Sangue Sagrado, Santo Gral

Sangue Sagrado, Santo Gral

de Michael Baigent, Richard Leigh and Henry Lincoln

– Introdução

Em 1969, em rota para um feriado de verão em Cevenes, fiz a compra casual de uma brochura. “O Tesouro Maldito” de Gerard de Sede era uma história de mistério leve, uma mistura entretetenedora de um fato histórico, mistério genuíno e conjecturas. Ele poderia ter permanecido consignado ao esquecimento pós feriado de tudo de tal leitura se eu não tivesse tropeçado em uma curiosa e evidente omissão em suas páginas. O “tesouro maldito’ do título tinha aparentemente sido encontrado na década de 1890 por um sacerdote de vila pela decifração de certos documentos crípticos desenterrados em sua igreja. Embora os propostos textos de dois desses documentos fossem reproduzidos, as “mensagens secretas’ ditas estarem codificadas dentro dele não estavam lá. A implicação era que as mensagens decifradas novamente haviam sido perdidas. E ainda que, como descobri, uma história cursória dos documentos reproduzidos no livro revele ao menos uma mensagem escondida. Certamente o autor a havia encontrado. Ao trabalhar em seu livro ele deve ter dado aos documentos muito mais que uma atenção superficial. Ele estava ligado portanto a ter encontrado o que eu havia encontrado. Sobretudo, a mensagem era exatamente o tipo de fragmento titilante de prova que ajuda a vender uma brochura popular. Porque Sede não havia publicado isso? Durante os meses seguintes a estranheza da história e a possibilidade de descobertas posteriores me dirigiu de volta a isso de tempos em tempos. O apelo era aquele de muito mais do que um enigma de palavras cruzadas geralmente intrigante que acrescentou curiosidade ao silêncio de Sede. Como eu me peguei tantalizando novas olhadas das camadas de significado enterrado dentro do texto dos documentos, comecei a desejar que eu pudesse devotar mais ao mistério de Rennes-Le-Chateaux do que meros momentos roubados de minha vida de trabalho como escritor para televisão. E então, no outono de 1970, eu apresentei a história como um possível assunto para documentário ao falecido Paul Johnstone, produtor executivo da série arqueológica e histórica da BBC chamada ‘Chronicle’.

Paul viu as possiblidade e eu fui despachado para França para falar com Sede e explorar as perspectivas de um filme curto. Durante a semana de natal de 1970 encontrei-me com Sede em Paris. Naquele primeiro encontro, fiz a pergunta que havia me intrigado por mais de um ano: “Porque você não publicou a mensagem oculta nos pergaminhos?’ Sua resposta me deixou perplexo: “Que Mensagem?”

Me pareceu inconcebível que ele estivesse inconsciente desta mensagem elementar. Porque ele estava se evadindo de mim? Repentinamente me descobri relutante em revelar exatamente o que eu havia encontrado. Continuamos em um elíptico esgrima verbal por uns poucos minutos. Então tornou-se aparente que ambos estávamos cientes da mensagem. Repeti minha pergunta: “Porque você não publicou isso?” Desta vez a resposta de Sede foi calculada. ‘Porque pensamos ser de interesse que alguém como você o descobrisse por si só”. Esta resposta, tão críptica quanto os misteriosos documentos do sacerdote, foi a primeira pista clara que o mistério de Rennes-Le-Chateaux viria a se provar muito mais do que uma simples história de um tesouro perdido. Com meu diretor, Andrew Maxwell-Hyslop, comecei a preparar o filme de Chronicle na primavera de 1971. Ele foi planejado como um simples item de vinte minutos para um programa de revista. Mas na medida em que trabalhávamos, de Sede começou a nos alimentar com posteriores fragmentos de informação. Primeiro veio o texto completo de uma maior mensagem codificada, que falava dos Pintores Poussin e Teniers. Isto era fascinante. A cifra era inacreditavelmente complexa. Nos foi dito que ela havia sido quebrada por especialistas do Departamento de Códigos do Exército Francês, usando computadores. Como eu estudei as convoluções do código, eu me tornei convencido que esta explicação era, para dizer o mínimo, suspeita. Conferi com especialistas em códigos da Inteligência Britânica. Eles concordaram comigo. A cifra não apresenta um problema válido para o computador. O código era inquebrável. Alguém, em algum lugar, deve ter a chave. E então de Sede deixou cair sua segunda bomba. Uma tumba se assemelhando aquela da famosa pintura de Poussin, ‘Os Pastores da Arcadia”,  tinha sido encontrada. Ele enviaria detalhes tão logo ele os tivesse. Alguns dias depois as fotografias chegaram, e estava claro que o nosso filme curto sobre um pequeno mistério local tinha começado a assumir inesperadas dimensões. Paul decidiu abandonar isso e nos envolveu em um filme completo e longo para Chronicle.

Agora haveria mais tempo para explorar a história. E a transmissão foi adiada para a primavera do ano seguinte. “o Tesouro Perdido de Jerusalém?” foi ao ar em fevereiro de 1972 e provocou uma reação muito forte. Eu sabia que havia encontrado um assunto de grande interesse não meramente para mim, mas para um grande público espectador. A pesquisa posterior não seria para auto-indulgência. Por abril de 1974 eu tinha uma massa de novo material e Paul designou Roy Davies para produzir meu segundo filme para Chronicle, ‘O Sacerdote, o Pintor e o Diabo”.  Novamente a reação do público provou o quanto a história tinha tomado a imaginação pública. Mas por agora ela havia crescido tão complexa, tão longe alcançando suas ramificações, havia caminhos demais diferentes a seguir em suas ramificações, que eu sabia que a pesquisa detalhada estava rapidamente excedendo as capacidadades de uma só pessoa. Quanto mais eu seguia uma linha de investigação, mas eu me tornava consciente da massa de material que estava sendo negligenciada. Esta era uma conjuntura amedrontadora que o acaso, que primeiramente havia lançado a história tão casualmente em meu colo, agora fazia certo que o trabalho não se tornaria atrasado.

Em 1975, em uma escola de verão onde ambos palestrávamos sobre aspectos da literatura, eu tive a boa sorte de me encontrar com Richard Leigh. Richard é um novelista e escritor de histórias curtas graduado e com pós graduação em Literatura Comparativa e um profundo conhecimento de história, filosofia, psicologia e esotérico. Ele tinha estado trabalhando por alguns anos como palestrante na universidade nos Estados Unidos, Canadá e Bretanha.  Entre nossas conversas na escola de verão passamos muitas horas discutindo assuntos de interesse mútuo. Mencionei os Cavaleiros Templários, que assumiram um importante papel no fundo do mistério de Rennes-Le-Chateau. Para minha delícia, descobri que esta Ordem sombria de monges medievais guerreiros já havia despertado o profundo interesse de Richard e ele havia feito uma pesquisa considerável da história deles. Em uma tacada, meses de trabalho que eu tinha visto estendendo-se adiante de mim se tornaram desnecessários. Richard podia responder a maioria das minhas questões, e estava tão intrigado quanto eu por algumas anomalias aparentes que eu havia desenterrado. Mais importantemente, ele também sentiu a importância do inteiro projeto de pesquisa no qual eu havia embarcado. Ele se ofereceu para me ajudar com o aspecto envolvendo os Templários. E ele trouxe Michael Baigent, um graduado em psicologia que recentemente havia abandonado uma carreira bem sucedida em foto-jornalismo para devotar seu tempo a pesquisar os Templários para um projeto de filme que ele tinha em mente. Tivesse eu buscado por eles, não poderia ter encontrado dois parceiros mais qualificados e mais análogos com os quais formar uma equipe. Depois de anos de trabalho solitário, o impeto trazido ao projeto por dois cérebros frescos era revigorante. O primeiro resultado tangível de nossa colaboração foi o terceiro filme de Chronicle sobre Rennes-Le-Chateau, ‘A Sombra dos Templários” que foi produzido por Roy Davies em 1979. O trabalho que fizemos sobre aquele filme por último nos deixou face a face  com as fundações subjacentes sob as quais o inteiro mistério de Rennes-Le-Chateau tinha sido construido. Mas o filme podia apenas dar pistas para o que estávamos começando a discernir. Sob a superfície estava algo mais surpreendente, mais importante e mais imediatamente relevante do que nós podiamos acreditar possível quando começamos nosso trabalho sobre o ‘intrigante pequeno mistério” de o que um sacerdote francês pode ter encontrado em uma vila da montanha. Em 1972 eu encerrei meu primeiro filme com as palavras “Algo extraordinário está esperando para ser encontrado… e em um futuro não distante demais, ele será”. Este livro explica o que este algo é e o quão extraordinária a descoberta tem sido.

Um o Mistério – A Vila de Mistério

No início de nossa pesquisa não sabiamos precisamente o que estávamos procurando ou, por esta matéria, para o que estávamos olhando. Não tinhamos teorias e nem hipóteses e não haviamos estabelecido provar nada. Ao contrário, estavamos simplesmente tentando encontrar uma explicação para um curioso enigma do século XIX. As conclusões a que eventualmente chegamos não foram postuladas previamente. Fomos levados a elas, passo a passo, como se a evidência que nós acumulávamos tivesse uma mente própria, e estivesse nos dirigindo por seu próprio acordo. Acreditávamos no início de nossa pesquisa que estávamos lidando com um mistério estritamente local, um intrigante mistério certamente, mas um mistério essencialmente de menor importância, confinado a uma vila no sul da França. Acreditávamos de início que o mistério, embora ele envolvesse muitas trilhas históricas fascinantes, era primariamente de interesse academico. Acreditávamos que a nossa investigação pudesse ajudar a iluminar certos aspectos da história ocidental, mas nunca sonhamos que isso pudesse deixar como herança reescreve-la. Ainda menos sonhamos que seja o que for que descobríssemos pudesse ser de real importância contemporânea em si. Nossa busca começou  – porque ela foi de fato uma busca, com uma história mais ou menos direta. Ao primeiro olhar esta história não era marcantemente diferente de inúmeras outras “histórias de tesouro” ou “mistérios não resolvidos” que abundam na história e no folclore de quase toda região rural. Uma versão disso havia sido publicada na França, onde ela atraiu considerável interesse mas não foi ao nosso conhecimento naquele tempo concordado qualquer consequência exagerada. Como aprendemos subsequentemente, havia um número de erros nesta versão. Pelo momento, contudo, devemos recontar a história como ela foi publicada durante a década de 1960, e como primeiramente viemos a conhece-la.

Rennes-le-Chateau e Berenger Sauniere

Em 1o. de julho de 1885 a pequenina vila francesa de Rennes-le-Chateau recebeu um novo sacerdote paroquial. O nome do cura era Berenger Sauniere. Ele era um homem robusto, de feições agradáveis, enérgico e, como pareceria, altamente inteligente de 33 anos. Em uma escola de seminário não muito antes ele parecia destinado a uma promissora carreira clerical. Certamente ele parecia destinado a algo mais importante do que uma vila remota na região montanhosa oriental dos Pirineus. Ainda que em algum ponto ele pareça haver incorrido no desprazer de seus superiores. O que precisamente ele fez, se algo, permanece não esclarecido, mas logo isto reduziu todas as perspectivas de avanço. E era talvez para se livrarem dele que os seus superiores o enviaram a paróquia de Rennes-le-Chateau. Naquele tempo Rennes-le-Chateau abrigava apenas duzentas pessoas. Era um pequenino vilarejo encrustado em um escarpado topo de montanha, aproximadamente a 25 milhas de Carcassonne. Para um outro homem, o lugar poderia ter constituido um exílio e uma sentença perpétua em um remoto local atrasado provinciano, muito longe das amenidades civilizadas da idade, longe de qualquer estímulo para uma mente ávida e inquisitiva. Sem dúvida esta foi a explosão da ambição de Sauniere. Não obstante, havia certas compensações. Sauniere era um nativo da região, tendo nascido e crescido a apenas umas poucas milhas de distância, na vila de  Montazels. Fossem quais fossem suas deficiências, portanto, Rennes-le-Chateau pode ter sido muito como um lar, com todos os confortos da familiriadade da infância. Entre 1885 e 1891 a renda média de Saunier, em francos, era o equivalente a seis libras esterlinas por ano – dificilmente seria a opulência, mas muito mais do que seria de se esperar de um cura rural na França do século XIX. Junto com as gratuidades fornecidas pelos seus paroquianos, isto parece ter sido suficiente para sobrevivência, se não para qualquer extravagância. Durante estes seis anos Sauniere parecia ter levado uma vida bastante agradável e plácida. Ele caçava e pescava nas montanhas e riachos de sua infância. Ele lia vorazmente, aperfeiçoou seu latim, aprendeu grego, embarcou no estudo do hebraico. Ele empregou uma governanta e servente, uma camponesa de 18 anos chamada Marie Denarnaud, que foi sua companheira e confidente por toda vida.

Ele fazia visitas frequentes a seu amigo, o Abade Henri Boudet, o cura da vila vizinha de Rennes-le-Bains. E sob a tutela de Boudet ele imergiu na turbulenta história da região, uma história cujos residuos estavam constantemente ao redor dele. A umas poucas milhas a sudeste de Rennes-le-Chateau, por exemplo, corre um outro pico, chamado Bezu, coberto pelas ruínas de um forte medieval, que uma vez foi o preceptório dos Cavaleiros Templários. Em um terceiro pico, a aproximadamente uma milha a leste de Rennes-le-Chateau, ficam as ruínas do castelo de Blanchefort, casa ancestral de Bertrand de  Blanchefort, quarto grão mestre dos Cavaleiros Templários, que presidiu sobre a famosa ordem em meados do século XII. Rennes-le-Chateau e seus ambientes tem estado na antiga rota de romaria, que corria do Norte da Europa para Santiago de Compostela na Espanha. E a inteira região era impregnada de histórias evocativas, em eco de um passado rico, dramático e banhado em sangue. Por algum tempo Sauniere havia querido restaurar a igreja da vila de Rennes-le-Chateau. Consagrada a Madalena em 1059, este edifício dilapidado permanecia em pé sobre as fundações de uma imóvel estrutura visigoda mais antiga datando do século VI. Mas pelo final do século XIX, ela estava, não surpreendentemente, em um estado quase que de desespero absoluto. Em 1891, encorajado por seu amigo Boudet, Sauniere embarcou em uma modesta restauração, tomando emprestado uma pequena soma dos fundos da vila. No curso de suas atitudes ele removeu a pedra do altar, que repousava sobre duas arcaicas colunas visigodas. Uma destas colunas provou-se ser oca. Dentro dela, o cura encontrou quatro pergaminhos preservados em lacrados tubos de madeira. Dois destes pergaminhos são ditos terem compreendido genealogias, um datando de 1244 e o outro de 1644. Os dois documentos remasnescentes tinham aparentemente sido compostos nos anos de 1780 por um dos predecessores de Sauniere como cura de Rennes-le-Chateau, o Abade Antoine Bigou. Bigou tabém havia sido o capelão da nobre família Blanchefort que, na véspera da Revolução Francesa, ainda estava entre os proeminentes proprietários locais de terra. Os dois pergaminhos do tempo de Bigou pareceriam ser pios textos em latim, trechos do Novo Testamento. Ao menos ostensivamente. Mas em um dos pergaminhos as palavras correm incorretamente juntas, sem espaço entre elas, e um numero de letras completamente supérfluas tem sido inseridas. E no segundo pergaminho as linhas são indiscriminadamente truncadas de forma irregular, algumas vezes no meio de uma palavra enquanto certas letras estão conspicuamente elevadas acima de outras. Na realidade estes pergaminhos compreendem uma sequencia engenhosa de cifras ou códigos. Algumas delas são fantasticamente complexas e imprevisiveis, desafiando até mesmo o computador, e insolúveis sem a chave necessária.

A seguinte decifração tem aparecido nos trabalhos franceses devotados a Rennes-le-Chateau e em dois de nossos filmes sobre o assunto feitos pela BBC.

BERG ERE PAS DE TENTATION QUE POUSSIN TENIERS GAR DENT LA CLEF PAX DCLXXXI PAR LA CROIX ET CE CHEVAL DE DIEU J’ACHEVE CE DAEMON DE GARDIEN A MIDI POM MES BLEUES

(Pastores, sem tentação, que Poussin e Teniers tem a chave; paz 681. Pela cruz e este cavalo de Deus, completo ou destruo este demônio do guardião ao meio dia. Maçãs azuis)

Mas se algumas das cifras são amedrontadoras em sua complexidade, outras são patentemente, até mesmo flagrantemente, óbvias. No segundo pergaminho, por exemplo, as letras elevadas, tomadas em sequência, soletram uma mensagem coerente.

A DAGO BERT II ROI ET A SION EST CE TRES OR ET IL EST LA MORT.

(A Dagoberto II rei e ao Sião pertencem este tesouro e ele está lá morto)

Embora esta mensagem em particular deva ter sido discernível a Sauniere, é duvidoso que ele possa ter decifrado os códigos mais intrincados. Não obstante, ele entendeu que ele tinha tropeçado em algo de consequência e, com o consentimento do prefeito da vila, levou sua descoberta ao seu superior, o Bispo de Carcassone. Quanto o Bispo entendeu não está claro, mas Sauniere foi imediatamente despachado para Paris às expensas do bispo com instruções para se apresentar e aos pergaminhos a certas autoridades eclesiásticas importantes. Principal entre elas estava o Abade Biel, Diretor Geral do Seminário de São Suspílcio, e ao sobrinho de Biel, Emile Hoffet. Naquele tempo Hoffet estava em treinamento para o sacerdócio. Embora ainda no início dos vinte e poucos anos ela já havia estabelecido uma importante reputação pela erudição, especialmente em linguística, criptografia e paleografia. A despeito de sua vocação pastoral, ele era conhecido por estar imerso no pensamento esotérico, e mantinha relações cordiais com vários grupos de orientação oculta, seitas e sociedades secretas que abundavam na capital francesa. Isto o havia posto em contacto com um ilustre círculo cultural, que incluia tais figuras literárias como Stephane Mallarme e Maurice Maeterlinck, bem como o compositor Claude Debussy. Ele também conhecia Emma Calve, que, ao tempo do aparecimento de Sauniere, tinha acabado de voltar de suas performances triunfais em Londres e Windsor. Como uma diva, Emma Calve era a Maria Callas do tempo dela. Ao mesmo tempo, ela era uma alta sacerdotisa da sub-cultura esotérica parisiense e mantinha inúmeras relações amorosas com um número de ocultistas influentes.

Tendo se apresentado a Biel e Hoffet, Sauniere passou três semanas em Paris. O que transpirou durante seus encontros com os eclesiásticos é desconhecido. O que é sabido é que o sacerdote provinciano do interior foi prontamente e calorosamente benvindo no círculo distinto de Hoffet. Tem sido até mesmo avaliado que ele tenha se tornado amante de Emma Calve. Fofocas contemporaneas falam de um caso entre eles, e um conhecido da cantora a descreveu como estando obsecada pelo cura. Em qualquer caso não há dúvida de que eles desfrutaram de uma íntima amizade duradoura. Nos anos que se seguiram ela o visitou frequentemente nas vizinhanças de Rennes-le-Chateau, onde, até recentemente, pode-se ainda encontrar corações românticos gravados nas rochas de dentro da montanha, tendo as iniciais deles. Durante sua estada em Paris, Sauniere também passou algum tempo no Louvre. Isto bem pode estar ligado ao fato de que, antes de sua partida, ele comprou reproduções de três pinturas. Uma parece ter sido um retrato, de um artista não identificado, do Papa Celestino V, que reinou brevemente no fim do século XIII. Uma era um trabalho de David Teniers, embora não esteja claro se do pai ou do filho. O terceiro foi talvez a mais famosa pintura de Nicolas Poussin, “Les Bergers d’Arcadie’ – “Os Pastores da Arcadia”. Em sua volta a Rennes-le-Chateuax, Sauniere reassumiu a restauração da igreja da vila. No processo ele exumou um curioso ladrilho encravado, datando do século VII ou VIII, que pode ter tido uma cripta sob ele, uma câmara funerária na qual esqueletos são ditos terem sido encontrados. Sauniere também embarcou em projetos de uma natureza muito mais singular. No pátio da igreja, por exemplo, ficava a sepultura de Marie, Marquesa de d’Hautpoul de Blanchefort. A pedra capital e a placa marcando a tumba dela havia sido desenhada e instalada pelo Abade Antoine Bigou – o predecessor de Sauniere cem anos antes, que aparentemente compôs os dois pergamihos misteriosos. E a inscrição da pedra capital que incluiu um número deliberado de erros no espaçamento e na soletração era um anagrama perfeito para a mensagem oculta nos pergaminhos que se referiam a Poussin e Teniers.

