoridade direta sobre a humanidade aos ‘anjos caídos’ pode ser deduzido pela existência das chamadas deidades ‘otiose’ na cabeça dos panteões do mundo pagão. Por exemplo, a maioria dos eruditos se refere ao deus sumério Anu como uma deidde ‘otiose’. Ele era o cabeça do panteão sumério, mas ele realmente nada fazia, e os sumérios tinham poucas, se alguma, representação dele, a despeito do fato de que os templos eram construidos em sua honra, tal como um escavado por Sir Leonard Wooley em Ur. Na mitologia canaanita, que é conhecida por nós pelos textos Ugariticos de Ras Shamra, a ‘deidade otiose’ é o grande deus El. O primário mito canaanita conhecido como o Ciclo de Baal caracteriza El como uma deidade a muto afastada dos negócios humanos, que entra em uma disputa com sua esposa quando ele é enfrentado pela promoção de um de seus filhos à posição de líder ativo do panteão. Segundo as narrativas Ugariticas e este é um ponto muito importante, o número de filhos de El era exatamente setenta. [ veja Contra os Poders Mundiais IV]. Na mitologia grega o deus céu era conhecido como Urano, e ele era reputado ter como esposa Gaia [a Terra] e ser pai de Cronos. Diferente dos sumérios e dos canaanitas, Uranos não era escrito na história grega como uma deidade ‘otiose’, ao invés, ele simplesmente foi morto por seu filho Cronos, que por sua vez foi morto por seu filho Zeus.

O breve desaparecimento de YHWH de um papel ativo nos assuntos humanos pareceu ao mundopagão como uma evidência da vitória de Enki sobre Enlil. Isto explica como o caráter de YHWH pode ser terrivelmente difamado pelos sacerdotes pagãos e escribas dos quais obtemos a nossa descrição de YHWH em sua várias formas degeneradas. No mito sumério isto parece que a identidade de YHWH foi dividida em dois aspectos. Um aspecto foi chamado Anu, que se tornou completamente inativo e colocado acima nas alturs irreconecíveis e inalcansáveis do céu, enquanto o outro aspecto era retratado como Enlil, que era o ativo oponente de Enki, e o alegado inimigo da humanidade, que jurou exterminar a humanidade porque ela havia se tornado ‘barulhenta’ demais. Na mitologia Ugaritica El é similarmente difamado e maltratado e é caracterizado como covarde, despeitado, e  conivente, a despeito do fato que ele é visto como basicamente sem poder. Não obstante a conexão de El com YHWH/El dos hebreus é muito clara. Lowell K. Handy, em seu livro ‘Among the Host of Heaven’,  mostra que os canaanitas preservavam uma memória da divisão da terra similar ao entendimento hebreu, e esta divisão foi determinada pela autoridade de El Ele escreve, “A divisão do mundo em regiões de autoridade é atribuida a El nas narrativas relatadas por Philo de Biblos. Estas regiões foram distribuidas a várias deidades para governarem sob o cuidado e consentimento de El. Tanto as regiões materiais quanto as imateriais foram alocadas por El. Até mesmo o reino dos mortos foi destinado a Mot por El”. Em conclusão, o evento da Torre de Babel, mais do que simplesmente ser uma história fascinante de como asdiferntes linguagens vieram a existir, é de fato o lugar e tempo onde o paganismo veio a existir como religião e como um sistema de controle espiritual sobre, e a escravização de, das mentes e almas da humanidade. Neste sentido,  William Bramley estava absolutamente correto em sua caraterização da opressão da humanidade nas mãos dos ‘tutores’ quando ele escreveu, ‘para manter o controle sobre sua posse e manter a Terra como algo de uma prisão, que outra civilização [os anjos caídos, os tutores] tinham enbendrado o conflito sem fim entre os seres humanos, tinham promovido a deterioração espiritual dos humanos, e tinam erigido a Terra as condições de incessante dificuldde física. Esta situação tem existido por milhares de anos e continua a existir até hoje”. Deus permitiu que os anjos caidos alcançassem uma posição de autoridade sobre a humanidade que os levou a serem venerados como ‘deuses’. Como o mais forte e inteligente destes deuses era Lucifer que emergiu como o líder do grupo, e dos sumérios ao Novo Testamento encontramos que ele é referido como “Senhor da Terra”. Ainda que Deus tivese um plano para redimir o mundo destes falsos deuses que seria trabalhado por meio de sua própria nação, que começou por escolher Abraão como descrito no Geneses 12.

A Nação de Deus

A divisão das nações do mundo nas mãos dos ‘deuses’ aconteceu por volta de 3.000 AC, dado ou tomado 100-200 anos. Por quase mil anos estes seres avançados usaram seu poder e autoridade para dominar, enganar e maniular a humanidde sem qualquer interferência aberta de YHWH, que permaneceu pela maior parte do tempo como um observador. Finalmente por volta de 2000 AC Deus chegou a uma influente família suméria da cidade de Ur, que era descendente direta de Noé através da linhagem de Shem. Esta familia havia se assentado em Haren no norte da Síria, e foi lá que Deus deu a Abraão, o patriarca da família, instruções para mudar sua família para a terra de Canaã: “Deixe seu campo, seu povo e a cas de seu pai e vá para a terra que el lhe mostrarei. Farei de você uma grande nação e o abençoarei. Farei seu nome grande e você será uma benção.  Abençoarei aqueles que lhe abençoarem e seja quem for que lhe amaldiçoe eu amaldiçoarei; e todas os povos da terra serão abençoados através de você”. (Genesis 12:1-3)  A chamada de Abraão com o proósito de criar uma grande nação para o Senhor precisa ser entendida em reação aos eventos descritos no Geneses 11 quando os ‘filhos de Deus’  dsesceram a terra para tomar posse das nações da terra. De fato, a criação da Nação de Israel foi uma resposta retardada a criação das setenta nações que eram governadas pelos ‘deuses’. Estes ‘deuses’ possuiam setenta nações enquanto o próprio Deus tomou apenas uma, mas era através desta uma que os povos da Terra foram prometidos serem ‘abençoados’. Há muitas referências pelo Velho Testamento  aos ‘deuses’ das nações pagãs, e o fato de que eles existiam nunca foi negado.  Contudo, o Deus de Israel se mostra único ao declarar ser o criador de todos os outros deuses, o criador do céu e da terra, e o verdadeiro e único regente de tudo que ele criou (Nehemiah 9:6, Isaiah 40). O status de Israel como a única possessão de Deus é explicado no Deuteronomio 32:9, “Quando o Mais Alto deu as nações sua herança, quando ele separou os filhos do homem, eleriou as fronteiras de povos segundo o número dos filhos de Deus. Porque a porção do Senhor é seu povo, Jacó é sua herança alocada”. Em Levítico 20:23-26, antes da entrada de Israel na Terra Prometida de Canaã, Deus explicou Sua atitude em relação as nações governadas pelos deuses, bem como o status especial de Israel como a única nação do Senhor. “Você não deve viver segundo os costumes das nações que irei expusar de diante de você. Porque eles fazem todas estas coisas, que me aborrecem deles. Mas eu disse a você, ‘ você possuirá a terra deles, eu as darei a você como herança, uma terra onde flui o leite e o mel”. Eu sou o Senhor seu Deus, que o tem separado das nações… Você será sagrado para mim porque Eu, o Senhor, Eu o sagrado, E eu o tenho separado das outras nações para ser meu próprio”. Comandos e caraterizações similares são dados novamente no Deuteronomio 18:9-14, “Quando você entrar na terra que o Senhor seu Deus está lhe dando, não aprenda a imitar os modos detestáveis das nações lá. Não deixe que seja encontrado entre você alguém que sacrifique seu filho ou filha no fogo, que pratique a adivinhação ou a feitiçaria, interprete presságios, se engage em feitiçaria, ou lance encantamentos, ou que seja um médium ou espiritista ou que consulte os mortos.  Qualquer um que faça estas coisas é detestável ao Senhor e por causa destas praticas detestáveis o Senhor seu Deus expulsará estas nações diante de você. Você deve estar sem culpa diante do Senhor seu Deus. As nações que você despossuirá ouvem aqueles que praticam a feitiçaria ou a adivinhação. Mas quanto a você o Senhor seu Deus não permite que faça assim.” Estas práticas detestáveis eram a própria base do sistema religioso pagão de ritual e veneração e os meios pelos quais os sacerdotes pagãos contactavam o mundo do espírito e recebiam instruções. Hoje estas práticas são conhecidas coletivamente como shamanismo, que é fazer uma ressurgência através do Movimento New Age no mundo hoje. O moderno consenso New Age é que ‘os espíritos são nossos amigos’ mas os hebreus foram avisados bem do oposto. Desde o início, os angélicos ‘filhos de Deus’ , tanto os sagrados quanto os não sagrados, eram semmpre associados com o céu e igualados com as estrelas (Job 38:4).

Dentro do paganismo muitas deidades se tornaram representadas pelo sol, lua e planetas também. Isto explica as muitas passagens do Velho Testamento nas quais os anjos são referidos coletovamente como ‘a hoste do céu’. Eles são frequentemente apresentados como os acompahantes subservientes de Deus no céu (Job 1:6), ficando do lado Dele ( Cronicas 18:18-21), e eles são frequentemente mencionados no contexto de aviso, lembrando a Israel para não venera-los como o fazem os gentios. O texto seguinte dá evidência posterior que certos membros da ‘hoste do céu’ tem sido alocados aos povos da terra: ‘E tenha cuidado de não levantar seus olhos ao céu e ver o sol e a lua e as estrelas, toda a hoste do céu, e ser afastado e venrea-los e servir a eles, aqueles que o Senhor seu Deus tem alocado todos os povos sob o inteiro céu”. (Deuteronomio 4:19) Se ele são referidos como ‘anjos’, ‘deuses’, ‘filhos de deus’, ‘hoste celestial’ ou ‘príncipes’ das várias nações  (Daniel 10:12-21), as instruções de Deus a Israel deixam claro que estes seres , embora em posição de autoridade, tem abusado de seu poder e vontade e um dia serão enfrentados com seu próprio fim. O julgamento destes angélicos poders caidos e a previsão de um fim da autoridade deles sobre as nações é dado em Salmos 82: “Deus tem tomado o seu lugar no divino conselho; no meio dos deuses ele mantém o julgamento: “Por quanto tempo você julgará injustamente e mostrará parcialmente o perverso? Dá justiça ao fraco e ao órfão; mantém o direito do aflito e do destituido. Resgate o fraco e o necessitado; livra-os as mãos do perverso’. Eles nem tem conhecimento ou entendimento, eles andam na escuridão, todas as fundações da terra estão abaladas. Eu digo, ‘vocês são deuses, filhos do Mais Alto, todosw vocês; não obstante, vocês devem morrer como homens e cair como qualquer príncipe”. Levante-se, Oh Deusm, julgue a terra porque a ti pertencem todas as nações!”.

Os Kosmokratores e o Oculto

No Novo Testamento o apóstolo Paulo deixa claro que o mundo é controlado por forçasangélicas caídas sob a autoridade de Satã, a quem ele se refere como ‘o deus deste mundo’ ( Corintios 4:4). Em sua Epístola aos Efesianos Paulo conclui sua mensagem de encorajamento com as seguintes palavras: “Finalmente seja forte no Saenhor e em seu poderoso poder. Colo1que a completa armadura de Deus de forma que você possa tomar sua posição contra os esquemas do diabo. Porque a nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os governantes, contra as autoridades, contra os poders deste mundo escuro e contra s forças espirituais do mal nos reinos celestiais”  (Efesos 6:10-12). Porque os cristãos iniciais se baseavam nas tradições e perspectivas dos hebreus, foi entendido desde o início que o mundo era governado por autoridades más, poderes, e forças espirituais que se tinham rebelado contra Deus e serviam a Satã, o diabo. Paulo simplesmente explicou aos Efesianos que o esforço diário para manter e proclamar a fé estes ‘poderes”, ou  Kosmokrators (poderes mundiais) em grego, que governavam sobre a escuridão deste ‘mundo’ [ aion ou Idade] eram seus máximos inimigos. O nascimento do cristianismo trouxe a queda do paganismo como um sistema aberto de controle político e religioso sobre a humanidade. As nações se afastaram de tomar o conselho e o direcionamento dos Altos Sacerdotes  que permaneciam no pináculo das Religiões de Mitério lideradas pelo espírito e ao invés abraçaram  os Bispos e Papas da Igreja como líderes espirituais. Eventualmente as instituições, rituais, práticas e praticantes do paganismo foram forçados a irem entender para sobreviver, e eles tomaram com eles sua veneração dos  Kosmokrators bem como a fé enraizada que um dia os deuses e os espíritos que eles serviam mais uma vez tomariam seu lugar ‘por direito’ como os honrados e aceitos governantes da humanidade. Para os hebreus e para o mundo pagão o número de Kosmokrators no nível mais alto foi originalmente compreendido como setenta. Encontramos isto nas tradições hebraicas das setenta nações e setenta linguagens no mundo, e encontramos isto na tradião pagã através dos textos canaanitas de Ugarit que apresentam a divisão dos diferentes aspectos do grande deus El  do gerenciamento global por seus setenta filhos, antes que seu poder fosse usurpado por Baal. Setenta era o número original dos Kosmokrators mas com a elevação nas ciências tais como a geometria,matemática e astronomia na antiguidade helenista o número preferido dos Kosmokrators veio a ser visto como setenta e dois. Encontramos este fato evidente em dois dos mais importantes movimentos espirituais que emergiram da Alexandria, Egito ao redor do mesmo tempo que o cristianismo estava se tornando popular. Este movimentos eram o Hermeticismo, que era essencialmente uma fusão da espiritualidade pagã, a filosofia grega e a antiga tradição egípcia e o Gnosticismo, que era similar mas acrescentava aspectos distorcidos da tradição hebraica e partes e pedaços do cristianismo.

Hermeticismo

O Hermeticismo recebe seu nome de Hermes Trismegistus, uma figura legendária associada ao deus grego Hermes [simbolizado pelo planeta Mercúrio]; com o canaanita deus Tauthos, o secretário de Cronos [veja acima]; com o deus babilonio Nabu [também identificado com Mercúrio] que era filho e escriba de Marduk [Júpiter] e especialmente com o deus egípcio Thoth, o escriba de Osiris e deus do aprendizado dos egípcios. A fundação textual do Hermeticismo é uma coleção de diálogos envolvendo Hermes e seus discípulos nos quais as maiores questões metafísicas da vida são abordadas. Estes textos datam do segundo e terceiro séculos de nossa era mas ao tempo da Renascença, quando eles se tornaram famosos, eles eram acreditados datarem de muito anteriormente. As coleções modernas do Corpus Hermeticum incluem 18 textos gregos e um texto em latim conhecido como o Asclepius. E é neste Asclepius que o papel do Egito como casa primária dos deuses é ressaltado, e dentro desta descrição também aparece uma profecia do declínio do Egito e o desaparecimento dos deuses, deixando o Egito destituído e abandonado: “Você não sabe, Asclepius, que o Egito é uma imagem do céu, ou, para ser mais preciso, que tudo governado e movido no céu desce ao Egito e foi transferido lá? Se a verdade fosse dita, a nossa terra é o templo da inteira terra. E ainda que, desde que isto beneficie os sabíos de saberem todas as coisas antecipadamente, disto você não deve permanecer ignorante: um tempo virá quando parecerá que os egípcios prestam respeito a divindade com a mente fiel e dolorosa reverência – para nenhum propósito. Toda sua sagrada veneração será desapontada e perecerá sem efeito, porque a divindade retornará da terra para o céu, e o Egito será abandonado. A terra que era o assento de reverência será enviuvada pelos poderes e deixada destituída da presença deles… Então esta mais sagrada terra, assento de templos, será cheia completamente com tumbas e cadáveres. Oh Egito, Egito, de vossos deveres reverentes apenas as histórias sobreviverão, e eles serão incriveis para seus filhos”… Porque a divindade voltará para o céu e todas as pessoas morrerão, desertadas, como o Egito será enviuvado e desertados por deus e humano”.

O panteão hermático é descrito no Asclepius como sendo liderado por um grupo de cinco maiores deuses que são “hiper cósmicos” e “compreensíveis” e cada um governa sobre aspectos divinos do universo que são “cósmicos’ e “sensíveis’. Júpiter é a deidade primária correspondente a Zeus, e ele é descrito como o deus do céu, ´porque Júpiter fornece a vida pelo céu a todas as coisas”. A Luz é o segundo, que governa sobre seu aspecto divino ‘sensível’, o Sol. O terceiro lá é uma deidade chamada Pantomorfos de Omniforma que governa sobre os ‘horóscopos” ou ‘trinta e seis’. Há trinta e seis deuses, também conhecidos como Decanos, assim chamados porque cada um tem autoridade sobre dez graus do círculo zodíaco.  o Quarto é a deidade Heimarmene que governa sobre os sete planetas e o quinto é o aspecto secundário de Júpiter que governa sobre o Ar, algumas vezes conhecido como Zeus Neatos.

Os doze maiores signos do zodíaco cada um inclui três dos trinta e seis Decanos Herméticos, conhecidos como “Horóscopos” e referidos como ‘estrelas’ no texto. Esta divisão do zodíaco em trinta e seis Decanos foi também dobrada para setenta e dois DuoDecanos, uma divisão que deu a cada um dos doze signos do zodíaco seis estrelas, fazendo cada uma destas estrelas Duodecanas, também conhecidas como Quinancias, o governante de cinco graus do círculo zodíacal. Disto vem uma das explicações da importância oculta do pentagrama que é uma estrela de cinco pontas. Cada uma das cinco pontas representa uma das cinco deidades ‘hiper cósmicas’, ou cinco graus do zodíaco, e cada ponta é criada por um ângulo de 72 graus, com o produto dos cinco 72 sendo 360, que completa o círculo do zodíaco.

No Egito antigo os sacrerdotes do ritos sagrados eram conhecidos como horoskopoi, e a ênfase hermética no relacionamento astrológico entre a humanidade e as estrelas que representavam os deuses Kosmocratores é explicada por Frances Yates no livro dela ‘Giordano Bruno and the Hermetic Tradition’: “Este povo estranho, os egípcios, tinham o tempo divinizado, não meramente em um sentido abstrato mas em um sentido concreto que cada momento do dia e da noite tinha seu deus que devia ser apaziguado na medida em que os momentos passavam… Eles tinham definida importância astrológica, com os Horoscopos presidindo sobre as formas de vida nascidas dentro de períodos de tempos sobre os quais eles presidiam,  e eles eram assimilados aos planetas domiciliados em seu domínio… Mas eles também eram deuses, e poderosos deuses egípcios, e este lado deles nunca foi esquecido, dando a eles uma misteriosa importância”.

O retorno destes deuses a uma posição ativa e exterior como governantes da humanidade é previsto no Asclepius, que é previsto vir depois de um longo período de declínio espiritual no Egito: “Estes deuses que governam a terra serão restaurados, e eles serão instalados em uma cidade no limiar mais distante do Egito, que será fundado na direção do sol poente e que toda espécie humana se apressará por terra e por mar”. Este texto e a localização física desta cidade divina é explicado por Garth Fowden em seu livro ‘The Egyptian Hermes’: “…  em resposta à pergunta de Asclepius sobre onde estão estes deuses no momento, Trimegistos responde ‘Em uma grande cidade, na montanhas da Líbia [no monte Libico] pelo que ele queria dizer a margem do platô deserto a oeste do Vale do Nilo. Uma referência subsequente (Ascl. 37) ao templo e a tumba de Asclepius (Imhotep) no monte Libyae estabelece que a alusão em Ascl. 27 é a antiga e sagrada necrópole de Menfis, que fica no monte deserto a oeste da própria Menfis. “As montanhas da Líbia [que também foram o lugar onde Hércules foi morto por Tifon segundo o mito grego – veja parte Tres] é simplesmente uma referência ao platô que se eleva acima do deserto na margem oeste do Nilo, a oeste da antiga cidade de Menfis. Em outras palavras, segunda a previsão hermética, quando os Kosmocratores são ‘restaurados’ eles serão ‘instalados em uma cidade’ em ou perto do platô de Gizé.

Gnosticismo

Isto nos traz agora a esta estranha seita conhecida pelos Gnósticos que, como os Herméticos, teve seu início em Alexandria, Egito. Desde o iníco deve ser declarado que os Gnósticos eram puramente pagãos e eles aceitavam as mais fundamentais doutrinas pagãs, tal como o entendimento da imortalidade adquirida através do conhecimento oculto [gnose], reencarnação, e a crença na divindade do homem. Além destas doutrinas claramente pagãs, os gnósticos tinham um entendimento muito claro das escrituras hebraicas mas a interpretação deles destas escrituras era completamente anti-semita. A base anti-semita do Gnosticismo é bastante para os mais sérios eruditos, exceto talvez para Elaine Pagels, para concluir que o Gnosticismo era ‘cristão’ apenas no nome e possivielmente nãp pode ter algo com os ensinamentos originais de Jesus de Nazaré, que permaneceu um pio observante do Torah, um judeu ortodoxo por toda sua vida. O Gnosticismo é cristão apenas no sentido que tentou utilizar a história de Jesus e a incorporar em um sistama pagão de gnose e iluminação. Em outras palavras, o Gnosticismo foi simplesmente uma tentativa de neutralizar a força completa da mensagem revolucionária de Jesus de forma que o sistema pagão pudesse sobreviver como uma força política no mundo. Esta tentativa falhou em sua maior parte mas os ensinamentos e crenças do Gnosticismo tem sobrevivido e estão fazendo um maior ressurgimento na cultuta popular hoje. O ensinamento básico do Gnosticismo é que toda a matéria é inereantemente má, o que é simbolizado pela ESCURIDÃO. O propósito da vida é portanto transcender esta escuridão ao alcançar a Luz, que pode ser obtida através do conhecimento, ou gnose, da verdadeira situação aflitiva do Homem. Os Gnósticos acreditavam que o verdadeiro e máximo Deus é o Deus da Luz, que é puramente espiritual, e não tem relacionamento com o criador de, ou tenham governado sobre, a realidade material. Para os Gnósticos o Deus da Realidade Material era o Deus de Israel. Ele era aceito como o criador e governante do universo material, mas ele era denegrido como inferior ao Deus da Luz e visto como a suprema personificação do Mal. O grande esquema da cosmologia gnóstica é explicado por  Hans Jonas em seu confiável estudo ‘The Gnostic Religion’: “O universo, o domínio de ARCHONS, é como uma vasta prisão cuja prisão mais secreta é a Terra, a cena da vida humana. Ao redor e acima dela as esferas cósmicas são arranjadas como conchas envolventes concentricas. Mais frequentemente há sete esferas de planetas cercadas por uma oitava, aquela das estrelas fixas. Havia, contudo, uma tendência de multiplicar as estruturas e fazer o esquema mais e mais extenso; Basilides contou não menos do que 365 ‘céus’. A importância religiosa desta arquitetura cósmica reside na idéia que tudo que interfere entre aqui e ali serve para separar o homem de Deus, não meramente em uma distância espacial mas através de uma força demoníaca. Assim a vastidão e a multiplicidade do sistema cósmico expressa o grau no qual o homem está separado de Deus. As esferas são os assentos dos Archons, especialmente dos ‘Sete’, isto é, os deuses planetários tomados emprestados do panteão babilonio. É importante que eles sejam agora chamados pelo nomes do Velho Testamento para Deus (Iao, Sabaoth, Adonai, Elohim, El Shaddai), que sendo sinônimos de um e supremo Deus são por transposição tornados nomes próprios de seres demoníacos inferiores – um exemplo da reavaliação pejorativa a que o Gnosticismo submeteu as antigas tradições em geral e a tradição judaica em particular.

Os Archons coletivamente governam o mundo, e cada um individualmente em sua esfera é um guardião da prisão cósnica. O governo do mundo tiranico deles é chamado HEIMARMENE, o Destino Universal, um conceito tomado da astrologia mas agora tingido com o espírito gnóstico anti-cósmico. Em seu aspecto físico este governo é a lei da natureza; em seu aspecto psíquico, que inclui por exemplo a instutuição e vigoração da Lei Mosaica, ele pretende a escravização do homem. Como guardião de sua esfera, cada Archon barra a passagem das almas que buscam ascender depois da morte, para evitar que elas escapem do mundo e retornem a Deus. Os Archons também são os criadores do mundo, exceto onde este papel é reservado ao líder deles, que então tem o nome de Demiurgo [o artífice do mundo no Timaus de Platão] e é frequentemente pintado com as feições distorcida do Deus do Velho Testamento. Os Gnósticos odiavam o Deus de Israel desde o início do livro do Geneses. Os textos gnósticos explicam que Ialdabaoth e os Archons criaram Adão e o colocaram no Jardim do Eden com o intento de engana-lo. Depois de saber desta situação o aspecto feminino do Deus da Luz, conhecido como Sophia-Prunikos, agiu para interromper os esquemas do Demiurgo ao enviar um emissário de Luz para trazer o conhecimento a Adão, permitindo que ele ficasse livre de suas amarras. Este divino emissário, segundo os Gnósticos, não era outro que a Serpente do Jardim do Eden, e subsequentes seitas gnósticas refletiram esta veneração da serpente ao se referirem a elas próprias como Ofitas [da palavra grega para serpente, Ophis] e como Naassenes (da palavra hebraica para serpente, nachash). Jonas explica que o pecado de Adão e Eva realmente significou para os Gnósticos, “é o primeiro sucesso do princípio transcendente contra o princípio do mundo, que é vitalmente interessado em evitar o conhecimento no homem como o ferém mundial interno da Luz; a ação da serpente marca o início de toda gnose sobre a Terra que assim por sua própria origem é estampada como opsta ao mundo e seu Deus, e de fato uma forma de rebelião”. Os Gnósticos tomaram a idéia de que a serpente era o verdadeiro salvador da humanidade diretamete acima da vida de Jesus de Nazaré, como o mostra o seguinte texto: “Este serpente geral é também o Verbo sábio de Eva. Este é o mistério do Eden: este é o rio que flui fo Eden. É também a marca que foi posta em Caim, cujo sacrifício o deus deste mundo não aceitou apesar de que ele aceitou o sacrifício sangrento de Abel: porque o senhor deste mundo se delicia em sangue. Esta Serpente é ele que apareceu nos ultimos dias em forma humana ao tempo de Herodes…”. Segundo o Novo Testamento, o sacrifífio de Jesus representou o triunfo do reino de Deus sobre o ‘senhor deste mundo’ mas este senhor é claramente identificado como Satã em várias pasagens  (Mateus 4:8-10, Lucas 4:6-13, João 12:31, João 14:30, 2 Corintios 4:4, etc). Os Gnósticos viraram esta crença e argumentarem que “o senhor deste mundo” era realmente o deus-criador de Israel e que a vida e ensinamentos de Jesus representavam uma manifestação da Serpente contra este ‘Deus da Escuridão’. Marcion, um gnóstico altamente influente do século II baseado em Roma, também articulou um forte ódio ao Velho Testamento e aos Judeus. Jonas escreve que Marcion ensinou que por sua morte ‘Cristo desceu ao Inferno apenas para redimir Caim e Korah, Dathan e Abiram, Esau, e todas as nações que não reconhecem o Deus dos Judeus , enquanto Abel, Enoque, Noé, Abaão e asim por diante porque eles serviram ao criador e suas leis e ignoraram o verdadeiro deus, foram deixados lá embaixo”. Este glorifica~çao dos inimigos do Deus do Velho Testamento como heróis do Deus da Luz também incluiu Nimrod e a caracterização positiva de Nimrod se tornou parte da mitologia fundadora dos Maçons Livres, que examinaremos mais tarde.

É dentro do Gnosticismo que encontramos a transição do número de Kosmocratores de 72 ocorrer, trazendo tradições mais antigas em linha com os projetos Pitagoreanos e Herméticos. As seguintes seleções são retiradas dos pergaminhos de Nagg Hammadi, editados por James M. Robinson, 1990: “Então os doze poderes, que temos apenas discutido, consentiram um com o outro. Seis masculinos e seis femininos foram revelados de forma a exitir 72 poderes. Cada um deste 72 revelou cinco poderes espirituais , que juntos são 360 poderes. A união deles todos é a votade… E quando aqueles que tenho discutido apareceram, todos gerados, o pai deles, muito cedo criou 12 Aeons para acompanhantes dos Sete Anjos. E em cada Aeon havia seis céus de forma que são 72 ceus dos 72 poders que aparecem dele. E em cada céu há cinco firmamentos de forma que reunidos há 360 firmamentos dos 360 poderes que aparecem para eles”.  (Do texto Eugnostos o Abençoado) E diante de sua mansão ele criou um trono, que era enorme e estava em cima de uma carruagem de quatro faces chamada Querubim. Agora o Querubim tem oito formas para cada um de seus quatro cantos, formas de leão e formas de bezerro e formas humanas e forma de águia, de modo que todas as formas somem 64 formas – e sete arcanjos que ficam de pé diante dele; ele é o oitavo, a autoridade. Todas as formas somam 72. Sobretudo, deste carruagem 72 deuses tomam forma; eles tomam forma de forma que possam governar sobre as 72 linguagens dos povos”. [ Da Origem do Mundo]. “Tiago disse, Rabbi, há então 12 hebdomades e não sete como há nas escituras?’ E o Senhor disse, ” Tiago, ele que falou a respeito desta escritura tem um entendimento limitado. Eu, contudo, devo revelar, a você que tem vondo a ele que não há um número” Devo dar um sinal a respeito do número deles. Porque o que vem dele não tem medida, devo dar um sinal a respeito da medida deles”. Tiago disse, Rabbi, preste atenção então, tenho recebido o número deles. Há 72 medidas!” O Senhor disse,  “Há 72 ceus, que são subordinados deles. Há poderes de todo poder deles; e eles foram estabelecidos por eles; e estes são os que eles distribuem a todos os lugares, existindo sob a autoridade dos 12 Archeons” (Do  Apocalipse de Tiago)

A Cabala [Kabbalah]

Além do Gnosticismo e do Hermeticismo um outro maior componente do Oculto é a tradição mística judaica conhecida como Cabala. As origens e ensinamentos desta tradição são cobertas em profundidade na obra de Red Moon Rising “The Divine Council and the Kabbalah,” então por agora apenas examinaremos como a Cabala viu os 70 anjos Kosmocratores e como ela seguiu a tendência oculta de também numera-los como 72. Um dos mais iniciais textos cabalisticos é um documento conhecido como Bahir, que significa ‘brilhante’, que se originou no sul da França no século XII. O Bahir popularizou o conceito que o Deus de Israel possuia 72 nomes sagrados, o que é uma idéia baseada em uma passagem bíblica na qual o anjo do Senhor protege Israel em Exodus 14:19-21. Esta passagem contém três versos e cada verso é composto de exatamente 72 letras hebraicas. Os iniciais místicos judeus ficaram encantados com esta anomalia e assim vieram com a idéia que a inteira passagem é composta exatamente pelos 72 nomes de Deus, cada um exatamente com três letras. Este conceito místico tornou-se conhecido pela Idade Média como Shem ha Mephoresh, que significa basicamente “O Nome de Extensão”. O que se tornou um poderoso instrumento para os ocultistas evocarem espíritos-seres que eram assumidos serem Santos Anjos.

O Bahir também elabora sobre o conceito cabalístico do universo como ‘a árvore da vida’, conhecida como Zeir Anpin, que é composta de 10 Sephirot reunidas de um modo geométrico. O Bahir explica que as doze diagonais da árvore significam os 12 ‘Funcionários’ ou ‘Diretores’ que também estão associados com as dozes pedras eregidas por Israel em Josué 4:9. Então, por que o Exodus 28:10 menciona a gravação de seis nomes em uma pedra, os cabalistas assumiram que cada uma das dozes pedras de Josué também tinham seis nomes, daí um total de 72 nomes. O Bahir explica que “Isto nos ensina que Deus tem 12 Diretores. Cada um deles tem seis poderes. O que são eles? Eles são as 72 linguagens”.

Estes poderes são também referidos como Formas Sagradas, e uma outra porção do texto explica que ‘todas as formas supervisionam todas as nações. Mas Israel é santa, tomada da própria árvore, e seu coração. A crença cabalista que os Kosmocratores angélicos caídos eram Sagrados e existiam em harmonia com o Deus de Israel levou a algumas repercussões espirituais sérias que ainda estão sendo sentidas hoje. Alguns anos depois da publicação do Bahir apareceu uma nova e muito mais longa compilação da filosofia cabalista e teologia. Ela foi conhecida como Sefer Ha-Zohar, significando “Livro do Esplendor” e ela primeiro apareceu na Espanha perto do fim do século XIII. O Zohar, como é chamado, também contém frequentes referências aos 70 Kosmocratores ‘poderes mundiais” que são conhecidos governarem sobre as nações do mundo:  Volume 5 Vayishlach, Seção 24, verso 236: “…Venha e preste atenção, quando o Sagrado, abençoado ser Ele, criou o mundo, Ele dividiu a terra em sete regiões que correspondem aos 70 ministros indicados sobre as nações. Há o secreto do exterior – Chesed, Gvurah, Tiferet, Netzach, Hod, Yesod, e Malchut – cada um consistindo em de e portanto totalizando setenta. O Sagrado, abençoado seja Ele, indicou os setenta ministros sobre as setenta nações, cada uma segundo seu valor, como é escrito: “Quando o Altíssimo dividiu as nações sua herança, quando ele separou os filhos de Adão, ele estabeleceu os laços das pessoas segundo o número de filhos de Israel” (Devarim 32:8).” Volume 9 Beshalach, Seção 24, verses 315-316: “Rabbi Shimon disse: Há uma árvore grande e forte, alta e eterna, que é Zeir Anpin. Aqueles acima e aqueles abaixo são sustentados através dela… E setenta ramos, que são os setenta príncipes que são indicados sobre as nações do mundo, se elevam nela e são nutridos por ela. Do centro de suas raízes eles nutrem ao redor. E eles são os ramos que são encontrados na árvore. Quando o tempo do domínio chega para cada ramo, eles todos querem completamente destruir o tronco da árvore, que é o principal esteio dos ramos, que governa sobre Israel que são unidos por ele. E quando o domínio do tronco da árvore os alcança, que é a porção de Israel, ele quer guarda-los, e arranjar a paz entre todos eles. Para este propósito, setenta bois são oferecidos durante Sukkot para trazer a paz entre os setenta ramos da árvore, que são os setenta anjos patronos das nações do mundo”.

A importância oculta da Cabala que todos os iniciados eventualmente aprendem é que ela age como uma ponte ligando o iniciado com o mundo dos espíritos, especificamente com os anjos Kosmocratores que os textos cabalísticos blasfemamente conectam com seu duvidoso nome de Deus. Esta conexão é feita pelo Zohar incluindo a seguinte passagem: Volume 3 Vaera, Seção 20, versos 274-279: “Dez nomes são gravados pela autoridade de Deus. Os dez nomes se referem as dez Sefiroth; há dez Sefiroth… não obstante eles também acrescentam um grande número, que é uma referência aos 72 nomes. Isto pode ser explicado depois. Estas setenta cores que brilham em todas as direções derivam destes Nomes, isto ém dos 72 Nomes. E estas setenta cores foram gravadas e formadas no segredo dos 70 nomes dos Anjos, que são o segredo dos céus… Quando eles todos estão reunidos em um, em um segredo, pelo poder do Poderoso, chamado Zeir Anpin, então ele é chamado Vav-Yud-Hei-Vav-Hei, o que signiifica que todos eles estão unidos em um. E isto se refere ao Zeir Anpin e o Nukva juntos como os setenta anjos abaixo dela. A frase “de Hashem fora do céu” se refere ao Santo Nome que está gravado com os outros setenta nomes do segredo dos céus – que alude o Zeir-Anpin, que é o nome dos 72 que estão no  Mochin de Zeir-Anpin, enquanto emessência ele inclui setenta… os mais inferiores, que são os setenta julgamentos, são dependentes dos superiores, que são os setenta nomes do Zeir Anpin. Eles estão todos conectados e todos eles brilham simultaneamente. E então o Sagrado, abençoado seja Ele, aparece em sua glória… os céus tem um valor numérico de 70 e o segredo de Yud-Hei-Vav-Hei… é o segredo dos 72 nomes derivados dos três versos (Exodus 14:19-21).” As práticas da Cabala são expressamente proibidas pela Torah, como representantes do judaismo tradicional tem mantido até mesmo desde que elas vieram a luz da dia. Um dos componentes iniciais da Cabala foi o famoso judeu Hassidico do século XIII chamado Jehudah the Hasid. Em seu Livro do Devoto Jehudah deu o seguinte aviso: “Se você vir alguém fazendo profecias sobre um Messias, você deve saber que ele lida com feitiçaria e tem intercurso com demônios; ou ele é um daqueles que buscam conjurar os nomes de Deus. Agora, desde que eles conjuram os anjos e os espíritos, estes dizem a ele sobre o Messias, para tenta-lo a revelar suas especulações. E no fim ele é envergonhado porque ele evocou anjos e demônios, e ao invés o infortúnio ocorreu. Os demônios vieram e ensinaram a ele os cálculos deles  e os segredos apocalípticos para envergonha-lo e aqueles que acreditavam nele, porque ninguém sabe algo sobre a vinda do Messias. ”

A história da Cabala é essencialmente uma longa cronologia do aparecimento de um falso Messias após outro. Akiba ben Joseph é visto como um dos mais importantes dos cabalistas iniciais, e os anjos que o contactaram disseram a ele o nome de Simeon bar Kochba como o Messias. A revolta de Bar Kochba de 132-135 foi um fracasso desastroso e os judeus sofreram imensamente por causa dela. Séculos mais tarde um cabalista chamado Abraham Abulafia tornou-se convencido que ele era o Messias, e ele apelou ao Papa em 1280 antes de desaparecer sem deixar um traço. Em seus próprios escritos Abulafia explicou que sua busca espiritual foi grandemente impedida por Satã e os demonios, como explica o renomado erudito Gershom Scholem, “Ao se emergir na técnica mística de seu mestre, Abulafia encontrou seu próprio caminho. Foi aos 31 anos, em Barcelona, que ele foi dominado por um espírito profético. Ele obteve o conhecimento do verdadeiro nome de Deus, e tinha visões que ele próprio, contudo, diz, em 1285, que elas eram parcialmente enviadas por demonios para confundi-lo, de forma que ele tateou como um homem cego ao meio dia por quinze anos com Satã a sua direita”. Ainda que por outro lado ele estivesse completamente convencido da verdade de seu conhecimento profético”.

Um outro maior fracasso messiânico foi a carrreira de Sabatai Levi. Exatamente antes do anos de 1666 um jovem místico cabalista beseado na Palestina chamado Nathan de Gaza se tornou convencido que ele esteva em contacto com  os ‘santos’ anjos, e eles lhe disseram o nome de Sabatai Levi como o previsto Messias, o que marcou o início do movimento Sabateano que afetou mundialmente o judaismo. O papel de Nathan era o de simplesmente agir como ‘a voz’ para os anjos que falavam através dele, e Sabatai Levi foi dirigido até mesmo o ponto onde ele abjurou do judaismo como um prisioneiro na Turquia e se converteu ao Islã. A Chave de Salomão (Clavicula Salomonis)  e a Chave Menor de Salomão (Lemegeton Clavicula Salomonis) eram produtos das práticas naturais de evocação dos anjos promovidas pela Cabala. Ambos destes legendários grimórios apareceram como manuscritos completos no século XVII, mas ambos foram compostos pelos escritos anteriores que remontam a Idade Média. Um dos co-fundadores da sociedade oculta conhecida como Amanhecer Dourado [Golden Dawn] era uma Maçom Livre Rosacruciano chamado S. L. MacGregor Mathers, que foi o primeiro a imprimir e a publicar a Chave de Salomão [em 1889] tornando-a prontamente disponível ao público. Mathers a descreve como o primário texto oculto: “A pedra fonte e o armazém da Mágica Cabalista, e a origem de muito da Mágica Cerimonial nos tempos medievais, a ‘Chave” sempre tem sido valorizada pelos escritores ocultos como um trabalho da mais alta autoridade.” Dos 519 títulos esotéricos incluídos no catálogo da biblioteca do Golden Dawn, a Chave era listada comoo o número um. Até onde diga respeito aos conteúdos, a Chave incluia instruções sobre como se preparar para evocar os espíritos, incluindo os seres humanos partidos [necromancia], anjos e até mesmo demônios. O sacrifício animal e a consciência astrológica ambos são descritos como aspectos críticos desta preparação. Um dos mais bem conhecidos membros da Golden Dawn foi o mágico Aleister Crowley. Em 1904 Crowley publicou a primeira parte da obra em cinco partes das Chaves Menores de Salomão intitulada  Ars Goetia, que em latim quer dizer ‘as arte da feitiçaria”. O Goethia é o grimório para evocar setenta e dois diferentes demônios que foram alegadamente evocados, contidos e postos a trabalhar pelo Rei Salomão durante a construção do Templo de YHWH. Os demônios nomeados no texto incluem figuras tais como Baal, Astaroth, Asmodeus e Belial. Os ocultistas sempre tem imaginado o relacionamento entre os setenta e dois demônios Goethicos e os setenta e dois ‘anjos’ do Shem ha Mephoresh, e a explicação usual é que eles são ‘opostos polares’. Contudo, esta explicação apenas se sustenta para aqueles que vêem os anjos Kosmocratores da Cabala como ‘bons’ e “santos’ anjos, o que eles definitivamente não são.

Por toda sua vida Aleister Crowley foi um feiticeiro muito ambicioso e ousado e suas exlorações em lidar com o mundo do espírito tem vindo a ser legendária. Sua mais duradoura contribuição ao ocultismo moderno é conhecido como LIBER AL vel LEGIS, ou Livro da Lei. Ele era uma mensagem canalizada por meio de Crowley por uma entidade-espírito conhecida como Aiwass, um espírito que afirmava ser um memsageiro das forças ‘que governam a terra no presente’, que não são outras que os Kosmocratores anjos caídos que temos estado estudando. A própria mensagem foi verbalizada por Crowley em três dias de abril [8, 9 e 10] no Cairo, Egito, no mesmo ano da publicação de Crowley de Ars Goetia em 1904. A figura demoníaca das “forças que governam esta Terra” se tornam prontamente aparentes dentro do texto do infame livro. Contra a regra de ouro do cristianismo de ‘não faça ao próximo o que não quer que façam a você mesmo” (Lucas 6:31), o espírito egípcio de Aiwass proclamou a mensagem “Faça o que deverá ser a inteira lei”. Para isto foi acrescentado, “amoe é a lei, amor sob a vontade”, que Crowley mais tarde explicaria ao mostrar o valor numérico da palavra grega thelema, que significa ‘vontade’, é o mesmo daquele de agape, uma palavra grega para ‘amor’. Com esta lógica Crowley ensinou que a mais verdadeira expressão do amor era viver puramente segundo a própria vontade de alguém, o que é essencialmente o oposto dos ensinamentos de Jesus. O ódio demoníaco a Jesus é expressado no capítulo final do Livro da Lei no verso onde se lê,  “Com minha cabeça de falcão bico os olhos de Jesus enquanto ele está pendurado na cruz”.

Os anjos Kormocratores também são representados no sistema oculto de adivinhação conhecido como Tarot, que a eudita em Tarot Christine Payne-Towler se refere como as “cartas flash dos Mistérios”. Em um artigo localizado em  http://www.tarot.com ela dá uma breve história da criação do tarot, suas profundas raízes no Hermeticismo e na Cabala, e como ele emergiu durante o auge mágico da Renascença: “Na sequência da Renascença a magica de Ficino a Kircher … vemos a força que dirige o Tarot para expressão. Os antigos mistérios já estão no lugar, embora episodicamente esquecidos e relembrados comos ciclos da história. A redescoberta da estrutura óssea dos Mistérios na cúspide da revolução publicadora fez a criação das Evocações Silenciosas em cartas a forma possível para as massas”. As ‘evocações silenciosas’ do Tarot não são mais do que apelos aos espíritos que alegadamente governam todos os aspectos da vida que, como temos mostrado, estão associados ao Shem ha Mephoresh e o Zodíaco. Os mais modernos baralhos de Tarot são compostos de 78 cartas onde os anjos do Shem ha Mephoresh são ligados 2-1 com os trinta e seis arcanos menores [cartas 2-10 de cada um dos quatro naipes]. Contudo há também baralhos de Tarot de 72 cartas, como aqueles favorecidos por Eliphas Levi e o hermeticista Franz Bardon, onde cada carta é ligada a seu próprio anjo. O Tarot também é intimamente associado a curiosa cultura conhecida como Ciganos que é um nome derivado da crença medieval que os Ciganos fossem os descendentes diretos dos egípcios e herdeiros e protetores da antiga ‘sabedoria’ egípcia. Franz Bardon é visto por muitos como “o maior adepto hermeticista do século XX”. Ele nasceu na Checoslováquia em 1909 e foi alegadamente possuído por um espírito de um ‘alto adepto hermético’ quando estava com 14 anos. Durante sua vida ele foi capturado e torturado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, e mais tarde foi preso pelos Soviéticos até sua morte em 1958. Seus ensinamentos ocultos vivem em quatro livros que ele foi capaz de publicar durante seu período de vida. Um é uma novela baseada em suas experiências de vida e os outros três volumes compôem uma trilogia conhecida coletivamente como “Mistérios Sagrados”. O Volume I é intitulado Iniciação aos Herméticos e é basicamente uma introdução ao oculto que inclui explicações do Tarot. O Volume II é A Prática da Evocação Mágica e fornece instruções passo a passo para se comunicar como mundo do espírito. O terceiro volume de Bardon é intitulado “A Chave para a Verdadeira Cabala” e dá uma explicação detalhada do Shem ha Mephoresh, com Bardon se referindo aos seus associados anjos como ‘os setenta e dois genios de Mercúrio’. Uma introdução do Volume II explica o proposto relacionamento entre a humanidade e os anjos; Bardon fornece centenas de selos de seres espirituais positivos, anjos espíritos, inteligências, genios, principais e espíritos seres dos elementos. Estes seres tem sido os professores da humanidade desde tempos imemorais. Eles ensinam aos maduros sujeitos mágicos assuntos de A a Z , isto é,  aritmética, alquimia, astrofísica, astronomia, artes, biologia, zoologia e assim por diante. Em outras palavras, cada assunto das ciências terrenas e da leis universais. Eles também ajudam a todas profissões e todos os comércios, sejam os não eles mágicos. Desde que a Mágica e a Cabala são as mais altas ciências no universo, exigem do leitor a apropriada educação teórica e treinamento prático antes que ele possa contactar estes seres espirituais.

A caraterização dos espíritos como “professores da humanidade” remonta diretamente às crenças sumérias que viam a descida dos ‘deuses’ à Terra e suas dádivas de tecnologia e religião que se tornaram a base da civilização pagã. Os pagãos viam os ‘deuses’ como grandes e benevolentes benfeitores mas, não nos esqueçamos, os hebreus os viam como anjos caídos dos céus, que tinham descido para governar o mundo habitado por uma família humana que estava similarmente caída e necessitada de redenção. Lon Milo Duquette é um dos mais conhecidos e respeitados magos herméticos vivos hoje. Um autor prolífico e professor dos antigos mistérios, DuQuette é apresentado através da série de vídeo ‘O Egito Mágico’ produzida pelo egiptologista e místico John Anthony West. No episódio Seis DuQuette ressalta a influência egípcia sobre a Golden Dawn, o que incluia um ritual que dramatizava a ressurreição de Osiris da tumba. Duquette explica que a influência egípcia foi intensificada até mesmo muito mais através de  Aleister Crowley que “se tornou um Egiptólogo apaixonado!” A respeito do sistema mágico de Crowley, DuQuette o descreve ao dizer “era exatamente tão por atacado como tudo mais. É assustador, mas é por atacado”. DuQuette é o autor de ‘Angels, Demons, and Gods of the New Millenium’, e uma revisão do livro na revista Gnose explica como os ajos Kormocratores do Shem ha Mephoresh são a pedra fundamental do sistema de feitiçaria de Duquette: “Uma excelente apresentação de seu talento é a apresentação dele do Shem ha-Mephorash, o Nome de Deus dividido em 72 do quais uma serie de nomes de espíritos são gerados. DuQuette ferve a abundância da escrita túrgida sobre este assunto em uma poucas páginas acompanhadas por uma mapa…  Isto, combinado com a metodologia apresentada no último capítulo “Demons Are Our Friends,” fornece uma base suficiente, embora esparsa, para a feitiçaria, a prática da conjuração dos espíritos’.

Os Kosmokratores, o Egito e a Livre Maçonaria

O texto hermético conhecido como Asclepius prevê que ‘Estes deuses que governam a Terra serão restaurados e eles serão instalados em uma cidade na ponta mais extrema do Egito”. Este entendimento do papel do Egito como a terra dos deuses e a assento primário dos Antigos Mistérios permeia as sociedades secretas e ocultas tais como a Golden Dawn e a OTO de Crowley, como temos mostrado, e pode ser encontrada bem dentro das mais principais organizações esotéricas tais como os Rosacrucianos e os Maçons Livres. Como uma independente sociedade secreta os rosacrucianos remotam a publicação de três famosos manuscritos do início do século XVII na Alemanha. Desde aquele tempo lá parece ter aparecido um número de grupos que tem se referido a eles próprios como ‘rosacruzes’, todos com alegadas conexões com o grupo original. Nos Estados Unidos a ordem primária rosacruciana é a AMORC  (Ancient and Mystical Order Rosae Crucis), que foi criada em 1915 e é baseada na Califórnia. Uma de suas primárias obtenções foi o estabelecimento do “Mseu Oriental Egípcio Rosacruz” em San José em 1928. Em seu website a pergunta é feita: “O que a Ordem Rosacruz, AMORC, tem a ver com o Egito?” Segue-se a resposta: mE,ud wuwhich was created in 1915 and is based in California. Segue-se a resposta: “A mais velha conexão com o Egito é de uma natureza tradicional. Todos os Rosacrucianos a partir do século XVII entediam que a sabedoria que eles recebiam tinha que ser transmitida através dos muitos caminhos dos tempos mais iniciais da civilização humana e eram consistentes com ows ensinamentos das antogas Escolas de Mistério. A primeira menção de uma organização de tais Escolas é associado por místicos  com o reinado de Tutmosis III durante o século 15 AC. Alem disso, no século 14 AC o rei Aknaton ensinou o ideal que havia uma força divina por trás de todas as coisas, até mesmo os muitos deuses do Egito.” Assim os Rosacrucianos traçam sua tradicional conexão  com o antigo Egito porque a sabedoria e os métodos que que eles seguem são consistentes e contínuos com aqueles das Escolas de Mistério do Egito através dos Manifestos Rosacrucianos do século XVII até a moderna ordem rosacruz AMORC”.

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Published in: on maio 22, 2009 at 3:25 pm  Comments (4)  
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Sangue Sagrado, Santo Gral

Sangue Sagrado, Santo Gral

de Michael Baigent, Richard Leigh and Henry Lincoln

– Introdução

Em 1969, em rota para um feriado de verão em Cevenes, fiz a compra casual de uma brochura. “O Tesouro Maldito” de Gerard de Sede era uma história de mistério leve, uma mistura entretetenedora de um fato histórico, mistério genuíno e conjecturas. Ele poderia ter permanecido consignado ao esquecimento pós feriado de tudo de tal leitura se eu não tivesse tropeçado em uma curiosa e evidente omissão em suas páginas. O “tesouro maldito’ do título tinha aparentemente sido encontrado na década de 1890 por um sacerdote de vila pela decifração de certos documentos crípticos desenterrados em sua igreja. Embora os propostos textos de dois desses documentos fossem reproduzidos, as “mensagens secretas’ ditas estarem codificadas dentro dele não estavam lá. A implicação era que as mensagens decifradas novamente haviam sido perdidas. E ainda que, como descobri, uma história cursória dos documentos reproduzidos no livro revele ao menos uma mensagem escondida. Certamente o autor a havia encontrado. Ao trabalhar em seu livro ele deve ter dado aos documentos muito mais que uma atenção superficial. Ele estava ligado portanto a ter encontrado o que eu havia encontrado. Sobretudo, a mensagem era exatamente o tipo de fragmento titilante de prova que ajuda a vender uma brochura popular. Porque Sede não havia publicado isso? Durante os meses seguintes a estranheza da história e a possibilidade de descobertas posteriores me dirigiu de volta a isso de tempos em tempos. O apelo era aquele de muito mais do que um enigma de palavras cruzadas geralmente intrigante que acrescentou curiosidade ao silêncio de Sede. Como eu me peguei tantalizando novas olhadas das camadas de significado enterrado dentro do texto dos documentos, comecei a desejar que eu pudesse devotar mais ao mistério de Rennes-Le-Chateaux do que meros momentos roubados de minha vida de trabalho como escritor para televisão. E então, no outono de 1970, eu apresentei a história como um possível assunto para documentário ao falecido Paul Johnstone, produtor executivo da série arqueológica e histórica da BBC chamada ‘Chronicle’.

Paul viu as possiblidade e eu fui despachado para França para falar com Sede e explorar as perspectivas de um filme curto. Durante a semana de natal de 1970 encontrei-me com Sede em Paris. Naquele primeiro encontro, fiz a pergunta que havia me intrigado por mais de um ano: “Porque você não publicou a mensagem oculta nos pergaminhos?’ Sua resposta me deixou perplexo: “Que Mensagem?”

Me pareceu inconcebível que ele estivesse inconsciente desta mensagem elementar. Porque ele estava se evadindo de mim? Repentinamente me descobri relutante em revelar exatamente o que eu havia encontrado. Continuamos em um elíptico esgrima verbal por uns poucos minutos. Então tornou-se aparente que ambos estávamos cientes da mensagem. Repeti minha pergunta: “Porque você não publicou isso?” Desta vez a resposta de Sede foi calculada. ‘Porque pensamos ser de interesse que alguém como você o descobrisse por si só”. Esta resposta, tão críptica quanto os misteriosos documentos do sacerdote, foi a primeira pista clara que o mistério de Rennes-Le-Chateaux viria a se provar muito mais do que uma simples história de um tesouro perdido. Com meu diretor, Andrew Maxwell-Hyslop, comecei a preparar o filme de Chronicle na primavera de 1971. Ele foi planejado como um simples item de vinte minutos para um programa de revista. Mas na medida em que trabalhávamos, de Sede começou a nos alimentar com posteriores fragmentos de informação. Primeiro veio o texto completo de uma maior mensagem codificada, que falava dos Pintores Poussin e Teniers. Isto era fascinante. A cifra era inacreditavelmente complexa. Nos foi dito que ela havia sido quebrada por especialistas do Departamento de Códigos do Exército Francês, usando computadores. Como eu estudei as convoluções do código, eu me tornei convencido que esta explicação era, para dizer o mínimo, suspeita. Conferi com especialistas em códigos da Inteligência Britânica. Eles concordaram comigo. A cifra não apresenta um problema válido para o computador. O código era inquebrável. Alguém, em algum lugar, deve ter a chave. E então de Sede deixou cair sua segunda bomba. Uma tumba se assemelhando aquela da famosa pintura de Poussin, ‘Os Pastores da Arcadia”,  tinha sido encontrada. Ele enviaria detalhes tão logo ele os tivesse. Alguns dias depois as fotografias chegaram, e estava claro que o nosso filme curto sobre um pequeno mistério local tinha começado a assumir inesperadas dimensões. Paul decidiu abandonar isso e nos envolveu em um filme completo e longo para Chronicle.

Agora haveria mais tempo para explorar a história. E a transmissão foi adiada para a primavera do ano seguinte. “o Tesouro Perdido de Jerusalém?” foi ao ar em fevereiro de 1972 e provocou uma reação muito forte. Eu sabia que havia encontrado um assunto de grande interesse não meramente para mim, mas para um grande público espectador. A pesquisa posterior não seria para auto-indulgência. Por abril de 1974 eu tinha uma massa de novo material e Paul designou Roy Davies para produzir meu segundo filme para Chronicle, ‘O Sacerdote, o Pintor e o Diabo”.  Novamente a reação do público provou o quanto a história tinha tomado a imaginação pública. Mas por agora ela havia crescido tão complexa, tão longe alcançando suas ramificações, havia caminhos demais diferentes a seguir em suas ramificações, que eu sabia que a pesquisa detalhada estava rapidamente excedendo as capacidadades de uma só pessoa. Quanto mais eu seguia uma linha de investigação, mas eu me tornava consciente da massa de material que estava sendo negligenciada. Esta era uma conjuntura amedrontadora que o acaso, que primeiramente havia lançado a história tão casualmente em meu colo, agora fazia certo que o trabalho não se tornaria atrasado.

Em 1975, em uma escola de verão onde ambos palestrávamos sobre aspectos da literatura, eu tive a boa sorte de me encontrar com Richard Leigh. Richard é um novelista e escritor de histórias curtas graduado e com pós graduação em Literatura Comparativa e um profundo conhecimento de história, filosofia, psicologia e esotérico. Ele tinha estado trabalhando por alguns anos como palestrante na universidade nos Estados Unidos, Canadá e Bretanha.  Entre nossas conversas na escola de verão passamos muitas horas discutindo assuntos de interesse mútuo. Mencionei os Cavaleiros Templários, que assumiram um importante papel no fundo do mistério de Rennes-Le-Chateau. Para minha delícia, descobri que esta Ordem sombria de monges medievais guerreiros já havia despertado o profundo interesse de Richard e ele havia feito uma pesquisa considerável da história deles. Em uma tacada, meses de trabalho que eu tinha visto estendendo-se adiante de mim se tornaram desnecessários. Richard podia responder a maioria das minhas questões, e estava tão intrigado quanto eu por algumas anomalias aparentes que eu havia desenterrado. Mais importantemente, ele também sentiu a importância do inteiro projeto de pesquisa no qual eu havia embarcado. Ele se ofereceu para me ajudar com o aspecto envolvendo os Templários. E ele trouxe Michael Baigent, um graduado em psicologia que recentemente havia abandonado uma carreira bem sucedida em foto-jornalismo para devotar seu tempo a pesquisar os Templários para um projeto de filme que ele tinha em mente. Tivesse eu buscado por eles, não poderia ter encontrado dois parceiros mais qualificados e mais análogos com os quais formar uma equipe. Depois de anos de trabalho solitário, o impeto trazido ao projeto por dois cérebros frescos era revigorante. O primeiro resultado tangível de nossa colaboração foi o terceiro filme de Chronicle sobre Rennes-Le-Chateau, ‘A Sombra dos Templários” que foi produzido por Roy Davies em 1979. O trabalho que fizemos sobre aquele filme por último nos deixou face a face  com as fundações subjacentes sob as quais o inteiro mistério de Rennes-Le-Chateau tinha sido construido. Mas o filme podia apenas dar pistas para o que estávamos começando a discernir. Sob a superfície estava algo mais surpreendente, mais importante e mais imediatamente relevante do que nós podiamos acreditar possível quando começamos nosso trabalho sobre o ‘intrigante pequeno mistério” de o que um sacerdote francês pode ter encontrado em uma vila da montanha. Em 1972 eu encerrei meu primeiro filme com as palavras “Algo extraordinário está esperando para ser encontrado… e em um futuro não distante demais, ele será”. Este livro explica o que este algo é e o quão extraordinária a descoberta tem sido.

Um o Mistério – A Vila de Mistério

No início de nossa pesquisa não sabiamos precisamente o que estávamos procurando ou, por esta matéria, para o que estávamos olhando. Não tinhamos teorias e nem hipóteses e não haviamos estabelecido provar nada. Ao contrário, estavamos simplesmente tentando encontrar uma explicação para um curioso enigma do século XIX. As conclusões a que eventualmente chegamos não foram postuladas previamente. Fomos levados a elas, passo a passo, como se a evidência que nós acumulávamos tivesse uma mente própria, e estivesse nos dirigindo por seu próprio acordo. Acreditávamos no início de nossa pesquisa que estávamos lidando com um mistério estritamente local, um intrigante mistério certamente, mas um mistério essencialmente de menor importância, confinado a uma vila no sul da França. Acreditávamos de início que o mistério, embora ele envolvesse muitas trilhas históricas fascinantes, era primariamente de interesse academico. Acreditávamos que a nossa investigação pudesse ajudar a iluminar certos aspectos da história ocidental, mas nunca sonhamos que isso pudesse deixar como herança reescreve-la. Ainda menos sonhamos que seja o que for que descobríssemos pudesse ser de real importância contemporânea em si. Nossa busca começou  – porque ela foi de fato uma busca, com uma história mais ou menos direta. Ao primeiro olhar esta história não era marcantemente diferente de inúmeras outras “histórias de tesouro” ou “mistérios não resolvidos” que abundam na história e no folclore de quase toda região rural. Uma versão disso havia sido publicada na França, onde ela atraiu considerável interesse mas não foi ao nosso conhecimento naquele tempo concordado qualquer consequência exagerada. Como aprendemos subsequentemente, havia um número de erros nesta versão. Pelo momento, contudo, devemos recontar a história como ela foi publicada durante a década de 1960, e como primeiramente viemos a conhece-la.

Rennes-le-Chateau e Berenger Sauniere

Em 1o. de julho de 1885 a pequenina vila francesa de Rennes-le-Chateau recebeu um novo sacerdote paroquial. O nome do cura era Berenger Sauniere. Ele era um homem robusto, de feições agradáveis, enérgico e, como pareceria, altamente inteligente de 33 anos. Em uma escola de seminário não muito antes ele parecia destinado a uma promissora carreira clerical. Certamente ele parecia destinado a algo mais importante do que uma vila remota na região montanhosa oriental dos Pirineus. Ainda que em algum ponto ele pareça haver incorrido no desprazer de seus superiores. O que precisamente ele fez, se algo, permanece não esclarecido, mas logo isto reduziu todas as perspectivas de avanço. E era talvez para se livrarem dele que os seus superiores o enviaram a paróquia de Rennes-le-Chateau. Naquele tempo Rennes-le-Chateau abrigava apenas duzentas pessoas. Era um pequenino vilarejo encrustado em um escarpado topo de montanha, aproximadamente a 25 milhas de Carcassonne. Para um outro homem, o lugar poderia ter constituido um exílio e uma sentença perpétua em um remoto local atrasado provinciano, muito longe das amenidades civilizadas da idade, longe de qualquer estímulo para uma mente ávida e inquisitiva. Sem dúvida esta foi a explosão da ambição de Sauniere. Não obstante, havia certas compensações. Sauniere era um nativo da região, tendo nascido e crescido a apenas umas poucas milhas de distância, na vila de  Montazels. Fossem quais fossem suas deficiências, portanto, Rennes-le-Chateau pode ter sido muito como um lar, com todos os confortos da familiriadade da infância. Entre 1885 e 1891 a renda média de Saunier, em francos, era o equivalente a seis libras esterlinas por ano – dificilmente seria a opulência, mas muito mais do que seria de se esperar de um cura rural na França do século XIX. Junto com as gratuidades fornecidas pelos seus paroquianos, isto parece ter sido suficiente para sobrevivência, se não para qualquer extravagância. Durante estes seis anos Sauniere parecia ter levado uma vida bastante agradável e plácida. Ele caçava e pescava nas montanhas e riachos de sua infância. Ele lia vorazmente, aperfeiçoou seu latim, aprendeu grego, embarcou no estudo do hebraico. Ele empregou uma governanta e servente, uma camponesa de 18 anos chamada Marie Denarnaud, que foi sua companheira e confidente por toda vida.

Ele fazia visitas frequentes a seu amigo, o Abade Henri Boudet, o cura da vila vizinha de Rennes-le-Bains. E sob a tutela de Boudet ele imergiu na turbulenta história da região, uma história cujos residuos estavam constantemente ao redor dele. A umas poucas milhas a sudeste de Rennes-le-Chateau, por exemplo, corre um outro pico, chamado Bezu, coberto pelas ruínas de um forte medieval, que uma vez foi o preceptório dos Cavaleiros Templários. Em um terceiro pico, a aproximadamente uma milha a leste de Rennes-le-Chateau, ficam as ruínas do castelo de Blanchefort, casa ancestral de Bertrand de  Blanchefort, quarto grão mestre dos Cavaleiros Templários, que presidiu sobre a famosa ordem em meados do século XII. Rennes-le-Chateau e seus ambientes tem estado na antiga rota de romaria, que corria do Norte da Europa para Santiago de Compostela na Espanha. E a inteira região era impregnada de histórias evocativas, em eco de um passado rico, dramático e banhado em sangue. Por algum tempo Sauniere havia querido restaurar a igreja da vila de Rennes-le-Chateau. Consagrada a Madalena em 1059, este edifício dilapidado permanecia em pé sobre as fundações de uma imóvel estrutura visigoda mais antiga datando do século VI. Mas pelo final do século XIX, ela estava, não surpreendentemente, em um estado quase que de desespero absoluto. Em 1891, encorajado por seu amigo Boudet, Sauniere embarcou em uma modesta restauração, tomando emprestado uma pequena soma dos fundos da vila. No curso de suas atitudes ele removeu a pedra do altar, que repousava sobre duas arcaicas colunas visigodas. Uma destas colunas provou-se ser oca. Dentro dela, o cura encontrou quatro pergaminhos preservados em lacrados tubos de madeira. Dois destes pergaminhos são ditos terem compreendido genealogias, um datando de 1244 e o outro de 1644. Os dois documentos remasnescentes tinham aparentemente sido compostos nos anos de 1780 por um dos predecessores de Sauniere como cura de Rennes-le-Chateau, o Abade Antoine Bigou. Bigou tabém havia sido o capelão da nobre família Blanchefort que, na véspera da Revolução Francesa, ainda estava entre os proeminentes proprietários locais de terra. Os dois pergaminhos do tempo de Bigou pareceriam ser pios textos em latim, trechos do Novo Testamento. Ao menos ostensivamente. Mas em um dos pergaminhos as palavras correm incorretamente juntas, sem espaço entre elas, e um numero de letras completamente supérfluas tem sido inseridas. E no segundo pergaminho as linhas são indiscriminadamente truncadas de forma irregular, algumas vezes no meio de uma palavra enquanto certas letras estão conspicuamente elevadas acima de outras. Na realidade estes pergaminhos compreendem uma sequencia engenhosa de cifras ou códigos. Algumas delas são fantasticamente complexas e imprevisiveis, desafiando até mesmo o computador, e insolúveis sem a chave necessária.

A seguinte decifração tem aparecido nos trabalhos franceses devotados a Rennes-le-Chateau e em dois de nossos filmes sobre o assunto feitos pela BBC.

BERG ERE PAS DE TENTATION QUE POUSSIN TENIERS GAR DENT LA CLEF PAX DCLXXXI PAR LA CROIX ET CE CHEVAL DE DIEU J’ACHEVE CE DAEMON DE GARDIEN A MIDI POM MES BLEUES

(Pastores, sem tentação, que Poussin e Teniers tem a chave; paz 681. Pela cruz e este cavalo de Deus, completo ou destruo este demônio do guardião ao meio dia. Maçãs azuis)

Mas se algumas das cifras são amedrontadoras em sua complexidade, outras são patentemente, até mesmo flagrantemente, óbvias. No segundo pergaminho, por exemplo, as letras elevadas, tomadas em sequência, soletram uma mensagem coerente.

A DAGO BERT II ROI ET A SION EST CE TRES OR ET IL EST LA MORT.

(A Dagoberto II rei e ao Sião pertencem este tesouro e ele está lá morto)

Embora esta mensagem em particular deva ter sido discernível a Sauniere, é duvidoso que ele possa ter decifrado os códigos mais intrincados. Não obstante, ele entendeu que ele tinha tropeçado em algo de consequência e, com o consentimento do prefeito da vila, levou sua descoberta ao seu superior, o Bispo de Carcassone. Quanto o Bispo entendeu não está claro, mas Sauniere foi imediatamente despachado para Paris às expensas do bispo com instruções para se apresentar e aos pergaminhos a certas autoridades eclesiásticas importantes. Principal entre elas estava o Abade Biel, Diretor Geral do Seminário de São Suspílcio, e ao sobrinho de Biel, Emile Hoffet. Naquele tempo Hoffet estava em treinamento para o sacerdócio. Embora ainda no início dos vinte e poucos anos ela já havia estabelecido uma importante reputação pela erudição, especialmente em linguística, criptografia e paleografia. A despeito de sua vocação pastoral, ele era conhecido por estar imerso no pensamento esotérico, e mantinha relações cordiais com vários grupos de orientação oculta, seitas e sociedades secretas que abundavam na capital francesa. Isto o havia posto em contacto com um ilustre círculo cultural, que incluia tais figuras literárias como Stephane Mallarme e Maurice Maeterlinck, bem como o compositor Claude Debussy. Ele também conhecia Emma Calve, que, ao tempo do aparecimento de Sauniere, tinha acabado de voltar de suas performances triunfais em Londres e Windsor. Como uma diva, Emma Calve era a Maria Callas do tempo dela. Ao mesmo tempo, ela era uma alta sacerdotisa da sub-cultura esotérica parisiense e mantinha inúmeras relações amorosas com um número de ocultistas influentes.

Tendo se apresentado a Biel e Hoffet, Sauniere passou três semanas em Paris. O que transpirou durante seus encontros com os eclesiásticos é desconhecido. O que é sabido é que o sacerdote provinciano do interior foi prontamente e calorosamente benvindo no círculo distinto de Hoffet. Tem sido até mesmo avaliado que ele tenha se tornado amante de Emma Calve. Fofocas contemporaneas falam de um caso entre eles, e um conhecido da cantora a descreveu como estando obsecada pelo cura. Em qualquer caso não há dúvida de que eles desfrutaram de uma íntima amizade duradoura. Nos anos que se seguiram ela o visitou frequentemente nas vizinhanças de Rennes-le-Chateau, onde, até recentemente, pode-se ainda encontrar corações românticos gravados nas rochas de dentro da montanha, tendo as iniciais deles. Durante sua estada em Paris, Sauniere também passou algum tempo no Louvre. Isto bem pode estar ligado ao fato de que, antes de sua partida, ele comprou reproduções de três pinturas. Uma parece ter sido um retrato, de um artista não identificado, do Papa Celestino V, que reinou brevemente no fim do século XIII. Uma era um trabalho de David Teniers, embora não esteja claro se do pai ou do filho. O terceiro foi talvez a mais famosa pintura de Nicolas Poussin, “Les Bergers d’Arcadie’ – “Os Pastores da Arcadia”. Em sua volta a Rennes-le-Chateuax, Sauniere reassumiu a restauração da igreja da vila. No processo ele exumou um curioso ladrilho encravado, datando do século VII ou VIII, que pode ter tido uma cripta sob ele, uma câmara funerária na qual esqueletos são ditos terem sido encontrados. Sauniere também embarcou em projetos de uma natureza muito mais singular. No pátio da igreja, por exemplo, ficava a sepultura de Marie, Marquesa de d’Hautpoul de Blanchefort. A pedra capital e a placa marcando a tumba dela havia sido desenhada e instalada pelo Abade Antoine Bigou – o predecessor de Sauniere cem anos antes, que aparentemente compôs os dois pergamihos misteriosos. E a inscrição da pedra capital que incluiu um número deliberado de erros no espaçamento e na soletração era um anagrama perfeito para a mensagem oculta nos pergaminhos que se referiam a Poussin e Teniers.

Se alguém rearranja as letras, elas formarão a declaração críptica citada acima aludindo a Poussin e a Sião e os erros parecem ter sido destinados precisamente a fazer isso. Sem saber que as inscrições da tumba da marquesa já haviam sido copiadas, Sauniere as obliterou. Nem foi esta profanação o único comportamento curioso que ele exibiu. Acompanhado por sua fiel governanta, ele começou a fazer longas jornadas a pé no interior, coletando rochas de nenhum valor ou interesse aparente. Ele também embarcou em uma volumosa troca de cartas com correspondentes desconhecidos pela França, bem como na Alemanha, Suíça, Itália, Áustria e Espanha. Ele passou a colecionar montes de selos postais absolutamente inúteis. E ele abriu certas transações sombrias com vários bancos. Um deles até mesmo dispachou um representante de Paris, que viajou todo caminho até Rennes-Le-Chateau com um único propósito de administrar o negócio de Sauniere. Apenas em postagem Sauniere já estava gastando uma soma substancial; mais do que sua renda anual anterior poderia manter. Então, em 1896 ele passou a gastar a vontade, em uma escala surpreendente e sem precedentes. Pelo fim de sua vida em 1917 seu gasto somaria o equivalente a vários milhões de libras ao menos. Alguma desta riqueza inexplicável era devotada a louváveis trabalhos públicos e uma estrada moderna foi construida levando a vila, por exemplo, e instalações para água corrente foram fornecidas. Outros gastos foram mais quixotescos. Uma torre foi construida, a Tour Magdala, tendo a vista panorâmica da chamada Villa Bethania, que o próprio Sauniere nunca ocupou.

E a Igreja não foi apenas redecorada, mas redecorada de um modo mais bizarro. Uma inscrição em latim foi gravada no portal acima da entrada: TERRIBILIS EST LOCUS ISTE (Este lugar é terrível). Imediatamente dentro da entrada uma abominável estátua foi erigida, uma representação inquietante do demônio Asmodeus –  guarda de segredos, guardião dos tesouros ocultos e, segundo a antiga história judaica, construtor do Templo de Salomão. Nas paredes da igreja, placas pintadas lúridas e gritantes foram instaladas apresentando as Estações da Cruz e cada uma foi caracterizada por alguma estranha inconsistência, algum detalhe acrescentado inexplicável, algum desvio flagrante e sutil da aceita narrativa escritural. Na Estação VIII, por exemplo, há uma criança envolvida em xadrez escocês. Na Estação XIV, que apresenta o corpo de Jesus sendo carregado para dentro da tumba, há um fundo de um escuro céu noturno dominado por uma lua cheia. É quase como se Sauniere estivesse tentando revelar algo.  Mas o que? O enterro de Jesus ocorreu depois do cair da noite, várias horas mais tarde do que a Bíblia nos conta? Ou que o corpo estava sendo carregado para fora da tumba, não para dentro dela? Enquanto engajado neste curioso adorno, Sauniere continuou a gastar extravagantemente. Ele colecionou porcelana rara, tecidos preciosos, mármores antigos. Ele criou um laranjal e um jardim zoológico. Ele reuniu uma magnífica biblioteca. Pouco antes de sua morte, ele estava planejando construir uma estrutura maciça como Torre de Babel alinhada com livros, da qual ele pretendia pregar. Nem foram seus paroquianos negligenciados. Sauniere os regalou com suntuosos banquetes e outras formas de fartura, mantendo um estilo de vida de um potentado medieval presidindo sobre um inexpugnável domínio na montanha. Neste retiro remoto e bem inacessível ele recebeu um número de hóspedes notáveis. Um, com certeza, foi Emma Calve. Outro foi o Secretário de Estado francês para a Cultura. Mas talvez o mais augusto e importante visitante deste sacerdote paroquial desconhecido tenha sido o Arquiduque Johann von Habsburg, um primo de Franz-Josef, Imperador da Áustria. Declarações bancárias subsequentemente revelaram que Sauniere e o arquiduque tinham aberto contas consecutivas no mesmo dia e mais tarde o arquiduque fez um depósito substancial para o primeiro.

As autoridades eclesiásticas de inicio fizeram vista grossa. Quanto o antigo superior de Sauniere em Carcassone morreu, contudo, o novo bispo tentou chamar o sacerdote a prestar contas. Sauniere respondeu com um desafio surpreendente e acalorado. Ele se recusou a explicar sua riqueza. Ele se recusou a aceitar a transferência que o bispo ordenou. Faltando uma acusação mais substancial, o bispo o acusou de simonia [venda ilegal de missas] e um tribunal local o suspendeu. Sauniere apelou ao Vaticano que o reinstalou. Em 17 de janeiro de 1917, Sauniere, então com 65 anos, sofreu um súbito ataque cardíaco. A data de 17 de janeiro talvez seja suspeita. A mesma data aparece na tumba da Marquesa de d’Hautpoul de Blanchefort – a pedra tumular que Sauniere havia erradicado. E 17 de janeiro também é a festa de São Suspilcio, quem, como fomos descobrir, figurou em nossa história. Foi no Seminário de São Suspílcio que ele confiou seus pergaminhos ao Abade Biel e a Emile Hoffet. Mas o que torna o ataque cardíaco de Sauniere mais suspeito em 17 de janeiro é o fato de que cinco dias antes, em 12 de janeiro, seus paroquianos declararam que ele parecia estar em um saúde invejável para um homem de sua idade. Ainda que em 12 de janeiro, segundo um recibo em nossa posse, Marie Denarnaud tivesse encomendado um caixão para seu senhor. Com Sauniere deitado em seu leito de morte, um sacerdote foi chamado da paróquia vizinha para ouvir sua confissão final e administrar os últimos sacramentos. O sacerdote devidadmente chegou e se retirou para o quarto do doente. Segundo o testemunho de testemunha ocular, ele saiu logo depois visivelmente abalado. Nas palavras da narrativa de uma pessoa, ‘ele nunca sorriu novamente”. Nas palavras de outra pessoa, ele entrou em uma profunda depressão aguda que durou por vários meses. Se estas narrativs são ou não exageradas, o sacerdote, presumidamente com base na confissão de Sauniere, se recusou a dar a extrema unção. Em 22 de janeiro Sauniere morreu. Na manhã seguinte seu corpo foi sentado ereto em uma poltrona no terraço da Tour Magdala vestido um robe ornado adornado com franjas escarlate. Um a um, certos lamentadores não identificados passaram, muitos deles tocando as franjas da vestimenta do homem morto. Nunca houve uma explicação para esta cerimonia. Os residentes atuais de Rennes-le-Chateaux estão surpresos como todo mundo mais.

A leitura do testamento de Sauniere foi aguardada com grande expectativa. Para surpresa e desgosto de todo mundo, contudo, ele foi declarado sem um só tostão. Em algum ponto antes de sua morte ele tinha aparentemente transferido toda sua riqueza a Marie Denarnaud, que partilhou de sua vida e segredos por 32 anos. Depois da morte dele, Marie continuou a viver uma vida confortável em Villa Bethania até 1946. Depois da segunda guerra mundial, contudo, o novo governo francês instalado emitiu uma nova moeda. Como meio de apreender os evasores de impostos e os lucradores colaboradores do tempo de guerra, os cidadãos franceses quando trocavam os velhos francos por novos, eram obrigados a responder por seus rendimentos.

Confrontada pela perspectiva de uma explicação, Marie escolheu a pobreza. Ela foi vista no jardim da Villa, enterrando grandes maços  de velhas notas de francos. Por sete anos Marie viveu austeramente, se sustentando do dinheiro obtido da venda de Villa Bethania. Ela prometeu ao comprador, Monsieur Noel Corbu, que ela confiaria a ele, antes da morte dela, um segredo que o faria não apenas rico mas também poderoso. Em 29 de janeiro de 1953, contudo, Marie, como seu senhor antes dela, sofreu um súbito e inesperado derrame que a deixou prostrada em seu leito de morte, incapaz de falar. Para intensa frustração de Corbu, ela morreu pouco depois, levando com ela o segredo. ‘Os possíveis Segredos disso” , em suas linhas gerais, foi a história publicada na França nos anos de 1960. Esta foi a forma na qual nós a primeiro a conhecemos. E foram as perguntas levantadas pela história nesta forma que nós, como outros pesquisadores do assunto, nos dirigimos.

A primeira pergunta é muito óbvia. Qual foi a fonte do dinheiro de Sauniere? De onde veio sua fabulosa riqueza? A explicação podia ser banal? Ou havia algo muito mais excitante envolvido? A última possibilidade partilhou de uma quantidade tantalizante de mistério, e não pudemos resistir ao impulso de participarmos como detetives. Começamos a considerar as explicações fornecidas por outros pesquisadores. Segundo muitos deles, Sauniere de fato havia encontrado um tesouro de algum tipo. Esta era uma assunção bastante plausível, porque a história da vila e de suas cercanias inclue muitas possíveis fontes de ouro ou jóias ocultas. Em tempos pré-históricos, por exemplo, a área ao redor de Rennes-le-Chateau foi vista como um sitio sagrado para as tribos celtas que viveram lá; e a própria vila, uma vez chamada Rhedae, derivou seu nome de uma dessas tribos. Em tempos romanos, a área foi uma grande e florescente comunidade, importante por suas minas e águas quentes terapêuticas. E também para os romanos o sítio era visto como sagrado. Mais tarde pesquisadores tem encontrado traços de vários templos pagãos. Durante o século VI, a pequena vila no topo da montanha era supostamente um centro com 30.000 habitantes. A um ponto, parece ter sido a capital do norte do império governado pelos Visigodos, o povo teutônico que varreu a oeste da Europa Central, saqueou Roma, derrubou o Império Romano e estabeleceu seu próprio domínio espalhando-se nos Pirineus. Por outros quinhentos anos a cidade permaneceu o assento de um importante condado, para o Conde de Razes. Então, no início do século XIII, um exército de cavaleiros nortistas desceu sobre Languedoc para expulsar a heresia Cátara ou Albigense e reclamar os ricos espólios da região para eles próprios. Durante as atrocidades da chamada Cruzada Albigense, Rennes-le-Chateau foi capturada e transferida de mão em mão como um feudo. 125 anos depois, nos anos de 1360, a população local foi dizimada pela praga, e pouco depois Rennes-le-Chateau foi destruída por bandidos catalãos. Histórias de um tesouro fantástico estão interligadas com muitas destas vicissitudes históricas.

Os hereges Cátaros, por exemplo, eram reputados possuirem algo de valor fabuloso e até mesmo sagrado que, segundo um número de histórias, era o Santo Gral. Estas histórias relatadamente impulsionaram Richard Wagner a fazer uma romaria a Rennes-le-Chateau antes de compor sua última ópera, Parsifal; e durante a ocupação de 1940-45 pelas tropas alemãs, a seguir o despertar de Wagner, elas são ditas terem realizado um número de escavações infrutiferas nas vizinhanças. Havia também o tesouro desaparecido dos Cavaleiros Templários, cujo Grão Mestre, Bertrand de Blanchefort, comissionou certas escavações misteriosas nas vizinhanças. Segundo todas estas narrativas, estas escavações eram marcantemente de natureza clandestina, realizadas principalmente por um contingente especialmente importado de mineiros. Se algum tesouro dos Cavaleiros Templários esteve de fato oculto ao redor de Rennes-le-Chateau, isto pode explicar a referência a Sião nos pergaminhos descobertos por Sauniere. Havia também outros possíveis tesouros. Entre a quinta e sexta dinastia, que incluiu o Rei Dagoberto II, Rennes-le-Chateau, nos tempos de Dagoberto, era um bastião Visigodo e o próprio Dagoberto era casado com uma princesa Visigoda. O centro pode ter constituído um tipo de tesouro real; e há documentos que falam da grande riqueza reunida por Dagoberto por conquistas militares e escondida nas vizinhanças de Rennes-le-Chateau. Se Sauniere descobriu algum destes depósitos, isto explicaria a referência nos códigos a Dagoberto. Os Cátaros. Os Templários. Dagoberto II. E ainda que haja um outro possível tesouro do vasto botim acumulado pelos Visigodos durante seu avanço tempestuoso pela Europa. Isto pode ter incluido mais do que um botim tradicional, possivelmente itens de imensa relevancia tanto simbólica quanto literal para a tradição religiosa ocidental. Ele pode, em resumo, ter incluido o legendário tesouro do Templo de Jerusalém, que, até mesmo mais do que os Cavaleiros Templários, garantiria a referência ao Sião.

Em 66 a Palestina elevou-se em revolta contra o domínio romano. Quatro anos depois, em 70, Jerusalém foi arrasada por legiões do imperador, sob o comando se seu filho, Tito. O próprio templo foi saqueado e seus conteúdos do Santo dos Santos levados para Roma. Como eles são apresentados no arco triunfal de Tito, eles incluem o imenso candelabro de ouro de sete braços tão sagrado para o Judaismo, e possivelmente até mesmo a Arca da Aliança. 350 anos depois, em 410, Roma por sua vez foi saqueada pelos Visigodos invasores, sob Alarico o Grande, que pilhou virtualmente a inteira riqueza da Cidade Eterna. Como nos conta o historiador Procópio, Alarico tomou os tesouros de Salomão, o Rei dos Judeus, uma coisa digna de ser vista, a qual eles adornaram em sua maior parte com esmeraldas e que nos velhos tempos haviam sido tomados de Jerusalém pelos Romanos.

O tesouro, então, bem pode ter sido a fonte da riqueza não explicada de Sauniere. O sacerdote pode ter descoberto vários tesouros, ou ele pode haver decoberto um único tesouro que repetidamente mudou de mãos através dos séculos e que talvez tenha passado do Templo de Jerusalém aos Romanos, aos Visigodos, eventualmente aos Cátaros e/ou Cavaleiros Templários. Se assim o foi, isto explicaria a questão do tesouro, pertencendo tanto a Dagoberto II quanto ao Sião. Então muito longe nossa história de assemelha a uma história de tesouro. E a história do tesouro até mesmo envolvendo o tesouro do Templo de Jerusalém é totalmente de relevância e importância limitada. As pessoas estão constantemente descobrindo tesouros de um tipo ou outro. Tais descobertas são frequentemente excitantes, dramáticas e misteriosas, e muitas delas lançam uma importante iluminação sobre o passado. Poucas delas, contudo, exercem qualquer influência direta, política ou outra, ou apresentam a menos, de fato, o tesouro em questão incluir um segredo de algum tipo, e possivelmente se trate de um segredo explosivo.  Não descartamos o argumento que Sauniere descobriu um tesouro. Ao mesmo tempo nos parece claro que, seja o que for que ele tenha descoberto, ele também descobriu um segredo secreto e histórico de enorme importância para seu próprio tempo e talvez de nosso próprio também. Mero dinheiro, ouro ou jóias não explicariam, eles mesmos, um número de facetas na história dele. Eles não responderiam por sua apresentação no círculo de Hoffet, por exemplo, ou sua associação com Debussy e sua ligação com Emma Calve. Eles não explicariam o intenso interesse da Igreja no assunto, a impunidade com a qual Sauniere desafiou seu bispo ou sua subsequente recuperação pelo Vaticano, que pareceu ter apresentado uma urgente preocupação toda sua. Eles não explicariam a recusa do sacerdote em administrar os últimos sacramentos ao homem moribundo, ou a visita do arquiduque de Hapsburg a uma vila remota nos Pirineus.

O arquiduque Habsburg em questão tem desde então sido revelado como Johann Salvator von Habsburg, conhecido pelo pseudônimo de Jean Orth. Ele renunciou a todos os seus direitos e títulos em 1889 e dentro de dois meses havia sido banido de todos os territórios do Império. Foi pouco depois que ele primeiramente apareceu em  Rennes le Chateau. Dito oficialmente ter morrido em 1890, mas de fato morreu na Argentina em 1910 ou 1911. Veja Les Maisons Souveraines de L’Autriche do Dr. Dugast ROulIIe, Paris, 1967, pagina 191. Nem dinheiro, ouro, jóias explicariam a poderosa aura de mistificação que cerca o caso inteiro, desde as elaboradas cifras até Marie Denarnaud enterrando sua herança em notas de dinheiro. E a própria Marie havia prometido divulgar o segredo que conferia não meramente a riqueza, mas o poder também. Nestas bases, ficamos crescentemente convencidos que a história de Sauniere envolvia mais do riquezas, e que ela envolvia um segredo de algum tipo, um que quase certamente era controvertido. Em outras palavras, nos pareceu que o mistério não estava confinado a remota vila de interior e ao sacerdote do século XIX. Seja o que for que isso fosse, parecia se irradiar de Rennes-le-Chateau e produzir ondas talvez até mesmo uma potencial onda de maré no mundo além. Poderia a riqueza de Sauniere ter vindo não de algo de valor financeiro intrínseco, mas do conhecimento de algum tipo? Se assim foi, poderia este conhecimento ter se transformado em uma conta fiscal? Poderia, por exemplo, ter sido usado para chantagear alguém? Seria a riqueza de Sauniere seu pagamento pelo silêncio? Sabemos que ele recebeu dinheiro de Johann von Habsburg. E ao mesmo tempo, contudo, seja qual for o segredo do sacerdote, parecia ser de natureza mais religiosa do que política. Sobretudo, suas relações com o arquiduque austríaco, segundo todas as narrativas, eram notavelmente cordiais. Mais tarde em sua carreira, parece ter estado distintamente com medo dele, e o ter tratado com as luvas de seda do Vaticano. Poderia Sauniere ter chantageado o Vaticano? Garantidamente uma tal chantagem seria uma tarefa presunçosa e perigosa para um homem, contudo exaustivo em suas precauções. Mas que tal se ele fosse ajudado e apoiado em seu empreendimento por outros, cuja eminência garantia que eles fossem invioláveis para a Igreja, como o Secretário de Estado para a Cultura francês, ou os Hapsburgs? Que tal se o arquiduque Johan fosse apenas o intermediário, e o dinheiro que ele doou a Sauniere realmente tivesse saído dos cofres de Roma?

A Intriga em fevereiro de 1972, “O Tesouro Perdido de Jerusalém?”, o primeiro de nossos três filmes sobre Sauniere e o mistério de Rennes-le-Chateau, foi mostrado. O filme não fez avaliações controvertidas, ele simplesmente contou a história básica como ela tem sido recontada nas páginas precendentes, nem houve qualquer especulação sobre um ‘segredo explosivo’ ou uma chantagem de alto nível. Também não é digno de mencionar que o filme não cita Emile Hoffet , o jovem clérigo erudito em Paris, a quem Sauniere confiou seus pergaminhos por seu nome. Talvez não surprendente, recebemos um verdadeiro dilúvio de correspondência. Alguma delas ofereciam intrigantes especulações sugestivas. Algumas eram complementares. Algumas eram fracas. De todas estas cartas, uma, que o escritor não quis que publicássemos, parecia merecer uma atenção especial. Ela veio de um sacerdote anglicano aposentado e parecia um non sequitur curioso e provocante. Nosso correspondente escreveu com certeza categória e autoridade. Ele fez suas avaliações clara e definitivamente, sem elaboração, e com aparente indiferença a se acreditavamos nele ou não. O “tesouro”, ele declarou claramente, não envolve ouro ou pedras preciosas. Ao contrário, ele consistia em uma ‘prova incontroversa” de que a Crucificação foi uma fraude e que Jesus estava vivo até 45. Esta afirmação soou flagrantemente absurda. O que, até mesmo para um ateu, pode possivelmente compreender uma “prova incontroversa” que Jesus sobreviveu a Crucificação? Eramos incapazes de imaginar algo que não pudesse ser desacreditado ou repudiado como prova, mas a prova que era verdadeiramente não controvertida. Ao mesmo tempo, a clara extravagância da avaliação exigia esclarecimento e elaboração. O escritor da carta havia fornecido um endereço de remetente. Na primeira oportunidade dirigimos para ve-lo e tentar entrevista-lo. Em pessoa ele era muito mais reticente do que tinha sido na carta, e parecia lamentar ter escrito para nós. Ele se recusou a expandir sobre a ‘prova incontroversa” e voluntariou apenas um fragmento adicional de informação. Esta “prova’, ele disse, ou sua existência a qualquer nível, tem sido divulgada a ele por um outro clérigo anglicano, Canon Alfred Leslie Liney.