Se alguém rearranja as letras, elas formarão a declaração críptica citada acima aludindo a Poussin e a Sião e os erros parecem ter sido destinados precisamente a fazer isso. Sem saber que as inscrições da tumba da marquesa já haviam sido copiadas, Sauniere as obliterou. Nem foi esta profanação o único comportamento curioso que ele exibiu. Acompanhado por sua fiel governanta, ele começou a fazer longas jornadas a pé no interior, coletando rochas de nenhum valor ou interesse aparente. Ele também embarcou em uma volumosa troca de cartas com correspondentes desconhecidos pela França, bem como na Alemanha, Suíça, Itália, Áustria e Espanha. Ele passou a colecionar montes de selos postais absolutamente inúteis. E ele abriu certas transações sombrias com vários bancos. Um deles até mesmo dispachou um representante de Paris, que viajou todo caminho até Rennes-Le-Chateau com um único propósito de administrar o negócio de Sauniere. Apenas em postagem Sauniere já estava gastando uma soma substancial; mais do que sua renda anual anterior poderia manter. Então, em 1896 ele passou a gastar a vontade, em uma escala surpreendente e sem precedentes. Pelo fim de sua vida em 1917 seu gasto somaria o equivalente a vários milhões de libras ao menos. Alguma desta riqueza inexplicável era devotada a louváveis trabalhos públicos e uma estrada moderna foi construida levando a vila, por exemplo, e instalações para água corrente foram fornecidas. Outros gastos foram mais quixotescos. Uma torre foi construida, a Tour Magdala, tendo a vista panorâmica da chamada Villa Bethania, que o próprio Sauniere nunca ocupou.

E a Igreja não foi apenas redecorada, mas redecorada de um modo mais bizarro. Uma inscrição em latim foi gravada no portal acima da entrada: TERRIBILIS EST LOCUS ISTE (Este lugar é terrível). Imediatamente dentro da entrada uma abominável estátua foi erigida, uma representação inquietante do demônio Asmodeus –  guarda de segredos, guardião dos tesouros ocultos e, segundo a antiga história judaica, construtor do Templo de Salomão. Nas paredes da igreja, placas pintadas lúridas e gritantes foram instaladas apresentando as Estações da Cruz e cada uma foi caracterizada por alguma estranha inconsistência, algum detalhe acrescentado inexplicável, algum desvio flagrante e sutil da aceita narrativa escritural. Na Estação VIII, por exemplo, há uma criança envolvida em xadrez escocês. Na Estação XIV, que apresenta o corpo de Jesus sendo carregado para dentro da tumba, há um fundo de um escuro céu noturno dominado por uma lua cheia. É quase como se Sauniere estivesse tentando revelar algo.  Mas o que? O enterro de Jesus ocorreu depois do cair da noite, várias horas mais tarde do que a Bíblia nos conta? Ou que o corpo estava sendo carregado para fora da tumba, não para dentro dela? Enquanto engajado neste curioso adorno, Sauniere continuou a gastar extravagantemente. Ele colecionou porcelana rara, tecidos preciosos, mármores antigos. Ele criou um laranjal e um jardim zoológico. Ele reuniu uma magnífica biblioteca. Pouco antes de sua morte, ele estava planejando construir uma estrutura maciça como Torre de Babel alinhada com livros, da qual ele pretendia pregar. Nem foram seus paroquianos negligenciados. Sauniere os regalou com suntuosos banquetes e outras formas de fartura, mantendo um estilo de vida de um potentado medieval presidindo sobre um inexpugnável domínio na montanha. Neste retiro remoto e bem inacessível ele recebeu um número de hóspedes notáveis. Um, com certeza, foi Emma Calve. Outro foi o Secretário de Estado francês para a Cultura. Mas talvez o mais augusto e importante visitante deste sacerdote paroquial desconhecido tenha sido o Arquiduque Johann von Habsburg, um primo de Franz-Josef, Imperador da Áustria. Declarações bancárias subsequentemente revelaram que Sauniere e o arquiduque tinham aberto contas consecutivas no mesmo dia e mais tarde o arquiduque fez um depósito substancial para o primeiro.

As autoridades eclesiásticas de inicio fizeram vista grossa. Quanto o antigo superior de Sauniere em Carcassone morreu, contudo, o novo bispo tentou chamar o sacerdote a prestar contas. Sauniere respondeu com um desafio surpreendente e acalorado. Ele se recusou a explicar sua riqueza. Ele se recusou a aceitar a transferência que o bispo ordenou. Faltando uma acusação mais substancial, o bispo o acusou de simonia [venda ilegal de missas] e um tribunal local o suspendeu. Sauniere apelou ao Vaticano que o reinstalou. Em 17 de janeiro de 1917, Sauniere, então com 65 anos, sofreu um súbito ataque cardíaco. A data de 17 de janeiro talvez seja suspeita. A mesma data aparece na tumba da Marquesa de d’Hautpoul de Blanchefort – a pedra tumular que Sauniere havia erradicado. E 17 de janeiro também é a festa de São Suspilcio, quem, como fomos descobrir, figurou em nossa história. Foi no Seminário de São Suspílcio que ele confiou seus pergaminhos ao Abade Biel e a Emile Hoffet. Mas o que torna o ataque cardíaco de Sauniere mais suspeito em 17 de janeiro é o fato de que cinco dias antes, em 12 de janeiro, seus paroquianos declararam que ele parecia estar em um saúde invejável para um homem de sua idade. Ainda que em 12 de janeiro, segundo um recibo em nossa posse, Marie Denarnaud tivesse encomendado um caixão para seu senhor. Com Sauniere deitado em seu leito de morte, um sacerdote foi chamado da paróquia vizinha para ouvir sua confissão final e administrar os últimos sacramentos. O sacerdote devidadmente chegou e se retirou para o quarto do doente. Segundo o testemunho de testemunha ocular, ele saiu logo depois visivelmente abalado. Nas palavras da narrativa de uma pessoa, ‘ele nunca sorriu novamente”. Nas palavras de outra pessoa, ele entrou em uma profunda depressão aguda que durou por vários meses. Se estas narrativs são ou não exageradas, o sacerdote, presumidamente com base na confissão de Sauniere, se recusou a dar a extrema unção. Em 22 de janeiro Sauniere morreu. Na manhã seguinte seu corpo foi sentado ereto em uma poltrona no terraço da Tour Magdala vestido um robe ornado adornado com franjas escarlate. Um a um, certos lamentadores não identificados passaram, muitos deles tocando as franjas da vestimenta do homem morto. Nunca houve uma explicação para esta cerimonia. Os residentes atuais de Rennes-le-Chateaux estão surpresos como todo mundo mais.

A leitura do testamento de Sauniere foi aguardada com grande expectativa. Para surpresa e desgosto de todo mundo, contudo, ele foi declarado sem um só tostão. Em algum ponto antes de sua morte ele tinha aparentemente transferido toda sua riqueza a Marie Denarnaud, que partilhou de sua vida e segredos por 32 anos. Depois da morte dele, Marie continuou a viver uma vida confortável em Villa Bethania até 1946. Depois da segunda guerra mundial, contudo, o novo governo francês instalado emitiu uma nova moeda. Como meio de apreender os evasores de impostos e os lucradores colaboradores do tempo de guerra, os cidadãos franceses quando trocavam os velhos francos por novos, eram obrigados a responder por seus rendimentos.

Confrontada pela perspectiva de uma explicação, Marie escolheu a pobreza. Ela foi vista no jardim da Villa, enterrando grandes maços  de velhas notas de francos. Por sete anos Marie viveu austeramente, se sustentando do dinheiro obtido da venda de Villa Bethania. Ela prometeu ao comprador, Monsieur Noel Corbu, que ela confiaria a ele, antes da morte dela, um segredo que o faria não apenas rico mas também poderoso. Em 29 de janeiro de 1953, contudo, Marie, como seu senhor antes dela, sofreu um súbito e inesperado derrame que a deixou prostrada em seu leito de morte, incapaz de falar. Para intensa frustração de Corbu, ela morreu pouco depois, levando com ela o segredo. ‘Os possíveis Segredos disso” , em suas linhas gerais, foi a história publicada na França nos anos de 1960. Esta foi a forma na qual nós a primeiro a conhecemos. E foram as perguntas levantadas pela história nesta forma que nós, como outros pesquisadores do assunto, nos dirigimos.

A primeira pergunta é muito óbvia. Qual foi a fonte do dinheiro de Sauniere? De onde veio sua fabulosa riqueza? A explicação podia ser banal? Ou havia algo muito mais excitante envolvido? A última possibilidade partilhou de uma quantidade tantalizante de mistério, e não pudemos resistir ao impulso de participarmos como detetives. Começamos a considerar as explicações fornecidas por outros pesquisadores. Segundo muitos deles, Sauniere de fato havia encontrado um tesouro de algum tipo. Esta era uma assunção bastante plausível, porque a história da vila e de suas cercanias inclue muitas possíveis fontes de ouro ou jóias ocultas. Em tempos pré-históricos, por exemplo, a área ao redor de Rennes-le-Chateau foi vista como um sitio sagrado para as tribos celtas que viveram lá; e a própria vila, uma vez chamada Rhedae, derivou seu nome de uma dessas tribos. Em tempos romanos, a área foi uma grande e florescente comunidade, importante por suas minas e águas quentes terapêuticas. E também para os romanos o sítio era visto como sagrado. Mais tarde pesquisadores tem encontrado traços de vários templos pagãos. Durante o século VI, a pequena vila no topo da montanha era supostamente um centro com 30.000 habitantes. A um ponto, parece ter sido a capital do norte do império governado pelos Visigodos, o povo teutônico que varreu a oeste da Europa Central, saqueou Roma, derrubou o Império Romano e estabeleceu seu próprio domínio espalhando-se nos Pirineus. Por outros quinhentos anos a cidade permaneceu o assento de um importante condado, para o Conde de Razes. Então, no início do século XIII, um exército de cavaleiros nortistas desceu sobre Languedoc para expulsar a heresia Cátara ou Albigense e reclamar os ricos espólios da região para eles próprios. Durante as atrocidades da chamada Cruzada Albigense, Rennes-le-Chateau foi capturada e transferida de mão em mão como um feudo. 125 anos depois, nos anos de 1360, a população local foi dizimada pela praga, e pouco depois Rennes-le-Chateau foi destruída por bandidos catalãos. Histórias de um tesouro fantástico estão interligadas com muitas destas vicissitudes históricas.

Os hereges Cátaros, por exemplo, eram reputados possuirem algo de valor fabuloso e até mesmo sagrado que, segundo um número de histórias, era o Santo Gral. Estas histórias relatadamente impulsionaram Richard Wagner a fazer uma romaria a Rennes-le-Chateau antes de compor sua última ópera, Parsifal; e durante a ocupação de 1940-45 pelas tropas alemãs, a seguir o despertar de Wagner, elas são ditas terem realizado um número de escavações infrutiferas nas vizinhanças. Havia também o tesouro desaparecido dos Cavaleiros Templários, cujo Grão Mestre, Bertrand de Blanchefort, comissionou certas escavações misteriosas nas vizinhanças. Segundo todas estas narrativas, estas escavações eram marcantemente de natureza clandestina, realizadas principalmente por um contingente especialmente importado de mineiros. Se algum tesouro dos Cavaleiros Templários esteve de fato oculto ao redor de Rennes-le-Chateau, isto pode explicar a referência a Sião nos pergaminhos descobertos por Sauniere. Havia também outros possíveis tesouros. Entre a quinta e sexta dinastia, que incluiu o Rei Dagoberto II, Rennes-le-Chateau, nos tempos de Dagoberto, era um bastião Visigodo e o próprio Dagoberto era casado com uma princesa Visigoda. O centro pode ter constituído um tipo de tesouro real; e há documentos que falam da grande riqueza reunida por Dagoberto por conquistas militares e escondida nas vizinhanças de Rennes-le-Chateau. Se Sauniere descobriu algum destes depósitos, isto explicaria a referência nos códigos a Dagoberto. Os Cátaros. Os Templários. Dagoberto II. E ainda que haja um outro possível tesouro do vasto botim acumulado pelos Visigodos durante seu avanço tempestuoso pela Europa. Isto pode ter incluido mais do que um botim tradicional, possivelmente itens de imensa relevancia tanto simbólica quanto literal para a tradição religiosa ocidental. Ele pode, em resumo, ter incluido o legendário tesouro do Templo de Jerusalém, que, até mesmo mais do que os Cavaleiros Templários, garantiria a referência ao Sião.

Em 66 a Palestina elevou-se em revolta contra o domínio romano. Quatro anos depois, em 70, Jerusalém foi arrasada por legiões do imperador, sob o comando se seu filho, Tito. O próprio templo foi saqueado e seus conteúdos do Santo dos Santos levados para Roma. Como eles são apresentados no arco triunfal de Tito, eles incluem o imenso candelabro de ouro de sete braços tão sagrado para o Judaismo, e possivelmente até mesmo a Arca da Aliança. 350 anos depois, em 410, Roma por sua vez foi saqueada pelos Visigodos invasores, sob Alarico o Grande, que pilhou virtualmente a inteira riqueza da Cidade Eterna. Como nos conta o historiador Procópio, Alarico tomou os tesouros de Salomão, o Rei dos Judeus, uma coisa digna de ser vista, a qual eles adornaram em sua maior parte com esmeraldas e que nos velhos tempos haviam sido tomados de Jerusalém pelos Romanos.

O tesouro, então, bem pode ter sido a fonte da riqueza não explicada de Sauniere. O sacerdote pode ter descoberto vários tesouros, ou ele pode haver decoberto um único tesouro que repetidamente mudou de mãos através dos séculos e que talvez tenha passado do Templo de Jerusalém aos Romanos, aos Visigodos, eventualmente aos Cátaros e/ou Cavaleiros Templários. Se assim o foi, isto explicaria a questão do tesouro, pertencendo tanto a Dagoberto II quanto ao Sião. Então muito longe nossa história de assemelha a uma história de tesouro. E a história do tesouro até mesmo envolvendo o tesouro do Templo de Jerusalém é totalmente de relevância e importância limitada. As pessoas estão constantemente descobrindo tesouros de um tipo ou outro. Tais descobertas são frequentemente excitantes, dramáticas e misteriosas, e muitas delas lançam uma importante iluminação sobre o passado. Poucas delas, contudo, exercem qualquer influência direta, política ou outra, ou apresentam a menos, de fato, o tesouro em questão incluir um segredo de algum tipo, e possivelmente se trate de um segredo explosivo.  Não descartamos o argumento que Sauniere descobriu um tesouro. Ao mesmo tempo nos parece claro que, seja o que for que ele tenha descoberto, ele também descobriu um segredo secreto e histórico de enorme importância para seu próprio tempo e talvez de nosso próprio também. Mero dinheiro, ouro ou jóias não explicariam, eles mesmos, um número de facetas na história dele. Eles não responderiam por sua apresentação no círculo de Hoffet, por exemplo, ou sua associação com Debussy e sua ligação com Emma Calve. Eles não explicariam o intenso interesse da Igreja no assunto, a impunidade com a qual Sauniere desafiou seu bispo ou sua subsequente recuperação pelo Vaticano, que pareceu ter apresentado uma urgente preocupação toda sua. Eles não explicariam a recusa do sacerdote em administrar os últimos sacramentos ao homem moribundo, ou a visita do arquiduque de Hapsburg a uma vila remota nos Pirineus.

O arquiduque Habsburg em questão tem desde então sido revelado como Johann Salvator von Habsburg, conhecido pelo pseudônimo de Jean Orth. Ele renunciou a todos os seus direitos e títulos em 1889 e dentro de dois meses havia sido banido de todos os territórios do Império. Foi pouco depois que ele primeiramente apareceu em  Rennes le Chateau. Dito oficialmente ter morrido em 1890, mas de fato morreu na Argentina em 1910 ou 1911. Veja Les Maisons Souveraines de L’Autriche do Dr. Dugast ROulIIe, Paris, 1967, pagina 191. Nem dinheiro, ouro, jóias explicariam a poderosa aura de mistificação que cerca o caso inteiro, desde as elaboradas cifras até Marie Denarnaud enterrando sua herança em notas de dinheiro. E a própria Marie havia prometido divulgar o segredo que conferia não meramente a riqueza, mas o poder também. Nestas bases, ficamos crescentemente convencidos que a história de Sauniere envolvia mais do riquezas, e que ela envolvia um segredo de algum tipo, um que quase certamente era controvertido. Em outras palavras, nos pareceu que o mistério não estava confinado a remota vila de interior e ao sacerdote do século XIX. Seja o que for que isso fosse, parecia se irradiar de Rennes-le-Chateau e produzir ondas talvez até mesmo uma potencial onda de maré no mundo além. Poderia a riqueza de Sauniere ter vindo não de algo de valor financeiro intrínseco, mas do conhecimento de algum tipo? Se assim foi, poderia este conhecimento ter se transformado em uma conta fiscal? Poderia, por exemplo, ter sido usado para chantagear alguém? Seria a riqueza de Sauniere seu pagamento pelo silêncio? Sabemos que ele recebeu dinheiro de Johann von Habsburg. E ao mesmo tempo, contudo, seja qual for o segredo do sacerdote, parecia ser de natureza mais religiosa do que política. Sobretudo, suas relações com o arquiduque austríaco, segundo todas as narrativas, eram notavelmente cordiais. Mais tarde em sua carreira, parece ter estado distintamente com medo dele, e o ter tratado com as luvas de seda do Vaticano. Poderia Sauniere ter chantageado o Vaticano? Garantidamente uma tal chantagem seria uma tarefa presunçosa e perigosa para um homem, contudo exaustivo em suas precauções. Mas que tal se ele fosse ajudado e apoiado em seu empreendimento por outros, cuja eminência garantia que eles fossem invioláveis para a Igreja, como o Secretário de Estado para a Cultura francês, ou os Hapsburgs? Que tal se o arquiduque Johan fosse apenas o intermediário, e o dinheiro que ele doou a Sauniere realmente tivesse saído dos cofres de Roma?