Liney, que morreu em 1940, tinha publicado amplamente e não era desconhecido. Durante grande parte de sua vida ele tinha mantido contacto com o Movimento Católico Modernista, baseado principalmente em São Suspílcio em Paris. Em sua juventude Liney tinha trabalhado em Paris, e tinha sido conhecido de Emile Hoffet. A trilha havia percorrido um círculo completo. Dada uma ligação entre Liney e Hoffet, e as afirmações do sacerdote, contudo absurdas, não podem ser sumariamente descartada.

Uma evidência similar de um segredo monumental estava se apresentando quando começamos a pesquisar a vida de Nicolas Poussin, o grande pintor do século XVII cujo nome correu pela história de Sauniere. Em 1656, Poussin, que estava vivendo em Roma naquele tempo, tinha recebido uma visita do Abade Louis Fouquet, irmão de Nicolas Fouquet, Superintendente de Finanças de Luis XIV da França. De Roma, o Abade enviou uma carta ao seu irmão, descrevendo este encontro com Poussin. Parte desta carta é digna de ser citada. “Ele e eu discutimos certas coisas, que devo dizer com facilidade serem capazes de explicar a você em detalhe o que ninguém mais descobrirá nos séculos a seguir. E o que é mais, há coisas tão difíceis de descobrir que nada agora na Terra pode provar uma melhor fortuna nem ser seu igual?”  Nem historiadores e nem biógrafos de Poussin ou Fouquet tem sido capazes de satisfatoriamente explicar esta carta, que alude claramente a ‘alguma matéria misteriosa de imensa importância”. Não muito depois de receber a carta, Nicolas Fouquet foi preso e aprisionado por toda sua vida. Segundo certas narrativas, ele foi mantido estritamente incomunicável e alguns historiadores o vêem como um provável candidato para o Homem Na Máscara de Ferro. Enquanto isso, toda a sua correspondência foi confiscada por Luis XIV, que a inspecionou pessoalmente. Nos anos segintes, o rei foi determinadamente em seu caminho para obter a pintura original de Poussin, “Os Pastores da Arcadia”. Quando finalmente ele teve sucesso, a pintura foi sequestrada em seus apartamentos particulares em Versalhes. Seja qual for sua grandeza artística, a pintura pareceria ser suficientemente inocente. No fundo três pastores e uma pastora estão reunidos perto de uma grande e antiga tumba, contemplando a inscrição na pedra: “ET IN ARCADIA EGO’.

No fundo aparece um panorama rugoso e montanhoso do tipo geralmente associado a Poussin. Segundo Anthony Blunt, bem como outros especialistas em Poussin, este panorama era completamente mítico, um produto da imaginação do pintor. Na década de 1970, contudo, uma tumba real foi localizada, idêntica aquela na pintura em localização, dimensões, proporções, forma, vegetação adjacente e até mesmo o afloramento circular de rocha na qual um dos pastores de Poussin repousa seu pé. Esta tumba real permanece nos arredores de uma vila chamada Arques – aproximadamente a seis milhas de Rennes-le-Chateau, e a três milhas do castelo de Blanchefort. Se alguém fica de pé diante do sepulcro a vista é virtualmente indistinguivel daquela da pintura. E então se torna aparente que um dos picos no fundo da pintura é Rennes-le-Chateau. Não há indicação da idade da tumba. Pode, de fato, ter sido eregida muito recentemente, mas como fizeram seus construtores até mesmo para localizar um lugar que combine tão precisamente com aquele da pintura? De fato ela parece ter sido erigida nos tempos de Poussin, e “Os Pastores da Arcadia” pareceria ser uma fiel reprodução do sítio atual. Segundo os camponeses na vizinhança, a tumba tem estado lá por tanto tempo quanto eles, seus pais e seus avós podem lembrar. E lá  é dito haver uma menção específica disto em uma memória datando de 1709.

Segundo os registros na vila de Arques, a terra onde a tumba está começa a pertencer, até sua morte em 1950, a um americano, um Louis Lawrence de Boston, Massachusetts. Em 1920 Lawrence abriu o sepulcro e o encontrou vazio. Sua esposa e sogra foram mais tarde enterradas lá. Quando preparávamos o nosso primeiro filme para a BBC sobre Rennes-le-Chateau, passamos uma manhã fazendo uma filmagem da tumba. Paramos para o almoço e voltamos três horas depois. Durante a nossa ausência, uma tentativa violenta e crua foi feita para esmagar o sepulcro. Se houvesse uma inscrição na tumba atual, ela a muito tempo foi apagada. Quanto a inscrição na pintura de Poussin, pareceria ser convencionalmente triste com a Morte anunciando sua sombria presença até mesmo na Arcadia, o idílico paraiso pastoral do mito clássico. Ainda que a inscrição seja curiosa porque falta nela um verbo. Traduzida literalmente: “Na Arcadia Eu…” Porque estaria faltando o verbo? Talvez por uma razão filosófica para evitar toda tensão, toda indicação do passado, presente ou futuro e portanto implicar em algo eterno? Ou talvez por uma razão de natureza mais prática. Os códigos nos pergaminhos  encontrados por Sauniere tem repousado pesadamente em anagramas, sobre a transposição e o rearranjo das letras. Pode ser talvez “ET IN ARCADIA EGO’ um anagrama?  Pode o verbo ter sido omitido de forma que a inscrição consista apenas em certas letras precisas? Um de nossos espectadores da televisão, ao escrever para nós, sugere que isto pode ser de fato  assim e então rearranjou as letras em uma coerente declaração em latim. O resultado foi : I FEGO ARCANA DEI (Afaste-se! Eu oculto os segredos de deus!). Ficamos agradecidos e intrigados por este engenhoso exercício. Não entendemos naquele tempo como era extraordinariamente apropriado o resultante aviso.

Os Cátaros e a Grande Heresia

Começamos a nossa investigação em um ponto com o qual nós já tinhamos uma certa familiaridade: a heresia Catára ou Albigense e a Cruzada que ela provocou no século XIII. Nós já estávamos cientes que os Cátaros entenderam de alguma forma o mistério que cercou Sauniere e Rennes-le-Chateau. Em primeiro lugar os hereges medievais tinham sido numerosos na vila e suas cercanias, que sofreram brutalmente durante o curso da Cruzada Albigense. De fato, a inteira região está empapada no sangue Cátaro, e os residuos deste sangue, juntamente com sua amargura, persistem até hoje. Muitos camponeses na área agora, sem nenhum inquisidor para cair sobre eles, abertamente proclamam simpatias cátaras. Lá há até mesmo uma Igreja Cátara e um chamado Papa Cátaro que, até sua morte em 1978, viveu na vila de Arques. Sabemos que Sauniere tinha mergulhado na história e no folclore de seu solo natal, assim ele possivelmente não tenha evitado o contacto com o pensamento e tradições Cátaras. Ele pode não ter estado inconsciente que Rennes-le-Chateau foi um centro importante nos séculos XII e XIII, e algo de um bastião cátaro. Sauniere pode ter estado familiarizado com as numerosas histórias relacionadas aos cátaros. Ele deve ter sabido dos rumores que os ligam com aquele fabuloso objeto, o Santo Gral. E se Richard Wagner, na busca de algo pertinente ao Santo Gral, de fato visitou  Rennes-le-Chateau, Sauniere tabém não pode ter sido ignorante desse fato. Em 1890, sobretudo, um homem chamado Jules Doinel se tornou o bibliotecário em Carcassone e estabeleceu uma igreja neo-cátara. O própio Doinel escreveu prolificamente sobre o pensamento cátaro, e por 1896 tinha se tornado um membro proeminente de uma organização cultural local, a Sociedade de Arte e Ciências de Carcassonne.

Em 1898 ele foi eleito seu secretário. Esta sociedade incluia um número de associados de Sauniere, entre eles seu melhor amigo, o Abade Henri Boudet. E     o próprio círculo pessoal de Doinel incluia Emma Calve. É portanto provável que Doinel e Sauniere fossem conhecidos. Há uma razão posterior e mais provocante para ligar os cátaros com o mistério de  Rennes-le-Chateau. Em um dos pergaminhos encontrados por Sauniere, o texto é espalhado com um punhado de letras menores; oito, para ser preciso, que são deliberadamente muito diferentes de todas as outras. Três das letras estão na direção do topo da página, cinco em direção na parte inferior. Estas oito letras tem apenas que serem lidas em sequência para soletrar duas palavras ‘REX MUNDI’. Este é inconfundivelmente um termo cátaro, que é imediatamente reconhecível para alguém familiarizado com o pensamento cátaro. Dado estes fatores, parece bastante razoável começar nossa investigação com os cátaros. Portanto começamos a pesquisar sobre eles, suas crenças e tradições, sua história e redondezas em detalhe. Nosso inquérito abriu novas dimensões do mistério, e portanto começamos a pesquisar sobre eles, e isso gerou um número de perguntas tantalizantes.

A Cruzada Albigense

Em 1209 um exército de aproximadamente 30.000 cavaleiros e soldados a pé da Europa da Norte desceu como um rodamoinho sobre Languedoc, a escarpada montanha no nordeste dos Pirineus no que é agora o sul da França. Desde o início da guerra o inteiro território foi devastado, as plantações foram destruídas, cidades e centros foram arrasados, uma população inteira foi passada pela espada. Este extermínio ocorreu em uma escala tão vasta e terrível que bem pode constituir o primeiro caso de genocídio na moderna história européia. Apenas no centro de Beziers, por exemplo, ao menos 15.000 homens, mulheres e crianças foram massacrados por atacado, muitos deles no santuário da própria igreja. Quando um oficial inquiriu do representante do Papa como ele podia distingur os hereges dos verdadeiros crentes, ele respondeu: “Mate todo estes. Deus reconhecerá os seus”. Esta citação, embora amplamente citada, pode ser apócrifa. Não obstante, isto tipifica o zelo fanático e a sede de sangue com os quais estas atrocidades foram perpetradas.

O mesmo representante papal, escrevendo a Inocente III em Roma, anunciou orgulhosamente que “nem idade, nem sexo e nem status foram poupados”. Depois de Beziers, o exército invasor varreu todo Languedoc. Perpignan caiu, Narbonne caiu, Carcassone caiu, Toulouse caiu. E, seja por onde for que os vitoriosos passavam, eles deixavam uma trilha de sangue, morte e carnificina em seu rastro; a guerra, que durou quase quarenta anos, é agora conhecida como Cruzada Albigense. Foi uma cruzada no verdadeiro sentido da palavra. Ela tinha sido convocada pelo próprio Papa. Seus participantes usavam uma cruz em suas túnicas, como os cruzados na Palestina. E as recompensas eram as mesmas que eram as dos cruzados da Terra Santa: a remissão de todos os pecados, uma expiação de penitências, um lugar assegurado no Céu e todo o botim que pudessem pilhar. Nesta cruzada, sobretudo, ninguém teve que atravessar o mar. E de acordo com a lei feudal, ninguém estava obrigado a combater por mais de quarenta dias assumindo, com certeza, que ninguém tivesse interesse em saquear.

Ao tempo em que a Cruzada acabou, o Languedoc tinha sido completamente transformado, retornado a barbárie que caracterizava o resto da Europa. Porque? Porque toda aquela destruição, brutalidade e desvastação ocorreu? No início do século XIII a área agora conhecida como Languedoc não era oficialmente uma parte da França. Era uma principalidade independente, cuja linguagem, cultura e instituições políticas tinham menos em comum com o norte do que tinham com a Espanha com os reinos de Leão, Aragão e Castela. A principalidade era governada por um punhado de famílias nobres, cujos chefes eram os Condes de Toulouse e a poderosa casa de Trencavel. E dentro dos confins desta principalidade floresceu uma cultura que, naquele tempo, era a mais avançada e sofisticada na cristandade, com a possível exceção de Bizancio. O Languedoc tinha muito em comum com Bizancio. O aprendizado, por exemplo, era altamente estimado, como ele não o era no Norte da Europa. A filosofia e outras atividades intelectuais floresceram; a poesia e o amor enobreceram exaltados; Grego, Árabe e Hebraico eram entusiásticamente estudados; e em Lunel e Narbonne, escolas devotadas a Cabala, a antiga tradição do Judaísmo, estavam florescendo. Até mesmo a nobreza era letrada e literária, em um tempo quando a maioria dos nobres do Norte não podia nem mesmo assinar seus nomes. Como Bizancio, também, o Languedoc praticava uma tolerância religiosa civilizada em contraste com o zelo fanático que caracterizava outras partes da Europa. Meadas de pensamento islâmico ou judaico, por exemplo, eram importados pelos centros marítimos comerciais como Marselha, ou feito seu caminho através dos Pirineus vindo da Espanha. Ao mesmo tempo, a Igreja Romana não desfrutava de uma estima muito alta; os clérigos romanos em Languedoc, em virtude de sua notória corrupção, tinham sucesso primariamente em alienar a populaça. Havia igrejas, por exemplo, em que nenhuma missa tinha sido realizada por mais de trinta anos. Muitos sacerdotes ignoravam seus paroquianos e dirigiam negócios ou grandes propriedades. Um arcebispo em Narbonne nem até mesmo visitou sua diocese. Seja qual for a corrupção da igreja, o Languedoc tinha alcançado um ápice de cultura que não seria visto novamente na Europa até a Renascença.

Mas, como em Bizancio, havia elementos de complacência, decadência e trágica fraqueza que tornaram a região despreparada para a matança que subsequentemente se desencadeou sobre ela. Pelo mesmo tempo a nobreza do norte europeu e a Igreja Romana tinham estado cientes de sua vulnerabilidade e estavam ávidos em explora-la. A nobreza do norte por muitos anos tinha ambicionado a riqueza e o luxo de Languedoc. E a Igreja estava interessada em suas próprias razões. Em primeiro lugar, sua autoridade sobre a região estava faltando. E enquanto a cultura florescia em Languedoc, algo mais florescia também como a maior heresia da cristandade medieval. Nas palavras das autoridades da Igreja, o Languedoc estava ‘infectado’ pela heresia Albigense, a ‘nojenta lepra do Sul’. E embora os aderentes desta heresia fossem essencialmente não violentos, eles constituiam uma severa ameaça à autoridade Romana, de fato, a mais severa ameaça que Roma vivenciaria até três séculos mais tarde quando os ensinamentos de Martinho Lutero começaram a Reforma. Por 1200 havia uma real prespectiva dessa heresia deslocar o catolicismo romano como a forma dominante da cristandade em Languedoc. E o que era mais ominoso até os olhos da Igreja, ele já estava se irradiando a outras partes da Europa, especialmente a centros urbanos na Alemanha, Flandres e Champagne. Os hereges eram conhecidos por uma variedade de nomes. Em 1165 eles tinham sido condenados por um concílio eclesiástico na cidade em Languedoc de Albi. Por esta razão, ou talvez porque Albi continuasse a ser um dos centros deles, eles eram frequentemente chamados Albigenses. Em outras ocasiões eles foram chamados Cátaros. Na Itália eles eram chamados Patarinos. Não infrequentemente eles também eram apelidados ou estigmatizados com nomes de heresias muito anteriores – Ariano, Marcionita e Maniqueano. “Albigense e Cátaro eram essencialmente nomes genéricos. Em outras palavras, eles não se referiam a uma única igreja coerente, como aquela de Roma, com um corpo de doutrina e teologia fixo, codificado e definitivo. Os hereges em questão compreendiam uma multitude de seitas diversas, muitas sob a direção de um líder independente, cujos seguidores assumiriam seu nome. E conquanto estas seitas possam ter mantido certos princípios em comum, elas divergiam radicalmente uma da outra em detalhe. Sobretudo, a maior parte da informação sobre os hereges deriva de fontes eclesiásticas como a Inquisição.

Formar uma imagem deles de tais fontes é com tentar formar uma imagem, vamos dizer, da Resistência Francesa, dos relatos das SS e Gestapo. Portanto é virtualmente impossível apresentar um sumário coerente e definivo do que realmente constituia o ‘pensamento cátaro’. Em geral os cátaros aceitavam a doutrina da reencarnação e um reconhecimento de um princípio feminino na religião. De fato, os pregadores e professores das congregações cátaras, conhecidos como “Os Perfeitos” eram de ambos os sexos. Ao mesmo tempo, os cátaros rejeitavam a igreja católica ortodoxa e negavam a validade do todas as hierearquias clericais, ou intercessores oficiais e ordenados entre o homem e Deus. No núcleo desta posição jaz um importante mandamento cátaro que é o repudio da fé, ao menos como a Igreja insiste sobre isso. Em lugar da fé aceita em segunda mão, os cátaros insistiam no conhecimento direto e pessoal, uma experiência religiosa ou mística aprendida em primeira mão. Esta experiência havia sido chamada ‘gnose’, da palavra grega para ‘conhecimento’, e para os cátaros isto tomava precedência sobre todos os credos e dogma. Dando uma tal ênfase ao contacto pessoal direto com Deus, sacerdotes, bispos, e outras autoridades clericais se tornavam supérfluas. Os cátaros também eram dualistas. Todo pensamento cristão, de fato, pode completamente ser visto como dualista, insistindo em um conflito entre dois princípios opostos  – o bem e o mal -, – o espírito e a carne -, o alto e o baixo. Mas os cátaros levavam esta dicotomia até mesmo mais longe do que o catolicismo ortodoxo estava preparado para fazer. Para os cátaros, os homens eram as espadas com as quais os espíritos combatiam, e ninguém via as mãos. Para eles, uma guerra perpétua estava sendo movida por toda a criação entre dois princípios irreconciliáveis – a luz e as trevas, o espírito e a matéria, o bem e o mal. O catolicismo propõem um Deus Supremo, cujo adversário, o Diabo, é totalmente inferior a ele. Os cátaros, contudo, proclamavam a existência não de um deus, mas de dois, com um status mais ou menos comparável. Um desses deuses, o Bem era inteiramente desencarnado, um ser ou princípio de puro espírito, completamente livre da mancha da matéria. Ele era um deus de amor. Mas o amor era considerado completamente incompatível com o poder e a manifestação material era uma manifestação de poder. Portanto , para os cátaros, a criação material do próprio mundo é intrinsecamente má. O universo, em resumo, era o trabalho manual de um ‘deus usurpador’, o deus do mal, ou, como os cátaros o chamavam, “Rex Mundi”, o rei do mundo.

O catolicismo repousa no que pode ser chamado dualismo ético. O Mal, embora emitindo-se totalmente talvez do Diabo, se manifesta primariamente através do homem e suas ações. Em contraste, os cátaros mantiveram uma forma de ‘dualismo cosmológico’, um dualismo que invadiu o todo da realidade. Para os cátaros, esta era uma premissa básica, mas a resposta deles a isso variava de seita a seita. Segundo alguns cátaros, o propósito da vida humana na Terra era transcender a matéria, renunciar perpétuamente a qualquer coisa ligada a este princípio de poder e portanto alcançar a união com o princípio de amor. Segundo outros cátaros, o propósito da vida do homem era reclamar e redimir a matéria, espiritualiza-la e transforma-la. É importante notar a ausência de qualquer dogma fixado, doutrina ou teologia. Como na maioria dos desvios da ortodoxia estabelecida há apenas certas atitudes frouxamente definidas e as obrigações morais referentes a estas atitudes que eram objeto de interpretação individual. Aos olhos da Igreja Romana os Cátaros estavam cometendo sérias heresias a respeito da criação material, em benefício das quais supostamente Jesus morreu, como intrinsicamente más e implicando que Deus, cuja ‘palavra’ havia criado o mundo, no início, era um usurpador. A heresia mais séria deles, contudo, era a atitude deles em relação ao próprio Jesus. Já que a matéria era intrinsecamente má, os cátaros negavam que Jesus partilhasse da matéria, tenha encarnado na carne e até fosse o Filho de Deus. Para alguns cátaros ele era completamente incorpóreo, um ‘fantasma’, uma entidade de puro espírito, que, com certeza, não podia ser crucificado. A maioria dos cátaros parece te-lo visto como um profeta não diferente de qualquer outro ser mortal que, em benefício do princípio do amor, morreu na cruz. Havia, em resumo, nada místico, nada sobrenatural, nada divino sobre a crucificação se, de fato, ela fosse afinal relevante, o que muitos cátaros parecem ter duvidado.

Em qualquer caso, todos os cátaros veementemente repudiavam a importância da crucificação e da cruz – talvez porque eles sentissem que estas doutrinas fossem irrelevantes, ou talvez porque Roma as repetisse tão ferventemente, ou por causa das circunstâcias brutais da morte de um profeta que não parecem dignas de veneração. E a cruz ao menos em associação ao Calvário e a Crucificação foi vista como um emblema do ‘Rex Mundi”, senhor do mundo material, a própria antítese do verdadeiro princípio redentor. Jesus, se de todo mortal, tinha sido um profeta do princípio do amor. E AMOR, quando invertido ou pervertido ou destorcido em poder, se torna ROMA, cuja Igreja opulenta e luxuosa parecia aos cátaros uma incorporação palpável e a manifestação na terra da soberania do Rex Mundi.

Em consequência os cátaros não apenas se recusavam a venerar a cruz, eles também negavam tais sacramentos como batismo e comunhão. A despeito deste pensamento sutil, complexo, abstrato e talvez irrelevantes posições teólogicas, a maioria dos cátaros não era indevidamente fanática sobre o credo deles. Isto está intelectualmente em moda hoje em dia a respeito dos Cátaros como uma congregação de sábios, místicos iluminados ou iniciados na sabedoria arcana, todos os quais partilhavam do grande segredo cósmico. Em fato real, contudo, a maioria dos Cátaros eram mais ou menos homens e mulheres comuns, que encontraram em seu credo um refúgio da restrição do catolicismo ortodoxo a despeito dos infindáveis dízimos, penitências, obséquios, restrições e outras imposições da Igreja Romana. Conquanto a teologia deles fosse de difícil compreensão, os cátaros eram pessoas eminentemente realistas na prática. Eles condenavam a procriação, por exemplo, já que a propagação da carne estava a serviço não do princípio do amor, mas do Rex Mundi; mas eles não eram tão ingênuos para advogar a abolição da sexualidade. Verdadeiro, havia um específico sacramento cátaro, ou equivalente, chamado Consolamentum, que compelia alguém a castidade. Exceto para os Perfeitos, contudo, que eram ex homens e mulheres de família, o Consolamentum não era administrado até que alguém estivesse em seu leito de morte; não é extraordinariamente difícil ser casto para alguém que está morrendo. Tanto quanto diga respeito a congregação como um todo, a sexualidade era tolerada, se não explicitamente sancionada. Como alguém condena a procriação enquanto admite a sexualidade? Há evidência que sugere que os cátaros praticavam controle da natalidade e aborto. Quando Roma subssequentemente acusou os hereges de ‘práticas sexuais não naturais’ isso foi levado como se referindo a sodomia. Contudo, os cátaros, até onde sobrevivem registros, eram extremamente estritos em sua proibição de homossexualidade. Estas “práticas não naturais sexuais” podem bem ter se referido aos vários métodos de controle de nascimento e aborto. Conhecemos a posição de Roma hoje sobre estes assuntos. Não é difícil imaginar a energia e zelo vingativo com o qual esta posição teria sido posta em vigor na Idade Média.

Geralmente os cátaros parecem ter aderido a uma vida de extrema devoção e simplicidade. Deplorando as igrejas, eles geralmente realizavam os rituais deles e serviços ao ar livre ou em um edifício prontamente disponível como um celeiro, uma casa, uma prefeitura. Eles também praticavam o que hoje chamamos de meditação. Eles eram estritamente vegetarianos, embora comer peixe fosse permitido. E quando viajavam pelo interior, os Perfeitos sempre o faziam em pares, assim dando credencial aos rumores de sodomia patrocinados por seus inimigos. O Cerco de Montsegur, então foi o credo que varreu o Languedoc e províncias adjacentes em uma escala que ameaçou o próprio catoliscismo. Por um número de razões compreensíveis, muitos nobres achavam o credo atraente. Alguns aquiesceram sua tolerância geral. Alguns eram de qualquer modo anti-clericais. Alguns estavam desiludidos com a corrupção da Igreja. Alguns tinham perdido a paciência com o sistema de dizimos, pelo qual a renda de suas propriedades desaparecia para os cofres distantes de Roma. Então muitos nobres, em sua velhice, se tornaram Perfeitos. De fato, é estimado de 30% de todos os Perfeitos foram saidos da nobreza de Languedoc.

Em 1145, meio século antes da cruzada Albigense, o próprio São Bernardo tinha viajado a Laguedoc, pretendendo pregar para os hereges. Quando ele chegou, eles ficou menos surpreso com os hereges do que com a corrupção de sua própria Igreja. No que diz respeito aos hereges, São Bernardo foi claramente impressionado por eles. “Nenhum sermão é mais cristão do que o deles”, ele declarou, ‘e sua moral é pura”. Por 1200, é desnecesário dizer, Roma tinha ficado crescentemente alarmada com a situação, Nem ela estava inconsciente da inveja com a qual os barões do norte da Europa viam as ricas terras e as cidades do Sul. Esta inveja podia ser prontamente explorada e os senhores nortistas constituiriam as tropas invasoras da Igreja. Tudo que era necessário era alguma provocação, alguma desculpa para acender a opinião popular. Uma tal desculpa logo viria.

Em 14 de janeiro de 1208, um dos Legados Papais para Languedoc, Pierre de Castelnau, foi morto. O crime parece ter sido cometido por rebeldes anti-clericais sem qualquer afiliação cátara. Possuindo a desculpa que ela precisava, contudo, Roma não hesitou em culpar os cátaros. E de uma vez o Papa Inocente III ordenou uma Cruzada. Embora tivesse havido uma perseguição intermitente dos hereges por todo século anterior, a Igreja agora mobilizava forças a vontade. A heresia era para ser extirpada de uma vez por todas. Um exército maciço foi colocado sob o comando do Abade de Citeaux. As operações militares foram confiadas grandemente a Simon de Montfort, pai do homem que subsequentemente era para desempenhar um papel crucial na história inglesa. E sob a liderança de Simon os cruzados do Papa estabeleceram reduzir a mais alta cultura européia da Idade Média pela destruição e ruína. Neste sagrado empreendimento eles foram ajudados por um novo e útil aliado: um fanático espanhol chamado Dominic Guzman. Motivado por um ódio raivoso pela heresia, Guzman, em 1216, criou a ordem monástica subsequentemente chamada como ele, os Dominicanos. E em 1233 os Dominicanos lançaram a mais infame instituição da Santa Inquisição. Os cátaros não eram as únicas vítimas. Antes da Cruzada Albigense, muitos nobres de Languedoc especialmente das casas influentes de Trencavel e Toulouse tinham sido extremamente amigáveis com a grande população judia da região. Nem toda esta proteção e apoio foi retirado pela ordem. Em 1218  Simon de Montfort foi morto cercando Toulouse. Não obstante, a depredação do Languedoc continuou, com apenas breves pausas, por outros 25 anos. Por 1243, contudo, toda resistência organizada lá nunca tinha efetivamente cessado.

Por 1243 todos os maiores centros e bastiões cátaros tinham caído diante dos invasores do norte, exceto por um punhado de pontos fortes remotos e isolados. Principal entre eles estava a majestosa montanha cidadela de Montsegur, colocada como uma arca celestial acima dos vales subjacentes. Por dez meses Montsegur foi cercada pelos invasores, suportando assaltos repetidos e mantendo uma resistência tenaz. Ao longo, em março de 1244, o forte capitulou, e o Catarismo, ao menos ostensivamente, cessou de existir no sul da França. Em seu livro best-seller, Montaillou, por exemplo, Emmanuel Le Roy Ladurie, escrevendo extensamente sobre documentos do período, faz a crônica das atividades dos cátaros sobreviventes quase que meio século depois da queda de Montsegur. Pequenos enclaves de hereges continuaram a sobreviver nas montanhas, vivendo em cavernas, aderindo ao credo deles e movendo uma amarga guerrilha contra seus perseguidores. Em muitas áreas do Languedoc incluindo as cercanias de Rennes-le-Chateau a fé cátara é geralmente reconhecida ter persistido. E muitos escritores tem traçado subsequentes heresias européias a ramos do pensamento cátaro; os Waldesianos, por exemplo; os Hussitas, os Adamitas ou a Irmandade do Espírito Livre. Os Anabatistas e os estranhos Camisardos, números dos quais encontraram refúgio em Londres durante o início do século XVIII.

O Tesouro Cátaro

Durante a Cruzada Albigense e depois, uma mística que cresceu dos cátaros que ainda persiste hoje. Em parte isto pode ser derrubado pelo elemento do romance que rodeia qualquer causa trágica e perdida que de Bonnie Príncipe Charlie, por exemplo com um ilustre mágico, com uma amedrontadora nostalgia, com a “matéria da história’. Mas ao mesmo tempo, descobrimos, houve alguns mistérios reais associados aos cátaros. Conquanto as histórias possam ser exaltadas e romantizadas, um número de enigmas permaneceu. Um deles diz respeito a origem dos cátaros; e embora isto pareça ser um ponto acadêmico para nós, ele subsequentemente se provou de considerável importância.

Alguns historiadores recentes tem argumentado que os cátaros derivaram de Bogomils, uma seita ativa na Bulgária durante os séculos X e XI, cujos missionários migraram para o ocidente. Não há questão que os hereges de Languedoc incluiam um número de Bogomils. De fato um conhecido pregador Bogomil foi proeminente nos assuntos religiosos e políticos daquele tempo. E ainda que nossa pesquisa revelasse substancial evidência de que os cátaros não derivam dos Bogomils. Ao contrário, eles parecem representar o florescimento de algo já enraizado na França por séculos. Eles parecem ter se derivado, quase diretamente, de heresias estabelecidas e enraizadas na França desde o próprio advento da era cristã. Há outros mistérios, consideravelmente mais intrigantes, associados aos Cátaros.

Jean de Joinville, por exemplo, um velho homem escrevendo sobre seu conhecimento com Luis IX durante o século XIII escreve: “o Rei Luis IX uma vez me disse como vários homens dos Albigenses tinham ido ao Conde de Montfort… e pediram a ele para vir e olhar o corpo de Nosso Senhor, que tinha se tornado carne e sangue nas mãos de seu sacerdote”. Montfort, segundo a história, declarou que seu séquito podia ir se desejasse, mas ele continuaria a acreditar de acordo com os mandamentos da Santa Igreja. Não há elaboração ou explicação posterior deste incidente. O próprio Joinville meramente reconta a passagem. Mas o que vamos fazer deste enigmático convite? O que os Cátaros estavam fazendo? Que tipo de ritual estava envolvido? Deixando de lado a missa, que de qualquer modo os cátaros repudiavam, o que podia possivelmente fazer ‘o corpo de Nosso Senhor tornar-se carne e sangue…?’ Seja o que for que possa ter sido isso, há certamente algo perturbadoramente literal nesta declaração. Um outro mistério cerca o lendário ‘tesouro’ cátaro. É sabido que os Cátaros eram extremamente ricos. Tecnicamente, o credo deles os proibia de portar armas e embora muitos ignorassem esta proibição, permanece o fato de que grandes números de mercenários eram empregados com uma despesa considerável. Ao mesmo tempo, as fontes da riqueza Cátara, a aliança que eles tinham de poderosos proprietários de terras, por exemplo, eram óbvias e inexplicáveis.

Ainda que os rumores se elevassem, até mesmo durante o curso da Cruzada Albigense, de um fantástico tesouro místico cátaro, muito além da riqueza material. Seja o que for que fosse isso, este tesouro reputadamente foi mantido em Montsegur. Quando Montsegur caiu, contudo, nada de importância foi encontrado. Ainda que haja certos incidentes singulares ligados ao cerco e a capitulação da fortaleza. Durante o cerco, os atacantes superavam em número 10.000. Com esta vasta força de cercantes tentando rodear a inteira montanha, fechando todas as entradas e saídas e esperando matar de fome os defensores. A despeito de sua força numérica, contudo, eles não tinham suficiente poder humano para tornar seu cerco completamente seguro. Muitas tropas eram locais, sobretudo, e simpáticas aos cátaros. E muitas tropas simplesmente não eram confiáveis. Em consequência não era difícil passar indetectável pelas linhas dos atacantes. Havia muitas brechas entre os homens que entravam e saiam, e suprimentos encontravam seu caminho para a fortaleza. Os cátaros tomaram vantagem destas brechas. Em janeiro, quase três meses antes da queda da fortaleza, dois Perfeitos escaparam. Segundo narrativas confiáveis, eles levaram com eles o grosso da riqueza material dos Cátaros, uma carga de ouro, prata e moedas que eles levaram primeiro a uma caverna fortificada nas montanhas e de lá para um fortaleza em um castelo. Depois o tesouro desapareceu e nunca foi ouvido falar nele novamente. Em 1o. de março Montsegur finalmente capitulou. Mas então seus defensores eram menos de 400 entre os quais uns 150 ou 180 eram Perfeitos, o resto sendo cavaleiros, escudeiros, armadores e suas famílias. Foi garantido a eles termos surpreendentemente lenientes. Os homens combatentes eram para receber pleno perdão pelos seus crimes anteriores. Eles teriam permissão para partir com suas armas, bagagem e qualquer bem, inclusive dinheiro, que eles pudessem receber de seus empregadores. Os Perfeitos também receberam uma inesperada generosidade. Garantindo que eles abjurassem suas crenças heréticas e confessassem seus ‘pecados’ à Inquisição, eles seriam libertados e submetidos apenas a penitências leves.

Os defensores solicitaram uma trégua de duas semanas, com uma completa suspensão das hostilidades, para considerar os termos. Em uma apresentação posterior de generosidade não característica, os atacantes concordaram. Em troca os defensores voluntariamente ofereceram reféns. Foi combinado que se alguém tentasse escapar da fortaleza os reféns seriam executados. Estavam os Perfeitos tão comprometidos com sua crença que eles voluntariamente escolheram o martírio ao invés da conversão? Ou havia algo que eles não podiam ou ousavam – confessar a Inquisição? Seja qual for a resposta, nenhum dos Perfeitos, até onde é conhecido, aceitou os termos dos cercadores. Ao contrário, todos eles escolheram o martírio. Sobretudo, ao menos 20 dos outros ocupantes da fortaleza, seis mulheres e 15 homens combatentes, voluntariamente receberam o Consolamentum e se tornaram Perfeitos também, assim se condenando a morte certa. Em 15 de maio a trégua expirou. No amanhecer do dia seguinte, mais de 200 Perfeitos foram arrastados rispidamente montanha abaixo. Nenhum deles reconsiderou. Não havia tempo para levantar fogueiras individuais e assim eles foram trancados em uma grande pilha de madeiras no pé da montanha e queimados em massa. Confinada ao castelo, o restante da guarnição foi compelida a assistir. Eles foram avisados que se alguém tentasse escapar isso significaria a morte para todos eles, bem como para os reféns. A despeito dos riscos, contudo, a guarnição tinha combinado esconder os Perfeitos entre eles. E na noite de 16 de março estes quatro homens, acompanhados por um guia, fizeram uma escapada ousada novamente com o conhecimento e conluio da guarnição. Eles desceram a face ocidental da montanha, suspensos por cordas e deixando eles próprios cairem de mais de cem metros de uma vez. O que estavam estes homens fazendo? Qual era o propósito de sua escapada arriscada que afigurava tal risco para a guarnição e os reféns? No dia seguinte eles poderiam andar livremente fora da fortaleza, em liberdade para reassumir a vida deles. Ainda que por alguma razão desconhecida, eles embarcassem em uma perigosa escapada noturna que podia facilmente ter resultado na morte para eles próprios e seus colegas. Segundo a tradição, estes quatro homens levaram o legendário tesouro Cátaro.

Mas o tesouro cátaro havia sido retirado de Montsegur três meses antes. E quanto ‘tesouro’, em qualquer caso, quanto ouro, prata e moedas poderiam três ou quatro homens carregarem em suas costas, pendurados em cordas em um agudo lado montanhoso? Se os quatro fugitivos estavam de fato levando algo, pareceria claro que eles estavam levando algo mais do que riqueza material. O que poderia eles estarem carregando? Acessórios da fé cátara, talvez livros, manuscritos, ensinamentos secretos, relíquias, objetos religiosos de algum tipo; talvez algo que, por uma razão ou outra, não poderia cair em mãos hostis. Isto pode explicar porque a fuga foi realizada; uma fuga que envolvia tantos riscos para todos os envolvidos. Ms se algo de natureza tão preciosa tinha, a todos os custos, que ser preservado das mãos hostis, porque não foi retirado antes? Porque foi mantido na fortaleza até o último e perigoso momento? A data precisa da trégua nos permite deduzir uma possível resposta a estas perguntas. Tinha sido solicitado pelos defensores, que voluntariamente oferecerem reféns para obter isso. Por alguma razão os defensores consideraram isso necessário até mesmo embora tudo isso apenas retardasse o inevitável por meras duas semanas. Talvez, concluimos, tal demora fosse necessária para ganhar tempo. Nenhum tempo em geral, mas um tempo específico. Isto coincidiu com o equinócio da primavera – e o equinócio pode bem ter desfrutado de algum status ritual para os cátaros. Isso também coincidiu com a Páscoa. E ainda que isso seja conhecido como um festival de algum tipo foi realizado em 14 de março, o dia anterior a tregua expirar. Parece haver pouca dúvida que a trégua foi requisitada para que o festival pudesse ser realizado. E há pouca dúvida que o festival pudesse ser realizado em uma data aleatória. Aparentemente, tinha que ser em 14 de março. Seja o que fosse o festival, ele claramente causou alguma impressão em alguns mercenários, alguns dos quais, desafiando a morte inevitável, se converteram ao credo cátaro.

Este fato pode manter ao menos a chave parcial para o que foi levado de Montsegur duas noites mais tarde? Pode, seja o que for que tenha sido levado, então necessário, de algum modo, para o festival do dia 14 de março? Isso poderia de alguma forma ser instrumental em persuadir ao menos 20 dos defensores a se tornarem Perfeitos no último momento? E isso pode de algum modo ter assegurado o conluio da guarnição, até mesmo sob o risco das próprias vidas? Se a resposta é sim a todas estas perguntas, isso explicaria porque seja o que for que foi removido mais cedo em janeiro, por exemplo, quando o tesouro monetário foi levado para segurança. Isso teria sido necessário ao festival. E isso então teria que ser preservado de mãos hostis.  Na medida em que ponderamos estas conclusões, somos constantemente lembrados das histórias que ligam os cátaros e o Santo Gral. Não estamos preparados para ver o Gral como algo mais que um mito. Certamente não estamos preparados para avaliar se isto realmente existiu, nem podemos imaginar um cálice ou uma taça, que tenha ou não recebido o sangue de Jesus, que fosse tão precioso para os Cátaros para quem Jesus, em um importante grau, era incidental. Não obstante, as histórias continuaram a nos assaltar e nos deixar perplexos.

O pensamento elusivo, que parece haver alguma ligação entre os Cátaros e o inteiro culto do Gral como ele evoluiu durante os séculos XII e XIII. Um número de escritores tem argumentado que os romances do Gral – aqueles de Chretien de Troyes e Wolfram von Eschenbach, por exemplo, são uma interpolação do pensamento cátaro, oculto em um elaborado simbolismo, no coração da cristandade ortodoxa. Pode haver algum exagero nesta avaliação, mas há também alguma verdade. Durante a Cruzada Albigense os eclesiásticos fulminaram contra os romances do Gral, declarando-os perniciosos, se não hereges. E em alguns desses romances há passagens isoladas que não são apenas altamente não ortodoxas, mas muito inconfundivelmente dualistas, ou em outras palavras, cátara. O que é mais, Wolfram von Eschenbach, em um dos seus romances do Gral, declara que o castelo do Gral era situado nos Pirineus; uma avaliação que Richard Wagner, em qualquer nível, tomaria literalmente. Segundo Wolfram, o nome do castelo do Gral era Munsalvaesche, uma versão germanizada aparentemente de Montsalvat, um termo cátaro. E em um dos poemas de Wolfram o senhor do castelo do Gral era Perilla. Muito interessantemente, o senhor de Montsegur era Raimon de Pereille cujo nome, em sua forma latina, aparece nos documentos do período como Perilla.

Se tais surpreendentes coincídências persistiram nos assombrando, eles podem ter também, concluimos, ter assombrado Sauniere que era, afinal, conhecedor das histórias e folclore da região. E como qualquer outro nativo da região, Sauniere pode ter estado constantemente ciente da proximidade de Montsegur, cujo destino trágico ainda domina a consciência local. Mas para Sauniere a própria proximidade do forte pode bem ter compreendido certas implicações práticas. Algo havia sido retirado de Montsegur exatamente depois que a trégua expirou. Segundo a tradição, os quatro homens que escaparam da cidadela condenada levaram com eles o tesouro cátaro, como o ‘tesouro’ que Sauniere descobriu, tem consistido primariamente em um segredo? Pode este segredo estar relacionado, de algum modo inimaginável, a algo que se tornou conhecido como o Santo Gral? Parece inconcebível para nós que os romances do Gral possam ser considerados literalmente. Em qualquer caso, seja o que for que foi retirado de Montsegur tinha que ser levado para algum lugar. Segundo a tradição, ele foi levado para as cavernas fortificadas de Orlonac em Ariege, onde um bando de cátaros foi exterminado pouco depois. Mas nada além de esqueletos tem sido encontrado em Orlonac. Por outro lado, Rennes-le-Chateau está apenas a meio dia a cavalo de Montsegur. Seja o que for que foi retirado de Montsegur bem pode ter sido levado a Rennes-le-Chateau, ou, mais provavelmente, para uma das cavernas que abundam nas montanhas adjacentes. E se o ‘segredo’ de Montsegur foi o que subsequentemente Sauniere descobriu, isto obviamante explicaria uma grande parte. No caso dos cátaros, como com Sauniere, a palavra ‘tesouro’ parece ocultar algo mais de conhecimento ou informação de algum tipo. Dada a tenaz aderência dos cátaros ao seu credo e sua antipatia militante por Roma, imaginamos se tal conhecimento ou informação [assumindo que ela existiu] se relacionava de algum modo a cristandade – as doutrinas e teologia da cristandade, talvez sua história e origens. Se isso era possível, em resumo, o que os cátaros [ou ao menos certos cátaros] sabiam algo – algo que contribuiu para o fervor frenético com que Roma buscou o exterminio deles? O sacerdote que havia nos escrito tinha se referido a uma ‘prova incontroversa’. Poderia tal ‘prova’ ter sido conhecida pelos cátaros? A este tempo, não podemos apenas especular preguiçosamente. E a informação sobre os cátaros em geral é pouca e isso evita até mesmo uma hipótese funcional. Por outro lado nossa pesquisa sobre os cátaros tinha repetidamente impingido um outro assunto, até mesmo mais enigmático e misterioso e cercado de histórias evocativas. Este assunto era o dos Cavaleiros Templários. Portanto foram os Templários para onde a seguir dirigimos nossa investigação. E foi com os Templários que nossas buscas começaram a oferecer documentação concreta e o mistério começou a assumir proporções muito maiores do que nós podiamos ter imaginado.

Os Monges Guerreiros

Pesquisar os Cavaleiros Templários provou-se uma tarefa assustadora. A volumosa quantidade de material escrito devotada ao assunto era intimidante; e de início não podiamos estar certos de quanto desse material era confiável. Se os Cátaros tinham engendrado um reboliço de história mística e romantica, a mistificação cercando os Templários era até mesmo maior. Em um nível, eles estavam bastante familiriarizados para nós, os fanaticamente ferozes monges-guerreiros, cavaleiros místicos vestidos em um manto branco com uma cruz vermelha, que desempenharam um papel tão crucial nas Cruzadas. Aqui, em algum sentido, eram os cruzados arquetípicos as tropas de choque da Terra Santa, que combateram e morreram heroicamente por Cristo, aos milhares. Ainda que muitos escritores, até mesmo hoje, os vissem como uma instituição muito mais misteriosa, uma ordem essencialmente secreta, com intento em intrigas obscuras, maquinações clandestinas, sombrias conspirações e projetos. E lá permaneceu um fato preplexante e inexplicável. No fim da carreira deles de dois séculos, estes campeões vestidos de branco de Cristo foram acusados de negar e repudiar Cristo, de pisar e cuspir na cruz. No Ivanhoé de Scott, os Templários são apresentados como tiranos arrogantes e presunçosos, déspotas cobiçosos e hipócritas sem vergonha abusando de seu poder, manipuladores cobiçosos orquestrando os assuntos de homens e reinos. Em outros escritores do século XIX eles são apresentados como vis satanistas, adoradores do diabo, praticantes de todos os modos de obscenos, abomináveis e/ou heréticos ritos. Historiadores mais recentes tem estado inclinados a os verem como vítimas infelizes, peões sacrificiais nas manobras políticas de alto nível da Igreja e do Estado. E ainda havia outros escritores, especialmente na tradição da Livre Maçonaria, que viam os Templários como adeptos místicos e iniciados, guardiães de uma sabedoria arcana que transcende a própria cristandade. Seja qual for a tendência ou orientação particular de tais escritores, ninguém discute o zelo heróico dos templários ou a contribuição deles para a história. Nem há qualquer questão que a ordem deles é uma das mais glamurosas e enigmáticas instituições nos anais da cultura ocidental.

Nenhuma narrativa das Cruzadas ou, por este assunto, da Europa durante os séculos XII e XIII negligenciará em mencionar os Templários. Em seu zênite, eles eram a mais poderosa e influente organização da inteira cristandade, com a única possível exceção do Papado. E ainda que certas perguntas assustadoras permaneçam. Quem e o que eram os Cavaleiros Templários? Eles eram meramente o que pareciam ser, ou eram algo mais? Eles eram simples soldados sobre os quais uma aura de lenda e mistificação foi subsequentemente desenhada? Se assim o era, porque? Alternativamente havia um genuíno mistério ligado a eles? Pode haver algum fundamento para os posteriores embelezamentos do mito? Primeiro consideramos as narrativas aceitas dos Templários as narrativas oferecidas por historiadores respeitados e responsáveis. Em virtualmente cada ponto estas narrativas levantaram mais perguntas do que responderam. Elas não apenas desabavam sob exame, mas sugeriam algum tipo de ‘acobertamento’. Não podemos escapar da suspeita que algo havia sido deliberadamente ocultado e uma ‘história cobertura’ fabricada, que mais tarde os historiadores meramente repetiram.

Até onde geralmente é sabido, a primeira informação histórica sobre os Templários é fornecida por um historiador franco, Guillaume de Tyre, que escreveu entre 1175 e 1185. Este foi o pico das Cruzadas, quando os exércitos ocidentais já haviam conquistado a Terra Santa e estabelecido o Reino de Jerusalém ou, como isso foi chamado pelos próprios Templários, “Outremer”, ‘A Terra Alem do Mar’. Mas ao tempo que Guillaume de Tyre começou a escrever, a Palestina tinha estado em mãos ocidentais por 70 anos, e os Templários já estavam em existência por mais de 50 anos.  Guillaume estava portanto escrevendo sobre eventos que antederam seu próprio período de vida, eventos que ele não tinha testemunhado ou vivenciado ou vivenciado pessoalmente, mas que havia aprendido de uma segunda ou mesma terceira mão. Em segunda ou terceira mão e, sobretudo, com base em uma autoridade incerta. Não houve cronistas ocidentais entre 1127 e 1144. Então não há registros escritos sobre estes anos cruciais. Não sabemos, em resumo, quanto das fontes de Guilhaume, isso pode muito bem chamar algumas de suas declaraões em questão. Ele pode ter se guiado pela palavra popular, em nenhuma tradição oral confiável. Alternativamente, ele pode ter consultado os próprios Templários e recontado o que eles disseram a ele. Se isso assim o é, isso significa que ele estava relatando apenas  o que os Templários queriam que ele relatasse. Garantidamente, Guilhaume nos fornece certa informação básica;  e esta é a informação sobre a qual todas as narrativs subsequentes dos Templários, todas as explicações sobre sua fundação, todas as narrativas sobre suas atividdes, tem sido baseadas. Mas por causa da imprecisão e superficialidade de Guilhaume, por causa do tempo quando ele escreveu, por causa da morte das fontes documentadas, ele constitui uma base precária sobre a qual construir uma figura definitiva. As cronicas de Guilhaume são certamente úteis. Mas é um erro e um que muitos historiadores tem sucumbido em ve-las como impugnável e completamente acuradas. Até mesmo as datas de Guilhaume, como ressalta Sir Steven Runciman, ‘são confusas e as vezes demonstravelmente erradas’.

Segundo Guillaume de Tyre, a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão foi fundada em 1118. Seu fundador é dito ser Hugues de Payen, um nobre de Champagne e vassalo do Conde de Champagne. Um dia Hugues, sem solicitação, apresentou-se com oito camaradas no palácio do Rei Bauduino, Rei de Jerusalém, cujo irmão mais velho, Godfroi de Bouillon, tinha capturado a Cidade Santa dezenove anos antes. Bauduino parece te-los recebido muito cordialmente, como o fez o Patriarca de Jerusalém, o líder religioso do novo reino e emissário especial do Papa. O objetivo declarado dos Templários, continua Guillaume de Tyre, era, “até onde sua força permitisse, eles deviam manter as estradas e caminhos seguros… com especial consideração pela proteção dos romeiros”. Tão digno era este objetivo aparentemente que o Rei colocou uma ala inteira do palácio real a disposição dos Cavaleiros. E, a despeito de seu declarado voto de pobreza, os cavaleiros se moveram para as belas acomodações. Segundo a tradição, seus aposentos eram construídos sobre as fundações do antigo Templo de Salomão, e disto a Ordem principiante derivou seu nome. Por nove anos, nos conta Guillaume de Tyre, os novos Cavaleiros não admitiram novos candidatos em sua Ordem. Eles ainda supostamente estavam vivendo em pobreza, a tal pobreza que o selo oficial mostra dois cavaleiros montados em um único cavalo, implicando não apenas a fraternidade deles, mas também a penúria que impossibilitou montarias separadas. Este estilo de selo é frequentemente visto como o mais distintivo e famoso emblema dos Templários, descendendo dos primeiros dias da Ordem. Contudo, ele realmente data de um século completo depois, quando os Templários dificilmente eram pobres se, de fato, eles até mesmo o foram.

Segundo Guillaume de Tyre, escrevendo meio século depois, os Templários foram criados em 1118 e se mudaram para dentro do palácio do rei presumivelmente navegando daqui ´para proteger romeiros nas estradas e caminhos da Terra Santa’. E ainda que houvesse, a este tempo, um historiador real oficial, empregado pelo rei. Seu nome era Fulk de Chartres, e ele estava escrevendo não apenas 50 anos depois da suposta fundação da Ordem, mas durante os mesmos anos em questão. Muito curiosamente, Fulk de Chartres não faz qualquer menção a Hugues de Payen, aos companheiros de Hugues ou qualquer coisa até mesmo remotamente ligada aos Cavaleiros Templários. De fato há um estrondoso silêncio sobre as atividades dos Templários durante os dias iniciais de sua existência. Certamente não há registro em qualquer lugar nem até mesmo mais tarde sobre eles fazerem algo para proteger os romeiros. E não se pode senão imaginar como tão poucos homens poderiam esperar cumprir tal tarefa gigantesca auto-imposta. Nove homens para proteger os romeiros em todas as  passagens da Terra Santa? Apenas nove? E todos os romeiros? Se este fosse o objetivo deles, poder-se-ia certamente esperar que eles dessem boas vindas a novos recrutas. Ainda que, segundo Guillaume de Tyre, eles não admitissem novos candidatos na Ordem por nove anos. Nem ao menos, dentro de uma década a fama dos Templários parece ter se espalhado de volta a Europa. As autoridades eclesiásticas falavam altamente sobre eles e exaltavam sua tarefa cristã. Por 1128, ou pouco depois, um trato louvando suas virtudes e qualidades foi emitido por não menos uma pessoa que São Bernardo, o Abade de Clairvaux e o portavoz principal para a cristandade.

O trato de Bernardo ‘Em Louvor da Nova Cavalaria” declara os Templários serem o epítomo e a apoteose dos valores cristãos. Depois de nove anos, em 1127, a maioria dos nove Cavaleiros retornou a Europa em uma boa vinda triunfal, orquestrada em grande parte por São Bernardo. Em janeiro de 1128 um Concílio da Igreja se reuniu na côrte de Troyes do Conde de Champagne, o senhor de ligação de Hugues de Payen ao qual Bernardo era novamente o espírito guia. Neste Concílio os Templários foram oficialmente reconhecidos e incorporados como um Ordem religiosa militar. Hugues de Payen recebeu o título de Grão Mestre. Ele e seus subordinados eram para ser monges guerreiros, soldados místicos, combinando a disciplina austera do claustro com um zelo marcial supremo ao fanatismo; uma milícia de Cristo, como eles eram chamados naquele tempo. E foi novamente São Bernardo que ajudou a desenhar, com um prefácio entusiástico, a regra de conduta pela qual os cavaleiros adeririam a uma regra baseada naquela da ordem monástica cisterciana, na qual o próprio Bernardo era de influência dominante. Os Templários juravam pobreza, castidade e obediência. Eles eram obrigados a cortar o cabelo mas proibidos de cortar suas barbas, assim se distinguindo em uma era onde a maioria dos homens tinha a barba feita. Dieta, roupas e outros aspectos da vida diária eram estritamente regulados de acordo com as rotinas monástica e militar. Todos os membros da Ordem eram obrigados a vestir hábitos brancos, ou sobrecasacas e batinas, e estas logo evoluiram em um distintivo manto branco pelo qual os Templários se tornaram famosos. É garantido que ninguém vista hábitos brancos, ou tenham mantos brancos, exceto… os Cavaleiros de Cristo. Assim declarada a regra da Ordem, que elaborou o significado simbólico desta veste. Para todos os cavaleiros professos, tanto no inverno quanto no verão, damos, se eles podem ser procurados, vestimentas brancas, que aqueles que tem lançado atrás deles uma vida escura possam saber que eles eram dedicados ao seu Criador para uma vida pura e branca.

Além destes detalhes, a regra estabeleceu uma frouxa hierarquia e aparato administrativo, E o comportamento no campo de batalha era estritamente controlado. Se capturados, por exemplo, os Templários não tinham permissão para pedir misericórdia ou resgatar eles próprios. Eles eram compelidos a lutar até a morte. Eles não tinham permissão para recuar, a menos que as hordas contra eles excedessem três por um. Em 1139 uma Bula Papal foi emitida pelo Papa Inocente II, um antigo monge cisterciano em Clairvaux e protegido de São Bernardo. Segundo esta Bula, os Templários não deviam obediência a nenhum poder eclesiástico ou secular outro do que aquele do próprio Papa. Em outras palavras, eles foram deixados completamente independentes de todos os reis, príncipes e prelados, e toda interferência de ambas autoridades políticas e religiosas. Eles tinham se tornado, de fato, uma lei para eles mesmos, um império internacional autonomo. Durante as duas décadas que se seguiram ao Concílio de Troyes, a Ordem se expandiu com extraordinária rapidez e em uma escala extraordinária. Quando Hugues de Payen visitou a Inglaterra em 1128, ele foi recebido com “grande veneração’ pelo Rei Henrique I. Por toda Europa, os filhos mais novos das famílias nobres se alistaram nas fileiras da Ordem, e vastas doações em dinheiro, bens, e terra foram feitas para cada parte da cristandade. Hugues de Payen doou suas propriedades e todos os novos recrutas foram obrigados a fazerem o mesmo. Na admissão na Ordem, um homem era compelido a assinar doando todas as suas posses. Dado tais políticas, não é surpreendente que os bens dos Templários proliferassem.

Dentro de uns meros doze meses do Concílio de Troyes, a Ordem tinha propriedades substanciais na França, Inglaterra, Escócia, Flandres, Espanha e Portugal. Dentro de uma outra década, ela também tinha território na Itália, Áustria, Alemanha, Hungria a Terra Santa e pontos do oriente. Embora os cavaleiros individuais fossem ligados ao seu voto de pobreza, isto não evitou que a Ordem reunisse riqueza, e em uma escala sem precedentes. Todas as doações eram benvindas. Ao mesmo tempo, a Ordem era proibida de dispor de qualquer coisa até mesmo para resgatar seus líderes. O Templo recebia em abundância mas, como uma matéria de política estrita, ele nunca dava.

Quando Hugues de Payen voltou a Palestina em 1130, entretanto, com uma entourage bem considerável para aquele tempo de uns 300 cavaleiros, ele deixou para trás, sob a custódia de outros recrutas, vastas áreas de território europeu. Em 1146 os Templários adotaram a famosa cruz vermelha. Com este símbolo gravado em seus mantos, os Cavaleiros acompanharam o Rei Luis VII da França na Segunda Cruzada. Aqui eles estabeleceram sua reputação de zelo marcial acoplado a uma quase insana ousadia, e uma feroz arrogância também. Como um todo, contudo, eles eram magnificamente disciplinados – a mais disciplinada força combatente no mundo naquele tempo. O próprio Rei francês escreveu que foram apenas os Templários que evitaram que a Segunda Cruzada – mal concebida e mal gerenciada -, se degenerasse em um debacle total. Durante os próximos cem anos os Templários se tornaram um poder com influência internacional. Eles estavam constantemente engajados em uma diplomacia de alto nível entre nobres e monarcas pelo mundo ocidental e a Terra Santa. Na Inglaterra, por exemplo, o Mestre do Templo era regularmente chamado ao Parlamento do rei, e era visto como chefe de todas as ordens religiosas, tedo precedência sobre todos priores e abades na terra. Mantendo ligações estreitas com Henrique II e Thomas a Becket, os Templários foram instrumentais em tentar reconciliar o soberano e seu estranho arcebispo. Sucessivos reis ingleses, incluindo o Rei João, frequentemente residiram no preceptório do Templo em Londres, e o Mestre da Ordem permaneceu do lado do monarca ao assinar a Carta Magna.

Nem era o envolvimento político da Ordem confinado apenas a cristandade. Ligações estreitas foram construídas com o mundo muçulmano bem como o mundo tão frequentemente oposto ao campo de batalha e os Templários comandavam um respeito pelos líderes sarracenos que excedia o que era aceito por qualquer europeu. Ligações secretas também eram mantidas com os Hashishim ou Assassinos, a famosa seita de adeptos militantes e frequentemente fanáticos que eram o equivalente islâmico dos Templários. Os Hashishim pagavam tributo aos Templários e eram murmurados estarem a serviço deles. Em quase toda a política a Inglaterra ousou desafia-los, ameaçando confiscar os domínios deles. “Vocês Templários… tem tantas liberdades e cartas que suas possessões enormes os tornam cheios de orgulho e arrogância. O que foi imprudentemente dado deve entretanto ser prudentemente revogado; e o que foi inconsideradamente doado deve ser consideradamente tomado. ” O Mestre da Ordem respondeu, “O que dizes, Oh Rei? Longe esteja que vossa boca deva expressar uma palavra tão tola e desagradável. Tanto quanto vós deves exercer a justiça, vós reinareis. Ms se vós infrigis isso, cessará de ser Rei”. É difícil aceitar para a mente moderna a enormidade e a audácia desta declaração. Implicitamente o Mestre está tomando para sua Ordem e ele próprio o poder que nem até mesmo o Papado ousou explicitamente afirmar de fazer ou depor monarcas. Ao mesmo tempo, os interesses dos Templários se estendem além da guerra, diplomacia e intriga política. De fato eles criaram e estabeleceram a instituição dos bancos modernos. Ao emprestar vastas somas aos monarcas destituídos eles se tornaram os banqueiros para cada trono na Europa e para certos potentados muçulmanos também. Com sua rede de preceptórios por toda Europa e Oriente Médio, eles também organizaram, em modestas taxas de juros, a tranferência segura e eficiente de dinheiros para os mercadores do comércio, uma classe que se tornou crescentemente dependente deles.

O dinheiro depositado em uma cidade, por exemplo, podia ser pedido e retirado em outra, por meio de notas promissórias inscritas em intrincados códigos. Os Templários assim se tornaram os primários trocadores de dinheiro da era, e o preceptório de Paris se tornou o centro das finanças européias. É até mesmo provável que o cheque, como o conhecemos e usamos hoje, tenha sido inventado pela Ordem. E os Templários não comerciavam apenas em dinheiro, mas em pensamento também. Por meio de seu mantido e simpático contacto com as culturas islâmica e judaica, eles vieram a atuar como uma câmara de compensação para novas idéias, novas dimensões de conhecimento, novas ciências. Eles desfrutavam de um real monopólio sobre a melhor e mais avançada tecnologia de sua era, a melhor que podiam produzir os armeiros, trabalhadores em couro, pedreiros, arquitetos militares e engenheiros. Eles contribuiram para o desenvolvimento da vigilância, feitura de mapas, construção de estradas e navegação. Eles possuiam seus próprios portos marítimos, estaleiros e frotas comercial e militar, que estavam entre as primeiras a usar a bússola magnética. E como soldados, a necessidade de tratar de ferimentos e doenças os tornou adeptos do uso de drogas. A Ordem mantinha seus próprios hospitais com seus próprios médicos e cirurgiões cujo uso do extrato do mofo sugere um entendimento das propriedades dos antibióticos. Princípios modernos de higiene e limpeza eram compreendidos. E com uma compreensão também antecipada de seu tempo, eles viam a epilepsia não como uma possessão demoníaca mas como uma doença controlável. Inspirados por suas próprias realizações, o Templo na Europa se desenvolveu crescentemente rico, poderoso e complacente. Talvez não surpreendentemente, ele também ficou cada vez arrogante, brutal e corrupto. Beber como um Templário se tornou um clichê naquele tempo. E certas fontes avaliam que a Ordem estabeleceu um ponto ao recrutar cavaleiros excomungados. Mas enquanto os Templários atingiam prosperidade e notoriedade na Europa, a situação na Terra Santa tinha se deteriorado seriamente.

Em 1185 o Rei Bauduino IV de Jerusalém morreu. Na disputa dinástica que se seguiu, Gerard de Ridefort, o Grão Mestre do Templo, traiu um juramento feito ao monarca morto, e portanto colocou a comunidade européia na Palestina para trazer uma guerra civil. Nem foi esta a unica ação questionável de Ridefort. Sua atitude de cavaleiro em relação aos Sarracenos precipitou a ruptura de uma trégua de longo tempo, e provocou um novo ciclo de hostilidades. Então, em julho de 1187, Ridefort liderou seus cavaleiros, juntamente com o resto do exército cristão, em uma batalha áspera, mal concebida e, como transpirou, desastrosa em Hattin. As forças cristãs foram virtualmente aniquiladas; e dois meses depois Jerusalém foi capturada por mãos sarracenas. Durante o século seguinte a situação se tornou crescentemente sem esperança. Por 1291 quase todo Outremer havia caído, e a Terra Santa estava quase que completamente sob controle muçulmano. Somente Acre permanecia, e em maio de 1291 esta última fortaleza foi perdida também. Ao defenderem a cidade condenada, os Templários se mostraram mais heróicos. O próprio Grão Mestre, embora severamente ferido, continuou a lutar até sua morte. Como havia apenas espaço limitado nas galés da Ordem, apenas mulheres e crianças foram evacuadas, enquanto todos os cavaleiros, até mesmo os feridos, escolheram permanecer para trás. Quando o último bastião em Arce caiu, ele o fez com intensidade apocalíptica, as paredes desabando e enterrando atacantes e defensores igualmente.

Os Templários estabeleceram sua nova sede em Chipre; mas com a perda da Terra Santa, eles efetivamente haviam sido privados de sua razão de ser. Como não mais havia terras de infiéis a conquistar, a Ordem começou a voltar sua atenção para a Europa, esperando encontrar lá uma justificativa para sua continuada existência. Um século antes, os Templários haviam presidido a fundação de uma outra ordem cavaleiresca, religiosa-militar, os Cavaleiros Teutônicos. Os últimos eram ativos em pequenos números no Oriente Médio, mas por meados do século XIII tinham voltado sua atenção para as fronteiras a nordeste da cristandade. Aqui eles tinham escavado uma principalidade independente para eles próprios, a Ordenstoat ou Ordensland, que abrangia quase todo o Báltico oriental. Nesta principalidade que se estendia da Prússia ao Golfo da Finlândia e o que é agora solo russo os Cavaleiros Teutônicos desfrutavam de uma soberania não desafiada, muito longe do controle secular e eclesiástico. Para a própria inserção do Ordenstaat, os Templários tinham invejado a independência e a imunidade desta ordem similar. Depois da queda da Terra Santa, eles pensavam crescentemente em um Estado seu próprio no que eles exercessem a mesma autoridade irrestrita e autonomia dos Cavaleiros Teutônicos. Diferente dos Cavaleiros Teutônicos, contudo, os Templários não estavam interressados na selvageria ríspida da Europa Oriental. Por agora eles estavam acostumados demais com o luxo e a opulência. Consequentemente, eles sonhavam em fundar seu Estado em um solo mais acessível e congenial como o de Languedoc. De seus anos mais iniciais, O Templo havia mantido um certo entendimento caloroso com os Cátaros, especialmente no Languedoc. Muitos ricos proprietários de terras, eles próprios cátaros ou simpáticos aos cátaros, tinham doado grandes áreas de terra à Ordem. Segundo um escritor recente, ao menos um dos co-fundadores do Templo era um cátaro. Isto parece de certa forma improvável, mas está além de qualquer discussão que Bertrand de Blachefort, o quarto Grão Mestre da Ordem, veio de uma família cátara. Quarenta anos depois da morte de Bertrand, seus descendentes estavam lutando lado a lado com outros senhores cátaros contra os invasores nortistas de Simon de Montfort.

Durante a Cruzada Albigense, os Templários ostensivamente permaneceram neutros, se confinando no papel de testemunhas. Ao mesmo tempo, todavia, o Grão Mestre daquele tempo parece ter deixado clara a posição da Ordem quando declarou que havia apenas uma Cruzada, a cruzada contra os sarracenos. Sobretudo, um exame cuidadoso das narrativas contemporaneas revela que os Templários forneceram abrigo a muitos refugiados cátaros. Na ocasião, eles parecem ter tomado armas em benefício dos refugiados cátaros. E uma inspeção dos pergaminhos da Ordem na direção do início da Cruzada Albigense revela um maior influxo de cátaros nas fileiras do Templo onde nem mesmo os cruzados de Simon Montfort ousariam desafia-los. De fato, os pergaminhos dos Templários do período mostram que uma proporção significante dos dignatários de alto escalão da Ordem eram de familias cátaras. No Templo de Languedoc os oficiais eram mais frequentemente cátaros do que catolicos. E o que é mais, os nobres cátaros que se alistaram no Templo não pareciam ter se movido sobre o mundo como muitos de sua irmandade católica. Ao contrário, eles pareciam ter permanecido pela maior parte no Languedoc, assim criando para o Ordem uma base duradoura e estável na região. Em virtude de seu contacto com as culturas islâmica e judaica, os Templários já haviam absorvido muitas grandes idéias diferentes da cristandade romana ortodoxa. Os Mestres Templários, por exemplo, frequentemente empregavam secretários árabes, e muitos Templários, tendo aprendido o árabe no cativeiro, eram fluentes na lingua. Uma estreita compreensão foi também mantida com as comunidades judaicas, interesses financeiros e erudição. Pelo influxo de recrutas cátaros, eles agora também estavam expostos ao dualismo gnóstico se, de fato, eles realmente tivessem sido estranhos a isso.

Por 1306 Felipe, o Belo da França estava agudamente ansioso de livrar seu território dos Templários. Eles eram arrogantes e ingovernáveis. Eles eram eficientes e altamente treinados, uma força militar profissional muito mais forte e melhor organizada do que qualquer uma que ele próprio pudesse reunir. Eles estavam firmemente estabelecidos pela França, e por este tempo até mesmo a obediência ao Papa era apenas nominal. Felipe não tinha controle sobre a Ordem. Ela possuia o dinheiro dele. Ele havia sido humilhado quando, fugindo de uma multidão rebelada em Paris, ele foi obrigado a buscar o abjeto refúgio no preceptório do Templo. Ele invejava a imensa riqueza dos Templários, que sua residência em seus territórios tornou mais flagrantemente aparente para ele. E, tendo se aplicado para se unir a Ordem como postulante, ele sofreu a indignidade de ser claramente rejeitado. Estes fatos juntos, com certeza, com a alarmente perspectiva de um Estado Templário independente em sua porta de trás foi suficiente para estimular o rei à ação. E heresia era uma desculpa conveniente. Felipe primeiro tinha que aliciar a cooperação do Papa, ao qual, na teoria a qualquer nível, os Templários deviam fidelidade e obediência, Entre 1303 e 1305, o rei francês e seus ministros engendraram o rapto e morte de um Papa [Bonifácio VIII] e bem possivelmente o assassinato por veneno de um outro [Benedito XI]. Então, em 1305, Felipe gerenciou para assegurar a eleição de seu próprio candidato, o arcebispo de Bordeaux, para o trono papal vago. O novo pontífice tomou o nome de Clemente V. Em débito como ele estava com a influência de Felipe, ele dificilmente poderia recusar as exigências do rei. Felipe planejou cuidadosamente seus movimentos. Uma lista de acusações foi compilada, parcialmente dos espiões do rei que haviam infiltrado a Ordem, parcialmente de confissões voluntárias de um alegado Templário renegado. Armado com estas acusações, Felipe fez o último movimento; e quando ele enviou sua explosão, ela foi súbita, eficiente e letal. Em uma operação de segurança digna da SS e da Gestapo, o rei emitiu ordens secretas e lacradas aos seus senescais pelo interior. Estas ordens eram para ser abertas em todos os lugares simultaneamente e implementadas de uma vez. No amanhecer da sexta feira, 13 de outubro de 1307, todos os Templários na França eram para serem aprisionados e colocados sob prisão pelos homens do rei, seus preceptórios colocados sob sequestro real, seus bens confiscados.

Mas embora o objetivo de surpresa de Felipe possa ter sido alcançado, seu interesse primário na fortuna imensa da Ordem o enganou. Ela nunca foi encontrada, e o que se tornou o fabuloso tesouro dos templários tem permanecido um mistério. De fato é duvidoso se o ataque de surpresa à Ordem foi tão inesperado como ele, ou os historiadores subsequentes, acreditaram. Há considerável evidência a sugerir que os Templários foram avisados antecipadamente. Logo antes das prisões, por exemplo, o Grão Mestre, Jacques de Molay, pediu que muitos dos livros e regras fossem então queimados. Um cavaleiro que se retirou da Ordem naquele tempo foi dito pelo tesoureiro que ele estava sendo extremamente sábio e que a catástrofe era iminente. Uma nota oficial foi circulada em todos os preceptórios franceses, ressaltando que nenhuma informação a respeito dos costumes e rituais da Ordem tinha sido divulgada. De qualquer modo, se os templários foram avisados antecipadamente ou se eles deduziram o que estava no vento, certas precauções foram tomadas definitivamente. Em qualquer caso, os cavaleiros que foram capturados parecem terem se submetido passivamente, como se houvessem recebido instruções para assim o fazer. Em nenhum ponto há qualquer registro da Ordem na França resistindo ativamente aos senescais do rei. Em segundo lugar, há evidência persuasiva de algum tipo de fuga organizada por um grupo particular de cavaleiros virtualmente todos os quais de algum modo estavam ligados ao Tesoureiro da Ordem. Portanto, talvez não seja surpreendente, que o tesouro do Templo, juntamente com quase todos seus documentos e registros, deva ter desaparecido. Rumores persistentes mas não substanciados falam do tesouro sendo contrabandeado de noite do preceptório de Paris, pouco antes das prisões. Segundo estes rumores, ele foi transportado por vagões para a costa presumidamente para a base naval da Ordem em La Rochelle e carregado em 18 galés, e nunca foi ouvido falar dele novamente. Se isso é verdade ou não, pareceria que a frota dos Templários escapou dos guardas do rei porque não há relatos de qualquer navio da Ordem ter sido tomado. Ao contrário, estes navios parecem ter desaparecido totalmente, junto com seja o que for que eles estivessem transportando. Na França os Templários presos foram julgados e alguns submetidos a tortura. Estranhas confissões foram extraídas e até mesmo acusações mais estranhas feitas.

Rumores amargos começaram a circular pelo país. Os Templários supostamente veneravam um diabo chamado Baphomet. Em suas cerimônias secretas eles supostamente se prostravam diante de uma cabeça barbada masculina, que falava com eles e os investia de poderes ocultos. Testemunhas não autorizadas destas cerimônias nunca foram vistas novamente. E havia outras acusações também, que eram até mesmo mais vagas; de infanticídio, de ensinar as mulheres como abortar, de beijos obscenos na iniciação de postulantes; de homossexualidade. Mas de todas as acusações levantadas contra estes soldados de Cristo, que haviam lutado e dedicado suas vidas a Cristo, uma parece a mais bizarra e aparentemente improvável. Eles foram acusados de ritualmente negarem Cristo, de repudiarem, pisarem e cuspirem na cruz. Na França, ao menos, o destino dos Templários foi efetivamente selado. Felipe atormentou-os selvagemente e sem misericórdia.  Muitos foram queimados, muitos mais aprisionados e torturados. Ao mesmo tempo o rei continuou a intimidar o Papa, exigindo até mesmo medidas mais restritivas contra a Ordem. Depois de resistir por um tempo, o papa abriu mão em 1312, e os Cavaleiros Templários foram oficialmente dissolvidos sem um veredito conclusivo de culpa ou inocência ter sido até mesmo produzido.

Mas nos domínios de Felipe, os julgamentos, inquéritos e investigações continuaram por outros dois anos. No final, em março de 1314, Jacques de Molay, o Grão Mestre e Geoffroi de Charnay, Preceptor da Normandia, foram queimados até a morte um fogo brando. Com a execução deles, a Ordem ostensivamente desapareceu desta parte da história. Dado ao número de cavaleiros que escaparam, que permaneceram de fora ou que eram conhecidos, seria surpreendente se tivesse. Não obstante, a Ordem não deixou de existir.  Felipe havia tentado influenciar seus companheiros monarcas, esperando portanto assegurar que nenhum Templário na cristandade fosse poupado. De fato, o zelo do rei a este respeito é quase suspeito. Pode-se talvez compreende-lo querer se livrar em seus próprios domínios da presença da Ordem, mas é muito menos claro porque ele deve ter tido tal intento de exterminar os Templários em outros lugares. Certamente ele próprio não era um modelo de virtudes; e é difícil imaginar um monarca que providenciasse a morte de dois Papas sendo genuinamente preocupado pelas infrações à fé. Felipe simplesmente temia a vingança se a Ordem permanecesse intacta fora da França? Em qualquer caso, sua tentativa de eliminar os Templários fora da França não foi bem sucedida. O proprio enteado de Felipe, por exemplo, Eduardo II da Inglaterra, de início correu em defesa da Ordem. Eventualmente, pressionado pelo Papa e o rei francês, ele cumpriu as exigências deles, mas apenas parcial e tepidamente. Embora a maioria dos Templários pareça ter escapado completamente, um número foi preso. Destes contudo, a maioria recebeu sentenças leves algums vezes de não mais que poucos anos de penitência em abadias e monastérios, onde eles viviam em condições geralmente confortáveis. Suas terras foram consignadas aos Cavaleiros Hospitalários de São João, mas eles próprios foram poupados da perseguição viciosa que atingiu sua irmandade na França.

Em todos os lugares a eliminação dos Templários encontrou maior dificuldade, Na Escócia, por exemplo, havia uma guerra com a Inglaterra naquele tempo, e o consenquente caos deixou pouca oportunidade para implementar exatidões legais. Então as Bulas Papais dissolvendo a Ordem nunca foram proclamadas na Escócia e na Escócia, portanto, a Ordem nunca foi tecnicamente dissolvida. Muitos ingleses e, pareceria, Templários franceses fundaram um refúgio escocês, e um contingente considerável é dito ter lutado do lado de Robert Bruce na Batalha de Bannockburn em 1314. Segundo a história o corpo coerente na Escócia existiu por outros quatro séculos. Na luta de 1688-91, James II da Inglaterra foi deposto por William de Orange. Na Escócia os apoiadores do sitiado monarca Stuart se levantaram em revolta e, na Batalha de Killiecrankie em 1689, João  Claverhouse, Visconde de Dundee, foi morto no campo. Quando seu corpo foi recuperado, ele foi reportadamente encontrado usando a Grande Cruz da Ordem dos Templários – não um recente aparelho supostamente, mas um datando de antes de 1307. Em Lorraine, que era parte da Alemanha naquele tempo, não parte da França, os Templários foram apoiados pelo duque da principalidade. Um poucos foram julgados e exonerados. A maioria, parece, obedeceu ao seu Preceptor, que reputadamente os aconselhou a raspar suas barbas, abandonar a veste secular e se assimilarem na populaça local.

Na própria Alemanha os Templários abertamente desafiaram seus juízes, ameaçando tomar armas. Intimidados, seus juízes os pronunciaram inocentes; e quando a Ordem foi oficialmente dissolvida, muitos Templários alemães acharam um paraíso nos Hospitalários de São João e na Ordem Teutônica. Na Espanha, também,  os Templários resistiram aos seus perseguidores e encontraram refúgio em outras ordens. Em Portugal a Ordem foi clarificada por um inquérito e simplesmente mudou seu nome, se tornando, Cavaleiros de Cristo. Sob este título eles funcionavam bem dentro do século XVI se devotando a atividade marítima. Vasco da Gama era um Cavaleiro de Cristo, e o Príncipe Henrique o Navegador era um Grão Mestre da Ordem. Navios dos Cavaleiros de Cristo viajavam sob a familiar cruz vermelha. E foi sob a mesma cruz que Cristóvão Colombo atravessou o Atlântico para o Novo Mundo. O próprio Colombo era casado com a filha de um antigo Cavaleiro de Cristo, e tinha acesso aos mapas e diários de seu sogro. Então, em um número de modos diversos, os Templários sobreviveram ao ataque de 13 de outubro de 1307. E em 1522 a progenie prussiana dos Templários, os Cavaleiros Teutônicos, sulariri sed eles próprios, repudiaram sua aliança com Roma e deram seu apoio por trás de um rebelde e herege chamado Martinho Lutero. Dois século depois de sua dissolução, os Templários, contudo indiretamente, estavam exercendo a vingança contra a Igreja que os traiu.

Os Cavaleiros Templários e Os Mistérios

Em uma forma grandemente resumida, esta é a história dos Cavaleiros Templários como os escritores a tem aceito e apresentado, e como nós a encontramos em nossa pesquisa. Mas rapidamente descobrimos que há uma outra dimensão para a história da Ordem, consideravelmente mais evasiva, mais provocante e mais especulativa.  Até mesmo durante a existência deles, uma mística tem vindo a cercar os cavaleiros. Alguns disseram que eles eram feiticeiros e mágicos, adeptos secretos e alquimistas. Muitos de seus contemporaneos os evitavam, acreditando que eles estavam em contacto com poderes não limpos.  Tão cedo quanto 1208, no início da Cruzada Albigense, o Papa Inocente III tinha advertido os Templários por um comportamento não cristão, e se referiu explicitamente a necromancia. Por outro lado, havia indivíduos que os louvavam com entusiasmo estravagante. No século XII Wolfram von Eschenbach, o maior dos romancistas medievais, fez uma visita especial ao Outremer para testemunhar a Ordem em ação. E quando, entre 1195 e 1220, Wolfram compôs seu romance épico Parcival, ele conferiu aos Templários o mais exaltado status. No poema de Wolfram os cavaleiros que guardam o Santo Gral, o castelo do Gral e a família do Gral, são Templários. Depois da derrocada dos Templários, a mística que cerca isso persistiu. O ato final registrado na história da Ordem tem sido a queima do último Grão Mestre, Jacques de Molay, em março de 1314.  Quando a fumaça do fogo brando chocou a vida de seu corpo, é dito que Jacques de Molay  disse uma imprecação das chamas. Segundo a tradição, ele chamou seus perseguidores, o Papa Clemente e O Rei Felipe para se unirem a ele e responderem por eles próprios diante da Côrte de Deus dentro de um ano. Dentro de um mês, o Papa Clemente  estava morto, supostamente de um súbito ataque de desinteria. Pelo fim do ano Felipe estava morto também, por causas que permanecem obscuras até este dia. Há, de fato, nenhuma necessidade de procurar explicações sobrenaturais, Os Templários possuiam grande talento no uso de venenos. E havia certamente bastante pessoas entre os cavaleiros refugiados viajando incógnitas, simpatizantes da Ordem e parentes da irmandade perseguida para executar a vingança apropriada.

Não obstante, o aparente cumprimento da maldição do Grão Mestre emprestou crendencial a crença nos poderes ocultos da Ordem. Nem a maldição terminou lá. Segundo a história, foi para lançar um pálio sobre a linhagem real francesa dentro do futuro. E então os ecos dos supostos poderes místicos dos Templários reverberaram pelos séculos. Pelo século XVIII várias confraternidades secretas e semi-secretas estavam louvando os Templários como os precursores e iniciados místicos. Muitos Maçons Livres do periodo se apropriaram dos Templários como seus antecedentes. Certos ritos e observâncias maçonicas afirmaram a descendência linear direta da Ordem, bem como a custódia autorizada de seus segredos arcanos. Algumas destas afirmações eram claramente ridículas. Outras repousavam, por exemplo, na possível sobrevivência da Ordem na Escócia – podem bem ter tido um núcleo de validade, até mesmo se os enfeites aplicados são espúrios.

Por 1789 as histórias que cercavam os Templários tinham atingido proporções positivamente míticas, e a realidade histórica deles foi obscurecida por uma aura de ofuscação e romance. Eles eram vistos como adeptos ocultos, alquimistas iluminados, magos e sábios, mestres maçons e altos iniciados; reais superhomens dotados de um surpreendente arsenal de poder e conhecimento arcano. Eles também eram vistos como heróis e mártires,  arautos do espírito anti-clerical daquela era; e muitos Maçons Livres, ao conspirar contra Luis XVI, sentiram estarem ajudando a implementar a maldição agonizante de Jacques de Molay  sobre a linhagem francesa.  Quando a cabeça do rei caiu sob a guilhotina, um homem desconhecido é relatado ter saltado para o andaime. Ele molhou sua mão no sangue do manarca, sacudiu-a sobre a multidão adjacente e gritou: “Jacques de Molay, você está vingado!”

Desde a Revolução Francesa a aura que cerca os Templários não tem diminuído. Ao menos três organizações contemporâneas hoje se denominam Templários, afirmando possuir um pedigree de 1314 e cartas cuja autenticidade nunca tem sido estabelecida. Certas lojas maçonicas tem adotado o grau de Templário, bem como rituais e apelações supostamente descendendo da ordem original. Até o fim do século XIX, uma sinistra Ordem dos Novos Templários foi estabelecida na Alemanha e na Áustria, empregando a suástica como um de seus emblemas. Figuras como  H. P. Blavatsky, fundadora da Teosofia, e Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia, falaram de ums esotérica tradição de sabedoria remontando aos Rosacrucianos e aos cátaros e Templários que eram supostamente o repositório de segredos ainda mais antigos. Nos Estados Unidos, adolescentes são admitidos na Sociedade De Molay, sem que até mesmo seus mentores tenham muita noção de onde deriva este nome. Na Bretanha, bem como em outras partes do ocidente, secretos ‘rotary clubs’ se dignificam com o nome Templário e incluem eminentes figuras públicas. Do reino celestial que ele devia conquistar com sua espada, Hugues de Payen deve agora olhar para baixo com uma certa perplexidade  irônica sobre os cavaleiros dos últimos dias, carecas, barrigudos e de óculos, que ele criou. E ainda que ele também esteja impressionado pela durabilidade e vitalidade de seu legado. Na França este legado é especialmente poderoso. De fato, os Templários são uma real indústria na França, tanto quanto Glastonbury, as linhas de comunicação ou o Monstro de Loch Ness são na Bretanha.

Em Paris livrarias estão cheias de histórias e narrativas da Ordem, algumas válidas, algumas beirando entusiasticamente ao lunático. Durante aproximadamente o último quarto de século, um número de afirmações extravagantes tem sido avançado em benefíco dos Templários, algumas das quais podem não ser inteiramente sem fundamento. Certo escritores tem creditado a eles, ao menos em grande parte, a construção das catedrais góticas ou ao menos eles terem fornecido um ímpeto de algum tipo para a explosão da energia arquitetonica e o gênio. Outros escritores tem argumentado que a Ordem estabeleceu contacto comercial com as Américas já em 1269, e derivou grande parte de sua riqueza da importada prata mexicana. Tem sido frequentemente avaliado que os Templários possuiam algum tipo de segredo escondendo as origens da cristandade. Tem sido dito que eles eram Gnósticos, que eles eram hereges, que eles eram desertores do Islã. Tem sido declarado que eles obtiveram uma unidade criativa entre sangues, raças e religiões, uma politíca sistemática de fusão entre o pensamento islâmico, cristão e judaico. E seguidamente isto é mantido, como  Wolfram von Eschenbach manteve quase oito séculos atrás, que os Templários eram os Guardiões do Santo Gral, seja o que possa ser o Santo Gral. As afirmações frequentemente são ridículas. Ao mesmo tempo, alguns dos segredos se relacionam ao que agora chamamos de esotérico. Gravações simbólicas nos preceptórios Templários, por exemplo, sugerem que alguns oficiais na hierarquia da Ordem eram familiarizados com tais disciplinas como astrologia, alquimia, geometria sagrada e numerologia, bem como, com certeza, astronomia que, nos séculos XII e XIII era inseparável da astrologia e cada porção como esotérica. Mas nem as afirmações extravagantes e nem os resíduos esoterícos foram o que nos intrigou. Ao contrário, nos encontramos fascinados por algo muito mais mundano, muito mais prosaico, a riqueza de contradições, improbabilidades, inconsistências, e aparentes ‘telas de fumaça’ na história aceita. Os segredos esotéricos dos Templários podem bem ter existido. Mas algo mais sobre eles estava sendo escondido tão bem enraizado nas correntes políticas e religiosas da época deles.

Foi a este nível que assumimos a maior parte de nossa investigação. Começamos pelo fim da história, a queda da Ordem e as acusações levantadas contra ela. Muitos livros tem sido escritos explorando e avaliando a possível verdade dessas acusações; e da evidência que nós, como a maioria dos pesquisadores, concluimos ter havido alguma base para elas. Submetidos a interrogatório pela Inquisição, um número de cavaleiros se referiu a algo chamado “Baphomet”; tantos, e em tantos lugares diferentes, para que Baphomet seja a invenção de um único indivíduo ou até mesmo um único preceptório. Ao mesmo tempo, não há indicação de quem ou o que possa ser Baphomet, o que ele ou isso representava, porque ele ou isso devesse ter um significado especial. Pareceria que Baphomet era visto com reverência, uma reverência talvez suprema até a idolatria. Em alguns casos o nome é associado com esculturas demoníacas como gárgulas encontradas em vários preceptórios. Em outras ocasiões Baphomet parece estar associado com uma aparição de uma cabeça barbada. A despeito das afirmações de alguns historiadores, parece claro que Baphomet não era uma corrupção do nome Maomé. Por outro lado, pode ter sido uma corrupção do árabe “abufihamet”, pronunciado entre os mouros espanhóis como “bufihimat”. Isto significa “Pai do Entendimento”, ou “Pai da Sabedoria” e ‘pai’ em árabe também é usado para implicar força. Se esta é de fato a origem de Baphomet, portanto ele se referiria presumidamente a algum princípio sobrenatural ou divino. Mas o que pode ter diferenciado Baphomet de qualquer outro princípio divino ou sobrenatural permanece não esclarecido. Se Baphomet era simplesmente Deus ou Alá, porque os cristãos se preocupariam em recristianiza-lo? E se Baphomet não era Deus ou Alá, quem ou o que era ele? Em qualquer caso, encontramos evidência incontestável da acusação de cerimonias secretas envolvendo uma cabeça de algum tipo.

De fato a existência de uma tal cabeça provou ser um dos temas dominantes correndo pelos registros da Inquisição. Como com Baphomet, contudo, o significado da cabeça permanece obscuro. Possa talvez pertencer a alquimia. No processo alquímico há uma fase chamada ‘Caput Mortuum’ ou ‘Cabeça Morta’, o ‘Nigredo’, ou “Enegrecido” que era dito ocorrer antes da precipitação da Pedra Filosofal. Segundo outras narrativas, contudo, a cabeça era aquela de Hugues de Payen, o fundador da Ordem e primeiro Grão Mestre; e é sugestivo que o escudo de Hugues consistisse em três cabeças negras em um campo de ouro. A  cabeça pode também estar ligada ao famoso Sudário de Turim, que parece ter estado sob a possessão dos Templários entre 1204 e 1307, e o qual, se dobrado, teria parecido como nada mais que uma cabeça. De fato, em um preceptório Templário de Templecombe em Somerset foi encontrada uma reprodução de uma cabeça com barbas com surpreendente semelhança ao Sudário de Turim. Ao mesmo tempo, uma especulação recente tem ligado a cabeça, ao menos por tentativa, com a cabeça cortada de João Batista; e certos escritores tem sugerido que os Templários foram ‘infectados’ pela heresia Joanita ou Mandeana que denunciou Jesus como ‘um falso profeta’ e reconheceu João como o verdadeiro Messias. De fato no curso de suas atividades no Oriente Médio os Templários indubitavelmente estabeleceram contacto com as seitas Joanitas, e a possibilidade de tendências Joanitas na Ordem não é improvável. Mas não se pode dizer que tais tendências foram obtidas pela Ordem como um todo, nem que elas eram questão de política oficial. Durante os interrogatórios que seguiram as prisões em 1307, uma cabeça também figurou em outras duas conexões. Segundo os registros da Inquisição, entre os bens confiscados do preceptório de Paris uma relíquia sob a forma de uma cabeça de mulher foi encontrada. Ela era alada no topo e continha o que pareciam terem sido relíquias de um tipo peculiar. Ela é descrita como se segue: uma grande cabeça de prata dourada, a mais bela, e constituindo uma imagem de uma mulher. Dentro havia dois ossos da cabeça envolvidos em um pano de linho branco, com outro pano vermelho ao seu redor. Um rótulo foi anexado, no qual foi escrito a legenda  CAPUT LVIIIm.

Os ossos dentro eram de uma mulher pequena. Uma relíquia curiosa, especialmente para uma rigida e monástica instituição militar como os Templários. Ainda que um cavaleiro sob interogatório, quando confrontado com esta cabeça feminina,  declarou que ela não tinha qualquer relação com a cabeça do homem barbado usada nos rituais da Ordem. Caput LVIII – cabeça 58m permanece um enigma surprendente. Mas vale a pela notar que ‘m’ pode afinal não ter sido um ‘m’, mas U, o símbolo astrológico para Virgem.

As figuras das cabeças aparecem novamente em uma outra história misteriosa tradicionalmente ligada aos Templários. Vale citar uma de suas várias variantes: uma grande senhora de Maraclea foi amada por um Templário, um Senhor de Sidon; mas ela morreu em sua juventude, e na noite de seu enterro, este amante perverso invadiu sua tumba, escavou seu corpo e o violou. Então uma voz do vazio ordenou que ele voltasse no tempo de nove meses para encontrar um filho. Ele obedeceu ao comando e no tempo indicado ele abriu a tumba novamente e encontrou uma cabeça sobre os ossos da pernas do esqueleto [cranio e ossos cruzados]. A mesma voz ordenou que ele guardasse isso bem, porque isso lhe daria todas as boas coisas, e então ele levou tudo isso embora com ele. Isso se tornou seu gênio protetor, e ele foi capaz de derrotar seus inimigos ao meramente mostrar a eles a cabeça mágica. No curso devido, isso passou para a posse da Ordem. Esta narrativa horrenda pode ser traçada ao menos até aquela do Mapa Walter, escrito no final do século XII. Mas nem ele ou outro escritor,  que reconta a mesma história quase um século mais tarde, especifica que este estrupador necrófilo era um Templário. Não obstante, por 1307 a história tinha se tornado estreitamente associada com a Ordem. Ela é mencionada repetidamente nos registros da Inquisição, e ao menos dois cavaleiros sob interrogatório confessaram sua familiaridade com ela. Nas narrativas subsequentes, como uma citada acima, o próprio estuprador é identificado como um Templário, e ele permanece assim ns versões preservadas pela Livre Maçonaria que adotou o cranio e os ossos cruzados, e frequentemente os empregou como um aparelho nas pedras de tumbas. Em parte a lenda pode ser vista quase como um grotesco disfarce da Imaculada Conceição. Em parte pareceria ser uma narrativa simbólica destorcida de algum rito iniciático, algum ritual envolvendo uma morte figurativa e ressureição. Um cronista cita o nome da mulher na história como Yse, que muito claramente derivaria de Isis. E certamente a lenda evoca e ecoa dos mistérios associados a Isis, bem como de aqueles associados a Tamuz ou Adonis, cuja cabeça foi atirada no mar, e de Orfeu, cuja cabeça foi atirada no rio da Via Láctea. As propriedades mágicas da cabeça também evocam a cabeça de Bran O Abençoado na mitologia celta e no Mabinogion. E este é o caldeirão místico de Bran que numerosos escritores tem tentado identificar como o precursor pagão do Santo Gral. Seja qual for a importância atribuida ao ‘culto da cabeça’, a Inquisição claramente acreditou que ele fosse importante. Em uma lista de acusações retiradas de 12 de agosto de 1308, há o seguinte: Item, que em cada província eles tinham ídolos, nomeadamante cabeças… Item, que eles adoravam estes ídolos… Item, que eles disseram que a cabeça podia salva-los. Item, que ela podia faze-los ricos… Item, que ela fez as três flores. Item, que ela fez a terrra germinar. Item, que eles cercavam ou tocavam cada cabeça dos ídolos supramencionados com pequenas cordas, que eles vestiam ao redor deles próprios perto da camisa ou da carne. A corda mencionada no último item é reminiscente dos Cátaros, que também eram alegados terem usado uma corda sagrada de algum tipo. Mas o mais surpreendente na lista é a proposta capacidade da cabeça de fazer riquezas, fazer árvores floridas e trazer fertilidade à terra. Estas propriedades coincidem notavelmente com aquelas atribuidas nos romances ao Santo Gral. De todas as acusações levantadas contra os Templários, as mais sérias eram de blasfemia e heresia de pisar, negar e cuspir na cruz. Não está precisamente claro o que ritual alegado pretendia significar – o que, em outras palavras, os Templários estavam realmente repudiando. Eles estavam repudiando Cristo? Ou eles estavam simplesmente repudiando a Crucificação? E seja o que for que eles repudiavam, o que exatamente eles enalteciam com esta posição?

Ninguém tem respondido satisfatoriamente a estas perguntas, mas parece claro que o repúdio de algum tipo ocorreu, e era um princípio integral da Ordem. Um cavaleiro, por exemplo, testemunhou que em sua iniciação na Ordem, foi dito a ele “Você crê erradamente, porque ele [o Cristo] é de fato um falso profeta. Acredite apenas em Deus no Céu e não nele.’ Um outro Templário declarou que foi dito a ele, ‘Não acredite que o homem chamado Jesus que os judeus crucificaram no Outremer é Deus e que ele pode salva-lo”. Um terceiro cavaleiro similarmente afirmou que ele foi instruido a não acreditar em Cristo, um falso profeta, mas apenas no Deus Superior. Então foi mostrado a ele um crucifixo e dito : “Não coloque muita fé nisso, porque isso é jovem demais”. Tais narrativas são frequentes e bastante consistentes para dar credencial a acusação. Eles eram também relativamente brandas; e se a Inquisição desejasse juntar evidência, ele poderia ter devisado algo muito mais dramático, mais incriminador, mais prejudicial. Então parece haver pouca dúvida que a atitude dos Templários em relação a Jesus não seguia a ortodoxia católica, mas é incerto precisamente qual era a atitude da Ordem. Em qualquer caso, há evidência que o ritual atribuido aos Templários de pisar e cuspir na cruz estava em vigor um século antes de 1307. Seu contexto é confuso, mas ele é mencionado em ligação com a Sexta Cruzada, que ocorreu em 1249.

O lado Oculto dos Cavaleiros Templários

Se o fim dos Cavaleiros Templários foi repleto de embaraçosos enigmas, a fundação e história inicial da Ordem nos pareceu ser até mesmo mais assim. Estávamos já pragueados por um número de inconsistências e improbabilidades. Nove cavaleiros, nove pobre cavaleiros  apareceram como se de nenhum lugar  e entre todos os outros Cruzados enxameando a Terra Santa prontamente tiveram os aposentos do rei entregues a eles! Nove pobre cavaleiros sem admitirem qualquer novo recruta em suas fileiras presumidamente, tudo por eles mesmos, defederam os caminhos da Palestina. E não há registro deles realente fazendo alguma coisa, nem mesmo de Fulk de Chartres, o cronista oficial do rei, que certamente deve ter sabido sobre o mapa. Como, imaginamos, podem as atividades deles, seus movimentos nas terras reais, ter escapado a percepção de Fulk? Parece incrível, ainda que o cronista nada diga. Ninguém diz qualquer coisa. De fato, até  Guillaume de Tyre, bons cinquenta anos depois. O que podemos concluir disso? Que os Cavaleiros não estavam engajados no louvável serviço público atribuído a eles? Que ao invés, talvez, eles estivessem envolvidos em uma atividade clandestina, da qual nem mesmo o cronista oficial estava ciente? Ou que o próprio cronista foi amordaçado? Esta última parece ser a explicação mais provável. Aos cavaleiros logo se uniram dois homens nobres mais ilustres, nobres cuja presença não poderia ter sido desapercebida.

Segundo  Guillaume de Tyre, a Ordem do Templo foi criada em 1118, originalmente composta por nove cavaleiros e não admitiu novos recrutas por nove anos. Contudo, está claramente em registro, que o Conde de Anjou – pai de Geoffrey Plantagenet, se uniu a Ordem em 1120, apenas dois anos depois de sua fundação. E em 1124 o Conde de Champagne, um dos senhores mais ricos da Europa, o fez igualmente. Se Guillaume de Tyre está correto, não deveria ter havido novos membros até 1127; mas por 1126 os Templários de fato haviam admitido  quatro novos membros em suas fileiras. Se Guilhaume está errado, então, em dizer que nenhum membro foi admitido por nove anos depois de sua fundação, sua fundação dataria de 1118, mas no máximo, de 1111 ou 1112. De fato há uma evidência muito persuasiva desta conclusão. Em 1114 o Conde de Champagne estava se preparando para a viagem a Terra Santa. Logo antes de sua partida, ele recebeu uma carta do Bispo de Chartres. Em um ponto, o Bispo escreveu, “Temos ouvido que… antes de partir para Jerusalém você fez um voto de se unir ‘a milícia de Cristo’, que voce deseja se alistar nesta ordem militar evangélica.’ A mílícia de Cristo foi o nome pelo qual os Templários foram originalmente conhecidos, e o nome pelo qual São Bernardo alude a eles. No contexto da carta do Bispo a apelação não pode possivelmente se referir a uma outra instituição. Isto não pode significar, por exemplo, que o Conde de Champagne simplesmente decidiu se tornar um Cruzado, porque o Bispo continua a falar no voto de castidade que sua decisão envolvia. Um  tal voto dificilmente teria sido requerido de um Cruzado comum. Da carta do Bispo de Chartres, então, está claro que os Templários já existiam, ou ao menos haviam sido planejados, já em 1114, quantro anos antes da data geralmente aceita; e que tão cedo quanto em 1114 o Conde de Champagne já pretendia se unir as fileiras deles – o que ele eventualmente o fez uma década depois. Um historiador que notou esta carta retirou uma curiosa conclusão que o bispo pode não ter significado o que ele disse. Ele pode não ter se referido aos Templários, argumenta o historiador em questão, porque os Templários não foram criados até quatro anos depois em 1118. Ou talvez o bispo não soubesse o ano de Nosso Senhor no qual ele estava escrevendo? Mas o bispo morreu em 1115,. Como, em 1114 ele podia enganadamente se referir a algo que ainda não existia? Há somente uma resposta possível e muito óbvia a esta pergunta que é que o bispo não estava errado, mas  Guillaume de Tyre, bem como todos os historiadores subsequentes que insistem em ver Guilhaume como uma voz impecável de autoridade. Por si só uma data anterior para a fundação da Ordem do Templo, não precisa necessariamente ser suspeito. Mas há outras circunstâncias e coincidências singulares que decididamente são. Ao menos três dos noves cavaleiros fundadores, inclusive  Hugues de Payen, parecem ter vindo de regiões adjacentes, terem tido laços familiares, terem conhecido uns aos outros previamente e terem sido vassalos do mesmo senhor. Este senhor era o Conde de Champagne, a quem o Bispo de Chartres doou a terra na qual São Bernardo, patrono dos Templários, construiu a famosa Abadia de Clairvaux; e um dos nove cavaleiros fundadores,  Andre de Montbard, era tio de São Bernardo. Em Tryes, sobretudo, a côrte do Conde de Champagne, uma escola influente de estudos cabalísticos e esotéricos tinha florescido desde 1070. No Concílio de Troyes em 1128 os Templários foram oficialmente incorporados. Nos próximos dois anos, Troyes permaneceu um centro estratégico para a Ordem; e até mesmo hoje há uma área amadeirada adjacente chamada de Forte do Templo.  E foi de Troyes, côrte do Conde de Champagne, que um dos primeiros romances do Gral foi emitido, muito possivelmente o primeiro, composto por Chretien de Troyes.

Entre esta riqueza de dados, podemos começar a ver uma rede tenue de ligações em um padrão que parece mais do que a mera coincidência. Se um tal padrão existe, certamente apoia a nossa suspeita que os Templários estavam envolvidos em alguma atividade clandestina. Não obstante, podemos apenas especular  qual pode ter sido tal atividade. Com base em nossas especulações específicas estava o local específico do domicilio dos cavaleiros na ala do palácio real, o Monte do Templo, tão inexplicavelmente conferida a eles. No ano de 70 o Templo que então estava de pé foi saqueado por legiões romanas sob Tito. Seu tesouro foi saqueado e levado a Roma, então novamente saqueado e levado talvez aos Pirineus. Mas que tal se houvesse algo mais no Templo bem como algo até mesmo mais importante do que o tesouro pilhado pelos Romanos? É certamente possível que os sacerdotes do Templo, confrontados pelo avanço da falange de centuriões, teriamdeixado aos saqueadores o botim que eles esperavam encontrar. E se houvesse algo mais, pode bem estar escondido em algum lugar nas proximidades. Sob o Templo, por exemplo. Entre os Manuscritos do Mar Morto encontrados em QumrAam, há um agora conhecido como como Pergaminho de Cobre. Este pergaminho, decifrado na Universidade de Manchester em 1955-6 faz referências explícitas as grandes quantidades de barras de ouro e prata, vasos sagrados, adicional material não especificado, e um ‘tesouro’ de natureza não determinada. Ele cita vinte e quatro tesouros enterrados sob o próprio Templo. Em meados do século XII uma romaria a Terra Santa, um  Johann von Wurzburg, escreveu sobre uma visita aos Estábulos de Salomão. Estes estábulos, situados diretamente sob o próprio Templo, ainda estão visíveis. Eles são suficientemente grandes, relatou Johann, para sustentar dois mil cavalos; e foi nestes estábulos que os Templários estabelecerem suas montarias. Segundo ao menos um historiador, os Templários estavam usando estes estábulos para seus cavalos já em 1124, quando eles ainda eram supostamente apenas nove em número. Parece então que a Ordem principiante, imediatamente depois de sua criação, realizou escavações sob o Templo. Tais escavações podem bem implicar que os cavaleiros estavam ativamente procurando por algo. Se esta suposição é válida, explicaria um número de anomalias – sua instalação no palácio real, por exemplo, e o silêncio do cronista. Msa se eles foram enviados a Palestina, quem os enviou? Em 1104 o Conde de Champagne tinha se encontrado em um conclave com certos nobres de alto escalão, ao menos um dos quais tinha acabado de voltar de Jerusalém. Entre estes presentes ao conclave estavam representantes de certas famílias como Brienne, Joinville e Chaumont que, como descobrimos mais tarde, figuraram importantemente em nossa história. Também presente estava o senhor de ligação de Andre de Montbard, Andre sendo um dos co-fundadores do Templo e tio de São Bernardo. Pouco depois do conclave, o Conde de Champagne partiu para a Terra Santa e permaneceu lá por quatro anos, voltando em 1108. Em 1114 ele fez uma segunda viagem a Palestina, tendando se unir a ‘milícia de Cristo’, então mudou de idéia e voltou a Europa um ano depois. Em sua volta, ele imediatamente doou um pedaço de terra a Ordem Cisterciana, cujo proeminente portavoz era São Bernardo. Neste pedaço de terra São Bernardo construiu sua própria residência e então consolidou a Ordem Cisterciana.  Antes de 1112 os Cistericianos estavam perigosamente perto da falência. Então, sob a orientação de São Bernardo, eles passaram por uma surpreendente mudança de fortuna. Dentro dos próximos poucos anos meia duzia de abadias foram criadas. Por 1153 havia mais de trezentas, das quais o próprio São Bernardo fundou sessenta e nove. Este crescimento extraordinário paraleliza diretamente aquele da Ordem do Templo, que estava se expandindo  do mesmo modo durante os mesmos anos.  E, como temos dito, um dos co-fundadores da Ordem do Templo foi o tio de São Bernardo,  Andre de Montbard.

Vale rever esta complicada sequência de eventos. Em 1104 o Conde de Champagne partiu para a Terra Santa depois de se encontrar com certos nobres, um dos quais era ligado a Andre Montbard. Em 1112 o sobrinho de Andre Montbard, São Bernardo, se uniu a Ordem Cisterciana. Em 1114 o Conde de Champagne partiu em uma segunda viagem para a Terra Santa, pretendendo se unir a Ordem do Templo que foi co-fundada pelo seu próprio vassalo com Andre Montbard, e o qual, como atesta a carta do Bispo de Chartres, já existia ou estava em processo de ser criada. Em 1115 o Conde de Champagne voltou a Europa, tendo estado lá por menos de um ano, e doou terra a Abadia de Clairvaux cujo abade era sobrinho de Andre Montbard. Nos anos que se seguiram tanto os Cistercianos quanto os Templários da Ordem de São Bernardo e de Andre Montbard se tornaram imensamente ricos e desfrutavam fases de um crescimento fenomenal. Como ponderamos esta sequência de eventos, nos tornamos crescentemente convencidos que havia algum padrão subjacente e governando tal rede intrincada. Certamente isso não nos parece ser aleatório, nem completamente coincidentes. Ao contrário, nos parece que estamos lidando com os vestígios de algum projeto completo complexo e ambicioso, os detalhes completos do qual tinham sido perdidos na história. Para reconstruir estes detalhes, desenvolvemos uma hipótese tentativa, um cenário, por assim dizer, que possa acomodar os fatos conhecidos. Supomos que algo foi descoberto na Terra Santa, por acidente ou projeto; algo de extrema importância, que levantou o interesse de alguns dos nobres europeus mais influentes. Posteriormente supomos que esta descoberta envolveu, direta ou indiretamente, uma grande parte de potencial riqueza também, talvez, como algo mais, algo que tinha que ser mantido secreto, algo que só poderia ser divulgado a um pequeno número de senhores de alto escalão. Finalmente, supomos que esta descoberta foi relatada e discutida no conclave de 1104. Imediatamente depois o Conde de Champagne partiu para a Terra Santa, talvez para verificar pessoalmente o que ele tinha ouvido, talvez para implementar algum curso de ação para a fundação, por exemplo, do que subsequentemente se tornou a Ordem do Templo. Em 1114, se não antes, os Templários foram estabelecidos com o Conde de Champagne desempenhando algum papel crucial, talvez agindo como espírito guia e patrocinador. Por 1115 o dinheiro já estava fluindo de volta a Europa e para dentro dos cofres dos Cistercianos, que, sob São Bernardo e de sua nova posição de força, endossou e conferiu credibilidade a iniciante Ordem do Templo. Sob Bernardo os Cistercianos atingiram uma ascendência espiritual na Europa. Sob Hugues de Paiens e Andre de Montbard, os Templários atingiram uma ascendência administrativa e militar na Terra Santa que rapidamente se espalhou para a Europa. Por trás do crescimento de ambas as Ordens se esgueirava a presença sombria de tio e sobrinho, bem como a riqueza, influência e patrocínio do Conde de Champagne. Estes três indivíduos constituem um link vital. Eles são como marcadores quebrando a superfície da história, indicando as sombrias configurações de algum projeto elaborado e oculto. Se um tal projeto realmente existiu, ele não pode, com certeza, ser restrito a apenas três homens. Ao contrário, ele deve ter compreendido uma grande dose de cooperação de certas outras pessoas e uma grande parte de meticulosa organização. A organização talvez seja a palavra chave; porque se nossa hipótese está correta, seria pressuposto um grau de organização somando a uma ordem nela própria uma terceira e secreta ordem por trás das Ordens conhecidas e documentadas dos Cistercianos e do Templo. A evidência para a existência uma tal terceira ordem não demorou a chegar. Enquanto isso, nesse meio tempo, devotamos nossa atenção a hipotética ‘descoberta’ na Terra Santa da base especulativa sobre a qual se estabeleceu o nosso cenário. O que pode ter sido encontrado lá? O que podem os Templários, juntamente com São Bernardo e o Conde de Champagne terem sido particularmente conhecedores? No fim da história deles, os Templários mantiveram inviolável o segredo sobre o paradeiro de seu tesouro e a natureza dele. Nem mesmo documentos sobreviveram. Se o tesouro fosse simplesmente barras de ouro e prata e financeira, por exemplo, não teria sido necessário destruir ou esconder todos os registros, todas as regras e todos os arquivos. A implicação é que os Templários tinham algo mais sob sua custódia, algo tão precioso  que nem mesmo a tortura arrancaria uma intimação dos lábios deles. A riqueza sozinha não teria causado um segredo tão unanimemente absoluto. Seja o que for que isso tenha a ver com outros assuntos, como a atitude da Ordem em relação a Jesus.

Em 13 de outubro de 1307, todos os Templários pela França foram presos pelos senescais de Felipe O Belo. Mas esta declaração não é bem verdadeira. Os Templários de ao menos um preceptório escorregaram pela lei do Rei, o preceptório de Bezu, adjacente a Rennes-le-Chateau. Como e porque eles escaparam? Para responder esta pergunta, fomos compelidos a investigarmos as atividades da Ordem na vizinhança de Bezu. Estas atividades se provaram serem muitos extensas. De fato, havia uma meia dúzia de preceptórios e outras propriedades na área, o que cobria algumas vinte milhas quadradas. Em 1153 um nobre da região, um nobre com simpatias cátaras se tornou o Quarto Grão Mestre da Ordem do Templo. Seu nome era Bertrand de Blanchefort, e seu lar ancestral estava situado em um pico de montanha a umas poucas milhas de Bezu e de Rennes-le-Chateau. Bertrand de Blanchefort, que presidiu a Ordem de 1153 a 1170 foi provavelmente o mais importante de todos os Grãos Mestres Templários. Antes de seu regime, a hierarquia e a estrutura administrativa da Ordem eram, na melhor das hipóteses, nebulosas. Foi Bertrand que transformou os Cavaleiros Templários, em uma instituição soberbamente eficiente, bem organizada e magnicificamente disciplinada hierárquica que eles então se tornaram. Foi Bertrand que lançou o envolvimento deles na diplomacia de alto nível e na política internacional. Foi Bertrand que criou para eles uma maior esfera de interesse na Europa e particularmente na França. E segundo a evidência que sobrevive, alguns historiadores de Bertrand até mesmo listam o conselheiro dele precedendo como Grão Mestre, que foi Andre Montbard. Dentro de poucos anos da incorporação dos Templários, Bertrand não apenas havia se unido as suas fileiras, mas também conferiu a elas terras nas cercanias de Rennes-le-Chataux e Bezu. E em 1156, sob o regime de Bertrand como Grão Mestre, é dito que a Ordem importou para a área um contingente de mineiros de lingua alemã. Estes trabalhadores eram supostos se submeterem a uma rígida disciplina, virtualmente militar. Eles eram proibidos de confraternizar de qualquer modo com a população local e eram mantidos estritamente segregados da comunidade adjacente.

Um corpo judicial especial, ‘la Judicature des Allemands’, foi até mesmo criado para lidar com as tecnicalidades legais relativas a eles. E a alegada tarefa deles era trabalhar nas minas de ouro dos aclives da montanha em Blanchefort; minas de ouro que tinham sido completamente exauridas pelos romanos quase mil anos antes. Durante o século XVII  engenheiros foram comissionados para investigar as perspectivas mineralógicas da área e escreverem relatos detalhados. No curso do relato de um deles, Cesar d’Arcons, discutiu as ruínas que ele havia encontrado, restos da atividade dos trabalhadores alemães. Com base na pesquisa dele, ele declarou que os trabalhadores alemães não parecem terem se engajado em mineração. Então, no que eles estavam engajados? Cesar d’Arcons estava incerto, fundição talvez, derreter algo lá embaixo, construir algo de metal, talvez até mesmo escavar uma cripta subterrânea de algum tipo e criar uma espécie de depositório. Seja qual for a resposta a este enigma, lá tinha havido a presença dos Templários nas vizinhanças de Rennes-le-Chateau desde ao menos meados do século XII. Por 1285 havia um maior preceptório a umas poucas milhas de Bezu, em  Campagnesur-Aude. Ainda que perto do fim do século XIII, Pierre de Voisins, senhor de Bezu e Rennes-le-Chateau, tenha convidado um destacamento separado de Templários para a área, um destacamento especial da província Aragonesa de Roussillon. Este novo destacamento se estabeleceu no pico da montanha de Bezu, eregindo um posto de observação e uma capela. Ostensivamente, os Templários de Roussillon tinham sido convidados a Bezu para manterem a segurança da região e proteger a rota de romaria que passa pelo vale para Santiago de Compostela na Espanha. Mas não está claro porque estes cavaleiros extras deveriam ter sido solicitados. Em primeiro lugar eles não podem ter sido muito numerosos e nem suficientes para fazer uma diferença significativa. Em segundo lugar, já havia Templários nas vizinhanças. Finalmente,  Pierre de Voisins tinha tropas suas próprias, juntamente com os Templários que já estavam lá, que podiam garantir a segurança das cercanias. Porque, então, os Templários de Roussillon vieram a Bezu? Segundo a tradição local, eles vieram para espionar. E para explorar ou enterrar ou guardar um tesouro de algum tipo. Seja qual for a misteriosa missão deles, eles obviamente desfrutaram de algum tipo de imunidade especial. De todos os Templários da França,  eles foram deixados não molestados pelos senescais do Rei Felipe O Belo em 13 de outubro de 1307. Naquele dia fatídico, o comandante do contingente Tempário em Bezu era um Senhor de Goth. E antes de tomar o nome de Clemente V, o arcebispo de Bordeaux, o peão vacilante do Rei Felipe era Bertrand de Goth. Sobretudo, a mãe do novo pontífice era Ida de Blanchefort, da mesma família de Bertrand de Blanchefort. O papa então conhecia algum segredo confiado a custódia de sua família, um segredo que permaneceu na família até o século XVIII, quando o Abade Antoine Bigou, o cura de Rennes-le-Chateau e confessor de Marie de Blanchefort, compôs os pergaminhos encontrados por Sauiere? Se este foi o caso, o papa podia bem ter estendido algum tipo de imunidade ao seu comando parental dos Templários em Bezu. A história dos Templários perto de Rennes-le-Chateau foi claramente tão repleta de enigmas perplexantes quanto a história da Ordem em geral. De fato, há um número de fatores do papel de Bertrand de Blanchefort, por exemplo, que parecerem constituir uma ligação discernível entre os enigmas mais gerais e os localizados. Nesse meio tempo, contudo, fomos confrontados com um conjunto assustador de coincidências numerosas demais para serem mesmo coincidências. Estávamos de fato lidando com um padrão calculado? Se assim o for, a questão óbvia era quem divisou isso, porque padrões tão intrincados não se criam sozinhos. Toda a evidência a nós disponível aponta para o planejamento meticuloso e organização cuidadosa tão crescentemente que suspeitamos deva haver um grupo específico de indivíduos, talvez comprendendo uma ordem de algum tipo, trabalhando assiduamente por trás das cenas. Não temos buscado a confirmação para a existência de tal Ordem. A própria confirmação se empurrou sobre nós. A confirmação de documentos secretos de uma terceira ordem por trás dos Templários e dos Cistercianos pulou ela própria sobre nós. De início, todavia, não pudemos considerar isso seriamente.

Os Enigmas que Compõem a História

A materia parecia tão não confiável, tão vaga e nebulosa como fonte. Até que pudessemos autenticar a veracidade desta fonte, não podiamos acreditar nas afirmações dela. Em 1956 uma série de livros, artigos, panfletos e outros documentos relacionados a Berenger Sauniere e ao enigma de Renes-le-Chateau começou a aparecer na França. Este material tinha constantemente proliferado e agora é volumoso. De fato, ele vem a constituir a base para uma verdadeira ‘indústria’. E sua grande quantidade, bem como o esforço e os recursos envolvidos em produzir e disseminar isso, implicitamente atestam algo de imensa importância, ainda que não explicada. Não surpreendentemente, o caso tem servido para excitar o apetite de inúmeros pesquisadores independentes  como nós mesmos, cujos trabalhos tem se acrescentado ao corpo do material disponível. O material original, contudo, parece ter saído de uma única fonte específica. Alguns claramente tem um vestido interesse em ‘promover’ Rennes-le-Chateau, em chamar a atenção pública para a história, em gerar publicidade e investigação posterior. Seja o que mais que isso possa ser, este vestido interesse não parece ser financeiro. Ao contrário, parece ser mais da ordem de propaganda; uma propaganda que estabelece a credibilidade para algo. E seja quem possam ser os indivíduos responsáveis por esta propaganda, eles tem buscado focar os holofotes em certas matérias enquanto mantém-se escrupulosamente nas sombras. Desde 1956 a quantidade de material relevante que tem sido deliberadamente e sistematicamente ‘vazada’, do modo pouco a pouco, fragmento por fragmento. A maioria desses fragmentos propõem uma matéria, implicita ou explicitamente, de alguma fonte ‘privilegiada’ ou ‘interna’. A maioria contém informação adicional, que suplementa o que era conhecido antes e assim contribui para o enigma completo. Nem a importação nem o significado do enigma completo ainda tem sido tornado claro, contudo. Ao invés, cada novo bocado de informação tem feito mais para intensificar do que para resolver o mistério. O resultado tem sido uma rede sempre proliferante de alusões sedutoras, pistas provocativas, referências cruzadas sugestivas e ligações. Ao confrontar a riqueza de dados agora disponível, o leitor bem pode sentir que ele está sendo brincado com, ou sendo engenhosamente e talentosamente levado de conclusão a conclusão por sucessivas cenouras penduradas diante de seu nariz. E sob tudo isso tudo está a constante e pervasiva intimação de um segredo; um segredo monumental de proporções explosivas. O material disseminado desde 1956 tem tomado um número de formas. Parte dele tem aparecido em livros populares, até mesmo best-sellers, mais ou menos sensacionais, mais ou menos cripticamente instigantes. Assim, por exemplo, Gerard de Sede tem produzido uma sequência trabalhos sobre tais aparente tópicos divergentes como os Cátaros, os Templários, a dinastia Merovíngia, a Rosa Cruz, Sauniere e Rennes-le-Chateau. Nestes trabalhos de Sede está frequentemente arqueando, modesto, deliberadamente mistificando e coquetemente evasivo. Seu tom implica constantemente que ele sabe mais do que está dizendo, talvez um instrumento para ocultar que ele não sabe tanto quanto finge saber. Mas seus livros contém bastante detalhes verificáveis para construir uma ligação entre seus temas respectivos. Seja mais o que for que possa se pensar, de Sede efetivamente estabelece que os assuntos diversos a que se dirige se entrelaçam e de alguma forma forma estão interconectados. Por outro lado, não podemos senão suspeitar que o trabalho de de Sede baseia-se pesadamente na informação fornecida por um informante  e de fato, de Sede mais ou menos reconhece isso ele próprio. Muito por acidente, sabemos quem era o informante. Em 1971, quando embarcamos em nosso primeiro filme para BBC sobre Rennes-le-Chateau, escrevemos ao publicante de de Sede em Paris para certo material visual. As fotografias que solicitamos foram de acordo postadas para nós. Em cada uma delas, na parte de trás, estava impresso Plantard. Naquele tempo o nome significava pouco para nós. Mas o apêndice de um dos livros de de Sede consistia em uma entrevista com um Pierre Plantard. E subsequentemente obtivemos evidência que Pierre Plantard tinha estado envolvido com certos trabalhos de de Sede. Eventualmente Pierre Plantard começou a emergir como uma das figuras dominantes em nossa investigação.

A informação disseminada desde 1956 não tem sido sempre contida na forma popular e acessível de de Sede. Parte dela tem aparecido em tomos pesados, assustadores e até mesmo pedantes, diametralmente opostos a abordagem jornalística de de Sede. Um de tais trabalhos foi produzido por Rene Descadeillas, antigo Diretor da Biblioteca Municipal de Carcassone. O livro de Descadeillas é estenuosamente anti-sensacional. Devotado a história de Rennes-le-Chateau e suas cercanias, ele contém uma plétora de minúncias sociais e economicas por exemplo, de nascimentos, mortes, casamentos, finanças, impostos e trabalhos públicos entre os anos de 1730 e 1820. No todo, ele não pode possivelmente diferir mais dos livros para o mercado de massa de de Sede que Descadeillas em algum lugar se submete ao fatal criticismo. Além dos livros publicados, incluindo alguns que tem sido publicados particularmente, tem havido um número de artigos em jornais e revistas. Tem havido entrevistas com vários indivíduos que afirmam serem versados em uma ou outra faceta do mistério. Mas a mais importante parte da informação não tem, em sua maior parte, aparecido sob a forma de um livro. A maior parte dela tem emergido em algum lugar em documentos e planfletos não destinados a circulação geral. Muitos destes documentos e planfletos tem sido depositados, em edições impressas limitadas e particulares, na Biblioteca Nacional de Paris. Eles parecem tem sido produzidos muito baratamente. Alguns, de fato, são meras páginas datilografadas, fotolitografia, e reproduzidos em um duplicador de escritório. Até mesmo mais do que marcados trabalhos, este corpo de efemera parece ter sido emitido da mesma fonte. Por meio de anotações cripticas paralelas e notas de rodapé pertencentes a Sauniere, Rennes-le-Chateau, Poussin, a dinastia Merovíngia e outros temas, cada pedaço disso complementa, aumenta e confirma as outras. Na maioria dos casos o efemera é de autoria incerta, aparecendo sob uma variedade de pesudônimos transparentes e até mesmo ‘adoráveis” como  Madeleine Blancassal, por exemplo, Nicolas Beaucean, Jean Delaude e Antoine Ermite.

”Madeleine’, com certeza, se refere a Maria Madalena, a Madalena, a quem a Igreja de Rennes-le-Chateau é dedicada e a quem Sauniere consagrou sua Torre, a Tour Magdala. ‘Blancassal’ é formado pelo nome de dois pequenos rios que convergem perto da vila de Rennes-le-Bains, o Blanque e o Sals.  Beaucean é uma variação de Beauseante, o oficial grito de batalha e estandarte de batalha dos Cavaleiros Templários. Jean Delaude é Jean de Aude, ou João do Aude, o departamento no qual é situado Rennes-le-Chateau. E Antoine Ermite é Santo Antonio o Eremita cuja estátua adorna a igreja de Rennes-le-Chateau e cujo dia de festa é 17 de janeiro – a data na tumba de Marie de Blanchefort e a data na qual Sauniere sofreu seu ataque cardíaco fatal. A palavra atribuida a Madeleine Blancassal é intitulada “Os Descendentes Merovingios e o Enigma dos Razes Visigodos”. Razes sendo o velho nome para a região de Sauniere. Segundo sua página titulo, este trabalho foi originalmente publicado em alemão e traduzido para o francês por  Walter Celse-Nazaire, um outro pseudônimo composto dos Santos Celso e Nazaire, a quem a igreja de Rennes-le-Bains é dedicada. E segundo a página título, o publicante do trabalho foi a Grande Loja Alpina, a suprema loja maçonica da Suiça – o equivalente suiço da Grande Loja da Bretanha ou Grande Oriente na França. Não há indicação como e porque uma moderna loja maçonica deva apresentar tal interesse no mistério que cerca um obscuro cura paroquial francês do século XIX e a história de sua paróquia um milenio e meio atrás. Um de nossos colegas e pesquisador independente afirma pessoalmente ter visto o trabalho nas prateleiras da biblioteca Alpina. E subsequentemente descobrimos que a impressão Alpina apareceu em dois outros planfletos também.

De todos os documentos particularmente publicados depositados na Biblioteca Ncional, o mais importante é uma compilação de papéis intitulados coletivamente “Dossiês Secretos’. Catalogo número 249, esta compilação agora está em microfilme. Até recentemente, contudo, ela compreendiam um pequeno volume não descrito, uma espécie de pasta com capas rígidas que contém uma frouxa semelhança dos itens ostensivamente não relacionados  de novos recortes, cartas coladas em folhas, panfletos, inúmeras árvores genealógicas, e estranhas páginas impressas aparentemente extraídas de algum outro trabalho. Periodicamente algumas das páginas individuais seriam removidas. Em tempos diferentes outras páginas seriam recentemente inseridas. Em certas páginas adições e correções algumas vezes seriam feitas em uma minúscula escrita completa. Em uma data posterior, estas páginas seriam substituídas por novas, impressas e incorporando todas as emendas prévias. O groso dos Dossiês, que consiste em árvores genealógicas, é atribuido a um Henri Lobineau, cujo nome aparece na página título. Dois itens adicionais na pasta declaram que Henri Lobineau é ainda um outro pseudônimo derivado talvez de uma rua, a Rue Lobineau, que corre fora de São Suspílcio em Paris e que as genealogias são realmente o trabalho de um homem chamado Leo Schidlof, um historiador austríaco e antiquário que supostamente viveu na Suiça e morreu em 1966. Com base nesta informação, quisemos saber o que pudéssemos sobre Leo Schidlof. Em 1978 conseguimos localizar a filha de Leo Schidlof, que estava vivendo na Inglaterra. Seu pai, ela disse, era de fato austríaco. Ele não era um genealogista, historiador ou antiquário, contudo era um especialista e comerciante de miniaturas, que tinha escrito dois trabalhos sobre o assunto. Em 1948 ele havia se estabelecido em Londres, onde viveu até sua morte em Viena em 1966, o ano e lugar especificado nos Dossiês Secretos. Miss Schidlof veementemente manteve que seu pai nunca tinha tido interesse em genalogias, na dinastia Merovíngia, ou nos misteriosos acontecimentos no sul da França. Ainda que, ela continuou, certas pessoas obviamente acreditassem que ele tivesse. Durante a década de 1960, por exemplo, ele tinha recebido inúmeras cartas e telefonemas de individuos não identificados tanto da Europa quanto dos Estados Unidos, que desejavam se encontrar com ele para discutir assuntos dos quais ele não tinha qualquer conhecimento. Em sua morte em 1966, houve outra barreira de mensagens, a maioria perguntando sobre os papéis dele. Seja qual for o caso no qual o pai de Miss Schifold foi envolvido, parece ter tocado uma corda sensível do governo americano. Ele havia pedido visto de entrada nos Estados Unidos. A aplicação foi recusada com base em uma suspeita espionagem ou alguma outra forma de atividade clandestina. Eventualmente o assunto foi revisto e o visto emitido e Leo Schidlof foi admitido nos Estados Unidos. Isto bem pode ter sido uma típica confusão burocratica. Mas Miss Schidlof parecia suspeitar que ela de alguma forma estava ligada com preocupações arcanas tão perplexantes atribuidas ao seu pai. A historia de Miss Schidlof nos deu uma pausa.  A recusa do visto americano pode bem ter sido uma coincidência, porque havia, entre os papéis nos Dossiês secretos, referências que ligavam o nome de Leo Schidlof com algum tipo de espionagem internacional. Neste meio tempo, todavia, um novo panfleto havia aparecido em Paris que, durante os meses que se seguiram, foi confirmado por outras fontes. Segundo este panfleto, o escorregdio Henri Lobineau não era afinal Leo Schidlof, mas um aristocrata francês de linhagem distinta, o Conde Henri de Lenoncourt. A questão da real identidde de Lobineau nÃo era o único enigma associado aos Dossiês Secretos.

Havia também um item que se referia a Maleta de Couro de Leo Schidlof. Esta maleta supostamente continha um número de papéis secretos relacionados a Rennes-le-Chateau entre 1600 e 1800. Pouco depois da morte de Schidlof, a maleta foi dita ter passado para as mãos de um mensageiro, um certo Fakhar ul Islam que, em fevereiro de 1967, estava para se encontrar na Alemanha Oriental com um ‘agente delegado de Genebra’ e confiar a maleta a ele. Antes que a transação pudesse ser efetuada, contudo, Fakhar ul Islam foi relatadamente expulso da Alemanha Oriental e voltou a Paris para aguardar ordens posteriores. Em 20 de fevereiro de 1967 seu corpo foi encontrado nos trilhos da ferrovia em Melun, tendo sido atirado do expresso Paris-Genebra. A maleta supostamente desapareceu. Iremos examinar esta lúrida história tão longe quanto pudermos. Uma serie de artigos nos jornais franceses de 21 de fevereiro confirmam isso. Um corpo decapitado tinha sido de fato encontrado nos trilhos em Melun. Ele foi identificado como um jovem paquistanês chamado Fakhar ul Islam. Por razões que permanecem oscuras, o homem morto foi expulso da Alemanha Oriental e estava viajando de Paris para Genebra engajado, assim parecia, em algum tipo de espionagem.  Segundo os relatos dos jornais, as autoridades suspeitavam de um delito, e o caso estava sendo investigado pelo DST [Diretorio de Vigilância Territorial, ou Contra-espionagem]. Por outro lado, os jornais não fizeram menção a Leo Schidlof, uma maleta de couro ou qualquer coisa mais que ligasse a ocorrência com o mistério de Rennes-le-Chateau. Como resultado, nos deparamos com um número de perguntas. Por um lado, era possível que a morte de Fakhar ul Islam estivesse ligada a Rennes-le-Chateau que, o item nos Dossiês Secretos de fato dirigiam para uma ‘informação interna’ inacessível aos jornais. Por outro lado, o item nos Dossiês Secretos pode ter sido uma mistificação deliberada e espúria. Precisava-se apenas encontrar qualquer morte suspeita ou inexplicável e atribuir isto, depois do fato, a um de seus próprios cavalos. Mas se este de fato fosse o caso, qual era o propósito do exercício? Porque alguém deliberadamente tentaria criar uma atmosfera de intriga sinistra ao redor de Rennes-le-Chateau? O que poderia ser ganho pela criação de uma tal atmosfera? E quem poderia lucrar com isso? Estas questões nos deixaram a todos perplexos, mas porque a morte de Fakhar ul Islam não foi, aparentemente, uma ocorrência isolada.

Menos de um mês depois um outro trabalho particularmente impresso foi depositado na Biblioteca Nacional. Era era chamdo A Serpente Vermelha, e datado simbolícamente, e muito sigificativamente, de 17 de janeiro. Sua página título o atribuia a três autores: Pierre Feugere, Louis Saint-Maxent e Gaston de Koker. A Serpente Vermelha é um trabalho singular. Ele contém uma genealogia Merovíngia e dois mapas da França nos tempos Merovíngios, junto com um comentário apressado. Ele também contém uma planta de solo de São Suspílcio em Paris, que delineia as capelas dos vários santos da igreja. Mas o grosso do texto consistem em 13 tipos de poemas em prosa de impressiva qualidade literária, muitos deles reminescentes dos trabalhos de e cada um corresponde a  um signo do Zodíaco; um zodíaco de 13 signos, com o 13o., Ophiuchus ou Mantenedor da Serpente, inserido entre Escorpião e Sagitário. Narrado na primeira pessoa, os 13 poemas em prosa são um tipo de simbólico: ou romaria alegórica, começando com Aquário e terminando com Capricórnio que, como afirma o texto explicitamente, preside sobre 17 de janeiro. Em um outro texto críptico, há referências familiares – a família Blanchefort, as decorações da igreja em Rennes-le-Chateau, a algumas das inscrições de Sauniere lá, a Poussin e a pintura dos “Pastores da Arcadia” , ao moto na tumba [Et Arcadia Ego]. Em um ponto, há menção a uma ‘serpente vermelha’, citada nos pergaminhos, enrolada através dos séculos em uma explícita alusão, assim  parece, a uma linhagem sanguínea ou linhagem. E do signo astrológico de Leão, há um parágrafo enigmático digno de ser citado em sua inteireza: “Dela que eu desejo libertar, lá flutua em minha direção, a fragrância do perfume que impregna o Sepulcro. Antigamente, alguns a chamavam: Isis, rainha de todas as fontes benevolentes. Venham a mim todos que sofrem e estão aflitos e eu lhe darei o repouso. Para outros, ela é Madalena, do celebrado vaso cheio de bálsamo curador. O iniciado sabe o verdadeiro nome dela: NOTRE DAME DES CROSS.” As implicações deste parágrafo são extremamente interessantes. Isis, de fato, é a Deusa Mãe Egípcia, a patrona dos mistérios da ‘Rainha Branca’ em seus aspectos benevolentes, a ‘Rainha Negra’, nos aspectos malévolos. Inúmeros escritores, sobre mitologia, antropologia, psicologia, teologia tem traçado o culto da Mãe Deusa dos tempos pagãos à época cristã. E segundo estes escritores, ela é dita ter sobrevivido sob a Cristandade sob o disfarce da Virgem Maria, a ‘Rainha do Céu’, como a chamava São Bernardo, uma designação aplicada no Velho Testamento a Deusa Mãe Astarte, o equivalente fenício de Isis. Mas segundo o texto da Serpente Vermelha, a Deusa Mãe da Cristandade não parece ser virgem.  Ao contrário, ela pareceria ser Madalena a quem a igreja de Rennes-le-Chateau é dedicada e a quem Sauniere consagrou sua torre. Sobretudo, o texto pareceria implicar que Notre Dame não se aplica a Virgem também. Este título ressonante conferido em todas as grandes catedrais da França também pareceriam se referir a Madalena. Mas porque Madalena deve ser reverenciada como ‘Nossa Senhora’ e, ainda mais, como a Deusa Mãe? A maternidade é a última coisa geralmente associada a Madalena. Na popular tradição cristã ela é uma prostituta que acha a redenção ao aprender com Jesus. E ela figura mais importantemente no Quarto Evangelho, onde ela é a primeira pessoa a ver Jesus depois da Ressureição. Em consequência, ela é exaltada como Santa, especialmente na França, onde é dito ela ter trazido o Santo Gral.

Mas entronizar Madalena no lugar gerealmente reservado a Virgem pareceria, no mínimo, ser heretíco. Seja qual for o ponto, os autores da Serpente Vermelha – ou, muito mais,  os alegados autores, encontraram um destino tão pavoroso quanto aquele de Fakhar ul Islam. Em 6 de março de 1967, Louis Saint-Maxent e Gaston de Koker foram encontrados enforcados. E no dia seguinte, 7 de março, Pierre Feugere foi encontrado enforcado também. Pode-se imediatamente assumir, com certeza, que estas mortes estão de algum modo  ligadas com a composição e divulgação pública da Serpente Vermelha. Como no caso de Fakhar ul Islam, contudo, não se pode descartar uma explicação alternativa. Se alguém quisesse criar uma aura de mistério sinistro, seria muito fácil o fazer. Precisaria apenas folhear os jornais até encontrar uma morte suspeita ou, neste caso, três mortes suspeitas. Depois do fato, pode-se então apensar os nomes dos mortos a um panfleto de própria criação de alguém e depositar este panfleto na Biblioteca Nacional com uma data anterior [17 de janeiro] na página título. Seria virtualmente impossível expor uma tal fraude, que certamente produziria a desejada intimação do delito. Mas porque perpetrar uma tal fraude afinal? Porque alguém desejaria evocar uma aura de violência, assassinato e intriga? Um tal golpe dificilmente deteria os investigadores. Ao contrário, ele posteriormente os atrairia. Se, por outro lado, não estamos lidando com uma fraude, havia ainda um número de pergunts perplexantes. Acreditaríamos, por exemplo, que estes três homens foram vítimas de suicídio ou de assassinato? Suicídio, nas circunstâncias, parece fazer pouco sentido e assasinato não parece fazer muito sentido mais. Pode-se entender três pessoas sendo despachadas para que elas não divulguem certa informação.  Mas neste caso a informação já havia sido divulgada, já havia sido depositada na Biblioteca Nacional. Podem os assassinatos se é que eles tenham sido uma forma de punição, ou retribuição? Ou talvez um meio de evitar qulquer indiscrição subsequente? Nenhuma destas explicações é satisfatória. Se alguém está zangado pela revelação de uma certa informação, ou se alguém deseja evitar adicionais revelações, não atrai atenção sobre o assunto ao cometer um trio de lúridos e sensacionais assassinatos a menos que esteja razoavelmente confiante que não haverá um inquérito muito assíduo. Nossas próprias aventuras no curso de nossa investigação foram misericordiosamente menos dramáticas mas igualmente mistificantes. Em nossa pesquisa, por exemplo, temos encontrado repetidas referências ao trabalho de um Antoine Ermite intitulado ‘Um Tesouro Merovíngo em Rennes-le-Chateau’. Tentamos localizar este trabalho e rapidamente o encontramos listado no catálogo da Biblioteca Nacional; mas ele se provou incomumente difícil de se obter. Todo dia, durante uma semana, fomos a biblioteca e preenchemos a ficha de requisição do trabalho. Em cada ocasião a ficha retornou marcada ‘comunique’, indicando que o trabalho estava sendo usado por alguém mais. Isto por sí só não é não usual. Depois de um período de duas semanas, contudo, isso começou a se tornar assim e tão exasperante também, porque não podíamos permanecer em Paris por muito tempo mais. Pedimos a ajuda de um bibliotecário. Ele nos disse que o livro estaria indisponível por três meses – uma situação extremamente não usual e que não podiámos encomendar isto antecipadamente ao seu retorno. Na Inglaterra não muito depois uma amiga nossa anunciou que ela estava indo a Paris para umas férias. Pedimos a ela para tentar obter este trabalho fugidio de Antoine Ermite e ao menos fazer uma anotação do que ele continha.

Na Biblioteca Nacional, ela requisitou o livro. A ficha dela nem ao menos voltou. No dia seguinte, ela tentou novamente e com o mesmo resultado. Quando nós fomos a seguir a Paris, alguns quatro meses depois, fizemos uma outra tentativa. Nossa ficha novamente voltou marcada como ‘comuique’. A este ponto, começamos a sentir que o jogo de certa forma tinha sido exagerado e começamos a jogar o nosso próprio. Fizemos o nosso caminho de volta ao catálogo, adjacente as ‘áreas’ que são, com certeza, inacessíveis ao público. Encontramos um assistente de biblioteca de aparencência gentil e idosa, com o qual assumimos o papel de gaguejantes turistas ingleses com um domínio neandertalense do francês. Pedindo a ajuda dele, explicamos que estavamos procurando um trabalho em particular mas estávamos incapazes de obte-lo, sem dúvida por causa de nosso entendimento imperfeito dos procedimentos da biblioteca. O genial velho cavalheiro concordou em nos ajudar. Nós demos a ele o número de catálogo do trabalho e ele desapareceu na área reservada. Quando ele emergiu, ele se desculpou, dizendo que nada havia que ele pudesse fazer já que o livro havia sido roubado. E o que havia mais, ele acrescentou, um nosso compatriota foi aparentemente o responsável pelo roubo, um homem inglês. Depois de algum cansaço, ele consentiu em nos dar o nome dela. Era aquela nossa amiga! Quando retornarmos a Inglaterra, buscamos a assistência de um serviço de biblioteca em Londres, e eles concordaram em olhar aquele assunto bizarro. Em nosso benefício, a Biblioteca Central Nacional escreveu a Bibliteca Nacional solicitando uma explicação para o que parecia ser uma obstrução deliberada de pesquisa legitima. Nenhuma explicação foi dada posteriormente. Pouco depois, contudo, uma cópia xerox do trabalho de Antoine Ermite foi ao menos despachada para nós –  junto com enfáticas instruções que ela devia ser devolvida imediatamente.  Isto por si só era extremamente singular, porque as bibliotecas gralmente não solicitam a devolução de cópias xerox. Tais cópias geralmente são vistas como mero desperdício de papel e dispostas de acordo. O trabalho, que finalmente estava em nossas mãos, provou-se ser distintamente desapontador e dificilmente digno do negócio complicado de obte-lo; Como trabalho de Madeleine Blancassal, ele tinha a impressão da Grande Loja Suiça Alpina. Mas não dizia nada de novo. Muito brevemente, ele recapitulava a história do Conde de Razes, de Rennes-le-Chateau e de Sauniere.

Em resumo, ele reafirmava todos os detalhes com os quais a muito tempo estávamos familiarizados. Parece não haver qualquer razão imaginável para alguém te-lo estado usando e mantendo-o incomunicável por uma semana inteira. Nem havia qualquer razão imaginável para te-lo subtraido de nós. Mas o mais enigmático de tudo, o próprio trabalho não era original. Com a exceção de umas poucas palavras alteradas aqui e ali, ele era o texto verbatim [palavra por palavra] recopiado e reimpresso, de um capítulo de uma brochura popular, um beste seller fácil, disponível nas prateleiras por uns poucos francos, sobre tesouros perdidos pelo mundo. Ou Antoine Ermite tinha desavergonhadamente plagiarizado o livro publicado, ou o livro publicado tinha plagiarizado Antoine Ermite. Tais ocorrências são típicas da mistificação que tem atendido o material que, desde 1956, tem estado aparecendo fragmento por fragmento na França. Outros pesquisadores tem encontrado enigmas similares. Nomes ostensivamente plausíveis tem provado serem pseudônimos. Endereços, incluindo endereços de casas publicadoras  e organizações, tem provado não existirem. Documentos tem desaparecido, sido alterados, ou inexplicavelmente mal catalogados na Biblioteca Nacional. As vezes alguém é tentado a suspeitar de uma piada prática. Se assim o é, contudo, é uma piada prática em uma escala enorme, envolvendo um conjunto impressionante de recursos financeiros e outros. E seja quem for que possa estar perpetrando uma tal piada pareceria estar levando isso muito seriamente. Neste meio tempo, novo material continua a aparecer, com os temas familiares recorrendo como motivos condutores: Sauniere, Rennes-le-Chateau, Poussin, ‘Os Pastores da Arcadia”, os Cavaleiros Templários, Dagoberto II e a dinastia Merovíngia. Alusões a vinocultura, o desenho de vinhas figura proeminentemente, presumidamente em algum sentido alegórico. A identificação de Henri Lobineau como o Conde de Lenoucourt é um exemplo. Um outro é uma insistência crescente embora inexplicável sobre a importância de Madalena. E duas outras locações tem sido ressaltadas repetidamente, assumindo um status agora aparentemente comensurado com Rennes-le-Chateau. Uma delas é Gisors, uma fortaleza na Normandia que era de importãncia vital e política no auge das Cruzadas. A outra é Stenay, uma vez chamada Satanicum, na borda das Ardenas, a velha capital da dinastia Merovíngia, perto da qual Dagoberto II foi assassinado em 679.

O corpo do material agora disponível não pode ser adequadamente revisto ou discutido nestas páginas. Ele é denso demais, confuso demais, desconectado demais, a sobretudo copioso demais. Mas desta sempre proliferante riqueza de informação, certos pontos chave emergem que constituem a fundação para pesquisa posterior. Eles são apresentados como incontestáveis fatos históricos e podem ser resumidos como se segue:
-1- Há uma ordem secreta por trás dos Cavaleiros Templários que criou os Templários como seu braço administrativo e militar. Esta Ordem, que tem funcionado sob uma variedade de nomes, é mais frequentemente conhecida como Priorado de Sião.
-2- O Priorado de Sião tem sido dirigido por uma sequência de Grão Mestres cujos nomes  estão entre os mais ilustres na história e cultura ocidental.
-3- Embora os Cavaleiros Templários tenham sido destruídos e dissolvidos entre 1307 e 1314, o Priorado de Sião permaneceu intocável. Embora ele próprio periodicamente se despedace por luta interna e faccional, ele tem continuado a funcionar  por séculos. Agindo nas sombras, por trás das cenas, ele tem orquestrado certos eventos críticos na história ocidental.
-4- O Priorado de Sião existe hoje, e ainda está operacional. Ele é influente e desempenha um papel de alto nível nos assuntos internacionais bem como nos assuntos domésticos de certos países europeus.  Em alguma importante extensão ele é responsável pelo corpo de informação diseminada desde 1956.
-5- a meta jurada e o objetivo declarado do Priorado de Sião é a restauração da dinastia Merovingia e da linhagem  sanguínea no trono não apenas da França, mas no trono de outras nações européias também.
-6- A restauração da dinastia Merovíngia é sancionada e justificável, tanto legal quanto moralmente. Embora deposta no século VIII, a linhagem sanguinea Merovíngea não se tornou extinta. Ao contrário, ela se perpetuou em uma linhagem direta de Dagoberto II e seu filho, Sigisberto IV. Por meio  de alianças dinásticas e intercasamentos, esta linhagem veio a incluir Godfroi de Bouillon, que capturou Jerusalém em 1099, e várias outras famílias nobres e reais, passadas e presentes,  Blanchefort, Gisors, Saint Clair (Sinclair na Inglaterra), Montesquieu, Montpezat, Poher, Luisignan, Plantard e Habsburg-Lorraine.

No presente, a linhagem sanguínea Merovíngia desfruta de uma reclamação legítima de seu direito de herança. Aqui, no chamado Priorado de Sião, estava a possível explicação para a referência ao Sião nos pergaminhos encontrados por Berenger Sauniere. Aqui, também, estava uma explicação para a curiosa assinatura ‘PS’ que apareceu em um dos pergaminhos, e na pedra da tumba de Marie de Blanchefort. Não obstante, éramos extremamente céticos, como a maioria das pessoas, sobre “as teorias de conspiração da história”; a a maioria das avaliações acima nos atingiu como irrelevantes, improváveis e/ou absurdas. Mas permaneceu o fato de que certas pessoas as estavam promulgando, e o fazendo muito seriamente; tão seriamente e, há razões para acreditar, de posições de considerável poder. E seja qual for a verdade de tais avaliações, eles estavam claramente ligadas de algum modo com o mistério que cerca Sauniere e Renes-le-Chateau. Nós, portanto, embarcamos em um exame sistemático do que tinhamos começado a chamar, ironicamente, os ‘Documentos do Priorado’ e das avaliações do que eles continham. Nos comportamos submetendo estas avaliações ao cuidadoso exame crítico para determinar se eles podiam ser de qualquer modo substanciados. Fizemos isso com um ceticismo  cínico, quase ridículo, completamente convencidos que as afirmações estranhas desapareceriam sob até mesmo uma investigação superficial. Embora nós não pudessemos o saber naquele tempo, estávamos para ficar grandemente surpresos.

As Duas Sociedades Secretas
A Ordem por trás das Cenas

Nós já tinhamos suspeitado da existência de um grupo de indivíduos, senão uma Ordem ‘coerente’, por trás dos Cavaleiros Templários. A afirmação de que o Templo foi criado pelo Priorado de Sião então parecia ligeiramente mais plausível do que as outras avaliações nos ‘Documentos do Priorado’. Foi com esta afirmação, portanto, que começamos o nosso exame. Tão cedo quanto 1962 o Priorado de Sião tinha sido mencionado, brevemente, cripticamente e de passagem  em um trabalho de Gerard de Sede. A primeira referência detalhada a isso que encontramos, contudo, foi uma única página nos Dossiês Secretos. No topo desta página há uma citação de Rene Grousset, uma das maiores autoridades sobre as Cruzadas, cuja obra monumental sobre o assunto, publicada na década de 1930, é vista como um trabalho que tem influência sobre o futuro por tais historiadores modernos como Sir Steven Runciman. A citação se refere a Bauduino I, o irmão mais novo de Godfroi de Bouillon, Duque de Lorraine e conquistador da Terra Santa. Com a morte de Godfroi, Bauduino aceitou a coroa oferecida a ele e portanto se tornou o primeiro rei oficial de Jerusalém. Segundo  Rene Grousset, lá existiu, por Bauduino I, uma ‘tradição real’. E porque isso foi fundado ‘sobre a rocha de Sião’, esta tradição era igual as dinastias reinantes na Europa, a dinastia Capetiana na França, a dinastia Plantageneta [anglo-normanda] da Inglaterra, as dinastias de Hohenstauffen e Hapsburg que governavam sobre a Alemanha e a velho Sagrado Império Romano. Mas Bauduino e seus descendentes foram eleitos reis, não eram reis pelo sangue. Porque, então, devia Grousset falar de uma ‘tradição real’  que existia através dele? O próprio Grousset não explica. Nem ele explica porque esta tradição, porque ela foi fundada “sobre a rocha de Sião’, devia ser igual as principais dinastias da Europa. Na página nos Dossiês Secretos a citação de Grousset é seguida de uma alusão ao misterioso Priorado de Sião ou Ordem de Sião, como aparentemente isso era chamado naquele tempo. Segundo o texto, a Ordem de Sião foi fundada por Godfroi de Bouillon em 1090, nove anos antes da conquista de Jerusalém embora haja outros “Documentos do Priorado’  que dão a data de fundação em 1099. Segundo o texto, Bauduino, o irmão mais novo de Godfroi, ‘recebeu seu trono’ da Ordem. E segundo o texto, o assento oficial da Ordem, ou sua sede, era uma específica abadia, a Abadia de Notre Dame du Mont de Sion em Jerusalém. Ou talvez exatamente fora de Jerusalém, no Monte Sião, a famosa ‘alta montanha’ exatamente ao sul da cidade. Em consultar todos os trabalhos padrão do século XIX sobre as Cruzadas, não encontramos qualquer menção seja a qual for Ordem de Sião. Portanto tentamos estabelecer se uma tal Ordem existiu realmente e se ela poderia ter tido o poder de conferir tronos. Para fazer isso, fomos obrigados a procurar com afinco entre feixes de antiquados documentos e cartas de direitos. Não buscavamos apenas referências explícitas a Ordem. Tmbém buscávamos algum traço de sua possível influência e atividades. E buscávamos confirmar se ou não existia uma abadia chamada Notre Dame du Mont de Sion. Ao sul de Jerusalém se esgueira a ‘alta montanha’ do Monte Sião. Em 1099, quando Jerusalém caiu sob os Cruzados de Godfroi de Bouillon, lá existia nesta montanha as ruinas de uma velha basílica bizantina, datando supostamente do século IV e chamada ‘A Mãe de todas as Igrejas’ – um titulo mais que sugestivo. Segundo as numerosas cartas de direitos existentes, crônicas e narrativas contemporâneas, uma abadia foi construida no sítio destas ruínas. Ela foi construida sob o expresso comando de Godfroi de Bouillon. Ela deve ter sido um edifício imponente, uma comunidade auto-contida. Segundo um cronista, escrevendo em 1172, ela era extremamente bem fortificada, com seus próprios muros, torres e  ameias. E esta estrutura foi chamada Abadia de Notre Dame du Mont de Sion. Alguém, obviamente tinha que ocupar este território. Pode eles terem sido uma ‘Ordem’ autônoma, tomando seu nome do próprio sítio? Podem os ocupantes da Abadia de fato terem sido a Ordem de Sião? Não era irrazoável assim o assumir. Os cavaleiros e monges que ocuparam a Igreja do Santo Sepulcro, também instalada por Godfroi, foram formados  em uma ordem oficial e devidamente constituida, a Ordem do Santo Sepulcro. O mesmo princípio pode muito bem ter sido seguido pelos ocupantes da Abadia de Monte Sião, e isso pareceria ter sido assim. Sendo o principal especialista do século XIX sobre o assunto, a abadia era habitada por um capítulo de canons agostinianos, encarregados de servirem os santuários sob a direção de um Abade. A comunidade assumiu o duplo nome de ‘Sainte-Marie du Mont Syon et du Saint-Esprit’

Um outro historiador, ecrevendo em 1698, é ainda mais explícito: “Havia em Jerusalém durante as Cruzadas… cavaleiros anexados a Abadia de  Notre Dame de Sion que receberam o nome de “Cavaleiros da Ordem de Notre Dame de Sião”. Se isto não for confirmação suficiente, também descobrimos documentos do período original – apresentando o selo e a assinatura de um ou outro prior de Notre Dame de Sião. Há por exemplo uma carta de direitos, assinada por um Prior Arnaldus e datada de 19 de julho de 1116. Em uma outra carta de direitos, datada de 2 de maio de 1125, o nome de  Arnaldus aparece em conjunção com aquele de Hugues de Paiens, o primeiro Grão Mestre do Templo. Até onde se tem provado válidos os ‘Documentos do Priorado’ podemos avaliar que uma Ordem de Sião existiu pela virada do século XII. Se a Ordem foi ou não formada anteriormente, contudo, premaneceu uma questão em aberto. Não há consistência sobre o que vem primeiro, uma ordem ou as terras na qual ele é hospedada. Os Cistercianos, por exemplo, tomaram seu nome de um lugar específico, Citeaux. Por outro lado, os Franciscanos e Beneditinos, para citar apenas dois exemplos, tomaram seus nomes de indivíduos que são anteriores a qualquer abrigo específico. O máximo que podemos dizer, portanto, é que uma abadia existia por 1100 e abrigava uma ordem do mesmo nome, que pode ter sido formada anteriormente. Os ‘Documentos do Priorado’ implicam que isso era, e há alguma evidência a sugerir, embora vaga e obliquamente, este de fato pode ter sido o caso. É sabido que em 1070, 29 anos antes da Primeira Cruzada, um bando específico de monges, da Calabria ao Sul da Itália, chegou nas vizinhanças da Floresta de Ardenas, parte dos domínios de  Godfroi de Bouillon.

Segundo Gerard de Sede, este bando de monges era liderado por um indivíduo chamado ‘Ursus’ – um nome que nos ‘Documentos do Priorado’ consistetemente se associa a linhagem sanguínea Merovíngia. Em sua chegada nas Ardenas, os monges calabreses obtiveram o patrocínio  de Mathilde de Toscane, Duquesa de Lorreine que era tia de Godfroi de Boillon e, de fato, mãe adotiva. De Mathilde os monges receberam um pedaço de terra em Orval, não longe de Stenay, onde Dagoberto II tinha sido assassinado alguns 500 anos antes. Aqui foi estabelecida uma abadia para abriga-los. Não obstante, eles não permaneceram em Orval por muito tempo. Por 1108 ele haviam desaparecido misteriosamente e nenhum registro sobre o paradeiro deles sobrevive. A tradição diz que eles voltaram a Calabria. Orval, por 1131, tinha se tornado um feudo possuido por São Bernardo. Antes da partida deles de Orval, contudo, os monges calabreses podem ter deixado uma marca crucial na história ocidental. Segundo Gerard de Sede, ao menos, eles incluiam o homem subsequentemente conhecido como Pedro O Eremita. Se isto assim o for, seria extreamente significativo, porque Pedro O Eremita é frequentemente acreditado ser o tutor pessoal de Godfroi de Bouillon. Nem esta é a única afirmação para a fama. Em 1095, junto com o Papa Urbano II, Pedro se tornou conhecido pela cristandade pelo carismático aliado pregando a necessidade de uma guerra santa que reclamaria o Sepulcro de Cristo e a Terra Santa das mãos dos muçulmanos infiéis. Hoje Pedro O Eremita é visto como um dos principais instigadores das Cruzadas. Com base nas pistas divisadas pelos ‘Documentos do Priorado’, começamos a imaginar se podia haver algum tipo de sombria continuidade entre os monges de Orval, Pedro O Eremita e a Ordem de Sião. Certamente pareceria que os monges de Orval não eram apenas uma bando aleatório de devotos religiosos itinerantes. Ao contrário os movimentos deles de chegada coletiva nas Ardenas vindos da Calábria e o seu misterioso desaparecimento em massa atestam algum tipo de coesão, algum tipo de organização e talvez uma base permanente em algum lugar. E se Pedro fosse membro deste bando de monges, seus pregação de uma Cruzada pode ter sido uma manifestação não de claro fanatismo, mas de política calculada. Se ele era o tutor pessoal de Godfroi de Bouillon, sobretudo, pode muito bem ter desempenhado o mesmo papel em convencer seu pupilo em embarcar para a Terra Santa. E quando os monges desapareceram de Orval, eles podem não ter afinal voltado a Calabria. Eles podem ter se estabelecido em Jerusalém, talvez na Abadia de Notre Dame de Sião.

Isto, de fato, é uma hipótese especulativa, sem qualquer confirmação documental. Novamente, contudo, encontramos fragmentos de evidência circunstancial que apoie isso. Quando Godfroi de Bouillon embarcou para a Terra Santa, ele é sabido ter sido acompanhado por uma entourage de figuras anônimas que agiam como conselheiros e administradores o equivalente, de fato, de uma equipe geral moderna. Mas o de Godfroi não foi o único exército cristão a embarcar para a Palestina. Havia ao menos três outros, cada um comandado por um ilustre e influente potentado ocidental. Se a cruzada se provasse bem sucedida, se Jerusalém caísse e um reino franco fosse estabelecido, qualquer um desses quatro potentados teria sido elegível para ocupar seu trono. E ainda que Godfroi pareça ter sabido de antemão que ele seria selecionado. Só entre os comandantes europeus, ele renunciou aos seus feudos, vendeu todos os seus bens e tornou aparente que a Terra Santa, pela duração de sua vida, seria seu domínio. Em 1099, imediatamente depois da captura de Jerusalém, um grupo de figuras anônimas se reuniu em um conclave secreto. A identidade dessse grupo tem fugido a todo inquérito histórico embora Guillaume de Tyre, escrevendo uns 75 anos depois, relata que o mais importante deles era um certo Bispo da Calabria. Em qualquer caso, o propósito do encontro era claro: eleger um rei de Jerusalém. E a despeito de uma afirmação persuasiva de Raymond, Conde de Toulouse, os eleitores obviamente misteriosos e influentes prontamente ofereceram o trono a Godfroi de Bouillon. Com modéstia não característica, Godfroi declinou o título, aceitando ao invés o de ‘Defensor do Santo Sepulcro’. Em outras palavras, ele era um rei em tudo, menos no nome. E quando ele morreu, em 1100, seu irmão, Bauduino, não hesitou em aceitar o nome também. Pode este misterioso conclave que elegeu o governante Godfroi ter sido os monges fugidios de Orval, incluindo, talvez Pedro O Eremita, que estava na Terra Santa nesse tempo e desfrutava de considerável autoridade? E pode este mesmo conclave ter ocupado a Abadia de Sião? Em resumo, podem estes três grupos ostensivamente distintos de indivídos [os monges de Orval, o conclave que elegeu Godfroi e os ocupantes de Notre Dame de Sião] terem sido um só e mesmo grupo? A possibilidade não pode ser provada, mas também não pode ser descartada. E se isso é verdade, certamente atestaria o poder da Ordem de Sião, um poder que incluia o direito de conferir tronos.

O Mistério que Cerca a Fundação dos Templários

O texto nos Dossiês Secretos continuam para se referir a Ordem do Templo. Os fundadores do Templo são especificamente listados como Hugues de Payen, Bisol de St. Omer e Hugues, o Conde de Champagne, juntos com certos outros membros da Ordem de Sião, Andre de Montbard, Archambaud de Saint-Aignan, Nivard de Montdidier, Gondemar e Rossal’. Já estávamos familiarizados com Hugues de Payens e Andre de Montbard, o tio de São Bernardo. Também estávamos familiarizados com Hugues, o Conde de Champagne que doou a terra da abadia de São Bernardo em Clairvaux, ele próprio se tornando um Templário em 1124 [jurando fidelidade ao seu próprio vassalo] e recebeu do Bispo de Chartres a carta citada acima. Mas embora a ligação do Conde de Champagne com os  Templários seja bem conhecida, nós nunca o tinhamos visto anteriormente citado como um de seus fundadores. Nos Dossiês Secretos ele é. E Andre de Montbard, o sombrio tio de São Bernardo, é listado como pertencendo a Ordem de Sião, em outras palavras, a uma outra ordem, que é anterior a Ordem do Templo e desempenha um papel fundamental na criação do Templo. Nem isso é tudo. O texto nos Dossiês Secretos afirma que em março de 1117, Bauduino I, ‘que possuia o trono de Sião’, foi obrigado a negociar a constituição da Ordem do Templo no sítio de Saint Leonard de Acre. Nossa própria pesquisa revelou que Saint Leonard de Acre era de fato um dos feudos da Ordem de Sião. Mas estamos incertos porque Bauduino tenha sido ‘obrigado’ a negociar a constituição do Templo. Em francês, o verbo certamente denota um grau de coação ou pressão. E a implicação nos Dossiês Secretos foi que esta pressão foi exercida para manter a Ordem de Sião de quem Bauduino recebeu seu trono. Se foi esse o caso, a Ordem de Sião teria sido a mais influente e poderosa organização; uma organização que não apenas podia conferir tronos, mas também, aparentemente, compelir um rei a cumprir sua ordem.. Se a Ordem de Sião foi de fato a responsável pela eleição de Godfroi de Bouillon, então Bauduino, o irmão mais novo de Godfroi, teria recebido seu trono por influência dela. Como já haviamos descoberto, sobretudo, há evidência incontestável que a Ordem do Templo existiu, ao menos em uma forma embrionária, por uns bons quatro anos antes da sua data de fundação geralmente aceita de 1118.

Em 1117 Bauduino era um homem doente, cuja morte estava patentemente iminente. É  portanto possível que os Cavaleiros Templários fossem ativos, embora em uma capacidade ex ofício, muito antes de 1118 como, digamos, o braço militar ou administrativo da Ordem de Sião, hospedada em sua abadia fortificada. E é possível que o rei Bauduino, em seu leito de morte, foi compelido pela doença, pela Ordem de Sião ou por ambas a garantir aos Templários algum status oficial, ao dar a eles uma constituição e torna-la pública. Ao pesquisar os Templários já tínhamos começado a discernir uma rede de conexões complicadas, provocantes e elusivas, os vestígios sombrios talvez de algum projeto ambicioso. Com base nestas conexões, tinhamos formulado uma hipótese temporária. Se nossa hipótese era acurada ou não, não podiamos saber; mas os vestígios de um projeto tinham agora e tornado até mesmo mais aparentes. Reunimos os fragmentos do padrão que se segue:
[ 1 ] – No fim do século XI um misterioso grupo de monges da Calabria aparece nas Ardenas, onde eles são bem recebidos, patrocinados e recebem terra em Orval da tia e mãe adotiva de Godfroi de Bouillon.
[ 2 ] – Um membro desse grupo pode ter sido o tutor pessoal de Godfroi de Bouillon e pode ter co-instigado a Primeira Cruzada
[ 3 ] – Algum tempo antes de 1108 os monges de Orval desacamparam e desapareceram. Embora não haja registro do destino deles, este pode muito bem ter sido Jerusalém. Certo Pedro O Eremita embarcou para Jerusalém; e se ele foi um dos monges de Orval, é provavel que sua irmandade tenha se juntado a ele.
[ 4 ] – Em 1099 Jerusalém cai e é oferecido a Godfroi o trono por um conclave anônimo cujo líder, como os monges de Orval, é de origem calabresa.
[ 5 ] – Uma abadia é criada sob o comando de Godfroi em Monte Sião, que abriga uma Ordem de mesmo nome; uma ordem que compreende indivíduos que ofereceram a ele o trono.
[ 6 ] – Por 1114 os Cavaleiros Templários já estão ativos, talvez como a entourage armada da Ordem de Sião; mas sua constituição não é negociada até 1117, e eles próprios não se tornam públicos até o ano seguinte.
[ 7 ] – Em 1115, São Bernardo, membro da Ordem Cisterciana, então as margens do colapso econômico, emerge como um proeminente portavoz da Cristandade. E os anteriormente destituidos cistercianos rapidamente se tornam uma das instituições mais proeminentes, influentes e ricas na Europa.
[ 8 ] – Em 1131 São Bernardo recebe a Abadia de Orval, vaga alguns anos antes pelos monges da Calabria. Orval então se torna uma casa Cisterciana.
[ 9 ] –  Ao mesmo tempo certas figuras obscuras parecem se mover constantemente para dentro e para fora desses eventos, alivanhando uma tapeçaria unida de uma maneira que não está de todo clara. O Conde de Champagne, por exemplo, doa a terra para a Abadia de São Bernardo em Clairvaux, estabelece uma côrte em Troyes, onde subsequentemente são divulgados os romances do Gral e, em 1114, pensa em se unir aos Cavaleiros Templários cujo primeiro Grão Mestre registrado, Hugues de Payens, já era seu vassalo.
[ 10 ] –  Andre de Montbard, o tio de São Bernardo, e alegado membro da Ordem de Sião, se une a Hugues de Payens para fundar os Cavaleiros Templários. Logo depois, os dois irmãos de Andre se unem a São Bernardo em Clairvaux.
[ 11 ] – São Bernardo se torna um entusiástico relações públicas exponente para os Templários, contribui para a incorporação oficial deles e para escrita de suas regras – que é essencialmente aquela dos Cistercianos, a própria ordem de Bernardo.
[ 12 ] – Entre aproximadamente 1115 e 1140, tantos Cistercianos quanto Templários começam a prosperar, adquirindo vastas somas de dinheiro e pedaços de terra.

Novamente não podemos senão imaginar se esta multitude de conecções intrincadas foi de fato inteiramente coincidental. Estamos olhando para um número de pessoas essencialmente não conectadas, eventos e fenômenos que apenas ‘aconteceram’, em intervalos, para se entrelaçar e cruzar com outros caminhos? Ou estamos lidando com algo que não foi aleatório ou coincidental afinal? Estavamos lidando com um plano de algum tipo, concebido e engendrado por alguma agência humana? E pode esta agência ter sido a Ordem de Sião? Pode a Ordem de Sião ter realmente ficado por trás de São Bernardo e dos Cavaleiros Templários? E ambos podem ter agido de acordo com alguma política cuidadosamente evoluida?

Luis VII  e o Priorado de Sião

Os ‘Documentos do Priorado’ não dão indicações das atividades da Ordem de Sião entre 1118 [a fundação pública dos Templários] e 1152. Por todo esse tempo, pareceria, a Ordem de Sião permaneceu baseada na Terra Santa, na abadia fora de Jerusalém. Então, na volta dele depois da Segunda Cruzada, Luis VII da França é dito ter trazido com ele 95 membros da Ordem. Não há indicação da capacidade na qual eles atendiam ao rei, nem porque ele deva ter estendido sua generosidade a eles. Mas se a Ordem de Sião fosse de fato o poder por trás do Templo, isto constituiria uma explicação já que Luis VII estava pesadamente em dívida com o Templo, tanto em dinheiro quanto em apoio militar. Em qualquer caso, a Ordem de Sião, criada meio século antes por Godfroi de Bouillon, em 1152 estabeleceu ou restabeleceu um pé na França. Segundo o texto, 62 membros da Ordem foram instalados no grande ‘priorado’ de Saint-Samson em Orleans, que o Rei Luis doou a eles. Sete deles foram relatadamente incorporados as fileiras combatentes dos Cavaleiros Templários.  E 26 grupos de 13 cada um são ditos terem entrado para o ‘pequeno priorado de Sião’, situado em Saint jean le Blanc nos arredores de Orleans. Ao tentar autenticar estas declarações, subitamente nos encontramos em solo prontamente provável. As cartas de direitos pelas quais Luis VII instalou a Ordem de Sião em Orleans ainda são existentes. Cópias tem sido reproduzidas por um número de fontes, e os originais podem ser vistos nos arquivos municipais de Orleans. Em alguns arquivos há também uma Bula datada de 1178, do Papa Alexandre III, que confirma oficialmente as posses da Ordem de Sião. Estas posses atestam a riqueza da Ordem, seu poder e influência. Elas incluem casas e grandes pedaços de terra na Picardia, na França [inclindo Saint-Samson em Orleans], a Lombardia, na Calábria , Sicília e Espanha, bem como, com certeza, um número de sítios na Terra Santa, incluindo Saint Leonard de Acre. Até a Segunda Guerra Mundial, de fato, havia nos arquivos de Orleans não menos que vinte cartas de direitos especificamente citando a Ordem de Sião. Durante o bombardeio da cidade em 1940 todas, menos três, desapareceram.

O Corte do Elmo em Gizors

Se são para serem acreditados os ‘Documentos do Priorado’, 1188 foi um ano de importância crucial para o Sião e os Cavaleiros Templários. Um ano antes, em 1187, Jerusalém havia sido perdida para os Sarracenos principalmente devido a impetuosidade e inépcia de Gerard de Ridefort, Grão Mestre do Templo. O texto nos ‘Dossiês Secretos’ é cosideravelmente mais severo. Ele explica não apenas a impetuosidade de Gerard ou sua inépcia, mas sua ‘traição’ – uma palavra de fato muito dura. O que constituiu esta traição não é explicado. Mas como resultado dela os ‘iniciados’ de Sião são ditos terem voltado em massa para a França, presumidamente para Orleans. Logicamente esta avaliação é bastante plausível. Quando Jerusalém caiu diante dos Sarracenos, a Abadia de Monte Sião obviamente caiu também. Sem a base deles na Terra Santa, não seria surpreendente se os ocupantes da abadia buscassem refúgio na França, onde uma nova base já existia. Os eventos de 1187, a ‘traição’ de Gerard de Ridefort e a perda de Jerusalém parecem ter precipitado uma ruptura desastrosa entre a Ordem de Sião e a Ordem do Templo. Não está claro precisamente porque isso deva ter ocorrido, mas segundo os ‘Dossiês Secretos’ o ano seguinte testemunhou um decisivo ponto de virada nos assuntos de ambas Ordens. Em 1188 uma separação formal supostamente ocorreu entre as duas instituições. A Ordem de Sião, que tinha criado os Cavaleiros Templários, agora lavava suas mãos de seus celebrados protegidos. O ‘pai’, em outras palavras, ‘oficialmente desconheceu o filho’. Esta ruptura é dito ter sido comemorada por um ritual ou cerimonia de algum tipo. Nos Dossiês Secretos e em outros Documentos do Priorado isso é referido como ‘cortar o elmo’ e alegadamente ocorreu em Gizors em 1188.  As narrativas são enfeitadas e obscuras, mas a história e a tradição confirmam que algo extremamente estranho aconteceu em Gizors em 1188 e que envolveu o corte de um elmo. Na terra adjacente a fortaleza havia um campo chamado Campo Sagrado. Segundo cronistas medievais, o sítio havia sido considerado sagrado deste os tempos pré cristãos, e durante o século XII tinha fornecido o assentamento para inúmeros encontros entre os Reis da Inglaterra e da França. No meio do Campo Sagrado ficava um elmo antigo. E em 1188, durante um encontro entre Henrique II da Inglaterra e Felipe II da França, por alguma razão desconhecida, este elmo se tornou objeto de disputa séria e até mesmo sangrenta. Segundo uma narrativa, o elmo fornecia a unica sombra do Campo Sagrado. É  dito que ele tinha mais de 800 anos e tão grande quanto nove homens, unindo as mãos podiam mão abraçar seu diâmetro.  Sob a sombra desta árvore Henrique II e sua entourage supostamente tomou abrigo, deixando o monarca francês, que chegou mais tarde, sem misericórdia sob a luz do sol. Pelo terceira dia das negociações a tempera francesa tinha se tornado fragilizada pelo calor, insultos foram trocados pelos homens em armas e uma flecha voou das fileiras dos mercenários de Henrique. Isto provocou uma matança em escala completa pelos franceses, que grandemente superavam em número os ingleses. Os últimos buscaram refúgio dentro dos próprios muros de Gizors, enquanto foi dito que os franceses cortaram a árvore em frustração. Felipe II então disparou para Paris declarando que não faria o papel de um lenhador. A história tem a característica simplicidade e encanto medieval , contentando-se com a narrativa superficial que aponta entra as linhas para algo de maior importância  e motivações que foram deixadas inexploradas. Por si só, ela quase parece absurda – tão absurda e possivelmente apócrifa como, digamos, as histórias associadas coma fundação da Ordem de Garter. Ainda que haja confirmação da história, se não em seus detalhes específicos, em outras narrativas. Segundo um outro cronista, Felipe parece ter dado a perceber a Henrique que ele pretendia cortar a árvore. Henrique supostamente respondeu ao reforçar o tronco do elmo com bandas de ferro. No dia seguinte os franceses se armaram e formaram uma falange de cinco esquadrões, cada um comandado por um senhor distinto do reino, que avançou sobre o elmo, acompanhado por arqueiros bem como carpinteiros equipados de machados e martelos. é dito ter começado uma luta, na qual Ricardo Coração de Leão, o filho mais velho e herdeiro de Henrique, participou, tentando proteger a árvore perdendo muito sangue no processo. Não obstante, os franceses mantinham o campo no dia seguinte e no fim do dia, a árvore foi cortada. Esta segunda narrativa implica em algo mais do que uma diputa medíocre ou escaramuça menor. Ela implica em um engajamento em escala completa, envolvendo números substanciais e possivelmente baixas substanciais. Ainda que nenhuma biografia de Ricardo faça muito de tal caso, ainda menos que o explore. Novamente, contudo, nos Documentos do Priorado foram confirmados a história registrada e a tradição  na extensão, ao menos, de uma curiosa disputa que ocorreu em Gizors em 1188, que envolveu o corte de um elmo. Não há confirmação externa que esse evento foi relacionado de qualquer modo aos Cavaleiros Templários ou a Ordem de Sião. Por outro lado, as narrativas existentes do caso são tão vagas , tão reduzidas, tão incompreensíveis, tão contraditórias para serem aceitas como definitivas. É extremamente provável que os Templários estivesem presentes no incidente já que Ricardo I era frequentemente acompanhado pelos cavaleiros da Ordem, e sobretudo, Gizors, trinta anos antes, tinha sido confiada ao Templo. Dado a evidência existente, é certamente possível, se não provável, que o corte do elmo envolveu algo mais ou alguém mais do que as narrativas que tem sido preservadas para a posteridade implicam. De fato, dado a absoluta estranheza das narrativas sobreviventes, não seria surpreendente se algo mais ou alguma outra coisa estivesse envolvida – algo desprezado, ou talvez nunca tornado público, pela história, algo, em resumo, das narrativas sobreviventes como uma espécie de alegoria, simultaneamente intimando e ocultando um caso de muito maior importância.

Ormus de 1188 em diante

Os documentos do priorado mantém, os Cavaleiros Templários eram autônomos e não mais estavam sob a autoridde da Ordem de Sião, ou agindo como seu braço administrativo e militar. A partir de 1188 os Templários estavam oficialmente livres para buscarem seus próprios objetivos e fins, seguirem seu próprio curso pelo resto do século aproximadamente e até sua amarga destruição em 1307.

E nesse meio tempo, a Ordem de Sião é dita ter passado por uma maior reestruturação administrativa sua própria. Até 1188 a Ordem de Sião e a Ordem do Templo eram ditas terem partilhado do mesmo Grão Mestre.  Hugues de Payen e Bertrand de Blanchefort, por exemlo, teriam presidido as duas instituições simultaneamente. Começando em 1188, todavia, depois de ‘ter cortado o elmo’, a Ordem de Sião reportadamente selecionou seu próprio Grão Mestre, que não tinha qualquer ligação com o Templo. O primeiro de tais Grão Mestres, segundo os Documentos do Priorado, foi Jean de Gizors, Em 1188 é dito que a Ordem de Sião alterou seu nome, adotando um  que tem sido alegadamente obtido até o presente de Priorado de Sião. E, como um tipo de sub-título, é dito ter adotado o curioso nome de Ormus. Este sub-título foi supostamente usado até 1306 – um ano antes da prisão dos Templários franceses. O símbolo para Ormus era um ‘U’ e envolve um tipo de acróstico ou anagrama que combina um número de palavras chave e símbolos. Ours significa urso em latim, um eco, como subsequentemente se tornou aparente, de Dagoberto II e da dinastia Merovíngia. Ome é o francês para elmo. Or de fato é ouro. e o ‘m’ que forma a estrutura envolvendo as outras letras não é a letra ‘m’, mas o símbolo astrológico de Virgem, significando, na iconografia medieval, Notre Dame. As nossas pesquisas não revelaram qualquer referência em qualquer lugar a uma ordem medieval ou instituição que tivesse o nome Ormus. Neste caso não encontramos substanciação externa para o texto nos Dossiês Secretos, nem até mesmo qualquer  evidência circunstancial para argumentar sua veracidade. Por outro lado ‘Ormus’ ocorre em dois outros contextos radicalmente diferentes. Ele figura no pensamento zoroastriano e nos textos gnósticos onde é sinônimo do princípio de luz. E ele aparece novamente entre os pedigrees afirmados pelo final do século XVII da Livre Maçonaria. Segundo os ensinamentos maçonicos, Ormus era o nome de um sábio e místico egípcio, um adepto gnóstico da Alexandria. Ele viveu, supostamente, durante os anos inciais da época cristã. Em 46 ele e seis de seus seguidores foram supostamente convertidos a uma forma de cristianismo por um dos discípulos de Jesus, São Marcos, na maioria das narrativas. Desta conversão é dito ter nascido uma nova seita ou ordem que fundiu os dogmas da cristandade inicial com os ensinamentos de outra escola de mistério até mesmo mais antiga. A nosso conhecimento esta história não pode ser autenticada. Ao mesmo tempo, contudo, é certamente plausível. Durante o século I de nossa era Alexandria era um real leito quente de atividade mística, uma encruzilha na qual as doutrinas judaicas, mitraicas, zoroastrianas, pitagoreanas, herméticas, e neo-platonicas expandiam-se no ar e se combinavam com inumeráveis outras. Professores de todos os tipos concebíveis abundavam. E dificilmente seria surpreendente se um deles adotasse um nome implicando no princípio  da luz. Segundo a tradição maçonica, em 46 Ormus é dito ter conferido a sua recentemente constituida ordem de ‘iniciados’ um específico símbolo identificador – uma cruz vermelha ou rosa. Garantidamente, a cruz vermelha foi subsequentemente para encontrar um eco no brazão dos Cavaleiros Templários, mas a importancia dos textos nos Dossiês Secretos, e em outros Documentos do Priorado é inequivocamente clara. Alguém pretendia ver em Ormus as origens da chamada Rosacruz, ou Rosacrucianos. E em 1188 é dito que o Priorado de Sião tem adotado um segundo sub-título, em adição a Ormus.  É  dito ter sido Ordem da Verdade Rosacruz [Ordre de la RoseCroix Veritas]. A este ponto nos pareceu ser um território muito questionável, e o texto dos Documentos do Priorado começaram a parecer altamente suspeitos.  Estavamos familiarizados com as declarações dos modernos Rosacrucianos na Califórnia e outras organizações contemporaneas, que afirmam elas próprias, depois de um fato, um pedigree remotando as névoas da antiguidade que inclue a maioria dos grandes homens do mundo.

Uma Ordem Rosacruz datando de 1188 pareceu igualmente espúria. Como tem demonstrado convincentemente Frances Yates, não há qualquer evidência connhecida de Rosacrucianos [ao menos no nome] antes do início do século XVII ou talvez os últimos anos do século XVI. O mito que cerca a legendária Ordem data de aproximadamente 1605, 1615 e 1616 respectivamente, proclamada a existência de uma fraternidade secreta ou confraternidade iniciados místicos, alegadamente fundada por um Cristão Rosacruz que, foi mantido, nasceu em 1378 e morreu, aos 106 anos, em 1484. Cristão Rosacruz e sua fraternidade secreta são agora geralmente reconhecidos terem sido ficticiamente uma fraude de tipos, divisada para algum propósito que ainda não foi satisfatoriamente explicado, embora não sem repercussões políticas naquele tempo. Sobretudo, o autor de um dos três tratados, o famoso Casamento Alquímico do Cristão Rosacruz, que apareceu em 1616, é agora conhecido. Ele foi Johann Valentin Andrea, um escritor e teólogo alemão vivendo em Wurttemberg, que os neo-platonicos confessaram que ele compôs o Casamento Alquímico como uma ‘troça’, uma ‘piada’ ou talvez uma comédia no sentido da palavra de Dante e Balzac. Há razão para acreditar que Andrea, ou um de seus associados, compôs os outros tratados rosacrucianos também. E esta é a fonte do Roascrucianismo, como ela evoluiu e como alguém pensa nela hoje, pode ser traçada. Se os Documentos do Priorado eram acurados, contudo, teriamos que reconsiderar, e pensar em algo difernte de uma farsa do século XVII. Teriamos que pensar em termos de uma ordem ou sociedade secreta que realmente existiu, uma genuina fraternidade clandestina. Ela não precisava ser inteiramente ou até mesmo primariamente mística. Ela podia ser grandemente política. Mas ela teria existido 425 anos completos antes que seu nome se tornasse público, e uns bons dois séculos antes que seu legendario fundador é ajegadamente ter vivido. Novamente não encontramos evidência substanciante. Certamente a rosa tem sido um símbolo místico desde tempo imemoriais e desfrutou de uma cultura particular durante a Idade Média no romance popular da Rosa de Jean de Meung, por exemplo, e no paraíso de Dante. Ela subsequentemente tornou-se a cruz de São Jorge e, como tal, foi adotada pela Ordem de Garter criada alguns trinta anos depois da queda do Templo. Mas embora rosas e cruzes vermelhas abundem como motivos simbólicos, não há evidencias de uma instituição ou uma ordem, ainda menos de uma sociedade secreta. Por outro lado,  Frances Yates mantém que havia sociedades secretas funcionando muito antes do século XVII, ‘rosacrucianas’, e que estas sociedades iniciais eram, de fato, ‘rosacrucianas’ na orientação política e filosófica, se não necessariamente no nome. Assim, em conversa com uma de nossas pesquisadoras, ela descreveu Leonardo da Vinci como um ‘rosacruciano’ usando o termo como uma metáfora para definir seus valores e atitudes. Não apenas isso. Em 1629, quando o interesse ‘rosacruciano’ na Europa estava em seu zênite, um homem chamado Robert Denyau, cura de Gisors, compôs uma história exaustiva de Gizors e da família Gizors. Em seu manuscrito, Denyau afirma explicitamente que a Rosacruz foi fundada por Jean de Gizors em 1188. Em outras palavras, há uma confirmação verbatim do século XVII das afirmações feitas nos Documentos do Priorado. Garantidamente, o manuscrito de Denyau foi composto alguns quatro séculos e meio depois do fato alegado.  Mas ele constitui um fragmento extremamente importante de evidência. E o fato de que ele tenha sido emitido de Gizors o torna ainda mais importante. Somos deixados, todavia, sem confirmação, somente com uma possiblidade. Mas em cada aspecto até onde diga respeito aos Documentos do Priorado, eles tem se mostrado atonitamente acurados. Então teria sido muito difícil descarta-los de antemão. Não estamos preparados para aceita-los com uma fé cega e inquestionável. Mas nos sentimos obrigados a reservar o julgamento.