A Intriga em fevereiro de 1972, “O Tesouro Perdido de Jerusalém?”, o primeiro de nossos três filmes sobre Sauniere e o mistério de Rennes-le-Chateau, foi mostrado. O filme não fez avaliações controvertidas, ele simplesmente contou a história básica como ela tem sido recontada nas páginas precendentes, nem houve qualquer especulação sobre um ‘segredo explosivo’ ou uma chantagem de alto nível. Também não é digno de mencionar que o filme não cita Emile Hoffet , o jovem clérigo erudito em Paris, a quem Sauniere confiou seus pergaminhos por seu nome. Talvez não surprendente, recebemos um verdadeiro dilúvio de correspondência. Alguma delas ofereciam intrigantes especulações sugestivas. Algumas eram complementares. Algumas eram fracas. De todas estas cartas, uma, que o escritor não quis que publicássemos, parecia merecer uma atenção especial. Ela veio de um sacerdote anglicano aposentado e parecia um non sequitur curioso e provocante. Nosso correspondente escreveu com certeza categória e autoridade. Ele fez suas avaliações clara e definitivamente, sem elaboração, e com aparente indiferença a se acreditavamos nele ou não. O “tesouro”, ele declarou claramente, não envolve ouro ou pedras preciosas. Ao contrário, ele consistia em uma ‘prova incontroversa” de que a Crucificação foi uma fraude e que Jesus estava vivo até 45. Esta afirmação soou flagrantemente absurda. O que, até mesmo para um ateu, pode possivelmente compreender uma “prova incontroversa” que Jesus sobreviveu a Crucificação? Eramos incapazes de imaginar algo que não pudesse ser desacreditado ou repudiado como prova, mas a prova que era verdadeiramente não controvertida. Ao mesmo tempo, a clara extravagância da avaliação exigia esclarecimento e elaboração. O escritor da carta havia fornecido um endereço de remetente. Na primeira oportunidade dirigimos para ve-lo e tentar entrevista-lo. Em pessoa ele era muito mais reticente do que tinha sido na carta, e parecia lamentar ter escrito para nós. Ele se recusou a expandir sobre a ‘prova incontroversa” e voluntariou apenas um fragmento adicional de informação. Esta “prova’, ele disse, ou sua existência a qualquer nível, tem sido divulgada a ele por um outro clérigo anglicano, Canon Alfred Leslie Liney.

Liney, que morreu em 1940, tinha publicado amplamente e não era desconhecido. Durante grande parte de sua vida ele tinha mantido contacto com o Movimento Católico Modernista, baseado principalmente em São Suspílcio em Paris. Em sua juventude Liney tinha trabalhado em Paris, e tinha sido conhecido de Emile Hoffet. A trilha havia percorrido um círculo completo. Dada uma ligação entre Liney e Hoffet, e as afirmações do sacerdote, contudo absurdas, não podem ser sumariamente descartada.

Uma evidência similar de um segredo monumental estava se apresentando quando começamos a pesquisar a vida de Nicolas Poussin, o grande pintor do século XVII cujo nome correu pela história de Sauniere. Em 1656, Poussin, que estava vivendo em Roma naquele tempo, tinha recebido uma visita do Abade Louis Fouquet, irmão de Nicolas Fouquet, Superintendente de Finanças de Luis XIV da França. De Roma, o Abade enviou uma carta ao seu irmão, descrevendo este encontro com Poussin. Parte desta carta é digna de ser citada. “Ele e eu discutimos certas coisas, que devo dizer com facilidade serem capazes de explicar a você em detalhe o que ninguém mais descobrirá nos séculos a seguir. E o que é mais, há coisas tão difíceis de descobrir que nada agora na Terra pode provar uma melhor fortuna nem ser seu igual?”  Nem historiadores e nem biógrafos de Poussin ou Fouquet tem sido capazes de satisfatoriamente explicar esta carta, que alude claramente a ‘alguma matéria misteriosa de imensa importância”. Não muito depois de receber a carta, Nicolas Fouquet foi preso e aprisionado por toda sua vida. Segundo certas narrativas, ele foi mantido estritamente incomunicável e alguns historiadores o vêem como um provável candidato para o Homem Na Máscara de Ferro. Enquanto isso, toda a sua correspondência foi confiscada por Luis XIV, que a inspecionou pessoalmente. Nos anos segintes, o rei foi determinadamente em seu caminho para obter a pintura original de Poussin, “Os Pastores da Arcadia”. Quando finalmente ele teve sucesso, a pintura foi sequestrada em seus apartamentos particulares em Versalhes. Seja qual for sua grandeza artística, a pintura pareceria ser suficientemente inocente. No fundo três pastores e uma pastora estão reunidos perto de uma grande e antiga tumba, contemplando a inscrição na pedra: “ET IN ARCADIA EGO’.

No fundo aparece um panorama rugoso e montanhoso do tipo geralmente associado a Poussin. Segundo Anthony Blunt, bem como outros especialistas em Poussin, este panorama era completamente mítico, um produto da imaginação do pintor. Na década de 1970, contudo, uma tumba real foi localizada, idêntica aquela na pintura em localização, dimensões, proporções, forma, vegetação adjacente e até mesmo o afloramento circular de rocha na qual um dos pastores de Poussin repousa seu pé. Esta tumba real permanece nos arredores de uma vila chamada Arques – aproximadamente a seis milhas de Rennes-le-Chateau, e a três milhas do castelo de Blanchefort. Se alguém fica de pé diante do sepulcro a vista é virtualmente indistinguivel daquela da pintura. E então se torna aparente que um dos picos no fundo da pintura é Rennes-le-Chateau. Não há indicação da idade da tumba. Pode, de fato, ter sido eregida muito recentemente, mas como fizeram seus construtores até mesmo para localizar um lugar que combine tão precisamente com aquele da pintura? De fato ela parece ter sido erigida nos tempos de Poussin, e “Os Pastores da Arcadia” pareceria ser uma fiel reprodução do sítio atual. Segundo os camponeses na vizinhança, a tumba tem estado lá por tanto tempo quanto eles, seus pais e seus avós podem lembrar. E lá  é dito haver uma menção específica disto em uma memória datando de 1709.

Segundo os registros na vila de Arques, a terra onde a tumba está começa a pertencer, até sua morte em 1950, a um americano, um Louis Lawrence de Boston, Massachusetts. Em 1920 Lawrence abriu o sepulcro e o encontrou vazio. Sua esposa e sogra foram mais tarde enterradas lá. Quando preparávamos o nosso primeiro filme para a BBC sobre Rennes-le-Chateau, passamos uma manhã fazendo uma filmagem da tumba. Paramos para o almoço e voltamos três horas depois. Durante a nossa ausência, uma tentativa violenta e crua foi feita para esmagar o sepulcro. Se houvesse uma inscrição na tumba atual, ela a muito tempo foi apagada. Quanto a inscrição na pintura de Poussin, pareceria ser convencionalmente triste com a Morte anunciando sua sombria presença até mesmo na Arcadia, o idílico paraiso pastoral do mito clássico. Ainda que a inscrição seja curiosa porque falta nela um verbo. Traduzida literalmente: “Na Arcadia Eu…” Porque estaria faltando o verbo? Talvez por uma razão filosófica para evitar toda tensão, toda indicação do passado, presente ou futuro e portanto implicar em algo eterno? Ou talvez por uma razão de natureza mais prática. Os códigos nos pergaminhos  encontrados por Sauniere tem repousado pesadamente em anagramas, sobre a transposição e o rearranjo das letras. Pode ser talvez “ET IN ARCADIA EGO’ um anagrama?  Pode o verbo ter sido omitido de forma que a inscrição consista apenas em certas letras precisas? Um de nossos espectadores da televisão, ao escrever para nós, sugere que isto pode ser de fato  assim e então rearranjou as letras em uma coerente declaração em latim. O resultado foi : I FEGO ARCANA DEI (Afaste-se! Eu oculto os segredos de deus!). Ficamos agradecidos e intrigados por este engenhoso exercício. Não entendemos naquele tempo como era extraordinariamente apropriado o resultante aviso.

Os Cátaros e a Grande Heresia

Começamos a nossa investigação em um ponto com o qual nós já tinhamos uma certa familiaridade: a heresia Catára ou Albigense e a Cruzada que ela provocou no século XIII. Nós já estávamos cientes que os Cátaros entenderam de alguma forma o mistério que cercou Sauniere e Rennes-le-Chateau. Em primeiro lugar os hereges medievais tinham sido numerosos na vila e suas cercanias, que sofreram brutalmente durante o curso da Cruzada Albigense. De fato, a inteira região está empapada no sangue Cátaro, e os residuos deste sangue, juntamente com sua amargura, persistem até hoje. Muitos camponeses na área agora, sem nenhum inquisidor para cair sobre eles, abertamente proclamam simpatias cátaras. Lá há até mesmo uma Igreja Cátara e um chamado Papa Cátaro que, até sua morte em 1978, viveu na vila de Arques. Sabemos que Sauniere tinha mergulhado na história e no folclore de seu solo natal, assim ele possivelmente não tenha evitado o contacto com o pensamento e tradições Cátaras. Ele pode não ter estado inconsciente que Rennes-le-Chateau foi um centro importante nos séculos XII e XIII, e algo de um bastião cátaro. Sauniere pode ter estado familiarizado com as numerosas histórias relacionadas aos cátaros. Ele deve ter sabido dos rumores que os ligam com aquele fabuloso objeto, o Santo Gral. E se Richard Wagner, na busca de algo pertinente ao Santo Gral, de fato visitou  Rennes-le-Chateau, Sauniere tabém não pode ter sido ignorante desse fato. Em 1890, sobretudo, um homem chamado Jules Doinel se tornou o bibliotecário em Carcassone e estabeleceu uma igreja neo-cátara. O própio Doinel escreveu prolificamente sobre o pensamento cátaro, e por 1896 tinha se tornado um membro proeminente de uma organização cultural local, a Sociedade de Arte e Ciências de Carcassonne.

Em 1898 ele foi eleito seu secretário. Esta sociedade incluia um número de associados de Sauniere, entre eles seu melhor amigo, o Abade Henri Boudet. E     o próprio círculo pessoal de Doinel incluia Emma Calve. É portanto provável que Doinel e Sauniere fossem conhecidos. Há uma razão posterior e mais provocante para ligar os cátaros com o mistério de  Rennes-le-Chateau. Em um dos pergaminhos encontrados por Sauniere, o texto é espalhado com um punhado de letras menores; oito, para ser preciso, que são deliberadamente muito diferentes de todas as outras. Três das letras estão na direção do topo da página, cinco em direção na parte inferior. Estas oito letras tem apenas que serem lidas em sequência para soletrar duas palavras ‘REX MUNDI’. Este é inconfundivelmente um termo cátaro, que é imediatamente reconhecível para alguém familiarizado com o pensamento cátaro. Dado estes fatores, parece bastante razoável começar nossa investigação com os cátaros. Portanto começamos a pesquisar sobre eles, suas crenças e tradições, sua história e redondezas em detalhe. Nosso inquérito abriu novas dimensões do mistério, e portanto começamos a pesquisar sobre eles, e isso gerou um número de perguntas tantalizantes.

A Cruzada Albigense

Em 1209 um exército de aproximadamente 30.000 cavaleiros e soldados a pé da Europa da Norte desceu como um rodamoinho sobre Languedoc, a escarpada montanha no nordeste dos Pirineus no que é agora o sul da França. Desde o início da guerra o inteiro território foi devastado, as plantações foram destruídas, cidades e centros foram arrasados, uma população inteira foi passada pela espada. Este extermínio ocorreu em uma escala tão vasta e terrível que bem pode constituir o primeiro caso de genocídio na moderna história européia. Apenas no centro de Beziers, por exemplo, ao menos 15.000 homens, mulheres e crianças foram massacrados por atacado, muitos deles no santuário da própria igreja. Quando um oficial inquiriu do representante do Papa como ele podia distingur os hereges dos verdadeiros crentes, ele respondeu: “Mate todo estes. Deus reconhecerá os seus”. Esta citação, embora amplamente citada, pode ser apócrifa. Não obstante, isto tipifica o zelo fanático e a sede de sangue com os quais estas atrocidades foram perpetradas.

O mesmo representante papal, escrevendo a Inocente III em Roma, anunciou orgulhosamente que “nem idade, nem sexo e nem status foram poupados”. Depois de Beziers, o exército invasor varreu todo Languedoc. Perpignan caiu, Narbonne caiu, Carcassone caiu, Toulouse caiu. E, seja por onde for que os vitoriosos passavam, eles deixavam uma trilha de sangue, morte e carnificina em seu rastro; a guerra, que durou quase quarenta anos, é agora conhecida como Cruzada Albigense. Foi uma cruzada no verdadeiro sentido da palavra. Ela tinha sido convocada pelo próprio Papa. Seus participantes usavam uma cruz em suas túnicas, como os cruzados na Palestina. E as recompensas eram as mesmas que eram as dos cruzados da Terra Santa: a remissão de todos os pecados, uma expiação de penitências, um lugar assegurado no Céu e todo o botim que pudessem pilhar. Nesta cruzada, sobretudo, ninguém teve que atravessar o mar. E de acordo com a lei feudal, ninguém estava obrigado a combater por mais de quarenta dias assumindo, com certeza, que ninguém tivesse interesse em saquear.

Ao tempo em que a Cruzada acabou, o Languedoc tinha sido completamente transformado, retornado a barbárie que caracterizava o resto da Europa. Porque? Porque toda aquela destruição, brutalidade e desvastação ocorreu? No início do século XIII a área agora conhecida como Languedoc não era oficialmente uma parte da França. Era uma principalidade independente, cuja linguagem, cultura e instituições políticas tinham menos em comum com o norte do que tinham com a Espanha com os reinos de Leão, Aragão e Castela. A principalidade era governada por um punhado de famílias nobres, cujos chefes eram os Condes de Toulouse e a poderosa casa de Trencavel. E dentro dos confins desta principalidade floresceu uma cultura que, naquele tempo, era a mais avançada e sofisticada na cristandade, com a possível exceção de Bizancio. O Languedoc tinha muito em comum com Bizancio. O aprendizado, por exemplo, era altamente estimado, como ele não o era no Norte da Europa. A filosofia e outras atividades intelectuais floresceram; a poesia e o amor enobreceram exaltados; Grego, Árabe e Hebraico eram entusiásticamente estudados; e em Lunel e Narbonne, escolas devotadas a Cabala, a antiga tradição do Judaísmo, estavam florescendo. Até mesmo a nobreza era letrada e literária, em um tempo quando a maioria dos nobres do Norte não podia nem mesmo assinar seus nomes. Como Bizancio, também, o Languedoc praticava uma tolerância religiosa civilizada em contraste com o zelo fanático que caracterizava outras partes da Europa. Meadas de pensamento islâmico ou judaico, por exemplo, eram importados pelos centros marítimos comerciais como Marselha, ou feito seu caminho através dos Pirineus vindo da Espanha. Ao mesmo tempo, a Igreja Romana não desfrutava de uma estima muito alta; os clérigos romanos em Languedoc, em virtude de sua notória corrupção, tinham sucesso primariamente em alienar a populaça. Havia igrejas, por exemplo, em que nenhuma missa tinha sido realizada por mais de trinta anos. Muitos sacerdotes ignoravam seus paroquianos e dirigiam negócios ou grandes propriedades. Um arcebispo em Narbonne nem até mesmo visitou sua diocese. Seja qual for a corrupção da igreja, o Languedoc tinha alcançado um ápice de cultura que não seria visto novamente na Europa até a Renascença.

Mas, como em Bizancio, havia elementos de complacência, decadência e trágica fraqueza que tornaram a região despreparada para a matança que subsequentemente se desencadeou sobre ela. Pelo mesmo tempo a nobreza do norte europeu e a Igreja Romana tinham estado cientes de sua vulnerabilidade e estavam ávidos em explora-la. A nobreza do norte por muitos anos tinha ambicionado a riqueza e o luxo de Languedoc. E a Igreja estava interessada em suas próprias razões. Em primeiro lugar, sua autoridade sobre a região estava faltando. E enquanto a cultura florescia em Languedoc, algo mais florescia também como a maior heresia da cristandade medieval. Nas palavras das autoridades da Igreja, o Languedoc estava ‘infectado’ pela heresia Albigense, a ‘nojenta lepra do Sul’. E embora os aderentes desta heresia fossem essencialmente não violentos, eles constituiam uma severa ameaça à autoridade Romana, de fato, a mais severa ameaça que Roma vivenciaria até três séculos mais tarde quando os ensinamentos de Martinho Lutero começaram a Reforma. Por 1200 havia uma real prespectiva dessa heresia deslocar o catolicismo romano como a forma dominante da cristandade em Languedoc. E o que era mais ominoso até os olhos da Igreja, ele já estava se irradiando a outras partes da Europa, especialmente a centros urbanos na Alemanha, Flandres e Champagne. Os hereges eram conhecidos por uma variedade de nomes. Em 1165 eles tinham sido condenados por um concílio eclesiástico na cidade em Languedoc de Albi. Por esta razão, ou talvez porque Albi continuasse a ser um dos centros deles, eles eram frequentemente chamados Albigenses. Em outras ocasiões eles foram chamados Cátaros. Na Itália eles eram chamados Patarinos. Não infrequentemente eles também eram apelidados ou estigmatizados com nomes de heresias muito anteriores – Ariano, Marcionita e Maniqueano. “Albigense e Cátaro eram essencialmente nomes genéricos. Em outras palavras, eles não se referiam a uma única igreja coerente, como aquela de Roma, com um corpo de doutrina e teologia fixo, codificado e definitivo. Os hereges em questão compreendiam uma multitude de seitas diversas, muitas sob a direção de um líder independente, cujos seguidores assumiriam seu nome. E conquanto estas seitas possam ter mantido certos princípios em comum, elas divergiam radicalmente uma da outra em detalhe. Sobretudo, a maior parte da informação sobre os hereges deriva de fontes eclesiásticas como a Inquisição.

Formar uma imagem deles de tais fontes é com tentar formar uma imagem, vamos dizer, da Resistência Francesa, dos relatos das SS e Gestapo. Portanto é virtualmente impossível apresentar um sumário coerente e definivo do que realmente constituia o ‘pensamento cátaro’. Em geral os cátaros aceitavam a doutrina da reencarnação e um reconhecimento de um princípio feminino na religião. De fato, os pregadores e professores das congregações cátaras, conhecidos como “Os Perfeitos” eram de ambos os sexos. Ao mesmo tempo, os cátaros rejeitavam a igreja católica ortodoxa e negavam a validade do todas as hierearquias clericais, ou intercessores oficiais e ordenados entre o homem e Deus. No núcleo desta posição jaz um importante mandamento cátaro que é o repudio da fé, ao menos como a Igreja insiste sobre isso. Em lugar da fé aceita em segunda mão, os cátaros insistiam no conhecimento direto e pessoal, uma experiência religiosa ou mística aprendida em primeira mão. Esta experiência havia sido chamada ‘gnose’, da palavra grega para ‘conhecimento’, e para os cátaros isto tomava precedência sobre todos os credos e dogma. Dando uma tal ênfase ao contacto pessoal direto com Deus, sacerdotes, bispos, e outras autoridades clericais se tornavam supérfluas. Os cátaros também eram dualistas. Todo pensamento cristão, de fato, pode completamente ser visto como dualista, insistindo em um conflito entre dois princípios opostos  – o bem e o mal -, – o espírito e a carne -, o alto e o baixo. Mas os cátaros levavam esta dicotomia até mesmo mais longe do que o catolicismo ortodoxo estava preparado para fazer. Para os cátaros, os homens eram as espadas com as quais os espíritos combatiam, e ninguém via as mãos. Para eles, uma guerra perpétua estava sendo movida por toda a criação entre dois princípios irreconciliáveis – a luz e as trevas, o espírito e a matéria, o bem e o mal. O catolicismo propõem um Deus Supremo, cujo adversário, o Diabo, é totalmente inferior a ele. Os cátaros, contudo, proclamavam a existência não de um deus, mas de dois, com um status mais ou menos comparável. Um desses deuses, o Bem era inteiramente desencarnado, um ser ou princípio de puro espírito, completamente livre da mancha da matéria. Ele era um deus de amor. Mas o amor era considerado completamente incompatível com o poder e a manifestação material era uma manifestação de poder. Portanto , para os cátaros, a criação material do próprio mundo é intrinsecamente má. O universo, em resumo, era o trabalho manual de um ‘deus usurpador’, o deus do mal, ou, como os cátaros o chamavam, “Rex Mundi”, o rei do mundo.

O catolicismo repousa no que pode ser chamado dualismo ético. O Mal, embora emitindo-se totalmente talvez do Diabo, se manifesta primariamente através do homem e suas ações. Em contraste, os cátaros mantiveram uma forma de ‘dualismo cosmológico’, um dualismo que invadiu o todo da realidade. Para os cátaros, esta era uma premissa básica, mas a resposta deles a isso variava de seita a seita. Segundo alguns cátaros, o propósito da vida humana na Terra era transcender a matéria, renunciar perpétuamente a qualquer coisa ligada a este princípio de poder e portanto alcançar a união com o princípio de amor. Segundo outros cátaros, o propósito da vida do homem era reclamar e redimir a matéria, espiritualiza-la e transforma-la. É importante notar a ausência de qualquer dogma fixado, doutrina ou teologia. Como na maioria dos desvios da ortodoxia estabelecida há apenas certas atitudes frouxamente definidas e as obrigações morais referentes a estas atitudes que eram objeto de interpretação individual. Aos olhos da Igreja Romana os Cátaros estavam cometendo sérias heresias a respeito da criação material, em benefício das quais supostamente Jesus morreu, como intrinsicamente más e implicando que Deus, cuja ‘palavra’ havia criado o mundo, no início, era um usurpador. A heresia mais séria deles, contudo, era a atitude deles em relação ao próprio Jesus. Já que a matéria era intrinsecamente má, os cátaros negavam que Jesus partilhasse da matéria, tenha encarnado na carne e até fosse o Filho de Deus. Para alguns cátaros ele era completamente incorpóreo, um ‘fantasma’, uma entidade de puro espírito, que, com certeza, não podia ser crucificado. A maioria dos cátaros parece te-lo visto como um profeta não diferente de qualquer outro ser mortal que, em benefício do princípio do amor, morreu na cruz. Havia, em resumo, nada místico, nada sobrenatural, nada divino sobre a crucificação se, de fato, ela fosse afinal relevante, o que muitos cátaros parecem ter duvidado.

Em qualquer caso, todos os cátaros veementemente repudiavam a importância da crucificação e da cruz – talvez porque eles sentissem que estas doutrinas fossem irrelevantes, ou talvez porque Roma as repetisse tão ferventemente, ou por causa das circunstâcias brutais da morte de um profeta que não parecem dignas de veneração. E a cruz ao menos em associação ao Calvário e a Crucificação foi vista como um emblema do ‘Rex Mundi”, senhor do mundo material, a própria antítese do verdadeiro princípio redentor. Jesus, se de todo mortal, tinha sido um profeta do princípio do amor. E AMOR, quando invertido ou pervertido ou destorcido em poder, se torna ROMA, cuja Igreja opulenta e luxuosa parecia aos cátaros uma incorporação palpável e a manifestação na terra da soberania do Rex Mundi.

Em consequência os cátaros não apenas se recusavam a venerar a cruz, eles também negavam tais sacramentos como batismo e comunhão. A despeito deste pensamento sutil, complexo, abstrato e talvez irrelevantes posições teólogicas, a maioria dos cátaros não era indevidamente fanática sobre o credo deles. Isto está intelectualmente em moda hoje em dia a respeito dos Cátaros como uma congregação de sábios, místicos iluminados ou iniciados na sabedoria arcana, todos os quais partilhavam do grande segredo cósmico. Em fato real, contudo, a maioria dos Cátaros eram mais ou menos homens e mulheres comuns, que encontraram em seu credo um refúgio da restrição do catolicismo ortodoxo a despeito dos infindáveis dízimos, penitências, obséquios, restrições e outras imposições da Igreja Romana. Conquanto a teologia deles fosse de difícil compreensão, os cátaros eram pessoas eminentemente realistas na prática. Eles condenavam a procriação, por exemplo, já que a propagação da carne estava a serviço não do princípio do amor, mas do Rex Mundi; mas eles não eram tão ingênuos para advogar a abolição da sexualidade. Verdadeiro, havia um específico sacramento cátaro, ou equivalente, chamado Consolamentum, que compelia alguém a castidade. Exceto para os Perfeitos, contudo, que eram ex homens e mulheres de família, o Consolamentum não era administrado até que alguém estivesse em seu leito de morte; não é extraordinariamente difícil ser casto para alguém que está morrendo. Tanto quanto diga respeito a congregação como um todo, a sexualidade era tolerada, se não explicitamente sancionada. Como alguém condena a procriação enquanto admite a sexualidade? Há evidência que sugere que os cátaros praticavam controle da natalidade e aborto. Quando Roma subssequentemente acusou os hereges de ‘práticas sexuais não naturais’ isso foi levado como se referindo a sodomia. Contudo, os cátaros, até onde sobrevivem registros, eram extremamente estritos em sua proibição de homossexualidade. Estas “práticas não naturais sexuais” podem bem ter se referido aos vários métodos de controle de nascimento e aborto. Conhecemos a posição de Roma hoje sobre estes assuntos. Não é difícil imaginar a energia e zelo vingativo com o qual esta posição teria sido posta em vigor na Idade Média.

Geralmente os cátaros parecem ter aderido a uma vida de extrema devoção e simplicidade. Deplorando as igrejas, eles geralmente realizavam os rituais deles e serviços ao ar livre ou em um edifício prontamente disponível como um celeiro, uma casa, uma prefeitura. Eles também praticavam o que hoje chamamos de meditação. Eles eram estritamente vegetarianos, embora comer peixe fosse permitido. E quando viajavam pelo interior, os Perfeitos sempre o faziam em pares, assim dando credencial aos rumores de sodomia patrocinados por seus inimigos. O Cerco de Montsegur, então foi o credo que varreu o Languedoc e províncias adjacentes em uma escala que ameaçou o próprio catoliscismo. Por um número de razões compreensíveis, muitos nobres achavam o credo atraente. Alguns aquiesceram sua tolerância geral. Alguns eram de qualquer modo anti-clericais. Alguns estavam desiludidos com a corrupção da Igreja. Alguns tinham perdido a paciência com o sistema de dizimos, pelo qual a renda de suas propriedades desaparecia para os cofres distantes de Roma. Então muitos nobres, em sua velhice, se tornaram Perfeitos. De fato, é estimado de 30% de todos os Perfeitos foram saidos da nobreza de Languedoc.

Em 1145, meio século antes da cruzada Albigense, o próprio São Bernardo tinha viajado a Laguedoc, pretendendo pregar para os hereges. Quando ele chegou, eles ficou menos surpreso com os hereges do que com a corrupção de sua própria Igreja. No que diz respeito aos hereges, São Bernardo foi claramente impressionado por eles. “Nenhum sermão é mais cristão do que o deles”, ele declarou, ‘e sua moral é pura”. Por 1200, é desnecesário dizer, Roma tinha ficado crescentemente alarmada com a situação, Nem ela estava inconsciente da inveja com a qual os barões do norte da Europa viam as ricas terras e as cidades do Sul. Esta inveja podia ser prontamente explorada e os senhores nortistas constituiriam as tropas invasoras da Igreja. Tudo que era necessário era alguma provocação, alguma desculpa para acender a opinião popular. Uma tal desculpa logo viria.

Em 14 de janeiro de 1208, um dos Legados Papais para Languedoc, Pierre de Castelnau, foi morto. O crime parece ter sido cometido por rebeldes anti-clericais sem qualquer afiliação cátara. Possuindo a desculpa que ela precisava, contudo, Roma não hesitou em culpar os cátaros. E de uma vez o Papa Inocente III ordenou uma Cruzada. Embora tivesse havido uma perseguição intermitente dos hereges por todo século anterior, a Igreja agora mobilizava forças a vontade. A heresia era para ser extirpada de uma vez por todas. Um exército maciço foi colocado sob o comando do Abade de Citeaux. As operações militares foram confiadas grandemente a Simon de Montfort, pai do homem que subsequentemente era para desempenhar um papel crucial na história inglesa. E sob a liderança de Simon os cruzados do Papa estabeleceram reduzir a mais alta cultura européia da Idade Média pela destruição e ruína. Neste sagrado empreendimento eles foram ajudados por um novo e útil aliado: um fanático espanhol chamado Dominic Guzman. Motivado por um ódio raivoso pela heresia, Guzman, em 1216, criou a ordem monástica subsequentemente chamada como ele, os Dominicanos. E em 1233 os Dominicanos lançaram a mais infame instituição da Santa Inquisição. Os cátaros não eram as únicas vítimas. Antes da Cruzada Albigense, muitos nobres de Languedoc especialmente das casas influentes de Trencavel e Toulouse tinham sido extremamente amigáveis com a grande população judia da região. Nem toda esta proteção e apoio foi retirado pela ordem. Em 1218  Simon de Montfort foi morto cercando Toulouse. Não obstante, a depredação do Languedoc continuou, com apenas breves pausas, por outros 25 anos. Por 1243, contudo, toda resistência organizada lá nunca tinha efetivamente cessado.

Por 1243 todos os maiores centros e bastiões cátaros tinham caído diante dos invasores do norte, exceto por um punhado de pontos fortes remotos e isolados. Principal entre eles estava a majestosa montanha cidadela de Montsegur, colocada como uma arca celestial acima dos vales subjacentes. Por dez meses Montsegur foi cercada pelos invasores, suportando assaltos repetidos e mantendo uma resistência tenaz. Ao longo, em março de 1244, o forte capitulou, e o Catarismo, ao menos ostensivamente, cessou de existir no sul da França. Em seu livro best-seller, Montaillou, por exemplo, Emmanuel Le Roy Ladurie, escrevendo extensamente sobre documentos do período, faz a crônica das atividades dos cátaros sobreviventes quase que meio século depois da queda de Montsegur. Pequenos enclaves de hereges continuaram a sobreviver nas montanhas, vivendo em cavernas, aderindo ao credo deles e movendo uma amarga guerrilha contra seus perseguidores. Em muitas áreas do Languedoc incluindo as cercanias de Rennes-le-Chateau a fé cátara é geralmente reconhecida ter persistido. E muitos escritores tem traçado subsequentes heresias européias a ramos do pensamento cátaro; os Waldesianos, por exemplo; os Hussitas, os Adamitas ou a Irmandade do Espírito Livre. Os Anabatistas e os estranhos Camisardos, números dos quais encontraram refúgio em Londres durante o início do século XVIII.

O Tesouro Cátaro

Durante a Cruzada Albigense e depois, uma mística que cresceu dos cátaros que ainda persiste hoje. Em parte isto pode ser derrubado pelo elemento do romance que rodeia qualquer causa trágica e perdida que de Bonnie Príncipe Charlie, por exemplo com um ilustre mágico, com uma amedrontadora nostalgia, com a “matéria da história’. Mas ao mesmo tempo, descobrimos, houve alguns mistérios reais associados aos cátaros. Conquanto as histórias possam ser exaltadas e romantizadas, um número de enigmas permaneceu. Um deles diz respeito a origem dos cátaros; e embora isto pareça ser um ponto acadêmico para nós, ele subsequentemente se provou de considerável importância.

Alguns historiadores recentes tem argumentado que os cátaros derivaram de Bogomils, uma seita ativa na Bulgária durante os séculos X e XI, cujos missionários migraram para o ocidente. Não há questão que os hereges de Languedoc incluiam um número de Bogomils. De fato um conhecido pregador Bogomil foi proeminente nos assuntos religiosos e políticos daquele tempo. E ainda que nossa pesquisa revelasse substancial evidência de que os cátaros não derivam dos Bogomils. Ao contrário, eles parecem representar o florescimento de algo já enraizado na França por séculos. Eles parecem ter se derivado, quase diretamente, de heresias estabelecidas e enraizadas na França desde o próprio advento da era cristã. Há outros mistérios, consideravelmente mais intrigantes, associados aos Cátaros.

Jean de Joinville, por exemplo, um velho homem escrevendo sobre seu conhecimento com Luis IX durante o século XIII escreve: “o Rei Luis IX uma vez me disse como vários homens dos Albigenses tinham ido ao Conde de Montfort… e pediram a ele para vir e olhar o corpo de Nosso Senhor, que tinha se tornado carne e sangue nas mãos de seu sacerdote”. Montfort, segundo a história, declarou que seu séquito podia ir se desejasse, mas ele continuaria a acreditar de acordo com os mandamentos da Santa Igreja. Não há elaboração ou explicação posterior deste incidente. O próprio Joinville meramente reconta a passagem. Mas o que vamos fazer deste enigmático convite? O que os Cátaros estavam fazendo? Que tipo de ritual estava envolvido? Deixando de lado a missa, que de qualquer modo os cátaros repudiavam, o que podia possivelmente fazer ‘o corpo de Nosso Senhor tornar-se carne e sangue…?’ Seja o que for que possa ter sido isso, há certamente algo perturbadoramente literal nesta declaração. Um outro mistério cerca o lendário ‘tesouro’ cátaro. É sabido que os Cátaros eram extremamente ricos. Tecnicamente, o credo deles os proibia de portar armas e embora muitos ignorassem esta proibição, permanece o fato de que grandes números de mercenários eram empregados com uma despesa considerável. Ao mesmo tempo, as fontes da riqueza Cátara, a aliança que eles tinham de poderosos proprietários de terras, por exemplo, eram óbvias e inexplicáveis.

Ainda que os rumores se elevassem, até mesmo durante o curso da Cruzada Albigense, de um fantástico tesouro místico cátaro, muito além da riqueza material. Seja o que for que fosse isso, este tesouro reputadamente foi mantido em Montsegur. Quando Montsegur caiu, contudo, nada de importância foi encontrado. Ainda que haja certos incidentes singulares ligados ao cerco e a capitulação da fortaleza. Durante o cerco, os atacantes superavam em número 10.000. Com esta vasta força de cercantes tentando rodear a inteira montanha, fechando todas as entradas e saídas e esperando matar de fome os defensores. A despeito de sua força numérica, contudo, eles não tinham suficiente poder humano para tornar seu cerco completamente seguro. Muitas tropas eram locais, sobretudo, e simpáticas aos cátaros. E muitas tropas simplesmente não eram confiáveis. Em consequência não era difícil passar indetectável pelas linhas dos atacantes. Havia muitas brechas entre os homens que entravam e saiam, e suprimentos encontravam seu caminho para a fortaleza. Os cátaros tomaram vantagem destas brechas. Em janeiro, quase três meses antes da queda da fortaleza, dois Perfeitos escaparam. Segundo narrativas confiáveis, eles levaram com eles o grosso da riqueza material dos Cátaros, uma carga de ouro, prata e moedas que eles levaram primeiro a uma caverna fortificada nas montanhas e de lá para um fortaleza em um castelo. Depois o tesouro desapareceu e nunca foi ouvido falar nele novamente. Em 1o. de março Montsegur finalmente capitulou. Mas então seus defensores eram menos de 400 entre os quais uns 150 ou 180 eram Perfeitos, o resto sendo cavaleiros, escudeiros, armadores e suas famílias. Foi garantido a eles termos surpreendentemente lenientes. Os homens combatentes eram para receber pleno perdão pelos seus crimes anteriores. Eles teriam permissão para partir com suas armas, bagagem e qualquer bem, inclusive dinheiro, que eles pudessem receber de seus empregadores. Os Perfeitos também receberam uma inesperada generosidade. Garantindo que eles abjurassem suas crenças heréticas e confessassem seus ‘pecados’ à Inquisição, eles seriam libertados e submetidos apenas a penitências leves.

Os defensores solicitaram uma trégua de duas semanas, com uma completa suspensão das hostilidades, para considerar os termos. Em uma apresentação posterior de generosidade não característica, os atacantes concordaram. Em troca os defensores voluntariamente ofereceram reféns. Foi combinado que se alguém tentasse escapar da fortaleza os reféns seriam executados. Estavam os Perfeitos tão comprometidos com sua crença que eles voluntariamente escolheram o martírio ao invés da conversão? Ou havia algo que eles não podiam ou ousavam – confessar a Inquisição? Seja qual for a resposta, nenhum dos Perfeitos, até onde é conhecido, aceitou os termos dos cercadores. Ao contrário, todos eles escolheram o martírio. Sobretudo, ao menos 20 dos outros ocupantes da fortaleza, seis mulheres e 15 homens combatentes, voluntariamente receberam o Consolamentum e se tornaram Perfeitos também, assim se condenando a morte certa. Em 15 de maio a trégua expirou. No amanhecer do dia seguinte, mais de 200 Perfeitos foram arrastados rispidamente montanha abaixo. Nenhum deles reconsiderou. Não havia tempo para levantar fogueiras individuais e assim eles foram trancados em uma grande pilha de madeiras no pé da montanha e queimados em massa. Confinada ao castelo, o restante da guarnição foi compelida a assistir. Eles foram avisados que se alguém tentasse escapar isso significaria a morte para todos eles, bem como para os reféns. A despeito dos riscos, contudo, a guarnição tinha combinado esconder os Perfeitos entre eles. E na noite de 16 de março estes quatro homens, acompanhados por um guia, fizeram uma escapada ousada novamente com o conhecimento e conluio da guarnição. Eles desceram a face ocidental da montanha, suspensos por cordas e deixando eles próprios cairem de mais de cem metros de uma vez. O que estavam estes homens fazendo? Qual era o propósito de sua escapada arriscada que afigurava tal risco para a guarnição e os reféns? No dia seguinte eles poderiam andar livremente fora da fortaleza, em liberdade para reassumir a vida deles. Ainda que por alguma razão desconhecida, eles embarcassem em uma perigosa escapada noturna que podia facilmente ter resultado na morte para eles próprios e seus colegas. Segundo a tradição, estes quatro homens levaram o legendário tesouro Cátaro.

Mas o tesouro cátaro havia sido retirado de Montsegur três meses antes. E quanto ‘tesouro’, em qualquer caso, quanto ouro, prata e moedas poderiam três ou quatro homens carregarem em suas costas, pendurados em cordas em um agudo lado montanhoso? Se os quatro fugitivos estavam de fato levando algo, pareceria claro que eles estavam levando algo mais do que riqueza material. O que poderia eles estarem carregando? Acessórios da fé cátara, talvez livros, manuscritos, ensinamentos secretos, relíquias, objetos religiosos de algum tipo; talvez algo que, por uma razão ou outra, não poderia cair em mãos hostis. Isto pode explicar porque a fuga foi realizada; uma fuga que envolvia tantos riscos para todos os envolvidos. Ms se algo de natureza tão preciosa tinha, a todos os custos, que ser preservado das mãos hostis, porque não foi retirado antes? Porque foi mantido na fortaleza até o último e perigoso momento? A data precisa da trégua nos permite deduzir uma possível resposta a estas perguntas. Tinha sido solicitado pelos defensores, que voluntariamente oferecerem reféns para obter isso. Por alguma razão os defensores consideraram isso necessário até mesmo embora tudo isso apenas retardasse o inevitável por meras duas semanas. Talvez, concluimos, tal demora fosse necessária para ganhar tempo. Nenhum tempo em geral, mas um tempo específico. Isto coincidiu com o equinócio da primavera – e o equinócio pode bem ter desfrutado de algum status ritual para os cátaros. Isso também coincidiu com a Páscoa. E ainda que isso seja conhecido como um festival de algum tipo foi realizado em 14 de março, o dia anterior a tregua expirar. Parece haver pouca dúvida que a trégua foi requisitada para que o festival pudesse ser realizado. E há pouca dúvida que o festival pudesse ser realizado em uma data aleatória. Aparentemente, tinha que ser em 14 de março. Seja o que fosse o festival, ele claramente causou alguma impressão em alguns mercenários, alguns dos quais, desafiando a morte inevitável, se converteram ao credo cátaro.