O Priorado de Orleans

Além de suas afirmações mais grandiosas, os Documentos do Priorado ofereceram informação de um tipo muito diferente, minunciosamente assim aparentemente trivial e inconsequente que sua importância nos fugiu. Ao mesmo tempo a imensa importância desta informação argumentou a favor de sua veracidde. Muito simplesmente lá não parecia haver um ponto para inventar ou criar tais detalhes menores. E ainda mais, a autenticidade de alguns desses detalhes pode ser confirmada. Então, por exemplo, Girard, abade do pequeno priorado em Orleans entre 1239 e 1244, é dito ter cedido um pedaço de terra em Acre para os Cavaleiros Teutônicos. Porque isso devesse ser mencionado não está claro, mas isso pode ser definitivamente estabelecido. A real carta de direitos existe, datando de 1239 e tendo a assinatura de Girard. Informação de um tipo similar, embora mais sugestivo, é oferecida sobre um abade chamado Adam, que presidiu sobre o pequeno priorado em Orleans em 1281. Neste ano, segundo os Documentos do Priorado, Adam cedeu um pedaço de terra perto de Orval aos monges que então ocupavam a abadia lá – cistercianos, que tinham se mudado sob a égide de São Bernardo um século e meio antes. Não pudemos encontrar evidência escrita desta particular transação, mas ela nos parece bastante plausível já que há cartas de direitos atestando inumeras outras transações da mesma natureza. O que torna esta interessante, com certeza, é a recorrência de Orval, que tem figurdo anteriormente em nosso inquérito. Sobretudo, o pedaço de terra em questão parece ter sido de especial importância, porque os Documentos do Priorado nos dizem que Adam incorreu na ira da irmandade de Sião por esta doação; tanto que aparentemente ele foi compelido a renunciar a sua posição. O ato de abdicação, segundo os Dossiês Secretos, foi formalmente testemunhado por Thomas de Sainville, o Grão Mestre da Ordem de São Lázaro em 1281 e a sede de São Lázaro era próxima a Orleans onde a abdicação de Adam teria acontecido. Duas proclamações e duas cartas foram de fato assinadas por ele lá, a primeira datada de agosto de 1281 e a segunda de março de 1289.

O Chefe dos Templários,

Segundo os documentos do Priorado, o Priorado de Sião não era, estritamente falando, uma perpetuação ou continuação da Ordem do Templo: ao contrário, o texto ressalta enfaticamente que a separação entre as duas ordens data de ‘cortar o elmo’ em 1188. Aparentemente, contudo, algum tipo de entendimento continuou a existir, e em 1307,  Guillaume de Gisors recebeu a cabeça dourada, Caput LVIII Fa da Ordem do Templo. Nossa investigação sobre os Templários já nos havia famiiarizado com esta misteriosa cabeça. Liga-la ao Sião, contudo, e com a aparentemente importante família de Gizors, novamente nos atingiu como duvidosa como se os Documentos do Priorado estivessem se esticando para fazer ligações poderosas e evocativas. E ainda que fosse precisamente a este ponto que encontramos algumas de nossas mais sólidas e intrigantes confirmações. Segundo os registros oficiais da Inquisição: O guardião e administrador dos bens do Templo de Paris, depois das prisões, foi um homem do rei chamado Guillaume Pidoye. Diante dos inquisidores em 11 de maio de 1308, ele declarou que ao tempo da prisão dos Cavaleiros Templários, ele, juntamente com seu colega Guillaume de Gisors e um  Raynier Bourdon, tinham sido ordenados a apresentarem a Inquisição todas as figuras de metal ou madeira que encontrassem. Entre os bens do templo eles encontraram uma grande cabeça de prata… a imagem de uma mulher, que Gulhaume, em 11 de maio, apresentou diante da Inquisição. A cabeça carregava um rótulo: CAPUT LVIIIm.  Se a cabeça continuava a nos surpreender, o contexto no qual Gulhaume de Gizors apareceu foi igualmente perpexante. Ele é especificamente citado como sendo colega de Guillaume Pidoye, um dos homens do Rei Felipe. Em outras palavras, ele, como Felipe, pareceriam terem sido hostis aos Templários e participado do ataque a eles. Segundo os Documentos do Priorado, contudo, Guilhaume era Grão Mestre do Priorado de Sião naquele tempo. Isto significou que o Priorado endossou a ação de Felipe contra os Templários, talvez até mesmo colaborando nisso? Há certos documentos do Priorado que apontam para que este pode ter sido o caso, que Sião, de algum modo não especificado, autorizou e presidiu a dissolução de seus desgovernados protegidos. Por outro lado, os Documentos do Priorado também implicam queo Sião exercia um tipo de proteção paternal em relação ao menos a certos Templários durante os últimos dias da Ordem. Se isso é verdade, Guilhaume de Gizors pode ter sido um ‘agente duplo’. Ele bem pode ter sido o responsável pelo vazamento dos planos de Felipe, o meio portanto pelo qual os Templários receberam o aviso antecipado ds maquinações do Rei contra eles. Se depois da separação formal em 1188, o Sião de fato continuou a exercer algum controle clandestino sobre os assuntos do Templo, Guillaume de Gisors pode ter sido parcialmente responsável pela cuidadosa destruição dos documentos da Ordem e pelo desaparecimento inexplicável de seu tesouro.

Os Grão Mestres dos Templários

Além da informação fragmentada discutida acima, o texto nos Dossiês Secretos incluem três listas de nomes. A primeira desta é direta o suficiente – ao menos interessante, e ao menos aberta a controvérsia ou dúvida, sendo meramente uma lista de abades que presidiram as terras de Sião na Palestina entre 1152 e 1281. Nossa pesquisa confirmou sua veracidade: ela aparece em outros lugares, independentes dos Dossiês Secretos, e em fontes acessíveis e não impugáveis. As listas nestas fontes concordam com a história verificável, mas muito compreensivo no que elas preenchem certas lacunas. A segunda lista nos Dossiês secretos é uma lista dos Grão Mestres dos Cavaleiros Templários de 1118 até 1190, em outra palavras, da fundação pública do Templo até sua separação de Sião e do ‘cortar o elmo’ em Gizors . De início parecia não haver algo não usual ou extraordinário sobre esta lista. Quando a comparamos com outras listas, contudo aquelas citadas por historiadores reconhecidos escrevendo sobre os Templários, por exemplo certas discrepâncias óbvias rapidamente emergiram.

Segundo virtualmente todas as outras listas conhecidas, houve dez Grão Mestres entre 1118 e 1190. Segundo os Dossiês Secretos, houve apenas oito. Segundo a maioria das outras listas o tio de São Bernardo, Andre de Montbard não era apenas co-fundador da Ordem, mas também seu Grão Mestre entre 1153 e 1156. Segundo os Dossiês Secretos, contudo, Andre de Montbard, o tio de São Bernardo, nunca foi Grão Mestre da Ordem, mas parecia ter continuado funcionando como ele o fez por toda a sua carreira, por trás das cenas. Segundo a maioria das outras listas, Bertrand de Blanchefort aparece como o sexto Grão Mestre da Ordem do Templo, assumindo esta função depois de Andre Montbard, em 1156. Segundo os Dossiês Secretos, Bertrand não é o sexto, mas o quarto na sucessão, se tornando Grão Mestre em 1153. Há outras tais discrepâncias e contradições, e estamos incertos sobre o que fazer com ela ou quão seriamente considera-las. Porque ele discorda daqueles compiladas por historiadores estabelecidos, não iriamos ver a lista nos Dossiês Secretos como errada? Deve ser enfatizado que nenhuma lista oficial ou definitiva dos Grão Mestres do Templo existe. Nada de tal tipo foi preservado para a posteridade. Os próprios registros do Templo foram destruídos ou desapareceram, e a mais antiga compilação conhecida dos Grão Mestres da Ordem data de 1342, trinta anos depois que a própria Ordem foi suprimida e 225 anos depois de sua fundação. Como resultado, os historiadores compilando as listas dos Grão Mestres tem baseado seus achados nos cronistas contemporaneos sobre um homem escrevendo em 1170, por exemplo, que faz uma ligeira alusão a um ou outro indivíduo como Mestre ou Grão Mestre do Templo. Uma evidência adicional pode ser obtida ao examinar os documentos e as cartas de direitos do período, na qual um ou outro oficial Templário anexaria um título ou outro a sua assinatura. Portanto dificilmente é surpreendente que a sequência e a datação deva variar, algumas vezes dramaticamente, de escritor para escritor, narrativa a narrativa. Não obstante, há certos detalhes cruciais como aqueles resumidos acima nos quais os Documentos do Priorado se desviam sigificativamente de todas as outras fontes. Não podemos, entretanto, ignorar tais desvios. Tivemos que determinar, até onde pudemos, se a lista nos Dossiês Secretos era baseada em negligência, ignorância ou ambas; ou, alternativamente, se esta lista era de fato a definitiva, baseada em uma informação ‘interna’, inacessível aos historiadores.

Se Sião criou os Cavaleiros Templários, e se Sião [ou ao menos seus registros] sobrevivem até o presente dia, podemos razoavelmente esperar que ele esteja familiriazado com os detalhes não obteníveis em outros lugares. A maioria das discrepâncias entre a lista nos Dossiês Secretos e aquelas de outras fontes pode ser explicada muito facilmente. A este ponto, não vale a pena explorar cada uma de tais discrepâncias e responsabilizar-se por isso. Mas um único exemplo deve servir para ilustrar como e porque tais discrepâncias possam ocorrer. Além do Grão Mestre, o Templo tinha uma multitude de mestres locais e um Mestre para a Inglaterra, para a Normandia, para a Aquitania, para todos os territórios que compreendiam seus domínios. Haviam também um predominante Mestre Europeu, e, assim pareceria, um mestre marítimo também. Nos documentos e cartas de direitos estes mestres locais ou regionais invariavelmente assinariam “Magister Templi’ – Mestre do Templo. E em muitas ocasiões, o Grão Mestre – por modéstia, descuido, indiferença ou despreocupação descuidada também ele próprio assinaria como nada mais do que ‘Magister Templi’. Em outras palavras, Andre Montbard, Mestre regional de Jerusalém, em uma carta de direitos, teria a mesma designação depois de seu nome de seu Grão Mestre, Bertrand de Blancheford. Portanto não é difícil ver como um historiador, trabalhando com uma ou duas cartas de direitos e não entrecruzando as referências, pode prontalmente interpretar mal o verdadeiro status de Andre na Ordem. Em virtude precisamente deste tipo de erro, muitas listas dos Grão Mestres Templários incluem um homem chamado Everard des Barres. Mas o Grão Mestre, pelas próprias constituições do Templo, tinha que ser eleito por um capítulo geral em Jerusalém e tinham que residir lá. Nossa pesquisa revelou que Everard des Barres foi um mestre regional, eleito e residente na França, que nunca pôs o pé na Terra Santa senão muito mais tarde. Nesta base ele pode ser retirado da lista dos Grão Mestres como de fato ele foi nos Dossiês Secretos. Foi especificamente em tais bons pontos acadêmicos que os ‘Documentos do Priorado’ apresentavam uma acurácia e precisão meticulosa que nós não podiamos imaginar não sendo alcançada depois do fato. Passamos mais de um ano considerando e comparando as várias listas dos Grão Mestres Templários. Consultamos todos os escritores sobre a Ordem, em inglês, francês e alemão, e então examinamos as fontes deles também. Examinamos as cronicas do tempo como estes de Guilhaume de Tyre – e outras narrativas contemporaneas. Consultamos todas as cartas de direitos que pudemos encontrar e obtivemos informação compreensiva sobre todos estas conhecidas serem ainda existentes. Comparamos assinaturas e títulos em numerosas proclamações, éditos, deveres e outros documentos Templários. Como resultado desse inquérito exaustivo, tornou-se aparente que a lista nos Dossiês Secretos era mais acurada do que qualquer outra não apenas sobre a identidade dos Grão Mestres mas sobre as datas de seus respectivos regimes também. As implicações disso eram muito mais amplas. Garantidamente, uma tal lista pode talvez ter sido compilada por um pesquisador extremamente  cuidadoso, mas a tarefa teria sido monumental. Nos parece muito mais provável que uma lista de tal acurácia atestasse algum repositório de informação interna ou privilegiada; informação portanto inacessível aos historiadores. Se a nossa conclusão é ou não garantida, fomos confrontados por um fato incontestável de que alguém havia obtido acesso, de algum modo, a uma lista que era muito mais acurada que as outras. E desde que a lista, a despeito de sua divergência das outras mais aceitas, provou-se tão frequentemente estar correta, ela conferiu uma considerável credibilidade aos Documentos do Priorado como um todo. Se os Dossiês Secretos eram demonstravelmente confiáveis neste aspecto crítico, então de certa forma havia menos razão para duvidar deles em outros. Tal reasseguração foi oportuna e necessária. Sem ela, poderiamos muito bem ter descartado a terceira lista nos Dossiês Secretos dos Grão Mestres do Priorado de Sião imediatamente. Desta terceira lista, até mesmo uma olhada superficial, parece absurda.

Os Grão Mestres e A Corrente Subterrânea nos Dossiês Secretos

Os seguintes indivíduos são listados como Grão Mestres sucessivos do Priorado de Sião ou, para usar o termo oficial, ‘Nautonnier’, uma velha palavra francesa que significa ‘navegador’ ou ‘homem do elmo’:

Jean de Gisors 1188-1220
Marie de Saint-Clair 1220-66
Guillaume de Gisors 1266-1307
Edouard de Bar 1307-36
Jeanne de Bar 1336-51
Jean de Saint-Clair 1351-66
Blanche d’Evreux 1366-98
Nicolas Flamel 1398-1418
Rene d’Anjou 1418-80
Iolande de Bar 1480-83
Sandro Filipepi 1483-1510
Leonard de Vinci 1510-19
Connetable de Bourbon 1519-27
Ferdinand de Gonzague 1527-75
Louis de Nevers 1575-95
Robert Fludd 1595-1637
J. Valentin Andrea 1637-54
Robert Boyle 1654-91
Isaac Newton 1691-1727
Charles Radclyffe 1727-46
Charles de Lorraine 1746-80
Maximilian de Lorraine 1780-1801
Charles Nodier 1801-44
Victor Hugo 1844-85
Claude Debussy 1885-1918
Jean Cocteau 1918

Quando primeiramente vimos esta lista, ela imediatamente provocou o nosso ceticismo. Por um lado ela inclui um número de nomes que automaticamene se esperaria encontrar em uma tal lista de nomes de indivíduos famosos associados ao oculto e ao esotérico. Por outro lado, ela inclui um número de indivíduos ilustres e improváveis que, em certos casos, não podemos imaginar presidindo uma sociedade secreta. Ao mesmo tempo, muitos desses nomes são precisamente o tipo que as organizações do século XX teriam frequentemente tentado se apropriar elas próprias, assim estabelecendo uma espécie de pedigree espúrio. Há, por exemplo, listas publicadas pela AMORC, a Rosacruz moderna baseada na Califórnia, que incluem virtualmente cada figura importante na história e cultura ocidental, cujos valores, até mesmo se apenas tangencialmente, aconteceram coincidir com os da própria Ordem. Um entrelaçamento frequentemente casual ou convergência de atitudes é deliberadmente mal interpretada como algo supremo para a ‘afiliação iniciada’. E assim é dito a alguém que Dante, Shakespeare, Goethe e inumeráveis outros eram Rosacrucianos, implicando que eles eram membros que carregavam as cartas que pagavam seus deveres com regulariddae. Nossa atitude inicial em relação a lista acima foi igualmente cínica. Novamente, havia nomes previsíveis – nomes associados ao oculto e ao esotérico. Nicholas Flamel, por exemplo, é talvez o mais famoso e bem documentado dos alquimistas medievais. Robert Fludd, filósofo do século XVII, foi um expoente do pensamento hermético e outros assuntos arcanos. Johann Valentim Andre, contemporâneo alemão de Fludd, compôs, entre outras coisas, alguns dos trabalhos que divulgaram o mito do fabuloso Cristão Rosacruz. E há também nomes como o de Leonardo da Vinci e Sandro Filipepi, que é melhor conhecido como Boticelli. Há nomes de importantes cientistas, como Robert Boyle e Sir Issac Newton. Durante os últimos dois séculos os Grão Mestres do Priorado de Sião são alegados terem incluido tais importantes figuras literárias e culturais como Vitor Hugo, Claude Debussy e Jean Cocteau. Ao incluir tais nomes, a lista nos Dossiês Secretos não podia parecer senão suspeita. Foi quase inconcebível que alguns dos indivíduos citados tivessem presidido uma sociedade secreta e ainda mais, uma sociedade secreta devota ao oculto e a interesses esotéricos. Boyle e Newton, por exemplo, dificilmente são nomes que as pessoas no século XX associem ao oculto e ao esotérico. E embora Hugo, Debussy e Cocteau estivessem imersos em tais assuntos, eles pareceriam ser bem conhecidos demais, pesquisados e documentados demais, para terem exercido o papel de Grão Mestre em uma sociedade secreta. Não, a qualquer nível, sem que alguma palavra sobre isso de certa forma pudesse ter vazado.

Por outro lado os nomes distintos não são os únicos nomes na lista. A maioria dos outros nomes pertencem a nobres europeus de alto escalão, muitos dos quais eram obscuramente não familiarres não apenas ao leitores em geral, mas até mesmo ao historiador profisional. Há Guilhaume de Gizors, por exemplo, que em 1306 é dito ter organizado o Priorado de Sião  em uma ‘maçonaria livre hermética’. E há o avô de Guilhaume, Jean de Gizors, que é dito ter sido o primeiro Grão Mestre independente do Priorado de Sião, assumindo sua posição depois de ‘cortar o elmo’ e da separação do Templo em 1188. Não há dúvida de que Jean de Gozors existiu historicamente. Ele nasceu em 1133 e morreu em 1220. Ele é mencionado nas cartas de direitos e foi ao menos o senhor nominal da famosa fortaleza na Normandia onde os encontros tradicionalmente se realizavam entre os reis inglês e francês, como o foi o ‘corte do elmo’. Jean parece ter sido um proprietário de terras extremamente poderoso e rico e até 1193, um vassalo do Rei da Iglaterra. Ele também é conhecido por possuir uma propriedade na Inglaterra em Sussex, e a mansão de Titchfield em Hampshire. Segundo os Dossiês Secretos, ele se encontrou com  Thomas a Becket em Gisors em 1169 embora não haja indicação do propósito deste encontro. Fomos capazes de confirmar que Becket esteve de fato em Gizors em 1169 e portanto é provável que ele tivesse algum contrato com o senhor da fortaleza. Mas não pudemos encontrar registro de qualquer encontro real entre os dois homens. Em resumo, Jean de Gizors, fora uns poucos detalhes leves, se provou virtualmente não rastreável. Ele parece não ter deixado qualquer marca, seja o que for, na história, salvo sua existência e seu título. Não pudemos encontrar qualquer indicação de que ele fez que possa ter constituido sua afirmação para a fama, ou teremos garantido sua assunção de Grão Mestre de Sião.

Se a lista dos propostos Grão Mestres de Sião era autêntica, o que, imaginamos, fez Jean para merecer seu lugar nela? E se a lista era uma fabricação de última hora, porque alguém tão obscuro seria incluído afinal? Nos pareceu uma única explicação possível, que realmente não explica muito de fato. Como outros nomes aristocráticos da lista dos Grão Mestres de Sião, Jean de Gizors aparece em complicadas genealogias que figuram em outros lugares dos Documentos do Priorado. Juntamente com outros nobres esquivos, ele aparentemente pertencia a mesma densa floresta de árvores de famílias que ultimamente descendiam, supostamente, da dinastia Merovíngia. Assim parecia evidente para nós que o Priorado de Sião em uma extensão significativa, ao menos, era um assunto doméstico. De algum modo a Ordem pareceu estar intimamente ligada com uma linhagem sanguinea. E foi a sua ligação com esta linhagem sanguinea que talvez fosse a responsável pelos vários nomes intitulados na lista dos Grão Mestres. Da lista citada acima, o Grão Mestrado de Sião tinham recorrentemente mudado entre dois grupos essencialmente distintos de indivíduos. Por um lado havia figuras de estura monumental que pelo esoterismo, as artes ou ciências tem produzido algum impacto na tradição ocidental, história e cultura. Por outro lado, há membros de uma rede de famílias nobres específica e interligada, algumas vezes real. Em algum grau esta curiosa justaposição conferiu plausibilidade a lista. Se alguém meramente quisesse ‘fabricar’ um pedigree, não seria o ponto incluir tantos aristocratas desconhecidos e a muito tempo esquecidos. Não seria o ponto, por exemplo, incluir Charles de Lorreine, o austríaco marechal de campo do século XVIII, cunhado da Imperatriz Maria Tereza que se provou claramente inepto no campo de batalha e foi golpeado em um engajamento após outro por Frederico o Grande, da Prússia. A este respeito, ao menos, o Priorado de Sião pareceria ser modesto e realista. Ele não afirma haver funcionado sob os auspícios de genios qualificados, mestres sobre-humanos, iniciados iluminados, santos, sábios ou imortais. Ao contrário, ele reconhece que seus Grão Mestres são seres humanos falíveis, uma representativa seção cruzada da humanidade – uns poucos genios, uns poucos notáveis e uns poucos espécimens médios, um poucos sem importância e até mesmo uns poucos tolos. Porque, não podemos senão imaginar, deveria uma lista forjada ou fabricada incluir  um tal espectro? Se se deseja conceber uma lista de Grão Mestres, porque não tornar todos os nomes nela ilustres? Se alguém deseja ‘fabricar’ um pedrigree que inclua Leonardo, Newton e Vitor Hugo, porque não também incluir Dante, Miguelangelo, Goethe e Tolstoi ao invés de pessoas obscuras como Edouard de Bar e Maximilian de Lorreine? Porque, sobretudo, havia tantas ‘luzes menores’ na lista? Porque um escritor relativamente menor como Charles Nodier, muito mais do que os contemporaneos como Byron ou Pushkin? Porque um aparente ‘excêntrico’ como Cocteau muito mais que homens de tal prestígio internacional como Andre Gide ou Albert Camus? E porque a omissão de indivíduos como Poussin, cuja ligação com o mistério já havia sido estabelecida? Tais questões nos intrigaram, e argumentaram que a lista merecia consideração antes que nós a descartássemos como fraude. Portanto embarcamos em um estudo longo e detalhado dos alegados Grão Mestres e suas biografias, atividades e realizações. Ao realizar este estudo tentávamos, até onde podíamos,submeter cada nome na lista a certas perguntas críticas:

[1] – Houve qualquer contacto pessoal, direto ou indireto, entre cada alegado Grão Mestre, seu predecessor imediato e sucessor imediato?
[2] – Houve qualqer afiliação, por sangue ou outra, entre cada alegado Grão Mestre e as famílias que figuravam nas genealogias dos Documentos do Priorado com qualquer das famílias de suposta descendência Merovíngia, e especialmente com a casa ducal de Lorreine?
[3] – Estava cada um dos alegados Grão Mestres de algum modo ligado a Rennes-le-Chateau, Gozors, Stenay, São Suspílcio ou qualquer outro sítio que tem recorrido no curso de nossa investigação anterior?
[4] – Se Sião se definia como uma Livre Maçonaria Hermética, cada alegado Grão Mestre apresenta uma predisposição em relação ao pensamento hermético ou a um envolvimento com sociedades secetas?

Embora a alegada informação sobre os Grão Mestres antes de 1400 fosse difícil, algumas vezes impossível de se obter, nossas investigações sobre as figuras posteriores mantém  alguns resultados e consistência perplexantes. Muitos deles eram associados, de um modo ou outro, com um ou mais sítios que pareciam ser relevantes: Reenes-le-Chateau, Gizors, Stenay ou São Suspílcio. A maioria dos nomes da lista era aliada por sangue a casa de Lorreine ou asssocida a ela de algum modo, Até mesmo Robert Fludd, por exemplo, serviu como tutor para os filhos do Duque de Lorraine. De Nicholas Flamel em diante, cada nome na lista, sem exceção, era impregnado no pensamento hermético, e frequentemente associado com sociedades secretas até mesmo homens que não associariamos prontamente a estas coisas, como Boyle e Newton. E com apenas uma única exceção, cada alegado Grão Mestre teve algum contacto algums vezes por meio de amigos íntimos mútuos, com aqueles que o sucederam. Até onde pudemos determinar, havia apenas uma queda aparente na cadeia. E até mesmo esta parece ter ocorrido ao redor da Revolução Francesa, entre Maximilian de Lorreine e Charles Nodier que não é por qualquer meio conclusiva. No contexto deste capítulo, não é possível discutir cada alegado Grão Mestre em detalhes. Algumas das figuras mais obscuras assumem importância somente contra o fundo de uma dada época, e para explicar esta importância completamente compreenderia longas digressões nos caminhos esquecidos da história. No caso dos nomes mais famosos, seria impossível fazer a eles justiça em umas poucas páginas. O presente capítulo abrigará os desenvolvimentos mais amplos sociais e culturais, nos quais a sucessão dos alegados Grão Mestres desempenhou uma parte coletiva. Foi em tais desenvolvimentos culturais e sociais que nossa pesquisa pareceu manter um traço discernível da mão do Priorado de Sião.

Rene d’Anjou

Embora hoje seja pouco conhecido,  Rene d’Anjou – ‘O Bom Rei do Reno’ como ele era conhecido nos anos imediatamente precedentes a Renascença. Nascido em 1408, durante sua vida ele veio a manter um surpreendente conjunto de titulos. Entre os mais importantes estavam o Conde de Bar, o Conde de Provença, o Conde de Piemonte, o Conde de Guise, o Duque de Calábria, o Duque de Anjou, o Duque de Lorreine, Rei da Hungria, Rei de Nápoles e Sicília, Rei de Aragão, Valença, Maiorca e Sardenha – e, talvez, o mais ressonante de todos, Rei de Jerusalém. Este último era, com certeza, puramente titular. Não obstante ele evocava uma continuidade remontando a Godfroi de Bouillon, e foi reconhecido por outros potentados europeus. Uma das filhas de Rene, Marguerite d’Anjou, em 1445 se casou com Henrique VI da Inglaterra e desempenhou um papel importante na Guerra das Rosas. Em suas fases iniciais a carreira de Rene d’Anjou parece ter sido de algum modo obscuro associada aquela de Joana D’Arc. Até onde é conhecido, Joana nasceu na cidade de Domremy, no ducado de Bar, o que a tornava sudida de Rene. Ela primeiramente  impressionou a história em 1429, quando ela apareceu na fortaleza de Vaucoleurs, a umas poucas milhas acima de Meuse de Domremy. Se apresentando ao comandante da fortaleza, ela anunciou sua ‘divina missão’ de salvar a França dos invasores ingleses e assegurar que o dolfim, subsequentemente Carlos VII, fosse o rei coroado. Para realizar a missão dela, ele teria que se unir a côrte dele em Chinon, no Loire, longe a sudoeste. Mas ela não solicitou uma passagem para Chonou ao comandante em Vaucoleurs; ela solicitou uma audiência especial com o sogro do duque de Lorreine Rene e tio-avô. Em deferência a solicitação dela, foi garantida a Joana uma audiência com o duque em sua capital em Nancy. Quando ela chegou lá, é sabido que Rene D’Anjou estava presente. E quando o duque de Lorreine perguntou a ela o que ela desejava, ele respondeu explicitamente, nas palavras quem tem constantemente perplexado os historiadores. “Seu filho por lei, um cavalo e alguns bons homens para me levarem por dentro da França”. Naquele tempo e mais tarde, a especulação era prevalescente sobre a natureza da ligação de Rene com Joana. Segundo algumas fontes, provavelmente inacuradas, os dois eram amantes. Mas permanece o fato que eles conheciam um ao outro, e que Rene estava presente quando Joana pela primeira vez embarcou em sua missão. Sobretudo, os cronistas contemporaneos sustentam que quando Joana partiu para a côrte do Dolfim em Chinou, Rene a acompanhou. E não apenas isso. Os mesmos cronistas avaliam que Rene realmente estava presente ao lado dela durante o cerco de Orleans. Nos séculos que se seguiram uma tentativa sistemática parece ter sido feita para expurgar todo traço do possível papel de Rene na vida de Joana. Ainda que os biógrafos posteriores de Rene não possam responder sobre o paradeiro dele ou atividades entre 1429 e 1431, o ápice da carreira de Joana. É geral e tacitamente assumido que ele estava vegetando na corte ducal em Nancy, mas não há evidência que sustente esta avaliação. As circunstâcias argumentam que Rene acompanhou Joana a Chinon. Porque se havia qualquer uma personalidade dominante em Chinon naquele tempo, esta personalidade era Iolanda D’Anjou. Era Iolanda que fornecia ao dolfim febril, de fraca vontade incessantes tranfusões de moral. Foi Iolanda que inexpicavelmente se auto-indicou patrona oficial de Joana. E foi Iolanda que superou a resistência da côrte à garota visionária e obteve a autorização para que ela acompanhasse o exército a Orleans. Foi Iolanda que convenceu o dolfim que Joana de fato podia ser a salvadora que ela afirmava ser. Foi Iolanda que concebeu o casamento do dolfim com a sua própria filha. E Iolanda era a mãe de Rene D’Anjou. Na medida em que estudamos estes detalhes, nos tornamos crescentemente convencidos, como muitos historiadores modernos, que algo está sendo encenado por trás das cenas; algo intrincado, uma intriga de alto nivel, ou projeto audacioso. Quanto mais examinamos isso, mas a carreira metórica de Joana D’Arc começou a sugerir um negócio programado como se alguém, explorando as lendas populares da ‘Virgem de Lorreine’ e jogado engenhosamente com a psicologia de massa, tivesse engendrando e orquestrado a missão da chamada Donzela de Orleans. Isto não pressupôs, com certeza, a existência de uma sociedade secreta. Mas isto mostrou que a existência de uma tal sociedade decididamente fosse mais plausível. E se uma tal sociedade existiu, o homem que a presidia bem pode ter sido Rene D’Anjou.

Rene e o Tema da Arcadia

Se Rene estava associado a Joana D’Arc, sua carreira posterior, em sua maior parte, foi distintamente menos belicosa. Diferente de muitos de seus contemporaneos, Rene era menos um guerreiro que um cortesão. A este respeito ele foi mal colocado em sua própria era; ele era, em resumo, um homem a frente de seu tempo, antecipando os príncipes cultos da Renascença. Uma pessoa extremamente letrada, ele escreveu prolificamente e iluminou seu próprios livros. Ele compôs poesia e alegorias místicas, bem como compêndios de regras de torneio. Ele buscou promover o avanço do conhecimento e a um tempo empregou Cristóvão Colombo. Ele estava familiarizado com a tradição esotérica e sua côrte incluia um astrólogo judeu, cabalista e físico conhecido como Jeam de Saint Remy. Segundo um número de narrativas, Jean Saint-Remy era o avô de Nostradamus, o famoso profeta do século XVI que também figurou em nossa história. Os interesses de Rene incluiam a cavalaria, e os romances arturianos e do Gral. De fato ele parece ter tido uma preocupação particular como Ele a havia obtido, ele afirmou, em Marselha onde Madalena, segundo a tradição, chegou com o Gral. Outros cronistas falam de uma taça na posse de Rene – talvez a mesma que tinha uma inscrição misteriosa gravada na borda: ‘Qui bien beurra Dieu voira. Qui beurra tout dune baleine Voita Dieu et la Madeleine. [ Ele que bebe bem verá Deus. Ele que “saboreia um único gole verá Deus e Madalena] Não seria inacurado ver Rene D’Anjou como um maior ímpeto por trás do fenômeno agora chamado Renascença. Em virtude de suas inúmeras possessões italianas ele passou alguns anos na Itália; e por sua amizade íntima com a regente família Sforza de Milão ele estabeleceu contacto com os Medicis de Florença. Há boas razões para acreditar que foi grandemente a influência de Rene que fez com que Cisimo de Medici embarcasse em uma série de ambiciosos projetos. Projetos destinados a transformar a civilização ocidental. Em 1439, quando Rene estava residindo na Itália, Cosimo de Medici começou a enviar seus agentes por todo o mundo em busca de manuscritos antigos. Então, em 1444, Cosimo fundou a primeira biblioteca pública, a Bibliteca de São Marcos, e assim começou a desafiar o longo monopólio da Igreja sobre o ensino. Por expressa comissão de Cosimo, o corpo de pensamento platonico, neo-platonico, pitagoreano, gnóstico e hermético encontrou seu caminho para a tradução pela primeira vez e se tornou imediatamente acessível. Cosimo também instruiu a Universidade de Florença a começar a ensinar grego, pela primeira vez na Europa por alguns 700 anos. E ele assumiu criar uma academia de estudos pitagoreanos e platonicos. A academia de Cosimo rapidamente gerou uma multitude de instituições similares pela península italiana, que se tornaram bastiões da tradição esotérica ocidental. E delas a alta cultura da Renascença começou a florescer. Rene D’Anjou não apenas contribuiu em alguma medida para a formação destas academias, mas também parece ter conferido sobre elas um de seus favoritos temas simbólicos, aquele da Arcadia. Certamente é na própria carreira de Rene que o motivo da Arcadia parece ter feito sua estréia na cultura ocidental pós cristã. Em 1449, por exemplo, em sua côrte em Tarrascon, Rene preparou uma série de “pas dames’ curiosas amálgamas híbridas de torneio e máscara, que foi chamada de ‘The Pas dAmes of the Shepherdess’. Representada por sua amante naquele tempo, A Pastora era explicitamente uma figura arcadiana, incorporando os atributos românticos e filosóficos. Ela presidiu um torneio no qual os cavaleiros assumiram identidades alegóricas representando valores e idéias conflitantes. O evento foi uma fusão singular do pastoral romance arcadiano com a ostentação da Távola Redonda e os mistérios do Santo Gral. A Arcadia figura em outros lugares nos trabalhos de Rene também. É frequentemente denotada como uma fonte ou pedra de túmulo, ambas sendo associadas com uma corrente subterrânea. Esta corrente é igualmente equiparada ao Rio Alfeu, o rio central na geral geográfica Arcadia na Grécia, que flui subterraneamente e é dito emergir novamente na Fonte de Aretusa na Sicília. Desde a mais remota antiguidade até o Kubla Kan de Coleridge o rio Alfeu tem sido considerado sagrado. Seu próprio nome deriva da mesma raiz grega da palavra ‘alfa’ que significa ‘primeiro’ ou ‘fonte’. Para Rene, o motivo de uma corrente subterrânea parece ter sido extremamente rico nas ressonâncias simbólicas e alegóricas. Entre outras coisas, ele pareceria ligar a tradição esotérica subterrânea do pensamento pitagoriano, gnóstico, cabalístitico e hermético.

Mas ele também pode indicar algo mais do que um corpo geral de ensinamentos, talvez alguma informação factual muito específica de um ‘segredo’ de algum tipo, transmitido de maneira clandestina de geração a geração. E ele pode ligar uma não reconhecida e assim subterrânea linhagem sanguinea.  Nas academias italianas a imagem da corrente subterrânea parece ter sido investida com todos os níveis de significado. E ela recorre consistentemente tanto assim, de fato, que as próprias academias tem sido frequentemente rotuladas como Arcadianas.  Assim, em 1502, um maior trabalho foi publicado, um longo poema intitulado Arcadia, por Jacopo Sannazaro e a entourage italiana de Rene d’Anjou de alguns anos antes incluia um Jacques Sannazar, provavelmente o pai do poeta. Em 1553 o poema de Sannazaro foi traduzido para o francês. Ele foi dedicado, muito interessantemente, ao Cardeal de Unocourt, que compilou as genealogias nos Documentos do Priorado. Durante o século XVI a Arcadia e a corrente subterrânea se tornaram uma moda proeminentemente cultural. Na Inglaterra eles inspiraram o mais importante trabalho de Sir Philip Sidney, Arcadia, Na Itália eles inspiraram tais figuras ilustres como Torquato lasso cuja peça magistral, Jerusalém Libertada, lida com a captura da Cidade Santa por Godfroi de Bouillon. Pelo século XVII o motivo da Arcadia havia culminado na pintura ‘Os Pastores da Arcadia” de Nicholas Poussin. Quanto mais exploramos o assunto, mais aparente se torna que algo – uma tradição de algum tipo, uma hierarquia de valores ou atitudes, talvez um corpo específico de informação estava constantemente sendo intimado pela corrente subterranea. Esta imagem parece ter assumido proporções obsessivas nas mentes de certas eminentes famílias políticas do período todo do qual, direta ou indiretamente, figuram nas genealogias dos Documentos do Priorado. E as famílias em questão tem transmitido a imagem aos seus protegidos nas artes. De Rene D’Anjou, algo parece ter sido passado aos Medicis, aos Sforzas, aos Estes e aos Gonzagas, os últimos dos quais, segundo os Documentos do Priorado, forneceram ao Sião dois Grão Mestres,  Ferrante de Gonzaga e Louis de Gonzaga, Duque de Nevers. Dele isso parece ter encontrado seu caminho nos trabalhos dos mais ilustres pintores e poetas da época, inclindo Boticelli e Leonardo da Vinci.

O Manifesto Rosacruz

Uma disseminação de idéias de certa forma similar ocorreu no século XVII, primeiro na Alemanha e então se espalhando para a Inglaterra. Em 1614 o primeiro dos chamados Manifestos Rosacrucianos apareceu, seguido de um segundo tratado um ano mais tarde. Estes manifestos criaram um furor naquele tempo, provocando fulminações da Igreja e dos Jesuítas, e despertando um apoio freventemente entusiástico das facções liberais na Europa Protestante. Entre os mais eloquentes e influentes expoentes do pensamento rosacruciano estava Robert Fludd, que é listado como o sexto Grão Mestre do Priorado de Sião, presidindo entre 1595 e 1637. Entre outras coisas, os Manisfestos Rosacrucianos promulgavam a história do lendário Cristão Rosacruz. Eles apoiavam a matéria de uma confraternidade secreta, invisível de iniciados na Alemanha e na França. Eles prometiam uma transformação do mundo e do conhecimento humano de acordo com os príncipios esotéricos e herméticos, a corrente subterrânea que tinha fluido de Rene D’Anjou para a Renascença. Uma nova época de liberdade espiritual foi anunciada, uma época na qual o homem podia se libertar de suas antigas algemas, destrancar os domentes ‘segredos da natureza’ e governar o seu próprio destino de acordo com leis harmoniosas, universais e cósmicas. Ao mesmo tempo, os manisfestos eram altamente inflamatoriamente políticos, ferozmente atacando a Igreja Católica e o velho Santo Império Romano. Estes manisfestos agora são acreditados terem sido escritos por um teólogo e sotetérico alemão, Johann Valentin Andrea, listado como Grão Mestre do Priorado de Sião depois de Robert Fludd. Se eles não foram escritos por Andrea, eles certamente foram escritos por um ou mais de seus associados. Em 1616, um terceiro tratado apareceu,  O Casamento Alquímico do Cristão Rosacruz. Como os dois trabalhos anteriores, O Casamento Alquimico foi originalmente de autoria anônima; mas o próprio Andrea mais tarde confessou ter composto isso como uma ‘piada’ ou comédia. O Casamento Alquimico é uma alegoria complexa, que subsequentemente influenciou trabalhos tais como Fausto de Goethe. Como tem demonstrado Frances Yates, ele contém inumeráveis ecos do esotérico inglês, John Dee, que também influenciou Robert Fludd. O trabalho de Andrea também evoca ressonâncias dos romances do Gral e dos Cavaleiros Templários. Cristão Rosacruz, por exemplo, é dito usar uma tunica branca com uma cruz vermelha no ombro. No curso da narrativa, uma peça realizou uma alegoria dentro de uma alegoria. Esta peça envolve uma princesa, de linhagem real não específica, cujos domínios por direito tinham sido usurpados pelos mouros e que foi lançada para fora do litoral em um bau de madeira. O resto da peça lida com as vicissitudes dela e seu casamento com um príncipe que a ajudaria a reconquistar sua herança. Nossa pesquisa revelou variados links de segunda e terceira mão entre Andrea e as famílias cujas genealogias figuravam nos Documentos do Priorado. Não descobrimos links diretos ou em primeira mão, contudo, exceto talvez para Frederico, o Eleitor Palatino do Reno. Frederico era sobrinho de um importante líder protestante francês, Henri de la Tour dAuvergne, Visconde de Turenne e Duque de Bouillon, o velho título de Godfroi. Henrique era também associado a família Longueville, que figurou proeminentemente tanto nos Documentos do Priorado quanto em nossa própria pesquisa. E em 1591 ele tinha entrado em grandes problemas ao adquirir o centro de Stenay. Em 1613, Frederico do Palatinado havia se casado com Elizabeth Stuart, filha de James I da Inglaterra, neta da Rainha Mary da Escócia e bisneta de Marie de Guise e Guise era o ramo cadete da casa de Lorreine. Marie de Guise, um século antes, havia se casado com o duque de Longueville  e então, com a morte dele, com James V da Escócia. Isto criou uma aliança dinástica entre as casas de Stuart e Lorreine.  Em consequência, os Stuarts começaram a figurar nas genealogias dos Documentos do Priorado. E Andrea, bem como outros três alegados Grão Mestres que o seguiram, apresentarm vários graus de interesse na casa real escocesa. Durante este periodo a casa de Lorreine estava, em um grau significativo, em eclipse.

Se Sião fosse uma ordem coerente e ativa naquele tempo, ele pode portanto ter transferido sua fidelidade – ao menos parcial e temporariamente aos decididamente mais influentes Stuarts. Em qualquer caso, Frederico do Palatinado, depois de seu casamento com Elizabeth Stuart, estabeleceu uma côrte aliada de orientação esotérica em sua capital de Heidelberg. Como escreve Frances Yates, umaa cultura estava se formando no Palatinado que veio diretamente da Renascença mas com mais tendências recentes acrescentadas, uma cultura que pode ser definida pelo adjetivo de rosacruciana. O príncipe ao redor do qual estas profundas correntes estavam fazendo rodamoinho era Frederico, o Eleitor Palatino, e seus exponentes estavam esperando por uma expressão politico-religiosa de suas metas… O movimento de Frederico… foi uma tentativa de dar a estas correntes político-religiosas uma expressão, para realizar o ideal da reforma hermética centrada em um príncipe real… Isto… criou uma cultura… um estado ‘rosacruciano’ que a côrte dele centrou em Heidelberg. Em resumo os anônimos rosacrucianos e seus simpatizantes parecem ter investido em Frederico com um sentido de missão, tanto espiritual quando política. E Frederico parece ter aceitado prontamente o papel imposto a ele, juntamente com as esperanças e expectativas que isso compreendia. Então, em 1618, ele aceitou a coroa da Boemia, oferecida a ele pelos nobres rebeldes daquele país. Ao fazer isso, ele incorreu na ira do Papado e do Santo Império Romano e precipitou o caos da Guerra dos Trinta Anos. Dentro de dois anos ele e Elizabeth tinham sido levados ao exílio na Holanda, e Heidelberg foi dominada por tropas católicas. E pelo seguinte quarto de século, a Alemanha se tornou o maior campo de batalha para o conflito mais amargo e mais sangrento e custoso na historia européia antes do conflito do século XX no qual a Igreja quase gerenciou para reimpor a hegemonia que ela havia desfrutado durante a Idade Média. Entre o turbilhão que corria solto ao redor dele, Andrea criou uma rede de sociedades mais ou menos secretas conhecidas como Uniões Cristãs. Segundo o projeto de Andrea, cada sociedade era chefiada por um príncipe anônimo, assistido por doze outros divididos em grupos de três cada um dos quais era para ser um especialista em uma dada esfera de estudo.  O propósito original das Uniões Cristãs era preservar o conhecido ameaçado especialmente os mais recentes avanços científicos, muitos dos quais eram considerados pela Igreja como heréticos. Ao mesmo tempo, contudo, as Uniões Cristãs também funcionavam como um refugio para pessoas que fugiam da Inquisição que acompanhava os invasores exércitos católicos, e pretendia desenraizar todos os vestígios do pensamento rosacruciano. Assim inúmeros eruditos, cientistas, filósofos e esotéricos encontraram um paraíso nas instituições de Andrea. Por elas muitos deles eram contrabandeados para a segurança na Inglaterra onde a Maçonaria Livre estava apenas começando a coalescer. Em algum significado importante as Uniões Cristãs de Andrea podem ter contribuido para o organização do sistema maçonico de lojas. Entre os europeus deslocados encontrando seu caminho para a Inglaterra estava um número de associados pessoais de Andrea:  Samuel Hartlib, por exemplo; Adam Komensky, mais conhecido como Comenius, com quem Andrea manteve uma corespondência contínua;  Theodore Haak, que também era uma amigo pessoal de Elizabeth Stuart e mantinha correspondência com ela; e o Doutor John Wilkins, ex capelão pessoal de Frederico do Palatinado e subsequentemente bispo de Chester. Uma vez na Inglaterra, estes homens se tornaram intimamente associados aos círculos maçonicos. Eles eram íntimos de Robert Morau, por exemplo, cuja iniciação na loja maçonica em 1641 é um dos primeiros registros; com Elias Ashmole, antiquário  e especialista em ordens caveleirescas, que foi iniciado em 1646, com o jovem e precoce Robert Boyle que embora ele próprio não fosse um maçom livre, foi um membro de uma outra mais fugidia sociedade secreta.

Não há evidência concreta que esta sociedade secreta fosse o Priorado de Sião, mas Boyle, segundo os documentos do Priorado, sucedeu Andrea como Grão Mestre de Sião. Durante o Protetorado de Cromwell, estas mentes dinâmicas, tanto inglesas quanto européias, formaram o que Boyle em um eco deliberado dos manifestos rosacrucianos chamou de ‘colégo invisível’ que se tornou a Real Sociedade com o governante Stuart, Carlos II como seu patrono e patrocinador. Virtualmente todos os membros fundadores da Sociedade Real eram Maçons Livres. Pode-se razoavelmente argumentar que a própria Sociedade Real, ao menos em sua iniciação, era uma instituição maçonica derivada, das Uniões Cristãs de Andrea, da ‘invisível fraternidade rosacruciana’. Mas esta não era para ser a culminação da corrente subterrânea. Ao contrário, ela iria fluir de Boyle para Sir Isaac Newton, listado como o Grão Mestre seguinte de Sião, e dai para complexos tributários da Maçonaria Livre do século XVIII.

A Dinastia Stuart

Segundo os Documentos do Priorado, Newton foi sucedido como Grão Mestre do Sião por Charles Radclyffe. O nome era dificilmente tão ressonante para nós quanto os de Newton, Boyle ou até mesmo Andrea. De fato, incialmente não estávamos certos sobre quem era Charles Raddcliffe. Então começamos a pesquisar sobre ele, e contudo, ele emergiu como uma figura de considerável, se subterrânea, consequência na história cultural do século XVIII. Desde o século XVI os Raddcliffes tinham sido uma influente família Nortumbriana. Em 1688, pouco antes dele ser deposto, James II os havia tornado Condes de Derwentwater. Chales Raddcliffe nasceu em 1693. Sua mãe era filha ilegítima de Carlos II com sua amante, Moll Davies. Radcliffe era então, pelo lado de sua mãe, de sangue real, um neto do quase último monarca Stuart. Ele era primo de Bonnie Príncipe Charlie e de George Lee, Conde de Lichfield, um outro neto ilegítimo de Carlos II. Não surpreendentemente, portanto, Raddcliffe devotou a maior parte de sua vida, a causa Stuart.

Em 1715 esta causa repousava com o Velho Pretendente, James III, então no exílio e residindo em Bar-le-Duc, sob a proteção especial do Duque de Lorreine. Radcliffe e seu irmão mais velho participaram da rebelião escocesa daquele ano. Ambos foram capturados e aprisionados e James foi executado. Charles, neste meio tempo, aparentemente ajudado pelo Conde de Lichfield, fez uma fuga ousada e sem precendentes da prisão de Newgate, e encontrou refúgio nas fileiras Jacobitas na França. Nos anos que se seguiram ele se tornou secretário pessoal do Jovem Pretendente,  Bonnie Prince Charlie. Em 1745 o último chegou a Escócia e embarcou em sua tentativa quixotesca de reinstalar os Stuarts no trono britânico. No mesmo ano, Raddcliffe, em rota para se unir a ele, foi capturado em um navio francês fora de Dogger Bank. Um ano mais tarde, O Jovem Pretendente foi desastrosamente derrotado na Batalha de Culloden Moor. Uns poucos meses depois, Charles Raddcliffe morreu sob o machado do carrasco na Torre de Londres. Durante sua estada na França os Stuarts tinham estado profundamente envolvidos na disseminação da Maçonaria Livre. De fato, eles geralmente são vistos como a fonte de uma forma particular de Maçonaria conhecida como Rito Escocês. A Livre Maçonaria introduziu graus superiores aqueles oferecidos por outros sistemas maçonicos naquele tempo. Ela prometia iniciação em mistérios maiores e mais profundos – mistérios supostamente preservados e manipulados na Escócia. Ela estabelecia ligações mais diretas entre a Maçonaria Livre e várias atividades: alquimia, cabalismo e pensamento hermético, por exemplo, eram vistos como rosacrucianos. E ela elaborava não apenas sobre a antiguidade mas também sobre o pedigree ilustre da ‘arte’. É provável que o Rito Escocês da Maçonaria Livre fosse originalmente promulgado, se não de fato divisado, por Charles Raddcliffe. Em qualquer caso, Charles Raddcliffe, em 1725, é dito ter fundado a primeira loja maçonica no continente, em Paris. Durante o mesmo ano, ou talvez no ano seguinte, ele parece ter sido reconhecido como Grão Mestre de todas as lojas francesas, e ainda é citado uma década depois, em 1736. A disseminação da Livre Maçonaria do século XVIII deve mais, ultimamente, a Charles Raddcliffe que a qualquer outro homem.

Isto nem sempre tem sido prontamente aparente porque Raddcliffe, especialmente depois de de 1738, manteve um perfil relativamente baixo. Em um grau muito significativo, ele parece ter trabalhado através de intermediários e portavozes. O mais importante deles, e o mais famoso, foi o enigmático indivíduo conhecido como Cavaleiro Andrew Ramsay. Ramsay nasceu na Escócia em algum tempo nos anos de 1680. Como um jovem homem ele foi membro de uma sociedade rosacruciana quase maçonica chamado Os Filadelfianos. Entre os outros membros desta sociedade estavam ao menos dois amigos íntimos de Sir Issac Newton. O próprio Ramsay via Newton com imitigada reverência, considerando-o um tipo de alto iniciado místico – um homem que havia descoberto e reconstruido as verdades eternas ocultas nos antigos mistérios. Ramsay tinha outras ligações com Newton. Ele era  associado a Jean Desaguliers, um dos amigos mais próximos de Newton. Em 1708 ele estudou matemática sob um  Nicolas Fatio de Duillier, o mais íntimo companheiro de Newton. Como Newton, ele apresentava um interesse simpático nos Camisardos – uma seita de Cátaros de tipo herege então sofrendo perseguição no sul da França, e um tipo de  causa célebre  para Fatio de Duillier. Por 1710 Ramsay estava em Cambrai e em termos íntimos com o filósofo místico Fenelon, anteriormente cura de São Suspílcio que, até mesmo naquele tempo, era um bastião de ortodoxia mais que questionável. Não é sabido precisamente quando Ramsay travou conhecimento com Charles Raddcliffe, mas pelos anos de 1720 ele estava intimamente afiliado a causa Jacobita. Por um tempo ele até mesmo serviu como tutor de Bonnie Prince Charlie. A despeito de suas ligações Jacobitas, Ramsay voltou a Inglaterra em 1729 onde não obstante, uma aparente falta de qualificações apropriadas, ele foi admitido prontamewnte na Sociedade Real. Ele também tornou-se um membro de uma instituição ainda mais obscura chamada Clube de Spalding de Cavalheiros. Este ‘clube’ incluia homens como Desaguliers, Alexander Pope e, até sua morte em 1727, Isaaac Newton. Por 1730 Ramsay estava de volta a França e incrivelmente ativo em benefício da Livre Maçonaria. Ele está a registro como tendo comparecido a encontros da loja com um número de figuras notáveis, incluindo Desaguliers. E ele recebeu o patrocínio especial da família Tour dAuvergne, os viscondes de Turenne e o duque de Bouillon que, três quartos de século antes, tinha sido relacionado a Frederico do Palatinado. Ao tempo de Ramsay o Duque de Bouillon era um primo de Bonnie Prince Charlie e estava entre as mais proeminentes figuras da Livre Maçonaria. Ele conferiu uma propriedade imobiliária e uma casa na cidade a Ramsay, que ele também indicou tutor de seu filho. Em 1737 Ramsay enviou sua famosa ‘Oração’ – uma longa dissertação sobre a história da Livre Maçonaria que subsequentemente se tornou um documento embrionário para a ‘arte’. Com base nesta ‘Oração’ Ramsay se tornou o portavoz proeminente maçonico de sua era. Nossa pesquisa nos convenceu, contudo, que a voz real por trás de Ramsay era aquela de Charles Radclyffe que presidia a loja na qual Ramsay tinha feito seu discurso e que apareceu novamente, em 1743, como signatário principal no funeral de Ramsay. Mas se Radcliffe era o poder por trás de Ramsay, poderia ter sido Ramsay que constituiu a ligação entre Radcliffe e Newton. A despeito da morte prematura de Ramsay em 1746, as sementes que ele havia plantado na Europa continuaram a dar frutos. Cedo nos anos de 1750 um novo embaixador da Livre Maçonaria apareceu; um alemão chamado  Karl Gottlieb von Hund. Hund afirmou ter sido iniciado em 1742, um ano antes da morte de Ramsay, quatro anos antes da de Radcliffe. Em sua iniciação, ele afirmou, ele tinha sido introduzido em um novo sistema de Maçonaria Livre, confiado a ele por ‘superiores desconhecidos’. Estes ‘superiores desconhecidos’, mantinha Hund, eram estreitamente associados a causa Jacobita. De fato, ele até mesmo acreditou de início que o homem que presidiu sua iniciação fosse Bonnie Prince Charlie. E embora isso tenha se provado não ser o caso, Hund permaneceu convencido que o personagem não identificado em questão estava estreitamente ligado ao Jovem Pretendente. Parece razoável supor que o homem que realmente presidiu foi Charles Radcliffe. O sistema da Maçonaria Livre em que Hund foi introduzido era uma extensão posterior do Rito Escocês e que foi subsequentemente chamado Estrita Observância. Seu nome derivou do voto que ele exigiu, de obediência inquestionável aos misteriosos ‘superiores desconhecidos’.

E a doutrina básica da Estrita Observância era que ela tinha descendido diretamente dos Cavaleiros Templários, alguns dos quais propostamente sobreviveram a purga de 1307-14 e perpetuaram sua Ordem na Escócia. Nós já estávamos familiarizados com esta afirmação. Com base em nossa pesquisa podemos admitir nisso alguma verdade. Um contingente de Templários tinha alegadamente combatido do lado de Robert Bruce na Batalha de Bannockburn. Por causa da Bula Papal dissolvendo os Templários nunca ter sido promulgada na Escócia, a Ordem nunca foi oficialmente suprimida lá. E nós mesmos temos localizado o que parece ser um cemitério templário em Argyllshire. As mais iniciais sepulturas neste cemitério datavam do século XIII, e as últimas, do século XVIII. As pedras mais antigas mantém certas gravações únicas e símbolos gravados idênticos aqueles encontrados nos conhecidos preceptórios Templários na Inglaterra e na França. As pedras mais recentes combinaram estes símbolos com motivos especificamente maçonicos, atestando desta forma algum tipo de fusão. Portanto não é impossível, concluimos, que a Ordem de fato tenha se perpetuado nas selvagerias sem trilhas da medieval Argyll – mantendo uma existência clandestina, gradualmente se secularizando e se tornando associada as guildas maçonicas e aos prevalecentes sistemas de clãs. O pedigree que Hund afirmou para a Estrita Observância não nos parecia, portanto, improvável. Para seu próprio embaraço e subsequente desgraça, contudo, ele foi incapaz de eleborar posteriormente sobre este novo sistema de Livre Maçonaria. Como resultado seus contemporaneos o descartaram como charlatão, e o acusaram de ter fabricado a história de sua iniciação, seu encontro com os ‘superiores desconhecidos’, sua ordem para disseminar a Estrita Observância. A estas acusações Hund apenas podia responder que seus ‘superiores desconhecidos’ o tinham inexplicavelmente abandonado. Eles haviam prometido contacta-lo novamente e dar a ele instruções posteriores, ele protestou, mas eles nunca o fizeram. Pelo fim de sua vida ele afirmou sua integridade, mantendo que ele havia sido desertado de seus patronos originais que, ele insistiu, realmente haviam existido. Quanto mais consideramos as avaliações de Hund, mais plausíveis elas soam e ele parece ter sido uma vítima infeliz não tanto de traição deliberada como de circunstâncias além do controle de todos. Segundo sua própria narrativa, Hund havia sido iniciado em 1742, quando os Jacobitas ainda eram uma poderosa força política nos assuntos do continente. Por 1746, contudo, Radcliffe estava morto. E assim o estavam tantos de seus colegas, enquanto outros estavam na prisão ou no exilio muito distante, em alguns casos, na América do Norte.

Se os ‘superiores desconhecidos’ de Hund falharam em reestabelecer contacto com seu protegido, a omissão não parece ter sido voluntária. O fato de que Hund foi abandonado imediatamente depois do colapso da causa Jacobita pareceria, se algo, confirmar sua história. Há um outro fragmento de evidência que confere credencial não apenas as afirmações de Hund mas aos Documentos do Priorado também. Esta evidência é uma lista dos Grão Mestres dos Cavaleiros Templários, que Hund insistiu ter obtido de seus ‘superiores desconhecidos’ e que pareceu se derivar de ‘informação interna’. Salvo pela soletração de um único sobrenome, a lista que Hund apresentou concorda com aquela nos Dossiês Secretos. Em resumo, de algum modo Hund havia obtido a lista dos Grão Mestres Templários mais acurada do que qualquer outra de seu tempo. Sobretudo, ele a obteve quando muito muitos documentos nos quais confiamos as cartas de direitos, deveres, proclamações ainda estavam sequestradas no Vaticano e não obtíveis. Isto pareceria confirmar que a história de Hund sobre ‘superiores desconhecidos’ não era uma fabricação. Isto também pareceria indicar que estes ‘superiores desconhecidos’ eram extraordinariamente conhecedores da Ordem do Templo e mais conhecedores do que eles possivelmente tivessem sido sem o acesso a ‘fontes privilegiadas’. Em qualquer caso, a despeito das acusações levantadas contra ele, Hund não estava completamente sem amigos. Depois do colapso da causa Jacobita ele encontrou um patrono simpático e um estreito companheiro, não menos na pessoa do Santo Imperador Romano. O Santo Imperador Romano naquele tempo era François, o Duque de Lorreine que, pelo seu casamento com Maria Teresa da Áustria em 1735, tinha ligado as casas dos Hapsburgs e Lorreine e inaugurado a dinastia Hapsburg-Lorreine.

E segundo os Documentos do Priorado, o irmão de François, Charles de Lorreine, que sucedeu Radcliffe como Grão Mestre de Sião. François foi o primeiro príncipe europeu a se tornar maçom e tornar pública sua afiliação a Maçonaria. Ele foi iniciado em Haia, um bastião de atividade esotérica desde que os círculos rosacrucianos haviam se instalado lá durante a Guerra dos Trinta Anos. E o homem que presidiu a iniciação de François foi Jean Desaguliers, íntimo associado de Newton, Ramsay e Radcliffe. Pouco depois de sua iniciação sobretudo, François embarcou para uma longa estada na Inglaterra. Aqui ele se tornou um membro daquela instituição de aparência inócua, O Clube de Spalding de Cavalheiros. Nos anos que se seguiram François de Lorreine foi provavelmente mais responsável do que qualquer outro potentado europeu na disseminação da Livre Maçonaria. Sua côrte em Viena se tornou, em um sentido, a capital Maçonica da Europa, e um centro para um amplo espectro de outros interesses esotéricos também. O próprio François era um alquimista praticante, com um laboratório alquimico no palácio imperial, o  Hofburg. Na morte do último Medici ele se tornou Grão Duque da Toscana, e com habilidade frustrou a perseguição dos Maçons Livres em Florença. Por meio de François, Charles Radcliffe que fundou a primeira loja maçonica no continente, deixou um legado duravel.

Charles Nodier e Seu Círculo

Comparado aas importantes figuras politicas e culturais que o precederam, comparado ate mesmo a um homem como Charles Radcliffe, Charles Nodier parecia uma escolha das mais improváveis para Grão Mestre. O conhecemos primariamente como um tipo de curiosidade literária de uma bela arte relativamente menor, um ensaista de certo modo tagarela, um novelista de segundo nível e um escritor de histórias curtas na tradição bizarra de  E. T. A. Hoffmann e, mais tarde, de Edgar Allan Poe. Em seu próprio tempo, todavia, Nodier era visto como uma maior figura cultural, e sua influência era enorme. Sobretudo, ele se provou estar ligado a nossa pesquisa em um número de modos surpreendentes. Por 1824 Nodier já era uma celebridade literária. Neste ano ele foi indicado bibliotecário chefe da Arsenal Library, o maior depositório francês para manuscritos medievais e especificamente ocultos. Entre os vários tesouros do Arsenal foi dito que teria contido os trabalhos alquímicos de Nicholas Flamel, o alquimista medieval listado como um dos iniciais Grão Mestres de Sião. O Arsenal também continha a biblioteca do Cardeal Richelieu; uma coleção exaustiva de trabalhos sobre pensamento mágico, cabalístico e hermético. E havia outros tesouros também. Ao romper a Revolução Francesa os monastérios pelo país foram saqueados e todos os livros e manuscritos enviados a Paris para armazenamento. Então em 1810 Napoleão, como parte de sua ambição de criar uma definitiva biblioteca mundial, confiscou e trouxe a Paris quase que o arquivo inteiro do Vaticano. Havia mais de três mil caixas de material, algumas das quais todas de documentos pertencentes aos Templários, por exemplo – que tinham sido especificamente solicitados. Embora alguns desses papéis fossem subsequentemente devolvidos a Roma, uma grande quantidade permaneceu na França. E era material deste tipo – livros ocultos e manuscritos, trabalhos pilhados de monastérios e do arquivo do Vaticano que passaram às mãos de Nodier e seus associados. Metodicamente eles filtraram isso, catalogaram, exploraram. Entre os colegas de Nodier nesta tarefa estavam Eliphas Levi e Jean Baptiste Pitois, que adotou o nome de pena de Paul Christian. Os trabalhos desses dois homens, e de Charles Nodier, o mentor deles, é aquele ‘renascimento’ francês do século XIX, como tem sido chamado, e que pode ultimamente ser traçado. De fato, a “História e Prática da Magica’ de Pitois se tornou uma bíblia para os estudantes do arcano do século XIX. Recentemente republicada na tradução completa inglesa com sua dedicatória original a Nodier este agora é um trabalho cobiçado pelos estudantes do oculto. Durante seu tempo no Arsenal, Nodier continuou a escrever e publicar prolificamente. Entre os mais importantes de seus últimos trabalhos está um multi volume maciço, belamente ilustrado, obra de interese de antiquário, devotado aos sítios de particular consequência na antiga França. Neste compêndio monumental Nodier devotou um espaço considerável a época Merovíngia, um fato o mais surpreendente já que ele em que em nenhum tempo apresentou o menor interesse nos Merovíngios. Há também longas seções sobre os Templários, e há um artigo especial sobre Gizors incluindo uma narrativa detalhada do ‘corte do elmo’ em 1188, que, segundo os Documentos do Priorado, marcou a separação dos Cavaleiros Templários e o Priorado de Sião. Ao mesmo tempo Nodier era mais do que um bibliotecário e um escritor. Ele era também um indivíduo gregário, egocêntrico e excentrico que constantemente buscava ser o centro da atenção e não hesitava em exagerar sua própria importância. Em suas salas em Arsenal Library ele inaugurou um salão que o estabelecia como um dos mais influentes e prestigiados ‘potentados estéticos’ da época. Ao tempo de sua morte em 1845, ele havia servido como mentor de uma inteira geração  muitos dos quais bem o eclipsaram em suas obtenções subsequentes. Por exemplo, o principal discípulo de Nodier e seu mais estreito amigo era o jovem Vitor Hugo, o próximo Grão Mestre segundo os Documentos do Priorado. HAvia François-Rene de Chateaubriand que fez uma romaria especial a tumba de Poussin em Roma e tinha uma pedra ereta lá sustentando a reprodução dos “Pastores da Arcadia”. Havia Balzac, Delacroix, Dumas pai, Lamartine, Musset, Theophile Gautier, Gerard de Nerval e Alfred de Vigny. Como os poetas e pintores da Renascença, estes homens frequentemente desenharam pesamente sobre o esotérico, e especialmente sobre a tradição hermética. Eles também incorporaram em seus trabalhos um número de motivos, temas, referências e alusões ao mistério que, para nós, começou com Sauniere e Rennes-le Chateau. Em 1832, por exemplo, um livro foi publicado intitulado  ‘Uma Jornada a Rennes-le-Bains”, que fala longamente de um legendário tesouro associado com Blanchefort e  Rennes-le-Chateau. O autor deste livro obscuro,  Auguste de Laboulsse-Rochefort, também produziu um outro trabalho, ‘Os Amantes Para Eleonore’. Na página título lá aparece, sem qualquer explicação, o moto ‘ET ARCADIA EGO’. As atividades literárias e esotéricas de Nodier eram muito claramente pertinentes a nossa investigação. Mas havia um outro aspecto da carreira dele que era, se algo, ainda mais pertinente. Porque Nodier, desde sua infância, esteve profundamente envolvido em sociedades secretas. Já em 1790, por exemplo, aos dez anos, ele é sabido ter se envolvido com um grupo conhecido como Os Filadelfos. Por volta de 1793 ele criou um outro grupo ou talvez um círculo interno do primeiro – que incluia um dos subsequentes conspiradores contra Napoleão. Uma carta de direitos datada de 1797 atesta a fundação de ainda um outro grupo também chamado Os Filadelfos naquele ano. Na biblioteca de Besanion há um ensaio criptico composto e recitado por este grupo escrito por um dos mais íntimos amigos de Nodier. Ele é intitulado “Os Pastores da Arcadia Soam os Primeiros Acentos de uma flauta Rústica”.

Em Paris em 1802 Nodier escreveu sobre sua afiliação a uma sociedade secreta que ele descreveu como ‘Bíblica e Pitagoriana”. Então, em 1816, ele publicou anonimamente um de seus mais curiosos e influentes trabalhos: “a História das Sociedades Secretas em um Exército sob Napoleão”. Neste livro Nodier é deliberadamente ambíguo. Ele não esclarece se estava escrevendo pura ficção ou puro fato. Se algo, ele implica, o livro é uma espécie de alegoria pequeninamente disfarçada de reais ocorrências históricas. Em qualquer caso o livro desenvolve uma filosofia compreensiva ds sociedades secretas. E ele credita a tais sociedades um número de realizações históricas, inclusive a queda de Napoleão. Há muitas grandes sociedades secretas em operação, declara Nodiers. Mas há uma, ele acrescenta, que tem precedência sobre todas as outras, que de fato preside todas as outras. Segundo Nodier, esta ‘suprema’ sociedade secreta é chamada Os Filadelfos. Ao mesmo tempo, todavia, ele fala do juramento que me curva aos Filadelfos e me proibe de torna-los conhecidos sob seu nome social. Não obstante há uma pista de Sião em uma fala que Nodier cita. Ela supostamente foi dada em uma assembléia dos Filadelfos por um dos conspiradores contra Napoleão. O homem em questão está falando de seu filho recém nascido: “Ele é tão jovem para se engajar com vocês pelo voto a Anibal; mas lembrem que o tenho chamado Eliacin, e que delego a ele a guarda do templo e do altar, se eu deva morrer e tenho visto cair de seu trono os últimos opressores de Jerusalém.” O livro de Nodier entra em cena quando o medo das sociedades secretas tinha assumido virtualmente proporções patologicas. Tais sociedades eram frequentemente acusadas de instigarem a Revolução Francesa; e a atmosfera da Europa pós Napoleonica era similar, em muitos aspectos, aquela da “Era McCarthy” nos Estados Unidos durante a década de 1950. As pesoas viam, ou pareciam ver, conspirações em todos os lugares. Cada perturbação pública, cada rompimento menor, cada ocorrência desconfortável era atribuida a ‘atividade subversiva’ do trabalho de organizações clandestinas altamente organizadas por trás das cenas, erodindo o tecido das instituições estabelecidas, perpetrando de todas as maneiras malignas sabotagens. Esta mentalidade engendrou medidas de extrema repressão. E a repressão, dirigida frequentemente contra uma ameaça fictícia, em troca gerou reais oponentes, grupos reais de conspiradores subversivos que se formariam de acordo com os projetos ficticios. Até mesmo como invenções da imaginação, as sociedades secretas estimularam uma paranóia contagiosa nos escalões superiores do governo; e esta paranóia frequentemente realizou mais do que qualquer própia sociedade secreta poderia possivelmente ter feito. Não há dúvida de que o mito da sociedade secreta, se não a própria sociedade secreta, desempenhou um papel maior na história européia do século XIX. E um dos principais arquitetos deste mito, e possivelmente da realidade por trás dele, foi Charles Nodier.

Debussy e a Rosa Cruz

As tendências as quais Nodier deu uma expressão de fascinação com as sociedades secretas e um interesse renovado no esotérico continuaram a ganhar influência e aderentes pelo século XIX. Ambas as tendências alcançaram o auge em Paris no fim do século e os arredores de Claude Debussy, o alegado Grão Mestre de Sião quando Berenger Sauniere, em 1891, descobriu os misteriosos pergaminhos em Rennes-le-Chateau. Debussy parece ter feito conhecimento com Vitor Hugo por meio do poeta simbolista Paul Verlaine. Subsequentemente ele estabeleceu um número de trabalhos de Hugo para a música. Ele também se tornou um  membro integral dos círculos simbolistas que, pela última década do século, tinham vindo a dominar a vida cultural parisiense.

Estes círculos algumas vezes eram ilustres, algumas vezes estranhos e algumas vezes ambos. Eles incluiam o jovem clérigo Emile Hoffet e Emma Calve pelos quais Debussy veio a conhecer Sauniere. Havia também o mago enigmático da poesia simbolista francesa, Stephane Mallarme, que uma das peças principais, ‘L’Apres-Midi dun Faune’, Debussy criou em música. Havia o teatrólogo simbolista Maurice Maeterlinck, cujo drama Merovígio, ‘Pelleas et Me1isande’, Debussy transformou em ópera de fama mundial. Havia o excêntrico Conde Philippe Auguste Villiers de Isle-Adam, cuja peça rosacruciana, ‘Axel’, se tornou uma biblia para o inteiro Movimento Simbolista. Embora sua morte em 1918 evitasse a sua conclusão, Debussy começou a compor um libreto para o drama oculto de Viliers, pretendendo transforma-lo, também, em uma ópera. Entre seus outros associados, estavam os luminares que frequentavam as famosas soarées das noites de sexta feira de Mallarme:  Oscar Wilde, W. B. Yeats, Stefan George, Paul Valery, o jovem Andre Gide e neles próprios os círculos de Debussy e Mallarme eram baseados no esotérico.  Ao mesmo tempo, eles entrelaçavam círculos ainda mais esotéricos. Então Debussy conviveu e se associou com virtualmente todos os nomes proeminentes no chamado revivalismo oculto francês. Nestes estavam o Marquês Stanislas de Guaita, um íntimo de Emma Calve e fundador da chamada Ordem Cabalística da Rosa Cruz. Um segundo era Jules Bois, um notório satanista, um outro íntimo de Emma Calve e um amigo de MacGregor Mathers. Estimulado por Jules Bois, Mathers estabeleceu a mais famosa sociedade oculta britânica, A Ordem do Amanhecer Dourado [Order of the Golden Dawn]. Um outro ocultista de conhecimento de Debussy era o Doutor Gerard Encausse mais conhecido como Papus, sob cujo nome ele publicou e que ainda é considerado um dos trabalhos definitivos sobre o Tarot. Papus não era apenas um membro de numerosas ordens esotéricas e sociedades, mas também era um confidente do Tzar e da Tzarina, Nicholas e Alexandra da Rússia. E entre os mais íntimos associados de Papus estava um nome que já figurava em nossa pesquisa que era Jules Doinel.

Em 1890 Doinel se tronou bibliotecário em Carcassone e estabeleceu uma igreja neo-cátara em Languedoc na qual ele e Papus funcionavam como bispos. Doinel de fato se proclamou o Bispo Gnóstico de Mirepoix, que incluia a paróquia de Montsegur e de Alet, que incluia a paróquia de Reenes-le-Chateau. A igreja de Doinel foi supostamente consagrada por um bispo oriental em Paris em casa, e muito interessantemente, de Lady Caithness, esposa do Conde de Caithness, Lord James Sinclair. Em retrospecto esta igreja parece ter sido meramente um outra seita ou culto inócuo, como tantos do fim do século. Naquele tempo, contudo, ela causou uma alarme considerável nas sedes oficiais. Um relato especial foi preparado para a Santa Sé do Vaticano sobre a ‘ressurgência das tendências cátaras’. E o Papa divulgou uma explícita condenação da instituição de Doinel, por meados dos anos de 1890, foi ativo no território lar de Sauniere e precisamente ao tempo em que o cura de Rennes-le-Chateau começou a ostentar sua riqueza. Os dois homens podem bem terem sido apresentados por Debussy. Ou por Emma Calve. Ou pelo Abade Henri Budet, cura de Rennes-le-Bains, o melhor amigo de Sauniere e colega de Doinel na Sociedade das Artes e Ciências de Carcassone. Um dos mais íntimos contactos ocultos de Debussy era Josephin Peladan, um outro amigo de Papus  e, muito previsivelmente, um outro íntimo de Emma Calve. Em 1889 Peladan embarcou em uma visita a Terra Santa. Quando ele voltou, ele afirmou ter descoberto a tumba de Jesus não o sítio tradicional do Santo Sepulcro mas sob a Mesquita de Omar, antigamente parte do enclave dos Templários. Nas palavras de um admirador entusiástico, a alegada descoberta de Peladan era ‘tão perplexante que em qualquer outra era teria abalado o mundo católico em suas fundações”. Nem Peladan e nem seus associados, contudo, voluntariaram qualquer indicação de como a tumba de Jesus poderia ter sido tão definitivamente identificada  e verificada como tal, nem porque esta descoberta devesse necessariamente abalar o mundo católico a menos, com certeza, que ela contivesse algo importante, controverso e talvez até mesmo explosivo. De qualquer modo, Peladan não elaborou sobre sua proposta descoberta. Mas embora um católico auto-professo, ele não obstante insistiu na mortalidade de Jesus. Em 1890 Peladan fundou uma nova ordem de Rosa Cruz Católica, O Templo e o Gral.

E esta Ordem, diferente das outras instituições rosacruzes do período, de algum modo escapou da condenação papal. Neste meio tempo, Peladan voltou crescentemente sua atenção para as artes. O artista, ele declarou, deve ser ‘um cavaleiro em uma armadura, avidamente engajado na busca simbólica do Santo Gral”. E em aderencia e este princípio, Peladan embarcou em uma cruzada estética completamente madura. Ela tomou a forma de uma série altamente publicada de exibições anuais, conhecida como Salão da Rosa Cruz cujo propósito declarado era “arruinar o realismo, reformar o gosto latino e criar uma escola de arte idealista”. Para este fim certos temas e assuntos eram sumária e autocraticamente rejeitados como indignos “não importa quão bem executados , até mesmo se perfeitamente’. A lista de temas e assuntos rejeitados incluia  a pintura da história prosaica, a pintura patriótica e militar, reprsentações da vida contemporanea, retratos, cenas rústicas e todos os panoramas exceto aqueles compostos da maneira de Poussin’. Nem Paladan se confinou a pintura. Ao contrário, ele tentou promulgar sua estética para o teatro e a música também. Ele formou sua própria companhia de teatro, que representava especialmente os trabalhos compostos sobre tais assuntos como Orfeu, os Argonautas, e a Busca pela Flecha Dourada, o Mistério da Rosacruz, e o Mistério do Gral. Um dos regulares promotores e patronos dessas produções era Claude Debussy.  Entre outros associados de Debussy e de Paladan estava Maurice Barres que, como um homem jovem, que tinha estado envolvido no círculo da Rosacruz com Vitor Hugo.

Em 1912  Barres publicou sua mais famosa novela, A Colina Inspirada. Certos comentaristas modernos tem sugerido que seu trabalho é de fato uma alegoria pequeninamente disfarçada  de Berenger Sauniere e Rennes-le-Chateau. Certamente há paralelos que seriam tão surpreendentes para serem completamente coincidentais. Mas Barres não situa sua narrativa em Rennes-le-Chateau ou qualquer outro lugar no Languedoc. Ao contrário, o monte inspirado do titulo é uma montanha acima de uma vila em Lorreine, e a vila é um velho centro de romaria de Sião.

Jean Cocteau

Mais do que  Charles Radclyffe, mais do que Charles Nodier, Jean Cocteau nos pareceu um candidato mais improvável para o Grão Mestrado de uma influente sociedade secreta. Nos casos de Radcliffe e Nodier, contudo, nossa investigação tinha sustentado certas ligações de considerável interesse. Na investigação de Cocteau descobrimos muito poucas. Certamente ele foi criado em um ambiente próximo aos ‘corredores de poder’; sua  famíla era politicamente proeminente e seu tio era um importante diplomata. Mas Cocteau, ao menos ostensivamente, abandonou este mundo, deixando o lar com a idade de 15 anos e se atirando dentro da miserável sub-cultura de Marselha. Por 1908 ele se estabeleceu nos círculos artísticos boemios. No início de seus vinte anos ele se tornou associado a Proust, Gide e Maurice Barres. Ele também era um grande amigo do bisneto de Vito Hugo, Jean, com quem ele embarcou em excursões variadas no espiritualismo e no oculto. Ele rapidamente tornou-se versado no esotérico; e o pensamento hermético não formou somente muito de seu trabalho, mas também sua inteira estética. Por 1912, se não antes, ele tinha começado a se consorciar com Debussy, a quem ele alude frequentemente, senão não comitantemente em seus jornais. Em 1926 ele projetou o set para uma produção da ópera ‘Pelleas et Me1isande’ porque, segundo um comentador, ele era incapaz de resistir de ligar seu nome durante todo tempo ao de Claude Debussy. A vida privada de Cocteau que incluia surtos de vícios de drogas e uma sequência de casos homossexuais era notoriamente errática. Isto tem estimulado uma imagem dele como um indivíduo volátil e imprudentemente irresponsável. De fato, contudo, ele sempre foi agudamente consciente de sua persona pública; e fossem quais fossem suas escapadas pessoais, ele não as deixou impedirem seu acesso a pessoas de influência e poder. Como ele próprio admitiu, ele sempre havia ansiado pelo reconhecimento público, honra, estima, até mesmo a Admissão na Academia Francesa. E ele estabeleceu o ponto de se conformar suficientemente para se assegurar do status que buscava. Assim ele nunca esteve afastado das figuras proeminentes como Jacques Maritain e Andre Malraux. Embora nunca ostensivamente interessado em política, ele denunciou o Governo de Vichy durante a guerra e parece ter estado discretamente em liga com a Resistência. Em 1949 ele foi feito Cavaleiro da Legião de Honra. Em 1958 ele foi convidado pelo irmão de deGaulle a fazer uma fala pública sobre o assunto geral da França. Este não era o tipo de papel geralmente atribuido a Cocteau, mas ele parece o ter desempenhado suficientemente frequentemente e ter  saboreado assim o fazer. Por uma boa parte de sua vida, Cocteau esteve associado, algumas vezes intimamente, algumas vezes perifericamente aos círculos roialistas católicos. Aqui ele frequentemente tinha relações amigáveis com membros da velha aristocracia, incluindo alguns dos amigos e patronos de Proust. Ao mesmo tempo, contudo, o catolicismo de Cocteau era altamente suspeito, altamente não ortodoxo, e parece ter sido mais um comprometimento estético do que religioso. Na última parte de sua vida, ele devotou grande parte de sua energia redecorando igrejas – um eco curioso, talvez, de Berenger Sauniere. Ainda que até mesmo sua piedade seja questionável: “Eles me tomam por um pintor religioso porque tenho decorado uma capela. Sempre a mesma mania de rotular as pessoas.’ Como Sauniere, Cocteau em suas redecorações, incorporou certos dados curiosos e sugestivos. Alguns estão visíveis na Igreja de Notre Dame de France, ao redor do esquina de Leicester Square em Londres. A própria igreja data de 1865 e pode, em sua consagração, ter tido  certas conexões maçonicas. Em 1940, no auge da blitz, ela estava seriamente danificada. Não obstante, ela permaneceu o centro favorito de veneração para muitos membros das Forças Livres Francesas e depois da guerra foi restaurada e redecorada por artistas de toda França. Entre eles estava Cocteau, que, em 1960, três anos antes de sua morte, executou um mural apresentando a Cricificação. Há um sol negro, e uma figura sinistra não identificada pintada de verde no canto inferior direito. Há um soldado romano sustentando um escudo com um  pássaro emblazonado nele sobre isso, um pássaro em alto estilo sugerindo uma restituição egípcia de Horus. Entre as mulheres que lamentam e os centuriões que jogam dados há duas figuras incongruentemente modernas – uma das quais é o próprio Cocteau, apresentado em um auto-retrato com suas costas significativamente viradas para a cruz. A mais desconcertante de todas é o fato de que o mural apresenta somente a parte inferior da cruz. Seja o que for que esteja pendurado nela é visível apenas até os joelhos e assim não se pode ver a face ou determinar a identidade de quem está sendo crucificado. E fixado na cruz, imediatamente abaixo do pé da vítima anônima, está uma rosa gigantesca. O projeto, em resumo, é um flagrante aparelho rosacruz. E se nada mais, é um motivo muito singular para uma igreja católica.

Os Dois Joões e a Igreja Católica

Os Dossiês Secretos, nos quais apareceu a lista dos alegados Grão Mestres de Sião, foram datados de 1956. Cocteau não morreu senão em 1963. Assim não há indicação sobre quem pode te-lo sucedido, ou quem pode presidir o Priorado de Sião no presente. Mas o próprio Cocteau apresentou um ponto adicional de imenso interesse. Até o ‘corte do elmo’ em 1188, avaliaram os documentos do Priorado, Sião e a Ordem do Templo partilhavam do mesmo Grão Mestre. Depois de 1188 é dito que Sião escolheu um Grão Mestre próprio, o primeiro deles sendo Jean de Gizors. Segundo os Documentos do Priorado, cada Grão Mestre, ao assumir a sua posição, tem adotado o nome de Jean [João] ou, como houve quatro mulheres, Joana. Portanto os Grão Mestres de Sião tem alegadamente compreendido uma sucessão de Joões e Joanas, de 1188 até o presente. Esta sucessão era claramente pretendida para implicar um papado hermético e esotérico baseado em João, em contraste [e talvez oposição] aquele exotérico baseado em Pedro. Uma questão maior, com certeza, era que João. João Batista? João Evangelista, o Discípulo Amado no Quarto Evangelho? O ou João o Divino, autor do Livro da Revelação?  Parecia muito bem ser um desses três porque Jean de Gizors em 1188 tinha supostamente tomado o título de João II. Quem era então João I? Seja qual for a resposta a esta questão, Jean Cocteau aparece na lista dos alegados Grão Mestres como João XXIII. Em 1959, enquanto Cocteau ainda presumidamente mantinha o Grão Mestrado, morreu o Papa Pio XII e os cardeais reunidos elegeram, como seu novo pontífice, o Cardeal Angelo Roncalli de Veneza. Qualquer Papa reecém eleito escolhe seu próprio nome e o Cardeal Roncalli causou uma consternação considerável quando ele escolheu o nome de João XXIII. Tal consternação não era injustificada. Em primeiro lugar o nome João tem sido anatematizado implicitamente desde que ele foi por último usado no século V por um anti-papa. Sobretudo, já havia existido um João XXIII. O papa que abdicou em 1415 e que, muito interessantemente, tinha anteriormente sido bispo de Alet era de fato João XXIII. Isto era então não usual, para dizer o mínimo, para o Cardeal Roncalli assumir o mesmo nome. Em 1976 um pequeno livro enigmático foi publicado na Itália e logo depois traduzido para o francês. Ele era chamado ‘As Profecias do Papa João XXIII’ e continha uma compilação de obscuros poemas em prosa compostos pelo pontífice que morreu 13 anos antes em 1963, no mesmo ano de Cocteau. Em sua maior parte estas profecias são extremamente ‘opacas’ e desafiam qualquer interpretração coerente.  Se este é de fato um trabalho de João XXIII é também uma questão em aberto. Mas a introdução ao trabalho mantém que elas sejam de fato trabalho do Papa João. E ela mantém algo posterior bem como João XXIII era um membro secreto da Rosacruz, a qual ele se afiliou enquanto atuava como núncio papal na Turquia em 1935. É desnecessário dizer que esta avaliação soa incrível. Certamente isso não pode ser provado e não encontramos evidência externa que sustente isso. Mas porque, imaginamos, deve uma tal avaliação até mesmo ter sido feita em primeiro lugar? Pode ela ser verdadeira afinal? Pode haver ao menos um grão de verdade nisto? Em 1188 o Priorado de Sião é dito ter adotado o sub-título de ‘Rose-Croix Veritas’. Se o Papa João fosse afiliado a uma organização Rosacruz, e se esta Rosacruz fosse o Priorado de Sião, as implicações seriam extremamente intrigantes. Entre outras coisas elas sugeririam que o Cardeal Roncalli, ao se tornar Papa, escolheu o nome de seu próprio Grão Mestre, de forma que, por alguma razão simbólica, haveria um João XXIII presidindo simultaneamente sobre o Papado e Sião. Em qualquer caso o governo simultaneo de um João XXIII sobre Sião e Roma teria sido uma extraordinária coincidência. Nem podia os Documentos do Priorado divisarem uma tal lista para criar uma tal coincidêcia; uma lista que culminava com João XXIII ao mesmo tempo em que um homem com este título ocupava o trono de São Pedro. Porque a lista dos Grão Mestres tinha sido composta e depositada na Biblioteca Nacional não mais tarde do que 1956, três anos antes de João XXIII se tornar Papa.

Havia uma outra coincidência desconcertante: no século XII um monge irlandês chamado Malaquias compilou uma série de profecias do tipo das de Nostradamos. Nestas profecias, que, incidentalmente, são ditas serem altamente estimadas por muitos católicos romanos importantes, incluindo o papa atual, João Paulo II, Malaquias enumera os pontífices que ocuparação o trono de São Pedro nos séculos a virem. Para cada pontífice ele oferece uma espécie de moto descritivo. E para João XXIII, o moto, traduzido para o francês, é ‘Pasteur et Nautonnier’ – [Pastor e Navegador]. O título oficial do alegado Grão Mestre de Sião é também “Nautonnier”. Seja qual for a verdade subjacente a estas estranhas coincidências, não há dúvida de que mais do que qualquer outro homem o Papa João XXIII foi responsável pela reorientação da Igreja Católica Romana e por traze-la, como tem frequentemente dito seus comentaristas, para o século XX. Muito disso foi realizado por reformas do Segundo Concílio do Vaticano, que João inaugurou. Ao mesmo tempo, contudo, João foi responsável por outras mudanças também. Ele revisou a posição católica sobre a Livre Maçonaria, por exemplo rompendo com ao menos dois séculos de tradição enraizada e pronunciando que um católico pode ser um Maçom Livre. E em junho de 1960 ele emitiu uma carta apostólica extremamente importante. Esta missiva se dirigia especificamente ao assunto do ‘Precioso Sangue de Jesus’. E ela atribuiu um até aqui sem precendentes significado a este sangue. Ela enfatizava o sofrimento de Jesus como um ser humano, e mantinha que a redenção da humanidade tinha sido afetada pelo derramamento do sangue Dele. No contexto da carta do Papa, a paixão humana de Jesus, e o derramamento de seu sangue, assumem uma maior consequência do que a Ressureição ou até mesmo do que a mecânica da Crucificação. As implicações desta carta são ultimamente enormes. Como tem observado um comentador, eles alteram a inteira base da crença cristã. Se a redenção da humanidade foi alcançada pelo derramamento do sangue de Jesus, sua morte e ressureição se tornam incidentais, se não de fato superfluos. Jesus não precisava ter morrido na cruz para que a fé mantivesse sua validade.