Este fato pode manter ao menos a chave parcial para o que foi levado de Montsegur duas noites mais tarde? Pode, seja o que for que tenha sido levado, então necessário, de algum modo, para o festival do dia 14 de março? Isso poderia de alguma forma ser instrumental em persuadir ao menos 20 dos defensores a se tornarem Perfeitos no último momento? E isso pode de algum modo ter assegurado o conluio da guarnição, até mesmo sob o risco das próprias vidas? Se a resposta é sim a todas estas perguntas, isso explicaria porque seja o que for que foi removido mais cedo em janeiro, por exemplo, quando o tesouro monetário foi levado para segurança. Isso teria sido necessário ao festival. E isso então teria que ser preservado de mãos hostis.  Na medida em que ponderamos estas conclusões, somos constantemente lembrados das histórias que ligam os cátaros e o Santo Gral. Não estamos preparados para ver o Gral como algo mais que um mito. Certamente não estamos preparados para avaliar se isto realmente existiu, nem podemos imaginar um cálice ou uma taça, que tenha ou não recebido o sangue de Jesus, que fosse tão precioso para os Cátaros para quem Jesus, em um importante grau, era incidental. Não obstante, as histórias continuaram a nos assaltar e nos deixar perplexos.

O pensamento elusivo, que parece haver alguma ligação entre os Cátaros e o inteiro culto do Gral como ele evoluiu durante os séculos XII e XIII. Um número de escritores tem argumentado que os romances do Gral – aqueles de Chretien de Troyes e Wolfram von Eschenbach, por exemplo, são uma interpolação do pensamento cátaro, oculto em um elaborado simbolismo, no coração da cristandade ortodoxa. Pode haver algum exagero nesta avaliação, mas há também alguma verdade. Durante a Cruzada Albigense os eclesiásticos fulminaram contra os romances do Gral, declarando-os perniciosos, se não hereges. E em alguns desses romances há passagens isoladas que não são apenas altamente não ortodoxas, mas muito inconfundivelmente dualistas, ou em outras palavras, cátara. O que é mais, Wolfram von Eschenbach, em um dos seus romances do Gral, declara que o castelo do Gral era situado nos Pirineus; uma avaliação que Richard Wagner, em qualquer nível, tomaria literalmente. Segundo Wolfram, o nome do castelo do Gral era Munsalvaesche, uma versão germanizada aparentemente de Montsalvat, um termo cátaro. E em um dos poemas de Wolfram o senhor do castelo do Gral era Perilla. Muito interessantemente, o senhor de Montsegur era Raimon de Pereille cujo nome, em sua forma latina, aparece nos documentos do período como Perilla.

Se tais surpreendentes coincídências persistiram nos assombrando, eles podem ter também, concluimos, ter assombrado Sauniere que era, afinal, conhecedor das histórias e folclore da região. E como qualquer outro nativo da região, Sauniere pode ter estado constantemente ciente da proximidade de Montsegur, cujo destino trágico ainda domina a consciência local. Mas para Sauniere a própria proximidade do forte pode bem ter compreendido certas implicações práticas. Algo havia sido retirado de Montsegur exatamente depois que a trégua expirou. Segundo a tradição, os quatro homens que escaparam da cidadela condenada levaram com eles o tesouro cátaro, como o ‘tesouro’ que Sauniere descobriu, tem consistido primariamente em um segredo? Pode este segredo estar relacionado, de algum modo inimaginável, a algo que se tornou conhecido como o Santo Gral? Parece inconcebível para nós que os romances do Gral possam ser considerados literalmente. Em qualquer caso, seja o que for que foi retirado de Montsegur tinha que ser levado para algum lugar. Segundo a tradição, ele foi levado para as cavernas fortificadas de Orlonac em Ariege, onde um bando de cátaros foi exterminado pouco depois. Mas nada além de esqueletos tem sido encontrado em Orlonac. Por outro lado, Rennes-le-Chateau está apenas a meio dia a cavalo de Montsegur. Seja o que for que foi retirado de Montsegur bem pode ter sido levado a Rennes-le-Chateau, ou, mais provavelmente, para uma das cavernas que abundam nas montanhas adjacentes. E se o ‘segredo’ de Montsegur foi o que subsequentemente Sauniere descobriu, isto obviamante explicaria uma grande parte. No caso dos cátaros, como com Sauniere, a palavra ‘tesouro’ parece ocultar algo mais de conhecimento ou informação de algum tipo. Dada a tenaz aderência dos cátaros ao seu credo e sua antipatia militante por Roma, imaginamos se tal conhecimento ou informação [assumindo que ela existiu] se relacionava de algum modo a cristandade – as doutrinas e teologia da cristandade, talvez sua história e origens. Se isso era possível, em resumo, o que os cátaros [ou ao menos certos cátaros] sabiam algo – algo que contribuiu para o fervor frenético com que Roma buscou o exterminio deles? O sacerdote que havia nos escrito tinha se referido a uma ‘prova incontroversa’. Poderia tal ‘prova’ ter sido conhecida pelos cátaros? A este tempo, não podemos apenas especular preguiçosamente. E a informação sobre os cátaros em geral é pouca e isso evita até mesmo uma hipótese funcional. Por outro lado nossa pesquisa sobre os cátaros tinha repetidamente impingido um outro assunto, até mesmo mais enigmático e misterioso e cercado de histórias evocativas. Este assunto era o dos Cavaleiros Templários. Portanto foram os Templários para onde a seguir dirigimos nossa investigação. E foi com os Templários que nossas buscas começaram a oferecer documentação concreta e o mistério começou a assumir proporções muito maiores do que nós podiamos ter imaginado.

Os Monges Guerreiros

Pesquisar os Cavaleiros Templários provou-se uma tarefa assustadora. A volumosa quantidade de material escrito devotada ao assunto era intimidante; e de início não podiamos estar certos de quanto desse material era confiável. Se os Cátaros tinham engendrado um reboliço de história mística e romantica, a mistificação cercando os Templários era até mesmo maior. Em um nível, eles estavam bastante familiriarizados para nós, os fanaticamente ferozes monges-guerreiros, cavaleiros místicos vestidos em um manto branco com uma cruz vermelha, que desempenharam um papel tão crucial nas Cruzadas. Aqui, em algum sentido, eram os cruzados arquetípicos as tropas de choque da Terra Santa, que combateram e morreram heroicamente por Cristo, aos milhares. Ainda que muitos escritores, até mesmo hoje, os vissem como uma instituição muito mais misteriosa, uma ordem essencialmente secreta, com intento em intrigas obscuras, maquinações clandestinas, sombrias conspirações e projetos. E lá permaneceu um fato preplexante e inexplicável. No fim da carreira deles de dois séculos, estes campeões vestidos de branco de Cristo foram acusados de negar e repudiar Cristo, de pisar e cuspir na cruz. No Ivanhoé de Scott, os Templários são apresentados como tiranos arrogantes e presunçosos, déspotas cobiçosos e hipócritas sem vergonha abusando de seu poder, manipuladores cobiçosos orquestrando os assuntos de homens e reinos. Em outros escritores do século XIX eles são apresentados como vis satanistas, adoradores do diabo, praticantes de todos os modos de obscenos, abomináveis e/ou heréticos ritos. Historiadores mais recentes tem estado inclinados a os verem como vítimas infelizes, peões sacrificiais nas manobras políticas de alto nível da Igreja e do Estado. E ainda havia outros escritores, especialmente na tradição da Livre Maçonaria, que viam os Templários como adeptos místicos e iniciados, guardiães de uma sabedoria arcana que transcende a própria cristandade. Seja qual for a tendência ou orientação particular de tais escritores, ninguém discute o zelo heróico dos templários ou a contribuição deles para a história. Nem há qualquer questão que a ordem deles é uma das mais glamurosas e enigmáticas instituições nos anais da cultura ocidental.

Nenhuma narrativa das Cruzadas ou, por este assunto, da Europa durante os séculos XII e XIII negligenciará em mencionar os Templários. Em seu zênite, eles eram a mais poderosa e influente organização da inteira cristandade, com a única possível exceção do Papado. E ainda que certas perguntas assustadoras permaneçam. Quem e o que eram os Cavaleiros Templários? Eles eram meramente o que pareciam ser, ou eram algo mais? Eles eram simples soldados sobre os quais uma aura de lenda e mistificação foi subsequentemente desenhada? Se assim o era, porque? Alternativamente havia um genuíno mistério ligado a eles? Pode haver algum fundamento para os posteriores embelezamentos do mito? Primeiro consideramos as narrativas aceitas dos Templários as narrativas oferecidas por historiadores respeitados e responsáveis. Em virtualmente cada ponto estas narrativas levantaram mais perguntas do que responderam. Elas não apenas desabavam sob exame, mas sugeriam algum tipo de ‘acobertamento’. Não podemos escapar da suspeita que algo havia sido deliberadamente ocultado e uma ‘história cobertura’ fabricada, que mais tarde os historiadores meramente repetiram.

Até onde geralmente é sabido, a primeira informação histórica sobre os Templários é fornecida por um historiador franco, Guillaume de Tyre, que escreveu entre 1175 e 1185. Este foi o pico das Cruzadas, quando os exércitos ocidentais já haviam conquistado a Terra Santa e estabelecido o Reino de Jerusalém ou, como isso foi chamado pelos próprios Templários, “Outremer”, ‘A Terra Alem do Mar’. Mas ao tempo que Guillaume de Tyre começou a escrever, a Palestina tinha estado em mãos ocidentais por 70 anos, e os Templários já estavam em existência por mais de 50 anos.  Guillaume estava portanto escrevendo sobre eventos que antederam seu próprio período de vida, eventos que ele não tinha testemunhado ou vivenciado ou vivenciado pessoalmente, mas que havia aprendido de uma segunda ou mesma terceira mão. Em segunda ou terceira mão e, sobretudo, com base em uma autoridade incerta. Não houve cronistas ocidentais entre 1127 e 1144. Então não há registros escritos sobre estes anos cruciais. Não sabemos, em resumo, quanto das fontes de Guilhaume, isso pode muito bem chamar algumas de suas declaraões em questão. Ele pode ter se guiado pela palavra popular, em nenhuma tradição oral confiável. Alternativamente, ele pode ter consultado os próprios Templários e recontado o que eles disseram a ele. Se isso assim o é, isso significa que ele estava relatando apenas  o que os Templários queriam que ele relatasse. Garantidamente, Guilhaume nos fornece certa informação básica;  e esta é a informação sobre a qual todas as narrativs subsequentes dos Templários, todas as explicações sobre sua fundação, todas as narrativas sobre suas atividdes, tem sido baseadas. Mas por causa da imprecisão e superficialidade de Guilhaume, por causa do tempo quando ele escreveu, por causa da morte das fontes documentadas, ele constitui uma base precária sobre a qual construir uma figura definitiva. As cronicas de Guilhaume são certamente úteis. Mas é um erro e um que muitos historiadores tem sucumbido em ve-las como impugnável e completamente acuradas. Até mesmo as datas de Guilhaume, como ressalta Sir Steven Runciman, ‘são confusas e as vezes demonstravelmente erradas’.

Segundo Guillaume de Tyre, a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão foi fundada em 1118. Seu fundador é dito ser Hugues de Payen, um nobre de Champagne e vassalo do Conde de Champagne. Um dia Hugues, sem solicitação, apresentou-se com oito camaradas no palácio do Rei Bauduino, Rei de Jerusalém, cujo irmão mais velho, Godfroi de Bouillon, tinha capturado a Cidade Santa dezenove anos antes. Bauduino parece te-los recebido muito cordialmente, como o fez o Patriarca de Jerusalém, o líder religioso do novo reino e emissário especial do Papa. O objetivo declarado dos Templários, continua Guillaume de Tyre, era, “até onde sua força permitisse, eles deviam manter as estradas e caminhos seguros… com especial consideração pela proteção dos romeiros”. Tão digno era este objetivo aparentemente que o Rei colocou uma ala inteira do palácio real a disposição dos Cavaleiros. E, a despeito de seu declarado voto de pobreza, os cavaleiros se moveram para as belas acomodações. Segundo a tradição, seus aposentos eram construídos sobre as fundações do antigo Templo de Salomão, e disto a Ordem principiante derivou seu nome. Por nove anos, nos conta Guillaume de Tyre, os novos Cavaleiros não admitiram novos candidatos em sua Ordem. Eles ainda supostamente estavam vivendo em pobreza, a tal pobreza que o selo oficial mostra dois cavaleiros montados em um único cavalo, implicando não apenas a fraternidade deles, mas também a penúria que impossibilitou montarias separadas. Este estilo de selo é frequentemente visto como o mais distintivo e famoso emblema dos Templários, descendendo dos primeiros dias da Ordem. Contudo, ele realmente data de um século completo depois, quando os Templários dificilmente eram pobres se, de fato, eles até mesmo o foram.

Segundo Guillaume de Tyre, escrevendo meio século depois, os Templários foram criados em 1118 e se mudaram para dentro do palácio do rei presumivelmente navegando daqui ´para proteger romeiros nas estradas e caminhos da Terra Santa’. E ainda que houvesse, a este tempo, um historiador real oficial, empregado pelo rei. Seu nome era Fulk de Chartres, e ele estava escrevendo não apenas 50 anos depois da suposta fundação da Ordem, mas durante os mesmos anos em questão. Muito curiosamente, Fulk de Chartres não faz qualquer menção a Hugues de Payen, aos companheiros de Hugues ou qualquer coisa até mesmo remotamente ligada aos Cavaleiros Templários. De fato há um estrondoso silêncio sobre as atividades dos Templários durante os dias iniciais de sua existência. Certamente não há registro em qualquer lugar nem até mesmo mais tarde sobre eles fazerem algo para proteger os romeiros. E não se pode senão imaginar como tão poucos homens poderiam esperar cumprir tal tarefa gigantesca auto-imposta. Nove homens para proteger os romeiros em todas as  passagens da Terra Santa? Apenas nove? E todos os romeiros? Se este fosse o objetivo deles, poder-se-ia certamente esperar que eles dessem boas vindas a novos recrutas. Ainda que, segundo Guillaume de Tyre, eles não admitissem novos candidatos na Ordem por nove anos. Nem ao menos, dentro de uma década a fama dos Templários parece ter se espalhado de volta a Europa. As autoridades eclesiásticas falavam altamente sobre eles e exaltavam sua tarefa cristã. Por 1128, ou pouco depois, um trato louvando suas virtudes e qualidades foi emitido por não menos uma pessoa que São Bernardo, o Abade de Clairvaux e o portavoz principal para a cristandade.

O trato de Bernardo ‘Em Louvor da Nova Cavalaria” declara os Templários serem o epítomo e a apoteose dos valores cristãos. Depois de nove anos, em 1127, a maioria dos nove Cavaleiros retornou a Europa em uma boa vinda triunfal, orquestrada em grande parte por São Bernardo. Em janeiro de 1128 um Concílio da Igreja se reuniu na côrte de Troyes do Conde de Champagne, o senhor de ligação de Hugues de Payen ao qual Bernardo era novamente o espírito guia. Neste Concílio os Templários foram oficialmente reconhecidos e incorporados como um Ordem religiosa militar. Hugues de Payen recebeu o título de Grão Mestre. Ele e seus subordinados eram para ser monges guerreiros, soldados místicos, combinando a disciplina austera do claustro com um zelo marcial supremo ao fanatismo; uma milícia de Cristo, como eles eram chamados naquele tempo. E foi novamente São Bernardo que ajudou a desenhar, com um prefácio entusiástico, a regra de conduta pela qual os cavaleiros adeririam a uma regra baseada naquela da ordem monástica cisterciana, na qual o próprio Bernardo era de influência dominante. Os Templários juravam pobreza, castidade e obediência. Eles eram obrigados a cortar o cabelo mas proibidos de cortar suas barbas, assim se distinguindo em uma era onde a maioria dos homens tinha a barba feita. Dieta, roupas e outros aspectos da vida diária eram estritamente regulados de acordo com as rotinas monástica e militar. Todos os membros da Ordem eram obrigados a vestir hábitos brancos, ou sobrecasacas e batinas, e estas logo evoluiram em um distintivo manto branco pelo qual os Templários se tornaram famosos. É garantido que ninguém vista hábitos brancos, ou tenham mantos brancos, exceto… os Cavaleiros de Cristo. Assim declarada a regra da Ordem, que elaborou o significado simbólico desta veste. Para todos os cavaleiros professos, tanto no inverno quanto no verão, damos, se eles podem ser procurados, vestimentas brancas, que aqueles que tem lançado atrás deles uma vida escura possam saber que eles eram dedicados ao seu Criador para uma vida pura e branca.

Além destes detalhes, a regra estabeleceu uma frouxa hierarquia e aparato administrativo, E o comportamento no campo de batalha era estritamente controlado. Se capturados, por exemplo, os Templários não tinham permissão para pedir misericórdia ou resgatar eles próprios. Eles eram compelidos a lutar até a morte. Eles não tinham permissão para recuar, a menos que as hordas contra eles excedessem três por um. Em 1139 uma Bula Papal foi emitida pelo Papa Inocente II, um antigo monge cisterciano em Clairvaux e protegido de São Bernardo. Segundo esta Bula, os Templários não deviam obediência a nenhum poder eclesiástico ou secular outro do que aquele do próprio Papa. Em outras palavras, eles foram deixados completamente independentes de todos os reis, príncipes e prelados, e toda interferência de ambas autoridades políticas e religiosas. Eles tinham se tornado, de fato, uma lei para eles mesmos, um império internacional autonomo. Durante as duas décadas que se seguiram ao Concílio de Troyes, a Ordem se expandiu com extraordinária rapidez e em uma escala extraordinária. Quando Hugues de Payen visitou a Inglaterra em 1128, ele foi recebido com “grande veneração’ pelo Rei Henrique I. Por toda Europa, os filhos mais novos das famílias nobres se alistaram nas fileiras da Ordem, e vastas doações em dinheiro, bens, e terra foram feitas para cada parte da cristandade. Hugues de Payen doou suas propriedades e todos os novos recrutas foram obrigados a fazerem o mesmo. Na admissão na Ordem, um homem era compelido a assinar doando todas as suas posses. Dado tais políticas, não é surpreendente que os bens dos Templários proliferassem.

Dentro de uns meros doze meses do Concílio de Troyes, a Ordem tinha propriedades substanciais na França, Inglaterra, Escócia, Flandres, Espanha e Portugal. Dentro de uma outra década, ela também tinha território na Itália, Áustria, Alemanha, Hungria a Terra Santa e pontos do oriente. Embora os cavaleiros individuais fossem ligados ao seu voto de pobreza, isto não evitou que a Ordem reunisse riqueza, e em uma escala sem precedentes. Todas as doações eram benvindas. Ao mesmo tempo, a Ordem era proibida de dispor de qualquer coisa até mesmo para resgatar seus líderes. O Templo recebia em abundância mas, como uma matéria de política estrita, ele nunca dava.