A Conspiração Através dos Séculos

Como iriamos sintetizar a evidência que tinhamos acumulado? Muito dela era impressiva e parecia manter o testemunho de algo de algum padrão, algum projeto coerente. A lista dos alegados Grão Mestres do Sião, contudo improvável como originalmente tinha se parecido, agora apresentava algumas consistências interessantes. A maioria das figuras na lista estavam ligadas, por exemplo, ou por sangue ou associação pessoal, com as famílias cujas genealogias figuravam nos Documentos do Priorado e particularmente com a casa de Lorreine. A maioria das figuras na lista estavam envolvidas com ordens de um tipo ou outro, ou com sociedades secretas. Virtualmente todas as figuras na lista, até mesmo quando nominalmente católicas, mantinham crenças religiosas não ortodoxas. Virtualmente todas elas estavam imersas no pensamento e tradição esotéricos. E em quase todos os casos tem havido alguma espécie de contacto íntimo entre um alegado Grão Mestre, seu predecessor e seu sucessor. Não obstante, estas consistências, tão impressivas quanto possam ser, necessariamente não provam algo. Elas não provam, por exemplo, que o Priorado de Sião, cuja existência durante a Idade Média tinha sido confirmada, tivesse realmente continuado a sobreviver pelos séculos subsequentes. Ainda menos elas provam, por exemplo, que indivíduos citados como Grão Mestres realmente mantiveram esta posição. Ainda que nos pareça incrível que alguns deles realmente o tenham feito. Tanto quanto diga respeito a certos indivíduos, a idade na qual eles alegadamente se tornaram Grão Mestres argumenta contra eles. Garantidamente, era possível que Edouard de Bar possa ter sido eleito Grão Mestre aos cinco anos de idade ou que Rene D’Anjou o fosse aos oito anos com base em princípio hereditário. Mas nenhum de tal princípio parece ser obtido para Robert Fludd ou Charles Nodier, que supostamente se tornaram Grão Mestres aos 21 anos, ou para Debussy, que supostamente o fez aos 23.

Tais indivíduos não tiveram tempo para percorrer seu caminho pelos escalões, como alguém pode, por exemplo, na Livre Maçonaria.  Nem eles haviam se tornado solidamente estabelecidos em suas próprias esferas. Esta anomalia não faz qualquer sentido aparente. A menos que se assuma que o Grão Mestrado de Sião fosse frequentemente puramente simbolico, uma posição ritual ocupada por uma figura cabeça que, talvez, não estivesse ciente do status atribuido a ela. Contudo tem se provado fútil especular  ao menos com base na informação que possuimos. Portanto voltamos novamente a história, buscando a evidência do Priorado de Sião em outros lugares, diferentes da lista citada dos alegados Grão Mestres. Lançamos particularmente nossa sorte na casa de Lorreine, e algumas outras famílias citadas nos Documentos. E buscamos evidência adicional para o trabalho de uma sociedade secreta, agindo mais ou menos encobertamente por trás das cenas. Se ela fosse de fato genuinamente secreta, não podiamos, com certeza, esperar encontrar o Priorado de Sião explicitamente mencionado por este nome. Se ela tivesse continuado a funcionar através dos séculos, ela o teria feito sob uma variedade de máscaras e disfarces, frentes e fachadas exatamente como ela supostamente funcionou por um tempo sob o nome de Ormus, o que é descartado. Nem ela teria apresentado uma única e óbvia política específica, posição política ou atitude prevalente. De fato qualquer tal caso coesivo e unificado, até mesmo se visto de relance, teria sido altamente suspeito. Se estamos lidando com uma organização que tem sobrevivido por nove séculos, temos que creditar a ela uma considerável flexibilidade e adaptabilidade. Sua própria sobrevivência deve ter dependido destas qualidades. E sem elas, ela teria degenerado em uma forma vazia, tão vazia de poder real, como, vamos dizer, o  Oficial da Casa Real da Guarda. Em resumo, o Priorado de Sião não pode ter permanecido rígido e imutável por toda sua história. Ao contrário, ele deve ter sido compelido a mudar periodicamente, se modificar e suas atividades, se ajustar e aos seus objetivos, a um mutante caleidoscópio dos assuntos mundiais exatamente como as unidades de cavalaria durante o século passado tem sido compelidas a trocarem seus cavalos por tanques e carros blindados. Nesta capacidade de se corformar a uma dada idade e explorar e dominar sua tecnologia e seus recursos, o Sião teria constituido um paralelo ao que pareceria seu rival exotérico, a Igreja Catolico Romana; ou talvez para citar um exemplo enganosamente sinistro, a organização conhecida como Máfia. Não vemos, com certeza, o Priorado de Sião como vilões não adulterados. Mas a Máfia ao menos forneceu o testemunho de como, ao se adaptar de idade a idade, uma sociedade secreta pode existir, e um tipo de poder que ela pode exercer.

O Priorado de Sião na França

Segundo os Documentos do Priorado, o Sião entre 1306 e 1480 possuia nove membros de comando. Em 1481, quando Rene D’Anjou morreu, este número foi supostamente expandido para 27. Os mais importantes são listados como tendo sido situados em Bouges, Gizors, Jarnac, Mont Saint-Michel, Montreval, Paris, Le Puy, Solesmes e Stenay. E os Dossiês Secretos acrescentam cripticamente, havia ‘um arco chamado Bethanis cas de Anne situada em Rennes-le-Chateau”. Não está precisamente claro o que significa esta passagem, exceto que Rennes-le-Chateau pareceria desfrutar de algum tipo de significado altamente especial. E certamente não pode ser coincidental que Sauniere, ao construir sua vila, então a batizou de Vila Bethania. Segundo os Dossiês Secretos, a jurisdição do comandante em Gizors datou de 1306 e estava situada na Rue de Vienne. De lá isso supostamente se comunicava, por meio de uma passagem subterrânea, com o cemiterio local e com a capela subterrânea de Santa Catarina localizada sob a fortaleza. No século XVI esta capela, ou talvez uma cripta adjacente a ela, é dito ter se tornado um depositório dos arquivos do Priorado de Sião, guardados em trinta cofres. Já em 1944, quando Gizors foi ocupada pelo pessoal alemão, uma missão especial foi enviada de Berlim, com instruções para planejar uma série de excavações sob a fortaleza. A invasão aliada da Normandia impediu tal realização; mas não muito depois, um trabalhador francês chamado Roger Lhomoy embarcou em suas próprias escavações. Em 1946 ele anunciou ao Prefeito de Gizors que ele tinha encontrado uma capela subterrânea contendo nove sarcófagos de pedra e trinta cofres de metal. Sua petição para escavar poteriormente, e tornar pública sua descoberta, foi retardada quase deliberadamente e pode ver por uma oficial fita vermelha. Ao menos, em 1962, Lhomoy começou suas solicitadas escavações em Gizors. Elas foram realizadas sob os auspícios de Andre Malraux, o Ministro francês da Cultura naquele tempo, e não foram oficialmente abertas ao público. Certamente nenhum cofre ou sarcófago foi encontrado. Se a capela subterrânea foi encontrada tem sido debatido na imprensa, bem como em vários livros e artigos. Lhomoy insistiu que ele encontrou novamente seu caminho para a capela, mas seus conteúdos haviam sido removidos. Seja qual for a verdade sobre este assunto, há menção da capela subterrânea de Santa Catarina em dois velhos manuscritos, um datado de 1696 e o outro de 1375. Sobre esta base, a história de Lhomoy se torna ao menos plausível. Assim o faz a avaliação de que a capela subterrânea era um depositório dos arquivos de Sião. Para nós, em nossa própria pesquisa, encontramos prova conclusiva que o Priorado de Sião continuou a existir por ao menos três séculos depois das Cruzadas e da dissolução dos Cavaleiros Templários. Entre o início do século XIV e até o século XVII, por exemplo, os documentos pertinentes a Orleans, e a base em Sião lá em Saint Samson, faz referências esporádicas a Ordem. Então está no registro que no início do século XVI membros do Priorado de Sião em Orleans ao desconsiderar suas ‘regras’ e se recusar ‘a viver em comum’ sendo licensiosos, residindo fora dos muros de Saint-Samson, boicotando os serviços divinos e negligenciando em reconstruir as paredes da casa, que haviam sido seriamente danificadas em 1562. Por 1619 as autoridades pareciam  ter perdido a paciencia. Naquele ano, segundo os registros, o Priorado de Sião foi expluso de Saint- Samson e a casa foi entregue aos Jesuítas. A partir de 1619 não pudemos encontrar referências ao Priorado de Sião, a qualqur nível sob seu nome. Mas se nada mais, podemos ao menos provar sua existência até o século XVII. E ainda que a própria prova, tal como ela era, levantasse um número de questões cruciais.

Em primeiro lugar as referências encontradas não lançam luz sobre quais foram as reais atividades do Sião, seus objetivos e interesses ou possivelmente sua influência. Em segundo lugar, estas referências, parecia, tinham o testemunho somente de algo de consequência insignificante, uma fraternidade curiosamente fugidia de monges ou devotos religiosos cujo comportamento, embora não ortodoxo e talvez clandestino, era relativamente de menor importância. Não pudemos reconciliar os ocupantes aparentemente negligentes de Saint-Samson com os celebrados e legendários Rosacruzes, ou um bando de monges voluntariosos com uma instituição cujos Grão Mestres supostamente compreendiam alguns dos nomes mais ilustres no história e cultura ocidentais. Segundo os Documentos do Priorado, Sião era uma organização de considerável poder e influência, responsável pela criação dos Templários e por manipular o curso dos assuntos internacionais. As referências que encontramos nada sugeriram de uma tal magnitude. Uma explicação possível, com certeza, foi que Saint-Samson em Orleans era apenas um assento isolado, e provavelmente um menor, das atividades de Sião. E de fato a lista das importantes jurisdições de comando nos Dossiês Secretos nem mesmo incluem Orleans. Se Sião era de fato uma força a ser reconhecida, Orleans pode ter sido apenas um pequeno fragmento de um padrão muito mais amplo. E se este foi o caso, teriamos que procurar por traços da Ordem em outros lugares.

Os Duques de Guise e Lorreine

Durante o século XVI a casa de Lorreine e seu ramo cadete, a casa de Guise, fex uma tentativa combinada e determinada de derrubar a dinastia Valois da França e exterminar a linhagem de Valois e reclamar o trono francês. Esta tentativa, em várias ocasiões veio com um alento fino de suprendente sucesso. No curso de alguns trinta anos todos os governantes Valois, herdeiros e príncipes foram dizimados, e a linhagem levada a extinção. A tentativa de se apoderar do trono francês se estendeu através de três gerações de familia dos Guises e Lorraine. Ela chegou mais perto do sucesso nos anos de 1550 e 1560 sob os auspícios de Charles, Cardeal de Lorraine e de seu irmão, François, Duque de Guise. Charles e François eram relacionados a família Gonzaga de Mantua e a Charles de Montpensier, Policial de Bourbon listado nos Dossiês Secretos como Grão Mestre de Sião até 1527. Sobretudo, François, Duque de Lorrraine, tem sido estigmatizado pelos últimos historiadores tão raivosamente e fanáticos católicos, intolerante, brutal e sedento de sangue. Mas há evidência substancial a sugerir que a reputação dele é em alguma extensão não justificada, ao menos quanto diga respeito a aderência ao catolismo. François e seu irmão aparecem, muito patentemente, terem sido acalorados, se não ambiciosos, oportunistas, cortejando tanto católicos quanto protestantes em nome de seu projeto ulterior. Em 1562, por exemplo, no Concílio de Trento, o Cardeal de Lorraine lançou uma tentativa para descentralizar o Papado e conferir autonomia aos bispos locais e restaurar a hierarquia eclesiástica ao que havia sido nos tempos Merovíngios.

Por 1563 François de Guise já era virtualmente o rei quando caiu sob uma bala de um assassino. Seu irmão, o Cardeal de Lorraine, morreu doze anos depois, em 1575. Mas a vingança contra a linhagem real francesa não cessou. Em 1584 o novo Duque de Guise e o novo cardeal de Lorraine embarcaram em um novo assalto contra o trono. Seu principal aliado neste emprendimento era Luis Gonzaga, Duque de Nevers, que, segundo os Documentos do Priorado, tinha se tornado Grão Mestre de Sião nove anos antes. A bandeira dos conspiradores era a cruz de Lorraine, o antigo emblema de Rene D’Anjou. A luta continuou. Pelo fim do século os Valois estavam extintos. Mas a casa de Guise tinha ela própria sangrado até a morte no processo, e não podia apresentar nenhum candidato elegível para um trono que finalmente tinha caído sob suas garras. Simplesmente não é sabido se havia uma sociedade secreta, ou ordem secreta, apoiando as casas de Guise e Lorraine. Certamente eles foram auxiliados por uma rede internacional de emissários, embaixadores, assasinos, agentes provocadores, espiões e agentes que podem muito bem ter compreendido uma tal instituição clandestina. Segundo Gerard de We, um desses agentes era Nostradamus que de fato era um agente secreto trabalhando para François de Guise e Charles, Cardeal de Lorraine.  Se Nostradamus era um agente para as casas de Guise e Lorraine, ele pode ter sido responsável por fornecer a elas importante informação concernente as atividades e planos de seus adversários, mas ele também, em sua capacidade de astrólogo da côrte francesa, teria sido familiarizado de todas as maneira com os segredos íntimos, bem como costumes diferentes e fraquezas de personalidade. Ao jogar com as vulnerabilidades com as quais ele se tornou familiriarizado, ele pode ter manipulado psicologicamente os Valois nas mãos de seus inimigos. E em virtude de sua familiaridade com os horóscopos deles, ele pode muito bem ter avisado aos inimigos deles sobre, vamos dizer, um momento aparentemente propício para assassinato. Muitas das profecias de Nostradamus, em resumo, podem não terem afinal profecias. Elas podem ter sido mensagens crípticas, cifras, programações, tabelas de tempo, instruções, projetos para ação. Se este realmente foi ou não o caso, não há dúvida de que algumas profecias de Nostradamus não eram profecias, mas se referiam, muito explicitamente, ao passado dos Cavaleiros Templários, a dinastia Merovíngia, a história da casa de Lorraine. Um número desconcertante delas se refere aos Razes, o velho Conde de Rennes-le-Chateau. E númerosas quartilhas se referem ao advento de um ‘Grande Monarca’. O Grande Monarca indica que este soberano derivará ultimamente de Languedoc. Nossa pesquisa revelou um fragmento adicional que ligava Nostradamus ainda mais diretamente a nossa investigação. Segundo Gerard de Sede, bem como a história popular, Nostradamus, antes de embarcar em sua carreira como profeta, passou um tempo considerável em Lorraine. Isto pareceria ser algum tipo de noviciado, ou período de provação, depois do qual ele teria sido supostamente iniciado em algum segredo portentoso. Mais especificamente ele é dito ter sido apresentado a um livro antigo e arcano, sobre o qual ele baseou todo seu trabalho subsequente. E este livro foi reportadamente divulgado a ele em um lugar muito importante na misteriosa Abadia de Orval, doado pela mãe adotiva de Godfroi de Bouillon, onde nossa pesquisa sugeriu que o Priorado de Sião pode ter tido o seu início. Em qualquer caso, Orval continuou, por outros dois séculos, a ser associado ao nome de Nostradamus. Tão tarde quanto durante a Revolução Francesa e a era Napoleônica os livros de profecias, supostamente de autoria de Nostradamus, eram emitidos de Orval.

O Lance pelo Trono da França

Por meados dos anos de 1620 o trono da França foi ocupado por Luis XIII. Mas o poder por trás do trono, e o real arquiteto da política francesa, era o primeiro ministro do rei, o Cardeal Richelieu. Richelieu é geralmente reconhecido por ter sido super maquiavélico, o supremo maquinador de sua era. Ele pode também ter sido algo mais. Conquanto Richelieu estabelecesse uma estabilidade sem precedentes na França, o resto da Europa e especialmente a Alemanha se inflamavam nos sofrimentos da Guerra dos Trinta Anos. Em suas origens, a Guerra dos Trinta Anos não era essencialmente religiosa. Não obstante, ela rapidamente se tornou polarizada em termos religiosos. Por um lado estavam as forças resolutamente católicas da Espanha e da Áustria.  Por outro lado estavam os exércitos protestantes da Suécia e de pequenas principalidades alemãs – incluindo o Palatinado do Reno, cujos regentes, o Eleitor Frederico e sua esposa Elizabeth Stuart estavam no exílio em Haia. Frederico e seus aliados de campo eram endossados e apoiados pelos pensadores e escritores rosacrucianos do continente e da Inglaterra. Em 163 o Cardeal Richelieu embarcou em uma política audaciosa e aparentemente incrível. Ele levou a França para a Guerra dos Trinta Anos mas não do lado que se poderia esperar. Para Richelieu, um número de considerações tomaram precedência sobre suas obrigações religiosas como Cardeal. Ele buscava estabelecer a supremacia da França na Europa. Ele buscava neutralizar a perpétua e tradicional ameaça oferida à segurança francesa pela Áustria e a Espanha. Ele buscava abalar a hegemonia espanhola que havia sido obtida por mais de um século especialmente no velho coração da terra Merovíngia dos Países Baixos e partes da moderna Lorraine. Como resultado destes fatores, a Europa foi tomada de surpresa pela ação sem precedentes de um Cardeal católico, presidindo um país católico, despachando tropas católicas para combater com os protestantes contra outros católicos. Nenhum historiador tem até mesmo sugerido que Richelieu fosse um rosacruciano. Mas ele não podia possivelmente ter feito algo mais do que manter atitudes rosacrucianas, ou mais provavelmente ganhar o favor rosacruciano. Neste meio tempo a casa de Lorraine tinha novamente começado a aspirar, embora obliquamente, o trono francês. Desta vez o reclamante era Gaston D’Orleans, o irmão mais jovem de Luis XIII. Gaston não era ele próprio da casa de Lorraine. Em 1632, contudo, ele havia se casado com a irmã do Duque de Lorraine. Seu herdeiro portanto teria o sangue de Lorraine pelo lado materno; e se Gaston subisse ao trono Lorraine presidiria a França na próxima geração. Esta perspectiva era suficiente para mobilizar apoio. Entre estes avaliados apoiadores dos direitos de sucessão de Gaston encontramos um individuo que já haviamos encontrado antes de Charles, o Duque de Guise. Charles tinha sido tutelado pelo jovem Robert Fludd. E ele havia se casado com Henriette Catarine de Joueeuse, proprietária de Couiza e Arques – onde a tumba identica aquela da pintura de Poussin foi encontrada.

Tentativas para depor Luis em favor de Gaston fracassaram, mas o tempo parecia estar do lado de Gaston; ou ao menos do lado dos herdeiros de Gaston, porque Luis XIII e sua esposa Anne da Áustria permaneciam sem herdeiros. Já existiam rumores em circulação que o rei era homossexual ou sexualmente incapacitado; e de fato, segundo certos relatos a seguir sua subsequente autópsia, ele foi pronunciado incapaz de gerar filhos. Mas então, em 1638, depois de 23 anos de casamento consideradamente estéril, Anne da Áustria subitamente teve um filho. Poucas pessoas naquele tempo acreditaram na legitimidade do  menino, e ainda há considerável dúvida quanto a isso. Segundo autores contemporaneos e posteriores, o pai do menino era o Cardeal Richelieu, ou talvez alguém empregado por Richelieu, muito possivelmente seu protegido e sucessor Cardeal Mazarin. Foi até mesmo afirmado que depois da morte de Luis XIII Mazarin a Anne se casaram secretamente. Em qualquer caso, o nascimento do herdeiro de Luis XIII foi uma séria explosão nas esperanças de Gaston d’Orleans e da casa de Lorraine. E quando Luis e Richelieu morreram em 1642, a primeira de uma série de tentativas concertadas foi lançada para expulsar Mazarin e tirar o jovem Luis XIV do trono. Estas tentativas, que começaram como levantes populares, culminaram em uma guerra civil que irrompeu intermitentemente por dez anos. Para os historiadores, a guerra é conhecida como Fronde. Além de Gaston D’Orleans, seus instigadores principais incluem um número de nomes, famílias e títulos que já nos são familiares. Houve Frederic-Maurice de la Tour dAuvergne, Duque de Bouillon. Houve o Visconde de Turenne. Houve o Duque de Longueville – neto de Luis Gonzaga, Duque de Nevers, e alegado Grão Mestre de Sião meio século antes.  A sede e capital dos ‘frondeurs’ era, muito significativamente, a antiga cidade das Ardenas de Stenay.

A Companhia do Santo Sacramento

Segundo os Documentos do Priorado, o Priorado de Sião, durante meados do século XVII, se dedicou a depor Mazarin. Muito claramente isso pareceria não ter sido bem sucedido. A Fronde fracassou, Luis XIV ascendeu ao trono da França e Mazarin, emboras brevemente removido, foi rapidamente reinstalado, presidindo como primeiro ministro até sua morte em 1660. Mas se Sião de fato se devotou a depor Mazarin, ao menos temos algum vetor para isso, alguns meios de localizar e verificar isso. Dado as famílias envolvidas no Fronde, famílias cujas genealogias figuram nos Documentos do Priorado, pareceu razoável associar Sião aos instigadores do tumulto. Os Documentos do Priorado tem avaliado que Sião se opunha ativamente a Mazarin. Eles também avaliaram que certas famílias e títulos – Lorraine, por exemplo, Gonzaga, Nevers, Guise, Longueville e Bouillon não tinham sido apenas abertamente ligadas a Ordem, mas também forneceram a ela alguns de seus Grão Mestres. E a história confirmou que foram estes nomes e títulos que tinham se esgueirado na linha de frente da resistência ao Cardeal. Assim parece que haviamos localizado o Priorado de Sião, e que tinhamos identificado ao menos alguns de seus membros. Se estivesssemos certos, Sião durante o período em questão, ao mesmo a qualquer nível, foi um outro nome para um movimento e uma conspiração que a muito os historiadores tem reconhecido e identificado. Mas se os ‘freudeurs’ constituem um enclave de oposição a Mazarin, eles não eram os únicos de tais enclaves. Havia outros também, enclaves entrelaçados que funcionavam não apenas durante o Fronde mas muito depois. Os Documentos do Priorado, eles próprios, se referem repetida e insistentemente a Companhia do Santo Sacramento. Eles implicam, muito claramente, que a Companhia era de fato Sião, ou uma fachada para Sião, operando sob um outro nome. E certamente a Companhia em suas estruturas, organização, atividade e modos de operação se conformavam a imagem que haviamos começado a formar de Sião. A Companhia do Santo Sacramento era uma sociedade secreta altamente organizada e eficiente. Não há questionamento disso ser fictício. Ao contrário, sua existência tem sido reconhecida por seus contemporaneos, bem como pelos historiadores subsequentes. Ela tem sido exaustivamente documentada, e numerosos livros e artigos tem sido devotados a ela. Seu nome é bastante familiar na França, e continua a desfrutar de uma certa mística atual.

Alguns de seus papéis tem até mesmo vindo a luz. A Companhia é dito ter sido fundada, entre 1627 e 1629, por um nobre associado a Gaston d’Orleans. Os indivíduos que guiaram e formaram sua política permaneceram escrupulosamente anônimos, contudo, e ainda hoje o são. Os únicos nomes definitivamente asociados a ela são aqueles de membros de baixo escalão ou intermediários de sua hierarquia de ‘homens de frente’, por assim dizer, que agiam sob instruções dos acima. Um desses era o irmão da Duquesa de Longueville. Um  outro era Charles Fouquet, irmão do Superintendente de Finanças de Luis XIV. E havia um tio do filósofo Fenelon que, meio século mais tarde, exerceu uma profunda influência na Livre Maçonaria como Cavaleiro Ramsay. Entre estes mais proeminentemente associados a Companhia estava a figura misteriosa agora conhecida como São Vicente de Paulo, e Nicolas Pavillon, bispo de Alet, o centro a poucas milhas de Rennes-le-Chateau, e Jean Jacques Olier, fundador do Seminário de São Suspílcio. De fato São Suspílcio é reconhecido agora geralmente ter sido o centro de operações da Companhia. Em suas organizações e atividades, a Companhia ecoava a Ordem do Templo e prefigurava a posterior Maçonaria Livre. Trabalhando de São Suspílcio, ela estabeleceu uma rede intrincada de ramos e capítulos provinciais. Os membros provinciais permaneceram ignorantes da identidade de seus diretores. Eles eram frequentemente manipulados em benefício de objetivos que eles próprios não partilhavam. Eles eram até mesmo proibidos de contactar uns aos outros exceto via Paris, assim assegurando um controle altamente centralizado. E até mesmo em Paris os arquitetos da sociedade permaneciam desconhecidos daqueles que obedientemente os serviam.  Em resumo, a Companhia compreendia uma organização em cabeça de hidra com um coração invisível. Até hoje não é sabido o que constituia o coração. Nem quem o constituia. Mas é sabido que o coração bate de acordo com algum segredo velado e poderoso. Narrativas contemporaneas referem-se expecificamente ao ‘segredo que está no núcleo da companhia’. Segundo um dos estatutos da sociedade, descoberto não muito depois, ‘o canal primário que forma o espírito da Companhia, e que é essencial a ela, é o segredo’. Até onde diga respeito aos membros noviços não iniciados, a Companhia era ostensivamente devotada ao trabalho caritativo, especialmente em regiões devastadas pelas Guerras de Religião e subsequentemente o Fronde na Picardia, por exemplo, Champagne e Lorraine.

Agora é geralmente aceito, contudo, que este ‘trabalho caritativo’ era meramente uma fachada conveniente e engenhosa, que tinha pouco a ver com a razão de ser da Companhia. A real razão de ser era duplamente se engajar no que era chamado de ‘pia espionagem’, reunir ‘informação de inteligência’, e infiltrar os ofícios mais importantes na terra, incluindo os círculos em proximidade direta ao trono. Nestes objetivos a Companhia parece ter desfrutado um notável sucesso. Como membro do real ‘Conselho de Consciência’, por exemplo, Vicente de Paulo se tornou confessor de Luis XIII. Ele também foi um íntimo conselheiro de Luis XIV até que sua oposição a Mazarin o forçou a abdicar de sua posição. E a Rainha Mãe, Anne da Áustria, foi, em muitos aspectos, um peão infeliz da Companhia, que por um tempo gerenciou a qualquer nível volta-la contra Mazarin. Mas a Companhia não se confinou exclusivamente ao trono. Em meados do século XVII ela podia manter o poder sobre a aristocracia, o parlamento, o judiciário e a polícia – tanto assim, que em várias ocasiões estes corpos abertamente ousaram desafiar o rei. Em nossas pesquisas não encontramos historiadores, escrevendo seja na época ou mais recentemente, que explicassem adequadamente a Companhia do Santo Sacramento. A maioria das autoridades a apresentam como uma organização militante arqui católica, um bastião rigidamente entrincheirado e ortodoxamente fanático. As mesmas autoridades afirmam que ela se devotava a remover os heréticos. Mas porque, em um país devotamente católico, deve uma tal organização ter vindo a funcionar com tal estrito segredo? E quem constituia um herético naquele tempo? Os Protestantes? os Jansenistas? De fato havia inúmeros protestantes e jansenistas dentro das fileiras da Companhia. Se a Companhia era piamente católica, ela devia, na teoria, ter endossado o Cardeal Mazarin, que, afinal, incorporava os interesses católicos naquele tempo. Ainda que a Companhia militantemente se opusesse ao Cardeal e tanto que Mazarin, perdendo toda sua tempera, jurou empregar todos os seus recursos para destrui-la. E o que é mais, a Companhia provocou a vigorosa hostilidade em outras partes convencionais também.

Os Jesuítas, por exemplo, assiduamente faziam campanha contra ela. Outras autoridades católicas acusavam a Companhia de ‘heresia’, a própria coisa que a Companhia  propôs se opor. Em 1651 o bispo de Toulouse acusou a Companhia de ‘práticas ímpias’ e apontou algo altamente irregular em suas cerimônias – um eco curioso das acusações levantadas contra os Templários. Ele até mesmo ameaçou os membros da sociedade com a excomunhão. A maioria deles acaloradamente desafiava esta ameaça com uma resposta extremamente singular aos supostamente pios católicos. A Companhia havia sido sido formada quando o furor rosacruciano ainda estava em seu zênite. A ‘fraternidade invisível’ era acreditada estar em todos os lugares, omnipresente e isto gerou não apenas pânico e paranóia mas também a inevitável ‘caça às bruxas’. E ainda que nem mesmo um traço tenha sido encontrado de um rosacruciano carregando os cartões em qualquer lugar, ao menos em toda França católica. Até onde diga respeito a França, os rosacrucianos permaneceram invenções de uma imaginação popular alarmista. Ou eles existiram? Se houve de fato interesses ‘rosacrucianos’ determinados a estabelecer um apoio para os pés na França, que melhor fachada poderia ser que uma organização dedicada a caçar rosacrucianos? Em resumo, os rosacrucianos podem ter levado adiante seus objetivos, e ganhado um acompanhamento na França, ao se passar por seu próprio arqui inimigo. A Companhia bem sucedidamente desafiou Mazarin e Luis XIV. Em 1660, menos de um ano antes da morte de Mazarin, o rei pronunciou-se oficialmente contra a Companhia e ordenou sua dissolução. Pelos próximos cinco anos a Companhia desdenhosamente ignorou o édito real. Ao menos, em 1665, ela concluiu que não podia continuar a operar em sua ‘presente forma’. Concomitantemente todos os documentos pertinentes a sociedade foram reconvocados e escondidos em algum depositório secreto em Paris. Este depositório nunca foi localizado embora geralmente seja acreditado ter sido em São Suspílcio. Se assim o foi, os arquivos da Companhia teriam sido disponíveis, mais do que dois séculos mais tarde, para homens como o Abade Emile Hoffet. Mas embora a Companhia deixasse de existir no que era então sua ‘presente forma’, não menos ela continuou a operar ao menos até o início do século seguinte, ainda constituindo um espinho no quadril de Luis XIV.

Segundo tradições não confirmadas ela sobreviveu bem para dentro do século XX. Se esta última avaliação é verdadeira ou não, não há dúvida de que a Companhia sobreviveu a sua suposta dissolução em 1665. Em 1667 Moliere, um leal aderente de Luis XIV, atacou a Companhia por certas veladas mas agudas alusões em ‘Le Tartuffe’. A despeito de sua aparente extinção, a Companhia retaliou ao ter a peça suprimida e a guardando por dois anos, a despeito do patrocínio real de Moliere. E a Companhia parece ter empregado seu próprio portavoz literário também. É murmurado, por exemplo, ter incluido La Rochefoucauld que certamente foi ativo no Fronde. Segundo Gerard de Sede, La Fontaine também era um membro da Companhia, e suas fábulas encantadoras e ostensivamente inócuas eram de fato ataques alegoricos ao trono. Isto não é inconcebível. Luis XIV  desgostava intensamente de La Fontaine, e ativamente se opôs a sua admissão na Academia Francesa. E os patronos e patrocinadores de La Fointaine incluiam o Duque de Guise, o Duque de Bouillon e o Visconde de Turenne e a viúva de  Gaston d’Orleans. Na Companhia do Santo Sacramento assim encontramos uma real sociedade secreta, muitas das quais a história estava a registro. Ela era ostensivamente católica, mas não obstante ligada a atividades distintamente não católicas. Ela era intimamente associada com certas famílias aristocráticas que tinham sido ativas no Fronde e cujas genealogias figuravam nos Documentos do Priorado. Ela estava estreitamente ligada a São Suspílcio. Ela trabalhava primariamente pela infiltração e veio a exercer enorme influência. E ela era ativamente oposta ao Cardeal Mazarin. Em todos estes aspectos, ela se conformava quase que perfeitamente a imagem do Priorado de Sião como apresentada nos Documentos do Priorado. Se Sião de fato estava ativo durante o século XVII, podemos assumir razoavelmente que ele tenha sido sinônimo da Companhia. Ou talvez com o poder por trás da Companhia.

Castelo Barberie

Segundo os Documentos do Priorado, a oposição de Sião a Mazarin provocou a amarga retribuição do Cardeal. Entre as principais vítimas desta retribuição é dito ter estado a família Plantard, descendentes lineares de Dagoberto II e da dinastia Merovíngia. Em 1548, afirmam os documentos do Priorado, Jean des Plantard tinha se casado com Marie de Saint-Clair assim fabricando um outro link entre a sua famíla e aquela de Saint-Clair/Gizors. Por aquele tempo também, a família Plantard estava supostamente estabelecida em um certo  Chateau Barberie perto de Nevers, na região Nivernais da França. Este castelo supostamente constituia a residência oficial da família Plantard pelo século seguinte. Então, em 11 de julho de 1659, segundo os Documentos do Priorado, Mazarin ordenou o arrasamento e a destruição total do castelo. Na conflagração que se seguiu, é dito que a família Plantard perdeu todas as suas posses. Nenhum livro convencional ou estabelecido de história, nem a biografia de Mazarin, confirmaram estas avaliações. Nossas pesquisas não encontraram menção seja ela qual fosse a uma família Plantard em Nivernais, ou, de início, a qualquer Castelo Barberie. E ainda que Mazarin, por alguma razão não especificada, cobiçasse Nivernais e invejassse o Duque de Nevers. Eventualmente ele conseguiu comprar deles e o contrato é assinado em 11 de julho de 1659, o mesmo dia no qual é dito que o Castelo Barberie foi destruido. Isto nos provocou investigar o assunto posteriormente. Eventualmente exumamos uns poucos fragmentos esparsos de evidência. Eles não eram suficientes para explicar as coisas, mas eles atestaram a veracidade dos Documentos do Priorado. Em uma compilação, datada de 1506, de propriedades e bens em Nivernais é mencionado um Barberie. Uma carta de direitos de 1575 mencionou um  pequeno vilarejo em Nivernais chamado Les Plantards. Mais convincente de todos, ele transpirava a existência de um Castelo Barberie que de fato tinha sido estabelecido. Durante 1874-5 membros da Sociedade de Letras, Ciências e Artes de Nevers realizaram uma escavação exploratória no sítio de certas ruínas. Foi um empreendimento difícil, porque as ruínas estavam quase irreconhecíveis como tais, as pedras haviam sido vitrificadas pelo fogo e o próprio sítio foi espessamente encoberto por árvores. Eventualmente, contudo, remanescentes de uma parde de torre e de um castelo foram descobertos. Este sítio agora é reconhecido ter sido Barberie.

Antes de sua destruição ele aparentemente consistia de um pequeno centro fortificado e um castelo. E está dentro de uma pequena distância do pequeno vilarejo de Les Plantards, e não há razão para não ter sido possuído por um família deste nome. O fato curioso é que não há registro de quando o castelo foi desrtuído, nem por quem. Se Mazarin foi o responsável, ele parece ter tido extraordinárias dores para erradicar todos os traços de sua ação. De fato pareceu ter sido uma tentativa metódica e sistemática de dizimar o Castelo Barberie do mapa e da história. Porque embarcar em um tal processo de obliteração, a menos que haja algo a esconder?

Nicolas Fouquet

Mazarin tinha outros inimigos além dos ‘frondeurs’ e da Companhia do Santo Sacramento. Entre os mais poderosos deles estava  Nicolas Fouquet, que em 1653, tinha se tornado Superintendente das Finanças de Luis XIV. Um homem dotado, ambicioso e precoce, Fouquet, dentro dos próximos poucos anos, tiha se tornado o mais rico e mais poderoso indivíduo no reino. Ele as vezes era chamado de ‘o verdadeiro rei da França’. E ele não era sem aspirações políticas. Era murmurado que ele pretendia fazer da Britania um ducado independente e ele próprio seu duque presidente. A mãe de Fouquet era um membro proeminente da Companhia do Santo Sacramento. E assim o era seu irmão Charles, Arcebispo de Narbonne no Languedoc. Seu irmão mais novo, Luis, também era um eclesiástico. Em 1656 Nicolas Fouquet despachou Luis para Roma, por razões – não necessariamente misteriosas – nunca explicadas.  De Roma, Luis escreveu uma carta enigmática citada anteriormente que fala de um encontro com Poussin e um segredo ‘que até mesmo os reis teriam grandes dores para tirar dele”. E de fato, se Luis foi indiscreto na correspondência, Poussin nada deu seja o que fosse. Seu selo pessoal tinha o moto ‘Tenet Confidentiam’.

Em 1661 Luis XIV ordenou a prisão de Nicolas Fouquet. As acusações eram estremamente gerais e nebulosas. Havia acusações vagas de mal versação de fundos e outras, até mesmo mais vagas, de sedição. Com base nestas acusações todas as propriedades de Fouquet foram colocadas sob sequestro real. Mas o rei proibiu seus oficiais de tocar nos papéis de correspondência do Superintendente. Ele insistiu em mergulhar e esmiuçar estes documentos pessoalmente e em particular. O seguinte julgamento se arrastou por quatro anos e se tornou uma sensação na França daquele tempo, violentamente partindo e polarizando a opinião pública. Luis Fouquet que havia se encontrado com Poussin e escrito a carta de Roma estava morto então. Mas a mãe do Superintendente e o irmão sobrevivente mobilizaram a Companhia do Santo Sacramento, cuja afiliação também incluia um dos juízes presidentes. A Companhia lançou todo seu apoio por trás do Superintendente, trabalhando ativamente pelas cortes e na mente popular. Luis XIV que não era sedento de sangue exigia nada menos do que uma sentença de morte. Recusando-se a ser intimidada por ele, a corte aprovou uma sentença de banimento perpétuo. Ainda exigindo a morte, o rei enraivecido removeu os juízes recalcitrantes e os substituiu por outros mais obedientes, mas a Companhia ainda parecia te-lo desafiado. Eventualmente, em 1665, Fouquet foi sentenciado a prisão perpétua. Por ordens do rei ele era mantido em um rigoroso isolamento. Ele foi proibido de escrever e de todos os meios pelos quais ele podia se comunicar com alguém. E qualquer soldado que alegadamente conversasse com ele era destinado as navios de prisão ou, em alguns casos, enforcado. Em 1665, o ano da prisão de Fouquet, Poussin morreu em Roma. Durante os anos que se seguiram Lus XIV persistentemente se comportou por meio de seus agentes para obter a pintura única dos “Pastores da Arcadia”. Em 1685 ele finalmente o conseguiu. Mas a pintura não foi mostrada ou exibida nem mesmo na residência real. Ao contrário, ela foi sequestrada nos apartamentos particulares do rei, onde ninguém podia ve-la sem a autoridade pessoal do monarca. Há uma nota de rodapé na história de Fouquet, para sua própria desgraça, seja qual for suas causas e magnitude, ele nunca foi visitado por seus filhos.

Em meados do século seguinte o neto de Fouquet, o Marquês de Belle-Isle, tinha se tornado, de fato, o único homem mais importante na França. Em 1718 o Marquês de Belle-Isle cedeu a própria Belle-Isle, uma ilha fortificda fora da costa de Breton para a coroa. Em troca ele recebeu certos territórios interessantes. Um deles foi Longueville, cujos antigos duques e duquesas tinham figurado recorrentemente em nossa investigação. E um outro foi Gizors. Em 1718 o Marquês de Belle-Isle tornou-se Conde de Gizors. Em 1742 ele se tornou Duque de Gizors. E em 1748 Gizors foi elevada ao status de primeiro ducado.

Nicolas Poussin

O próprio Poussin nasceu em 1594 em um pequeno centro chamado Les Andelys – a umas poucas milhas, descobrimos, de Gizors. Como um jovem homem ele deixou a França e estabeleceu residência em Roma, onde passou a duração de sua vida, voltando apenas uma vez ao seu país natal. Ele voltou a França na década de 1640 a pedido do Cardeal Richelieu, que o havia convidado a realizar uma específica comissão. Embora ele não fosse ativamente envolvido em política, e poucos historiadores tem tocado em seus interesses politicos, Poussin era de fato estreitamente associado ao Fronde. Ele não deixou seu refúgio em Roma. Mas sua correspondência do período o revela tendo estado profundamente envolvido no movimento anti-Mazarin, e em termos surpreendentemente familiares com um número de ‘frondeours’ influentes tanto que, de fato, ao falar deles, ele repetidamente usou o pronome nós. E assim claramente se implicando. Nós já tinhamos traçado os motivos da corrente subterrânea de Alfeu, da Arcadia e dos Pastores da Arcadia, até Rene D’Anjou.  Agora buscamos encontrar um antecedente para a frase específica na pintura de Poussin: “ET ARCADIA EGO’. Ela apareceu em uma pintura anterior de Poussin, na qual a tumba é sobreposta por um cranio e não constitui um edifício ela mesma, mas está embebida do lado de um penhasco. No fundo desta pintura repousa uma deidade aquária barbada em uma atitude de melancolia pensativa  o rio deus Alfeu, senhor da corrente subterrânea. O trabalho data de 1630 ou 1635, cinco ou dez anos antes da versão mais familiar dos ‘Pastores da Arcadia’. A frase ‘ET ARCADIA EGO’ fez seu aparecimento público entre 1618 e 1623 em uma pintura de Giovanni Francesco Guercino – uma pintura que constitui a base real para o trabalho de Poussin. Na pintura de Guercino, dois pastores, entrando em clareira na floresta, tem apenas dado com sepulcro de pedra. Ele tem a inscrição agora famosa, e há um grande cranio repousando no topo dele. Seja qual for o significado simbólico deste trabalho, o próprio Guercino levantou um número de questões. Não apenas ele era bem versado na tradição esotérica. Ele também parece ter sido um conhecedor da história das sociedades secretas, e algumas outras de suas pinturas lidam com temas de um caráter especificamente maçonico, uns bons vinte anos antes que as lojas começassem a proliferar na Inglaterra e na Escócia. Uma pintura, ‘O Elevar-se do Mestre’ pertence expicitamente a história maçonica de Hiram Abiff, arquiteto e construtor do Templo de Salomão. Ela foi executada quase um século antes que a história de Hiram seja geralmente acreditada e encontre seu caminho na maçonaria. Nos Documentos do Priorado, ‘ET ARCADIA EGO’ é dito ter sido o instrumento oficial da família Plantard desde ao menos o século XII, quando Jean des Plantard se casou com Idoine de Gizors. Segundo uma fonte citada nos Documentos do Priorado, é citado como tal já em 1210 por um Robert, Abade de Mont Saint Michel. Não fomos capazes de obter acesso aos arquivos de Mont Saint Michel e assim não pudemos verificar esta afirmação. Contudo, nossa pesquisa nos convenceu, que a data de 1210 era demostravelmente errada. Como questão de fato, não havia um abade em Mont Saint Michel chamado Robert em 1210. Por outro lado, um Robert de Torigny foi de fato abade de Mont Saint Michel entre 1154 e 1186. E Robert de Tourigny é conhecido ter sido um historiador prolífico e assíduo cujos hobies incluiam colecionar motos, instrumentos, brasões e cotas de armas das famílias nobres pela cristandade. Seja qual for a origem da frase, ‘ET ARCADIA EGO’ parece, para Guercino e Poussin, ter mais do que uma linha de poesia elegíaca. Muito claramente isto parece ter desfrutado de algum significado de importancia secreta, que era reconhecível ou identificável para certas outras pessoas; o equivalente, em resumo, de um sinal ou senha maçonica.

É precisamente em tais termos que uma declaração nos Documentos do Priorado define o caráter da arte simbólica ou alegórica; os trabalhos alegóricos tem esta vantagem, que uma única palavra seja suficiente para iluminar ligações que a multidão não pode alcançar. Tais trabalhos estão disponíveis a todos,  mas seu significado se dirige a uma elite. Acima e além das massas, o remetente e o destinatário entendem um ao outro. O sucesso inexplicável de certos trabalhos deriva de sua qualidade de alegoria, que constitui não uma mera moda, mas uma forma de comunicação esotérica. Neste contexto, esta declaração foi dada em relação a Poussin. Como tem demonstrado Frances Yates, contudo, ela pode igualmente ser bem aplicada aos trabalhos de Leonardo, Botticelli e outros artistas da Renascença. Ela também pode ser aplicada a figuras posteriores para Nodier, Hugo, Debussy, Cocteau e seus círculos respectivos.

A Capela Rosslynn e  Shugborough Hall

Em nossa pesquisa prévia temos encontrado um número de importantes ligações entre os alegados Grão Mestres de Sião dos séculos XVII e XVIII e a Livre Maçonaria européia. No curso do nosso estudo da Livre Maçonaria descobrimos certas outras ligações também. Estas ligações adicionais não se relacionam aos alegados Grão Mestres como tais, mas elas se relacionam a outros aspectos de nossa investigação, Então, por exemplo, encontramos repetidas referências a família Sinclair, o ramo escocês da família normanda de Saint-Clair/Gizors. O domínio deles em Rosslynn ficava a apenas umas poucas milhas da antiga sede escocesa dos Cavaleiros Templários, e a capela de Rosslynn construída entre 1446 e 1486 a muito tem sido associada a Livre Maçonaria e a Rosacruz. Em uma carta de direitos acreditada datar de 1601, sobretudo, os Sinclairs são reconhecidos como Grão Mestres hereditários da Maçonaria Escocesa. Este é o mais inicial documento específicamente maçonico a registro.

Segundo fontes maçonicas, contudo, o Grão Mestrado hereditário foi conferido aos Sinclairs por James II, que governou entre 1437 e 1469 na era de Rene D’Anjou. Uma peça ainda mais misteriosa de nosso quebra-cabeças também apareceu na Bretanha desta vez em Staffordshire, que tinha sido um leito quente para a atividade maçonica em meados do século XVII. Quando Charles Radcliffe, alegado Grão Mestre de Sião, escapou da Prisão Newgate em 1714, ele foi ajudado por seu primo, o Conde de Lichfield. Mais tarde no  século a linhagem do Conde de Lichfield tornou-se extinta e seu título se interrompeu. Ele foi comprado no início do século XIX pelos descendentes da família Anson, que são os atuais Condes de Lichfield. O assento dos atuais Condes de Lichfield é Shugborough Hall em Staffordshire. Antigamente uma residência de um bispo, Shugborough foi comprado pela família Anson em 1697. Durante o século seguinte ele foi a residência do irmão de George Anson, o famoso almirante que circumnavegou o globo. Quando George Anson morreu em 1762, um poema elegíaco foi lido alto no Parlamento. Em uma estancia deste poema se lê: “Sobre este mármore celebre lance seu olho. A cena exige uma visão moralisante. E em Arcadia plana o abençoado Elísio, entre ninfas sorridentes e cisnes esportivos, Veja alegria festiva se acalmar, com graça enternecida, E a piedosa visita de uma face meio sorrindo; Onde agora a dança, o luto, a festa nupcial, A paixão palpitando no peito do amante, o emblema da vida aqui, na juventude e florescer vernal, Mas o dedo da razão aponta para a tumba.’  Esta seria uma alusão explícita a pintura de Poussin e a inscrição ‘et arcadia ego’ exatamente no ‘dedo apontando para a tumba’. E nos solos de Shugborough há um mármore imponente que tem um relevo executado a mando da família Anson entre 1761 e 1767. Este relevo compreende uma versão invertida, a modo de espelho, da pintura “Os Pastores da Arcadia” de Poussin e imediatamente abaixo dele está uma inscrição enigmática, uma que nunca tem sido decifrada satisfatoriamente:  O.U.O3N.ANN. DM

A Carta Secreta do Papa

Em 1738 o Papa Clemente XII emitiu uma Bula Papal condenando e excomungando todos os Maçons Livres, que ele pronunciou ‘inimigos da Igreja Romana’. Nunca tem sido claro porque eles devessem ter sido vistos como tais especialmente já que muitos deles, como os Jacobitas eram católicos. Talvez o Papa estivesse ciente da ligação que tinhamos descoberto entre os maçons iniciais e os ‘rosacrucianos’ anti-romanos do século XVII. Em qualquer caso, alguma luz pode ser lançada sobre o assunto pr uma carta liberada e publicada pela primeira vez em 1962. Esta carta tinha sido escrita pelo Papa Clemente XII e dirigida a um correspondente desconhecido. Em seu texto o papa declara que o pensamento maçonico repousa em uma heresia que temos encontrado repetidamente antes da negativa da divindade de Jesus. E ele posteriormente avalia que os espíritos guias, as ‘mentes mestras’ por trás da Livre Maçonaria são os mesmas que provocaram a Reforma Luterana. O papa pode muito bem ter sido paranóide; mas é importante notar que ele não está falando de nebulosas correntes de pensamento ou vagas tradições. Ao contrário,ele está falando de um grupo altamente organizado de indivíduos, uma seita, uma ordem, uma sociedade secreta que, através das idades, tem se dedicado a subverter o edifício da cristandade católica.

A Rocha de Sião

No século XVIII, quando diferentes sistemas maçonicos estavam proliferando selvagemente, o chamado Rito Oriental de Mênfis fez seu aparecimento. Neste rito o nome Ormus ocorreu, para nosso conhecimento, pela primeira vez, o nome alegadamente adotado pelo Priorado de Sião entre 1188 e 1307. Segundo o Rito Oriental de Mênfis, Ormus era um sábio egípcio que, por volta de 46, amalgamou os mistérios cristãos e pagãos e, ao fazer isso, fundou a Rosacruz. Em outros ritos maçonicos do século XVIII aparecem repetidas referências a ‘Rocha de Sião’. A mesma ‘Rocha de Sião’ que, nos Documentos do Priorado, tornou  a ‘tradição real’ estabelecida por Godfroi de Bouillon e Bauduino de Bouillon ‘igual’ a qualquer outra dinastia governante na Europa. Tinhamos previamente asumido que a Rocha de Sião fosse simplesmente o Monte Sião, a alta colina ao sul de Jerusalém na qual Godfroi construiu uma abadia para abrigar a ordem que se tornou o Priorado de Sião. Mas fontes maçonicas atribuem uma importância adicional a Rocha de Sião. Dado a preocupação deles com o Templo de Jerusalém, não é surpreendente que eles se refiram a passagens específicas da Bíblia. E nestas passagens a Rocha de Sião é algo mais que uma alta colina; é uma pedra em particular desprezada ou injustificavelmente negligenciada durante a construção do Templo, que deve subsequentemente ser recuperada e reincorporada como a pedra chave da estrutura. Segundo o Salmo 118, por exemplo: ‘A pedra que os construtores recusaram é para vir a ser a pedra fundamental no canto’. Em Mateus 21:42 Jesus alude especificamente a este salmo: ‘Você nunca leu as escrituras, a pedra que os construtores rejeitaram, a mesma é para se tornar a principal do canto’. Em Romanos 9:33 há uma outra referência , muito mais ambígua: ‘Preste atenção, Eu coloco em Sião uma pedra de tropeço e uma rocha de ofensa; e seja quem for que acredite nele não deve ser envergonhado’. Em Atos 4:11 ‘a Rocha de Sião pode bem ser interpetrada como uma metáfora para o próprio Jesus; pelo nome de Jesus Cristo de Nazaré… este homem permanece aqui antes de você inteiro. Esta é a pedra que foi colocada desprezada de vocês construtores, que é para se tornar a principal do canto. Em Efésios 2:20 a equação de Jesus e a Rocha de Sião se torna mais aparente : ‘construa sob a fundação dos apóstolos e profetas, o próprio Jesus Cristo sendo a pedra principal do canto’. E em Pedro 2:3-8 esta equação é tornada ainda mais explícita : ‘O Senhor é gracioso, Para quem vem, como sob uma pedra viva, desautorizado de fato dos homens, mas escolhido de Deus, e precioso. Nós também, como pedras vivas, estamos construidos acima de uma casa espiritual, um sacerdócio sagrado, para oferecer sacrifícios espirituais, aceitaveis a Deus por Jesus Cristo.  Por consequinte issso também está contido na escritura, Acautele-se, estou em Sião uma pedra principal de canto, eleito, precioso; e aquele que acreditou Nele não deve ser confundido. Até você portanto que acredita que ele é precioso, mas até eles que são desobedientes, a pedra que os construtores não autorizaram, a mesa é feita a principal do canto. E uma pedra de tropeço, e uma rocha de ofensa, até mesmo para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para a qual eles eram apontados.’  No próprio próximo verso, o texto contuna para ressaltar temas cuja importância não se torna aparente a nós senão mais tarde. Ele fala de uma linhagem eleita de reis que são líderes seculares e espirituais, uma linhagem de reis-sacerdotes: Mas vocês são uma geração escolhida, um sacerdócio real, uma nação sagrada, um povo peculiar… ‘ O que iriamos fazer destas passagens surpreendentes? O que iríamos fazer da Rocha de Sião, a pedra chave do Templo, que parecia figurar tão salientemente entre os ‘segredos internos’ da Livre Maçonaria? O que iriamos fazer da identificação explícita desta pedra chave com o próprio Jesus? E o que iriamos fazer com a ‘tradição real’
que se tornou fundada na Rocha de Sião ou o próprio Jesus que era ‘igual’ as dinastias governantes da Europa durante s Cruzadas?

O Movimento Modernista Católico

Em 1833 Jean Baptiste Pitois, antigo discípulo de Charles Nodier em  Arsenal Library, era um funcionário no Ministério da Educação Pública. E neste ano o Ministério assumiu o projeto ambicioso de publicar todos os documentos suprimidos  pertinentes à história da França. Dois comitês foram formados para presidirem o empreendimento. Estes comitês incluiam, entre outros, Victor Hugo, Jules Michelet e uma autoridade sobre as Cruzadas, o Barão Emmanuel Rey. Entre os trabalhos subsequentemente publicados sob os auspícios do Ministério da Educação Pública estava o monumental de Michelet ‘Le Proces des Templiers’, uma compilação exaustiva dos registros da Inquisição lidando com os julgamentos de Cavaleiros Templários. Sob os mesmos auspícios o Barão Rey publicou um número de trabalhos lidando com as Cruzadas e o reino franco de Jerusalém. Nestes trabalhos apareceram em impressão pela primeira vez as cartas de direitos originais relativas ao Priorado de Sião. Em certos pontos do texto que Rey cita são quase verbatim as passagens dos Documentos do Priorado. Em 1875 o Barão Rey co-fundou a Sociedade do Latim ou Franco Oriente Médio. Baseada em Genebra, esta sociedade se devotou a ambiciosos projetos arqueológicos. Ela também publicava sua própria revista, ‘ Revue de Orient Latin’, que agora é uma das fontes primárias para historiadores modernos como  Sir Steven Runciman, A Revue de Orient Latin reproduziu um número de cartas de direitos adicionais do Priorado de Sião. A pesquisa de Rey era típica de uma nova forma de erudição histórica aparecendo na Europa naquele tempo, mais proeminentemente na Alemanha, que constituia uma ameaça extremamente séria à Igreja. A disseminação do pensamento darwiniano e do agnosticismo já haviam produzido uma ‘crise de fé’ no século XIX, e a nova erudição magnificou a crise. No passado, a pesquisa histórica tinha sido, em sua maior parte, um caso não confiável, repousando em fundações altamente tenues – em lendas e tradição, em memórias pessoais, em exageros promulgados para o bem de uma ou outra causa. Somente no século XIX os eruditos alemães começaram a introduzir técnicas rigorosas, meticulosas que agora são aceitas como lugar comum, a reserva de base de qualquer historiador responsável. Tal preocupação com o exame crítico, com a investigação de fontes em primeira mão, com referências cruzadas e cronologia exata, estabeleceram o esteriótipo convencional do pedante teutônico. Mas se os escritores alemães do período tendiam a se perderem em minuncias, eles também forneceram uma base sólida para a pesquisa. E para um número de maiores descobertas arqueológicas também. O exemplo mais famoso, com certeza, é a escavação de Heinrich Schliemann do sítio de Tróia. Foi apenas uma questão de tempo antes que as técnicas da erudição alemã fossem aplicadas, com diligência similar, à Bíblia. E a Igreja, que repousava na aceitação inquestionável do dogma, estava também ciente que a própria Bíblia não poderia resistir a um tal exame crítico. Em seu livro best seller e altamente controvertido ‘A Vida de Jesus’, Ernest Renan já havia aplicado a metodologia alemã ao Novo Testamento e os resultados, para Roma, eram altamente embaraçantes.

O Movimento Católico Modernista elevou-se inicialmente como uma resposta a este novo desafio. Seu objetivo original era produzir uma geração de especialistas eclesiásticos treinados na tradição alemã, que pudessem defender a verdade literal das Escrituras com toda sua pesada munição de erudição crítica. Na medida em que isto transpirava, o plano explodia antes do tempo. Quanto mais a Igreja buscava equipar seus clérigos mais jovens com os instrumentos para o combate no polêmico mundo moderno, mais estes mesmos clérigos começaram a desertar da causa para qual eles foram recrutados. O exame crítico da Bíblia revelou uma multitude de inconsistências, discrepâncias e implicações que eram positivitamente inimigas do dogma católico. E pelo fim do século os Modernistas não eram mais as tropas de choque de elite da Igreja que ela esperava que eles fossem, mas os desertores e hereges incipientes. De fato, eles constituiam a mais séria ameaça que a Igreja havia vivenciado desde Martinho Lutero, e trouxeram o inteiro edifício do catolicismo a beira de um cisma sem precedentes por séculos. O leito quente da atividade Modernista, como ela havia sido para a Companhia do Santo Sacramento, era São Suspílcio em Paris. De fato, uma das vozes mais ressonantes no Movimento Modernista era o homem que era diretor do Seminário de São Suspílcio de 1852 a 1884. As atitudes modernistas de São Suspílcio espalharam-se rapidammente para o resto da França, Itália e Espanha. Segundo estas atitudes, os textos Bíblicos não eram unicamente autoritários, mas tinham de ser entendidos no contexto específico de seu tempo. E os modernistas também se rebelaram contra a crescente centralização do poder eclesiástico especialmente na doutrina recentemente instituida da infalibilidade papal, que ia flagrantemente contra a nova tendência.

Muito antes que as atitudes modernistas estivessem sendo disseminadas não somente pelos clérigos intelectuais, mas por distinguidos e influentes escritores também. Figuras como  Roger Martin du Gard na França, e Miguel de Unamuno na Espanha estavam entre os portavozes primários do Modernismo. A Igreja respondeu com o previsível vigor e ira. Os Modernistas foram acusados de serem Maçons Livres. Muitos deles foram suspensos e até mesmo excomungados, e seus livros foram colocados no Index. Em 1903, o Papa Leão XII estabeleceu a Pontifícia Comissão Bíblica para monitorar o trabalho dos eruditos escriturais. Em 1907 o Papa Pio X emitiu uma condenação formal do Modernismo. E em 1o. de setembro de 1910 a Igreja exigiu que seus clérigos fizessem um voto contra as tendências modernistas. Não obstante, o Modernismo continuou a florescer até a Primeira Guerra Mundial desviar a atenção pública para outras preocupações. Até 1914 ele permaneceu uma causa célebre.

Um autor Modernista, o Abade Turmel, provou-se um indivíduo particularmente prejudicial. Conquanto ostensivamente se comportava impecavelmente em seu posto de ensino na Britania, ele publicou uma série de trabalhos modernistas sob não menos que quatorze pseudonimos diferentes. Cad um deles foi colocado no Index ms não foi até 1929 que Turmel se identificou como autor deles. É desnecessário dizer, ele foi então sumariamente excomungado. Enquanto isso o Modernismo espalhava-se na Britania, onde ele foi calorosamente benvindo e endossado pela Igreja Anglicana. Entre seus aderentes anglicanos estava William Temple, mais tarde arcebispo de Canterbury, que declarou que o Modernismo era o que as pessoas mais educadas já acreditavam. Um dos associados de Temple era Canon A. L. Liney. E Liney conhecia o sacerdote do qual ele havia recebido aquela carta portentosa que fala da ‘prova incontroversa’ que Jesus não morreu na cruz. Liney, como sabemos, tinha trabalhado por algum tempo em Paris, onde ele fez conhecimento com o Abade Emile Hoffet, o homem a que Sauniere levou os pergaminhos encontrados em Rennes-le-Chateau. Com seu talento em história, linguagem e linguística, Hoffet era um típico jovem erudito Modernista de sua era. Contudo, ele não tinha sido treinado em São Suspílcio. Ao contrário, ele tinha sido treinado em Lorraine. Na Escola Seminário de Sião: A Colina Ispirada.

Os Protocolos de Sião

Um dos testemunhos mais persuasivos que encontramos da existência e atividade do Priorado de Sião datou do final do século XIX. O testemunho em questão é suficientemente bem conhecido ms não é reconhecido como testemunho. Ao contrário, ele sempre tem sido associado a coisas mais sinistras. Ele tem desempenhao um papel notório na história recente e ainda tende a levantar tais violentas emoções, amargos antagonismos e pavorosas memórias que a maioria dos escritores ficam felizes em antecipadamente o descartar. Na extensão em que este testemunho tem contribuido significativamente para o preconceito e sofrimento humanos, uma tal reação é perfeitamente compreensível. Mas se o testemunho tem sido criminosamente mal usado, nossas pesquisas nos convenceram  que ele também tem sido seriamente mal entendido. O papel de Rasputin na côrte de Nicholas e Alexandra da Rússia é mais ou menos geralmente conhecido, contudo, havia influentes e até mesmo poderosos enclaves esotéricos na corte russa muito antes de Rasputin. Durante os anos de 1890 e 1900 um de tais enclaves se formou ao redor de um indivíduo conhecido como Monsieur Philippe, e ao redor de seu mentor, que fez visitas periódicas a côrte imperial em Petersburg. E o mentor de Monsieur Philippe não era outro que o homem chamado Papus, o esoterista francês associado a Jules Doinel (o fundador da igreja neo-cátara em  Languedoc), Peladan (que afirmou haver descoberto a tumba de Jesus), Emma Calve e Claude Debussy. Em uma palavra, o ‘reavivamento oculto francês’ do final do século XIX não tinha apenas se espalhado a Petersburg. Seus representantes também desfrutavam de um status privilegiado de confidentes pessoais do Tzar e da Tzarina. Contudo, o enclave esotérico de Papus e de  Monsieur Philippe era ativamente oposto a certos outros interesses poderosos da Grande Duquesa Elizabeth, por exemplo, que tinha a intenção de instalar seus próprios favoritos na proximidade do trono imperial. Um dos favoritos da Grande Duquesa era um homem mais que desprezível conhecido pela posteridade como Sergei Nilus.

Em algum tempo por volta de 1903 Nilus apresentou um documento altamente controvertido ao Tzar; um documento que supostamente continha o testemunho de uma grande conspiração. Mas se Nilus esperava a gratidão do Tzar por esta revelação, ele deve ter ficado profundamente desapontado. O Tzar declarou o documento uma ultrajante fabricação e ordenou que todas as cópias fossem destruídas. E Nilus foi banido da corte em desgraça. De fato o documento, ou, a qualquer nível, uma cópia dele, sobreviveu. Em 1903 ele foi serializado em um jornal mas fracassou em atrair interesse. Em 1905 ele foi novamente publicado desta vez na forma de um apendice de um livro por um distinto filósofo místico, Vladimir Soloviov. A este ponto o documento começou a atrair atenção. Nos anos que se seguiram ele se tornou um dos mais infames documentos do século XX.

O documento em questão era um tratado, ou falando mais estritamente, um proposto programa social e político. Ele tem aparecido sob uma variedade de títulos ligeiramente diferentes, o mais comum dos quais é ‘Os Protocolos dos Sábios de Sião’. Os Protocolos alegadamente sairam de fontes especialmente judias. E para uma grande quantidade de anti-semitas daquele tempo eles eram a prova convincente de uma ‘conspiração internacional judaica’. Em 1919, por exemplo, eles foram distribuídos às tropas do Exército Russo Branco e estas tropas, durante os seguintes dois anos, massacraram uns 60.000 judeus que eram considerados responsáveis pela revolução de 1917. Por 1919 os Protocolos estavam também sendo circulados por Alfred Rosenberg, mais tarde o chefe racial teórico e propagandista do Partido Nacional Socialista na Alemanha. Em Mein Kampft Hitler usou os Protocolos para alimentar seus próprios preconceitos fanáticos, e é dito ter acreditado inquestionavelmente em sua autenticidade. Na Inglaterra aos Protocolos foram imediatamente concedidas credenciais no Morning Post. Até mesmo o The Times, em 1921, os considerou seriamente e somente mais tarde admitiu seu erro.  Hoje os especialistas concluem muito certamente, como nós concluimos, que os Protocolos, ao menos em sua forma presente, são uma fraude viciosa e insidiosa. Não obstante, eles ainda circulam na América Latina, Espanha e até mesmo na Bretanha na propaganda anti-semita.

Os Protocolos propõem um projeto para nada menos do que o total domínio mundial. À primeira leitura eles nos parecem um programa maquiavélico, um tipo de memorando inter-ofício, por assim dizer de um grupo de indivíduos determinados a imporem uma nova ordem mundial, com eles próprios como déspotas supremos. O texto advoga uma conspiração de uma cabeça de hidra com muitos tentáculos dedicada a desordem e anarquia, e a derubar certos regimes existentes, infiltrando a Livre Maçonaria e outras tais organizações e eventualmente tomando o controle absoluto das instituições políticas, economicas e sociais do mundo ocidental. E os autores anônimos dos Protocolos declaram que eles explicitamente gerenciam por estágio povos inteiros ‘de acordo com um plano político, que ninguém tem suposto imaginar mas que está em curso por séculos’. Para um leitor moderno os Protocolos podem parecer terem sido divisados de alguma organização fictícia como SPECTRE –  o adversário de James Bond ns novelas de Ian Fleming. Quando eles foram primeiramente publicados, contudo, os Protocolos foram alegados terem sido compostos em um Congresso Internacional Judaico que se reuniu em Basle em 1897. Esta alegação a muito tempo tem sido desaprovada. As mais iniciais cópias dos Protocolos, são conhecidas terem sido escritas em francês e o Congresso de 1897 em Basle não incluiu um único delegado francês. Sobretudo, uma cópia dos Protocolos é sabida ter estado em circulação em 1884 – 13 anos antes do encontro do Congresso em Basle. A cópia de 1884 aparece nas mãos de um membro de uma loja maçonica; a mesma loja maçonica da qual Papus era um membro e consequentemente um Grão Mestre. Sobretudo esta foi a mesma loja na qual a tradição de Ormus tinha primeiro aparecido; o legendário sábio egípcio que amalgamou os mistérios cristão e pagãos e fundou a Rosacruz. Os eruditos modernos tem estabelecido no fato que os Protocolos, em sua forma publicada, são baseados ao menos em parte em um trabalho satírico escrito e impresso em Genebra em 1864. O trabalho foi composto como um ataque a Napoleão III por um homem chamado Maurice Joly, que foi subsequentemente preso. Joly é dito ter sido um membro de uma Ordem Rosacruz. Se isto é ou não verdade, ele era amigo de Victor Hugo; e Hugo, que partilhava da antipatia de Joly por Napoleão III, era membro de uma Ordem Rosacruz.

Portanto pode ser provado conclusivamente que os Protocolos não sairam do Congresso Judaico em Basle em 1897. Sendo assim, a pergunta óbvia é de onde eles sairam. Os eruditos modernos o tem descartado como uma fraude total, um documento completamente espúrio criado por interesses anti-semitas que pretendiam desacreditar o Judaismo.  Ainda que os Protocolos argumentem fortemente contra esta conclusão. Eles contém, por exemplo, um número de referências enigmáticas – que são claramente não judaicas. Mas estas referências são tão claramente não judaicas que elas podem plausivelmente terem sido fabricadas por um fraudador também. Nenhum fraudador anti-semita com até mesmo uma inteligência média possivelmente teria criado tais referências para desacreditar o Judaísmo. Porque ninguém teria acreditado que estas referências fossem de origem judaica. Então, por exemplo, o texto nos Protocolos termina com uma única declaração, ‘Assinado pelos Representantes de Sião do 33o Grau’. Porque um fraudador anti-semita teria feito uma tal afirmação? Porque ele não teria tentado incriminar todos os judeus, muito mais que uns poucos que constituem ‘os representantes de Sião do 33o grau’? Porque ele não declararia por exemplo que este documento era assinado  pelos representantes do Congresso Internacional Judaico? De fato, pareceria se referir a algo especificamente maçonico. E o 33o grau na Livre Maçonaria é o chamado ‘Estrita Observância’, o sistema da Livre Maçonaria introduzido por Hund em benefício de seus ‘superiores desconhecidos’, um dos quais parece ter sido Charles Radcliffe. Os Protocolos contém outras anomalias até mesmo mais flagrantes. O texto fala repetidamente, por exemplo, do advento de um ‘Reino Maçonico’ e de ‘Um Rei do Sangue de Sião’, que presidirá o Reino Maçonico. Ele avalia que o futuro Rei dos Judeus será o real Papa e ‘patriarca da igreja internacional’. E ele conclui de uma maneira mais críptica, ‘certos membros da semente de David prepararão o Rei e seus herdeiros… Somente o Rei e a árvore que permanece patrocinando-o saberão o que está vindo”.

Como uma expresssão do pensamento judaico, real ou fabricado, tais afirmações são claramente absurdas. Desde os templos bíblicos, rei algum tem figurado na tradição judaica, e o próprio princípio de reinado tem sido completammente irrelevante. O conceito de um rei teria sido tão sem sentido para os judeus de 1897 quanto ele o seria para os judeus hoje; e ninguém pode ser ignorante desse fato. De fato, as referencias citadas pareceriam mais cristãs do que judaicas. Pelos últimos dois milênios o único ‘Rei dos Judeus’ tem sido o próprio Jesus e Jesus, segundo os Evangelhos, era ‘das raízes dinásticas de David’. Se alguém está fabricando um documento e o atribuindo a uma conspiração judaica, porque este documento inclue tais ecos patentemente cristãos? Porque fala de um conceito táo especifico e unicamente cristão quanto o de Papa? Porque falar de uma ‘igreja internacional’ muito mais que de uma sinagoga internacional ou um templo internacional? E porque incluir a alusão enigmática ao ‘Rei e a árvore que permanece o patrocinador’ que é menos sugestiva do judaismo e da cristandade do que o é das sociedades secretas de Johann Valentin Andrea e Charles Nodier? Se os Protocolos sairam inteiramente de uma imaginação propagandista anti-semita, é difícil imaginar um propagandista tão inepto, ou tão ignorante e desinformado. Com base na pesquisa prolongada e sistemática, chegamos a certas conclusões sobre os Protocolos dos Sábios de Sião. Elas são as seguintes:
[1] – Houve um texto original no qual a versão publicada dos Protocolos foi baseada. Este texto original não era uma fraude. Ao contrário, ele era autêntico. Mas ele nada tinha a ver com o judaismo ou com uma ‘conspiração intrenacional judaica’. Ele foi emitido muito mais de alguma organização maçonica ou sociedade secreta maçonicamente orientada  que incorporou a palavra ‘Sião’.
[2] – O texto original sobre o qual a versão publicada dos Protocolos foi baseado necesariamente não precisava ser provocativo ou inflamatório em sua linguagem. Mas pode muito bem ter incluindo um programa de ganhar poder, por infiltrar a Maçonaria Livre, por controlar as instituições sociais, políticas e economicas.  Um tal programa teria sido perfeitamente de acordo com as sociedades secretas da Renascença, bem como com a companhia do Santo Sacramento e as instituições de Andrea e Nodier.
[3] – O texto original sobre a qual foi baseada a versão publicada dos Protocolos caiu nas mãos de Sergei Nilus; Nilus de início não pretendia desacreditar o judaismo. Ao contrário, ele o levou ao Tzar com a intenção de desacreditar o enclave esotérico na corte imperial – o enclave de Papus, Mosieur Philippe e outros que eram membros da sociedade secreta em questão. Mais antes de fazer isso, ele quase certamente doutorou a linguagem, tornando-a mais venenosa e inflamatória do que o era inicialmente. Quando o Tzar o menosprezou, Nilus então liberou os Protocolos em sua forma doutorada para publicação. Eles tinham falhado em seu objetivo primário de comprometer Papus e Monsieur Philippe. Mas eles ainda podiam muito bem servir ao propósito secundário de estimular o anti-semitismo. Embora os alvos principais de Nilus tivessem sido Papus e Monsieur Philippe, ele era hostil ao judaismo também.
[4 – – A versão publicada dos Protocolos não é, portanto, um texto totalmente fabricado. Ele é muito mais um texto radicalmente alterado. Mas a despeito de tais alterações, certos vestígios da versão original podem ser discernidos como em um manuscrito em pergaminho ou como nas passagens da Bíblia. Estes vestígios que se referem a um Rei, um Papa, uma igreja internacional, e ao Sião provavelmente significavam pouco ou nada para Nilus. Ele certamente não teria ele próprio os inventado. Mas se eles já estavam lá, ele não teria tido qualquer razão, dado sua ignorância, para exclui-los. E conquanto tais vestígios possam ter sido irrelevantes para o judaismo, eles podem ter sido extremamente relevantes para uma sociedade secreta. Como aprendemos subsequentemente, eles eram e ainda são de suprema importância para o Priorado de Sião.

Hieron du Val d’Or

Enquanto buscávamos a nossa pesquisa independente, novos ‘Documentos do Priorado’ tinham continuado a aparecer. Alguns deles trabalhos particularmente impressos, como os Dossiês Secretos, e que se destinavam a uma circulação limitada, tornaram-se disponível para nós por meio de ações de amigos na França ou por meio da Biblioteca Nacional. Outros apareceram sob a forma de livro, recentemente publicados e liberados no mercado pela primeira vez.

Em alguns destes trabalhos havia informação adicional sobre o século XIX e especificamente sobre Berenger Sauniere. Segundo uma de tais narrativas atualizadas Sauniere não descobriu os fatídicos pergaminhos em sua igreja por acidente. Ao contrário, é dito que ele tenha sido dirigido a eles por emissários do Priorado de Sião que o visitaram em Renes-le-Chateau e o alistaram como seu faz-tudo. Em 1916 Sauniere é relatado ter desafiado os emissários de Sião e brigado com eles. Se isto é verdade, a morte do cura em 17 de janeiro adquire uma qualidade mais sinistra do que geralmente é atribuída a ela. Dez dias antes de sua morte ele tinha estado em saúde satisfatória. Não obstante, dez dias antes de sua morte um caixão foi encomendado para ele. O recibo do caixão, datado de 12 de janeiro de 1917, é entregue a governante e amiga de Sauniere,  Marie Denarnaud. Uma publicação mais recente e aparentemente de mais autoridade do Priorado elabora a posterior história de Sauniere e parece confimar, ao menos em parte, a narrativa resumida acima. Segundo esta publicação, o próprio Sauniere era pouco mais do que um peão e seu papel no mistério de Rennes-le-Chateau tem sido exagerado. A força real por trás dos eventos na vila da montanha é dita ter sido o amigo de Sauniere, o Abade Henri Boudet, cura da vila adjacente de Rennes-le-Bains. Boudet é dito ter fornecido a Sauniere todo seu dinheiro, um total de 13 milhões de francos, entre 1887 e 1915. E Boudet é dito ter guiado Sauniere em seus vários projetos e trabalhos públicos, a construção da Vila Bethania e da Tour Magdala. Ele também é dito ter supervisionadoo a restauração da igreja de Renes-le-Chateau, e ter projetado as perplexantes Estações da Cruz de Sauniere como um tipo de versão ilustrada, ou equivalente visual, de um livro críptico de sua propriedade. Segundo esta recente publicação do Priorado, Sauniere permaneceu essencialmente ignorante do real segredo para o qual ele agia como tutor até que Boudet, ao se aproximar da morte, o confidenciou a ele em março de 1915. Segundo a mesma publicação, Marie Denarnaud, a governanta de Sauniere, era de fato agente de Boudet. Era por meio dela que Boudet supostamente transmitia instruções a Sauniere. E foi para ela que todo dinheiro era pagável. Ou ao menos, a maior parte do dinheiro.

Boudet, entre 1885 e 1901, é dito ter pago 7.655.250 francos ao bispo de Carcassone; o homem que, por sua própria conta, despachou Sauniere para Paris com os pergaminhos. O bispo, também, pareceria então ser essencialmente empregado de Boudet. É certamente uma situação incongruente um importante bispo regional sendo pago por um servidor ou um humilde sacerdote pároco do interior. E o próprio sacerdote da paróquia? Para quem estava Boudet trabalhando? Que interesses ele representava? O que pode ter dado a ele o poder de alistar os serviços e o silêncio de seu superior eclesiástico? E quem pode ter fornecido a ele os vastos recursos financeiros a serem dispensados prodigamente? Estas perguntas não são respondidas explicitamente. Mas a resposta está constantemente implícita no Priorado de Sião. Uma luz posterior sobre a matéria foi lançada por um outro trabalho recente que, como seus predecessores, parece vir de ‘fontes privilegiadas de informação’. O trabalo em questão é “O Tesouro do Triângulo de Ouro’ de Jean-Luc Chaumiel , publicado em 1979. Segundo Chaumiel, um número de clérigos envolvidos no enigma de Rennes-le-Chateau – Sauniere, Boudet, muito provavelmente outros como Hoffet, o tio de Hoffet em São Suspílcio e o bispo de Carcassone eram afiliados a uma forma de Rito Escocês da Livre Maçonaria. Esta maçonaria, declara Chaumiel, difere das muitas outras formas no que ele era ‘cristã, hermética e aristocrática’. Em resumo, ele não consistia, como muitos ritos da Livre Maçonaria, primariamente em livres pensadores e ateus. Ao contrário, ele parece ter sido profundamente religiosa e magicamente orientada, enfatisando uma sagrada hierarquia social e política, uma ordem divina, um subjacente plano cósmico. E os graus superiores desta Livre Maçonaria, segundo Chaumiel, eram os graus inferiores do Priorado de Sião. Em nossas próprias pesquisas nós já tinhamos encontrado uma Livre Maçonaria do tipo que Chaumiel descreve. De fato, a descrição de Chaumiel pode prontamente ser aplicada ao original Rito Escocês introduzido por Charles Radcliffe e seus associados. Tanto a maçonaria de Radcliffe quanto a maçonaria de Chaumiel descrevem o que teria sido aceitável, a despeito da condenação papal, a católicos devotos sejam eles Jacobitas do século XVIII ou sacerdotes franceses do século XIX. Em ambos os casos Roma desaprovou muito veementemente.

Não obstante, os indivíduos envolvidos não parecem apenas terem persistido em se verem como cristãos e católicos. Eles também parecem, com base na evidência disponível, terem recebido uma maior e estimulante transfusão de fé, uma transfusão que os habilitou a se verem como, se algo, mais verdadeiramente cristãos do que o Papado. Embora Chaumiel seja vago e evasivo, ele implica fortemente que nos anos anteriores a 1914 a Maçonaria Livre da qual Boudet e Sauniere eram membros se tornou amalgamada a uma outra instituição esotérica – uma instituição que pode bem explicar algumas referências curiosas a um monarca nos Protocolos dos Sábios de Sião, especialmente se, como indica Chaumiel posteriormente, o real poder por trás desta outra instituição fosse também o Priorado de Sião. A instituição em questão foi chamada Hieron du Val d’Or o que pareceria uma transposição verbal de um sítio recorrente, Orval. A Hieron du Val d’Or era uma espécie de sociedade secreta política fundada, pareceria, por volta de 1873. Ela parece ter partilhado muito de outras organizações esotéricas do período. Havia, por exemplo, uma ênfase característica na geometria sagrada e vários sítios sagrados. Havia uma insistência na verdade mística ou gnóstica que subjazem aos motivos mitológicos. Havia uma preocupação com as origens dos homens, raças, linguagens e símbolos tais como ocorre na Teosofia. E como muitas outras seitas e sociedades daquele tempo, a  Hieron du Val d’Or era simultaneamente cristã e trans-cristã. Ela soube reconciliar como é dito que o legendário Ormus reconciliou os mistérios cristãos e pagãos. Ela atribuiu uma importãncia especial ao pensamento druidico que, como muitos especialistas modernos, é visto como parcialmente pitagoriano. Todos estes temas estão descritos no trabalho publicado do amigo de Sauniere, o Abade Henri Boudet. Para os propósitos de nossa pesquisa, o Hieron du Val d’Or se provou relevante em virtude de sua formulação do que Chaumiel chama de ‘geopolítica esotérica’ e ‘ordem mundial entárquica’. Traduzido em termos mais mundanos, isto compreende, de fato, o estabelecimento de um novo Sagrado Império Romano na Europa do século XIX – um Sagrado Império Romano revitalizado e reconstituido, um Estado secular que unificasse todos os povos e repousasse em fundações espirituais muito mais que sociais, políticas ou economicas. Diferente de seu predecessor, este novo Sagrado Império Romano teria sido genuinamente ‘sagrado’, genuinamente ‘romano’ e genuinamente ‘imperial’ embora o significado específico destes termos tivessem diferido crucialmente do significado aceito pela tradição e convenção. Um tal Estado teria realizado o velho sonho de séculos de um ‘reino celestial’ na terra, uma réplica terrena ou uma imagem em espelho da ordem, harmonia, hierarquia do cosmos.

Isto teria atualizado a antiga premissa hermética “Como  é encima, é embaixo”. E não era utópica ou ingenua. Ao contrário, ela era ao menos remotamente possivel no contexto da Europa do século XIX. Segundo Chaumiel, os objetivos do Hieron du Val d’Or eram: uma teocracia onde as nações não seriam mais do que províncias, seus líderes apenas pró-consuls a serviço de um governo mundial oculto consistente de uma elite. Para a Europa, este regime do Grande Rei implicava em uma dupla hegemonia do Papado e do Império, do Vaticano e dos Hapsburgs, que teriam sido o braço direito do Vaticano. Pelo século XIX, com certeza, os Hapsburgs eram sinônimo da casa de Lorraine.  O conceito de um Grande Rei assim teria constituido um cumprimento das profecias de Nostradamus. E isso também teria atualizado, ao menos em algum sentido, o projeto monarquista ressaltado nos Protocolos dos Sabios de Sião. Ao mesmo tempo, a realização de um projeto tão grandioso, claramente teria compreendido um número de mudanças nas instituições existentes. O Vaticano, por exemplo, presumidamente teria sido um Vaticano muito diferente daquele situado em Roma. E os Hapsburgs teriam sido mais do que imperiais cabeças do Estado. Eles teriam se tornado, de fato, uma dinastia de reis-sacerdotes como os faraós do antigo Egito. Ou como o Messias antecipado pelos judeus no amanhecer da era cristã. Chaumiel não esclarece a extensão, se alguma, que os próprios Hapsburgs estivessem ativamente envolvidos nestes ambiciosos projetos clandestinos.

Há contudo uma quantidade de evidência, incluindo a visita de um arquiduque Hapsburg a Rennes-le-Chateau que aparentemente atesta ao menos alguma implicação. Mais sejam quais forem os planos que estavam em ação, eles foram impedidos pela Primeira Guerra Mundial, que, entre outras coisas, derrubou os Hapsburgs do poder. Como Chaumiel os explicou, os objetivos do Hieron du Val d’Or ou do Priorado de Sião fazem um certo sentido de lógica no contexto do que temos descoberto. Eles lançam uma nova luz sobre os Protocolos dos Sábios de Sião. Eles concorreram com os objetivos afirmados de várias sociedades secretas, inclusive daquelas de Charles Radcliffe e Charles Nodier. E o mais importante de tudo, eles conformaram as aspirações politicas que, pelos séculos, temos traçado na casa de Lorraine.  Mas se os objetivos do Hieron du Val d’Or fazem um sentido lógico, eles não fazem um sentido politico prático. Em que bases, imaginamos, os Hapsburgs teriam avaliado seu direito a funcionar como um dinastia de reis-sacerdotes? A menos que eles conquistassem o completo apoio popular, um tal direito possivelmente não teria sido avaliado contra o governo republicano da França, sem mencionar as dinastias imperiais então presidindo sobre a Rússia, Alemanha e Bretanha. E como poderia o necessário apoio popular ter sido obtido? No contexto das realidades políticas do século XIX um tal esquema, conquanto logicamente consistente, nos pareceu efetivamente absurdo. Talvez, concluimos, tivessemos interpretado mal o Hieron du Val d’Or. Ou talvez os membros do Hieron du Val d’Or fossem muito simplesmente sem importância. Até que obtivéssemos informação posterior, mão tinhamos outra escolha senão colocar o assunto na prateleira. Neste meio tempo, voltamos nossa atenção ao presente para determinar se o Priorado de Sião existia hoje. Como rapidamente descobrimos, ele existia. Seus membros não eram todos insignificantes, e eles estavam buscando, no século XX pós guerra, um programa essencialmewnte similar aquele buscado no século XIX pelo Hieron du Val d’Or.

A Sociedade Secreta Hoje

O jornal Francês Offciel é uma publicação semanal do governo na qual todos os grupos, sociedades e organizações no país devem se declarar. No Jounal Officiel para a semana de 20 de julho de 1956 [publicação número 167], há a seguinte entrada: 25 de junho de 1956. Declaração a sub-prefeitura de Saint-Julien-en-Genevois. Priorado de Sião. Objetivos: estudos e ajuda mútua a membros. Chefe oficial: SousCassan, Annemasse, Haute Savoie. O Priorado de Sião foi oficialmente registrado com a polícia. Aqui, a qualquer nível, pareceu ser a prova definitiva de sua existência em nossa própria idade até mesmo embora achemos de certa forma estranho que uma sociedade supostamente secreta deva então se revelar. Mas talvez isso não fosse assim tão estranho. Não havia listagem para o Priorado de Sião em qualquer diretório telefônico francês. O endereço se provou vago demais para identificar um escritório específico, casa, construção ou até mesmo rua. E a sub-prefeitura, quando telefonamos para ela, foi de pouca ajuda. Tem havido inúmeras pesquisas, ele disseram, com uma resignação de longo sofrimento e  cansaço. Mas ele não puderam nos oferecer uma informação posterior. Até onde sabemos, o endereço era não rastreável. Se nada mais, isto nos deu uma pausa. Entre outras coisas, isto nos fez imaginar como certos indivíduos tinham conseguido registrar um endereço fictício ou não rastreável com a polícia e então, aparentemente escapar de todas as consequências subsequentes e processo da matéria. Estava a polícia realmente tão  despreocupada e indiferente como parecia? Ou Sião de algum modo tinha alistado sua cooperação e discrição?

A sub-prefeitura, a nosso pedido, nos forneceu uma cópia do que é proposto ser os estatutos do Priorado de Sião. Este documento, que consistia em 21 artigos, não era controvertido nem aparentemente esclarecedor. Ele não dava qualquer indicação da possível influência de Sião, seus membros ou recursos. No todo, ele era mais que brando enquanto ao mesmo tempo compunha a nossa perplexidade. A um ponto, por exemplo, o documento declarava que a admissão a ordem não estava restrita em base de linguagem, origem social, classe ou ideologia política. Em outro ponto, eles estipulavam que todos os católicos acima da idade de 21 anos eram elegíveis para candidatura. De fato os estatutos em geral pareciam ter derivado de uma pia instituição até mesmo ferventemente católica. E ainda que o alegado Grão Mestre de Sião e a história passada, até onde tinhamos sido capazes de rastrea-la, dificilmente atestasse qualquer ortodoxia católica. Para este assunto, até mesmo os modernos Documentos do Priorado, muito deles publicados ao mesmo tempo que os estatutos, eram menos catolicos em orientação do que herméticos, até mesmo hereticamente gnósticos. A contradição não parecia fazer sentido – a menos que Sião, como os Cavaleiros Templários, e a Companhia do Santo Sacramento exigiam o catolicismo como um pré requesito exotérico , que pode então ser transcedido dentro da Ordem. Em qualquer nível Sião, como o Templo e a Companhia do Santo Sacramento, aparentemente exigiam uma obediência que, em sua natureza absoluta, resumia todos os outros compromissos, seculares ou espirituais. Segundo o Artigo VII dos estatutos, ‘O candidato deve renunciar a sua personalidade para se devotar ao serviço de um apostolado alto moral’. Os estatutos posteriormente declaram que Sião funciona sob o sub-título de Cavalaria de Instituições e Regras Católicas da União Independente e Tradicionalista. Isto é abreviado para CIRCUIT, o nome de uma revista que, segundo os estatutos, é publicada internamente pela Ordem e que circulava dentro de suas fileiras. Talvez a informação mais interessante nos estatutos é que desde 1956 o Priorado de Sião pareceria ter expandido sua afiliação quase cinco vezes. Segundo uma página reproduzida nos Dossiês Secretos, impressa em algum tempo antes de 1956, Sião tinha um total de 1.093 enfileirados em sete graus. A estrutura era tradicionalmente piramidal. No topo estava um Grão Mestre, ou ‘Nautonnier’. Havia três no grau abaixo dele [Príncipe Noaquita de Notre Dame], nove no grau abaixo desse [Cruz de São João]. Cada um dos graus abaixo era tão grande tres vezes quando o grau adiante dele 27, 81, 243, 729. Os três graus mais altos do Grão Mestre e seus doze subordinados imediatos eram ditos constituirem os 13 Rosacruz. O número também corresponderia, com certeza, a algo de uma cobertura satânica a Jesus e seus doze discípulos. Segundo os estatutos pós 1956, Sião tinha uma afiliação total de 9.841 enfileirados não em sete graus, mas em nove. A estrutura parece ter permanecido essencialmente a mesma, embora fosse esclarecido, e dois nove graus tivessem sido introduzidos na parte inferior da hierarquia assim posteriormente insulando a liderança por trás de uma grande rede de noviços. O Grão Mestre ainda retinha o título de Nautonnier. Os Três Príncipes Noaquitas de Notre Dame eram simplesmente chamados de Senescais. Os nove Cruzes de São João eram chamados de ‘Constables’. A organização da Ordem, em seu jargão portentosamente enigmático dos estatutos, era como se segue: A assembléia geral é composta de todos os membros da associação. Ela consiste em 729 províncias, 27 comamdanterias e um Arco chamado de Kyria. Cada uma das comandanterias bem como o Arco deve consistir em quarenta membros e cada província tinha treze membros. Os membros são divididos em dois grupos efetivos:
[a] – A Legião, encarregada do apostolado
[b] – A falange, guardiã da tradição.
Os membros compõe uma hierarquia de nove graus . A herarquia de nove graus consiste em:
a) nas 729 províncias [1 – noviços: 6.561 membros; [2] – Cruzados: 2187 membros
[b] – nas 27 comandanterias [3] – preux: 729 membros [4] – Ecuyers: 243 membros [5] – cavaleiros: 81 membros [6] Comandantes: 27 mebros
c) no Arco ‘Kyria’: 7) Connetables: 9 membros 8) Senechaux: 3 membros 9) Nautonnier: 1 membro

Aparentemente por propósitos legais e oficiais burocráticos, quatro indivíduos estavam listados como comprendendo “O Conselho’. Três dos nomes não nos eram familiares e muito possivelmente, pseudônimos – Pierre Bonhomme, nascido em 7 de dezembro de 1934, presidente; Jean Delaval, nascido em 7 de março de 1931, vice-presidente; Pierre Defagot, nascido em 11 de dezembro de 1928, tesoureiro. Um nome, contudo, nós já tinhamos encontrado antes: Pierre Plantard, nascido em 18 de março de 1920, secretário geral. Segundo a pesquisa de um outro escritor, o título oficial de Plantard era Secretário Geral do Departamento de Documentação o que implica, com certeza, que há outros departamentos também.

Alain Poher

Pelo início dos anos de 1970 o Priorado de Sião tinha se tornado uma modesta causa célebre entre certas pessoas na França. Havia um número de artigos de revista e alguma cobertura nos jornais. Em 13 de fevereiro de 1973, o  Midi Libre publicou uma longa apresentação sobre Sião, Sauniere e o mistério de Rennes-le-Chateau. Esta apresetação especificamente ligava Sião com a possível sobrevivência da linhagem sanguínea Merovíngia no século XX. Isso também sugeriu que os descendentes merovíngios incluiam um verdadeiro pretendente ao trono da França que eles identificaram como M. Alain Poher. Conquanto não especialmente bem conhecido na Bretanha ou nos Estados Unidos, Alain Poeher era [e ainda é] um nome familiar na França.

Durante a Segunda Guerra Mundial ele ganhou a Medalha da Resistência e a Cruz de Guerra. Depois da resignação de deGaulle ele foi o Presidente Provisório da França de 28 de abril a 19 de junho de 1969. Ele ocupou a mesma posição na morte de Georges Pompidou, de 2 de abril a 27 de maio de 1974. Em 1973, quando apareceu a apresentação de Midi Libre, Poher era Presidente do Senado Francês. Até onde sabemos, Poher nunca comentou, de um modo ou outro, sobre suas alegadas ligações com o Priorado de Sião e/ou linhagem sanguinea Merovíngia. Nas genealogias dos Documentos do Priorado, contudo, há menção de Arnaud, Conde de Poher, que, em algum tempo entre 894 e 896, se entrecasou com a família Plantard, os descendentes supostamente diretos de Dagoberto II. O neto de Arnaud Poher, Alain, se tornou duque da Bretanha em 937. Se ou não Poher reconhece Sião, então parece claro que Sião o reconhece como sendo, ao menos, de descendência Merovíngia.

O Rei Perdido.

Neste meio tempo, enquanto buscavamos a nossa pesquisa e a media francesa despertava períodicas exaltações de atenção do caso inteiro, novos Documentos do Priorado continuaram a aparecer. Como  antes, alguns apareceram sob a forma de livro, outros como panfletos particularmente impressos, ou artigos depositados na Biblioteca Nacional. Se algo, eles somente compunham a mistificação. Alguém obviamente estava produzindo este material, mas seu real objetivo permanecia não esclarecido. As vezes quase descartamos o caso inteiro como uma piada elaborada, uma farsa de extravagantes proporções. Se isto fosse verdade contudo, era uma farsa que certas pessoas pareciam ter estado sustentando por séculos e se alguém investe tanto tempo, energia e recursos em uma fraude, ela pode realmente ser uma fraude afinal? De fato as meadas entrelaçadas e todo o tecido completo dos Documentos do Priorado eram menos uma piada do que um trabalho de arte uma apresentação de ingenuidade, suspense, brilho, intrincado, conhecimento histórico e complexidade arquitetônica digna de, digamos, James Joyce. E conquanto ‘ Finnegans Wake’ pode ser visto como uma piada de tipos, não há dúvida que seu criador levou isso de fato muito seriamente. É importante notar que os Documentos do Priorado não constituem um convencional movimento que atrai pessoas porque parece estar vencendo, um modo lucrativo que se transformou em uma indústria lucrativa, disseminando sequelas, ‘prequelas’ outros derivados variados. Eles não podem ser comparados, por exemplo, a ‘Carruagem dos Deuses’ de von Dennikenn, as diferentes narrativas do Triangulo das Bermudas ou aos trabalhos de Carlos Castaneda. Seja qual for a motivação por trás dos Documentos do Priorado, certamente não eram as de ganho financeiro. De fato, o dinheiro pareceu ser apenas uma fator incidental, se um fator afinal. Embora eles tenham se mostrado extremamente lucrativos sob a forma de livro, os mais importantes dos Documentos do Priorado não foram publicados como tal. A despeito de seu potencial comercial, eles estavam confinados a impressões particulares, edições limitadas e deposição discreta na Biblioteca Nacional aonde, para este assunto, eles nem sempre estavam disponíveis. E a informação que aparecia sob a forma de um livro convencional não era casual ou arbitrária e em sua maior parte não era o trabalho de pesquisadores independentes. A maior parte dela parece se emanar de uma única fonte. A maior parte dela foi baseada no testemuho de informantes muito específicos, que mediam precisas quantidades de informação acrescentada ao menos uma modificação, uma peça posterior do quebra-cabeças completo. Muitos desses fragmentos foram divulgados sob nomes diferentes. Uma impressão superficial foi assim obtida de um conjunto de escritores separados, cada um dos quais confirmou a atribuiu credibilidade a outros.

Nos parece haver apenas uma motivação plausível para um tal procedimento para atrair a atenção pública para certos assuntos, estabelecer a credibilidade, engendrar o interesse, criar um clima psicológico ou atmosfera que mantém o povo aguardando ansiosamente novas revelações. Em resumo, os Documentos do Priorado parecem especificamente calculados para pavimentar o caminho para alguma revelação perplexante. Seja qual for esta revelação que eventualmente ela se prove ser, ela de certa forma envolveu a Dinastia Merovíngia, a perpetuação da linhagem sanguínea da dinastia até os dias presente e uma realeza clandestina. Então, em uma artigo de revista supostamente escrito por um membro do Priorado de Sião, encontramos a seguinte afirmação: “Sem os Merovíngios, o Priorado de Sião não existiria, e sem o Priorado de Sião, a dinastia Merovíngia estaria extinta.’

O relacionamente entre a Ordem e a linhagem sanguínea é parcialmente esclarecida, parcialmente posteriormente confundida, pela seguinte elaboração: “O Rei é Pastor e pastor ao mesmo tempo. Algumas vezes ele despacha algum brilhante embaixador para seu vassalo no poder, seus factotum, um que tem a felicidade de ser sujeito a morte. Então Rene d’Anjou, Connetable de Bourbon, Nicolas Fouquet … e numerosos outros para os quais o atonito sucesso é seguido pela inexpilcável desgraça para estes emissários são ambos terríveis e vulneráveis. Gardiões de um segredo, alguém pode apenas exalta-los ou destrui-los. Então pessoas como Gilles de Rais, Leonardo da Vinci, Joseph Balsamo, os duques de Nevers e Gonzaga, cujo despertar é frequentado pelo perfume da mágica na qual o enxofre é misturado ao incenso, o perfume de Madalena. Se o Rei Carlos VII, na entrada de Joana D’Arc no grande hall de seu castelo em Chinon, se escondesse entre a multidão de seus cortesãos, não era pelo amor de uma piada frívola onde estava o humor nisso? O segredo que ela entregou a ele em particular continha estas palavras: ‘Gentil Senhor, Venho em benefício do Rei’. As implicações desta passagem são provocantes e intrigantes. Uma é a de que o Rei, ‘O Rei Perdido’, presumidamente da linhagem sanguínea Merovingia continua de fato a reinar, simplesmente em virtude de quem ele é. Uma outra, talvez até mesmo mais surpreendente, implicação é que os soberanos temporais estão cientes de sua existência, o reconhecem , o respeitam e o temem. Uma terceira implicação é que o Grão Mestre do Priorado de Sião, ou algum outro membro da Ordem, atua como embaixador entre o ‘Rei Perdido’ e seus substitutos temporais ou sub-rogados. E tais embaixadores, pareceria, são considerados descartáveis.

Curiosos planfletos na Biblioteca nacional em Paris

Em 1966 uma curiosa troca de cartas ocorreu relativa à morte de Leo Schidlof, o homem que, sob o pseudonimo de Henri Lobineau, era naquele tempo alegado ter composto as geneaologias em alguns documentos do Priorado. A primeira carta, que apareceu em Catholic Weekly de Genebra, é datada de 22 de outubro de 1966. Ela é assinada por um Lionel Burrus, que afirma falar em benefício de uma organização chamada Juventude Suiça Cristã. Burrus anuncia que Leo Schidlof, ou seja Henri Lobineau, morreu em Viena uma semana antes , em 17 de outubro. Ele então defende o defunto contra um ataque difamador, que, ele declara, apareceu em um recente boletim Católico Romano. Burrus registra sua indignação a este ataque. Eu seu elogio a Schidlof ele declara a carta, sob o nome de Lobineau, compilada em 1956, ‘um estudo notável… sobre a genealogia dos Reis Merovíngios e o caso de Rennes-le-Chateau’. Roma, avalia Burrus, não ousou caluniar Schidlof enquanto ele estava vivo, até mesmo embora tivesse um dossiê compreensivo sobre o homem e suas atividades. Mas até mesmo agora, a despeito de sua morte, os intereses merovíngios continuam a serem levados adiante. Para suportar esta avaliação, Burrus parece iluminar mais do que um pouco absurdo. Ele cita que, em 1966, era o emblema de Antar, uma das principais companhia de petróleo da França. Este emblema é dito incorporar um instrumento Merovíngio e apresenta, embora em um modo de cartoon, um rei Merovíngio. E este emblema, segundo Burrus, prova que a informação e propaganda em benefício dos Merovíngios está sendo efetivamente disseminada; e até mesmo o clérigo francês, ele acrescenta com imperfeita relevância, nem sempre pula em benefício do Vaticano. Quanto a Leo Schidlof, Burrus conclui [com ecos da Livre Maçonaria e do pensamento cátaro] ‘Para todos aqueles que conheciam Henri Lobineau, que foi um grande viajante e buscador, um homem leal e bom, ele permanece em nossos corações como um símbolo do ‘mestre perfeito que se respeita e venera.’

Esta carta de  Lionel Burrus pareceria ser distintamente estranha. Certamente ela é extremamente curiosa. Mais curioso ainda, contudo, é o alegado ataque a Schidlof em um boletim Católico Romano, do qual Burrus cita liberalmente. O boletim, segundo Burrus, acusou Schidlof de ser ‘pró-soviético, um notório Maçom Livre ativamente preparando o caminho para uma monarquia popular na França’. Esta é uma acusação singlar e aparentemente contraditória para alguém que geralmente não combina as simpatias soviéticas com uma tentativa de estabelecer uma monarquia. E ainda que o boletim, como Burrus afirma ao cita-lo, faça acusações até mesmo mais extravagantes: os descendentes Merovíngios tem sempre estado por trás de todas as heresias, do Arianismo, pelos cátaros e templários, a Livre Maçonaria. No início da Reforma Protestante, o Cardeal Mazarin, em julho de 1659, teve o castelo deles em Barberie, datando do século XII, destruído. Para a casa e família em questão, por todos os séculos, tem se semeado nada mais do que agitadores secretos contra a Igreja. Burrus não identifica especificamente o boletim Católico Romano no qual esta citação supostamente apareceu, então não pudemos verificar sua autenticidade. Se ele é autêntico, contudo, seria de importância considerável. Constituiria um testemunho independente, de fontes católico romanas, da destruição do Castelo Barberie em Nevers. Também pareceria sugerir, ao menos uma razão parcial de ser para o Priorado de Sião. Nos já tinhamos vindo a ver Sião, e as famílias citadas nele, como manobrando pelo poder em seu próprio benefício e no proceso repetidamente batendo de frente com a Igreja. Segundo a citação acima, contudo, a oposição a Igreja não pareceria ter sido uma questão de acaso, circunstâncias ou até mesmo política. Ao contrário, pareceria ter sido uma questão de política em andamento. Isto nos confrontou com uma outra contradição. Pelos estatutos do Priorado de Sião que tinham sido divulgados, ao menos ostensivamente, de uma instituição dedicadamente católica. Não muito depois da publicação desta carta, Lionel Burrus foi morto em um acidente de carro que matou outras seis vítimas também. Pouco antes de sua morte, contudo, sua carta provocou uma resposta até mesmo mais curiosa e provocante de que aquele que ele próprio havia escrito. Esta resposta foi publicada em um panfleto impresso particularmente sob o nome de S. Roux.

Em certos aspectos o texto de S. Roux pareceria ecoar o ataque original a Schidlof que causou a carta de Schidlof. Ele também acusa Burrus de ser jovem, super-zeloso, irresponsável e inclinado a falar demais. Mas enquanto parece condenar a posição de Burrus, o panfleto de Roux não apenas confirma os fatos, mas realmente elabora sobre eles. Leo Schidlof, S. Roux afirma, era um dignatário da Grande Loja Suiça Alpina, a grande loja maçonica que imprimiu certos Documentos do Priorado. Segundo S. Roux, Schidlof ‘não escondia seus sentimentos de amizade pelo Bloco Oriental’. E quanto as afirmações de Burrus sobre a Igreja, S. Roux continua: não se pode dizer que a Igreja seja ignorante da linhagem de Razes, mas deve ser lembrado que todos os seus descendentes, desde Dagoberto, tem sido agitadores secretos contra a linhagem real da França e contra a Igreja e que eles tem sido a fonte de todas as heresias. O retorno de um descendente Merovíngio ao poder compreenderia para a França a proclamação de uma monarquia popular aliada a URSS, e o triunfo da Livre Maçonaria; em resumo, o desaparecimento da liberdade religiosa. Se tudo isso soa muito mais do que extraodinário, as declarações conclusivas do panfleto de S. Roux são até mesmo ainda mais: Quanto a questão da propaganda Merovíngia na França, todo mundo sabe que a publicidade da Antar Petrol, com um rei Merovíngio sustentando um Lírio e um Círculo, é um apelo popular a favor do retorno dos Merovíngios ao poder. E não se pode mais que imaginar o que Lobineau estava preparando ao tempo de sua morte em Viena, ns vésperas das profundas mudanças na Alemanha. Não é também verdade que Lobineau preparou na Áustria um futuro acordo recíproco com a França? Não foi este a base do acordo franco-russo? Não surpreendetemente estavamos profundamente estupefatos, imaginando sobre o que, diabos, S. Roux estaria falando. Se algo, ele pareceu ter ultrapassado Burrus em falta de lógica. Como o boletim que Burrus havia atacado, S. Roux liga os objetivos políticos tão aparentemente diversos e discordantes quanto a hegemonia soviética e a monarquia popular. Ele vai mais adiante do que Burrus ao dizer que ‘todo mundo sabe que o emblema de uma companhia de petróleo seja uma forma sutil de propaganda para uma causa aparentemente desconhecida e absurda. Ele aponta para as abrangentes mudanças na França, Alemanha e Áustria como se estas mudanças já estivessem ‘nas cartas’, se não fatos consumados. E ele fala de um misterioso acordo franco-russo como se este acordo fosse um assunto de conhecimento público. A primeira leitura, o panfleto de S. Roux não parece fazer qualquer sentido. Um exame mais próximo nos convenceu que ele era, de fato, um outro engenhoso Documento do Priorado deliberadamente calculado para mistificar, confundir, atiçar e dar pistas de algo portentoso e monumental. Em qualquer caso isso ofereceu, de seu modo selvagemente excêntrico, uma intimação da magnitude dos assuntos envolvidos. Se S.Roux estava correto, o assunto da nossa pesquisa não estava confinado as atividades de alguma ordem cavaleiresca elusiva mas inócua dos dias recentes. Se S. Roux estivesse correto o assunto de nossa pesquisa pertencia de algum modo  aos escalões superiores da política internacional de alto nível.

Os Tradicionalistas Católicos

Em 1977 um novo e particularmente significante Documento do Priorado apareceu em um panfleto de seis páginas intitulado “O Cerco de Ulisses” escrito por um Jean Delaude. No curso de seu texto o escritor se dirige explicitamente ao Priorado de Sião. E embora ele reprocesse um material muito mais velho, ele também fornece certos detalhes novos sobre a Ordem: Em março de 1177 Bauduino foi compelido, em Saint Leonard de Acre, a negociar e preparar a constituição da Ordem do Templo, sob as diretivas do Priorado de Sião. Em 1118 a Ordem do Templo foi então estabelecida por Hugues de Payen. De 1118 a 1188 o Priorado de Sião e a Ordem do Templo partilhavam os mesmos Grão Mestres. Desde a separação das duas instituições em 1188, o Priorado de Sião tinha tido 27 Grão Mestres até os dias atuais. Os mais recentes eram: Charles Nodiers de 1801 a 1844; Vitor Hugo, de 1844 a 1885; Claude Debussy, de 1885 a 1918; Jean Cocteau de 1918 a 1963 e de 1963 até o advento da nova Ordem, o Abade Ducaud-Bourget. O que estava o Priorado de Sião preparando? Não sei, mas isso representa um poder capaz de confrontar o Vaticano nos dias a seguir. O Monsenhor Lefebvre é o mais ativo e terrrível membro, capaz de dizer: “Vocês me fazem Papa e eu lheis farei Rei”. HÁ dois novos fragmentos importantes de informação neste extrato. Um é a alegada afiliação ao Priorado de Sião do Arcebispo Marcel Lefebvre. Monsenhor Lefebvre com certeza, representa a ala extremamente conservadora da Igreja Católico Romana. Ele foi vociferantemente expressivo contra o Papa Paulo VI, a quem ele flagrante e excentricamente desafiou. Em 1976 e 1977, de fato, ele foi explicitamente ameaçado de excomunhão; e sua fervorosa indiferença a esta ameaça quae precipitou um cisma eclesiástico em escala completa. Mas como reconciliamos um  militante católico linha dura como Monsenhor Lefebvre com um movimento e uma Ordem que era hermética, se não claramente herética, em orientação? Parecia não haver explicação para esta contradição: a menos que Monsenhor Lefebvre fosse um representante dos dias modernos da Livre Maçonaria do século XIX associada com o Hieron du Val d’Or , a ‘Livre Maçonaria cristã, aristocrática e hermética’ que presumidamente se via como mais catolica que o Papa.

O segundo maior ponto no extrato citado acima é, com certeza, a identificação do Grão Mestre atual do Priorado do Sião como o Abade Ducaud-Bourget. François Ducaud-Bourget nasceu em 1897 e se treinou para o sacerdócio muito previsivelmente no Seminário de São Suspílcio. Ele portanto é provável de ter conhecido muitos dos Modernistas daquele tempo e, muito possivelmente, Emile Hoffet. Subsequentemente ele foi o Capelão do Convento da Soberana Ordem de Malta. Por suas atividades durante a Segunda Grande Guerra ele recebeu a Medalha da Resitência e a Cruz de Guerra. Hoje ele é reconhecido como um distinto homem de Letras e membro da Academia Francesa, um biógrafo de importantes escritores católicos franceses como Paul Claudel e Francois Mauriac, e altamente estimado por seu próprio direito. Como Monsenhor Lefebvre, o Abade Ducaud-Bourget assumiu uma posição de oposição militante ao Papa Paulo VI. Como o Monsenhor Lefebvre, ele é um aderente da Missa Tridentina. Como Monsenhor Lefebvre, ele tem se proclamado um ‘tradicionalista’, adamantemente se opondo a reforma eclesiástica ou qualquer tentativa de ‘modernizar’ o catolicismo romano. Em 22 de maio de 1976 ele foi proibido de administrar a confissão e a absolvição e, como Monsehor Lefebvre, ele claramente desafiou a interdição imposta a ele por seus superiores. Em 27 de fevereiro de 1977 ele liderou mil tradicionalistas católicos em sua ocupação da Igreja de Saint-Nicolas-du-Chardonnet em Paris. Se Marcel Lefebvre e François Ducaud-Bourget parecem ser de ‘ala direita’ teologicamente, eles assim o seriam igualmente politicamente. Antes da Segunda Grande Guerra, Monsenhor Lefebvre estava associado com a Ação Francesa, a extrema direita da política francesa naquele tempo, que partilhava de certas atitudes em comum com o Nacional Socialismo na Alemanha. Mais recentemente o ‘arcebispo rebelde’ atrai considerável notoriedade por calorosamente endossar o regime militar na Argentina. Quando questionado sobre sua posição, ele respondeu que tinha cometido um engano. Ele não queria dizer Argentina, mas Chile! François Ducaud-Bourget não parece ser tão extremo; e suas medalhas, a qualquer nível, atestam a atividade patriótica anti-germanica durante a guerra. Não obstante, ele tem expressado uma alta consideração por Mussolini, e a esperança que a França “recupere seu senso de valores sob a orientação de um novo Napoleão’. Nossa primeira suspeita era que  Marcel Lefebvre e François Ducaud-Bourget não eram, de fato, afiliados ao Priorado de Sião, mas que alguém tenha tentado embaraça-los ao alinha-los as mesmos forças que eles, na teoria, mais vigorosamente se opõem. Ainda que segundo os estatutos que temos obtido da polícia francesa, o sub-título do Priorado de Sião fosse Cavalaria das Instituições das Regras Católicas da União Independente e Tradicionalista.

Uma instituição com um tal nome pode muito bem acomodar indivíduos como Marcel Lefebvre e François Ducaud Bourget. Pareceu-nos uma segunda explicação possível, uma explicação muito distanciada admitidamente, mas uma que ao menos responderia pela contradição com a qual os confrontávamos. Talvez Marcel Lefebvre e François Ducaud Bourget não fossem o que pareciam ser. Talvez eles fossem algo mais. Talvez, na realidade, eles fossem agentes provocadores cujo objetivo era sistematicamente criar o turbilhão, a dissenção, fomentar um cisma incipiente que ameaçasse o pontificado do Papa Paulo VI. Tais táticas estariam de acordo com as sociedades secretas descritas por Charles Nodier, bem como nos Protocolos dos Sábios de Sião. E um número de comentadores recentes – jornalistas, bem como autoridades eclesiásticas – tem declarado que o Arcebispo Lefebvre estaria trabalhando para, ou sendo manipulado, por alguém mais. Tão adiantada quanto possa ser a nossa hipótese, há uma lógica coerente subjacente a ela. Se o Papa Paulo VI fosse visto como um inimigo, e alguém quisesse força-lo a uma posição mais liberal, como conseguir isso? Não pela agitação de um ponto de vista liberal. Isto somente teria afirmado o papa mais firmemente em seu conservadorismo. Mas que tal se alguém adotasse uma posição até mesmo mais raivosamente conservadora que a do Papa Paulo VI? Isto não o forçaria, a despeito de seus desejos ao contrário, a uma posição crescentemente liberal? E o que, certamente é o que o Arcebispo Lefebvre e seus colegas realizaram o feito sem precedentes de lançar o Papa como um liberal. Se as nossas conclusões são ou não válidas, pareceu claro que o Arcebispo Lefebvre, como tantos outros indivíduos em nossa investigação, era conhecedor de algum segredo momentoso e explosivo. Em 1976, por exemplo, sua excomunhão parecia eminente. A imprensa, de fato, a estava esperando para qualquer dia, pelo Papa Paulo VI, confrontado pelo desafio abrasado e repetido, que parecia não ter alternativa. Ainda que, no último minuto, o Papa recuasse. Ainda não está claro porque ele precisamente assim o fez, mas o seguinte trecho do ‘Guardian’, datado de 30 de agosto de 1976 sugere uma pista: ‘A equipe de sacerdotes do Arcebispo na Inglaterra… acredita que seu líder ainda tenha uma poderosa arma eclesiástica a usar em sua disputa com o Vaticano. Ninguém dá uma pista de sua natureza, mas o Padre Peter Morgan, o líder do grupo… a descreve como sendo algo ‘abalador da Terra’. Que tipo de assunto ‘abalador da Terra’ ou ‘arma secreta’ pode então intimidar o Vaticano? Que tipo de espada de Damocles, incisível ao mundo ao largo, podia estar sendo mantida sobre a cabeça do pontifice?  Seja o qe fosse, certamente parece ter se mostrado eficaz. Parece, de fato, ter deixado o arcebispo inteiramente imune da ação punitiva de Roma. Como escreveu Jean Delaud, Marcel Lefebvre de fato pareceu “representar um poder capaz de confrontar o Vaticano diretamente, se necessário. Mas para quem ele alegadamente disse ou dirá: ‘Faça-me Papa e eu o farei Rei’?

O Convento de 1981 e os Estatutos de Cocteau

Mais recentemente, algumas das matéria que cercam François Ducaud-Bourget parecem ter sido esclarecidas. Este esclarecimento tem resultado de um súbito da publicidade que o Priorado de Sião, durante 1980 e 1981, tem recebido na França. Esta publicidade tem feito disso algo de um nome familiar. Em agosto de 1980 a revista popular Bonne Soiree, um tipo de amálgama entre o suplemento British Sunday e o Guia Americano de TV,publicou uma apresentação em duas partes sobre o mistério de Renes-le-Chateau e o Priorado de Sião. Nesta apresentação Marcel Lefebvre e François Ducaud-Bourget são explicitamente ligados ao Sião. Ambos são ditos terem feito uma visita recente a um dos sítios sagrados de Sião, a vila de Sainte-Colombe em Nevers, onde o domínio Plantard do Castelo de Barberie estava situado antes de sua destruição pelo Cardeal Mazarin em 1659. Por este tempo nós mesmos tinhamos estabelecido por telefone e contacto postal com o Abade Ducaud-Bourget. Ele se provou bastante cortês. Mas suas respostas a maioria de nossas perguntas eram vagas, senão evasivas; e, não surprendentemente, ele desaprovou toda afiliação ao Priorado de Sião. Esta desaprovação foi reiterada em uma carta que, pouco depois, ele dirigiu a Bonne Soiree.

Em 22 de janeiro de 1981 um curto artigo apareceu na imprensa francesa, do qual vale a pena citar a maior parte: “uma real sociedade secreta de 121 dignatários, o Priorado de Sião, fundada por Godfroi de Bouillon em Jerusalém em 1099, tem numerado entre seus Grão Mestres Leonardo da Vinci, Victor Hugo e Jean Cocteau. Esta Ordem reuniu-se em sua convenção em Blois em 17 de janeiro de 1981 [a prévia convenção datando de 5 de junho de 1956, em Paris]. Como resultado desta recente convenção em Blois, Pierre Plantard de Saint-Clair foi eleito Grão Mestre da Ordem por 83 dos 93 votos na terceira votação. Esta escolha do Grão Mestre marca um passo decisivo na evolução da concepção da Ordem e o espírito em relação ao mundo; porque todos os 121 dignatários do Priorado de Sião são todos eminências pardas das altas finanças e da política internacional ou sociedades filosóficas; e Pierre Plantard é um descendente direto, por Dagoberto II, dos reis Merovíngios. Sua descendência tem sido provada legalmente pelos pergaminhos da Rainha Blanche de Castilha, descobertos pelo Abade Sauniere em sua Igreja em Rennes-le-Chateau [rude] em 1891. Estes documentos foram vendidos pela sobrinha do sacerdote em 1965 ao Capitão Roland Stanmore e Sir Thomas Frazer, e foram depositados em um cofre de segurança do ‘Lloyds Bank Europe Limited of London’.”‘

Pouco antes desse item aparecer na imprensa , tinhamos escrito a Philippe de Cherisey, com o qual já haviamos estabelecido contacto e cujo nome figurava tão frequentemente quanto o de Pierre Plantard como um portavoz para o Priorado de Sião. Em resposta a uma das perguntas que fizemos a ele, M. de Cherisey declarou que François Ducaud-Bourget não tinha sido eleito Grão Mestre por um córum apropriado. Sobretudo, ele declarou, o Abade Ducaud-Bourget tinha publicamente repudiado sua afiliação a Ordem. Esta última avaliação pareceu não clara. Fez mais sentido, contudo, no contexto de algo que M. de Cherisey incluiu em sua carta. Algum tempo antes, tinhamos obtido da sub-prefeitura de Saint-Julien, os estatutos do Priorado do Sião. Uma cópia destes mesmos estatutos tem sido publicada em 1973 por uma revista francesa. Contudo, nos tem sido dito em Paris por Jean Luc Chaumiel que estes estatutos eram fraudulentos. Nesta carta M. de Cherisey incluiu uma cópia do que ele disse serem os verdadeiros estatutos do Priorado do Sião traduzidos do latim. Estes estatutos tem a assinatura de Jean Cocteau; e a menos que eles tenham sido executados por um falsificador muito talentoso, a assinatura era autêntica. Certamente não podemos distingui-la de outros espécimens da assinatura de Cocteau. Sob esta base, estamos inclinados a aceitar os estatutos nos quais a asssinatura está apensada como genuínos. Eles são estabelecidos como se segue:

Artigo Um – é formada entre os que assumam esta presente constituição e aqueles que devem subsequentemente se unir e cumprir as seguintes condições, uma ordem iniciática de cavalaria, cujos usos e costumes repousam sobre a fundação feita por Godfroi VI, chamado Pioi, Duque de Bouillon, em Jerusalém em 1099 e reconhecido em 1100.
Artigo Dois – A ordem é chamada ‘Sionis Prioratus’ ou “Priorado de Sião’.
Artigo Três – O Priorado de Sião tem como seu objetivo a perpetuação da ordem tradicionalista de cavalaria, seu ensino iniciático e a criação entre os membros de assistência mútua, tanto moral quanto material, em todas as circunstâncias.
Artigo Quatro – A duração do Priorado de Sião é ilimitada.
Artigo Cinco – O Priorado de Sião adota, como seu ofício representativo, o domicílio do Secretário Geral nomeado pela Convenção. O Priorado de Sião não é uma sociedade secreta. Todos os seus decretos, bem como seus registros e compromissos, estão disponíveis ao público no texto em latim.
Artigo Seis – O Priorado de Sião compreende 121 membros. Dentro destes limites, é aberto a todas as pessoas adultas que reconhecem suas metas e aceitam as obrigações especificadas na presente constituição. Os membros são admitidos sem consideração a sexo, raça ou idéias filosóficas, políticas e religiosas.
Artigo Sete – Não obstante, no caso que um membro deva designar na escrita um de seus descendentes para sucede-lo, a convenção deve aceder a esta solicitação e pode, se necessário, no caso de menor idade, assumir a educação do acima designado.
Artigo Oito – Um futuro membro deve fornecer, para sua iniciação no primeiro grau, um robe branco com uma corda, a sua própria custa. Pelo tempo de sua admissão no primeiro grau, o membro mantém o direito de voto. Na admissão o novo membro deve jurar servir a Ordem em todas as circunstâncias, bem como trabalhar pela Paz e o respeito pela vida humana.
Artigo Nove – Em sua admissão o membro deve pagar uma taxa simbólica. a quantidade sendo discricionária. A cada ano ele deve enviar ao Secretário Geral uma contribuição vountária para a Ordem, a quantida sendo decidida por ele mesmo.
Artigo Dez – Na admissão o membro deve fornecer um certificado de nascimento e um espécimen de sua assinatura.
Artigo Onze – Um membro do Priorado do Sião contra o qual uma sentença tenha sido pronunciada em um tribunal por uma ofensa a lei comum pode ser suspenso de seus deveres e títulos bem como de sua afiliaçao.
Artigo Doze – A assembléia geral de membros é quem designa a convenção. Nenhuma deliberação na convenção deve ser considerada válida se o número de membros presentes é menos de 81. O voto é secreto e é dado por meio de bolas brancas e pretas. A ser adotado, todas as moções devem receber 81 bolas brancas. Todas as moções que não receberem 81 bolas brancas em um voto não podem ser re-submetidas.
Artigo Treze – A Convenção do Priorado de Sião sozinha decide, com uma maioria de 81 votos dos 121 membros, todas as mudanças na constituição e o regulamento interno do cerimonial.
Artigo Quatorze – Todas as admissões devem ser decididas pelo Conselho dos 13 Rosacruz. Títulos e deveres devem ser conferidos pelo Grão Mestre do Priorado de Sião. Os membros são admitidos por seu ofício para a vida. Seus títulos revertem por direito a um de seus filhos escolhido por eles sem consideração de sexo. O filho assim designado pode fazer um ato de renúncia de seus direitos, mas não pode transferir este ato a favor de um irmão, irmã, parente ou outra pessoa. Ele não pode ser readmitido pelo Priorado de Sião.
Artigo     Quinze – Dentro de 27 dias completos, dois membros serão solicitados para contactarem um futuro membro para obter seu consentimento ou sua renúncia. No caso de um dever de aceitação depois de um período de reflexão de 81 dias completos, a renúncia deve ser legalmente formalizada
Artigo Dezesseis – Em virtude do direito hereditário confirmado pelos artigos precedentes, os deveres e títulos de Grão Mestre do Priorado de Sião devem ser transmitidos ao seu sucessor segundo as mesmas prerrogativas. Em caso de vacância do ofício de Grão Mestre, e na ausência de um sucessor direto, a convenção deve realizar uma eleição por três anos, renováveis por consentimento tácito.
Artigo Dezessete – Todos os decretos devem ser votados pela Convenção e receberem validação pelo selo do Grão Mestre. O Secretário Geral é nomeado pela Convenção por três anos, renováveis por consentimento tácito. O Secretário Geral deve ter o Grau de Comandante para realizar seus deveres. As funções e deveres não são pagas.
Artigo Dezoito – A hierarquia do Priorado de Sião é composta de cinco graus:
primeiro Nautonnier número :1
Arche de segundo Cruzado número:313
RosaCruz terceiro coamandante número:9
quarto cavaleiro número:27
o nono quinto escudeiro número: 81 comandos
número total:121 do Templo

Artigo Dezenove – Há 243 Irmãos Livres, chamados Preux, ou, desde o ano de 1681, Filhos de São Vicente que não participam  dos votos e nem das Convenções mas aos quais o Priorado de Sião concede certos direitos e privilégios de conformidade com o decreto de 17 de janeiro de 1681.
Artigo Vinte – Os fundos do Priorado do Sião são compostos de doações e taxas de seus membros. Uma reserva, chamada ‘patrimonio da Ordem’ é estabelecida pelo Conselho dos 13 Rosacruz. Este tesouro só pode ser usado no caso de absoluta necessidade e grave perigo ao Priorado de Sião e seus membros.
Artigo Vinte e Um – A Convenção é convocada pelo Secretário Geral quando o Conselho dos Rosacruz julgue isso útil.
Artigo Vinte e Dois –  A desaprovação da afiliação no Priorado de Sião, manifestada publicamente e por escrito, sem causa ou perigo pessoal, deve incorrer na exclusão do membro, que deve ser pronunciada pela Convenção.

O texto da constituição em vinte e dois artigos segundo o texto original e as modificações de 5 de junho de 1956. A assinatura do Grão Mestre Jean Cocteau. Em certos detalhes, estes estatutos são diferentes dos estatutos que recebemos da policia francesa e da informação relacionada ao Sião nos Documentos do Priorado. O último mostra um total de afiliação de 1.093, o anterior de 9.841. Segundo os artigos citados acima, a afiliação total de Sião, incluindo os 243 Filhos de São Vicente, é de apenas 364. Os Documentos do Priorado, sobretudo, estabelecem uma hierarquia de sete graus. Nos estatutos que recebemos da policia francesa esta hierarquia se expande para nove. Segundo os artigos citados acima há apenas cinco graus na hierarquia. E as apelações específicas destes graus diferem também das fontes anteriores.

Estas contradições bem podem ser a evidência de algum tipo de cisma, ou cisma incipiente, dentro do Priorado de Sião, datando por volta de 1956 quando os Documentos do Priorado pela primeira vez começaram a aparecer na Biblioteca Nacional. E de fato,  Philippe de Cherisey alude justamente a um tal cisma em um artigo recente. Ele ocorreu entre 1956 e 1958, ele diz, e ameaçou assumir as proporções de rachadura entre Sião e a Ordem do Templo em 1188, marcada pelo ‘corte do elmo’. Segundo Cherisey, o cisma foi evitado pelo talento diplomático de M. Plantard, que trouxe os potenciais desertores de volta ao grupo. Em qualquer caso, e seja qual for a política interna do Priorado de Sião, a Ordem, como da Convenção de janeiro de 1981, pareceria constituir um todo unificado e coerente.

Se François Ducaud-Bourget foi Grão Mestre do Priorado de Sião, pareceria claro que ele não o era no presente. Cherisey declarou que ele não tinha sido eleito pelo córum necessário. Isto pode significar que ele foi eleito pelos incipientes cismáticos. É incerto se ele está sujeito a [ou em violação do] artigo vinte e dois dos estatutos. Podemos assumir que sua afilação ao Sião, seja qual for que possa ter sido no passado, não mais existe. Os estatutos citados podem parecer esclarecer o status de François Ducaud-Bourget. Eles deixam claro, de qualquer modo, o princípio de seleção que governa os Grão Mestres do Priorado de Sião. Agora é compreensível porque o Grão Mestrado deva passar, como o faz, para dentro e para fora de uma particular linhagem sanguínea e rede interligada de genealogias. A princípio, deveria ser hereditário, transmitido através dos séculos por um agrupamento interligado de famílias afirmando descendência Merovíngia. Onde não há um reclamante elegível, contudo, ou quando o designado declina o status oferecido a ele, o Grão Mestrado, presumivelmente de acordo com os procedimentos ressaltados no estatutos, era conferido a um externo escolhido. Seria nestas bases que indíviduos como Leonardo, Newton, Nodier and Cocteau encontraram seu caminho na lista.

M. Plantard de Saint-Clair

Entre os nomes que figuravam mais proeminente e recorrentemente nos vários Documentos do Priorado estava aquele da família Plantard. E entre os numreosos indivíduos associados ao mistério de Sauniere e de Rennes-le-Chateau o mais autoritativo pareceu ser o de Pierre Plantard de Saint-Clair. Segundo as genealogias nos Documentos do Priorado, M. Plantard é um descendente linear do Rei Dagoberto II e da dinastia Merovíngia. Segundo as mesmas genealogias, ele é também um descendente linear dos proprietários do Castelo Barberie, a propriedade destruída pelo Cardeal Mazarin em 1659. Por todo o curso da pesquisa temos repetidamente encontrado o nome de M. Plantard. De fato, até onde diga respeito a liberação de informação durante dos últimos vinte e cinco anos, todas as trilhas parecem levar ultimamente a ele. Em 1960, por exemplo, ele foi entrevistado por Gerard de Sede e falou de ‘um segredo internacional’ escondido em Gizors. Durante a subsequente década ele parece ter sido uma maior fonte de informação para os livros de de Sede sobre Gizors e Rennes-le-Chateau. Segundo revelações recentes, o avô de M. Plantard era um conecido pessoal de Berenger Sauniere. E o próprio M. Plantard provou possuir um número de tratos de terra nas vizihanças de Rennes-le-Chateau e Rennes-le-Bains, incluindo a montanha de Blanchefort. Quando nós entrevistamos o antiquário do centro em Stenay, em Arennes, nos foi dito que o sítio da Velha Igreja de São Dagoberto também era de propriedade de M. Plantard. E segundo os estatutos que obtivemos da polícia francesa, M.  Plantard estava listado como Secretário Geral do Priorado de Sião. Em 1973 uma revista francesa publicou o que parece ser uma transcrição de uma entreista telefonica com M. Plantard. Não surpreendentemente ele não disse muita coisa. Como pode ser esperado, suas declarações foram alusivas, crípticas e de elevação provocante, de fato, mais perguntando do que respondendo. Assim, por exemplo, quando falava da linhagem sanguinea Merovíngia e duas afirmações reais, ele declarou, ‘você deve explorar as origens de certas grandes famílias francesas e você então compreenderá como um personagem chamado Henri de Montpezat pode um dia se tornar rei’. E quando perguntado sobre os objetivos do Priorado de Sião, M. Plantard respondeu de uma maneira cuja evasividade era previsível. ‘Não posso dizer a você isso. A sociedade a que estou ligado é extremamente antiga. Meramente sucedi outros, um ponto em uma sequência. Somos os guardiães de certas coisas. E sem publicidade.’

A mesma revista francesa também publicou um esquete de M.Plantard, escrito por sua primeira esposa, Anne Lea Hisler, que morreu em 1971. Se a revista é para ser acreditada, este esquete apareceu pela primeira vez na revista CIRCUIT, a própria publicação interna do Priorado de Sião para a qual é dito que M. Plantard tenha escrito regularmente sob o pseudônimo de Chyren: ‘Não vamos nos esquecer que este psicólogo foi amigo de personagens tão diversas quanto o Conde Israel Monti, um dos irmãos de Holy Vehm, Gabriel Trarieux d’Egmont, um dos treze membros da Rosacruz, Paul Lecour, o filósofo sobre a Atlântida, o Abade Hoffet do Serviço de Documentação do Vaticano,  Th. Moreaux, o diretor do Conservatório em  Bourges, etc. Vamos lembrar que durante a Ocupação, ele foi preso, sofreu tortura pela Gestapo e foi internado como um prisioneiro político por longos meses. Em sua capacidade de doutor nas ciências arcanas, ele aprendeu a apreciar o valor da informação secreta, que sem dúvida o levou a receber o título de membro honorário de várias sociedades herméticas. Tudo isso foi a formar uma personagem singular, um místico da paz, um apóstolo da liberdade, um asceta cujo ideal é servir ao bem estar da humanidade. Portanto é perplexante que ele deva se tornar uma das eminências pardas das quais este mundo busca o conselho? Convidado em 1947 pelo Governo Federal da Suiça, ele residiu por vários anos lá, perto do Lago Uman, onde númerosas cargas de missões e delegados do mundo inteiro são reunidos.’ Madame Hisler indubitavelmente pretendia que este fosse um brilhante retrato. Os torna vaga e parabólica. Sobretudo, as diversas pessoas listadas como distinguidos conhecidos de M. Plantard são, para dizer o mínimo, um grupo muito estranho.

Por outro lado, os contratempos de Plantard com a Gestapo pareceriam apontar para alguma ação louvável durante a Ocupação. E nossas próprias pesquisas eventualmente tiveram a evidência documental. Já em 1941 Pierre Plantard tiha começado a editar o jornal de Resistência Vaincre, publicado em um subúrbio de Paris. Ele foi aprisionado pela Gestapo por mais de um ano, de outubro de 1943 até o fim de 1944. Os amigos e associados de Plantard provaram incluir indivíduos muito mais conhecidos do que aqueles listados por Madame Hisler. Eles incluiam Andre Malraux e Charles de Gaulle. De fato as ligações de Plantard aparentemente se estendiam bem nos corredores do poder. Em 1958, por exemplo, a Algeria se levantou em revolta e o General de Gaulle  conseguiu retornar a presidência da França. Ele parece ter se voltado especificamente a M. Plantard por ajuda. M. Plantard, junto com Andre Malraux e outros, parecem ter respondido ao mobilizar os chamados ‘Comitês de Segurança Pública’ que desempenharam um papel crítico para o retorno de de Gaulle ao Palácio Elysee. Em uma carta datada de 29 de julho de 1958, de Gaulle pessoalmente agradeceu a Plantard os seus serviços. Em uma segunda carta, datada de cinco dias mais tarde, o General requisitou a Plantard que os Comitês, tendo atingido seu objetivo, fossem debandados. Por um comunicado oficial na imprensa e no rádio Plantard dissolveu os comitês. É desnecessario dizer, nos tornamos crescentemente ansiosos, na medida em que progredia a nossa pesquisa, em fazer conhecimento com Plantard. A primeira vista não havia muita possibilidade de se o fazer, contudo, Plantard pareceu ser não rastreável e parecia não haver meio pelo qual nós, como indivíduos particulares, pudessemos possivelmente localiza-lo. Então, durante o ínício da primavera de 1979, embarcamos em outro filme sobre Rennes-le-Chateau para a BBC, que colocou os recursos dela a nossa disposição. Foi sob os auspícios da BBC que afinal conseguimos estabelecer contacto com Plantard e o Priorado de Sião.

As pesquisas iniciais foram realizadas por uma inglesa, uma jornalista vivendo em Paris, que trabalhava em vários projetos para a BBC e havia adquirido uma imponente rede de ligações pela França, através da qual ela tentou localizar o Priorado de Sião. De início, seguindo sua busca pelas lojas maçonicas e a sub-cultura esotérica parisiense, ele encontrou a previsível tela de fumaça de mistificação e contradição. Um jornalista a avisou, por exemplo, que qualquer um sondando Sião tão estreitamente mais cedo ou mais tarde seria morto. Um outro jornalista disse a ela que Sião de fato existiu durante a Idade Média, mas não existia mais hoje em dia. Um oficial da Grande Loja Alpina, por outro lado, relatou que Sião existia hoje, mas era uma organização moderna que nunca tinha existido no passado, ele disse. Tecendo seu caminho por este tumulto de confusão, nossa pesquisadora afinal estabeleceu contacto com Jean Luc Chaumiel que havia entrevistado Plantard para uma revista e escrito extensamente sobre Sauniere, Rennes-le-Chateau e o Priorado de Sião. Ele próprio não era um membro do Sião , disse Chaumiel, mas podia contactar Plantard e possivelmente arranjar um encontro para nós. Neste meio tempo, ele forneceu a nossa pesquisadora fragmentos adicionais de informação. Segundo Chaumiel, o Priorado de Sião não era, falando estritamente, uma sociedade secreta. Ela meramente deseja ser discreta sobre sua existência, suas atividades e sua afiliação. A entrada no Journal Officiel, M. Chaumeil declarou, era espúria, colocada lá por certos ‘membros desertores’. Chaumiel confirmou nossa suspeita que Sião entretivesse ambiciosos planos políticos para um futuro próximo. Dentro de poucos anos, ele avaliou, haverá uma mudança dramática no governo francês, uma mudança que pavimentará o caminho para uma monarquia popular com um governante Merovíngio no trono. E Sião, ele avaliou posteriormente, estaria por trás desta mudança como tem estado por trás de numerosas outras mudanças importantes por séculos. Segundo Chaumiel, Sião era anti-materialista e pretende presidir a restauração dos ‘verdadeiros valores’; estes valores pareceriam serem espirituais, talvez de caráter esotérico. Estes valores, explicou Chaumiel, eram ultimamente pré cristãos a despeito da ostensiva orientação cristã de Sião, a despeito da ênfase católica em seus estatutos.

M. Chaumeil também reiterou que o Grão Mestre de Sião naquele tempo era François Ducaud-Bourget. Quando perguntado como o mais recente tradicionalismo católico podia ser reconciliado com os valores pré cristãos, Chaumiel respondeu cripticamente que teriamos que perguntar ao próprio Abade Ducaud-Bourget. Chaumiel enfatizou a antiguidade do Priorado de Sião bem como o a largura de sua afiliação. Ele incluia, ele disse, membros de todas as esferas da vida. Seus objetivos, ele acrescentou, não estavam exclusivamente confinados a restaurar a linhagem sanguinea Merovíngia. E a este ponto, Chaumiel fez uma curiosa declaração a nossa pesquisadora. Nem todos os membros do Priorado eram judeus. A implicação deste aparente non sequitur é óbvia que membros da Ordem, se não de fato muitos, são judeus. E novamente fomos confrontados com uma surpreendente contradição. Até mesmo se os estatutos fossem espúrios, como podemos reconciliar uma Ordem com afiliação judaica e um Grão Mestre que abraçou o extremo tradicionalismo católico e cujos amigos incluem Marcel Lefebvre, um homem conhecido por declarações que beiram o anti-semitismo? Chaumiel fez outras declarações perplexantes também. Ele falou, quanto a linhagem sanguinea Merovíngia e cuja ‘missão sagrada era portanto óbvia’. Esta avaliação é ainda mais perplexante porque não há um Príncipe de Lorraine conhecido hoje, nem mesmo um titular. Estava Chaumiel implicando que de fato exista um tal príncipe, vivendo talvez incógnito? Ou ele queria dizer um ‘príncipe’ em um sentido mais amplo de ação? Neste caso, o presente príncipe [como oposto ao príncipe] de Lorraine é o Dr. Otto von Habsburg, que é o titular duque de Lorraine. No todo, as respostas de Chaumiel eram menos respostas do que bases para futuras perguntas e a nossa pesquisadora, no curto tempo de preparação permitido a ela, não sabia precisamente que perguntas fazer. Ele fez um considerável progresso, contudo, ao ressaltar o interesse da BBC no assunto; porque a BBC, no continente, desfruta de consideravelmente mais prestígio do que ela o tem na Bretanha e ainda é um nome a ser conjurado. Em consequência a perspectiva do envolvimento da BBC não foi tomado superficialmente. Propaganda é uma palavra forte demais, mas um filme da BBC que anfatisasse e autenticasse certos fatos certamente teria sido um meio atraente de ganhar credencial e criar um clima psicologico ou atmosfera, especialmente no mundo de lingua inglesa. Se os Merovíngios e o Priorado de Sião se tornassem aceitos como ‘dados históricos’ ou geralmente reconhecidos fatos como, digamos, a Batalha de  Hastings ou o assassinato de Thomas a Becket isto patentemente teria sido para a vantagem de Sião. Foi indubitavelmente tais considerações que levaram Chaumiel a telefonar para Plantard.

Eventualmente em março de 1979, o nosso produtor, Roy Davies e seu pesquisador funcionando como ligação, um encontro foi arrranjado entre Plantard e nós. Quando isso ocorreu, tinha algo de um encontro entre os padrinhos da Máfia. Ele foi realizado em ‘solo neutro’ em um cinema de Paris alugado pela BBC para a ocasião, e todas as partes foram acompanhdas por uma entourage. Plantard provou ser um digno e cortês homem de discreta origem aristocrática, sem ser ostentoso na aparência, com uma maneira de falar graciosa, volátil e suave. Ele apresentou enorme erudição e uma imprenssionante agilidade mental, um dom para o seco, inteligente, travesso mas não de qualquer modo barbado repratriado. Havia frequentemente um piscar indulgente, gentilmente divertido, em seus olhos, uma qualidade quase avuncular. Por todo seu modo modesto, não assertivo, ele exercia uma autoridade imposta sobre seus companheiros. E havia uma marcada qualidade de ascetismo e austeridade sobre ele. Ele não ostentava qualquer riqueza. Sua aparência era conservadora, saborosa, despreocupadamente informal mas nem ostensivamente elegante nem manifestamente cara. Até onde pudemos reunir, ele nem mesmo dirigia um carro. Em nosso primeiro encontro, e nos dois subsequentes com ele, Plantard deixou claro para nós que ele nada diria seja o que fosse sobre as atividades de Sião ou seus objetivos no presente tempo. Por outro lado, ele se ofereceu para responder qualquer pergunta sobre  a história passada da Ordem. E embora ele se rcusasse a discutir o futuro em qualquer declaração pública ou filme, por exemplo – ele nos concedeu algumas pistas durante a conversa. Ele declarou, por exemplo, que o Priorado de Sião  de fato mantém o tesouro perdido do Templo de Jerusalém; o botim saqueado pelas legiões romanas de Tito em 70 de nossa era. Ests itens, ele afirmou, deveriam retornar a Israel ‘quando for o tempo certo’.

Mas seja qual for a importância histórica, arqueológica ou até mesmo política deste tesouro, Plantard a descartou como incidental. O verdadeiro tesouro, ele insistiu, era ‘espiritual’. E ele implicou que este ‘tesouro espiritual’ consistia, ao menos em parte, em um segredo. De algum modo não especificado o segredo em questão facilitaria uma maior mudança social. Plantard ecoou Chaumiel ao declarar que, em um futuro próximo, haveria um dramático levante na França, se não uma revolução, mas uma mudança radical nas instituições francesas que pavimentariam o caminho para a reinstalação de uma monarquia. Esta avaliação não foi feita em tom profético. Ao contrário, Plantard simplesmente nos assegurou isso, muito discretamente, muito como matéria de fato e muito definitivamente.  No discurso de Plantard há certas curiosas inconsistências. As vezes, por exemplo, quando ele pareceu estar falando em benefício do Priorado de Sião, dizia ‘nós’ e portanto indicava a Ordem. Em outras vezes, ele pareceria se distanciar da Ordem e falaria dele próprio, sozinho, como um afirmante Merovíngio, um rei por direito, e Sião como seus aliados e apoiadores. Parecia que estávamos ouvindo duas vozes distintas que nem sempre eram compatíveis. Uma das vozes era a do Secretário Geral do Sião. A outra era a do rei incógnito que ‘reina mas não governa’ e que via Sião como um tipo de conselho particular. Esta dicotmomia entre as duas vozes nunca foi satisfatoriamente resolvida e Plantard não pode ser prevalecido para explicar isso. Depois de três encontros com Plantard e seus associados, não estávamos significativamente mais sábios do que tinhamos estado antes. Fora os Comitês de Segurança Pública e s cartas de Charles de Gaulle, não recebemos indicação da influência política ou poder de Sião, ou que os homens que tinhamos encontrado estivessem em qualquer posição de transformar o governo e as instituições da França. E não recebemos qualquer indicação de porque a linhagem sanguínea Merovíngia devia ser tomada muito mais seriamente do que as várias outras tentativas de restaurar qualquer outra dinastia real.  Há vários reclamantes Stuart ao trono britânico, or exemplo, e suas declarações, ao menos no que diz respeito aos modernos historiadores, repousam em uma base mais sólida do que aquela dos Merovíngios. Para este assunto, há numerosos outros reclamantes às coroas vacantes e tronos pela Europa; e há membros sobreviventes das dinastias dos Bourbon, Habsburg, Hohenzollern e Romanov.

Porque eles devem receber menos credibilidade do que os Merovíngios? Em termos de ‘legitimidade absoluta’ e de um ponto de vista puramente técnico, a afirmação Merovíngia deve de fato tomar precedência. Mas o assunto pareceria ser academico no mundo moderno; tão academico quanto, digamos, os contemporaneos irlandeses se provarem descendentes dos Altos Reis de Tara. Novamente consideramos descartar o Priorado de Sião como uma seita menor ‘marginal lunática’ se não como uma completa farsa. E ainda que toda nossa pesquisa tenha indicado que a Ordem, no passado, tinha um poder real e estado envolvida nos assuntos de importancia internacional de alto nível. Até mesmo hoje há mais sobre isto do que encontra o olho. Nada há de mercenário sobre isso, por exemplo, ou explorador de qualquer modo. Assim o tivesse desejado Plantard, ele podia ter virado o Priorado de Sião em um caso altamente lucrativo como muitos outros cultos ‘new age’ em moda, seitas e instituições. Ainda que os mais primários Documentos do Priorado permanecessem confinados a impressões particulares. E o próprio Sião não solicitou recrutas nem mesmo do modo que uma loja maçonica o faz. Sua afiliação, até onde pudemos determinar, permanece rigorosamente fixada em um número preciso, e novos membros foram admitidos apenas quando ocorreram vagas. Tal exclusividade atestou, entre outras coisas, que ele já tinha uma auto-confiança, uma certeza que ele simplesmente não precisava arrolar enxames de noviços para ganho financeiro ou qualquer outra razão. Em outras palavras, já havia algo acontecendo para isso, algo que parece ter alistado a lealdade de homens como Malraux e de Gaulle. Mas podemos seriamente acreditar que homens como Malraux e de Gaulle pretendessem restaurar a linhagem sanguinea Merovíngia?

A Política do Priorado de Sião

Em 1973 foi publicado um livro intiulado ‘As Sub-correntes de uma Ambição Política”. Este livro, escrito por um jornalista suíço chamado Mathieu Paoli, reconta as exaustivas tentativas do autor de investigar o Priorado de Sião. Como nós, Paoli eventualmente estabeleceu contacto com um representante da Ordem que ele não identifica pelo nome. Mas Paoli não tinha o prestígio da BBC por trás dele, e o representante com o qual ele se encontrou, se podemos nos basear em sua narrativa, pareceria ter um status menor que o de Plantard. Nem era um representante tão comunicativo quanto Plantard foi conosco. Ao mesmo tempo, Paoli, estando baseado no continente e desfrutando de uma maior mobilidade do que nós, foi capaz de buscar certos caminhos e tarefas da pesquisa ‘no ponto’ de um modo que não pudemos. Como resultado seu livro é extremamente valioso e contém tanta informação, de fato, que parece ser uma garantia de uma continuação, e imaginamos porque Paoli não tivese escrito uma. Quando perguntamos sobre ele, nos foi dito que em 1977 ou 1978 ele tinha recebido um tiro como um espião pelo governo israelense por uma tentativa de vender certos segredos aos árabes. A abordagem de Paoli, como ele a descreve em seu livro, foi em muitos aspectos similar a nossa. Ele também contactou a filha de Leo Schidlof em Londres; ele também ouviu de Miss Schidlof que seu pai, a seu conhecimento, não tinha qualquer ligação com sociedades secretas, livre maçonaria, ou genealogias Merovíngias. Como a nossa pesquisadora da BBC, Paoli também contactou a Grande Loja Alpina e se encontrou com o Chanceler da Loja, e de cada um recebeu uma resposta ambígua. Segundo Paoli, o Chanceler negou todo conhecimento de alguém chamado ‘Lobineau’ ou ‘Schidlof’. E quanto aos vários trabalhos de impressão Alpina, o Chanceler avaliou muito categoricamente que eles não existiam. E ainda que um amigo pessoal de Paoli que também era membro da Loja Alpina, afirmasse ter visto os trabalhos na biblioteca da Loja. A conclusão de Paoli é a seguinte: “Há uma de duas possibilidades. Dado o caráter específico dos trabalhos de Henri Lobineau, a Grande Loja Alpina que proibe toda a atividade política dentro da Suiça e portanto não quer ter envolvimento neste caso. Um outro movimento tem se apropriado do nome da Grande Loja para camuflar suas próprias atividades.

Em Versalhes, no Anexo da Biblioteca Nacional Paoli descobriu  quatro divulgações de CIRCUIT, mencionados nos estatutos do Priorado de Sião. O primeiro estava datado de 1o. de julho de 1959 e seu diretor era listado como Pierre Plantard. Mas a própria revista não suportou ser ligada ao Priorado de Sião. Ao contrario, ela se declarou o órgão oficial de algo chamado Federação das Forças Francesas. Tem até mesmo um selo, que Paoli reproduz em seu livro, e os seguintes dados:  Publication periodique culturelle de la Federation des Forces Françaises 116 Rue Pierre Jouhet, 116 Aulnay-sous-Bois (Seine-et-Oise) Te1: 929-72-49 M. Paoli examinou o endereço acima. Nenhuma revista foi algum dia publicada lá. O número telefonico também se mostrou falso. E todas as tentativas de Paoli de rastrear a Federation of French Forces se provaram fúteis. Até este dia nenhuma informação de qualquer organização como tal tem sido localizado. Mas dificilmente pareceria ser concidental que a sede francesa dos Comitês de Segurança Pública fosse também em Aulnay-sous-Bois. A Federação das Forças Francesas assim pareceria ter sido de alguma forma ligada aos comitês. Haveria uma base considerável para esta avaliação. Paoli relata que o Volume 2 do CIRCUIT alude a uma carta de de Gaulle a Pierre Plantard, agradecendo ao último por seus serviços. O serviço em questão pareceria ter sido o trabalho dos Comitês de Segurança Pública. Eles foram assinados por Pierre Plantard em seu próprio nome e sob o pseudônimo de Chyren. Anne Lea Hisler e outros com os quais estamos familiriarizados. Ao mesmo tempo, contudo, houve outros artigos de um tipo muito diferente. Alguns deles, por exemplo, falavam de uma secreta ciência de vinhas e vinicultura, o enxerto de vinhas que, aparentemente, tem alguma crucial influència em política. Isto não parece fazer sentido a menos que assumamos que as vinhas e a vinicultura eram para serem compreendidas alegoricamente; uma metáfora talvez para genealogias, para árvores de famílias e alianças dinásticas. Quando os artigos no CIRCUIT não eram arcanos ou obscuros, eles eram, segundo Paoli, ferventemente nacionalistas. Em um deles, por exemplo, assinado por Adrian Sevrette, o autor avalia não haver solução para os problemas que virão exceto por meio de novos métodos e novos homens, para a política estão mortos. O fato curioso permanece que homens não querem reconhecer isso. Existe apenas uma questão: a organização economica. Mas ainda existem homens capazes de pensar na França, como durante a Ocupação, quando os patriotas e os combatentes da Resistência não se preocupavam com as tendências politicas de seus companheiros de luta.

E do Volume 4 de CIRCUIT Paoli cita a seguinte passagem: desejamos que as 1500 cópias de CIRCUIT seja um contacto que acenda uma luz, desejamos que a voz dos patriotas seja capaz de transcender os obstáculos como em 1940, quando eles deixaram a França invadida para virem e baterem na porta de trás do líder da França Livre. Hoje, é o mesmo, antes de mais nada somos franceses, somos aquela força que combate de um modo ou outro para construir uma França limpa e nova. Isto deve ser feito com o mesmo espírito patriótico, com a mesma vontade e solidariedade de ação. Então citamos aqui o que declaramos ser uma velha filosofia. Há então a seguir um detalhado plano de governo para restaurar a França no lustre perdido. Ele insiste, por exemplo, no desmantelamento dos departamentos e na restauração das províncias; o departamento é um sistema arbitrário, criado ao tempo da Revolução, ditado e determinado por uma era de acordo com as demandas da locomoção a cavalo; hoje, ele não mais representa algo. Em contraste, a província é uma porção viva da França; é o vestígio completo de nosso passado, as mesmas bases sobre as quais formou-se a existencia de nossa nação; ela tem seu próprio folclore, seus costumes, seus monumentos, frequentemente seu dialeto local, que desejamos reclamar e promulgar. A província deve ter seu próprio aparato específico de defesa e administração, adaptada a suas necessidades específicas, com a unidade nacional.

Paoli então cita oito páginas seguintes. O material que elas contém é organizado sob os seguintes sub-títulos:
Conselho das Províncias
Conselho de Estado
Conselho Parlamentar
Trabalho de Taxas e Produção Médica Nacional
Idade da Maioria
Casa e Escolas

O plano de governo proposto sob estes sub-títulos não é desordenamente controverso e pode provalmente ser instituído com um mínimo de revolta. Nem pode o plano ser rotulado politicamente. Ele não pode ser chamado de ala direita ou de ala esquerda, liberal ou conservador, radical ou reacionário. No todo, ele parece ser bem inócuo; e alguém estaria perdido para ver em como ele necessariamente traria qualquer particular lustre perdido a França. Como diz Paoli, ‘As propostas… não são revolucionárias. Contudo, elas repousam em uma analise realista das reais estruturas do Estado francês, e estão impregnadas de um sólido bom  senso’.  Mas então o plano de governo ressaltado no CIRCUIT não faz menção explícita da base real sobre a qual, se implementado, ele presumidamente repousaria na restauração de uma monarquia popular governada por uma linhagem sanguinea merovingia. No CIRCUIT não haveria necessidade de afirmar isso, porque isso constituiria uma dádiva subjacente, uma premissa sobre a qual gira tudo o que é publicado na revista. Para os pretendidos leitores da revista a restauração da linhagem sanguínea merovíngia era claramente óbvia demais e aceita como um objetivo necessário a ser trabalhado. A este ponto, o livro de Paoli faz uma pergunta crucial. Uma pergunta que também nos tem assombrado: ‘Temos, por um lado, uma descendência escondida dos Merovíngios, e, de outro, um movimento secreto, o Priorado de Sião, cuja meta é facilitar a restauração de uma monarquia popular de linhagem Merovíngia. Mas é necessário saber se este movimento se contenta com as especulações esotérico-politicas cujo fim não juramentado é fazer muito dinheiro ao explorar a cobiça e ingenuidade do mundo] ou se este movimento é genuinamente ativo’. Paoli então considera esta questão, revendo a evidência a sua disposição. Sua conclusão é a que se segue:

‘Inquestionavelmente, o Priorado de Sião parece possuir poderosas ligações. Na realidade, qualquer criação de uma associação é submetida a um inquérito preliminar pelo Ministro do Interior. Isto obtém tão bem para uma revista, uma casa publicadora. E ainda que estas pessoas sejam capazes de publicar, sob pseudônimos, em falsos endereços, por meio de casas publicadoras não existentes, os trabalhos que não podem ser encontrados em circulação na Suiça ou na França. Há duas possibilidades. Os as autoridades do governo não estão fazendo o trabalho delas. Ou alguém mais.. . e Paoli não conclui a alternativa. Ao mesmo tempo é aparente que ele pessoalmente vê a alternativa não declarada como a mais provável das duas. A conclusão de Paoli, em resumo, é que funcionários do governo, e muitas outras pessoas poderosas  ou são membros de Sião ou obedientes a ele. Se assim o é, Sião de fato deve ser uma organização muito influente. Tendo conduzido uma extensa pesquisa por conta própria, Paoli está satisfeito com a afirmação merovíngia de legitimidade. Nesta extensão, ele admite, ele pode fazer sentido dos objetivos de Sião. Além desse ponto, contudo, ele se confessa profundamente intrigado. Qual é o ponto, ele imagina, de restaurar a linhagem merovíngia hoje, 1300 anos depois que ela foi deposta? Nos dias modernos seria um regime Merovíngio diferente de qualquer outro regime dos dias modernos? Se assim o for, como e porque? O que há de tão especial sobre os Merovíngios? Até mesmo se a afirmação deles é legítima, pareceria ser irrelevante. Porque devem tais pessoas tão poderosas e inteligentes, tanto hoje quanto no passado, dedicar não apenas sua atenção a isso mas sua lealdade também? Nos, com certeza, estamos fazendo as mesmas perguntas. Como Paoli, estavamos preparados para reconhecer a afimação Merovíngia de legitimidade. Mas qual a possível importância que uma tal declaração desfruta hoje? Pode a legitimidade técnica da monarquia realmente ser tão persuasiva e convincente como argumento? Porque, no final do século XX, deve qualquer monarquia, legítima ou não, comandar o tipo de lealdade que os Merovíngios parecem comandar?  Se estivessemos apenas lidando com um tipo de lunáticos idiossincrasicos, poderiamos descartar a matéria de antemão. Mas não estavamos. Ao contrário, nos pareceu estarmos lidando com uma organização extremamente influente que incluiu em suas fileiras alguns dos homens mais importantes, mais distinguidos, mais aclamados e mais responsáveis de nossa era. E esses homens, em muitos casos, pareciam ver a restauração da dinastia Merovíngia como uma meta suficientemente válida para transcender suas próprias diferenças pessoais políticas, sociais e religiosas. Não parece fazer sentido que a restauração de uma linhagem sanguínea de 1300 anos deva constituir uma tão vital causa célebre para tantas pessoas públicas altamente estimadas. A menos que a legitimidade não fosse a única declaração Merovíngia. A menos que eles estivessem supervisionando algo. A menos que a legitimidade fosse algo de imensa importância que diferenciasse os Merovíngios de outras dinastias. A menos, em resumo, que houvesse algo muito especial de fato sobre o sangue real Merovíngio.

Os Monarcas de Longos Cabelos

Por este tempo, com certeza, já haviamos pesquisado a dinastia Merovíngia. Até onde pudemos levar nosso caminho por uma névoa de fantasia e obscuridade cada vez mais opaca do que aquela que rodeia os cátaros e os Cavaleiros Templários. Tivemos passado alguns meses nos empenhando em desemaranhar complexas meadas de história e fábula interligadas. A despeito de nossos esforços, contudo, os Merovíngios permaneciam em sua maior parte envoltos em mistério. A dinastia Merovíngia saiu dos Sicambrianos, uma tribo de povo germânico coletivamente conhecidos como Francos. Ente os séculos V e VII os Merovíngios governaram grande parte do que agora é a Alemanha e a França. O período de sua ascendência coincide com o período do Rei Arthur, um período que constitui o estabelecimento dos romances do Santo Gral. É provavelmente o período mais impenetrável do que agora é chamado de Idade das Trevas. Mas a Idade das Trevas, descobrimos, não foram verdadeiramente escuras. Ao contrário rapidamente tornou-se aparente para nós que alguém tinha deliberadamente a obscurecido. Em que extensão a Igreja Católica exerceu um real monopólio sobre o aprendizado, e especialmente sobre a escrita, os registros que sobreviveram representam certos vestidos interesses. Quase tudo mais foi perdido ou censurado. Mas aqui e ali algo de tempo em tempo escorregou pela cortina através do passado, gotejando até nós a despeito do silêncio oficial. Destes vestígios sombrios, uma realidade pode ser reconstituida; uma realidade de um tipo mais interessante, e uma muito discordante dos dogmas da ortodoxia.

A História dos Merovíngios

Encontramos um número de enigmas que cercam as origens da dinastia Merovíngia. Geralmente se pensa em uma dinastia, por exemplo, como uma família ou casa governante que não meramente sucede uma outra família ou casa governante, mas assim o faz, em virtude de ter deslocado, deposto ou suplantado seus predecessores. Em outras palavras, pensa-se em dinastias como começando por um golpe de Estado de um tipo ou de outro, frequentemente compreendendo a extinção da previa linhagem governante. A Guerra das Rosas na Inglaterra, por exemplo, marcou uma mudança de uma dinastia. Aproximadamente um século mais tarde os Stuarts subiram ao trono inglês apenas quando os Tudors estavam extintos. E os próprios Stuarts foram depostos à força pelas casas de Orange e Hannover. No caso dos Merovíngios, contudo, não houve uma transição tão abrupta e violenta, nem usurpação, nem deslocamento, nem extinção de um regime anterior. Ao contrário, a casa que veio a ser chamada Merovíngia parece já haver governado sobre os Francos. Os Merovíngios já eram reconhecidos reis por direito e apropriadamente. Mas parece ter havido algo especial sobre um deles de forma que conferiu seu nome a uma inteira dinastia. O governante do qual os Merovíngios derivaram seu nome é a mais elusiva da realidade histórica eclipsada pela lenda. Merovee (Merovech ou Meroveus) era uma semi figura sobrenatural digna de um mito clássico. Até mesmo seu nome testemuha esta origem e caráter miraculoso. Ele ecoa a palavra ‘mãe’ bem como as palavras francesa e latina para ‘mar’. Segundo os principais cronistas francos e a tradição subsequente, Merovee nasceu de dois pais. Quando já grávida de seu marido, o Rei Clodio, a mãe de Merovee supostamente estava nadando no oceano. Na água é dito que ela foi seduzida e/ou violentada por uma obscura criatura marinha não identificada de além do mar, uma besta similar ao Quinotauro de Netuno, seja o que for que possa ter sido um Quinotauro. Esta criatura aparentemente engravidou a senhora pela segunda vez. E quando Merovee nasceu, alegadamente fluia em suas veias uma reunião dos dois sangues diferentes; o sangue do governante franco e da misteriosa figura aquática. Tais histórias fantásticas são muito comuns, com certeza, não apenas no mundo antigo, mas na tradição posterior européia também. Geralmente elas não são inteiramente imaginárias, mas simbólicas ou alegóricas, mascarando algum fato concreto histórico por trás de sua fabulosa fachada.

No caso de Merovee a fabulosa fachada bem pode indicar um intercasamento de algum tipo, um pedigree transmitido através da mãe, como por exemplo no Judaismo, ou uma mistura de linhagens dinásticas onde os francos se tornaram aliados pelo sangue a alguém mais; muito possivelmente uma fonte de além mar – uma fonte que, por uma razão ou outra, foi transformada pela fábula subsequente em uma criatura do mar. Em qualquer caso, em virtude deste duplo sangue é dito que Merovee foi dotado com um conjunto impressivo de poderes sobrehumanos. E seja qual for a realidade histórica por trás da lenda, a dinastia Merovíngia continuou a ser mantida em uma aura de magia, feitiçaria e sobrenatural. Segundo a tradição, os monarcas merovíngios eram adeptos ocultos, iniciados nas ciências arcanas, praticantes das artes esotéricas, dignos rivais de Merlin, seu fabuloso quase contemporaneo. Eles frequentemente são chamados ‘os reis feiticeiros’ ou ‘reis taumaturgos’. Em virtude de alguma propriedade miraculosa do sangue deles eles podiam alegadamente curar ao colocar suas mãos; e segundo uma narrativa as franjas de seus robes eram consideradas possuirem miraculosos poderes curativos. Eles são ditos serem capazes de clarividência ou comunicação telepática com bestas e com o mundo natural ao redor deles, e usar um poderoso colar mágico. Eles são ditos possuirem um encantamento arcano que os protegia e garantia a eles uma fenomenal longevidade que a história, incidentalmente, não parece confirmar. E eles são suspeito de terem uma suposta marca de nascimento, que os distinguia de outros homens, que os tornava imediatamente identificáveis e que atestava seu sangue semi-divino ou sagrado. Esta marca de nascimento reputadamente tomava a forma de uma cruz vermelha, ou sobre o coração [uma curiosa antecipação do brasão Templário] ou entre as omoplatas. Os Merovíngios são também frequentemente chamados ‘os reis de cabelos longos’. Como Sansão no Velho Testamento, eles não podiam cortar seu cabelo. Como Sansão, o cabelo deles supostamente continha a virtude, a essencia e o segredo de seu poder. Seja qual for a base para a crença no poder dos cabelos dos Merovíngios, ela parece ter sido considerada muito seriamente e até tão tarde quanto 754.

Quando Childeric III foi deposto em 764 e aprisionado, seu cabelo foi ritualmente tosado por ordem expressa do Papa. Conquanto sejam extravagantes as histórias que cercam os Merovíngios, elas parecem repousar em bases concretas, algum status desfrutado pelos monarcas Merovíngios durante seu próprio tempo de vida. De fato os Merovíngios não eram vistos como reis no sentido moderno da palavra. Eles eram vistos como encarnações reis sacerdotes do divino, em outras palavras, não diferente, digamos, dos antigos faraós egípcios. E não governavam simplesmente pela graça de Deus. Ao contrário, eles eram aparentemente considerados a coroação viva e encarnação da graça de Deus; um status geralmente reservado a Jesus. E eles parecem terem se engajado em práticas rituais que pertenciam, se algo, mais ao sacerdócio que a um reinado. Cranios encontrados de monarcas Merovíngios, por exemplo, mantém o que parece ser uma incisão ritual ou buraco na coroa. Incisões similares podem ser encontradas nos cranios de altos sacerdotes do inicial budismo tibetano para permitir que a alma escape da morte e para abrir contacto direto com o divino. Há razão para supor que a tonsura clerical é um resíduo da pratica Merovíngia. Em 1653 uma importante tumba merovíngia foi encontrada em Ardennes; a tumba do Rei Childeric I, filho de Merovee e pai de Clovis, o mais famoso e imfluentes de todos os governantes merovíngios. A tumba continha armas, tesouro e regalias, tais como se esperaria encontrar em uma tumba real. Ela tamém continha itens menos característicos de reinado do que de mágica, feitiçaria e adivinhação: uma cabeça cortada de cavalo, por exemplo, uma cabeça de touro feita de ouro e uma bola de cristal. Um dos símbolos mais sagrados merovíngios eram as abelhas; e a tumba de Childeric continha não menos que 300 miniaturas de abelhas feitas de sólido ouro. Juntamente com outros conteúdos da tumba,  estas abelhas foram confiadas a Leopold Wilhelm von Habsburg, governador militar das Holandas austríacas naquele tempo e irmão do Imperador Ferdinand III. Eventualmente, a maior parte do tesouro de Childeric voltou a França. E quaando foi coroado imperador em 1804, Napoleão fez uma coisa especial ter as abelhas de ouro afixadas aos seus robes de coroação,

Este incidente não foi a unica manifestação de interesse de Napoleão nos Merovíngios. Ele comissionou uma compilação de genealogias de um Abade Pichon, para determinar se ou não a linhagem sanguínea Merovíngia tinha sobrevivido a queda da dinastia. Foi sobre estas genealogias, comisssionadas por Napoleão, que as genealogias dos Documentos do Priorado eram em grande parte baseadas.

O Urso da Arcadia

As histórias que cercam os Merovíngios se provaram merecedoras da era de Arthur e dos romances do Gral. Ao mesmo tempo elas constituiam uma barreira assombrosa entre nós e a realidade histórica que queremos explorar. Quando afinal ganhamos aceso a isso ou do pouco que sobreviveu, esta realidade histórica era de algum modo diferente das lendas. Mas ela não era de modo algum menos misteriosa, extraordinária ou evocativa. Pudemos encontrar pouca informação verificável sobre as verdadeiras origens dos Mrovíngios. Eles próprios afirmavam desdenderem de Noé, que eles viam, até mesmo mais do que Moisés, como a fonte de toda sabedoria bíblica; uma posição interessante que emergiu novamente mil anos mais tarde na Livre Maçonaria européia. Os Merovíngios também afirmaam serem descendentes diretos da antiga Tróia que, se verdade ou não, serviria para explicar a ocorrência de nomes troianos na França, como Trojan e Paris. Mais escritores contemporâneos incluindo os autores dos Documentos do Priorado tem pretendido rastrear os Merovíngios até a Grécia antiga, e especificamente a região conhecida como Arcadia. Segundo estes documentos, os ancestrais dos Merovíngios eram ligados a casa real da Arcadia. Em alguma data não especificada na direção do advento da era cristã eles supostamente emigraram Danúbio acima, então Reno acima, e se estabeleceram onde é hoje a Alemanha Ocidental. Se os Merovíngios derivaram de Tróia ou da Arcadia pareceria ser academico, e não há necessariamewnte um conflito entre as duas afirmações. Segundo Homero um contingente substancial de Arcadianos estava presente no cerco de Tróia. Segundo as iniciais histórias gregas, Tróia de fato foi fundada por colonos da Arcadia. Também vale citar de passagem que o urso, na antiga Arcadia, era o animal sagrado ou totem sobre o qual cultos de mistério eram baseados e a quem eram feitos sacrifícios rituais. De fato, o próprio nome ‘Arcadia’ deriva de ‘Arkades’, que significa ‘povo do urso’. Os antigos arcadianos declaravam descenderem de Arkas, a deidade patrona da terra, cujo nome também significa ‘urso’. Segundo o mito grego, Arkas era o filho de Kallisto, a ninfa ligada a Artemis, a Caçadora. Para a mente moderna Kallisto é mais familiar como a constelação da Ursa Maior, a Grande Ursa.

Para os Francos Sicambrianos, de quem sairam os Merovíngios, o urso desfrutava de um similar status exaltado. Como os antigos Arcadianos eles veneravam o urso na forma de Artemis, ou, mais especificamente, a forma de seu equivalente gálico, Arduina, a deusa patrona de Ardennes. O culto de mistério de Arduina persistiu bem até a Idade Média, um centro dele sendo a cidade de Luneville, não longe dos outros dois sítios que recorrentemente aparecem em nossa investigação: Stenay e Orval. Tão tarde quanto 1304 estatutos estavam sendo promulgados pela Igreja proibindo a veneração da deusa bárbara. ‘Dado o status mágico, mítico e totemico do urso no coração da terra Merovíngia de Ardennes, não é surpreendente que o nome Ursus [o latim para urso] deva estar associado nos Documentos do Priorado a linhagem sanguínea real merovíngia. Muito mais surpreendente é o fato que a palavra galesa para urso seja ‘arth’ de onde deriva o nome Arthur. Embora não buscassemos o assunto a este ponto, a coincidência nos intrigou que Arthur não deva ser apenas contemporaneo dos Merovíngios mas, também como eles, associado ao urso.

Os Sicambrianos entram no Gaul

No início do século V a invasão dos Hunos provocou migrações em grande escala em quase todas as grandes tribos européias. Foi a esse tempo que os Merovíngios, ou, mais acuradamente, os ancestrais Sicambrianos dos Merovíngios atravessaram o Reno e se moveram em massa para dentro de Gaul, se estabelecendo no que agora é a Bélgica e o norte da França, mas vizinhanças da Ardennes. Um século depois esta região veio a ser chamada o Reino de Austrasie. E o núcleo do Reino de Austrasie era o que agora é conhecido como Lorraine. O influxo sicambriano para dentro do Gaul não consistiu em uma horda de selvagens bárbaros descontrolados tumultuadamente tomando a terra. Ao contrário, este foi um caso plácido e civilizado. Por séculos os sicambrianos tinham mantido um estreito contacto com os romanos; e embora eles fossem pagãos, eles não eram selvagens amotinados. De fato eles eram bem versados nos costumes romanos e na administração, e seguiam as modas de Roma. Alguns sicambrianos haviam se tornado oficiais de alto escalão no exército imperial. Alguns até mesmo haviam se tornado consuls romanos. Então o influxo sicambriano era menos de uma matança ou invasão do que um tipo de absorção pacífica. E quando, na direção do fim do século V, o império romano desabou, os sicambrianos preencheram o vácuo. Eles não o fizeram violentamente ou pela força. Eles mantiveram os velhos costumes e mudaram muito pouco. Sem qualquer tipo de revolta, eles assumiram o controle do aparato administrativo já existente, mas vago. O regime dos Merovíngios iniciais assim se conformou muito bem estreitamente ao modelo do velho império romano.

Merovee e Seus Descendentes

Nossa pesquisa encontrou menção ao menos a duas figuras históricas chamadas Merovee e não está claro a quais delas a lenda credita descender de uma criatura do mar. Um Merovee foi um chefe sicambriano, vivo em 417, que combateu sob os romanos e morreu em 438. Tem sido sugerido por ao menos um especialista moderno do período que este Merovee realmente visitou Roma e causou algo de uma sensação. Há certamente um registro de uma visita de um imponente líder Franco, evidente por seu repleto cabelo amarelo. Em 417, o filho deste primeiro Merovee, usando o mesmo nome de seu pai, foi proclamado rei dos Francos em Tournai e reinou até sua morte dez anos depois. Ele pode ter sido o primeiro rei oficial dos Francos como povo unido. Em virtude disso, talvez, ou do que era simbolizado por seu fabuloso nascimento dual, a dinastia que sucedeu a ele foi chamada Merovíngia. Sob os sucessores de Merovee o reino dos Francos floresceu. Ela não era a crua cultura bárbara frequentemente imaginada. Ao contrário, ele garante comparações em muitos aspectos com a ‘alta civilização’ de Bizancio. Até mesmo a alfabetização secular foi encorajada. Sob os Merovíngios a alfabetização secular era mais disseminada do que o seria em duas dinastias e quinhentos anos depois. Esta alfabetização se extendia aos próprios governantes e um fato surpreendente, dado o caráter rude, não cultivado e iletrado dos monarcas medievais mais posteriores. O Rei Chilperic, por exemplo, que reinou durante o século VI, não apenas construiu belos anfitreatros no estilo romano em Paris e Soissons, mas foi também um dedicado e completo poeta, que tinha um orgulho considerável de sua arte. E há narrativas verbatim de suas discussões com autoridades eclesiásticas que refletem uma sutileza extaordinária, sofisticação e aprendizado; dificilmente qualidades que se possa associar a um rei daquele tempo. Em muitas destas discussões Chiperic se provou mais do que igual ao seus interlocutores clericais. Sob o governo Merovíngio os Francos eram frequentemente brutais, mas eles realmente não eram um povo de tipo guerreiro por natureza ou disposição. Eles não eram como os Vikings, por exemplo, ou os Vândalos, Visigodos e Hunos. Suas principais atividades eram a agricultura e o comércio. Muita atenção era devotada ao comércio marítimo, especialmente no Mediterrâneo. E os artefatos da época Merovíngia refletem a qualidade do artezanato que é verdadeiramente surpreendente como o atesta o tesouro do navio Sutton Hoo, que pode ser visto no Museu Britânico. Muitas das moedas tem uma igualmente distintiva cruz em braços, identica aquela subsequentemente adotada durante as Cruzadas pelo reino Franco de Jerusalém.

O Sangue Real

Embora a cultura Merovíngia fosse temperada e surpreendentemente moderna, os monarcas que a presidiam eram um outro assunto. Eles não eram típicos monarcas nem mesmo de seu tempo, porque uma atmosfera de mistério, lenda, mágica e sobrenatural os cercava até mesmo durante seus períodos de vida. Se os costumes e economia do mundo Merovíngio  não diferem marcantemente de outros do período, a auro sobre ‘os filhos do sangue Merovíngio’ não era a de reis criados. Ao contrário, eles eram meramente vistos como tal no advento de seu 12o aniversário. Não havia cerimonia pública ou unção, nem coroação de qualquer tipo. O poder era simplesmente assumido pelo direito sagrado. Mas conquanto o rei fosse a autoridade suprema no reino, ele nunca era obrigado ou até mesmo esperado envolver suas mãos nos negócios mundanos de governar – Ele era essencialmente uma figura ritualizada, um rei-sacerdote, e seu papel era de certa forma similar aquela da presente família real britânica. O governo e a adminstração eram deixados para um oficial não real, o equivalente a um chanceler, que tinha o título de Prefeito do Palácio. No todo, a estrutura do regime Merovíngio tinha muitas coisas em comum com as modernas monarquias constitucionais. Até mesmo depois de sua conversão a cristandade, os regentes Merovíngios, como os Patriarcas do Velho Testamento, eram polígamos. Na ocasião eles desfrutavam de haréns em proporções orientais. Até mesmo quando a aristocracia, sob pressão da Igreja, se tornou rigorosamente monógama, a monarquia permaneceu isenta. E a Igreja, muito curiosamente, parece ter aceitado esta prerrogativa sem qualquer protesto exagerado. Segundo um comentador moderno, Porque era a poligamia aprovada tacitamente pelos próprios Francos? Devemos aqui estar na presença de um antigo uso da poligamia na família real de um tal escalão que seu sangue não pode ser enobrecido por qualquer combinação, embora vantajosa, nem degradado pelo sangue de escravos… Era um assunto e indiferença se a rainha era tomada de uma dinastia real ou do meio das cortesãs… A fortuna da dinastia repousava em seu sangue e era partilhada por todos que eram daquele sangue. E novamente, ‘seria possivel que, nos Merovíngios, possamos ter uma dinastia de herança germânica derivada de uma antiga família real do período da migração. Mas quantas famílias possam possivelmente ter estado no todo da história mundial que desfrutaram de tal status extraordinário e exaltado? Porque devem os Merovíngios serem assim? Porque deve ser o sangue dele investido de tal imenso poder? Estas perguntas continuavam a nos deixar perplexos.

Clovis e Seu Pacto com a Igreja

O mais famoso de todos os regentes Merovíngios foi o neto de Merovee, Clovis I, que reinou entre 481 e 511. O nome de Clovis é familiar a qualquer aluno francês porque foi sob Clovis que os Francos foram convertidos ao cristianismo romano. E foi através de Clovis que Roma começou a estabelecer sua supremacia indiscutivel na Europa Ocidental; uma supremacia que permaneceria não desafiada por mil anos. Por 496 a Igreja Romana estava em uma situação precária. Durante o curso do século V, sua própria existência tinha sido severamente ameaçada. Entre 384 e 399 o Bispo de Roma já havia começado a se chamar Papa, mas seu status oficial não era maior do que aquele de qualquer outro bispo e muito diferente do status atual do papa. Ele não era, em qualquer sentido, o líder espiritual ou chefe supremo da cristandade. Ele meramente representava um único corpo de vestidos interesses, uma das muitas formas divergentes da cristandade, e uma que desesperadamente estava lutando para sobreviver contra uma multitude de cismas conflitantes e pontos de vista teológicos. Oficialmente a Igreja Romana não tinha maior autoridade do que, digamos, a Igreja Céltica – com a qual ela constantemente estava em conflito. Ele não tinha maior autoridade do que heresias tais como o Arianismo, que negava a divindade de Jesus e insistia em sua humanidade. De fato durante grande parte do século V cada bispado na Europa Ocidental ou era ariano ou estava vago. Se a Igreja Romana era para sobreviver, ainda mais avaliar sua autoridade, ela precisava do apoio de um campeão, uma poderosa figura secular que pudesse representa-la. Se a cristandade era para evoluir segundo a doutrina romana, esta doutrina teria que ser disseminada, implementada e imposta pela força secular; uma força suficientemente poderosa para resistir e até mesmo extirpar o desafio dos credos cristão rivais. Não surpreendentemente, a Igreja Romana, em seu mais agudo momento de necessidade, se voltou para Clovis. Por 486 Clovis havia significativamente aumentado a extensão dos domínios Merovíngios, atacando das Ardennes para anexar um número de reinos e principalidades adjacentes, derrotando um número de tribos rivais. Como resultado, muitas cidades importantes – Troyes, por exemplo, Rheims e Amiens foram incorporadas ao reino dele. Dentro de uma década estava aparente que Clovis estava bem em seu caminho de se tornar o mais poderoso potentado da Europa Ocidental. A conversão e o batismo de Clovis provaram ser de crucial importância em nossa investigação. Uma narrativa disso foi compilada, em todos seus particulares e detalhes, ao redor do tempo em que aconteceu. Dois e meio séculos depois esta narrativa, chamada de A Vida de Saint Rhemy, foi destruida, exceto por umas poucas páginas manuscritas espalhadas. E a evidência sugere que ela foi destruida deliberadamente. Não obstante os fragmentos que testemunham a importância do que estava envolvido.

Segundo a tradição, a conversão de Clovis foi um assunto súbito e inesperado, efetuada pela esposa do rei, Clotilde, uma fervente devota de Roma, que parece ter cansado seu marido até que ele aceitase a fé dela e que foi subsequentemente canonizada pelos seus esforços. Nestes esforços é dito que ele foi guiada e auxiliada por seu confessor,  Saint Remy. Mas por trás dessas tradições reside uma realidade histórica muito prática e mundana. Quando Clovis foi convertido ao cristianismo  e se tornou o primeiro rei católico dos Francos, ele tinha mais a ganhar do que a aprovação de sua esposa, e um reinado mais tangivelmente substancial do que o Reino dos Céus. É sabido que em 496 um número de encontros secretos ocorreu entre Clovis e Saint Rémy. Immediatamente a seguir um acordo foi ratificado entre Clovis e a Igreja Romana. Para Roma este acordo era um maior triunfo político. Ele asseguraria a sobrevivência da Igreja como suprema autoridade espiritual no Ocidente. Isso consolidaria o status de Roma como uma igual a fé Grega Ortodoxa baseada em Constantinopla. Isto ofereceria uma perspectiva de hegemonia romana e um meio eficaz de herradicar as cabeças de hidra da heresia. E Clovis seria o meio de implentar estas coisas, a espada de Roma, o instrumento pelo qual Roma imporia seu domínio espiritual, o braço secular e a manisfestação palpável do poder Romano. Em troca era garantido a Clovis o título de ‘Novus Constantinus’. Em outras palavras, ele iria presidir um império unificado, um Sagrado Império Romano, que pretendia suceder aquele supostamente criado sob Constantino e destruído pelos Visigodos e Vãndalos não muito antes.