Quando Hugues de Payen voltou a Palestina em 1130, entretanto, com uma entourage bem considerável para aquele tempo de uns 300 cavaleiros, ele deixou para trás, sob a custódia de outros recrutas, vastas áreas de território europeu. Em 1146 os Templários adotaram a famosa cruz vermelha. Com este símbolo gravado em seus mantos, os Cavaleiros acompanharam o Rei Luis VII da França na Segunda Cruzada. Aqui eles estabeleceram sua reputação de zelo marcial acoplado a uma quase insana ousadia, e uma feroz arrogância também. Como um todo, contudo, eles eram magnificamente disciplinados – a mais disciplinada força combatente no mundo naquele tempo. O próprio Rei francês escreveu que foram apenas os Templários que evitaram que a Segunda Cruzada – mal concebida e mal gerenciada -, se degenerasse em um debacle total. Durante os próximos cem anos os Templários se tornaram um poder com influência internacional. Eles estavam constantemente engajados em uma diplomacia de alto nível entre nobres e monarcas pelo mundo ocidental e a Terra Santa. Na Inglaterra, por exemplo, o Mestre do Templo era regularmente chamado ao Parlamento do rei, e era visto como chefe de todas as ordens religiosas, tedo precedência sobre todos priores e abades na terra. Mantendo ligações estreitas com Henrique II e Thomas a Becket, os Templários foram instrumentais em tentar reconciliar o soberano e seu estranho arcebispo. Sucessivos reis ingleses, incluindo o Rei João, frequentemente residiram no preceptório do Templo em Londres, e o Mestre da Ordem permaneceu do lado do monarca ao assinar a Carta Magna.

Nem era o envolvimento político da Ordem confinado apenas a cristandade. Ligações estreitas foram construídas com o mundo muçulmano bem como o mundo tão frequentemente oposto ao campo de batalha e os Templários comandavam um respeito pelos líderes sarracenos que excedia o que era aceito por qualquer europeu. Ligações secretas também eram mantidas com os Hashishim ou Assassinos, a famosa seita de adeptos militantes e frequentemente fanáticos que eram o equivalente islâmico dos Templários. Os Hashishim pagavam tributo aos Templários e eram murmurados estarem a serviço deles. Em quase toda a política a Inglaterra ousou desafia-los, ameaçando confiscar os domínios deles. “Vocês Templários… tem tantas liberdades e cartas que suas possessões enormes os tornam cheios de orgulho e arrogância. O que foi imprudentemente dado deve entretanto ser prudentemente revogado; e o que foi inconsideradamente doado deve ser consideradamente tomado. ” O Mestre da Ordem respondeu, “O que dizes, Oh Rei? Longe esteja que vossa boca deva expressar uma palavra tão tola e desagradável. Tanto quanto vós deves exercer a justiça, vós reinareis. Ms se vós infrigis isso, cessará de ser Rei”. É difícil aceitar para a mente moderna a enormidade e a audácia desta declaração. Implicitamente o Mestre está tomando para sua Ordem e ele próprio o poder que nem até mesmo o Papado ousou explicitamente afirmar de fazer ou depor monarcas. Ao mesmo tempo, os interesses dos Templários se estendem além da guerra, diplomacia e intriga política. De fato eles criaram e estabeleceram a instituição dos bancos modernos. Ao emprestar vastas somas aos monarcas destituídos eles se tornaram os banqueiros para cada trono na Europa e para certos potentados muçulmanos também. Com sua rede de preceptórios por toda Europa e Oriente Médio, eles também organizaram, em modestas taxas de juros, a tranferência segura e eficiente de dinheiros para os mercadores do comércio, uma classe que se tornou crescentemente dependente deles.

O dinheiro depositado em uma cidade, por exemplo, podia ser pedido e retirado em outra, por meio de notas promissórias inscritas em intrincados códigos. Os Templários assim se tornaram os primários trocadores de dinheiro da era, e o preceptório de Paris se tornou o centro das finanças européias. É até mesmo provável que o cheque, como o conhecemos e usamos hoje, tenha sido inventado pela Ordem. E os Templários não comerciavam apenas em dinheiro, mas em pensamento também. Por meio de seu mantido e simpático contacto com as culturas islâmica e judaica, eles vieram a atuar como uma câmara de compensação para novas idéias, novas dimensões de conhecimento, novas ciências. Eles desfrutavam de um real monopólio sobre a melhor e mais avançada tecnologia de sua era, a melhor que podiam produzir os armeiros, trabalhadores em couro, pedreiros, arquitetos militares e engenheiros. Eles contribuiram para o desenvolvimento da vigilância, feitura de mapas, construção de estradas e navegação. Eles possuiam seus próprios portos marítimos, estaleiros e frotas comercial e militar, que estavam entre as primeiras a usar a bússola magnética. E como soldados, a necessidade de tratar de ferimentos e doenças os tornou adeptos do uso de drogas. A Ordem mantinha seus próprios hospitais com seus próprios médicos e cirurgiões cujo uso do extrato do mofo sugere um entendimento das propriedades dos antibióticos. Princípios modernos de higiene e limpeza eram compreendidos. E com uma compreensão também antecipada de seu tempo, eles viam a epilepsia não como uma possessão demoníaca mas como uma doença controlável. Inspirados por suas próprias realizações, o Templo na Europa se desenvolveu crescentemente rico, poderoso e complacente. Talvez não surpreendentemente, ele também ficou cada vez arrogante, brutal e corrupto. Beber como um Templário se tornou um clichê naquele tempo. E certas fontes avaliam que a Ordem estabeleceu um ponto ao recrutar cavaleiros excomungados. Mas enquanto os Templários atingiam prosperidade e notoriedade na Europa, a situação na Terra Santa tinha se deteriorado seriamente.

Em 1185 o Rei Bauduino IV de Jerusalém morreu. Na disputa dinástica que se seguiu, Gerard de Ridefort, o Grão Mestre do Templo, traiu um juramento feito ao monarca morto, e portanto colocou a comunidade européia na Palestina para trazer uma guerra civil. Nem foi esta a unica ação questionável de Ridefort. Sua atitude de cavaleiro em relação aos Sarracenos precipitou a ruptura de uma trégua de longo tempo, e provocou um novo ciclo de hostilidades. Então, em julho de 1187, Ridefort liderou seus cavaleiros, juntamente com o resto do exército cristão, em uma batalha áspera, mal concebida e, como transpirou, desastrosa em Hattin. As forças cristãs foram virtualmente aniquiladas; e dois meses depois Jerusalém foi capturada por mãos sarracenas. Durante o século seguinte a situação se tornou crescentemente sem esperança. Por 1291 quase todo Outremer havia caído, e a Terra Santa estava quase que completamente sob controle muçulmano. Somente Acre permanecia, e em maio de 1291 esta última fortaleza foi perdida também. Ao defenderem a cidade condenada, os Templários se mostraram mais heróicos. O próprio Grão Mestre, embora severamente ferido, continuou a lutar até sua morte. Como havia apenas espaço limitado nas galés da Ordem, apenas mulheres e crianças foram evacuadas, enquanto todos os cavaleiros, até mesmo os feridos, escolheram permanecer para trás. Quando o último bastião em Arce caiu, ele o fez com intensidade apocalíptica, as paredes desabando e enterrando atacantes e defensores igualmente.

Os Templários estabeleceram sua nova sede em Chipre; mas com a perda da Terra Santa, eles efetivamente haviam sido privados de sua razão de ser. Como não mais havia terras de infiéis a conquistar, a Ordem começou a voltar sua atenção para a Europa, esperando encontrar lá uma justificativa para sua continuada existência. Um século antes, os Templários haviam presidido a fundação de uma outra ordem cavaleiresca, religiosa-militar, os Cavaleiros Teutônicos. Os últimos eram ativos em pequenos números no Oriente Médio, mas por meados do século XIII tinham voltado sua atenção para as fronteiras a nordeste da cristandade. Aqui eles tinham escavado uma principalidade independente para eles próprios, a Ordenstoat ou Ordensland, que abrangia quase todo o Báltico oriental. Nesta principalidade que se estendia da Prússia ao Golfo da Finlândia e o que é agora solo russo os Cavaleiros Teutônicos desfrutavam de uma soberania não desafiada, muito longe do controle secular e eclesiástico. Para a própria inserção do Ordenstaat, os Templários tinham invejado a independência e a imunidade desta ordem similar. Depois da queda da Terra Santa, eles pensavam crescentemente em um Estado seu próprio no que eles exercessem a mesma autoridade irrestrita e autonomia dos Cavaleiros Teutônicos. Diferente dos Cavaleiros Teutônicos, contudo, os Templários não estavam interressados na selvageria ríspida da Europa Oriental. Por agora eles estavam acostumados demais com o luxo e a opulência. Consequentemente, eles sonhavam em fundar seu Estado em um solo mais acessível e congenial como o de Languedoc. De seus anos mais iniciais, O Templo havia mantido um certo entendimento caloroso com os Cátaros, especialmente no Languedoc. Muitos ricos proprietários de terras, eles próprios cátaros ou simpáticos aos cátaros, tinham doado grandes áreas de terra à Ordem. Segundo um escritor recente, ao menos um dos co-fundadores do Templo era um cátaro. Isto parece de certa forma improvável, mas está além de qualquer discussão que Bertrand de Blachefort, o quarto Grão Mestre da Ordem, veio de uma família cátara. Quarenta anos depois da morte de Bertrand, seus descendentes estavam lutando lado a lado com outros senhores cátaros contra os invasores nortistas de Simon de Montfort.

Durante a Cruzada Albigense, os Templários ostensivamente permaneceram neutros, se confinando no papel de testemunhas. Ao mesmo tempo, todavia, o Grão Mestre daquele tempo parece ter deixado clara a posição da Ordem quando declarou que havia apenas uma Cruzada, a cruzada contra os sarracenos. Sobretudo, um exame cuidadoso das narrativas contemporaneas revela que os Templários forneceram abrigo a muitos refugiados cátaros. Na ocasião, eles parecem ter tomado armas em benefício dos refugiados cátaros. E uma inspeção dos pergaminhos da Ordem na direção do início da Cruzada Albigense revela um maior influxo de cátaros nas fileiras do Templo onde nem mesmo os cruzados de Simon Montfort ousariam desafia-los. De fato, os pergaminhos dos Templários do período mostram que uma proporção significante dos dignatários de alto escalão da Ordem eram de familias cátaras. No Templo de Languedoc os oficiais eram mais frequentemente cátaros do que catolicos. E o que é mais, os nobres cátaros que se alistaram no Templo não pareciam ter se movido sobre o mundo como muitos de sua irmandade católica. Ao contrário, eles pareciam ter permanecido pela maior parte no Languedoc, assim criando para o Ordem uma base duradoura e estável na região. Em virtude de seu contacto com as culturas islâmica e judaica, os Templários já haviam absorvido muitas grandes idéias diferentes da cristandade romana ortodoxa. Os Mestres Templários, por exemplo, frequentemente empregavam secretários árabes, e muitos Templários, tendo aprendido o árabe no cativeiro, eram fluentes na lingua. Uma estreita compreensão foi também mantida com as comunidades judaicas, interesses financeiros e erudição. Pelo influxo de recrutas cátaros, eles agora também estavam expostos ao dualismo gnóstico se, de fato, eles realmente tivessem sido estranhos a isso.

Por 1306 Felipe, o Belo da França estava agudamente ansioso de livrar seu território dos Templários. Eles eram arrogantes e ingovernáveis. Eles eram eficientes e altamente treinados, uma força militar profissional muito mais forte e melhor organizada do que qualquer uma que ele próprio pudesse reunir. Eles estavam firmemente estabelecidos pela França, e por este tempo até mesmo a obediência ao Papa era apenas nominal. Felipe não tinha controle sobre a Ordem. Ela possuia o dinheiro dele. Ele havia sido humilhado quando, fugindo de uma multidão rebelada em Paris, ele foi obrigado a buscar o abjeto refúgio no preceptório do Templo. Ele invejava a imensa riqueza dos Templários, que sua residência em seus territórios tornou mais flagrantemente aparente para ele. E, tendo se aplicado para se unir a Ordem como postulante, ele sofreu a indignidade de ser claramente rejeitado. Estes fatos juntos, com certeza, com a alarmente perspectiva de um Estado Templário independente em sua porta de trás foi suficiente para estimular o rei à ação. E heresia era uma desculpa conveniente. Felipe primeiro tinha que aliciar a cooperação do Papa, ao qual, na teoria a qualquer nível, os Templários deviam fidelidade e obediência, Entre 1303 e 1305, o rei francês e seus ministros engendraram o rapto e morte de um Papa [Bonifácio VIII] e bem possivelmente o assassinato por veneno de um outro [Benedito XI]. Então, em 1305, Felipe gerenciou para assegurar a eleição de seu próprio candidato, o arcebispo de Bordeaux, para o trono papal vago. O novo pontífice tomou o nome de Clemente V. Em débito como ele estava com a influência de Felipe, ele dificilmente poderia recusar as exigências do rei. Felipe planejou cuidadosamente seus movimentos. Uma lista de acusações foi compilada, parcialmente dos espiões do rei que haviam infiltrado a Ordem, parcialmente de confissões voluntárias de um alegado Templário renegado. Armado com estas acusações, Felipe fez o último movimento; e quando ele enviou sua explosão, ela foi súbita, eficiente e letal. Em uma operação de segurança digna da SS e da Gestapo, o rei emitiu ordens secretas e lacradas aos seus senescais pelo interior. Estas ordens eram para ser abertas em todos os lugares simultaneamente e implementadas de uma vez. No amanhecer da sexta feira, 13 de outubro de 1307, todos os Templários na França eram para serem aprisionados e colocados sob prisão pelos homens do rei, seus preceptórios colocados sob sequestro real, seus bens confiscados.

Mas embora o objetivo de surpresa de Felipe possa ter sido alcançado, seu interesse primário na fortuna imensa da Ordem o enganou. Ela nunca foi encontrada, e o que se tornou o fabuloso tesouro dos templários tem permanecido um mistério. De fato é duvidoso se o ataque de surpresa à Ordem foi tão inesperado como ele, ou os historiadores subsequentes, acreditaram. Há considerável evidência a sugerir que os Templários foram avisados antecipadamente. Logo antes das prisões, por exemplo, o Grão Mestre, Jacques de Molay, pediu que muitos dos livros e regras fossem então queimados. Um cavaleiro que se retirou da Ordem naquele tempo foi dito pelo tesoureiro que ele estava sendo extremamente sábio e que a catástrofe era iminente. Uma nota oficial foi circulada em todos os preceptórios franceses, ressaltando que nenhuma informação a respeito dos costumes e rituais da Ordem tinha sido divulgada. De qualquer modo, se os templários foram avisados antecipadamente ou se eles deduziram o que estava no vento, certas precauções foram tomadas definitivamente. Em qualquer caso, os cavaleiros que foram capturados parecem terem se submetido passivamente, como se houvessem recebido instruções para assim o fazer. Em nenhum ponto há qualquer registro da Ordem na França resistindo ativamente aos senescais do rei. Em segundo lugar, há evidência persuasiva de algum tipo de fuga organizada por um grupo particular de cavaleiros virtualmente todos os quais de algum modo estavam ligados ao Tesoureiro da Ordem. Portanto, talvez não seja surpreendente, que o tesouro do Templo, juntamente com quase todos seus documentos e registros, deva ter desaparecido. Rumores persistentes mas não substanciados falam do tesouro sendo contrabandeado de noite do preceptório de Paris, pouco antes das prisões. Segundo estes rumores, ele foi transportado por vagões para a costa presumidamente para a base naval da Ordem em La Rochelle e carregado em 18 galés, e nunca foi ouvido falar dele novamente. Se isso é verdade ou não, pareceria que a frota dos Templários escapou dos guardas do rei porque não há relatos de qualquer navio da Ordem ter sido tomado. Ao contrário, estes navios parecem ter desaparecido totalmente, junto com seja o que for que eles estivessem transportando. Na França os Templários presos foram julgados e alguns submetidos a tortura. Estranhas confissões foram extraídas e até mesmo acusações mais estranhas feitas.

Rumores amargos começaram a circular pelo país. Os Templários supostamente veneravam um diabo chamado Baphomet. Em suas cerimônias secretas eles supostamente se prostravam diante de uma cabeça barbada masculina, que falava com eles e os investia de poderes ocultos. Testemunhas não autorizadas destas cerimônias nunca foram vistas novamente. E havia outras acusações também, que eram até mesmo mais vagas; de infanticídio, de ensinar as mulheres como abortar, de beijos obscenos na iniciação de postulantes; de homossexualidade. Mas de todas as acusações levantadas contra estes soldados de Cristo, que haviam lutado e dedicado suas vidas a Cristo, uma parece a mais bizarra e aparentemente improvável. Eles foram acusados de ritualmente negarem Cristo, de repudiarem, pisarem e cuspirem na cruz. Na França, ao menos, o destino dos Templários foi efetivamente selado. Felipe atormentou-os selvagemente e sem misericórdia.  Muitos foram queimados, muitos mais aprisionados e torturados. Ao mesmo tempo o rei continuou a intimidar o Papa, exigindo até mesmo medidas mais restritivas contra a Ordem. Depois de resistir por um tempo, o papa abriu mão em 1312, e os Cavaleiros Templários foram oficialmente dissolvidos sem um veredito conclusivo de culpa ou inocência ter sido até mesmo produzido.

Mas nos domínios de Felipe, os julgamentos, inquéritos e investigações continuaram por outros dois anos. No final, em março de 1314, Jacques de Molay, o Grão Mestre e Geoffroi de Charnay, Preceptor da Normandia, foram queimados até a morte um fogo brando. Com a execução deles, a Ordem ostensivamente desapareceu desta parte da história. Dado ao número de cavaleiros que escaparam, que permaneceram de fora ou que eram conhecidos, seria surpreendente se tivesse. Não obstante, a Ordem não deixou de existir.  Felipe havia tentado influenciar seus companheiros monarcas, esperando portanto assegurar que nenhum Templário na cristandade fosse poupado. De fato, o zelo do rei a este respeito é quase suspeito. Pode-se talvez compreende-lo querer se livrar em seus próprios domínios da presença da Ordem, mas é muito menos claro porque ele deve ter tido tal intento de exterminar os Templários em outros lugares. Certamente ele próprio não era um modelo de virtudes; e é difícil imaginar um monarca que providenciasse a morte de dois Papas sendo genuinamente preocupado pelas infrações à fé. Felipe simplesmente temia a vingança se a Ordem permanecesse intacta fora da França? Em qualquer caso, sua tentativa de eliminar os Templários fora da França não foi bem sucedida. O proprio enteado de Felipe, por exemplo, Eduardo II da Inglaterra, de início correu em defesa da Ordem. Eventualmente, pressionado pelo Papa e o rei francês, ele cumpriu as exigências deles, mas apenas parcial e tepidamente. Embora a maioria dos Templários pareça ter escapado completamente, um número foi preso. Destes contudo, a maioria recebeu sentenças leves algums vezes de não mais que poucos anos de penitência em abadias e monastérios, onde eles viviam em condições geralmente confortáveis. Suas terras foram consignadas aos Cavaleiros Hospitalários de São João, mas eles próprios foram poupados da perseguição viciosa que atingiu sua irmandade na França.