Segundo um especialista moderno sobre o período, Clovis, antes de seu batismo, era ‘fortalecido’… com visões de um império em sucessão aquele de Roma, que devia ser herança da raça Merovíngia’. Segundo outro escritor moderno, ‘Clovis deve agora se tornar um tipo de imperador ocidental, um patriarca para os alemães ocidentais, reinando sobre, embora não governando, todos os povos e reis’. O pacto entre Clovis e a Igreja Romana, em resumo, era um de momentosa consequência para a cristandade; não apenas para a cristandade daquele tempo, mas também para a cristandade do milênio seguinte. O batismo de Clovis era para marcar o nascimento de um novo Império Romano, um império cristão, baseado na Igreja Romana e administrado, a nível secular, pela linhagem sanguinea Merovíngea. Em outras palavras, um laço indissolúvel foi estabelecido entre a Igreja e o Estado, cada um jurando lealdade ao outro, cada um se curvando ao outro, em perpetuidade. Na ratificação deste laço. em 496, Clovis se permitiu ser formalmente batizado por Saint Remy em Rheims. No clímax da cerimônia, Saint Remy pronunciou suas famosas palavras: ‘Mitis depone colla, Sicamber, adora quod incendisti, incendi quod adorasti’. (Curve sua cabeça humildemente, Sicambriano, reverencie o que tem queimado e que tem sido reverenciado]. É importante notar que o batismo de Clovis não foi uma coroação como alguns históriadores algumas vezes sugerem. A Igreja não fez de Clovis rei. Ele já o era, e tudo o que a Igreja podia fazer era reconhece-lo como tal. Em virtude de assim o fazer, a Igreja se ligou não apenas a Clovis, mas também aos sucessores dele; não a um único individuo, mas a uma linhagem sanguinea. A este respeito o pacto se asemelhou a uma aliança que Deus, no Velho Testamento, fez com o Rei David; um pacto que não pode ser modificado, como no caso de Salomão, nem revogado, quebrado ou traido. E os Merovíngios não perderiam de vista o paralelo. Durante os dias restantes de sua vida Clovis completamente realizou as expectativas ambiciosas de Roma quanto a ele. Com irresistível eficiência, a fé foi imposta pela espada; e com a sanção e mandato espiritual da Igreja, o Reino Franco se expandiu a leste e sul, abrangendo a maior parte da França moderna e grande parte da moderna Alemanha. Entre os numerosos adversários de Clovis os mais importantes eram os Visigodos que tomaram os Pirineus e se estenderam muito ao norte como Toulouse que Clovis dirigiu suas mais assidúas e concentradas campanhas.

Em 507 ele decisivamente derrotou os Visigodos na Batalha de Vouille. Pouco depois Aquitaine e Toulouse cairam em mãos francas. O império visigodo ao norte dos Pirineus efetivamente desabou diante da matança franca. De Toulouse, os Visigodos cairam de volta a Carcassone. Expulsos de Carcassone, eles estabeleceram a capital deles, e último bastião remanescente em Razes, em Rhedae agora a vila de Rennes-le-Chateau.

Dagoberto II

Em 511 Clovis morreu e o império que ele havia criado foi dividido, segundo os costumes Merovíngios, entre seus quatro filhos. Por mais de um século a seguir a dinastia Merovíngia presidiu um número de separados e frequentemente guerreiros reinos, enquanto as linhas de sucessão se tornavam crescentemente interligadas  e as solicitações de tronos crescentemente confusas. A autoridade uma vez concentrada em Clovis se tornou progressivamente mais difusa, mais inchada e a ordem secular se deteriorou. Intrigas, maquinações, raptos e assassinato político se tornaram até mesmo lugar comum. E os chanceleres da Côrte, os Prefeitos do Palácio, acumulavam mais e mais poder; um fator que eventualmente contribuiria para a queda da dinastia. Privados crescentemente de autoridade, os últimos regentes Merovíngios tem sido frequentemente chamados ‘les rois faineant’ – ‘os reis enfraquecidos’. A posteridade tem desdenhosamente os estigmatizado como fracos, monarcas ineficazes, efeminados e flexivelmente indefesos nas mãos de conselheiros cobiçososos e astutos. Nossa pesquisa revelou que este estereótipo não era estritamente acurado. É verdade que as guerras constantes, as vinganças e a luta interna colocou um número de príncipes merovíngios no trono em uma idade extremamente jovem e assim eles eram facilmente manipuláveis por seus conselheiros. Mas aqueles que atingiram a idade adulta se provaram tão fortes e decisivos como qualquer de seus predecessores. Isto certamente parece ter sido o caso de Dagoberto II.

Dagoberto II nasceu em 653, herdeiro do trono da Austrasie. Com a morte de seu pai em 653 foram feitas tentativas extravagantes de evitar sua herança do trono. De fato a vida inicial de Dagoberto parece uma história medieval, ou um conto de fadas. Mas é história bem documentada. Com a morte de seu pai, Dagoberto foi raptado pelo Prefeito do Palácio, um indivíduo chamado Grimoald. Tentativas de encontrar a criança de cinco anos se provaram infrutíferas, e não foi difícil convencer a côrte que ele estava morto. Sobre esta base Grimoald engendrou a ascensão de seu próprio filho ao trono, afirmando que estes teria sido o desejo do monarca anterior, o falecido pai de Dagoberto. O truque funcionou eficazmente. Até mesmo a mãe de Dagoberto, acreditando que seu filho estava morto, deferiu a ambição do Prefeito do Palácio. Contudo, Grimoald tinha aparentemente hesitado em realmente matar o jovem príncipe. Em segredo Dagoberto havia sido confiado aos cuidados do bispo de Poitiers. O bispo, assim parece, estava igualmente relutante de matar a criança. Dagoberto portanto foi destinado ao exílio permanente na Irlanda. Ele cresceu até a idade adulta em um monastério irlandês em Slane, não longe de Dublin; e lá, na escola anexa ao monastério, ele recebeu uma educação não obtível na França daquele tempo. Em algum ponto durante este período é suposto ele ter frequentado a côrte do Alto Rei de Tara. E é dito que ele fez conhecimento com três príncipes nortumbrianos, que também estavam sendo educados em Slane. Em 666, provavelmente ainda na Irlanda, Dagoberto se casou com uma princesa Celta, Matilde. Não muito depois ele se mudou da Irlanda para a Inglaterra, estabelecendo residência em York, no reino da Nortumbria. Aqui ele fez uma sólida amizade com São Wilfrido, bispo de York, que se tornou seu mentor. Durante o período em questão já existia um cisma entre as Igrejas Romana e Celta, com a última se recusando a reconhecer a autoridade da anterior. No interesse da unidade, Wilfrido tinha a inteção de trazer a Igreja Celta ao rebanho romano. Isto ele já tinha realizado no famoso Concílio de Whitby em 664. Mas sua subsequente amizade e patrocínio de Dagoberto II pode não ter sido vazia de um motivo ulterior. Pelo tempo de Dagoberto a lealdade a Roma como ditado pelo pacto da Igreja com Clovis um século e meio antes – era de certa forma menos fervente do que devia ser. Como um leal aderente a Roma, Wilfrido estava ávido de consolidar a supremacia Romana não apenas na Bretanha, mas também no continente. Fosse Dagoberto voltar a França e reclamar o reino de Austrasie, este teria sido o expediente para assegurar sua lealdade. Wilfrido pode bem ter visto o rei exilado como um possivel braço-espada da Igreja. Em 670, Matilde, a esposa celta de Dagoberto, morreu dando a luz sua terceira filha. Wilfrido se apressou em arranjar uma nova união para o monarca recentemente viúvo. A nova esposa de Dagoberto foi Giselle de Razes, filha do Conde de Razes e sobrinha do rei dos Visigodos. Em outras palavras, a linhagem Merovíngia agora estava aliada a linhagem real dos Visigodos. Aqui estão as sementes de um império embrionário que teria unido grande parte da França moderna,se estendendo dos Pirineus  até as Ardennes. Um tal império, sobretudo, teria trazido os Visigodos ainda com fortes tendências arianas firmemente sob controle romano.

Quando Dagoberto se casou com Giselle, ele já tinha voltado ao continente. Segundo documentação oficial, o casamento foi celebrado na residência oficial de Giselle em Rhedae, ou Rennes-le-Chateau. De fato, o casamento foi reputadamente celebrado na Igreja de Santa Madalena, a estrutura no local no qual a igreja de Sauniere foi subsequentemente eregida. O primeiro casamento de Dagoberto havia produzido três filhas mas nenhum herdeiro homem. De Giselle Dagoberto teve mais duas meninas e ao menos, em 676, o filho Sigisberto IV. E pelo tempo em que Sigisberto nasceu Dagoberto era uma vez mais um rei. Por alguns três anos parece que Dagoberto passou seu tempo em Rennes-le-Chateau, observando as vicissitudes de seus domínios ao norte. Finalmente, em 674, a oportunidade havia se apresentado. Com o apoio de sua mãe e dos conselheiros dela, o monarca a tanto tempo exilado se anunciou, reclamando seu reino e foi oficialmente proclamado rei da Austrasie. Wilfredo de York foi instrumental em sua instalação como rei.

Segundo Gerard de Sede havia também uma figura mais elusiva, muito mais misteriosa, sobre a qual há pouca informação histórica: Saint Amatus, bispo de Sião na Suíça. ‘Uma vez restaurado no trono, Dagoberto não foi um rei frágil. Ao contrário, ele se provou um digno sucessor de Clovis. De uma vez ele buscou avaliar e consolidar sua autoridade, domando a anarquia que prevalecia na Austrasie e restaurando a ordem. Ele governou firmemente, quebrando o controle de vários nobres rebeldes que tinham mobilizado suficiente poder militar e economico para desafiar o trono. E em Rennes-le-Chateu é dito que ele reuniu um tesouro substancial. Estes recursos eram para serem usados em sua reconquista da Aquitaine, que tinha se separado das mãos Merovíngias alguns quarenta anos antes e se declarado uma principalidade independente. Ao mesmo tempo Dagoberto deve ter sido um severo desapontamento para Wilfrido de York. Se Wilfrido tinha esperado que ele fosse o braço-espada da Igreja, Dagoberto provou ser nada desse tipo. Ao contrário, ele parece ter contido a tentada expansão da parte da Igreja dentro de seu reino, e portanto incorreu no desprazer eclesiástico.

Uma carta de um irado prelado franco para Wilfrido existe, condenando Dagoberto por aumentar os impostos, desdenhando as Igrejas de Deus e seus bispos’. Nem foi apenas a este respeito que Dagoberto parece ter sido desfavorável para Roma. Em virtude de seu casamento com um princesa Visigoda ele havia adquirido um território considerável no que hoje é o Languedoc. Ele pode também ter adquirido algo mais. Os Visigodos eram apenas nominalmente leais a Igreja Romana. De fato sua lealdade a Roma era extremamente tenue e uma tendência ao Arianismo ainda existia na família real. Há evidência que sugere que Dagoberto absorveu algo desta tendência. Por 679, depois de três anos no trono, Dagoberto tinha feito um número de inimigos poderosos, tanto seculares quanto eclesiásticos. Ao conter a autonomia rebelde deles, ele havia incorrido na hostilidade de certos nobres vingativos. Ao impedir sua tentada expansão, ele tinha levantado a antipatia da Igreja. Ao estabelecer um regime eficaz e centralizado ele havia provocado a inveja e o alarme de outros potentados francos governantes dos reinos adjacentes. Alguns destes governantes tinham aliados e agentes dentro do reino de Dagoberto. Um deles era o próprio Prefeito do Palácio do rei, Pepino o Gordo. E Pepino clandestinamente se alinhou com os inimigos políticos de Dagoberto, não recuando de traição ou assassinato. Como a maioria dos regentes Merovíngios, Dagoberto tinha ao menos duas cidades capitais. A mais importante delas era Stenay, na beira de Ardennes. Perto do palacácio real em Stenay estendia-se uma pesada área de arborização, a muito tempo considerada sagrada, chamada Floresta de Woevres. Foi nesta floresta, em 23 de dezembro de 679 que é dito que Dagoberto tenha ido caçar. Dado a data, a caçada pode bem ter sido uma ocasião ritual de algum tipo. Em qualquer caso, o que aconteceu evoca uma multitude de ecos arquetípicos, incluindo o assassinato de Siegfried em Nibelungenlied. Em direção ao meio dia, sucumbindo a fadiga, o rei deitou-se para descansar ao lado de um riacho, aos pés de uma árvore. Enquanto ele dormia, um de seus serventes, supostamente seu afilhado, chegou furtivamente acima dele e, agindo sob as ordens de Pepino, cravou uma lança no olho de Dagoberto. Os assassinos então retornaram a Stenay, pretendendo exterminar o resto da família na residência lá. Quão bem sucedidos eles foram nesta tarefa não está claro. Mas não há dúvida de que o reino de Dagoberto e de sua família veio a um fim abrupto e violento. Nem a Igreja perdeu muito tempo lamentando. Ao contrário, ela prontamente endossou as ações dos assassinos do rei.

Há até mesmo uma carta de um prelado franco a Wilfrido de York, que tenta racionalizar e justificar o regicídio. O corpo de Dagoberto e seu status póstumo passaram por um curioso número de vicissitudes. Imediatamente depois de sua morte, ele foi enterrado em Stenay, na Capela Real de Saint Remy. Em 872 quase dois séculos mais tarde ele foi exumado e mudado para uma outra igreja. Esta nova igreja se tornou a Igreja de São Dagoberto, e no mesmo ano o rei morto foi canonizado não pelo Papa [que não afirmava este direito até 1159], mas por um Conclave Metropolitano. A razão para a canonização de Dagoberto permanece não esclarecida. Segundo uma fonte, foi por causa que suas relíquias eram acreditadas terem sido preservadas nas vizinhanças de Stenay contray os ataques Vikings, embora esta explicação exija uma pergunta, porque não está claro porque as relíquias devessem possuir tais poderes em primeiro lugar. As autoridades eclesiásticas parecem embaraçosamente ignorantes a respeito do assunto. Elas admitem que Dagoberto, por alguma razão, se tornou o objeto de um culto completamente maduro e tinha sua própria festa em 23 de dezembro, o aniversário de sua morte. Mas eles parecem absolutamente perdidos em saber o porque ele deve ter sido tão exaltado. É possível, com certeza, que a Igreja se sentisse culpada sobre seu papel na morte do rei. A canonização de Dagoberto pode portanto ter sido uma tentativa de fazer emendas. Se assim o foi, contudo, não há indicações de porque um tal gesto tivesse sido considerado necessário, nem porque ele teria tido que esperar por dois séculos. Stenay, a Igreja de São Dagoberto e talvez as relíquias que ela continha eram todas consideradas de grande importância por um número de ilustres figuras nos séculos que se seguiram. Em 1069, por exemplo, o duque de Lorraine, o avô de Godfroi de Bouillon concedeu especial proteção a igreja e a colocou sob os auspícios do vizinho Abade de Gorze. Alguns anos mais tarde a igreja foi apropriada por um nobre local. Em 1093 Godfroi de Bouillon mobilizou um exército e submeteu Stenay a um cerco em escala completa com o único propósito, pareceria, de reconquistar a igreja e devolve-la a Abadia de Gorze. Durante a Revolução Francesa, a igreja foi destruída e as relíquias de São Dagoberto, como tantas outras pela França, foram dispersadas. Hoje um crânio ritualmente trepanado é dito ser o de Dagoberto e está sob custódia de um convento em Mons. Todas as outras relíquias do rei tem desaparecido.

Mas em meados do século XIX um documento mais curioso veio a luz. Era um poema, uma litania de 21 versos, intitulado ‘De sancta Dagoberto mar tyre prose’ implicando que Dagoberto foi martirizado por, ou para, algo. Este poema é acreditado datar de ao menos da Idade Média, possivelmente mais cedo. Muito significativamente, ele foi eencontrado na Abadia de Orval.

A Usurpação pelos Carolíngios

Estritamente falando Dagoberto não foi o último governante da dinastia Merovíngia. De fato os monarcas Merovíngios retiveram ao menos o status nominal por outros três quartos de séculos. Mas estes últimos Merovíngios mereciam o título de reis frageis. Muitos deles eram extremamente jovens. Em consequencia eles eram frequentemente fracos, peões indefesos nas mãos dos Prefeitos do Palácio, incapazes de avaliar a autoridade deles e impor decisões suas próprias. Eles realmente eram pouco mais do que vítimas; e mais do que uns poucos se tornaram sacrifícios. Sobretudo, os últimos Merovíngios eram ramos aprendizes, não descendentes da linhagem principal de Clovis e Merovee. A principal linhagem de ascendencia merovíngia havia sido deposta com Dagoberto II. Para todos os intentos e propósitos, portanto, o assassinato de Dagoberto pode ser visto como sinalizando o fim da dinastia Merovíngia. Quando Childeric III morreu em 754, era uma mera formalidade no que dizia respeito ao poder dinástico. Como regentes dos Francos a linhagem sanguínea Merovíngia tinha sido ativamente extinta muito tempo antes. Com o poder pingando das mãos dos Merovíngios, ele passou aos Prefeitos do Palácio; um processo que já havia começado antes do reinado de Dagoberto. Foi um Prefeito do Palácio, Pepino o Gordo, que arquitetou a morte de Dagoberto. E Pepino o Gordo foi seguido pelo seu filho, o famoso Charles Martel. Aos olhos da posteridade Charles Martel é uma das mais heróicas figuras da história francesa. Certamente existe alguma base para a aclamação dada a ele. Sob Charles, a invasão moura da França foi detida na Batalha de Pointiers em 732; e Charles, em virtude desta vitória, foi, em algum sentido, ‘defensor da fé’ e ‘salvador da cristandade’. O que é curioso é que Charles Martel, o homem forte que se pensa que ele era, nunca tomou o trono – que certamente estava dentro de sua garra. De fato ele parece ter visto o trono com um certo espanto supersticioso e, com toda probabilidade, como especificamente uma prerrogativa merovíngia. Certamente os sucessores de Charles, que tomaram o trono, buscaram seu caminho de estabelecer legitimidade ao se casarem com princesas merovíngias. Charles Martel morreu em 741. Dez anos mais tarde seu filho, Pepino III, Prefeito do Palácio do rei Chideric III, conseguiu o apoio da Igreja para reclamar legalmente o trono. ‘Quem devia ser o rei?’, perguntaram os embaixadores de Pepino ao Papa. ‘O homem que atualmente mantém o poder ou ele, favoreceria Pepino’. Pela autoridade apostólica ele ordenou que Pepino fosse criado rei dos Francos, uma calorosa traição do pacto ratificado com Clovis dois séculos e meio antes. Assim endossado por Roma, Pepino depôs Childerichic III, confinou o rei em um monastério, e o humilhou, privando-o de seus ‘poderes mágicos’ ou ambos porque ele tinha tosado seu cabelo sagrado. Quatro anos depois Childeric morreu, e a afirmação de Pepino sobre o trono não era contestada. Um ano antes, um documento crucial tinha convenientemente feito seu aparecimento, que subsequenemente alterou o curso da história ocidental. Este documento foi chamado ‘Doação de Constantino’. Hoje não há dúvidas que ele era uma fraude, criada não muito talentosamente dentro da chancelaria papal. A este tempo, contudo, ele era considerado genuíno, e sua influência foi enorme. A ‘Doação de Constantino’ tinha a data da alegada conversão de Constantino ao cristianismo em 312. Segundo a ‘Doação’, Constantino tinha oficialmente doado ao bispo de Roma seus símbolos e regalia imperiais, que assim se tornou propriedade da Igreja.

A ‘Doação’ porteriormente alegava que Constantino, pela primeira vez, tinha declarado o Bispo de Roma ser o ‘Vigário de Cristo’ e oferecido a ele o status de imperador. Em sua capacidade como ‘Vigário de Cristo’ o bispo tinha supostamente devolvido a regalia imperial a Constantino, que as usou subsequentemente com a sanção e permissão eclasiástica mais ao menos da maneira de um empréstimo. As implicações deste documento são suficientemente claras. Segundo a ‘Doação de Constantino’ o Bispo de Roma exercia a autoridade secular suprema bem como a suprema autoridade espiritual sobre a Cristandade. Ele era, de fato, um imperador papal, que podia dispor como desejasse da coroa imperial, que podia delegar seu poder ou qualquer aspecto que ele visse se enquadrar. Em outras palavras, ele possuia, através de Cristo, o direito indesafiável de criar ou depor reis. È da ‘Doação de Constantino’ que o subsequente poder do Vaticano nos assuntos seculares se deriva. Afirmando a autoridade através da ‘Doação de Constantino’, a Igreja empregou sua influência em benefício de Pepino III. Isto criou uma cerimônia onde o sangue dos usurpadores, ou de qualquer outro mais para este assunto, podia se tornar sagrado. Esta cerimônia veio a ser conhecida como coroação e unção no que estes termos eram comprendidos durante a Idade Média e na Renascença. Na coroação de Pepino, os bispos pela primeira vez eram autorizados a comparecerem, com escalão igual aos dos nobres seculares. E a própria coroação não mais compreendia o reconhecimento de um rei, ou um pacto com um rei. O ritual de unção era similarmente transformado. No passado, quando praticado, era um encontro cerimonial, um ato de reconhecimento ou de ratificação. Agora, contudo, ele assumia uma nova importância. Agora ele tomava precedência sobre o sangue, e podia ‘magicamente’como era, santificar o sangue. A unção se tornou algo mais do que um gesto simbólico. Ela se tornou o ato literal onde a graça divina era conferida a um regente. E o Papa, ao realizar estes atos, se tornava o supremo mediador entre Deus e os reis. Pelo ritual de unção, a Igreja arrogou-se o direito de fazer reis. O sangue agora estava subordinado ao óleo. E todos os monarcas eram tornados mramente subordinados e subservientes ao Papa.

Em 754 Pepino III foi oficialmente ungido em Ponthion, assim inaugurando a dinastia Carolíngia. O nome deriva de Charles Martel, embora seja geralmente associado ao mais famoso dos governantes Carolíngios, Carlos O Grande, Carlos Magno ou, como ele é melhor conhecido, Charlemagne. E em 800 Carlos Magno foi proclamado Sagrado Imperador Romano; um título que, em virtude do pacto com Clovis três séculos antes, devia ter sido reservado apenas a linhagem sanguínea Merovíngia. Roma agora se tornava o assento de um império que abarcava toda a Europa Ocidental, cujos regentes apens governavam com a sanção do Papa. Em 496 a Igreja havia se comprometido com a perpetuidade da linhagem sanguinea Merovíngia. Ao sancionar o assassinato de Dagoberto, ao divisar as cerimonias de coroação e unção, ao endossar o pedido de Pepino ao trono, ela tinha clandestinamente traído este pacto. Ao coroar Carlos Magno ele tinha tornado sua traição não apenas um ato público, quanto um fato realizado. Nas palavras de uma autoridade moderna: “Não podemos portanto estar seguros que a unção com a crisma dos Carolíngios não pretendesse compensar a perda das propriedades mágicas do sangue simbolizado pelos cabelos longos. Se isso fosse a compensação de algo, fosse provavelmente a perda da fé incorrida na quebra de um juramento de fidelidade de um modo particularmente chocante. E novamente Roma mostrou o caminho ao fornecer na unção um rito de fazer reis que de algum modo limpou as consciências de todos os Francos’. Nem todas as conciencias, contudo. Os próprios usurpadores parecem ter sentido, se não um sentimento de culpa, ao menos uma aguda necessidade de estabelecer a legitimidade deles. Para este fim Pepino III, imediatamente antes de sua unção, tinha ostentosamente se casado com uma princesa Merovíngia. E Carlos Magno fez igual. Carlos Magno, contudo, parece ter sido dolorosamente ciente da traição envolvida em sua coroação. Segundo narrativas contemporaneas, a coroação foi um assunto duidadosamente programado, arquitetado pelo Papa por trás das costas do monarca; e Carlos Magno parece ter sido surpreso e profundamente embaraçado. Uma coroa de algum tipo já havia sido clandestinamente preparada. Carlos Magno tinha sido atraido a Roma e lá persuadido a comparecer a uma missa especial. Quando ele tomou seu lugar na Igreja, o Papa, sem aviso, colocou a coroa sobre sua cabeça, enquanto a populaça o aclamava “Carlos, Augusto, coroado por Deus, o grande e amante da paz imperador dos Romanos’. Nas palavras de um cronista escrevendo naquele tempo, ‘Carlos Magno deixou claro que ele não teria entrado na catedral naquele dia, embora fosse um dos maiores festivais da Igreja, se tivesse sabido antecipadamente o que o Papa estava planejando fazer’. Mas seja qual for a responsabilidade de Carlos Magno neste caso, o pacto com Clovis e a linhagem sanguínea Merovíngia tinha sido vergonhosamente traído. E todas as nossass pesquisas indicaram esta traição, até mesmo embora ela tenha ocorrido a mais de 1.100 anos atrás, continuaram a irritar para o Priorado de Sião.

Mathieu Paoli, o pesquisador independente citado no capítulo anterior, chegou a uma conclusão similar: Para eles [o Priorado de Sião] a única nobreza autêntica é a nobreza de origem Visigoda/Merovíngia. Os Carolíngios, e então todos os outros, são apenas usurpadores. De fato, eles eram apenas funcionários do rei, encarregados de administrarem as terras que, depois de transmitidas pelo direito hereditário de governar estar terras, então pura e simplesmente tomaram o poder para eles próprios. Ao consagrar Carlos Magno em 800, a Igreja perjurou-se, porque ela tinha concluído, pelo batismo de Clóvis uma aliança com os Merovíngios que tinha feito da França a filha mais velha da Igreja.

A Exclusão de Dagoberto II da História

Com o assassinato de Dgoberto II em 679 a dinastia Merovíngia efetivamente terminou. Com a morte de Childeric III em 755 os Merovíngios pareceram desaparecer da história mundial completamente. Segundo os Documentos do Priorado, contudo, a linhagem sanguinea Merovíngia de fato sobreviveu. Segundo os Documentos do Priorado ela se perpetou até os dias atuais, do infante Sigisbert IV, filho de Dagoberto II com sua segunda esposa, Giselle de Razes. Não há dúvida de que Sigisbert existiu e era herdeiro de Dagoberto. Segundo todas as fontes outras que os Documentos do Priorado, contudo, não está claro o que aconteceu a ele. Certos cronistas tem tacitamente assumido que ele foi assassinado juntamente com seu pai e outros membros da família real. Uma narrativa altamente duvidosa avalia que ele morreu em um acidente de caça um ano ou dois antes da morte de seu pai. Se isto é verdade, Sigisbert teria sido um caçador precoce porque possivelmente ele não tivesse mais que três anos naquele tempo. Não há qualquer registro sobre a morte de Sigisbert. Nem há qualquer registro fora a evidência nos Documentos do Priorado de sua sobrevivência. A matéria toda parece ter sido perdida ‘nas névoas do tempo’, e ninguém parece ter sido muito preocupado sobre isso, exceto, com certeza, o Priorado de Sião. Em qualquer caso Sião pareceu estar conhecedor de certa informação que não estava disponível em lugar algum. Ou que era considerada de tão pequena consequência para garantir muita investigação. Ou foi deliberamente suprimida. Dificilmente seja surpreendente que nenhuma narrativa sobre o destino de Sigisbert tenha sido filtrada até nós. Não há narrativa publicamente acessível até mesmo de Dagoberto até o século XVII. Em algum ponto durante a Idade Média foi feita aparentemente uma tentativa sistemática de apagar Dagoberto da história, de negar até mesmo que ele tenha existido. Hoje Dagoberto II pode ser encontrado em qualquer enciclopédia. Ate 1646, contudo, não havia reconhecimento até mesmo de que ele tenha vivido. Qualquer lista ou genealogia de regentes franceses compilada antes de 1646 simplesmente o omite, pulando [a despeito da flagrante inconsistência] de Dagoberto I para Dagoberto III, um dos últimos monarcas Merovíngios, que morreu em 715. E não foi senão em 1655 que Dagoberto II foi reinstalado nas listas aceitas dos reis franceses. Dado este processo de erradicação, não estamos indevidamente perplexos pela falta de informação relacionada a Sigisbert. E não podemos senão suspeitar que seja qual for a informação que existiu ele tenha sido deliberadmente suprimida. Mas porque, imaginamos, deve Dagoberto II ter sido retirado da história? O que estava sendo escondido em tal exclusão? Porque alguém deveria querer negar a própria existência de um homem? Uma possibilidade, com certeza, é negar portanto a existência de seus herdeiros. Se Dagoberto nunca viveu, Sigisbert também não pode ter vivido.

Mas porque deveria ter sido importante, até o século XVII, negar que Sigisbert tenha vivido? A menos que de fato ele tenha sobrevivido, e seus descendentes ainda fossem vistos como uma ameaça. Nos parece que claramente estamos lidando com algum tipo de ‘acobertamento’. Muito patentemente existiam interesses vestidos que tinham algo de importância a perder se o conhecimento da sobrevivência de Sigisbert fosse tornado público. No século IX e talvez tão tarde quanto as Cruzadas estes interesses pareciam ter sido da Igreja Romana e da linhagem real francesa. Mas porque um tal assunto deva ter continuado a importar tão tarde quando na época de Luis XIV? Certamente isso teria sido um ponto academico então, porque três dinastias francesas tinham vindo e ido, enquanto o Protestantismo tinha quebrado a hegemonia Romana. A menos que houvesse de fato algo muito especial sobre o sangue Merovíngio. Não ‘propriedades mágicas’ mas algo mais – algo que havia retido a sua potência explosiva até mesmo depois que as superstições sobre o sangue mágico tinham sido postas de lado.

O Príncipe  Guillem de Gellone, Conde de Razes

Segundo os Documentos do Priorado, Sigisbert IV, com a morte de seu pai, foi resgatado pela sua irmã e levado para o sul para os domínios de sua mãe, a princesa visigoda Giselle de Razes. Ele é dito ter chegado ao Languedoc em 681 e, um pouco tempo depois, ter adotado e herdado o título de seu tio, o Duque de Razes e Conde de Rhedae. Também é dito que ele adotou o sobrenome ou apelido de ‘Plant-Ard’ (subsequentemente Plantard) da apelação  ‘rejeton ardent’ ‘tiro ardentemente florescente’ da vinha Merovíngia. Sob este nome, e sob os títulos adquiridos de seu tio, é dito que ele tenha perpetuado sua linhagem. E por 886 uma ramo desta linhagem é dito ter culminado em um certo Bernard Plantavelu aparentemente derivado de Plant-and ou Plantard cujo filho se tornou o primeiro Duque de Aquitaine, Até onde pudemos avaliar, nenhum historiador independente confirmou ou descartou estas avaliações. O assunto inteiro foi simplesmente ignorado. Mas a evidência circunstancial argumentou persuasivamente que Sigisbert de fato sobreviveu e perpetuou sua linhagem. A assídua erradicação de Dagoberto da história dá credencial a esta conclusão. Ao negar sua existência, qualquer linhagem descendente dele teria sido invalidada. Isto constitui um motivo para uma ação que outro modo seria inexplicável. Entre os outros fragmentos de evidência está uma carta de direitos datada de 718 que pertence a fundação de um monastério a umas poucas milhas de Rennes-le-Chateau por Sigisbert, Conde de Rhedae e sua esposa, Magdala. Fora esta carta de direitos nada é ouvido dos títulos de Rhedae e Razes por um outro século. Quando um deles reaparece, contudo, ele o faz em um contexto extremamente interessante. Por 742 há um Estado independente e completamente autônomo no sul da França; um principado segundo algumas narrativas, um reino completamente maduro, segundo outras. A documentação é não elaborada e a história é vaga sobre isso e a maioria dos historiadores, de fato, não é ciente de sua existência mas não há dúvida de sua realidade. Ele foi oficialmente reconhecido por Carlos Magno e seus sucessores, e pelo califa de Bagdá e o mundo islâmico. Ele foi rancorosamente reconhecido pela Igreja, de quem confiscou algumas terras. E ele sobreviveu até o final do século IX. Em algum tempo entre 759 e 768 o governante deste Estado – que incluia Razes e Rennes-le-Chateau foi oficialmente pronunciado rei. A despeito da desaprovação de Roma, ele foi recohecido como tal pelos Carolíngios, dos quais ele se considerava vassalo. Nas existentes narrativas ele figura mais proeminente sob o nome de Teodorico, ou Thierry. E a maioria dos eruditos modernos o vêem como sendo de descendência Merovíngia. Não há evidência definitiva de onde tal descendência se derivou. Pode muito bem ter derivado de Sigisbert. Em qualquer caso, não há dúvida que o filho de Teodorico, Guillem de Gellone, manteve o título de Conde de Razes. O título que é dito ter sido possuido por Sigisbert e passado aos seus descendentes. Guillem de Gellone era um dos mais famosos homens de seu tempo, tanto que, sua realidade histórica – como a de Carlos Magno e Godfroi de Boiullon tem sido obscurecidas pela lenda.

Antes da época das Cruzadas, houve ao menos seis poemas épicos compostos sobre ele, canções similares a famosa Chanson de Roland. Na Divina Comédia Dante se refere a ele unicamente em um status exaltado. Mas até mesmo antes de Dante, Guillem tinha se tornado objeto de atenção literária. No século XIII ele figurou como protagonista de  Willehalm, um romance épico inacabado composto por Wolfram von Eschenbach cujo trabalho mais famoso, Parzival, é provavelmente o mais importante dos romances que lidam com os mistérios do Santo Gral. Nos pareceu de certa forma curioso, inicialmente, que Wolfram – todos os outros trabalhos lidam com o Gral, a ‘família do Gral’ e a ‘linhagem da família do Gral’ deva subitamente se devotar a um tema tão radicalmente diferente como Guillem de Gellone. Por outro lado, Wolfram declarou em um outro poema que o ‘Castelo do Gral’, lar da ‘família do Gral’ estava situado nos Pirineus, no que, no início do século IX, era o domínio de Guillem de Gellone. Guillem manteve um relacionamente estreito com Carlos Magno. Sua irmã, de fato, casou-se com um dos filhos de Carlos Magno assim estabelecendo uma ligação dinástica com o sangue imperial. E o próprio Guillem era um dos mais importantes comandantes de Carlos Magno na incessante guerra contra os mouros. Em 803, pouco depois da coroação de Carlos Magno como Sagrado Impreador Romano, Guillem capturou Barcelona dobrando seu próprio território e estendendo sua influência aos Pirineus. Carlos Magno ficou tão grato por seus serviços que seu principado foi confirmado pelo imperador como uma instituição permanente. A carta de direitos ratificando isto foi perdida ou destruída, mas há abundante testemunho de sua existência. Autoridades independentes e inimpugnáveis tem fornecido genealogias detalhadas da linhagem de Guillem de Gelone e sua família e descendentes.  Estas fontes, contudo, não fornecem indicação dos ascendentes de Guillem exceto por seu pai, Teodorico. Em resumo, as origens reais da família foram envoltas em mistério. E eruditos e historiadores contemporaneos estão geralmente de certa forma intrigados sobre o aparecimento enigmático, como se em combustão espontanea, de uma casa nobre tão influente. Mas uma coisa, a qualquer nível, é certa. Por 886 a linhagem de Guillem de Gelone culminou em um certo Bernard Plantavelu, que estabeleceu o ducado de Aquitaine.

Em outras palavras, a linhagem de Guillem culminou precisamente no mesmo indivíduo da linhagem descrita nos Documentos do Priorado para Sigisbert IV e seus descendentes. Estávamos tentados, com certeza, de pular para as conclusões, e usar as genealogias nos Documentos do Priorado para atravessar a brecha deixada pela história aceita. Estávamos tentados a assumir que os elusivos progenitores de Guillem de Gelone eram Dagoberto II, e Sigisbert IV e a linhagem principal da deposta dinastia Merovíngia, a linhagem citada nos Documentos do Priorado sob o nome de Plant-ard ou Plantard. Infelizmente não pudemos assim o fazer. Dado o estado confuso dos registros existentes, não pudemos definitivamente estabelecer a precisa conexão entre a linhagem Plantard e a linhagem de Guillem de Gelone. Eles podem de fato ter culminado no mesmo. Por outro lado, eles podem ter intercasado em algum ponto. O que permaneceu certo, contudo, foi que ambas linhagens, por 886, tinham culminado em Bernard Plantavelu e nos duques da Aquitaine. Embora eles nem sempre combinem precisamente na datação e tradução de nomes, podemos então tentativamente aceitar, na ausência de qualquer contradição histórica, que a linhagem sanguinea Merovingia de fato continuou, mais ou menos como é mantido nos Documentos do Priorado. Podemos tentativamente aceitar que Sigisbert IV sobreviveu ao assassinato de seu pai, adotou o nome de família Plantard e, como Conde de Razes, perpetuou a linhagem de seu pai.

O Príncipe Ursus

Por 886, de fato, o ‘tiro florescente da vinha Merovingia’ tinha florescido em uma grande e complicda árvore familiar. Bernard Plantavelu e os Duques de Aquitaine constituem um ramo. Há outros ramos também. Então os Documentos do Priorado declaram que o neto de Sigisbert IV, Sigisbert VI, era conhecido pelo nome de Príncipe Ursus. Entre 877 e 879 o Príncipe Ursus é dito ter sido oficialmente proclamado Rei Ursus. Ajudado por dois nobres Bernard dAuvergne e o Marquês de Gothic ele é dito ter realizado uma inssureição contra Luis II da França em uma tentativa de reconquistar sua herança por direito. Historiadores independentes confirmam que uma tal inssureição de fato ocorreu entre 877 e 879. Estes mesmos historiadores se referem a Bernard dAuvergne e ao Marquês de Gothic. O líder, ou instigador, da insurreição não é especificamente chamado como Sigisbert VI. Mas há referências a um indivíduo conhecido como Prícipe Ursus. Sobretudo, o Príncipe Ursus é conhecido por ter estado envolvido em uma cerimonia curiosa e elaborada em Nimes, na qual quinhentos eclesiásticos reunidos cantaram o Te Deum. De todas as narrativas sobre isso, este cerimonia pareceria ter sido uma coroação. Bem pode ter sido a coroação a qual aludiu os Documentos do Priorado quando se referem a proclamação do Príncipe Ursus como rei. Mais uma vez, os Documentos do Priorado receberam apoio independente. Mais uma vez, eles parecem se basear na informação não obtível em outros lugares que suplementou e algumas vezes até mesmo ajudou a explicar censuras na história aceita.  Neste caso, eles aparentemente nos tinham dito que o elusivo Príncipe Ursus realmente era – o descendente linear, por Sigisbert IV, do assassinado Dagoberto II. E a insurreição para a qual os historiadores parecem não fazer sentido, podia ter sido uma tentativa completamente compreensiva da deposta dinastia Merovíngia de reconquistar a herança conferida por Roma através do pacto com Clovis, e então subsequentemente traído. Segundo os Documentos do Priorado e fontes independentes, a insurreição fracassou. O Príncipe Ursus e seus apoiadores foram derrotados em uma batalha perto de Poitiers em 881. Com este retrocesso, é dito que a família Plantard perdeu suas possessões no sul da França embora ainda mantivesse o agora puramente titular status de Duque de Rhedae e Conde de Razes. O Príncipe Ursus é dito ter morrido na Bretanha onde sua linhagem se tornou aliada pelo casamento com a casa ducal de Breton. Pelo século IX, então, o sangue Merovíngio havia fluido nos ducados de Brittany e Aquitaine. Nos anos que se seguiram, a família incluindo Alain, mais tarde Duque da Brittany é dito ter buscado refúgio na Inglaterra, estabelecendo um ramo inglês chamado ‘Planta’.

Novamente autoridades independentes confirmam que Alain, sua família e entourage fugiram dos Vikings para a Inglaterra. Segundo os Documentos do Priorado, um dos ramos ingleses da família, listado como Bera VI, era apelidado ‘O Arquiteto’. Ele e seus descendentes, tendo encontrado um paraíso na Inglaterra sob o Rei Athelstan, são ditos terem praticado a arte da construção – uma referência aparentemente enigmática. Muito interessantemente, as fontes maçonicas datam a origem da Livre Maçonaria na Inglaterra no reino do Rei Athelstan. Pode a linhagem sanguínea Merovíngia, imaginamos, além de suas declarações pelo trono francês, estar de algum modo ligada com algo no núcleo da Livre Maçonaria?

A Família do Gral

A Idade Média abunda com uma mitologia tão rica e ressonante quanto aquelas das antigas Grécia e Roma. Algumas destas mitologias pertencem, embora de forma selvagemente exagerada, a reais personagens históricos para Arthur, Roland e Carlos Magno, para Rodrigo Diaz de Vivar, popularmente conhecido como El Cid. Outros mitos como aqueles relativos ao Gral, por exemplo, parecem de início repousar em uma fundação mais fabulosa. Entre os mitos medievais mais populares e evocativos está aquele de Lohengrin, o Cavaleiro Cisne’. Por uma lado ele é estreitamente ligado aos fabulosos romances do Gral; por outro, ele cita personagens históricas específicas. Esta mistura de fato e fantasia pode bem ser única. E por tais trabalhos como a ópera de Wagner ele continua a exercer seu apelo arquetípico até mesmo hoje. Segundo as narrativas medievais, Lohengrin algumas vezes chamou Halias, implicando associações solares foram um descendente da elusiva e misteriosa família do Gral. No poema de Wolfram von Eschenbach, ele é de fato o filho de Parzival, o supremo Cavaleiro do Gral. Um dia, no sagrado templo do castelo do Gral em Munsalvaesche, Lohengrin é dito ter ouvido o sino da capela tocando sem a intervenção de mãos humanas; um sinal que sua ajuda era urgentemente solicitada em algum lugar no mundo. Foi requerido, muito previsivelmente, por uma donzela em apuros, a Duquesa de Brabant, segundo algumas fontes, a Duquesa de Bouillon segundo outras. A dama precisava desesperadamente de um campeão, e Lohemgrin se apressou em seu resgate em um bote levado por cisnes heráldicos. Em um único combate ele derrotou o perseguidor da Duquesa e então se casou com a dama. Em suas núpcias, contudo, ele deu um aviso restringente. Nunca sua noiva era para interroga-lo sobre suas origens ou ancestralidade, seu fundo ou lugar de onde veio. E por alguns anos a dama obedeceu a ordem de seu marido. Afinal, contudo, estimulada pela curiosidade fatal e pelas grosseiras insinuações de rivais, ele presumiu fazer a pergunta proibida. Portanto, Lohengrin foi compelido a partir, desaparecendo em seu bote levado por cisnes ao por do sol. E para trás dele, com sua esposa, ele deixou uma criança de linhagem incerta. Segundo as várias narrativas, este criança foi o pai ou avô de Godfroi de Bouillon.

É difícil para a mente moderna apreciar a magnitude do status de Godfroi na consciência popular – não somente de seu próprio tempo mas até mesmo tão tarde quanto no século XVII. Hoje, quando se pensa nas Cruzadas, pensa-se em Ricardo Coração de Leão, Rei João, talvez Luis IX [São Luis] ou Frederico Barbarossa. Mas até relativamente recentemente, nenhum destes indivíduos desfrutava do prestígio e da aclamação de Godfroi. Godfroi, líder da Primeira Cruzada, foi o supremo herói popular, o herói por excelência. Foi Godfroi que inaugurou as Cruzadas.  Foi Godfroi que capturou Jerusalém dos Sarracenos. E foi Godfroi que resgatou o Sepulcro de Cristo das mãos infiéis. Foi Godfroi, acima de todos os outros, que, na imaginação das pessoas, reconciliou os ideais do empreendimento da alta cavalaria com a fervente piedade cristã. Não surpreendentemente, portanto, Godfroi se tornou objeto de um culto que persistiu muito depois de sua morte. Dado seu status exaltado, é compreensível que Godfroi deva ser creditado de todas as maneiras de ilustres pedigrees místicos. É até mesmo compreensível que Wolfram von Eschenbach, e outros romancistas medievais, devam liga-lo diretamente ao Gral e devam apresenta-lo como descendente linear da misteriosa família do Gral. E tais pedigreees fabulosos tem se tornado até mesmo mais compreensíveis pelo fato de que a verdadeira linhagem de Godfroi é obscura. A história permanece desconfortavelmente incerta de sua ancestralidade.

Os Documentos do Priorado nos forneceram a genealogia mais plausível, talvez de fato, a primeira plausível, de Godfroi de Bouillon que tenha vindo a luz. Até onde esta genealogia pode ser examinada e muito dela pode ser provado acurado. Não encontramos evidência que a contradiga,  grande parte a sustenta, e está convincentemente preenchida por um número de perplexantes falhas históricas. Segundo a genealogia nos Documentos do Priorado, Godfroi de Bouillon em virtude de sua avó, que se casou com Hugues de Plantard em 1009 era um descendente linear da família Plantard. Em outras palavras, Godfroi era de sangue Merovíngio, diretamente descendendo de Dagoberto II, Sigesbert IV e a linhagem dos ‘reis perdidos’ merovíngios. Por quatro séculos o sangue real merovíngio parece ter fluido por retorcidas e numerosas árvores familiares. Afinal, por um processo análogo ao de enxertar as vinhas em vinicultura pareceria ter dado fruto em Godfroi de Bouillon, Duque de Lorraine. Podemos agora perceber as Cruzadas sob uma nova perspectiva, e discernir nelas algo mais do que o gesto simbólico de reclamar o Sepulcro de Cristo dos Sarracenos. Esta revelação lança uma importante luz nova sobre as Cruzadas. A seus próprios olhos, bem como aos olhos de seus apoiadores, Godfroi teria sido mais do que Duque de Lorraine. E aqui, na casa de Lorraine, é estabelecido um novo patrimônio. Ele seria de fato, um rei por direito, um legítimo reclamante da dinastia deposta com Dagoberto II em 679. Mas se Godfroi era um rei por direito, ele era também um rei sem reino, e a dinastia Capetiana na França, apoiada pela Igreja Romana, estava por então entrincheirada demais para ser destronada. O que alguém pode fazer se é um rei sem reino? Talvez encontrar um reino. Ou criar um reino. O mais precioso reino no mundo inteiro, a Palestina, a Terra Sagrada, o solo caminhado pelo próprio Jesus. Não deveria o regente de um tal reino ser comparável a qualquer um na Europa? E ele não estaria, ao presidir sobre o mais sagrado dos sítios terrenos, obtendo uma doce vingança sobre a Igreja que traiu seus ancestrais quatro século antes?

O Mistério Elusivo

Gradualmente certas peças do quebra-cabeças estão começando a entrar em seu lugar. Se Godfroi era de sangue Merovíngio, um número de fragmentos aparentemente desconectados param de serem desconexos e assumem uma continuidade coerente. Podemos então explicar a ênfase aceita em tais elementos aparentemente disparatados como a dinastia Merovíngia e as Cruzadas, Dagoberto II e Godfroi, Rennes-le-Chateau, os Cavaleiros Templários, a casa de Lorraine, o Priorado de Sião. Podemos até mesmo traçar as linhagens sanguineas merovíngias até o dia presente a Alain Poher, a Henri de Montpezat [consorte da Rainha da Dinamarca], a Pierre Plantard de Saint-Clair, a Otto von Habsburg, duque titular de Lorraine e Rei de Jerusalém. Ainda que uma questão realmente crucial continue a se evadir de nós. Ainda não podemos ver porque a linhagem sanguínea Merovíngia deva ser tão inexplicavelmente importante hoje. Não podemos ver porque sua declaração deve ser de qualquer modo relevante aos assuntos contemporaneos, ou porque ela deva comandar a fidelidade de tantos homens importantes através dos séculos. Ainda não podemos ver porque uma moderna monarquia Merovíngia, contudo tão tecnicamente legítima quanto ela possa ser, garantiria um tal endosso urgente. Muito claramente estamos negligenciando algo.

A Tribo Exilada

Pode haver algo especial sobre a linhagem sanguínea Merovíngia, algo mais do que a legitimidade academica e técnica? Pode realmente haver algo, de algum modo, que genuinamente possa dizer respeito aos povos de hoje? Pode haver algo que possa afetar, talvez até mesmo alterar, as existentes instituições sociais, políticas e religiosas? Estas perguntas continuam a nos intrigar. Como ainda que, contudo, não pareça haver respostas para elas. Mais uma vez mergulhamos pela compilação dos Documentos do Priorado, e especialmente os todo importantes Dossiês Secretos. Relemos passagens que antes nada haviam significado para nós. Agora elas faziam sentido, mas não serviam para explicar o mistério, nem para responder o que havia se tornado perguntas críticas. Por outro lado, havia outras passagens cuja relevância ainda não estava clara para nós. Estas passagens por nenhum modo resolviam o enigma; mas, se nada mais, eles estabeleceram o nosso pensamento ao longo de certas linhas que eventualmente se provaram ser de suprema importância. Como já haviamos descoberto, os próprios Merovíngios, segundo seus próprios cronistas, afirmavam descenderem da antiga Tróia. Mas segundo certos Documentos do Priorado o pedigree Merovíngio era mais velho do que o cerco de Tróia. Segundo certos Documentos do Priorado, o pedigree Merovíngio podia de fato ser traçado de volta ao Velho Testamento. Entre as genealogias nos Dossiês Secretos, por exemplo, há numerosas notas de rodapé e anotações. Muitas delas se referem especificamente a uma das doze tribos do antio Israel, a Tribo de Benjamim. Uma de tais referências cita, e enfatisa, três passagens bíblicas – Deuteronomio 33, Josué 18 e Juízes 20 e 21. Deuteronomio 33 contém a benção pronunciada por Moisés sobre os patriarca de cada uma as doze tribos. De Benjamim, Moisés diz: ‘O amado do Senhor deve habitar em segurança por Ele; e o Senhor deve cobri-lo por todo dia, e Ele habitará entre seus ombros’ (33:12) Em outras palavras Benjamim e seus descendentes eram selecionados por uma benção muito especial e exaltada. Isto, de fato, era claro. Estavamos, com certeza, intrigados pela promessa do Senhor habitar entre os ombros de Benjamim. Isso deve ser associado com a legendária marca de nascimento Merovíngia, a cruz vermelha entre as omoplatas? A ligação nos parece de certa forma levada longe demais. Por outro lado, havia outras similaridades mais claras entre Benjamim no Velho Testamento e o assunto de nossa investigação. Segundo Robert Graves, por exemplo, o dia sagrado de Benjamim era 23 de dezembro – o dia da festa de Dagoberto. Entre os três clãs que compreendiam a Tribo de Benjamim, havia o clã de Ahiram que pode de algum modo obscuro pertencer a Hiram, construtor do Templo de Salomão e figura central na tradição maçonica. O mais devotado discípulo de Hiram, sobretudo, era chamado Benoni; e Benoni, muito interessantemente, era o nome originalmente conferido ao infante Benjamim por sua mãe, Raquel, antes que ela morresse. A segunda referência bíblica nos Dossiês Secretos, em Josué 18, é ainda mais clara. Ela lida com a chegada do povo de Moisés a Terra Prometida e a indicação de cada uma das doze tribos para partes particulares do território. Segundo esta indicação, o território da Tribo de Benjamim incluia o que subsequentemente veio a ser a sagrada cidade de Jerusalém. Jerusalém, em outras palavras, até mesmo antes de se tornar a capital de David e de Salomão, foi atribuida por direito de nascimento à Tribo de Benjamim. Segundo Josué 18:28 o direito de nascimento dos Benjamitas abarcava Zelah, Eleph e Jebusi, que é Jerusalém, Gibeath e Kirjath; quatorze cidades com suas vilas. Esta é a herança dos filhos de Benjamim segundo suas famílias. A terceira referência bíblica citada nos Dossiês Secretos envolve uma sequência muito complexa de eventos. Um Levita, viajando pelo território Benjamita, é assaltado, e sua concubina violentada, por adoradores de Belial, uma variante da Mãe Deusa Suméria, conhecida como Ishtar pelos babilonios e Astarte pelos Fenícios.

Chamando representantes das doze tribos para testemunhar, o Levita exige vingança pela atrocidade; e em um conselho, os Benjamitas são aconselhados a entregarem os malfeitores a justiça. Pode-se esperar que os Benjamitas cumprissem isso prontamente. Por alguma razão, contudo, eles não o fazem, e resolvem, pela força das armas, proteger os ‘filhos de Belial’. O resultado é uma guerra sangrenta e amarga entre os Benjamitas e as outras onze tribos remanescentes. No curso das hostilidades uma praga é pronunciada pelos últimos sobre qualquer homem que der sua filha a um Benjamita. Quando a guerra acabou, contudo, os Benjamitas estão virtualmente exterminados e os israelitas vitoriosos se arrependem de sua maldição que, contudo, não pode ser retirada; Agora os homens de Israel tinham jurado em Mizpeh, dizendo, Nenhum de nós dará sua filha por esposa a um Benjamita. E o povo veio a casa de Deus, e morou lá até mesmo diante de Deus, e elevou sua voz, e lamentou tristemente; e disse, Oh Senhor Deus de Israel, porque tem vido a acontecer a Israel que hoje deva haver uma tribo faltando em Israel: [Juízes 21:1-3]. Uns poucos versos depois, o lamento é repetido: e os filhos de Israel se arrependem por Benjamim seu irmão, e dizem, há uma tribo cortada de Israel neste dia. O que devemos fazer com as esposas deles que permanecem, vendo que temos jurado ao Senhor que não daremos a eles nossas filhas por esposas? [Juizes 21:6-7] . E ainda novamente: E o povo se arrependeu por Benjamim, porque o Senhor tinha feito uma brecha nas tribos de Israel. Então os anciãos da congregação disseram, Como devemos fazer para as esposas deles que restaram, vendo que as mulheres são destruídas fora de Benjamim? E eles disseram, deve haver uma herança para elas que escapem de Benjamim, que a tribo não seja destruida de Israel. Porque não podemos dar a eles nosas filhas por esposas porque os filhos de Israel tem jurado, dizendo, Amaldiçoado seja aquele que der uma esposa a Benjamim [Juízes 21:15-18]. Confrontados pela extinção da tribo inteira os anciãos rapidamente divisaram uma solução. Em Shiloh, em Bethel, brevemente há um festival; e as mulheres de Shiloh, cujos homens tem permanecido neutros na guerra estão para serem considerados um jogo justo. Os Benjamitas sobreviventes são instruídos a irem para Shiloh e esperar em emboscada nos vinhedos. Quando as mulheres da cidade se congregaram para dançar no festival, os Benjamitas as tomaram e levaram como esposas.

Não está claro porque os Dossiês Secretos insistem em chamar atenção para esta passagem. Mas seja qual for a razão, os Benjamitas, até onde diga respeito a história bíblica, são claramente importantes. A despeito da devastação da guerra,  rapidamente se recuperaram em prestígio, se não em números.  De fato eles se recuperaram tão bem que em Samuel eles fornecem a Israel seu primeiro Rei, Saul. Seja qual a recuperação que os Benjamitas possam ter feito, contudo, os Dossiês secretos implicam que a guerra sobre os seguidores de Belial era um ponto de virada crucial. Pareceria que no despertar deste conflito muitos, se não a maioria, dos Benjamitas foram para o exílio. Então há uma nota portentosa nos Dossiês Secretos, em letras capitais: UM DIA OS DESCENDENTES DE BENJAMIM DEIXARAM SEU PAíS; ALGUNS PERMANECERAM; 2.000 ANOS DEPOIS GODFROI VI [DE BOUILLON] SE TORNOU REI DE JERUSALÉM E FUNDOU A ORDEM DE SIÃO. De início, pareceu não haver relação entre estes aparentes non sequiturs. Quando reunimos as diversas e fragmentárias referências nos Dossiês Secretos, contudo, uma história coerente começou a emergir. Segundo esta narrativa a maioria dos Benjamitas não foram para o exílio. Seu exílio supostamente os levou a Grécia, para o Peloponeso Central e para a Arcadia, em resumo, onde supostamente eles se tornaram alinhados com a linhagem real arcadiana. Na direção do advento da era cristã, é dito então que eles tenham migrado Danúbio e Reno acima, se entrecasando com certas tribos teutônicas e eventualmente engendrando os Francos Sicambrianos, os antecessores imediatos dos Merovíngios. Segundo os documentos do Priorado, então, os Merovíngios eram descendentes, por meio da Arcadia, da Tribo de Benjamim. Em outras palavras, os Merovíngios, bem como seus subsequentes descendentes das linhagens sanguineas de Plantard e Lorraine, por exemlo, eram ultimamente de origem semítica ou israelita.

E se Jerusalém era de fato o direito hereditário por nascimento dos Benjamitas, Godfroi de Bouillon, ao marchar sobre a cidade Santa, teria de fato estado reclamando sua herança por direito e antiga. Novamente é significativo que Godfroi, sozinho entre os augusto príncipes ocidentais que embarcaram na Primeira Cruzada, dispusesse toda sua propriedade antes de sua partida – implicando portanto que ele não pretendia voltar a Europa. É desnecessário dizer, não tivemos meios de avaliar se os Merovíngios eram ou não de origem Benjamita. A informação nos Documentos do Priorado, tal como isso era, relatado era remota demais; obscura demais de um passado para o qual não há confirmação, nenhum registro de qualquer tipo que possa ser obtido. Mas as avaliações não são nem particularmente únicas e nem novas. Ao contrário, eles tem estado por aí, na forma de vagos rumores e nebulosas tradições, por um longo tempo. Para citar apenas uma vez, Proust retira delas em seu opus; e mais recentemente, o novelista Jean  d’Ormesson sugere a origem judaica de certas famílias nobres francesas. E em 1965 Roger Peyrefitte, que vê como escandalizar seus compatriotas, o fez assim com ressonante elã em uma novela afirmando que todos os franceses e a maioria da nobreza européia é ultimamente judaica. De fato o argumento, embora improvável, não é de todo implausível, nem são os exílios e migrações restritas a Tribo de Benjamim nos Documentos do Priorado. A Tribo de Benjamim tomou armas em benefício dos seguidores de Belial, uma forma de Deusa Mãe frequentemente associada a imagens de um touro ou bezerro. Há razões para acreditar que os próprios Benjamitas reverenciavam esta deidade. De fato, é possível que a veneração do Bezerro de Ouro no Exodus o assunto, bastante significativo, de uma das mais famosas pinturas de Poussin pode ter sido especificamenet um ritual Benjamita. Seguindo sua guerra contra as outras onze tribos de Israel, os Benjamitas fugindo para o exílio, por necessidade, teriam tido que fugir na direção oeste, em direção da costa fenícia. Os fenícios possuiam barcos capazes de transportar grandes números de refugiados. E eles teriam sido aliados óbvios para os Benjamitas fugitivos porque, eles também, veneravam a Deusa Mãe na forma de Astarte, a Rainha do Céu.

Se realmente houve um exodus dos Benjamitas da Palestina pode-se esperar encontrar algum resistro vestigial disso. No mito grego se encontra. Há a história do filho do Rei Belus, Danaus, que chega na Grécia com suas filhas, por barco. Suas filhas são ditas terem introduzido o culto da Deusa Mãe que se tornou o culto estabelecido dos Arcadianos. Segundo Robert Graves, o mito de Danaus registra a chegada no Peloponeso de colonos da Palestina. Graves afirma que de fato o Rei Belus é Baal, ou Bel, ou talvez Belial do Velho Testamento. Também é válido notar que um dos clãs da Tribo de Benjamim era o clã de Bela. Na Arcadia o culto da Deusa Mãe não apenas prosperou mas sobreviveu muito mais que em outras partes da Grécia. Ele se tornou associado com a deusa Demeter, então Diana ou Artemis. Conhecida regionalmente como Arduina, Artemis se tornou a deidade tutelar das Ardenas; e foi das Ardenas que os francos sicambrianos primeiro sairam para o que agora é a França. O totem de Artemis era a ursa Kallisto, cujo filho era Arkas, o urso infante e patrono da Arcadia. E Kallisto, transportada aos céus por Artemis, se tornou a constelação da Ursa Maior, a Grande Ursa. Pode ser então ser algo mais do que coincidência no apelo ‘Ursus’ aplicado repetidamente a linhagem sanguinea Merovíngia. Em qualquer caso há outra evidência, fora da mitologia, sugerindo uma migração judaica para a Arcadia. Nos tempos clássicos a região conhecida como Arcadia era governada pelo poderoso estado militarista de Esparta. Os espartanos absorveram muito da mais velha cultura acadiana, e de fato, o legendário arcadiano Lycaeus pode ser identificado com Lycurgus, que codificou a lei espartana. Ao alcançar a idade adulta, os espartanos, como os Merovingios, atribuiam um especial significado mágico ao seu cabelo que, como os Merovíngios, eram usados longos. Segundo uma autoridade ‘o cumprimento do cabelo denotava o vigor físico deles e se tornou um símbolo sagrado’. O que há mais, ambos os livros dos Macabeus nos Apócrifos ressaltam a ligação entre os espartanos e os judeus. Macebeus fala de certos judeus terem embarcado para ir aos Lacedonianos, na esperança de encontrar proteção lá por causa de sua realeza. E Macabeus afirma explicitamente: ‘tem sido encontrado na escrita concernente aos espartanos e aos judeus que eles eram irmãos e são da família de Abraão’. Podemos então reconhecer ao menos a possibilidade de uma migração judaica para a Arcadia assim como os Documentos do Priorado, se eles não podem ser provados corretos, também não podem ser descartados. Quanto a influência semítica na cultura franca, há sólida evidência arqueológica. As rotas de comércio semíticas e fenícias atravessavam todo o sul da França, de Bordeaux a Marselha e Narbonne. Eles também se estendiam Reno acima. Já em 700-600 BC havia assentamentos fenícios não apenas ao longo da costa francesa mas terra a dentro também, em tais sítios como Carcassone e Toulouse. Entre os artefatos encontrados nestes sítios estão muitos de origem semíta. Isto dificilmente seja surpreendente. No século IX BC os reis fenícios de Tiro tinham se entrecasado com os reis de Israel e Judá assim estabelecendo uma aliança dinástica  que teria engendrado um contacto íntimo entre seus povos respectivos.

O saque de Jerusalém no ano 70 de nossa era e a destruição do Templo, desencadearam um exodus maciço dos judeus da Terra Santa. Então a cidade de Pompéia, enterrada pela erupção do Vesúvio em 79, incluia uma comunidade judaica. Certas cidades no sul da França – Arles, por exemplo – Lunel e Narbonne forneceram um paraíso para os refugiados judeus ao redor do mesmo tempo. E ainda que o influxo de povos judaicos na Europa e especialmente na França, fossem anteriores a queda de Jerusalém no primeiro século. De fato isso tinha estado em progresso de antes da era cristã. Entre 106 e 48 BC uma colonia judaica foi estabelecida em Roma. Não muito depois uma outra de tais colonias foi estabelecida no Reno, em Colonia. Certas legiões romanas incluiam contingentes de escravos judeus, que acompanhvam seus senhores por toda Europa. Muitos destes escravos eventualmente venceram, comprando ou de outro modo obtendo sua liberdade e formaram comunidades. Em consequência há muitos nomes de lugares especificamente semíticos espalhados pela França. Alguns deles estão situados quadradamente na velha terra natal merovíngia. A uns poucos quilometros de Stenay, por exemplo, nas bordas da Floresta de Woevres onde Dagoberto foi assassinado, há uma vila chamada Baalon. Entre Stenay e Orval  há uma cidade chamada Avioth. E a Montanha de Sião em Lorraine – ‘a colina inspirada’ era originalmente ‘Monte Semita’. Novamente então, não podemos provar as afirmações do Priorado de Sião mas também não podemos descarta-las. Certamente há evidência suficiente que as torna ao menos plausíveis. Fomos compelidos a reconhecer que os Documentos do Priorado podem estar corretos que os Merovíngios, e várias famílias nobres que são descendentes deles, podem ter derivado de fontes semíticas. Mas isto pode, imaginamos, ser tudo o que havia da história? Pode este ser o portentoso segredo que tem engendrado tanta confusão e intriga, tanta maquinação e mistério, tanta controvérsia e conflito por séculos? Meramente uma outra história de uma tribo perdida? E até mesmo se não fosse lenda mas verdade, isso realmente poderia explicar a motivação do Priorado de Sião e a afirmação da dinastia Merovíngia? Isto poderia explicar a adesão de homens como Leonardo da Vinci e Issac Newton ou as atividades das casas de Guise e Lorraine, os comportamento encobertos da Companhia do Santo Sacramento, os segredos fugidios da Maçonaria Livre de Rito Escocês? Obviamente não. Porque deveria a descendência da Tribo de Benjamim constituir um segredo tão explosivo? E, talvez mais crucialmente, porque a descendência da Tribo de Benjamim teria importância hoje? Como isso pode possivelmente esclarecer as atividades e objetivos do Priorado de Sião nos presentes dias? Se nossa pesquisa envolveu vestidos interesses que eram especificamente semíticos ou judaicos, sobretudo, porque isto envolveu tantos componentes de um caráter especifica e fervorosamente cristão? O pacto entre Clovis e a Igreja Romana, por exemplo: a manifesta cristandade de Godfroi de Bouillon e a conquista de Jerusalém; o pensamento herético, talvez, mas não menos cristão dos cátaros e dos Cavaleiros Templários; as pias instituições como a Companhia do Santo Sacramento; a Livre Maçonaria que era hermética, aristocrática e cristã e a implicação de tantos eclesiásticos cristãos dos príncipes do alto escalão da Igreja até os curas das vilas locais como Boudet e Sauneire? Pode ser que os Merovíngios realmente fossem de origem judaica, mas se assim o era nos pareceu essencialmente incidental. Seja qual for o segredo real que subjaz na nossa investigação ele parecer estar inextrincavelmente associado não ao judaismo do Velho Testamento, mas com o cristianismo. Em resumo, a Tribo de Benjamim por um momento, ao menos – parece ser uma isca falsa. Contudo tão importante quanto possa ser, havia algo até mesmo maior em importância envolvido. Ainda estamos negligenciando algo.

Três – A Linhagem Sanguínea

O Santo Gral

O que poderiamos estar negligenciando? Ou, alternativamente, o que nós tinhamos buscado no lugar errado? Talvez houvesse algum fragmento que tinha estado bem diante de nossos olhos por todo tempo que, por uma razão ou outra, deixamos de perceber? Até onde pudemos determinar, não haviamos negligenciado um só item, nenhum dado da aceita erudição. Mas pode haver algo mais – algo que já – ‘além do pálido’ – da história documentada, os fatos concretos a que temos nos determinado a nos confinar? Certamente havia um motivo, admitidamente fabuloso, que havia se tecido por nossa investigação, recorrendo repetidamente, com uma consistência insistente e intrigante. Este era o misterioso objeto conhecido como o Santo Gral. Para seus contemporaneos, por exemplo, os cátaros eram acreditados terem a posse do Gral. Os Templários, também, eram frequentemente vistos como os guardiões do Gral e os romances do Gral tinham originalmente saído da corte do Conde de Champagne, que estava intimamente associado com a fundação dos Cavaleiros Templários. Quando os Templários foram suprimidos, sobretudo, as bizarras cabeças que eles supostamente veneravam desfrutaram, segundo os relatos oficiais da Inquisição, muitos dos atributos tradicionalmente atribuidos ao Gral – fornecendo sustento, por exemplo, e imbuindo a terra de fertilidade. No curso de nossa investigação tinhamos atravessado pelo Gral em inúmeros outros contextos também. Alguns tem sido relativamente recentes, tais como os círculos ocultos de Josephin Peladan e Claude Debussy no fim do século XIX. Outros eram consideravelmente mais velhos. Godfroi de Bouillon, por exemplo, era descendente segundo a história medieval e o folclore de Lohengrin, o Cavaleiro do Cisne; e Lohengrin, nos romances, era o filho de Perceval ou Parzival, protagonista de todas as histórias do Gral. Guillem de Gellone, sobretudo, governante da principalidade medieval no sul da França durante o reinado de Carlos Magno, era o herói de um poema de Wolfram von Eschenbach, o mais importante dos cronistas do Gral. De fato, o poema de Guillem in Wolfram foi dito ter sido associado de algum modo com a misteriosa família do Gral. Eram estas intrusões do Gral em nossa investigação, e outras como elas, meramente aleatórias e coincidentais? Ou havia uma continuidade subjacente e conectando com, de algum modo inimaginável, a seja o que for que possa ser o Gral? A este ponto, estavamos confrontados por uma pergunta incrível. O Gral poderia ser algo mais do que pura fantasia? De algum modo ele poderia ter existido? Poderia de fato haver uma coisa tal como o Santo Gral? Ou algo concreto, a qualquer nível, para o qual o Gral tenha sido empregado como um símbolo? A questão certamente era excitante e provocante – para dizer o mínimo. Ao mesmo tempo isto ameaçava nos tomar para muito longe demais, para esferas de espúrias especulações.  Isto de fato serviu para dirigir nossa atenção aos próprios romances do Gral. E neles os romances do Gral ofereceram um número de enigmas perplexantes e distintamente relevantes. É geralmente asumido que o Gral se relaciona de algum modo a Jesus. Segundo algumas tradições, era a taça na qual Jesus e seus discípulos beberam na Última Ceia. Segundo outras tradições, era a taça onde José de Arimatéia pegou o sangue de Jesus enquanto ele estava na cruz. Mas se o Gral é tão intimamente associado a Jesus ou se ele de fato existiu, porque não havia referência a ele seja onde for por mais de mil anos? Onde ele esteve durante todo este tempo? Porque ele não figurou na literatura anterior, no folclore ou na tradição? Porque deveria algo de tão imensa relevância e urgência para a cristandade permanecer enterrado por tanto tempo quanto ele aparentemente o fez? Ainda mais provocadoramente, porque deveria o Gral finalmente emergir precisamente quando ele estava no próprio auge das Cruzadas? Foi coincidência que este objeto enigmático, ostensivamente não existente por séculos, devesse assumir o status que ele assumiu quando o reino franco de Jerusalém estava em toda sua glória, quando os Templários estavam no auge de seu poder, quando a heresia cátara estava ganhando momentum que ameaçava deslocar o credo de Roma? Esta convergência de circunstâncias foi verdadeiramente coincidental? Ou havia alguma ligação entre elas? Inundados e de certo modo assaltados por perguntas deste tipo, voltamos nossa atenção aos romances do Gral. Somente ao examinar estreitamente estas ‘fantasias’ poderiamos esperar determinar se a sua recorrência em nossa pesquisa era de fato coincidental, ou a manifestação de um padrão que pode, de algum modo, se provar importante.

A História do Santo Gral

A maioria da erudição do século XX concorre na crença que os romances do Gral repousam maximamente em uma fundação pagã de um ritual ligado ao ciclo das estações, a morte e renascimento do ano. Em suas origens mais primordiais ela pareceria envolver um culto a vegetação, estreitamente relacionado na forma a, se não diretamente derivado daqueles de Tammuz, Attis, Adonis e Osiris no Oriente Médio. Assim, em ambas mitologias irlandesa e gaulesa, há repetidas referências a morte, renascimento e renovação bem como a um similar processo regenerativo na terra de esterilidade e fertilidade. O tema é central ao anônimo poema inglês do século XIV, Sir Gawain e o Cavaleiro Verde. E em  Mabinogion, uma compilação das histórias gaulesas grosseiramente contemporaneas aos romances do Gral embora obviamente derivadas de material anterior, há um misterioso ‘caldeirão de renascimento’ no qual os guerreiros mortos, atirados ao cair da noite, são ressuscitados na manhã seguinte. Este caldeirão é frequentemente associado a um herói gigante chamado Bran. Bran também possuia um prato e ‘seja qual for a comida que se desejasse, ela era instantaneamenet obtida’ – uma propriedade também algumas vezes atribuida ao Gral. No fim de sua vida, sobretudo, Bran foi supostamente decapitado e sua cabeça colocada, como um tipo de talismã, em Londres.

Aqui é dito realizar um número de funções mágicas não apenas assegurando a fertilidade  da terra mas também, por algum poder oculto, repelindo os invasores. Muitos destes motivos foram subsequentemente incorporados nos romances do Gral. Não há dúvida que Bran, com seu caldeirão e prato, contribuiu com algo para as concepções posteriores do Gral. E a cabeça de Bran partilha os atributos não apenas com o Gral, mas também com as cabeças alegadamente veneradas pelos Cavaleiros Templários. A fundação pagã dos romances do Gral tem sido exaustivamente exploradas pelos eruditos, de Sir James Frazer em The Golden Bough até o presente. Mas durante meados do século XII a fundação originalmente pagã dos romances do Gral passou por uma transformação curiosa e extremamente importante. De algum modo obscuro que tem fugido à investigação dos pesquisadores, o Gral tornou-se muito unicamente e especificamente associado ao cristianismo e com uma forma mais do que não ortodoxa de cristianismo. Com base em alguma fugidia amalgamação, o Gral se tornou inseparavelmente ligado a Jesus. E parece haver algo mais envolvido do que uma fácil associação de tradições pagãs e cristãs. Como um relíquia misticamente ligada a Jesus, o Gral engendrou uma volumosa quantidade de romances, ou poemas longos de narrativas, que, até mesmo hoje, aguçam a imaginação. A despeito da desaprovação clerical, estes romances floresceram por quase um século, se tornando um culto completamete maduro seu próprio em seu período de vida, muito interessantemente, estreitamente paralelizado com a Ordem do Templo depois de sua separação do Priorado de Sião em 1188. Com a queda da Terra Santa em 1291, e a dissolução dos Templários entre 1307 e 1314, os romances do Gral também desapareceram do estágio da história, por aproximadamente uns outros dois séculos, a qualquer nível. Então, em 1470, o tema novamente foi tomado por Sir Thomas Malory em seu famoso Le Morte d’Arthur; e tem permanecido mais ou menos proeminente na cultura ocidental desde então. Nem o seu contexto tem sido sempre inteiramente literário. Parece haver abundante evidência documental que certos membros da hierarquia Nacional Socialista na Alemanha realmente acreditavam na existência física do Gral e foram realmente realizadas escavações com este objetivo durante a guerra no Sul da França.

Ao tepo de Malory o misterioso objeto conhecido como Gral tem assumido mais ou menos a identidade distinta atribuida a ele hoje. Foi alegado ser a taça da última Ceia, na qual José de Arimatéia mais tarde colheu o sangue de Jesus na cruz. Segundo certas narrativas, o Gral foi levado por José de Arimatéia a Inglaterra e, mais especificamente, a Glastonbury. Segundo outras narrativas ele foi levado por Maria Madalena pars o sul da França. Já no século IV as histórias atribuem a Maria Madalena fugir da Terra Santa e chegando ao litoral de Marselha onde, por algum motivo, suas supostas reliquias ainda são veneradas. Segundo as histórias medievais, ele levou com ela para Marselha o Santo Gral. Pelo século XV esta tradição asume uma imensa importância para tais indivíduos como o Rei Rene d’Anjou, que colecionou ‘taças do Gral’. Mas as história iniciais contam que Madalena trouxe o Gral para a França, não uma taça. Em outras palavras, a associação do Gral com a taça são desenvolvimentos posteriores. Malory perpetuou esta fácil associação e isso tem sido um truismo desde então. Mas Malory, de fato, tomou consideráveis liberdades com suas fontes originais. Nestas fontes orginais, o Gral é algo mais do que uma taça. E os aspectos místicos do Gral são muito mais importantes do que a cavalaria que Malory exalta. Na opinião da maioria dos eruditos o primeiro romance genuino do Gral data do final do século XII, por volta de 1188, que é o ano crucial que testemunhou a queda de Jerusalém e a alegada rutura entre a Ordem do Templo e o Priorado de Sião. O romance em questão é intitulado O Romance de Percival ou O Conde do Gral. Foi composto por um tal de Chretien de Troyes, que parece ter sido ligado, em alguma capacidade não determinada, a corte do Conde de Champagne. Pouco é conhecido da biografia de Chretien. Sua associação ao Conde de Champagne é aparente de inúmeros trabalhos compostos antes de seus romances do Gral dedicados a Marie, a Condesa de Champagne. Embora este corpo de romances cortesãos incluisse um que lidava com Lancelot, que não faz menção a nada que se asemelhe ao Gral. Chretien pelos anos de 1180 tinha estabelido uma imponente reputação para ele próprio. E dado seu trabalho anterior, pode-se ter esperado que ele continuasse em um veio similar.

No fim de sua vida, contudo, Chretien voltou sua atenção para um novo tema até aqui não articulado; e o Santo Gral, como ele tem chegado a nós hoje, fez sua entrada oficial na cultura ocidental e consciência. O romance do Gral de Chretien não foi dedicado a Marie de Champagne, mas a Felipe da Alsácia, o Conde de Flandres. No início de seu poema Chretien declara que seu trabalho foi composto especificamente por solicitação de Felipe, que tinha em primeiro lugar ouvido a história. O próprio trabalho fornece um padrão geral, e constitui um protótipo, para as subsequentes narrativas do Gral. Seu protagonista é chamado Percival que é descrito como o Filho da Dama Viúva. Esta apelação é, ela própria, importante e intrigante. Isto a muito tem sido empregado por certas heresias dualistas e gnósticas – algumas vezes por seus próprios profetas, algumas vezes pelo próprio Jesus. Subsequentemente isto se tornou uma querida designação na Livre Maçonaria. Deixando sua mãe viúva, Percival navega para ganhar seu cavalheirismo [nobreza]. Durante suas viagens, ele encontra um enigmático pescador, o famoso Rei Pescador, em cujo castelo ele recebe refúgio para a noite. No entardecer o Gral aparece. Nem neste ponto do poema e nem em qualquer outro ponto ele é ligado a Jesus. De fato, o leitor sabe muito pouco sobre ele. Nem mesmo é dito o que seja ele. Mas seja o que for, ele é carregado por uma donzela, e de ouro e cravado de pedras preciosas. Percival não sabe que ele é esperado fazer uma pergunta deste maravilhoso objeto- isto é, – ‘para que serve isto?’ A questão é obviamente ambígua. Se o Gral é um vaso ou prato de algum tipo, a questão poderia significar ‘quem é pretendido comer dele’. Alternativamente a pergunta pode ser refraseada: ‘A quem se serve [no sentido cavalheiresco] pela virtude de servir o Gral?’ Seja qual for o significado da pergunta, Percival deixa de a fazer; e na manhã seguinte quando ele acorda o castelo está vazio. Sua omissão, ele aprende subsequentemente, causa uma desastrosa deterioração sobre a terra. Mais tarde ele ainda aprende que ele próprio é da ‘família do Gral’ e que o misterioso Rei Pescador que era sustentado pelo Gral, era de fato seu próprio tio. A este ponto Percival faz uma curiosa confissão. Desde sua infeliz experiência com o Gral, ele declara, ele tem deixado de amar ou acreditar em Deus.

O poema de Chretien ainda se torna mais perplexante pelo fato de que ele é inacabado. O prório Chretien morreu por volta de 1188, muito possivelmente antes que pudesse completar o trabalho; e até mesmo se ele o fez, nenhuma cópia sobreviveu. Se uma tal cópia existisse, ele bem pode ter sido destruida pelo fogo em Troyes em 1188. O ponto não precisa ser trabalhado, mas certos eruditos tem descoberto que este fogo, coicidindo com a morte do poeta, é vagamente suspeito. Em qualquer caso a versão de Chretien é menos importante por si só do que o papel de seu precursor. Durante a seguinte metade do século o motivo que ele tinha introduzido na corte de Troyes foi disseminado pela Europa ocidental como um incêndio em uma floresta. Ao mesmo tempo, contudo, os especialistas modernos sobre o assunto concordam que as histórias posteriores do Gral não parecem ter derivado inteiramente de Chretien, mas parecem terem sido retiradas de ao menos uma outra fonte – bem como de uma fonte, que, com toda probabilidade, antecedeu Chretien. E esta também tornou-se ligada a Jesus. Dos numerosos romances do Gral que seguiram a versão de Chretien, há três que se provaram de especial interesse e relevância para nós. Uma destas, a ‘Roman de I’Estoire dou Saint Graal’, foi composta por Robert de Boron, em algum tempo entre 1190 e 1199. Justificavelmente ou não, Robert é frequentemente creditado em tornar o Gral um símbolo especificamente cristão. O próprio Robert afirma que ele está retirando de uma fonte anterior e uma bem diferente de Chretien. Ao falar do poema dele, e particularmente do caráter cristão do Gral, ele alude a um ‘grande livro’, os segredos do qual tem sido revelados a ele. È portanto incerto se o próprio Robert cristianizou o Gral, ou se alguém mais o fez antes dele. A maioria das autoridades hoje se inclinam na direção da segunda destas possibilidades. Contudo, não há dúvida que a narrativa de Robert de Boron é a primeira a fornecer a história do Gral. O Gral, ele explica foi a taça da última Ceia. Ele então passou para as mãos de José de Arimatéia que, quando Jesus foi removido da cruz, a encheu com o sangue do Salvador e é o seu sangue sagrado que confere a qualidade mágica do Gral. Depois da Ceucificação, Robert continua, a família de José tornou-se a guardiã do Gral. E para Robert os romances do Gral envolvem as aventuras e vicissitudes desta específica família. Então é dito que Galahad é o filho de Arimatéia. E o próprio Gral passa para o cunhado de José, Brons, que o leva para a Inglaterra e se torna o Rei Pescador. Como no poema de Chretien, Percival é o Filho da Dama Viúva, mas ele também é o neto do Rei Pescador. A versão de Robert da história do Gral então desvia um número de importantes aspectos daquela de Chretien. Em ambas as versões Percival é o Filho da Dama Viúva mas na versão de Robert ele é neto, não sobrinho, do Rei Pescador e então assim até mesmo mais diretamente relacionado a família do Gral. E conquanto a narrativa de Chretien seja vaga em sua cronologia, estabelecida em algum tempo da idade arturiana, a de Robert é bem precisa. Para Robert, a história do Gral é passada na Inglaterra, e não é contemporanea de Arthur, mas sim de José de Arimatéia. Há um outro romance do Gral que tem muito em comum com o de Robert. De fato, ele pareceria ter sido retirado das mesmas fontes, mas sua utilização desta fonte é muito diferente e decididamente mais interessante. O romance em questão é conhecido como Perlesvaus. foi composto ao redor do mesmo tempo do poema de Robert, entre 1190 e 1212 por um autor que, ao contrário das convenções daquele tempo, preferiu permanecer anônimo. É estranho que ele o tenha feito assim, dado ao status exaltado conferido aos poetas, a menos que ele estivesse envolvido em algo chamado de ordem monástica ou militar, por exemplo o que teria tornado a composição de tais romances improvável ou inapropriada. E, de fato, o peso da evidência textual a respeito de Perlesvaus sugere ser este o caso. Segundo ao menos um especialista moderno, o Perlesvaus pode realmente ter sido escrito por um Templário. E há certa evidência a apoiar tal conjectura. É sabido, por exemplo, que os Cavaleiros Teutônicos encorajaram e patrocinaram poetas anônimos em suas fileiras, e um tal precedente pode bem ter sido estabelecido pelos Templários. É o que é mais, o autor de Perlesvaus revela, no curso do poema, um conhecimento detalhado quase que extraordinário das realidades de combate de armadura e equipamento, estratégia e táticas, e armamento e seus efeitos na carne humana.

A descrição gráfica dos ferimentos, por exemplo, pareceriam atestar uma experiência em primeira mão de um um campo de batalha; uma experiência realista e não romantizada não carateristica de qualquer outro romance do Gral. Se Perlesvaus não foi realmente composto por um Templário, ele não obstante fornece uma base sólida para a ligação dos Templários com o Gral. Embora a Ordem não seja mencionada por seu nome, seu aparecimento no poema pareceria inconfundível. Então Percival, em suas andanças, acontece em um castelo. Este castelo não abriga o Gral mas abriga um conclave de ‘iniciados’ que obviamante estão familiarizzados com o Gral. Percival é recebido aqui por dois ‘mestres’ que apertam suas mãos e se unem a mais trinta e três outros homens. Eles estão vestidos em roupas brancas e nenhum deles tem nada além de uma cruz vermelha em seu peito e todos parecem ter uma idade. Um destes mestres misteriosos afirma que ele pessoalmente vê no Gral uma experiência concedida apenas a uns poucos. E ele também afirma  que ele está familiarizado com a linhagem de Percival. Como os poemas de Chretien e Robert, o Perlesvaus dá uma grande relevância a linhagem. Em inúmeros pontos Percival é descrito como principalmente sagrado. Em ouro lugar é declarado explicitamente que Percival era da linhagem de José de Arimatéia e que este José era tio da mãe de Percival, que tinha sido por sete anos um soldado de Pilatos. Não obstante, o Perlesvaus não se passa no período de vida de José. Ao contrário, ele acontece, como a versão de Chretien, durante a era de Arthur.  A cronologia é posteriortmente misturada pelo fato de que a Terra Santa já está nas mãos dos ‘infiéis’, o que não aconteceu senão dois séculos depois de Arthur. E pelo fato de que a Terra Santa seja aparentemente identificada com Camelot. Em um grau maior que os poemas de Chretien e Robert o Perlesvaus é mágico em sua natureza. Além do seu conhecimento do campo de batalha, o autor revela um conhecimento, muito surpreendente naquele tempo, de conjuração e evocação. Há também inúmeras referências alquímicas aos dois homens, por exemplo, ‘feito de cobre pela arte da necromancia’. E algumas das referências mágicas e alquímicas ressoam comos ecos do mistério que cerca os Templários.

Então um dos mestres da companhia que veste branco como os Templários diz a Percival: ‘Há as cabeças lacradas em prata, e as cabeças lacradas em chumbo, e os corpos aos quais estas cabeças pertenceram, digo que você deve vir a fazer vir para ali a cabeça do Rei e da Rainha’. E se em Perlesvaus abundam as alusões mágicas, elas também abundam em outras alusões que são ambos heréticas e/ou pagãs. Novamente Percival é designado pela apelação dualista, ‘O Filho da Dama Viúva’. Há referências a um ritual sancionado do sacrifício do Rei, que é o mais incongruente em um poema supostamente cristão. Há referências a assar e devorar crianças, um crime do qual os Templários foram popularmente acusados. E a um ponto há um rito singular, que novamente evoca as memórias dos julgamentos dos Templários. Em um cruz vermelha erigida em uma floresta, uma bela besta branca de natureza indeterminada é despedaçada pelos cães de caça. Enquando Percival assiste, um cavaleiro e uma donzela aparecem com vasos dourados, coletam os fragmentos da carne mutilada e, tendo beijado a cruz, desaparecem nas árvores. O próprio Percival então se ajoelha e beija a cruz; e então chega até ele um odor tão doce da cruz e do lugar, a que nenhuma doçura possa ser comparada anteriormente. Ele olha e vê vindo da floresta dois sacerdotes a pé; e o primeiro gritou para ele: “Senhor Cavaleiro, retire-se para longe da cruz porque você não tem o direito de estar perto dela’. Percival recua e a sacerdote se ajoelha diante da cruz e a adora e se curva e a beija várias vezes e manifesta a maior alegria do mundo. E o outro sacerdote vem depois, e traz um grande bastão e se senta ao lado do primeiro sacerdote a força e bate na cruz com um bastão em todas as partes, e gritou direto se sentindo ferido. Percival o observou exatamente com o maior espanto e disse a ele: ‘Senhor, parece não ser um sacerdote! Como você faz tal grande vergonha? Senhor, com o sacerdote, ‘isto não lhe diz respeito seja o que for que façamos, nem deve você saber isso de nós!’ Não tivesse ele sido um sacerdote, Percival teria ficado muito irado com ele, mas ele não teve vontade de lhe causar qualquer dano.

Um tal abuso da cruz evoca ecos distintos das acusações levantadas contra os Templários. Mas não apenas contra os Templários. Isto também pode refletir uma meada de pensamentos dualistas ou gnósticos; o pensamento dos cátaros, por exemplo, que também repudiavam a cruz. No Perlesvaus esta meada de pensamento dualista ou gnostico se estende, em algum sentido, ao próprio Gral. Para Chretien o Gral era algo não especificado, feito de ouro e incrustado de pedras preciosas. Para Robert du Baron ele foi identificado com a taça usada na última ceia e onde subsequentemente foi coletado o sangue de Jesus. Em Perlesvaus, contudo, o Gral assume uma dimensão mais curiosa e importante. Em um ponto, Sir Gawain é advertido pelo sacerdote, ‘porque não é conveniente descobrir os segredos do Salvador e deles também a quem eles são comprometidos é conveniente mante-los cobertamente’. O Gral, então, envolve um segredo de algum modo relacionado a Jesus; e a natureza deste segredo é confiada a uma companhia seleta. Quando Gawain eventualmente vê o Gral, isto ‘parece a ele que no meio do Gral ele vê a figura de uma criança… e ele olha para cima e o Gral lhe parece ser todo carne, e ele olha acima, na medida em que ele pensa, um Rei coroado, pregado em um bastão’ E algum tempo depois o Gral aparece na missa sagrada de cinco modos diferentes que ninguém pode dizer, porque as coisas secretas do sacramento ninguém pode dizer abertamente, mas ele estava entre aqueles a quem Deus tinha dado isso. O Rei Arthur observa todas as mudanças, a última sendo a mudança em um cálice. Em resumo o Gral, no Perlesvaus, consiste em uma sequência mutante de imagens ou visões. A primeira delas é um rei coroado, crucificado. A segunda é uma criança. A terceira é a de um homem usando uma coroa de espinhos, sangrando de sua testa, seus pés, suas palmas e de seu quadril. A quarta manifestação não é especificada. A quinta é um cálice. Em cada ocasião a manifestação é acompanhada por uma fragrância e uma grande luz. Desta narrativa o Gral, em Perlesvaus, pareceria ser várias coisas simultaneamente ou algo que pode ser interpretrado a níveis diferentes. A nível mundano, ele seria algum tipo de objeto – como uma taça, tijela ou cálice. Ele também seria, em algum sentido metafórico, parecer ser uma linhagem ou certos indivíduos que compreendem esta linhagem. E muito obviamente o Gral também pareceria ser uma experiência de algum tipo bem similar a uma iluminação gnóstica tal como era exaltada pelos cátaros e outras seitas dualistas do período.

A história de Wolfram von Eschenbach

De todos os romances do Gral o mais famoso, e o mais importate artisticamente, é Parzival, composto em algum tempo entre 1195 e 1216. Seu autor Wolfram von Eschenbach, um  cavaleiro do origem bavara. De início pensamos que isto pudesse distancia-lo de seu assunto, tornando sua narrativa menos confiável do que a de vários outros. Antes de muito tempo, contudo, concluimos que se alguém poderia falar com autoridade sobre o Gral este era Wolfram. No inicio de Parzival, Wolfram nitidamente avalia que a versão de Chretien da história do Gral está errada, enquanto a sua própria é acuradamente baseada em sua informação privilegiada. Este informação, ele explica mais tarde, ele obteve de um  Kyot de Provença que por sua vez a recebeu supostamente de um Flegetanis. Vale citar por completo as palavras de Wolfram: ‘Alguém que antes me perguntasse pelo Gral e me levasse a tarefa de não dizer a ele que ele estava muito em erro. Kyot me pediu para não revelar isso, porque a Aventura exigiu dele a não dar a isso um pensamento até que ela própria, a Aventura, deve convidar ao dizer, e então podemos falar sobre isso, com certeza. Kyot, o mestre bem conhecido, encontrado em Toledo, dispensado, estabeleceu em um escrito gentio, a primeira fonte desta aventura. Ele primeiro tinha que aprender o ‘abc’, mas sem a arte da magia negra…. um bárbaro, Flegetanis, tinha alcançado alto renome pelo seu ensinamento. Este erudito da natureza era descendente de Salomão e nasceu de uma família que a muito tinha sido israelita até que o batismo se tornou o nosso escudo contra o fogo do inferno. Ele escreveu a aventura do Gral. Pelo lado de seu pai, Flegetanis era um gentio que adorava um bezerro… O bárbaro Flegetanis pode nos contar como todas as estrelas nascem e se põem novamente. O curso circular da estrelas dos assuntos humanos e o destino estão ligados. Flegetanis o gentio viu isto com seus próprios olhos nas constelações; coisas que ele era tímido de falar sobre elas, mistérios ocultos. Ele disse que havia uma coisa chamada Gral, cujo nome ele já tinha lido claramente nas constelações. Uma hoste de anjos deixou isso na Terra. Desde então, homens batizados tem tido a tarefa de guardar isso, e com tal casta disciplina que aqueles que são chamados ao serviço do Gral são sempre homens nobres. Assim escreveu Flegetanis sobre estas coisas. Kyot, o sábio mestre, resolveu traçar esta história nos livros latinos, para ver onde sempre tinham estado estas pessoas, dedicadas a pureza e dignas de cuidarem do Gral. Ele leu as cronicas da terra,  na Bretanha e outros lugares, na França e na Irlanda, e em Anjou encontrou a história. Lá ele leu a verdadeira história de Mazadan, e o registro exato de toda sua família estava escrito lá’.