Em todos os lugares a eliminação dos Templários encontrou maior dificuldade, Na Escócia, por exemplo, havia uma guerra com a Inglaterra naquele tempo, e o consenquente caos deixou pouca oportunidade para implementar exatidões legais. Então as Bulas Papais dissolvendo a Ordem nunca foram proclamadas na Escócia e na Escócia, portanto, a Ordem nunca foi tecnicamente dissolvida. Muitos ingleses e, pareceria, Templários franceses fundaram um refúgio escocês, e um contingente considerável é dito ter lutado do lado de Robert Bruce na Batalha de Bannockburn em 1314. Segundo a história o corpo coerente na Escócia existiu por outros quatro séculos. Na luta de 1688-91, James II da Inglaterra foi deposto por William de Orange. Na Escócia os apoiadores do sitiado monarca Stuart se levantaram em revolta e, na Batalha de Killiecrankie em 1689, João  Claverhouse, Visconde de Dundee, foi morto no campo. Quando seu corpo foi recuperado, ele foi reportadamente encontrado usando a Grande Cruz da Ordem dos Templários – não um recente aparelho supostamente, mas um datando de antes de 1307. Em Lorraine, que era parte da Alemanha naquele tempo, não parte da França, os Templários foram apoiados pelo duque da principalidade. Um poucos foram julgados e exonerados. A maioria, parece, obedeceu ao seu Preceptor, que reputadamente os aconselhou a raspar suas barbas, abandonar a veste secular e se assimilarem na populaça local.

Na própria Alemanha os Templários abertamente desafiaram seus juízes, ameaçando tomar armas. Intimidados, seus juízes os pronunciaram inocentes; e quando a Ordem foi oficialmente dissolvida, muitos Templários alemães acharam um paraíso nos Hospitalários de São João e na Ordem Teutônica. Na Espanha, também,  os Templários resistiram aos seus perseguidores e encontraram refúgio em outras ordens. Em Portugal a Ordem foi clarificada por um inquérito e simplesmente mudou seu nome, se tornando, Cavaleiros de Cristo. Sob este título eles funcionavam bem dentro do século XVI se devotando a atividade marítima. Vasco da Gama era um Cavaleiro de Cristo, e o Príncipe Henrique o Navegador era um Grão Mestre da Ordem. Navios dos Cavaleiros de Cristo viajavam sob a familiar cruz vermelha. E foi sob a mesma cruz que Cristóvão Colombo atravessou o Atlântico para o Novo Mundo. O próprio Colombo era casado com a filha de um antigo Cavaleiro de Cristo, e tinha acesso aos mapas e diários de seu sogro. Então, em um número de modos diversos, os Templários sobreviveram ao ataque de 13 de outubro de 1307. E em 1522 a progenie prussiana dos Templários, os Cavaleiros Teutônicos, sulariri sed eles próprios, repudiaram sua aliança com Roma e deram seu apoio por trás de um rebelde e herege chamado Martinho Lutero. Dois século depois de sua dissolução, os Templários, contudo indiretamente, estavam exercendo a vingança contra a Igreja que os traiu.

Os Cavaleiros Templários e Os Mistérios

Em uma forma grandemente resumida, esta é a história dos Cavaleiros Templários como os escritores a tem aceito e apresentado, e como nós a encontramos em nossa pesquisa. Mas rapidamente descobrimos que há uma outra dimensão para a história da Ordem, consideravelmente mais evasiva, mais provocante e mais especulativa.  Até mesmo durante a existência deles, uma mística tem vindo a cercar os cavaleiros. Alguns disseram que eles eram feiticeiros e mágicos, adeptos secretos e alquimistas. Muitos de seus contemporaneos os evitavam, acreditando que eles estavam em contacto com poderes não limpos.  Tão cedo quanto 1208, no início da Cruzada Albigense, o Papa Inocente III tinha advertido os Templários por um comportamento não cristão, e se referiu explicitamente a necromancia. Por outro lado, havia indivíduos que os louvavam com entusiasmo estravagante. No século XII Wolfram von Eschenbach, o maior dos romancistas medievais, fez uma visita especial ao Outremer para testemunhar a Ordem em ação. E quando, entre 1195 e 1220, Wolfram compôs seu romance épico Parcival, ele conferiu aos Templários o mais exaltado status. No poema de Wolfram os cavaleiros que guardam o Santo Gral, o castelo do Gral e a família do Gral, são Templários. Depois da derrocada dos Templários, a mística que cerca isso persistiu. O ato final registrado na história da Ordem tem sido a queima do último Grão Mestre, Jacques de Molay, em março de 1314.  Quando a fumaça do fogo brando chocou a vida de seu corpo, é dito que Jacques de Molay  disse uma imprecação das chamas. Segundo a tradição, ele chamou seus perseguidores, o Papa Clemente e O Rei Felipe para se unirem a ele e responderem por eles próprios diante da Côrte de Deus dentro de um ano. Dentro de um mês, o Papa Clemente  estava morto, supostamente de um súbito ataque de desinteria. Pelo fim do ano Felipe estava morto também, por causas que permanecem obscuras até este dia. Há, de fato, nenhuma necessidade de procurar explicações sobrenaturais, Os Templários possuiam grande talento no uso de venenos. E havia certamente bastante pessoas entre os cavaleiros refugiados viajando incógnitas, simpatizantes da Ordem e parentes da irmandade perseguida para executar a vingança apropriada.

Não obstante, o aparente cumprimento da maldição do Grão Mestre emprestou crendencial a crença nos poderes ocultos da Ordem. Nem a maldição terminou lá. Segundo a história, foi para lançar um pálio sobre a linhagem real francesa dentro do futuro. E então os ecos dos supostos poderes místicos dos Templários reverberaram pelos séculos. Pelo século XVIII várias confraternidades secretas e semi-secretas estavam louvando os Templários como os precursores e iniciados místicos. Muitos Maçons Livres do periodo se apropriaram dos Templários como seus antecedentes. Certos ritos e observâncias maçonicas afirmaram a descendência linear direta da Ordem, bem como a custódia autorizada de seus segredos arcanos. Algumas destas afirmações eram claramente ridículas. Outras repousavam, por exemplo, na possível sobrevivência da Ordem na Escócia – podem bem ter tido um núcleo de validade, até mesmo se os enfeites aplicados são espúrios.

Por 1789 as histórias que cercavam os Templários tinham atingido proporções positivamente míticas, e a realidade histórica deles foi obscurecida por uma aura de ofuscação e romance. Eles eram vistos como adeptos ocultos, alquimistas iluminados, magos e sábios, mestres maçons e altos iniciados; reais superhomens dotados de um surpreendente arsenal de poder e conhecimento arcano. Eles também eram vistos como heróis e mártires,  arautos do espírito anti-clerical daquela era; e muitos Maçons Livres, ao conspirar contra Luis XVI, sentiram estarem ajudando a implementar a maldição agonizante de Jacques de Molay  sobre a linhagem francesa.  Quando a cabeça do rei caiu sob a guilhotina, um homem desconhecido é relatado ter saltado para o andaime. Ele molhou sua mão no sangue do manarca, sacudiu-a sobre a multidão adjacente e gritou: “Jacques de Molay, você está vingado!”

Desde a Revolução Francesa a aura que cerca os Templários não tem diminuído. Ao menos três organizações contemporâneas hoje se denominam Templários, afirmando possuir um pedigree de 1314 e cartas cuja autenticidade nunca tem sido estabelecida. Certas lojas maçonicas tem adotado o grau de Templário, bem como rituais e apelações supostamente descendendo da ordem original. Até o fim do século XIX, uma sinistra Ordem dos Novos Templários foi estabelecida na Alemanha e na Áustria, empregando a suástica como um de seus emblemas. Figuras como  H. P. Blavatsky, fundadora da Teosofia, e Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia, falaram de ums esotérica tradição de sabedoria remontando aos Rosacrucianos e aos cátaros e Templários que eram supostamente o repositório de segredos ainda mais antigos. Nos Estados Unidos, adolescentes são admitidos na Sociedade De Molay, sem que até mesmo seus mentores tenham muita noção de onde deriva este nome. Na Bretanha, bem como em outras partes do ocidente, secretos ‘rotary clubs’ se dignificam com o nome Templário e incluem eminentes figuras públicas. Do reino celestial que ele devia conquistar com sua espada, Hugues de Payen deve agora olhar para baixo com uma certa perplexidade  irônica sobre os cavaleiros dos últimos dias, carecas, barrigudos e de óculos, que ele criou. E ainda que ele também esteja impressionado pela durabilidade e vitalidade de seu legado. Na França este legado é especialmente poderoso. De fato, os Templários são uma real indústria na França, tanto quanto Glastonbury, as linhas de comunicação ou o Monstro de Loch Ness são na Bretanha.

Em Paris livrarias estão cheias de histórias e narrativas da Ordem, algumas válidas, algumas beirando entusiasticamente ao lunático. Durante aproximadamente o último quarto de século, um número de afirmações extravagantes tem sido avançado em benefíco dos Templários, algumas das quais podem não ser inteiramente sem fundamento. Certo escritores tem creditado a eles, ao menos em grande parte, a construção das catedrais góticas ou ao menos eles terem fornecido um ímpeto de algum tipo para a explosão da energia arquitetonica e o gênio. Outros escritores tem argumentado que a Ordem estabeleceu contacto comercial com as Américas já em 1269, e derivou grande parte de sua riqueza da importada prata mexicana. Tem sido frequentemente avaliado que os Templários possuiam algum tipo de segredo escondendo as origens da cristandade. Tem sido dito que eles eram Gnósticos, que eles eram hereges, que eles eram desertores do Islã. Tem sido declarado que eles obtiveram uma unidade criativa entre sangues, raças e religiões, uma politíca sistemática de fusão entre o pensamento islâmico, cristão e judaico. E seguidamente isto é mantido, como  Wolfram von Eschenbach manteve quase oito séculos atrás, que os Templários eram os Guardiões do Santo Gral, seja o que possa ser o Santo Gral. As afirmações frequentemente são ridículas. Ao mesmo tempo, alguns dos segredos se relacionam ao que agora chamamos de esotérico. Gravações simbólicas nos preceptórios Templários, por exemplo, sugerem que alguns oficiais na hierarquia da Ordem eram familiarizados com tais disciplinas como astrologia, alquimia, geometria sagrada e numerologia, bem como, com certeza, astronomia que, nos séculos XII e XIII era inseparável da astrologia e cada porção como esotérica. Mas nem as afirmações extravagantes e nem os resíduos esoterícos foram o que nos intrigou. Ao contrário, nos encontramos fascinados por algo muito mais mundano, muito mais prosaico, a riqueza de contradições, improbabilidades, inconsistências, e aparentes ‘telas de fumaça’ na história aceita. Os segredos esotéricos dos Templários podem bem ter existido. Mas algo mais sobre eles estava sendo escondido tão bem enraizado nas correntes políticas e religiosas da época deles.

Foi a este nível que assumimos a maior parte de nossa investigação. Começamos pelo fim da história, a queda da Ordem e as acusações levantadas contra ela. Muitos livros tem sido escritos explorando e avaliando a possível verdade dessas acusações; e da evidência que nós, como a maioria dos pesquisadores, concluimos ter havido alguma base para elas. Submetidos a interrogatório pela Inquisição, um número de cavaleiros se referiu a algo chamado “Baphomet”; tantos, e em tantos lugares diferentes, para que Baphomet seja a invenção de um único indivíduo ou até mesmo um único preceptório. Ao mesmo tempo, não há indicação de quem ou o que possa ser Baphomet, o que ele ou isso representava, porque ele ou isso devesse ter um significado especial. Pareceria que Baphomet era visto com reverência, uma reverência talvez suprema até a idolatria. Em alguns casos o nome é associado com esculturas demoníacas como gárgulas encontradas em vários preceptórios. Em outras ocasiões Baphomet parece estar associado com uma aparição de uma cabeça barbada. A despeito das afirmações de alguns historiadores, parece claro que Baphomet não era uma corrupção do nome Maomé. Por outro lado, pode ter sido uma corrupção do árabe “abufihamet”, pronunciado entre os mouros espanhóis como “bufihimat”. Isto significa “Pai do Entendimento”, ou “Pai da Sabedoria” e ‘pai’ em árabe também é usado para implicar força. Se esta é de fato a origem de Baphomet, portanto ele se referiria presumidamente a algum princípio sobrenatural ou divino. Mas o que pode ter diferenciado Baphomet de qualquer outro princípio divino ou sobrenatural permanece não esclarecido. Se Baphomet era simplesmente Deus ou Alá, porque os cristãos se preocupariam em recristianiza-lo? E se Baphomet não era Deus ou Alá, quem ou o que era ele? Em qualquer caso, encontramos evidência incontestável da acusação de cerimonias secretas envolvendo uma cabeça de algum tipo.

De fato a existência de uma tal cabeça provou ser um dos temas dominantes correndo pelos registros da Inquisição. Como com Baphomet, contudo, o significado da cabeça permanece obscuro. Possa talvez pertencer a alquimia. No processo alquímico há uma fase chamada ‘Caput Mortuum’ ou ‘Cabeça Morta’, o ‘Nigredo’, ou “Enegrecido” que era dito ocorrer antes da precipitação da Pedra Filosofal. Segundo outras narrativas, contudo, a cabeça era aquela de Hugues de Payen, o fundador da Ordem e primeiro Grão Mestre; e é sugestivo que o escudo de Hugues consistisse em três cabeças negras em um campo de ouro. A  cabeça pode também estar ligada ao famoso Sudário de Turim, que parece ter estado sob a possessão dos Templários entre 1204 e 1307, e o qual, se dobrado, teria parecido como nada mais que uma cabeça. De fato, em um preceptório Templário de Templecombe em Somerset foi encontrada uma reprodução de uma cabeça com barbas com surpreendente semelhança ao Sudário de Turim. Ao mesmo tempo, uma especulação recente tem ligado a cabeça, ao menos por tentativa, com a cabeça cortada de João Batista; e certos escritores tem sugerido que os Templários foram ‘infectados’ pela heresia Joanita ou Mandeana que denunciou Jesus como ‘um falso profeta’ e reconheceu João como o verdadeiro Messias. De fato no curso de suas atividades no Oriente Médio os Templários indubitavelmente estabeleceram contacto com as seitas Joanitas, e a possibilidade de tendências Joanitas na Ordem não é improvável. Mas não se pode dizer que tais tendências foram obtidas pela Ordem como um todo, nem que elas eram questão de política oficial. Durante os interrogatórios que seguiram as prisões em 1307, uma cabeça também figurou em outras duas conexões. Segundo os registros da Inquisição, entre os bens confiscados do preceptório de Paris uma relíquia sob a forma de uma cabeça de mulher foi encontrada. Ela era alada no topo e continha o que pareciam terem sido relíquias de um tipo peculiar. Ela é descrita como se segue: uma grande cabeça de prata dourada, a mais bela, e constituindo uma imagem de uma mulher. Dentro havia dois ossos da cabeça envolvidos em um pano de linho branco, com outro pano vermelho ao seu redor. Um rótulo foi anexado, no qual foi escrito a legenda  CAPUT LVIIIm.

Os ossos dentro eram de uma mulher pequena. Uma relíquia curiosa, especialmente para uma rigida e monástica instituição militar como os Templários. Ainda que um cavaleiro sob interogatório, quando confrontado com esta cabeça feminina,  declarou que ela não tinha qualquer relação com a cabeça do homem barbado usada nos rituais da Ordem. Caput LVIII – cabeça 58m permanece um enigma surprendente. Mas vale a pela notar que ‘m’ pode afinal não ter sido um ‘m’, mas U, o símbolo astrológico para Virgem.

As figuras das cabeças aparecem novamente em uma outra história misteriosa tradicionalmente ligada aos Templários. Vale citar uma de suas várias variantes: uma grande senhora de Maraclea foi amada por um Templário, um Senhor de Sidon; mas ela morreu em sua juventude, e na noite de seu enterro, este amante perverso invadiu sua tumba, escavou seu corpo e o violou. Então uma voz do vazio ordenou que ele voltasse no tempo de nove meses para encontrar um filho. Ele obedeceu ao comando e no tempo indicado ele abriu a tumba novamente e encontrou uma cabeça sobre os ossos da pernas do esqueleto [cranio e ossos cruzados]. A mesma voz ordenou que ele guardasse isso bem, porque isso lhe daria todas as boas coisas, e então ele levou tudo isso embora com ele. Isso se tornou seu gênio protetor, e ele foi capaz de derrotar seus inimigos ao meramente mostrar a eles a cabeça mágica. No curso devido, isso passou para a posse da Ordem. Esta narrativa horrenda pode ser traçada ao menos até aquela do Mapa Walter, escrito no final do século XII. Mas nem ele ou outro escritor,  que reconta a mesma história quase um século mais tarde, especifica que este estrupador necrófilo era um Templário. Não obstante, por 1307 a história tinha se tornado estreitamente associada com a Ordem. Ela é mencionada repetidamente nos registros da Inquisição, e ao menos dois cavaleiros sob interrogatório confessaram sua familiaridade com ela. Nas narrativas subsequentes, como uma citada acima, o próprio estuprador é identificado como um Templário, e ele permanece assim ns versões preservadas pela Livre Maçonaria que adotou o cranio e os ossos cruzados, e frequentemente os empregou como um aparelho nas pedras de tumbas. Em parte a lenda pode ser vista quase como um grotesco disfarce da Imaculada Conceição. Em parte pareceria ser uma narrativa simbólica destorcida de algum rito iniciático, algum ritual envolvendo uma morte figurativa e ressureição. Um cronista cita o nome da mulher na história como Yse, que muito claramente derivaria de Isis. E certamente a lenda evoca e ecoa dos mistérios associados a Isis, bem como de aqueles associados a Tamuz ou Adonis, cuja cabeça foi atirada no mar, e de Orfeu, cuja cabeça foi atirada no rio da Via Láctea. As propriedades mágicas da cabeça também evocam a cabeça de Bran O Abençoado na mitologia celta e no Mabinogion. E este é o caldeirão místico de Bran que numerosos escritores tem tentado identificar como o precursor pagão do Santo Gral. Seja qual for a importância atribuida ao ‘culto da cabeça’, a Inquisição claramente acreditou que ele fosse importante. Em uma lista de acusações retiradas de 12 de agosto de 1308, há o seguinte: Item, que em cada província eles tinham ídolos, nomeadamante cabeças… Item, que eles adoravam estes ídolos… Item, que eles disseram que a cabeça podia salva-los. Item, que ela podia faze-los ricos… Item, que ela fez as três flores. Item, que ela fez a terrra germinar. Item, que eles cercavam ou tocavam cada cabeça dos ídolos supramencionados com pequenas cordas, que eles vestiam ao redor deles próprios perto da camisa ou da carne. A corda mencionada no último item é reminiscente dos Cátaros, que também eram alegados terem usado uma corda sagrada de algum tipo. Mas o mais surpreendente na lista é a proposta capacidade da cabeça de fazer riquezas, fazer árvores floridas e trazer fertilidade à terra. Estas propriedades coincidem notavelmente com aquelas atribuidas nos romances ao Santo Gral. De todas as acusações levantadas contra os Templários, as mais sérias eram de blasfemia e heresia de pisar, negar e cuspir na cruz. Não está precisamente claro o que ritual alegado pretendia significar – o que, em outras palavras, os Templários estavam realmente repudiando. Eles estavam repudiando Cristo? Ou eles estavam simplesmente repudiando a Crucificação? E seja o que for que eles repudiavam, o que exatamente eles enalteciam com esta posição?