Dos numerosos itens que exigem que se comente esta passagem, é importante notar ao menos quatro. Um é que a história do Gral parece envolver a família de um chamado Mazadan. Um segundo item é que a casa de Anjou de algum modo é uma capital consequência. Um terceiro item é que a versão original da história parece ter sido filtrada na Europa ocidental pelos Pirineus, da Espanha muçulmana uma avaliação perfeitamente plausível, dado o  status que Toledo desfrutava como um centro de estudos esotéricos, tanto judaicos quanto muçulmanos. Mas o elemento mais surpreendente na pasagem citada é que a história do Gral, como explica Wolfram em sua derivação, seria maximamente de origem judaica. Se o Gral é tão espantoso cono um mistério cristão, porque deveria este segredo ser transmitido por iniciados judaicos? Quanto a isso, porque deveriam escritores judaicos terem tido acesso a material especificamente cristão do qual a própria cristandade não tinha ciência?

Eruditos tem gasto um tempo e energia consideráveis debatendo se Kyot e Flagetanis são reais ou fictícios. De fato a identidade de Kyot, como aprendemos de nosso estudo dos Templários, pode ser muito solidamente estabelecida. Kyot de Provença pareceria, quese que certamente, ter sido Guiot de Provins – um trovador, monge e portavoz para os Templários que viveu na Provença escreveu canções de amor, ataques a Igreja, cantos de glória em louvor do Templo e versos satíricos. Guiot é sabido ter visitado Mayence, na Alemanha, em 1184. A ocasião foi um festival cavaleiresco de Pentecostes, no qual o Sagrado Imperador Romano, Frederico Barbarossa, conferiu o título de cavaleiro a seus filhos. Como assunto do curso a cerimonia teve a frequencia de poetas e trovadores de toda a cristandade. Como um cavaleiro do Sagrado Império Romano, Wolfram quase certamente estaria presente; e certamente é razoável supor que ele tenha se encontrado com Guiot. Homens cultos não eram tão comuns naquele tempo. Inevitavelmente eles teriam se agrupado para fazer conhecimento um com o outro. E Guiot pode muito bem ter encontrado em Wolfram um espírito similar a quem talvez ele tenha confiado certa informação, até mesmo se apenas de forma simbólica. E se Guiot permite que Kyot seja aceito como genuíno, é ao menos plausível assumir que Flagetanis era genuino também. Se ele não fosse, Wolfram e/ou Guiot devem ter tido algum propósito especial em cria-lo. E dar ele a base distinta e o pedigree que é dito que ele teve. Além  da história do Gral, Wolfram deve ter obtido de Guiot um importante interesse nos Templários. Em qualquer caso é sabido que Wolfram possuia um tal interesse. Como Giot ele até mesmo fez uma peregrinação à Terra Santa onde ele pôde observar os Templários em ação, em primeira mão. E em Parzival ele enfatiza que os guardiões do Gral e da família do Gral são os Templários. Isto pode, com certeza, ser a cronologia medíocre e o anacronismo cavaleiresco da licença poética tal como discernida em alguns outros romances do Gral. Mas Wolfram é muito mais cuidadoso sobre estas coisas do que outros escritores de seu tempo. Sobretudo há patentes alusões ao Templo em Perlesvaus. Wolfram e o autor de Perlesvaus seriam culpados do mesmo claro anacronismo?  Possivelmente. Mas também é possível que algo estava sendo implicado por estas ostentosas conexões dos Templários com o Gral. Porque se de fato os Templários são os guardiões do Gral há uma flagrante implicação que o Gral existisse não apenas nos tempos arthurianos mas também durante as Cruzadas, quando os romances sobre ele foram compostos. Ao introduzir os Templários, Wolfram e o autor de Perlesvaus podem estar sugerindo que o Gral não era apenas algo do passado, mas algo que, para eles, possuia relevância contemporanea. A base do poema de Wolfram é então tão importante, de algum modo obscuro, quanto o próprio texto do poema. De fato o papel dos Templários, como a identidade de Kyot e Flagetanis, pareceriam ser cruciais; e estes fatores bem pode possuir a chave para o inteiro mistério que cerca a história do Gral.

Infelizmente, o texto de Parzival faz muito pouco para resolver este mistério, enquanto oferece bem muitos outros. Em primeiro lugar Wolfram não apenas sustenta  que sua versão da história do Gral, em contraste com a da Chretien, é a correta. Ele também sustenta que a narrativa de Chretien é meramente uma fábula fantástica, onde ele é de fato um tipo de documento iniciático. Em outras palavras, como afirma muito inequivocamente Wolfram, há muito mais no mistério da história do Gral do que o olho encontra.  E ele deixa isso claro, com inúmeras referências pelo seu poema, que ‘o Gral não é meramente um objeto de gratuita mistificação e fantasia, mas um meio de ocultar algo de imensa consequência’. Novamente, ele dá pistas a sua audiência para que leia entre as linhas, deixando cair aqui e ali pistas sugestivas. Ao mesmo tempo ele constantemente reitera a urgência do segredo, ‘porque nenhum homem pode até mesmo vencer o Gral a menos que ele seja conhecido no céu e ele seja chamado pelo nome para o Gral’. E ‘o Gral é desconhecido poupar aqueles que tem chamado pelo nome… a companhia do Gral’. Wolfram é ao mesmo tempo preciso e fugidio em identificar o Gral. Quando ele primeiro aparece, na estada temporária de Parzival no castelo do Rei Pescador, não há real indicação do que ele seja. Pareceria, contudo, ter algo em comum com a vaga descrição de Chretien dele: Ela [a rainha da família do Gral] estava vestida em uma roupa de seda árabe. Sobre um ‘achmardi’ profundamente verde ela sustenta a Perfeição do Paraíso, tanto raíz quanto ramo. Esta era uma coisa chamada Gral, que ultrapassa toda a perfeição terrena. Repanse de Schoye era o nome dela a quem o Gral permitiu ser sua sustentadora. Tal era a natureza do Gral que ela que cuidava dele para preservar a pureza dela e renunciar a toda fantasia. Entre outras coisas, o Gral, a este ponto, pareceria ser um tipo de cornucópia mágica ou chifre em plenitude; uma centena de escudeiros, assim ordenados, reverentemente tomaram o pão em guardanapos brancos de diante do Gral, recuando em grupo e, se separando, passando o pão a todas as mesas. Foi-me dito, e também lhes digo, mas sobre o seu juramento, não o meu se eu enganasse vocês, somos todos mentirosos que seja o que for alcançasse sua mão para, ele a encontrava pronta, em frente do Gral, comida quente e comida fria, pratos novos ou velhos, carne de animais domésticos ou caça. Nunca houve nada como isso, muitos dirão. Mas eles estarão errados em seu protesto zangado, porque o Gral era o fruto da bem-aventurança, tal abundância de doçura do mundo que suas delícias eram muito mais a serem ditas do reino do céu. Tudo isso é mais do que mundano em seu modo, até mesmo pedestre, e o Gral pareceria ser um caso bastante inócuo. Mas mais tarde, quando o tio eremita de Parzival expõe sobre o Gral, ele se torna decididamente mais poderoso. Depois de uma longa  dissertação que inclui correntes de pensamentos claramente gnósticos, o eremita descreve o Gral assim: Bem sei que muitos bravos cavaleiros habitam com o Gral em Munsalvaesche. Sempre quando eles correm a cavalo, como frequentemente o fazem, é para buscar aventura. Eles fazem isto por seus pecados, estes templários, seja a recompensa deles a derota ou a vitória. Uma valorosa hoste vive lá, e eu lhes direi como eles são mantidos. Eles vivem de uma pedra do tipo mais puro. Se você não sabe isso, devo aqui nomear isso para vocês. Ela é chamada Lapsit exillis. Pelo poder desta pedra a fênix queima até as cinzas, mas as cinzas dão vida novamente a ele. Então a fênix perde as penas e muda sua plumagem que depois disso é mais brilhante e luminosa e mais amorável do que antes. Nunca um humano esteve tão doente que, se um dia visse esta pedra, ele não pudesse morrer dentro da semana seguinte. E parece que ele não desaparecerá. Sua aparência ficará a mesma, seja ele uma donzela ou um homem, como no dia em que viu a pedra, o mesmo que quando começaram os melhores anos de sua vida, e embora ele deva ver a pedra por duzentos anos, isso nunca mudará, salvo seu cabelo que talvez se torne grisalho. Um tal poder a pedra dá a um homem que carne e ossos ficam novamente jovens. A pedra também é chamada de Gral.

Segundo Wolfram, então, o Gral é uma pedra de algum tipo. Mas tal definição do Gral é muito mais provocante do que satisfatória. Os eruditos tem um número de interpretações da frase ‘lap sit exillis’, todas as quais são mais ou menos plausíveis. ‘Lapsit exillis’ pode ser uma corrupção de ‘lapis ex caelis’ – ‘pedra do céu’. Também pode ser uma corrupção de ‘lap sit ex caelis’ – ‘isto que caiu dos céus’ ou de ‘lapis lapsus ex caelus’ – ‘uma pedra que caiu do céu’ ou finalmente, ‘lapis elixir’ a fabulosa Pedra FIlosofal da alquimia. Certamente a passagem citada, como o inteiro poema de Wolfram sobre este assunto, é cheio de simbolismo alquimico. A fênix, por exemplo, é estabelecida de antemão alquimicamente para ressurreição ou renascimento e também, na iconografia medieval, é um emblema de Jesus morto e ressurrecto. Se a fênix de algum  modo é representante de Jesus, Wolfram implicitamente o está associando a uma pedra. Uma tal asociação é, com certeza, dificilmente única. Há Pedro [pedra] ou rocha na qual Jesus estabeleceu sua Igreja. E, como temos descoberto, Jesus, no Novo Testamento , explicitamente se iguala com a ‘pedra fudamental’ negligenciada pelos construtores, a pedra fundamental do Templo, a Rocha de Sião. Borque isto foi ‘fundado’ sobre esta rocha, houve supostamente uma tradição real que descendeu de Godfroi de Bouillon que era igual as dinastias reinantes na Europa.  Wolfram liga isto imediatamente seguindo a um citado, embora simbolicamente com a Crucificação – Este mesmo dia lá vem com Madalena; onde reside seu maior poder o Gral, a mensagem e eles esperam uma pomba, é a sexta-feira santa, Céu. Ela traz um pequeno branco a pedra. Então, branco brilhante, vai novamente para o céu. Sempre em uma sexta-feira santa isto se levanta da pedra que lhes falei, e desta pedra deriva seja o que for das boas fragrâncias das bebidas e comidas que existem na terra, como a perfeição do paraíso. Quero dizer todas as coisas que a terra possa sustentar. E posteriormente a pedra fornece seja qual for a caça viva sob os céus, quer seja que ela voe, corra ou nade. Então, a fraternidade cavaleiresca tem sua sustança do poder conferido pelo Gral. Além disso os outros atributos extraordinários do Gral, no poema de Wolfram, quase parecem possuir um certo silêncio apropriado. Ela tem a capacidade de chamar os indivíduos para o seu serviço e chama-los, isto é, em um sentido ativo: Ouça agora como estes chamados ao Gral se tornam conhecidos. Sobre a pedra, ao redor da borda, aparecem letras inscritas, dando o nome a linhagem de cada um, donzela ou jovem, que é tomado para esta jornada abençoada. Ninguém precisa esfregar a inscrição, porque uma vez ele tenha lido seu nome, ela desaparece diante de seus olhos. Todos aqueles que agora crescem na maturidade lá vieram como crianças. Abençoada a mãe que tem um filho destinado a servir lá. Pobres e ricos igualmente se alegram se seus filhos são chamados para se reunirem a companhia. Eles são trazidos até lá de muitas terras. Da vergonha pecaminosa eles são mais protegidos do que os outros e recebem boas recompensas nos céus. Quando a vida aqui morre para eles, eles recebem a perfeição eterna lá. Se os guardiões do Gral são os Templários, seus atuais guardiões pareceriam ser membros de uma família específica. Esta família parece possuir numerosos ramos colaterais, alguns dos quais sua identidade frequentemente é desconhecida até mesmo para eles e estão espalhados pelo mundo. Mas outros membros da família habitam o Gral de Munsalvaesche muito obviamente ligado ao legendário castelo cátaro que o escritor tem identificado como Montsegur.

Como no romance do Gral de Chretien, Anfortas, para Wilfram, é tio de Parzival. E quando, no fim do poema, a maldição é levantada e Anfortas pode afinal morrer, Parzival se torna o herdeiro do castelo do Gral. O Gral, os da família do Gral, chama certos indivíduos para seu serviço do mundo externo; indivíduos que devem ser iniciados em algum tipo de mistério. Ao mesmo tempo ele envia seus servidores treinados para fora no mundo para realizarem ações em seu benefício e algumas vezes ocupar um trono. Porque aparentemente o Gral possui o poder de fazer reis: donzelas são indicadas para cuidar do Gral… O que foi um decreto de Deus, e estas donzelas realizaram seu serviço diante disso. O Gral seleciona apenas companhia nobre. Cavaleiros, devotos e bons, são escolhidos para guardar o Gral. A vinda das altas estrelas traz a este povo grande pesar, para jovens e velhos igualmente. A raiva de Deus para com eles tem durado um longo tempo. Quando eles devem sempre dizer sim a alegria? … direi a vocês algo mais, cuja verdade vocês bem podem acreditar. Uma chance dupla é frequentemente deles; eles dão e recebem lucro. Eles recebem jovens crianças lá, de nobre linhagem e belas. E se algum lugar a terra perde seu senhor, se as pessoas lá reconhecem a Mão de Deus, a elas é garantida um da companhia do Gral. Eles devem trata-lo com cortesia, porque a benção de Deus o protege. Da passagem acima, pareceria que em algum ponto do passado a família do Gral de algum modo incorreu na ira de Deus. A alusão a ‘raiva de Deus em relação a eles’ ecoa númerosas afirmações medievais sobre os judeus. Ela também ecoa o título do livro misterioso associado a Nicholas Flamel – O Sagrado Livro de Abraão o o Judeu, Príncipe, Sacerdote, Levita, Astrólogo e Filósofo daquele tribo de judeus que pela ira de Deus foi dispersada entre os Gauls. E Flegetanis, que Wolfram diz escreveu a narrativa original do Gral, é dito ser descendente de Salomão. Pode a família do Gral possivelmente ser de origem judaica? Seja qual for a maldição anteriormente levantada sobre a familia do Gral, ela inquestionavelmente veio, pelo tempo de Parzival, desfrutar do favor divino e uma grande quantidade de poder também.

E ainda que isto seja rigorosamente desfrutado, ao menos em certos aspectos para manter em sigilo sua identidade. Deus enviou os homens da família do Gral secretamente; as donzelas saem abertamente… Assim as donzelas são enviadas abertamente do Gral, e os homens em segredo, para que eles possam ter filhos que algum dia voltarão a entrar no serviço do Gral, e servindo, aperfeiçoar sua companhia. Deus pode ensinar a eles como fazer isso. As mulheres da famíla do Gral então, quanto elas se entrecasam com o mundo externo, podem revelar seu pedigree e identidade. Os homens, contudo, devem manter esta informação escupulosamente escondida tanto que, de fato, que eles não possam nem mesmo permitir perguntas sobre sua origem. Este ponto, aparentemente, é crucial, porque Wolfram volta a ele mais enfaticamente no próprio fim do poema. Sobre o Gral foi agora encontrado escrito que qualquer templário a quem a mão de Deus indicou mestre sobre um povo estrangeiro deve ser proibido de perguntar seu nome ou raça, e ele deve ajuda-los em seus direitos. Se a pergunta é feita sobre ele, eles não devem nunca mais esperar a ajuda dele. Disto isto, com certeza, deriva o dilema de Lohengrin, o filho de Parzival, que então perguntou sobre a origem dele, deve abandonar sua esposa e seus filhos e se retirar em reclusão de onde ele veio. Mas porque seria necessário um segredo tão restritivo? Que ‘esqueleto no  ármario’, por assim dizer, pode concebivelmente ter ditado isso? Se a família do Gral, fosse, de fato, de origem judaica, para a era na qual Wofram escreveu esta possívelmente fosse a explicação possível. E uma tal explicação ganha ao menos alguma credencial da história de Lohengrin. Porque há muitas variantes da história de Lohengrin, e ele nem sempre é identificado pelo mesmo nome.  Em algumas versões ele é chamado Helios, implicando o sol. Em outras versões ele é chamado Elie ou Eli, um nome inconfundívelmente judaico. No romance de Robert de Boron e no Perlesvaus, Perceval é da linhagem judaica, a linhagem sagrada de José de Arimatéia. No poema de Wolfram, este status, no que diga respeito a Parzival, pareceria ser incidental. Na verdade, Parzival é o sobrinho do ferido Rei Pescador e assim relacionado pelo sangue à família do Gral.

E embora ele não se case na família do Gral,- de fato, ele já é casado – e ainda assim herda o castelo do Gral e se torna seu novo senhor. Mas para Wolfram o pedigree do protagonista pareceria menos importante do que os meios pelos quais ele se prova digno dele. Ele deve, em resumo, preencher certos critérios ditados pelo sangue que ele carrega em suas veias. E esta ênfase claramente pareceria indicar a importância que Wolfram atribui aquele sangue. Não há dúvida que Wolfram atribui imensa importância a esta particular linhagem sanguínea. Se há um único tema dominante invadindo não apenas Parzival, mas seus outros trabalhos também, não é tanto o Gral quanto a família do Gral. De fato a família do Gral parece dominar a mente de Wolfram em um grau quase obsessivo, e ele devota muito mais atenção a eles e sua genealogia do que ao misterioso objeto do qual eles são os guardiões. A genealogia da família do Gral pode ser reconstituida de uma estreita leitura de Parzival. O próprio Parzival é sobrinho de Anfortas, o aleijado Rei Pescador e senhor do castelo do Gral. Anfortas, por sua vez, é o filho de Frimutel, e Frimutel é o filho de Titurel. A este ponto a linhagem se torna enovelada. Eventualmente, contudo, ela leva de volta a um certo Laziliez que pode ser uma derivação de Lázaro, o irmão, no Novo Testamento, de Maria e Marta. E os pais de  Laziliez, os originais progenitores da família do Gral, são chamados Mazadan e Terdelaschoye. Esta última, obviamente é a versão germanica da frase ‘Terra da Cruz’ – Terra Escolhida. Mazadan é muito mais obscuro. Pode concebivelmente derivar do zoroastriano Ahura Mazda, o princípio dualista da Luz. Ao mesmo tempo, também, senão apenas foneticamente sugere Masada – um maior bastião da revolta judaica contra a ocupação romana em 68. Os nomes que Wolfram atribui aos membros da família do Gral são então frequentemente provocantes e sugestivos. Ao mesmo tempo, contudo, eles nada nos diz que fosse históricamente útil. Se esperamos encontrar um real protótipo histórico para a família do Gral, temos que procurar em outros lugares. As apostas contudo são bastante medíocres. Soubemos, por exemplo, que a família do Gral supostamente culminou em      Godfroi de Bouillon; mas isto não lança muita luz sobre os místicos antecedentes de Godfroi exceto, com certeza, que [como os reais antecendentes] eles mantiveram sua identidade escrupulosamente secreta. Mas segundo Wolfram, Kyot encontrou uma narrativa da história do Gral nos anais da casa de Anjou, e o próprio Parzival  é dito ser de sangue Angevin. Ao menos isto era extremamente interessante porque a casa de Anjou estava estreitamente associada ao Templários e a Terra Santa.

De fato Fulques, Conde de Anjou, ele próprio se tornou, por assim dizer, um honorário ou Templário em tempo parcial. Em 1131, sobretudo, ele se casou com a sobrinha de Godfroi de Bouillon, a legendária Melusine, e se tornou Rei de Jerusalém.  Segundo os Documentos do Priorado, os senhores de Anjou, a família Plantageneta era então aliada a linhagem sanguínea Merovíngia. E o nome de Plantageneta pode até mesmo ter sido intencionado ecoar ‘Plant-Ard’ ou Plantard. Tais conexões eram incompletas e tenues. Mas apostas adicionais nos foram fornecidas pela localização geográfica do poema de Wolfram. Para a maior parte sua localização é na França. Em contraste as posteriores nararrativas dos cronistas Wolfram até mesmo manteve a corte de Arthur, Camelot, como situada na França e muito especificamente em Nantes. Nantes agora é na Bretanha, que era a fronteira mais a o oeste  do velho reino Merovíngio no auge de seu poder. Em uma manuscrito da versão de Chretien da história do Gral, Percival declara que ele nasceu em Saudone, ou Sinadon, ou algum lugar tal que aparece em um número de variantes ortográficas e a região é descrita como montanhosa. Segundo Wolfram, Perzival veio de Waleies. A maioria dos eruditos tem tomado que Waleies seja Wales e Sinadon, em suas várias soletrações como Snowdon ou Sowndonia. Se assim o é, contudo, certos problemas insuperáveis se levantam e, como ressalta outro comentador moderno, o ‘mapa nos falha’. Porque os personagens se movem constantemente entre Waleieis e a corte de Arthur em Nantes, bem como em outras localizações francesas, sem atravessar qualquer água! Eles se movem sobre a terra, em resumo, e pelas regiões cujos habitantes falam francês. Wolfram estava simplesmente medíocre em geografia? Pode possivelmente isto ter sido um descuido? Ou Waleis nao era de todo Waleieis afinal? Dois eruditos tem sugerido que isto fosse Valois, a região da França a nordeste de Paris mas como não há montanhas em Valois, nem o resto do panorama se conforma de qualquer modo a descrição de Wolfram.  Ao mesmo tempo, contudo, há uma outra localização possível para Waleis, uma localização que é montanhosa, que se conforma precisamente a de Wolfram e a outras descições topográficas e cujos habitantes falam francês. Esta localização é Valais na Suiça, nas margens do Lago Leman a leste de Genebra. Pareceria, em resumo, que a terra natal de Parzival nem é Waleis nem Valiois, mas Valais. E seu real lugar natal de Sinadon ou Snowdonia, mas  Sidonensis, a capital de Valais, E o nome moderno de Sidonensis, capital é Sião. Wolfram fornece uma resposta em seu mais ambicioso trabalho, deixada inacabado por sua morte e intulado  Der Junge Titurel. Neste fragmento evocativo Wolfram se dirige a vida de Titurel, pai de Anfortas, e o construtor original do castelo do Gral. Der ]unge Titurel é muito específico não apenas sobre os detalhes geológicos mas também sobre as dimensões, os componentes, os materiais. A configuração do castelo do Gral é o de capela circular, por exemplo, como aquelas dos Templários. E o próprio castelo está situado nos Pirineus. Além de Der Junge Titurel, Wolfram deixou um outro trabalho não terminado por sua morte; o poema conhecido como Willehalm, cujo protagonista é Guillem de Gellone, o regente Merovíngio da principalidade do século IX situada nos Pirineus. É dito que Guilhem é associado a família do Gral. Ele então pareceria a única figura nos trabalhos de Wolfram cuja identidade histórica pode realmente ser determinada. Ainda que até mesmo em seu tratamento das figuras não identificáveis a meticulosa precisão de Wolfram seja surpreendente. Quando mais nós o estudamos, nais provável parece que ele estava se referindo a um grupo de pessoas reais e não a uma família mítica ou ficcionalizada, mas uma que existiu historicamente, e bem pode ter incluido Guillem de Gellone. Esta conclusão vem toda mais plausível quando Wolfram admite que ele está escondendo algo que Parzival e seus outros trabalhos não são meramente romances, mas também documentos de iniciação, depositórios de segredos.

O Gral e o cabalismo como sugere Perlesvaus, o Gral, ao menos em parte, pareceria ser uma experiência de algum tipo. Em suas exposições sobre as propriedades curativas do Gral e o pode de assegurar a longevidade, Wolfram também pareceria estar implicando algo experimental bem como simbólico , um estado de mente e um estado de ser. Parece haver pouca dúvida de que a um nível o Gral seja uma experiência iniciática na qual a terminologia moderna seria descrita como uma ‘transformação’ ou ‘estado alterado de consciência’. Alternativamente, ele pode ser descrito omo uma ‘experiência gnóstica’, ‘iluminação’ ou ‘união com Deus’. É possível ser até mesmo mais preciso e colocar o aspecto experiencial do Gral em um contexto muito preciso. Este contexto é a Cabala ou o pensamento cabalístico. Certamente tal pensamento estava muito ‘no ar’ nos tempos em que foram compostos os romances do Gral. Havia uma famosa escola cabalística em Toledo, por exemplo, onde Kyot é dito ter aprendido sobre o Gral. Haviam outras escolas em Gerina, Montpellier e outros lugares no sul da França. E dificilmente seria coincidental que houvesse uma tal escola em Troyes. Ela datava de 1070 – o tempo de  Godfroi de Bouillon e era dirigida por um tal de Kashi, talvez o mais famoso dos cabalistas medievais. Aqui é impossível, com certeza, fazer justiça a cabala ou ao pensamento cabalistico.  Não obstante certos pontos devem ser feitos para estabelecer uma conexão ente o cabalismo e os romances do Gral. Muito brevemente então, o cabalismo pode ser descrito como ‘judaismo esotérico’ – uma prática metodologia psicológica de origem unicamente judaica destinada a induzir a uma transformação dramática da consciência. A este respeito pode ser visto como um equivalennte judaico de metodologias similares ou disciplinas na tradição hindu, budista e taoista e certas formas de yoga por exemplo, ou Zen. Como seus equivalentes orientais, o treinamento cabalista compreende uma série de rituais, uma sequência estruturada de experiências iniciáticas que levam o preaticante a cada vez maiores e mais radicais transformações da consciência e da cognição. E embora o significado e a importância de tais modificações seja assunto para a interpretação, sua realidade, como fenômeno psicológico, está além da discussão. Dos estágios das sucessivas experiências iniciáticas um dos mais importantes é o estágio conhecido como Tiferet. Em Tiferet a experiência do indivíduo é dito ir além do mundo da forma para o sem forma ou, em termos contemporaneos, ‘transcender seu ego’. Simbolicamente falando, isto consiste de um tipo de morte sacrificial – a morte do ego – o sentimento de individualidade e o isolamento de tal individualidade compreende, e, com certeza, um renascimento, ou ressurreição em uma outra dimensão de uma toda abrangente unidade e harmonia. Nas adaptações cristãs do cabalismo Tiferet foi portanto associada a Jesus. Para os cabalistas medievais a iniciação em Tiferet era portanto associada com certos símbolos específicos. Estes incluiam um eremita ou guia ou velho jomem sábio, um rei majestoso, uma criança, um rei sacrificado. Em tempo outros símbolos foram acrescentados bem como uma pirâmide truncada, por exemplo, um cubo, e uma rosacruz. A relação destes símbolos nos romances do Gral é suficientemente aparente. Em todas as narrativas do Gral há um velho e sábio eremita tio de Percival ou Parzival que frequentemente age como guia espiritual. No poema de Wolfram o Gral é uma pedra que possivelmente possa ser um cubo. E em Perlesvaus as várias manifestações do Gral correspondem quase precisamente aos símbolos de Tiferet. De fato, o próprio Perlesvaus estabelece um link crucial entre a experiência de Tiferet e o Gral.

O Jogo de Palavras

Então podemos identificar o aspecto experiencial do Gral e o ligar precisamente com as adaptações cristãs da cabala e do cabalismo de Tiferet que portanto foi associado a Jesus. Para os cabalistas medievais a iniciação em Tiferet estava associada a um certo especifismo. Isto partilhava um outro elemento judaico aparentemente incongruente ao caráter supostamente cristão do Gral. Mas seja o que for os aspectos experienciais do Gral, havia outros aspectos bem como aspectos que não podemos ignorar e que eram de superma importância em nossa história. Estes aspectos eram históricos e genealógicos. Novamente mais uma vez, os romances do Gral nos tinham confrontado com um padrão de uma natureza distintamente mundana e mística. Mais uma vez havia um imaturo cavaleiro que, por meio de certos testes que o provavam ‘digno’, era iniciado em algum monumental segredo. Novamente, este segredo era estreitamente guardado por uma ordem de algum tipo, aparentemente cavaleiresca em sua composição. E novamente, o segredo era associado a uma família específica. E novamente, o protagonista pelo intercasamento com esta família, por sua própria linhagem e ambos se torna o senhor do Gral e de tudo ligado a ele. A este nível, ao menos, parecemos estar lidando com algo de um concreto personagem histórico. Um que pode se tornar senhor de um castelo ou um grupo de pessoas. Um que pode se tornar herdeiro de certas terras e até mesmo de certa herança. Mas alguém que não pode se tornar senhor ou herdeiro de uma experiência. Era isso relevante, imaginamos, que os romances do Gral, quando submetidos a um exame estreito, repousassem crucialmente sobre assuntos de linhagem e de genealogia, pedigree, herança e herdeiros? Era relevante que a linhagem em questão devesse se entrelaçar em certos pontos chave com aquelas que figuravam tão salientemente em nossa pesquisa sobre a casa de Anjou, por exemplo, Guillem de Gellone e Godfroi de Bouillon? Pode o mistério ligado a Rennes-le-Chateau e ao Priorado se relacionar, de algum modo ainda que obscuro, a este objeto misterioso chamado Santo Gral? Temos, de fato, estando a seguir as pegadas de Parzival e realizando nossa própria busca moderna do Gral? A evidência sugere que esta seja uma possibilidade muito real. E de fato havia uma mais crucial peça de evidência que inclinou o equlíbrio decisavamente a favor de uma tal conclusão. Em muitos dos mais iniciais manuscritos, o Gral é chamado ‘Sangraal’; e até mesmo na versão mais posterior de Malory, ele é chamado Sagraal. É provável que uma tal forma de Sangraal ou Sagreal fosse de fato a original. É também provável que esta uma só palavra fosse subsequentemente quebrada no lugar errado. Em outras palavras, Sangraal ou Sangreal pode não ter sido pretendido ser divido em Santo Gral mas em Sangue Real ou Sang Real. Ou, para empregar a soletração moderna, Sangue Real. Sangue Real. Por sí só, tal jogo de palavras pode ser provocante mas dificilmente seja conclusivo. Tomado em conjunto com a ênfase em genealogia e linhagem, contudo, não há espaço para dúvida. E para este assunto, as associações tradicionais com uma taça que contém  o sangue de Jesus, por exemplo, pareceriam reforçar esta suposição . Muito claramente, o Gral pareceria pertencer de algum modo a um sanngue ou linhagem sanguínea. Isto levanta, com certeza, certas questões óbvias. Que sangue e que linhagem sanguínea?

Os Reis Perdidos e o Gral

Os romnces do Gral não são apenas poemas de seu tipo para encontrar uma audiência receptiva no fim do século XII e início do século XIII. Há muitos outros. Tristão e Isolda, por exemplo, e Eric e Enide compostos em alguns casos pelo próprio Chretien, em alguns casos por contemporaneos e compatriotas de Wolfram, tais como  Hartmann von Au e Gottfried von Strassburg. Este romances não fazem qualquer menção ao Gral. Mas eles claramente são estabelecidos no mesmo período mítico-histórico dos romances do Gral, porque eles dependem mais ou menos pesadamente de Arthur. Até onde ele possa ser datado, Arthur parece ter vivido no V ou VI século. Em outras palavras, Arthur viveu no auge da ascendência Merovíngia no Gaul, e era, de fato, contemporaneo de Clovis. Se o termo ‘Ursus’ era aplicado a linhagem real merovíngia, o nome Arthur que também significa urso pode ter sido uma tentativa de conferir  uma dignidade comparável a um chefe britânico. Para os escritores dos tempos das Cruzadas, a era Merovíngia parece ter tido uma crucial importância tanto que, de fato, foi fornecido o pano de fundo para os romances que nada tinham a ver com Arthur ou o Gral. Um deles é o épico nacional da Alemanha, a Canção dos Nibelungos, da qual, no século XIX, Wagner retirou tão pesadamente para sua monumental sequência de ópera, O Anel. Este opus musical, e o poema do qual ele deriva, são geralmente descartados como pura fantasia. Ainda que os Nibelungos fssem um povo real, uma tribo germânica que viveu no final dos tempos Merovíngios. Sobretudo, muitos dos nomes no Nibelungenlied Siegmund, por exemplo, Siegfried, Sieglinde, Brunhilde e Kriemhild são patentemente nomes Merovíngios. Muitos episódios no poema estreitamente paralelizam  e podem até mesmo se referir a eventos específicos nos tempos Merovíngios. Embora nada tenha a ver com Arthur e o Gral, o  Nibelungenlied é a evidência posterior que a época Merovingia exerceu um poderoso apelo sobre as imaginações dos poetas dos séculos XII e XIII que os escritores e poetas posteriores não tiveram. Em qualquer caso, eruditos modernos concorrem que os romances do Gral, como o Nibelungenlied, se referm a era Merovíngia. Em parte, com certeza, esta conclusão pareceria auto-evidente, dado a proeminencia de Arthur. Mas ela também repousa nas indicações específicas fornecidas pelos próprios romances do Gral. O  Zueste del Saint Graal, por exemplo, composto entre 1215 e 1230, declara explicitamente que as histórias do Gral ocorreram precisamente 454 anos depois da ressurreição de Jesus. Assumindo que Jesus morreu em 33, a saga do Gral então teria se encenado em 487 durante o primeiro fluxo do poder Merovíngio e meros nove anos antes do batismo de Clovis. Nada houve de revolucionário ou de controvertido, portanto, em ligar os romances do Gral com a era Merovíngia. Nem é menos questão de ênfase, que, por causa de Arthur, tenha sido localizado primariamente na Bretanha. Como resultado desta ênfase distintamente britânica, não temos associado automaticamente o Gral à Dinastia Merovíngia. E ainda que Wofram insista que a Côrte de Arthur seja em Nantes e que este poema se passe na França. A mesma avaliação é feita para outros romances do Gral; a Queste del Saint Graal, por exemplo. E há tradições medievais que mantém que o Gral não foi levado para a Inglaterra por José de Arimatéia, mas para a França por Madalena. Agora começamos a imaginar se a proeminência atribuída a Bretanha pelos comentadores sobre os romances do Gral não tenha sido mal localizada e se os romances de fato se referiam primariamente a eventos no continente, e mais particularmente, a eventos na França. E começamos a suspeitar que o próprio Gral, a linhagem real, realmente se referiu ao sangue real da dinastia merovíngia; um sangue a ser considerado sagrado e investido de tais propriedades mágicas e miraculosas. Talvez os romances do Gral constituissem , ao menos em parte, uma narrativa simbólica ou alegórica de certos eventos da época merovíngia. E talvez já tivéssemos encontrado alguns destes eventos no curso de nossa investigação.

Um casamento com alguma família especial, por exemplo, a qual, envolta pelo tempo, engendrou as lendas relativas a paternidade dual de Merovee. Ou talvez, na família do Gral, uma representação da perpetuação clandestina da linhagem sanguínea merovíngia – os reis perdidos – nas montanhas e cavernas de Razes. Ou talvez o exílio desta linhagem sanguinea na Inglaterra durante o final do século IX e início do século X. E a secreta mas augusta aliança onde a vinha Merovíngia, como aquela da família do Gral, eventualmente dá frutos em Godfroi de Bouillon e na casa de Lorraine. Talvez o próprio Arthur – o urso – fosse apenas incidentalmente relacionado ao chefe celtico ou galo-romano. Talvez o Arthur nos romances do Gral fosse realmente Ursus. Talvez o Arthur legendário nas crônicas de Geoffrey of Monmouth tenha sido apropriado pelos escritores sobre o Gral e deliberadamente transformado em um veículo para uma tradição secreta bem diferente. Se assim o foi, isto explicaria porque os Templários, – estabelecidos pelo Priorado de Sião como os guardiões da linhagem Merovíngia fossem declarados serem os guardiões do Gral e da família do Gral. Se a família do Gral e a linhagem Merovíngia eram uma só coisa e a mesma, os Templários de fato teriam sido os guardiões naquele tempo, mais ou menos, que os romances do Gral eram compostos. Seus romances do Gral, não seriam, portanto, anacrônicos. A hipótese era intrigante mas ela levantava uma questão crucial. Os romances podem ter sido estabelecidos nos tempos Merovíngios, mas eles ligam o Gral muito explicitamente aos origens do cristianismo e a Jesus, a Jose de Arimatéia ou Madalena. Alguns deles, de fato, vão até mermo adiante.  No poema de Robert de Boron, Galahad é dito ser filho de José de Arimatéia embora a identidade da mãe do cavaleiro não seja esclarecida. E o Zueste del Saint Graal chama Galahad, como Jesus, um descendente da Casa de David, e identifica Galahad com o próprio Jesus. De fato, o próprio nome Galahad, segundo eruditos modernos, deriva do nome Gilead, que era considerado uma designação mística para Jesus.

Se o Gral pode ser identificado com a linhagem sanguínea Merovíngia, esta estava em conexão com Jesus? Porque deveria algo tão intimamente associado a Jesus ser também associado à época Merovíngia? Como podemos reconciliar a discrepância cronológica da relação de algo tão pertinente a Jesus e os eventos que ocorreram ao menos quatro séculos depois? Como por um lado o Gral pode ser referir a época Mrovíngia e por outro, a algo trazido por José de Arimatéia para a Inglaterra ou por Madalena para a França?. Até mesmo em um nível simbólico tais questões se avaliam. O Gral, por exemplo, se realaciona de algum modo ao sangue, Até mesmo sem a quebra de ‘Sangraal’ em ‘Sang raal’, o Gral é dito ter sido um receptáculo para o sangue de Jesus. Como isto pode estar relacionado aos Merovíngios? E porque isso deve precisamente estar relacionado ao tempo que foi durante as Cruzadas, quando as cabeças merovíngias usaram a coroa do reino de Jerusalém, protegidas pela Ordem do Templo e o Priorado de Sião? Os romances do Gral ressaltam a importância do sangue do Jesus. Eles também ressaltam uma linhagem de algum tipo. E dado tais fatores como a culminação da família do Gral em Godfroi de Bouillon, eles pareceriam pertencer a linhagem Merovíngia. Pode aparentemente haver alguma ligação entre estes dois elementos discordantes?  Pode o sangue de Jesus de algum modo estar relacionado ao sangue da linhagem real dos Merovíngios? Pode a linhagem ligada ao Gral, ter sido trazida à Europa Ocidental pouco depois da Crucificação , e ser interligada com a linhagem dos Merovíngios?

A Necessidade de Síntese

A este ponto, fizemos uma pausa para rever a evidência a nossa disposição. Isto estava nos levando a uma direção surpreendente e inconfundível. Mas porque, imaginamos, esta evidência nunca tinha sido intimada pelos eruditos antes? Ela certamente esteve prontamente disponível por séculos. Porque ninguém, a nosso conhecimento, até mesmo sintetizou isso e concluiu o que tem sido conclusões bem óbvias, ainda que especulativas. Garantidamente, tais conclusões a uns poucos séculos atrás teriam sido rigorosamente tabu e, se publicadas, severamente punidas. Mas não tem havido um tal perigo nos últimos duzentos anos. Porque, então, tinham os fragmentos do quebra-cabeças não sido reunidos em um todo coerente? As respostas a estas questões, entendemos, residem em nossa era e nos modos ou hábitos de pensamento que a caraterizam. Desde a chamada Iluminação do século XVIII a orientação da cutura e da consciência ocidental tem sido na direção da análise, muito mais do que na síntese. Como resultado, nossa idade é uma da mais crescente especialização. De acordo com esta tendência, a erudição moderna coloca uma ênfase não ordenada na especialização, a qual, como o atesta a universidade moderna, implica e compreende a segregação do conhecimento em disciplinas distintas. Em consequência, nas diversas esferas cobertas por nossa pesquisa tem tradicionalmente sido segmentado em compartimentos muito diferentes. Em cada compartimento o material relevante tem sido obedientemente explorado e avaliado por especialistas, no campo. Mas poucos, se alguns, destes especialistas tem se comportamentado em estabelecer uma conexão entre seus campos em particular e outros que se entrelaçam a ele. De fato tais especialistas tendem geralmente a verem os campos outros do que os seus com consideravel suspeita na melhor das hipótese como espúrio, e na melhor, como irrelevante. Uma pesquisa eclética ou interdisciplinar é frequentemente ativamente desencorajada como sendo, entre outras coisas, especulativa demais. Tem havido numerosos tratados sobre os romances do Gral, seus origens e desenvolvimento, seu impacto cultural, sua qualidade literária. E tem havido numerosos estudos, válidos ou não, dos Templários e das Cruzadas. Mas poucos especialistas sobre os romances do Gral tem sido historiadores, conquanto ainda menos tem apresentado muito interesse na história complexa, fequentemente sórdida e não muito romantica por trás dos Templários e das Cruzadas. Similarmente os historiadores dos Templários e das Cruzadas tem, como todos os historiadores, aderido estreitamente aos registros factuais e documentos. Os romances do Gral tem sido descartados como meras ficções, nada mais do que um fenômeno cultural, uma especie de sub-produto gerado pela imaginação de uma idade. Sugerir a tais historiadores que os romances do Gral podem conter um canal de verdade histórica seria supremo para a heresia até mesmo embora Schliemann, mais do que Verdade, vários escritores ocultos, procedendo primariamente em base de pensamento desejoso, tem dado literal credencial as histórias, afirmando que, de algum modo místico, os Templários eram os guardiões do Gral, seja o que que o Gral possa ser.

Mas não há qualquer estudo histórico sério que se comporte para estabelecer qualquer real conexão. Os Templários são vistos como fato e o Gral como ficção e nenhuma associação entre os dois é reconhecidamente possível. E se os romances do Gral tem assim sido negligenciados pelos eruditos e historiadores do período em que eles foram escritos, dificilmente seja surpreendente que eles sejam negligenciados por especialistas em épocas anteriores. Muito simplesmente, não ocorreria a um especialista na idade Merovíngia suspeitar que os romances do Gral, possam de algum modo, lançar luz sobre o assunto do estudo deles, se, de fato, ele tenha qualquer conhecimento sobre os romances do Gral. Mas não é uma séria omissão que nenhum erudito merovíngio tenha até mesmo encontrado menção as histórias arthurianas que, falando cronologicamente, se referem a mesma época na qual ele afirma a sua especialização? Se os historiadores estão despreparados para fazer tais conexões, os eruditos biblicos estão menos preparados para assim o fazer. Durante as últimas poucas décadas uma riqueza de livros tem aparecido segundo os quais Jesus era um pacifista, um Essênio, um místico, um Budista, um feiticeiro, um revolucionário, um homossexual e até mesmo um cogumelo. Mas a despeito desta plétora de material sobre Jesus e o contexto histórico do Novo Testamento, nenhum autor, a nosso conhecimento, tem tocado a questão do Gral. Porque deveria ele? Porque deveria um especialista na história bíblica ter qualquer interesse em, ou conhecimento de, um conjunto de poemas fatásticos compostos na Europa ocidental mais do que mil anos depois? Seria inconcebível que os romances do Gral pudessem de algum modo elucidar os mistérios que cercam o Novo Testamento. Mas a realidade, história e conhecimento não podem ser segmentadas e compartimentalizadas segundo um arbitrário sistema de preenchimento do intelecto humano. E conquanto a evidência documental seja difícil de se chegar a ela, é auto-evidente que as tradições podem sobreviver por mil anos, então emergir em uma forma escrita que ilumina os eventos anteriores.

Certas sagas irlandesas, por exemplo, pode revelar uma grande parte da mudança da sociedade matriarcal em umas sociedade patriarcal na antiga Irlanda. Sem o trabalho de Homero, composto muito depois do fato, ninguém nunca até mesmo teria ouvido falar sobre o cerco de Tróia. E Guerra e Paz embora escrita mais de meio século depois pode nos dizer mais do que os livros de história, mais até mesmo do que os documentos oficiais, sobre a Rússia durante a era Napoleonica. Qualquer pesquisador responsável deve, como um detetive, buscar seja qual for a pista que tiver a mão, mesmo que aparentemente seja improvável. Não se deve descartar material a priori, de antemão, porque isso ameaça levar a um território não familiar ou improvável. Os eventos do escândalo de Watergate, por exemplo, foram reconstituídos inicialmente de uma multitude de fragmentos ostensivamente desparatados, cada um por si só sem sentido, e sem nenhuma ligação aparente entre eles. De fato, alguns dos truques infantis e sujos devem ter parecido, ao investigadores de seu tempo, tão divorciados dos assuntos mais amplos como os romances do Gral podem parecer ao Novo Testamento. E o escândalo de Watergate estava confinado a um único país e a um período de tempo de uns poucos anos. O assunto da nossa investigação abrange a inteira cultura ocidental, e o período de tempo de dois milenios. O que é necessário é uma abordagem interdisciplinar de um material escolhido – uma aborgagem móvel e flexível que nos permita mover livremente entre disciplinas separadas, através do espaço e tempo. Devemos ser capazes de ligar dados e fazer conexões entre pessoas, eventos e fenômenos amplamente divorciados um do outro. Devemos ser capazes de nos mover, quando a necessidade o ditar, do século III para o VII e o VIII, retirando de uma variedade de fontes inciais de textos eclesiásticos, dos romances do Gral, os registros Merovíngios e as crônicas, os escritos da Livre Maçonaria. Em resumo, deve-se sintetizar não apenas porque tal síntese possa discernir a subjacente continuidade, o tecido coerente e unificado, que reside no núcleo de qualquer problema histórico. Uma tal abordagem não é nem particularmente revolucionária, a princípio, nem particularmente controversa. È muito mais como tomar um princípio do contemporanio dogma da Igreja da Imaculada Conceição, por exemplo, ou do celibato obrigatório dos sacerdotes e usar isso para iluminar o cristianismo inicial. Muito do mesmo modo os romances do Gral podem ser usados  para lançar uma importante luz sobre o Novo Testamento sobre a carreira e identidade de Jesus. Finalmente não é suficiente se confinar exclusivamente aos fatos. Devemos também discirnir as repercussões e ramificações que se irradiam pelos séculos frequentemente na forma do mito e da lenda. Na verdade, os próprios fatos podem ser distorcidows no processo, como um eco reverberando nos penhascos. Mas se a própria voz não pode ser localizada, o eco, contudo distorcido, pode ainda apontar de um modo para ela. Os fatos, em resumo, são como pedras caindo na piscina da história. Elas desaparecem rapidamente, frequentemente sem deixar um traço. Mas elas geram ondas que, se a perspectiva de alguém for suficientemente ampla, a habilita a localizar onde a pedra caiu originalmente. Guiado pelas ondas, podemos então mergulhar ou escavar ou aditar seja qual for a abordagem que desejarmos . O ponto é que as ondas permitem que se localize o que de outra forma seria irreconhecível. Logo estava sendo aparente para nós que tudo que temos estudado durante a nossa investigação era apenas uma onda – que, monitorada corretamente, pode nos digir a única pedra atirada na pi
scina da história milhares de anos atrás.

A Nossa Hipótese.

A Madalena tem figurado proeminentemente por toda nossa pesquisa. Segundo certas histórias medievais, a Madalena trouce o Santo Gral ou Sangue Real para a França. O Gral é estreitamente associado a Jesus. E o Gral, ao menos em um nível, se relaciona de algum modo ao sangue – ou, mais especificamente, a uma linhagem sanguínea. Os romances do Gral eram em sua maior parte, contudo, passados em tempos Merovíngios. Mas eles não foram compostos até depois de Godfroi de Buillon o descendente ficticional da família do Gral e real descendente da família Merovíngia fosse instalado, em tudo apenas no nome, como Rei de Jerusalém. Se tivessemos estado lidando com qualquer outro se não Jesus, se estivessemos lidando com um personagem como Alexandre, por exemplo, ou Julius Caesar, estres fragmentos de evidência sozinhos teriam levado, quase inevitavelmente, a uma conclusão auto-evidente. Retiramos esta concusão, contudo quanto controversa e explosiva quanto possa ser. Começamos a testar ao menos como uma hipótese tentativa. Talvez Madalena esta mulher fugidia nos Evangelhos, fosse de fato a esposa de Jesus. Talvez a união deles tivesse produzido uma prole. Depois da Crucificação, talvez Madalena, com apenas um filho, fosse levada ao Gaul onde ainda já existiam comunidades judaicas estabelecidas e onde, em consequência, ela pode ter encontrado um refúgio. Talvez esta fosse, em resumo, uma linhagem sanguínea hereditária descendente diretamente de Jesus. Talvez esta linhagem sanguinea, este supremo sangue real, então se perpetuasse; intacto e incógnito, por alguns quatrocentos anos o que afinal não é um tempo muito longo para uma linhagem muito importante. Talvez tenha havido casamentos inter-dinásticos não apenas com famílias judias mas também com romanos e visigodos. E talvez no século V a linhagem de Jesus tornou-se aliada a linhagem real dos francos, assim engendrando a dinastia Merovíngia. Se esta hipótese não elaborada foi em algum sentido verdadeira, ela serviria para explicar muitos grandes elementos em nossa investigação. Ela explicaria o status extraordinário atribuido a Madalena, e a importância do culto que ela alcançou durante as Cruzadas. Explicaria também  o status sagrado atribuido aos Merovíngios. Explicaria o legandário nascimento de Merovee, filho de dois pais, um deles simbolicamente uma figura marinha de além do mar, que, como Jesus, pode ser igualado a um peixe místico. Isto explicaria o pacto entre a Igrea Romana e a linhagem sanguínea de Clovis porque um pacto com a descendência linear de Jesus seria uma pacto óbvio para uma igreja fundada em seu nome? Isto explicaria o ressalte incomensurado posto no assassinato de Dagoberto II pela Igreja, por ser parte daquele assassinato, teria sido culpada não apenas de regicídio mas, segundo seus princípios, de uma forma de deicídio também. Isto explicaria a tentativa de erradicar Dagoberto II da história. Isto explicaria a obsessão dos Carolíngios em se legitimarem, como Sagrados Imperadores Romanos, ao declararem um pedigree Merovíngio.  Uma linhagem sanguínea descendente de Jesus através de Dagoberto II também explicaria a família do Gral nos romances sobre os segredos que a cercam, seu status exaltado, o impotente Rei Pescador incapaz de reinar, o processo pelo qual Parzival ou Percival se torna o herdeiro do Castelo do Gral. Finalmente, isto explicaria o pedigree místico de Godfroi de Bouillon, filho ou neto de Lohengrin, neto ou bisneto de Parzival, descendente da família do Gral. E se Godfroi fosse descendente de Jesus, sua captura triunfante de Jerusalém em 1099 teria comprendido muito mais do que simplesmente resgatar o Santo Sepulcro dos infiéis. Godfroi estaria reclamando sua herança por direito. Já temos suposto que as referências a vinicultura por nossa investigação simbolizasse alianças dinásticas. Com base em nossa hipótese, a vinicultura agora pareceu simbolizar o proceso pelo qual o próprio Jesus se identifica repetidamente com a vinha perpetuada em sua linhagem. Como se em confirmação, descobrimos uma porta gravada apresentando Jesus como um cacho de uvas. Esta porta estava em Sião, Suíça. Nosso cenário hipotético era tanto logicamente consistente quanto intrigante. Ainda que, contudo, fosse também absurdo. Tão atraente quanto possa ser, isto era, ainda que, geral demais e repousado muito longe como uma frágil fundação. Embora isso explicasse muitas coisas, ele por si só ainda não podia ser sustentado. Havvia ainda muito buracos nisto, inconsistências demais e anomalias, muitas pontas soltas. Antes que pudéssemos seriamente considerar ou entreter isso, teriamos que determinar se havia qualquer evidência real que o sustentasse.  Em uma tentativa de encontrar tal evidência começamos a explorar os Evangelhos, o contexto hisórico do Novo testamento, e os escritos dos Pais iniciais da Igreja.

O Rei Sacerdote que Nunca Reinou

A maioria das pessoas hoja fala do cristianismo como se ele fosse uma única coias específica, uma entidade coerente, homogenea e unificada. É desnecessário dizer, o cristianismo não é algo deste tipo. Como todo mundo sabe, há inúmeras formas de cristianismo: o Catolicismo Romano, por exemplo, ou a Igreja da Inglaterra iniciada por Henrique VIII. Há várias outras denominações de protestantismo do original Luteranismo a Calvismo do século XVI a tais desenvolvimentos recentes como o Unitaritanismo. Há multitudes de congregações marginais ou ‘evangélicas’ tais como os Adventistas do Sétimo Dia e as Testemunhas de Jeová. E há uma variedade de seitas contempoeraneas e cultos, como os Filhos de Deus e a Igreja da Unificação do Reverendo Moon. Se alguém observa este surpreendente espectro de crenças desde a rigidamente dogmática e conservadora até a radical e extásica é difícil determinar o que exatamente constitui o ‘cristianismo’. Se há um único fator que permite que se fale de ‘cristianismo’, um único fator que de algum modo ligue os credos que de ourta forma são tão contrários e divergentes, este é o Novo Testamento, e mais particularmente o status único atribuido pelo Novo Testamento a Jesus, sua crucificação e ressurreição. Até mesmo se não se subscreve a verdade literal ou histórica destes eventos, a aceitação de sua importância simbólica geralmente é suficiente para que alguém seja considerado cristão. Se há qualquer unidade, então, o fenômeno difuso chamado cristandade, reside no Novo Testamento e mais especificamente, nas narrativas de Jesus conhecidas como os Quatro Evangelhos. Estas narrativas são popularmente consideradas como as mais autoritárias registradas: e para muitos cristãos elas são assumidas como sendo coerentes e inexplugnáveis.

Desde a infância somos levados a acreditar que a história de Jesus, como preservada nos Quatro Evangelhos, é, senão inspirad por Deus, ao menos definitiva. Os quatro evangelistas, os supostos autores dos Evangelhos, são considerados serem testemunhas impecáveis que reforçam e confirmam o testemunho um dos outros. Mas as vezes, eles discordam violentamente. Tanto quanto diga respeito a tradição popular, a origem e nascimento de Jesus são bem conhecidos. Mas na realidade os Evangelhos, no que é baseado a tradição, são coinsideravelmente mais vagos sobre este assunto.  Somente dos Evangelhos – Mateus e Lucas – afinal dizem algo sobre as origens e nascimento de Jesus; e eles flagrantemente estão em discordancia um com o outro. Segundo Mateus, por exemplo, Jesus era um aristocrata, se não um rei por direito e legítimo descedente de David via Salomão. Segundo Luycas, por outro lado, a família de Jesus, embora descendente da casa de David, era de algum modo de origemmenos exaltada; e é com base em Marcos que a história do pobre carpinteiro veio a existir. As duas genealogias, em resumo, são tão surpreendentemente discordantes  que elas bem podem estar se referindo a dois indivíduos diferentes.  As discrepâncias entre os Evangelhos não estão confinadas a questão da ancestralidade e genealogia de Jesus. Segundo Lucas, Jesus, em seu nascimento, foi visitado por pastores. Segundo Meteus, ele foi visitado por reis. Segundo Lucas, a família de Jesus vivia em Nazaré. Daqui é dito que eles viajaram para um censo que a história sugere nunca ter de fato ocorrido, em Belém, onde Jesus nasceu na pobreza de uma manjedoura. Mas segundo Mateus, a família de Jesus tinha sido bem sucedidos residentes de Belém por todo tempo, e o próprio Jesus nasceu em uma casa. Na versãoi de Mateus a perseguição dos inocentes movida por Herodes fez a família fugir para o Egito, e somente em seu retorno eles estaelecem residência em Nazaré. A informação em cada uma destas narrativas é muito específica a ssumir que o censo ocorreu é perfeitamente plausível. Ainda que a informação por si só não concorde. Esta contradição não pode ser racionalizada. Não há meios possiveis das duas narrativas conflitantes estarem ambas corretas, e não há meios de como elas possam ser reconciliadas.

Se alguém se importa em admitir ou não, o fato deve ser reconhecido que um ou ambos Evangelhos está errado. Diante de uma conclusão tão clara e inevitável, os Evangelhos não podem ser vistos como inexpugnáveis. Como eles podem ser inexpugnáveis se eles próprios impugnam uns aos outros? Quanto mais se estuda os evangelhos, mais contradições entre eles se tornam aparentes. De fato, eles nem mesmo concordam quanto ao dia da Crucificação. Segundo o Evangelho de João, a Crucificação ocorreu um dia antes da Páscoa judaica. Segundo os evangelhos de Marcos, Lucas e Mateus ela ocorreu um dia depois. Nem os evangelhos estão de acordo sobre o caráter e a personalidade de Jesus. Cada um aspresenta uma figura que está patentemente em estranheza com a figura apresentada pelos outros, um salvador manso como um cordeiro em Lucas, por exemplo, um soberano majestoso e poderoso em Mateus que ‘não vem trazer a paz, mas a espada’. E há um desacordo posterior sobre as últimas palavras de Jesus na cruz. Em Mateus e Marcos  estas palavras são: ‘Pai, em suas mãos entrego meu espírito’ e em João elas são simplesmente ‘Está acabado’. Dado estas discrepâncias os Evangelhos apenas podem ser aceitos como um autoridade altamente questionável, e certamente não uma autoridade definitiva. Eles não representam a palavra perfeita de qualquer Deus; ou, se eles o fazem, as palavras de Deus tem sido liberalmente censuradas, editadas, revisadas, glosadas e reescritas por mãos humanas. A Bíblia, deve ser lembrado, e isso se aplica tanto ao Velho quanto ao Novo Testamento, é apenas uma seleção de trabalhos, e, muitos aspectos, um trabalho de certa forma arbitrário. De fato, ela bem podia incluir muito mais outros livros  e scritos de que realmente o faz. Nem há qualquer dúvida de que os livros que faltam tenham sido ‘perdidos’. Ao contrário, eles foram deliberadamente excluídos. Em 367 o Bispo Atanasio de Alexandria compilou uma lista de trabalhos a serem incluidos no Novo Testamento. Esta lista foi retificada pelo Concílio da Igreja em Nippo em 393 e novamente no Concílio de Cartago quatro anos depois. Nestes concílios foi concordada uma seleção. Certos trabalhos foram reunidos para formar o Novo Testamento como o conhecemos hoje, e outros foram cavalheirescamente ignorados. Como pode um tal processo de seleção ser visto como definitivo? Como pode um conclave de clérigos decidir infalivelmente que certos livros pertenciam a Bíblia enquanto outros não? Especialmente quando alguns dos livros excluídos tem uma declaração perfeitamente válida de veracidade histórica?

Como ela existe hoje, contudo, a Bíblia não é apenas o produto de um processo seletivo mais ou menos arbitrário. Ela também tem sido submetida a algumas bem drásticas edições, censura e revisão. Em 1958, por exemplo, o Professor Morton Smith da Universidade de Columbia descobriu, em um monastério perto de Jerusalém, uma carta a qual continha um fragmento perdido do Evangelho de Marcos. O fragmento de Marcos não tinha sido perdido. Ao contrário, ele tiha sido aparentemente deliberadamente suprimido por instigação, se não por ordem expressa, do Bispo Clemente de Alexandria, um dos mais venerados Pais iniciais da Igreja. Clemente parece ter recebido uma carta de um tal Teodoro, que se queixava de uma seita gnóstica, os Carpocratianos. Os Carpocratianos parecem terem estado interpretando certas passagens do Evangeho de Marcos segundo seus prórios princípios que não concorriam com a posição de Clemente e de Teodoro. Em consequencia, aparentemente Teodoro os atacou, e relatou sua ação a Clemente. Na carta encontrada pelo Profesor Smith, Clemente responde a este discípulo como se segue: “Você fez bem em silenciar os ensinamentos impronunciáveis dos Carpocratianos. Porque eles são ‘estrelas andarilhas’ referidas na profecia, que vagam pela estrada estreita dos mandamentos em um abismo sem margens de pecados carnais e corporais. Porque, para se orgulharem de seu conhecimentto, como eles dizem ‘das coisas profundas de Satã’ eles não sabem que estão se atirando ‘no mundo da escuridão’ da falsidade, e bravateando que são livres, eles tem se tornado escravos dos desejos servis. Taia homens são para serem opostos por todos os meios e todos juntos. Porque, até mesmo se eles devam dizer algo verdadeiro, aquele que ama a verdade não deve, até mesmo assim, concordar com eles. Porque nem todas as coisas são a verdade, nem devem estas verdade que [meramente] parecem verdade segundo as opiniões humanas serem preferidas à verdade verdadeira, que segundo a fé é a verdade.” Esta é uma declaração extraordinária para um Pai da Igreja. De fato Clemente estava dizendo nada menos que ‘se acontece de seu oponente dizer a verdade, você deve nega-la e mentir para refuta-lo’. Mas isto não é tudo. Na passagem seguinte, a carta de Clemente continua para discutir o Evangelho de Marcos e o seu ‘mal uso’, aos olhos dele, pelos Carpocratianos: Quanto a Marcos, então, durante a estada de Pedro em Roma, ele escreveu uma narrativa dos afazeres do Senhor; não, contudo, declarando todos eles nem ainda que apontando os sevretos, mas selecionando aqueles que ele pensou serem mais úteis para o aumento da fé daqueles que estavam sendo instruídos. Mas quando Pedro morreu como um mártir, Marcos veio a Alexandria, trazendo com ele suas próprias anotações e as de Pedro, as quais ele transferiu de seu livro anterior as coisas apropriadas para seja o que for que faça o progresso através do conhecimento [gnose]. Então ele compôs um Evangelho mais espiritual para uso daqueles que estavam sendo aperfeiçoados. Não obstante, ele ainda não divulgou as coisas que não devem ser murmuradas, nem ele escreveu o ensinamento hierofântico do Senhor, mas às historias já escritas ele acrescentou ainda outras e, sobretudo, trouxe em certos dizeres dos quais ele sabia a interpretação, como uma pessoa que incitava os neófitos [mistagogo], que levaria os ouvintes a um santurário mais interno daquela verdade escondida por sete véus. Assim, em resumo, ele pré-arranjou os assuntos, nem rancorosamente e nem incautamente, na minha opinião, e ao morrer, ele deixou sua composição para a igreja em Alexandria, onde ele está ainda mais que cautelosamente guardada, sendo lida apenas por aqueles que estão sendo iniciados nos grandes mistérios. Mas desde que os feios demônios estão sempre divisando a destruição da raça ds homens, Carpocrates, instruido por eles e usando artes enganosas, tão escravizou a um certo presbítero de uma igrejana Alexandria que obteve dele uma cópia do Evangelho secreto, que ele interpretou segundo sua doutrina blasfema e carnal e, sobretudo, poluiu, misturando as palavras imaculadas e sagradas com as máximas mentiras vergonhosas. Clemente então reconhece que de fato existe um Evangelho secreto de Marcos e ele então instrui Teodoro a negar isso:

Para eles [os Carpocratianos], portanto, como disse acima, nunca se deve se desistir, nem, quanto eles levam adiante suas falsificações, deve-se conceder que o Evangelho secreto de Marcos, mas deve até mesmo negar isso por juramento, ‘porque nem todas as coisas verdadeiras devem ser ditas a todos os homens. O que é este evangelho secreto que Clemente ordenou ao seu discípulo repudiar e que os carpocratianos estavam interpretando mal? Clemente responde a esta pergunta ao incluir uma transcrição palavra por palavra em sua carta: ‘Para você, entretanto, não devo hesitar em responder as questões que você tem perguntado, refutando as falsificações com as próprias palavras do evangelho. Por exemplo, depois ‘E eles estavam a estrada indo a Jerusalém’, e o que se segue , até ‘depois de três dias ele deve se elevar’, [o evangelho secreto] traz o seguinte [material] palavra por palavra: E ees vieram a Betania e uma certa mulher, cujo irmão tinha morrido, estava lá. E vindo, ela se prostrou diante de Jesus e disse a ele, ‘Filho de David tenha misericórdia de mim’. Mas os discípulos a repreenderam. E Jesus, ficando zangado, foi com ela para o jardim onde estava a tumba, e diratamente um grande grito foi ouvido da tumba. E chegando perto, Jesus rolou para fora a pedra da porta da tumba. E diretamente, indo onde o jovem estava, eles puxou sua mão e o levantou, pegando sua mão. Mas o jovem, olhando para ele, o amou e começou a suplicar a ele que ele devia estar com ele. E saindo da tumba eles foram a casa do jovem porque ele era rico. E depois de seis dias, Jesus disse a ele o que devia fazer e naquele entardecer o jovem veio até ele, vestindo uma roupa de linho sobre seu corpo nu. E ele permeneceu com ele naquela noite e Jesus ensinou a ele o mistério do Reino do Céu. E assim se elevando, ele voltou ao outro lado do Jordão. Este episódio não aparece em qualquer versão existente do Evangelho de Marcos. Em suas linhas gerais, contudo, é suficientemente familiar. é, com certeza, a ressurreição de Lázaro, descrita no Quarto Evangelho, atribuido a João. Na versão citada, contudo, há algumas variações importantes.

Em primeiro lugar há ‘um grande grito’ vindo da tumba antes que Jesus rolasse a pedra ou instruisse o ocupante a vir par fora. Isto fortemente sugere que o ocupante não estava morto e portanto, em um único golpe, contraria qualquer elemento do miraculoso. Em segundo lugar pareceria claramente estar algo mais envolvido do que é aceito nas narrativas do episódio de Lázaro que nos levam a acreditar. Certamente a passagem citada atesta alguma relação especial entre o homem na tumba e o homem que o ressurecta. Um leitor moderno talvez fosse tentado a ver uma pista de homossexualidade. E é possível que os carpocratianos – uma seita que aspirava a transcedência dos sentidos por meio da satisfação dos sentidos precisamete discernisse tal pista. Mas, como argumenta o Professor Smith, isto de fato é mais provável que o inteiro episodio se refira a uma iniciação de uma típica escola de mistério; uma morte ritualizada e simbólica e o renascimento do tipo tão prevalente no Oriente Médio daquele tempo. Em qualquer caso o ponto é que este episódio, e a passagem citada acima, não aparecem em qualquer versão moderna e aceita de Marcos. De fato, apenas referências a uma figura de Lázaro no Novo Testamento estão nos Evangelhos atribuídos a João. Então está claro que o conselho de Clemente foi aceito  não apenas por Teodoro, mas também pelas subsequentes autoridades. Muito simplesmente, o inteiro incidente de Lázaro foi completamente excluído dos Evangelhos de Marcos. Se o Evangelho de Marcos foi tão drasticamente expurgado ele também foi carregado com adições espúrias. Em sua versão original ele termina com a Crucificação, o enterro e a tumba vazia.  Não há cena de ressurreição, não há reunião com os discípulos. Garatidamente, há certas bíblias modernas que contêm um fim mais convencional do Evangelho de Marcos; um fim que inclui a Ressurreição. Mas virtualmente todos os modernos eruditos bíblicos concordam que este fim expandido é uma adição posterior, datando do final do segundo século, e apensada ao documento original. O Evangelho de Marcos assim fornece dois casos de um documento sagrado supostamente inspirado por Deus ter sido manipulado, editado, censurado, revisado por mãos humanas. Nem são estes dois casos especulativos. Ao contrário, eles agora são aceitos pelos eruditos como demonstrados e comprovados.

Pode-se então supor que o Evangelho de Marcos foi o único a sofrer tal alteração? Claramente se o Evangelho de Marcos foi tão pontamente doutorado, é razoável assumir que os outros evangelhos tenham sido similarmente tratados. Para os propósitos da nossa investigação, então, não podemos aceitar os evangelhos como autoridade definitiva e inexpugnável, mas, ao mesmo tempo, não podemos descarta-los. Eles certamente não foram inteiramente fabricados, e então fornecem algumas das poucas pistas disponíveis para o que realmente aconteceu na Terra Santa a dois mil anos atrás. Portanto tomamos a tarefa de examinar mais estreitamente, de peneirar por eles, separar os fatos das fábulas, separar a verdade que eles contém da matriz espúria na qual a verdade frequentemente está embebida. E para fazer isso efetivamente, fomos primeiro obrigados a nos elevar com a realidade histórica e circunstãncias da Terra Santa no advento da era cristã. Porque os Evangelhos não são entidades autonomas, conjuradas do vazio e flutuantes, eternas e universais, por todos os séculos. Eles são documentos históricos, como qualquer outro como os Pergaminhos do Mar Morto, os épicos de Homero e e Virgilio, os romances do Gral. Eles são produtos de um lugar muito específico, de um tempo muito específico, de um povo muito específico, e de fatores históricos muito específicos.

A Palestina ao Tempo dos Romances do Gral

A Palestina ao Tempo de Jesus. A Palestina no século I  era um canto muito conturbado do globo. Por algum tempo a Terra Santa tinha estado repleta de disputas dinásticas, lutas internas e, em uma ocasião, guerra em plena escala. Durante o século II AC um reino judaico mais ou menos unificado foi transitoriamente estabelecido como cronificado pelos dois Livros Apócrifos dos Macabeus. Por 63 AC contudo, a terra estava em rebelião novamente e madura para a conquista. Mais de meio século antes do nascimento de Jesus, a Palestina caiu sob os Exércitos de Pompeu, o o governo romano foi imposto. Mas Roma naquele tempo estava super estendendo-se, e preocupada demais com seus próprios assuntos, para instalar o aparato administrativo necessário para um governo direto. Ela portanto criou uma linhagem de reis fantoches para governarem sob sua égide. Esta linhagem era aquele de Herodes, que não era um judeu, mas árabe. O primeiro desta linhagem foi Antipater, que assumiu o trono da Palestina em 63 AC. Em sua morte em 37 AC ele foi sucedido por seu filho, Herodes o Grande, que governou até 4 AC. Deve-se visualizar, então, uma situação análoga aquela da França sob o governo de Vichy entre 1940 e 1944. Deve-se visualizar um povo e uma terra conquistados, governados por um regime fantoche que era mantido no poder pela força militar. As pessoas no país tinham a permissão de manter suas próprias religiões e costumes. Mas a autoridade final era Roma. Esta autoridade foi implementada segundo os romanos.

Após o nascimento de Cristo a situação se tornou mais crítica. Neste ano o país foi dividido administrativamente em duas provincias, Judéia e Galiléia. Herodes Antipas tornou-se o rei da Galiléia. Mas a Judéia era a capital espiritual e secular – foi submetida ao direto governo romano, administrada por um Procurador romano baseado em Cesaréia. O regime romano era brutal e autocrático. Qunado ele assumiu o controle direto da Judéia mais de três mil rebeldes foram sumariamente crucificados. O Templo foi saqueado e esvaziado. Pesados impostos foram impostos. A tortura era frequentemente empregada e muitos da populaça cometeram suicídio. Este estado de coisas não foi melhorado por Poncio Pilatos, que presidiu como Procurador da Judéia de 26 a 36 de nossa era. Em contraste com os retratos bíblicos dele, exigem registros que indicam que Pilatos era um homem cruel e corrupto, que não apenas perpetuou, mas intensificou, os abusos de seu predecessor. Tudo isso então é mais surpreendente, ao menos a primeira vista, que não deva haver algum criticismo a Roma nos Evangelhos, nem até menção ao fardo sob o domínio de Roma. De fato, os Evangelhos sugerem que os habitantes da Judéia estavam plácidos e contentes com seu destino. Uma questão de fato é que muitos poucos estavam contentes, e muitos estavam muito mais do que plácidos. Os judeus na Terra Santa naquele tempo podiam estar frouxamente divididos em várias seitas e sub seitas. Havia, por exemplo, os saduceus – – uma pequena mas rica classe de proprietários de terra que, pela raiva de seus compatriotas, colaboravam, de um modo traidor, com os romanos. Havia os fariseus – um grupo progressista que introduziu muita reforma no judaismo e que, a despeio do retrato deles nos Evangelhos, se colocavam em clara oposição, embora passiva, a Roma. Havia os Essênios, uma seita austera e de orientação mística, cujos ensinamentos eram mais prevalentes e influentes do que geralmente é reconhecido ou suposto. Entre as seitas e sub-seitas menores, havia muitas cujo caráter preciso há muito tem se perdido na história, e são difíceis de definir. Vale citar os Nazaritas, contudo, dos quais Sansão, séculos antes, tinha sido um membro, e que ainda existiam durante os tempos de Jesus. Vale citar os Nazarenos, um termo que parece ter sido aplicado a Jesus e a seus seguidores. De fato a original versão grega do Novo Testamento se refere a Jesus como Jesus o Nazareno, o que é mal traduzido como Jesus de Nazaré. Nazareno, em resumo, é uma palavra especificamente sectária e não tem qualquer ligação com Nazaré. Há numerosos outros grupos e seitas também, uma dos quais é provado ser de particular relevância para nossa pesquisa. No ano 6 de nossa era quando Roma asumiu o controle direto da Judéia, um rabino fariseu conhecido como Judas da Galiléia tinha criado um grupo revolucionário altamente militante composto, assim pareceria, de fariseus e essênios. Este grupo a seguir tornou-se conhecido como os Zelotes. Os Zelotes, não eram, falando estritamete, uma seita. Eles eram umm movimento cuja afiliação era originária de um número de seitas. Pelo tempo da missão de Jesus, os Zelotes tinham assumido um papel crescentemente proeminente os assuntos da Terra Santa. Suas atividades formavam talvez o mais importante pano de fundo político contra o drama que o próprio Jesus encenou. Muito depois da Crucificação, a atividade dos Zelotes continuava não derrotada. Pelo ano 44 de nossa era esta atividade tanto havia se intensificado que algum tipo de luta armada parecia inevitável. Em 66 a luta irrompeu, a inteira Judéia se levantando em uma revolta organizada contra Roma. Foi o máximo conflito desesperado e fútil, reminescente em certos aspectos de, vamos dizer, a Hungria em 1956. Apenas na Casaréia 20.000 judeus foram massacrados pelos romanos. Dentro do quatro anos as legiões romanas já haviam ocupado Jerusalém, saqueado o Templo. Não obstante a fortaleza montanhosa de Masada se susteve por ainda outros três anos, comandada por um descendente linear de Judas o Galileu.

O porvir da revolta na Judéia testemunhou um exodus maciço dos judeus da Terra Santa. Não obstante, suficientes permaneceram para fomentar outra rebelião alguns anos mais tarde em 132. Ao menos em 135 o Imperador Adriano decretou que todos os judeus fossem expulsos por lei da Judéia, e Jerusalém tornou-se uma cidade esencialmente romana. Ela foi renomeada Aelia Capitolina. O perído de vida de Jesus compreendeu os primeiros 35 anos do turbilhão que se estendeu por mais de 140 anos. O turbulhão não cessou com a morte dele, mas continuou por um outro século. E isso engendrou componentes psicológicos e culturais que inevitalmente compareciam a qualquer de tal desafio sustentado de um opressor. Um destes componentes era a esperança e desejo de um Messias que livraria seu povo do domínio do tirano. Foi apenas em virtude deste acidente histórico e semântico que este termo veio a ser aplicado especificamente e exclusivamente a Jesus. Para os contemporaneos de Jesus nenhum Messias tinha sido visto como divino. De fato, a própria idéia de um Messias divino teria sido absurda se não o fosse impensável. A palavra grega para Messias é Christos ou Christ. O termo, quer seja em grego ou hebraico, significava simplesmente ‘o ungido’ e geralmente se refere a um rei. Assim David, quando ele foi ungido rei no Velho Testamento,  se tornou, muito explicitamente, um Messias, ou Cristo. E cada subsequente rei judeu da casa de David  era conhecido pela mesma apelação. Até mesmo durante a ocupação romana da Judéia, o alto sacerdote indicado pelos romanos era conhecido como ‘o Sacerdote Messias’ ou ‘Sacerdote Cristo’. Para os Zelotes, contudo, e para outros oponentes de Roma, este sacerdote fantoche era, por necessidade, ‘um falso Messias’. Para eles ‘o verdadeiro Messias’ implicava em algo muito diferente, o legítimo rei perdido, o descendente desconhecido da casa de David que livraria seu povo da tirania romana. Durante o período de vida de Jesus a antecipação de um tal messias atingiu um tipo de histeria em massa. E esta antecipação continuou depois da morte de Jesus. De fato a revolta de 66 foi desencadeada em grande parte  pela agitação Zelote e propaganda em benefício de um Messias cujo advento  era dito ser iminente. O termo Mesias portanto de modo algum implicava em divindade. Ele significava nada mais do que um rei ungido; e na mente popular ele veio a significar um rei ungido que também seria um libertador. Em outras palavras, este era um termo com conotações especificamente políticas; algo muito diferente da posterior idéia cristã de um Filho de Deus. Este era um termo politico mundano que foi aplicado a Jesus. Ele foi chamado Jesus o Messias ou Jesus o Cristo. Somente mais tarde este denominação foi contraida para Jesus Cristo e um título puramente funcional foi distorcido em um nome próprio.

A História dos Evangelhos

Os Evangelhos sairam de uma realidade histórica concreta e reconhecível. Era uma realidade de opressão, de descontentamento cívico e social, de sublevação política, de incessante perseguição e intermitente rebelião. Era também uma realidade banhada em promessas perpétuas e tantalizantes, esperanças e sonhos que um rei justo apareceria, um líder espiritual e secular que livraria seu povo dando-lhe a liberdade. Tanto quando diga respeito a liberdade politica, tais aspirações foram brutalmente extintas pela guerra devastadora entre 66 e 74 de nossa era. Transposta em uma forma inteiramente religiosa, contudo, as aspirações não foram apenas perpetuadas nos Evangelhos, mas receberam um poderoso novo ímpeto. Eruditos modernos são unanimes em concorrerem que os Evangelhos não datam do perido de vida de Jesus. Em sua maior parte eles datam de período entre as duas maiores revoltas na Judéia  – 66 a 74 e 132 a 135 embora eles sejam quase certamente baseados em narrativas anteriores. Estas narrativas anteriores podem ter incluido documentos  escritos desde então perdidos porque havia uma destruição por atacado dos registros no despertar da primeira rebelião. É considerado que o Evangelho mais antigo seja o de Marcos, composto em algum tempo durante a revolta de 66-74 ou pouco depois, exceto pelo seu tratamento da Ressurreição, que é uma adição posterior e espúria. Embora ele próprio não tenha sido um dos discípulos originais de Jesus, companheiro de São Paulo, e seu evangelho apresente um selo inconfundível do pensamento paulino. Mas se Marcos era um nativo de Jerusalém, seu Evangelho como afirma Clemente de Alexandria foi composto em Roma, e dirigido a uma audiência greco-romana. Isto, por si só, explica muita coisa. Ao tempo em que foi composto o Evangelho de Marcos, a Judéia estava, ou tinha estado recentemente, em uma aberta revolta, e milhares de judeus estavam sendo crucificados por rebelião contra o regime romano. Se Marcos desejasse que seu evangelho sobrevivesse e impressionasse uma audiência romana, ele não podia possivelmente apresentar Jesus como anti-romano. De fato, ele não podia possivelmente apresentar Jesus como politicamente orientado, sequer. Para assegurar a sobrevivência de sua mensagem, ele teria sido obrigado a exonerar os romanos de toda culpa pela morte de Jesus para limpar o existente e entrincheirado regime e culpar pela morte do Messias aos judeus. Este subterfúgio foi adotado não apenas pelos autores dos outros Evangelhos, mas também pela inicial Igreja Cristã. Sem um tal subterfúgio nem os Evangelhoe e nem a Igreja teriam sobrevivido.

O Evangelho de Lucas é datado pelos eruditos por volta do ano 80. O próprio Lucas parece ter sido um médico grego, que compôs seu trabalho para um oficial romano de alto escalão na Cesaréia, a capital romana da Palestina. Para Lucas, também, portanto, teria sido necessário aplacar e apaziguar os romanos e transferir a culpa para outro lugar. Pelo tempo em que o Evangelho de Mateus foi composto, aproximadamente em 85, uma tal transferência parece ter sido aceita como um fato estabelecido e continuou não questionado. Mais da metade do Evangelho de Mateus, de fato, é derivado diretamente de Marcos embora ele tenha sido composto originalmente em grego e reflita especificamente características gregas. O autor parece ter sido um judeu, muito possivelmente um refugiado da Palestina. Ele não é para ser confundido com o discípulo chamado Mateus, que teria vido muito antes e provavelmente apenas saberia o aramaico. Os Evangelhos de Marcos, Lucas e Mateus são conhecidos coletivamente como Evangelhos Sinóticos, implicando que eles vejam ‘olho a olho’ ou ‘com um olho’, o que de fato eles não fazem. Isto os distingue do Evangelho de João, que trai significativamente origens diferentes. Nada, seja o que for, é conhecido sobre o autor do quarto evangelho. De fato não há razão para assumir que seu nome fosse João. Exceto por João Batista, o nome de João não é mencionado em qualquer ponto no próprio evangelho e sua atribuição a um homem chamado João é geralmente aceita como um tradição posterior. O Quarto Evangelho é o último destes no Novo Testamento composto por volta do ano 100 na vizinhança da cidade grega de Efeso. Ele apresenta um número de caraterísticas bem distintas. Não há cena da natividade, por exemplo, nem descrição seja qual for do nascimento de Jesus, e a abertura é quase que de caráter gnóstico. O texto é decididamente de uma natureza mais mística do que a dos outros Evangelhos, e o contexto também difere. Os outros Evangelhos, por exemplo, se concentram primariamente nas atividades de Jesus na província norte da Galiléia e refletem o que parece ser um conhecimento em segunda ou terceira mão dos eventos aos sul, na Judéia e em Jerusalém incluindo a Crucificação. O Quarto Evangelho, em contraste, diz relativamente pouco sobre a Galiléia. Ele reside exaustivamente nos eventos na Judéia e em Jerusalém que concluiram a carreira de Jesus, e sua narrativa da Crucificação pode muito bem repousar no testemunho ocular. Ele também contém um número de episódios e incidentes que não figuram nos outros evangelhos como o casamento em Canaã, os papéis de Nicodemus e de José de Arimatéia e a ressurreição de Lázaro [embora esta última estivesse incluída no Evangelho de Marcos]. Com base em tais fatores os  eruditos modernos tem sugerido que o o Evangelho de João, a despeito de sua posterior composição, pode bem ser o mais confiável e historicamente acurado dos quatro. Mais do que os outros Evangelhos, ele parece retirar das tradições correntes entre os contemporaneos de Jesus, bem como de outros materiais indisponíveis para Marcos, Mateus e Lucas. Um pesquisador moderno ressalta que ele reflete uma narrativa em primeira mão do conhecimento topográfico de Jerusalém antes da revolta de 66. O mesmo autor conclui, ‘Por trás do Quarto Evangelho está uma antiga tradição independente dos outros evangelhos’. Esta não é uma opinião isolada. De fato, é a mais prevalente na erudição moderna.

Segundo um outro escritor, ‘O Evangelho de João embora não aderindo a estrutura cronológica de Marcos e sendo muito posterior em sua data, parece conhecer uma tradição a respeito de Jesus que era primitiva e autêntica’. Com base em nossa própria pesquisa, também, concluimos que o Quarto Evangelho era o mais confiável dos livros no Novo Testamento ate mesmo embora ele, como os outros, tenha sido submetido ao exame, edição, expurgação e revisão. Em nossa pesquisa tivemos oportunidade de retirar de todos os quatro evangelhos, e de muito material colateral também.

O Status Marital de Jesus

Não era nossa intenção desacreditar os evangelhos. Desejamos apenas peneirar deles para localizar certos fragmentos de verdade possível ou provável e extrai-las da matriz de bordadura que as cercam. Estavamos buscando fragmentos, sobretudo, de um caráter muito preciso; fragmentos que pudessem atestar um casamento entre Jesus e a mulher que conhecemos como Madalena. Tais atestações, é desnecessário dizer, não seriam explícitas. Para encontra-las, entendemos, seriamos obrigados a ler entre as linhas, preencher certas brechas, responder por certas pausas e elipses. Teriamos que lidar com omissões, com insinuações, com referências que eram, na melhor das hipóteses, oblíquas. E não teríamos apenas que procurar a evidência das circunstâncias que podem ter sido condutivas para um casamento. Nossa pesquisa então deveria abranger um número de questões distintas mas estreitamente relacionadas. Começamos com as mais óbvias delas: [ 1] – Há qualquer evidência nos Evangelhos – direta ou indireta -, a sugerir que de fato Jesus fosse casado? Há, com certeza, nenhuma declaração explícita para garantir que ele o fosse. Por outro lado, não há qualquer declaração explicita que ele não o fosse e isto é mais curioso e importante do que a primeira vista parece. Como resalta o Dr.  Geza Vermes da Universidade de Oxford: ‘Há um completo silêncio nos Evangelhos a respeito do status marital de Jesus… Um tal estado de coisa é suficientemente não usual no antigo judaismo a ponto de desencadear um exame posterior.’ Oa Evangelhos afirmam que muitos de seus discípulos, como por exemplo Pedro, eram casados. E em ponto algum o próprio Jesus advogou o celibato. Ao contrario, no Evangelho de Mateus ele declara: ‘Vocês não tem lido que ele no início os fez macho e femea… Por isso o homem deve deixar a pai e mãe e deve ser fiel a sua esposa: e eles juntos não serão uma só  carne?’ (19:4-5J] Uma tal declaração dificilmente pode ser reconciliada com a injunção do celibato. E se Jesus não pregava o celibato, nao há também razão para supor que ele o praticasse. Segundo o costume judaico daquele tempo não era apenas usual, mas era também mandatório, que um homem fosse casado. Exceto entre certos Essênios e em certas comunidades, o celibato era vigoramente condenado. Durante o final do século primeiro, um escritor judeu até mesmo comparou o celibato ao assassinato, e ele não parece ter estado sozinho nesta atitude. Era como que obrigatório para um pai judeu encontrar uma esposa para seu filho, e para isso ele asegurava que ele fosse circuncisado. Se Jesus não fosse casado, este fato em sua época teria parecido claramente absurdo. Teria chamado atenção por si só e teria sido usado para carateriza-lo e identifica-lo. Teria colocado-o a parte, em algum sentido significativo, de seus contemporaneos. Se este fosse o caso, certamente ao menos uma das narrativas dos Evangelhos teria feito alguma menção de um tão marcante desvio do costume. Se Jesus fosse de fato celibatário como as tradições posteriores atestam, é extraordinário que não haja referências a um tal celibato. A ausência de uma referência sugere fortemente que Jesus, no que diga respeito as convenções de seu tempo e cultura – em resumo, fosse casado. Isto sozinho satisfatoriamente explicaria o silêncio dos Evagelhos sobre este assunto. O argumento é resumido por um respeitado teólogo contemporaneo: ‘Garantida base cultural como testemunha…  é altamente improvável que Jesus não fosse casado bem antes do início de seu ministério público. Se ele insistisse no celibato, ele teria criado uma agitação, uma reação que teria deixado algum traço. Então, a falta de menção ao casamento de Jesus nos Evangelhos é um forte argumento não contra, mas a favor da hipótese do casamento, porque qualquer prática ou advocacia do celibato voluntário no contexto judaicio daquele tempo teria sido tão não usual que teria atraído muita atenção e comentário’.

A hipótese do casamento se torna de todo mais confiável em virtude do título de ‘Rabbi’, que frequentemente é aplicado a Jesus nos Evangelhos. É possível, com certeza, que este termo tenha sido empregado em um sentido mais amplo, significando apenas um professor auto-indicado. Mas a cultura de Jesus obtida de sua demonstração no Templo durante as discussões com os idosos, por exemplo, sugere fortemente que ele se submeteu a algum tipo de treinamento formal rabínico e era oficialmente reconhecido como um rabino. Isto se conformaria com as tradições, que apresentam Jesus como um Rabbi no senso estrito da palavra. Mas se Jesus era um Rabbi no senso estrito da palavra o casamento não teria sido apenas provável, mas virtualmente certo. A Lei Judaica Mishnaica é muito explícita sobre este assunto: ‘um homem não casado não pode ser um professor’. No Quarto Evangelho há um episódio relacionado a um casamento que pode, de fato, ter sido o do próprio Jesus. Ete episodio, com certeeza, é o do Casamento em Canaã – uma história bastante familiar. Mas por toda sua familiaridade, há certas perguntas salientes que garantem consideração. Da narrativa do Quarto Evangelho, o casamento em Canaã pareceria uma cerimonia modesta , um típico casamento em uma vila, cujo noivo e noiva permanecem anônimos. Para este casamento Jesus é especificamente ‘chamado’, o que por si só é curioso porque ele ainda não havia começado seu ministério. Mais curioso ainda, é o fato de que sua mãe ‘apenas acontece’ de estar lá. E a presença dela pareceria ser tomada como garantida. E o que é mais, Maria não apenas sugere ao seu filho, mas de fato ordena, que ele reabasteça o vinho. Ele se comporta como se ele fosse a anfitriã: ‘    e quando eles queriam vinho, a mãe de Jesus esteve com ele, “Eles não tem vinho’. Jesus disse a ela, “Mulher, o que tenho que fazer contigo, a minha hora ainda não chegou’ (João 2:3-4) Mas Maria, completamente perturbada, ignora o protesto de seu filho: ‘Sua mãe disse aos serventes, Seja o que for que ele diga a vocês, façam isso’. E os serventes prontamente obedeceram porque estavam acostumados a receberem ordens de Maria e de Jesus. A despeito da ostensiva tentativa  de Jesus de desautoriza-la, Maria prevalece; e Jesus imediatamente realiza seu primeiro milagre, a transmutação da água em vinho. Até onde diga respeito aos Evangelhos, ele até então não havia mostrado seus poderes; e não havia razão para Maria assumir que ele até mesmo os possuisse. Mas até mesmo se assim o fosse, porque deveriam tais dons únicos e sagrados serem empregados para um propósito tão banal? Porque Maria faria um tal pedido ao filho dela? Mais importante ainda, porque deveriam dois ‘convidados’ de um casamento tomar para eles mesmos a responsabilidade que por costume estava reservada ao anfitrião? A menos, com certeza, que o casamento em Canaã fosse o próprio casamento de Jesus. Immediatamente depois que o milagre foi realizado, o ‘governador da festa’ – um tipo de mordomo-mor ou mestre de cerimonias – provou o vinho recém produzido. O governador da festa chamou o noivo e disse a ele ‘todo homem no início deve servir o bom vinho, e quando todos os homens estiverem bem bebados, então servir aquele que é pior; mas você manteve guardado o bom vinho até agora’ (Joãon 2:9-10). Estas palavras clarame