Ninguém tem respondido satisfatoriamente a estas perguntas, mas parece claro que o repúdio de algum tipo ocorreu, e era um princípio integral da Ordem. Um cavaleiro, por exemplo, testemunhou que em sua iniciação na Ordem, foi dito a ele “Você crê erradamente, porque ele [o Cristo] é de fato um falso profeta. Acredite apenas em Deus no Céu e não nele.’ Um outro Templário declarou que foi dito a ele, ‘Não acredite que o homem chamado Jesus que os judeus crucificaram no Outremer é Deus e que ele pode salva-lo”. Um terceiro cavaleiro similarmente afirmou que ele foi instruido a não acreditar em Cristo, um falso profeta, mas apenas no Deus Superior. Então foi mostrado a ele um crucifixo e dito : “Não coloque muita fé nisso, porque isso é jovem demais”. Tais narrativas são frequentes e bastante consistentes para dar credencial a acusação. Eles eram também relativamente brandas; e se a Inquisição desejasse juntar evidência, ele poderia ter devisado algo muito mais dramático, mais incriminador, mais prejudicial. Então parece haver pouca dúvida que a atitude dos Templários em relação a Jesus não seguia a ortodoxia católica, mas é incerto precisamente qual era a atitude da Ordem. Em qualquer caso, há evidência que o ritual atribuido aos Templários de pisar e cuspir na cruz estava em vigor um século antes de 1307. Seu contexto é confuso, mas ele é mencionado em ligação com a Sexta Cruzada, que ocorreu em 1249.

O lado Oculto dos Cavaleiros Templários

Se o fim dos Cavaleiros Templários foi repleto de embaraçosos enigmas, a fundação e história inicial da Ordem nos pareceu ser até mesmo mais assim. Estávamos já pragueados por um número de inconsistências e improbabilidades. Nove cavaleiros, nove pobre cavaleiros  apareceram como se de nenhum lugar  e entre todos os outros Cruzados enxameando a Terra Santa prontamente tiveram os aposentos do rei entregues a eles! Nove pobre cavaleiros sem admitirem qualquer novo recruta em suas fileiras presumidamente, tudo por eles mesmos, defederam os caminhos da Palestina. E não há registro deles realente fazendo alguma coisa, nem mesmo de Fulk de Chartres, o cronista oficial do rei, que certamente deve ter sabido sobre o mapa. Como, imaginamos, podem as atividades deles, seus movimentos nas terras reais, ter escapado a percepção de Fulk? Parece incrível, ainda que o cronista nada diga. Ninguém diz qualquer coisa. De fato, até  Guillaume de Tyre, bons cinquenta anos depois. O que podemos concluir disso? Que os Cavaleiros não estavam engajados no louvável serviço público atribuído a eles? Que ao invés, talvez, eles estivessem envolvidos em uma atividade clandestina, da qual nem mesmo o cronista oficial estava ciente? Ou que o próprio cronista foi amordaçado? Esta última parece ser a explicação mais provável. Aos cavaleiros logo se uniram dois homens nobres mais ilustres, nobres cuja presença não poderia ter sido desapercebida.

Segundo  Guillaume de Tyre, a Ordem do Templo foi criada em 1118, originalmente composta por nove cavaleiros e não admitiu novos recrutas por nove anos. Contudo, está claramente em registro, que o Conde de Anjou – pai de Geoffrey Plantagenet, se uniu a Ordem em 1120, apenas dois anos depois de sua fundação. E em 1124 o Conde de Champagne, um dos senhores mais ricos da Europa, o fez igualmente. Se Guillaume de Tyre está correto, não deveria ter havido novos membros até 1127; mas por 1126 os Templários de fato haviam admitido  quatro novos membros em suas fileiras. Se Guilhaume está errado, então, em dizer que nenhum membro foi admitido por nove anos depois de sua fundação, sua fundação dataria de 1118, mas no máximo, de 1111 ou 1112. De fato há uma evidência muito persuasiva desta conclusão. Em 1114 o Conde de Champagne estava se preparando para a viagem a Terra Santa. Logo antes de sua partida, ele recebeu uma carta do Bispo de Chartres. Em um ponto, o Bispo escreveu, “Temos ouvido que… antes de partir para Jerusalém você fez um voto de se unir ‘a milícia de Cristo’, que voce deseja se alistar nesta ordem militar evangélica.’ A mílícia de Cristo foi o nome pelo qual os Templários foram originalmente conhecidos, e o nome pelo qual São Bernardo alude a eles. No contexto da carta do Bispo a apelação não pode possivelmente se referir a uma outra instituição. Isto não pode significar, por exemplo, que o Conde de Champagne simplesmente decidiu se tornar um Cruzado, porque o Bispo continua a falar no voto de castidade que sua decisão envolvia. Um  tal voto dificilmente teria sido requerido de um Cruzado comum. Da carta do Bispo de Chartres, então, está claro que os Templários já existiam, ou ao menos haviam sido planejados, já em 1114, quantro anos antes da data geralmente aceita; e que tão cedo quanto em 1114 o Conde de Champagne já pretendia se unir as fileiras deles – o que ele eventualmente o fez uma década depois. Um historiador que notou esta carta retirou uma curiosa conclusão que o bispo pode não ter significado o que ele disse. Ele pode não ter se referido aos Templários, argumenta o historiador em questão, porque os Templários não foram criados até quatro anos depois em 1118. Ou talvez o bispo não soubesse o ano de Nosso Senhor no qual ele estava escrevendo? Mas o bispo morreu em 1115,. Como, em 1114 ele podia enganadamente se referir a algo que ainda não existia? Há somente uma resposta possível e muito óbvia a esta pergunta que é que o bispo não estava errado, mas  Guillaume de Tyre, bem como todos os historiadores subsequentes que insistem em ver Guilhaume como uma voz impecável de autoridade. Por si só uma data anterior para a fundação da Ordem do Templo, não precisa necessariamente ser suspeito. Mas há outras circunstâncias e coincidências singulares que decididamente são. Ao menos três dos noves cavaleiros fundadores, inclusive  Hugues de Payen, parecem ter vindo de regiões adjacentes, terem tido laços familiares, terem conhecido uns aos outros previamente e terem sido vassalos do mesmo senhor. Este senhor era o Conde de Champagne, a quem o Bispo de Chartres doou a terra na qual São Bernardo, patrono dos Templários, construiu a famosa Abadia de Clairvaux; e um dos nove cavaleiros fundadores,  Andre de Montbard, era tio de São Bernardo. Em Tryes, sobretudo, a côrte do Conde de Champagne, uma escola influente de estudos cabalísticos e esotéricos tinha florescido desde 1070. No Concílio de Troyes em 1128 os Templários foram oficialmente incorporados. Nos próximos dois anos, Troyes permaneceu um centro estratégico para a Ordem; e até mesmo hoje há uma área amadeirada adjacente chamada de Forte do Templo.  E foi de Troyes, côrte do Conde de Champagne, que um dos primeiros romances do Gral foi emitido, muito possivelmente o primeiro, composto por Chretien de Troyes.

Entre esta riqueza de dados, podemos começar a ver uma rede tenue de ligações em um padrão que parece mais do que a mera coincidência. Se um tal padrão existe, certamente apoia a nossa suspeita que os Templários estavam envolvidos em alguma atividade clandestina. Não obstante, podemos apenas especular  qual pode ter sido tal atividade. Com base em nossas especulações específicas estava o local específico do domicilio dos cavaleiros na ala do palácio real, o Monte do Templo, tão inexplicavelmente conferida a eles. No ano de 70 o Templo que então estava de pé foi saqueado por legiões romanas sob Tito. Seu tesouro foi saqueado e levado a Roma, então novamente saqueado e levado talvez aos Pirineus. Mas que tal se houvesse algo mais no Templo bem como algo até mesmo mais importante do que o tesouro pilhado pelos Romanos? É certamente possível que os sacerdotes do Templo, confrontados pelo avanço da falange de centuriões, teriamdeixado aos saqueadores o botim que eles esperavam encontrar. E se houvesse algo mais, pode bem estar escondido em algum lugar nas proximidades. Sob o Templo, por exemplo. Entre os Manuscritos do Mar Morto encontrados em QumrAam, há um agora conhecido como como Pergaminho de Cobre. Este pergaminho, decifrado na Universidade de Manchester em 1955-6 faz referências explícitas as grandes quantidades de barras de ouro e prata, vasos sagrados, adicional material não especificado, e um ‘tesouro’ de natureza não determinada. Ele cita vinte e quatro tesouros enterrados sob o próprio Templo. Em meados do século XII uma romaria a Terra Santa, um  Johann von Wurzburg, escreveu sobre uma visita aos Estábulos de Salomão. Estes estábulos, situados diretamente sob o próprio Templo, ainda estão visíveis. Eles são suficientemente grandes, relatou Johann, para sustentar dois mil cavalos; e foi nestes estábulos que os Templários estabelecerem suas montarias. Segundo ao menos um historiador, os Templários estavam usando estes estábulos para seus cavalos já em 1124, quando eles ainda eram supostamente apenas nove em número. Parece então que a Ordem principiante, imediatamente depois de sua criação, realizou escavações sob o Templo. Tais escavações podem bem implicar que os cavaleiros estavam ativamente procurando por algo. Se esta suposição é válida, explicaria um número de anomalias – sua instalação no palácio real, por exemplo, e o silêncio do cronista. Msa se eles foram enviados a Palestina, quem os enviou? Em 1104 o Conde de Champagne tinha se encontrado em um conclave com certos nobres de alto escalão, ao menos um dos quais tinha acabado de voltar de Jerusalém. Entre estes presentes ao conclave estavam representantes de certas famílias como Brienne, Joinville e Chaumont que, como descobrimos mais tarde, figuraram importantemente em nossa história. Também presente estava o senhor de ligação de Andre de Montbard, Andre sendo um dos co-fundadores do Templo e tio de São Bernardo. Pouco depois do conclave, o Conde de Champagne partiu para a Terra Santa e permaneceu lá por quatro anos, voltando em 1108. Em 1114 ele fez uma segunda viagem a Palestina, tendando se unir a ‘milícia de Cristo’, então mudou de idéia e voltou a Europa um ano depois. Em sua volta, ele imediatamente doou um pedaço de terra a Ordem Cisterciana, cujo proeminente portavoz era São Bernardo. Neste pedaço de terra São Bernardo construiu sua própria residência e então consolidou a Ordem Cisterciana.  Antes de 1112 os Cistericianos estavam perigosamente perto da falência. Então, sob a orientação de São Bernardo, eles passaram por uma surpreendente mudança de fortuna. Dentro dos próximos poucos anos meia duzia de abadias foram criadas. Por 1153 havia mais de trezentas, das quais o próprio São Bernardo fundou sessenta e nove. Este crescimento extraordinário paraleliza diretamente aquele da Ordem do Templo, que estava se expandindo  do mesmo modo durante os mesmos anos.  E, como temos dito, um dos co-fundadores da Ordem do Templo foi o tio de São Bernardo,  Andre de Montbard.

Vale rever esta complicada sequência de eventos. Em 1104 o Conde de Champagne partiu para a Terra Santa depois de se encontrar com certos nobres, um dos quais era ligado a Andre Montbard. Em 1112 o sobrinho de Andre Montbard, São Bernardo, se uniu a Ordem Cisterciana. Em 1114 o Conde de Champagne partiu em uma segunda viagem para a Terra Santa, pretendendo se unir a Ordem do Templo que foi co-fundada pelo seu próprio vassalo com Andre Montbard, e o qual, como atesta a carta do Bispo de Chartres, já existia ou estava em processo de ser criada. Em 1115 o Conde de Champagne voltou a Europa, tendo estado lá por menos de um ano, e doou terra a Abadia de Clairvaux cujo abade era sobrinho de Andre Montbard. Nos anos que se seguiram tanto os Cistercianos quanto os Templários da Ordem de São Bernardo e de Andre Montbard se tornaram imensamente ricos e desfrutavam fases de um crescimento fenomenal. Como ponderamos esta sequência de eventos, nos tornamos crescentemente convencidos que havia algum padrão subjacente e governando tal rede intrincada. Certamente isso não nos parece ser aleatório, nem completamente coincidentes. Ao contrário, nos parece que estamos lidando com os vestígios de algum projeto completo complexo e ambicioso, os detalhes completos do qual tinham sido perdidos na história. Para reconstruir estes detalhes, desenvolvemos uma hipótese tentativa, um cenário, por assim dizer, que possa acomodar os fatos conhecidos. Supomos que algo foi descoberto na Terra Santa, por acidente ou projeto; algo de extrema importância, que levantou o interesse de alguns dos nobres europeus mais influentes. Posteriormente supomos que esta descoberta envolveu, direta ou indiretamente, uma grande parte de potencial riqueza também, talvez, como algo mais, algo que tinha que ser mantido secreto, algo que só poderia ser divulgado a um pequeno número de senhores de alto escalão. Finalmente, supomos que esta descoberta foi relatada e discutida no conclave de 1104. Imediatamente depois o Conde de Champagne partiu para a Terra Santa, talvez para verificar pessoalmente o que ele tinha ouvido, talvez para implementar algum curso de ação para a fundação, por exemplo, do que subsequentemente se tornou a Ordem do Templo. Em 1114, se não antes, os Templários foram estabelecidos com o Conde de Champagne desempenhando algum papel crucial, talvez agindo como espírito guia e patrocinador. Por 1115 o dinheiro já estava fluindo de volta a Europa e para dentro dos cofres dos Cistercianos, que, sob São Bernardo e de sua nova posição de força, endossou e conferiu credibilidade a iniciante Ordem do Templo. Sob Bernardo os Cistercianos atingiram uma ascendência espiritual na Europa. Sob Hugues de Paiens e Andre de Montbard, os Templários atingiram uma ascendência administrativa e militar na Terra Santa que rapidamente se espalhou para a Europa. Por trás do crescimento de ambas as Ordens se esgueirava a presença sombria de tio e sobrinho, bem como a riqueza, influência e patrocínio do Conde de Champagne. Estes três indivíduos constituem um link vital. Eles são como marcadores quebrando a superfície da história, indicando as sombrias configurações de algum projeto elaborado e oculto. Se um tal projeto realmente existiu, ele não pode, com certeza, ser restrito a apenas três homens. Ao contrário, ele deve ter compreendido uma grande dose de cooperação de certas outras pessoas e uma grande parte de meticulosa organização. A organização talvez seja a palavra chave; porque se nossa hipótese está correta, seria pressuposto um grau de organização somando a uma ordem nela própria uma terceira e secreta ordem por trás das Ordens conhecidas e documentadas dos Cistercianos e do Templo. A evidência para a existência uma tal terceira ordem não demorou a chegar. Enquanto isso, nesse meio tempo, devotamos nossa atenção a hipotética ‘descoberta’ na Terra Santa da base especulativa sobre a qual se estabeleceu o nosso cenário. O que pode ter sido encontrado lá? O que podem os Templários, juntamente com São Bernardo e o Conde de Champagne terem sido particularmente conhecedores? No fim da história deles, os Templários mantiveram inviolável o segredo sobre o paradeiro de seu tesouro e a natureza dele. Nem mesmo documentos sobreviveram. Se o tesouro fosse simplesmente barras de ouro e prata e financeira, por exemplo, não teria sido necessário destruir ou esconder todos os registros, todas as regras e todos os arquivos. A implicação é que os Templários tinham algo mais sob sua custódia, algo tão precioso  que nem mesmo a tortura arrancaria uma intimação dos lábios deles. A riqueza sozinha não teria causado um segredo tão unanimemente absoluto. Seja o que for que isso tenha a ver com outros assuntos, como a atitude da Ordem em relação a Jesus.

Em 13 de outubro de 1307, todos os Templários pela França foram presos pelos senescais de Felipe O Belo. Mas esta declaração não é bem verdadeira. Os Templários de ao menos um preceptório escorregaram pela lei do Rei, o preceptório de Bezu, adjacente a Rennes-le-Chateau. Como e porque eles escaparam? Para responder esta pergunta, fomos compelidos a investigarmos as atividades da Ordem na vizinhança de Bezu. Estas atividades se provaram serem muitos extensas. De fato, havia uma meia dúzia de preceptórios e outras propriedades na área, o que cobria algumas vinte milhas quadradas. Em 1153 um nobre da região, um nobre com simpatias cátaras se tornou o Quarto Grão Mestre da Ordem do Templo. Seu nome era Bertrand de Blanchefort, e seu lar ancestral estava situado em um pico de montanha a umas poucas milhas de Bezu e de Rennes-le-Chateau. Bertrand de Blanchefort, que presidiu a Ordem de 1153 a 1170 foi provavelmente o mais importante de todos os Grãos Mestres Templários. Antes de seu regime, a hierarquia e a estrutura administrativa da Ordem eram, na melhor das hipóteses, nebulosas. Foi Bertrand que transformou os Cavaleiros Templários, em uma instituição soberbamente eficiente, bem organizada e magnicificamente disciplinada hierárquica que eles então se tornaram. Foi Bertrand que lançou o envolvimento deles na diplomacia de alto nível e na política internacional. Foi Bertrand que criou para eles uma maior esfera de interesse na Europa e particularmente na França. E segundo a evidência que sobrevive, alguns historiadores de Bertrand até mesmo listam o conselheiro dele precedendo como Grão Mestre, que foi Andre Montbard. Dentro de poucos anos da incorporação dos Templários, Bertrand não apenas havia se unido as suas fileiras, mas também conferiu a elas terras nas cercanias de Rennes-le-Chataux e Bezu. E em 1156, sob o regime de Bertrand como Grão Mestre, é dito que a Ordem importou para a área um contingente de mineiros de lingua alemã. Estes trabalhadores eram supostos se submeterem a uma rígida disciplina, virtualmente militar. Eles eram proibidos de confraternizar de qualquer modo com a população local e eram mantidos estritamente segregados da comunidade adjacente.

Um corpo judicial especial, ‘la Judicature des Allemands’, foi até mesmo criado para lidar com as tecnicalidades legais relativas a eles. E a alegada tarefa deles era trabalhar nas minas de ouro dos aclives da montanha em Blanchefort; minas de ouro que tinham sido completamente exauridas pelos romanos quase mil anos antes. Durante o século XVII  engenheiros foram comissionados para investigar as perspectivas mineralógicas da área e escreverem relatos detalhados. No curso do relato de um deles, Cesar d’Arcons, discutiu as ruínas que ele havia encontrado, restos da atividade dos trabalhadores alemães. Com base na pesquisa dele, ele declarou que os trabalhadores alemães não parecem terem se engajado em mineração. Então, no que eles estavam engajados? Cesar d’Arcons estava incerto, fundição talvez, derreter algo lá embaixo, construir algo de metal, talvez até mesmo escavar uma cripta subterrânea de algum tipo e criar uma espécie de depositório. Seja qual for a resposta a este enigma, lá tinha havido a presença dos Templários nas vizinhanças de Rennes-le-Chateau desde ao menos meados do século XII. Por 1285 havia um maior preceptório a umas poucas milhas de Bezu, em  Campagnesur-Aude. Ainda que perto do fim do século XIII, Pierre de Voisins, senhor de Bezu e Rennes-le-Chateau, tenha convidado um destacamento separado de Templários para a área, um destacamento especial da província Aragonesa de Roussillon. Este novo destacamento se estabeleceu no pico da montanha de Bezu, eregindo um posto de observação e uma capela. Ostensivamente, os Templários de Roussillon tinham sido convidados a Bezu para manterem a segurança da região e proteger a rota de romaria que passa pelo vale para Santiago de Compostela na Espanha. Mas não está claro porque estes cavaleiros extras deveriam ter sido solicitados. Em primeiro lugar eles não podem ter sido muito numerosos e nem suficientes para fazer uma diferença significativa. Em segundo lugar, já havia Templários nas vizinhanças. Finalmente,  Pierre de Voisins tinha tropas suas próprias, juntamente com os Templários que já estavam lá, que podiam garantir a segurança das cercanias. Porque, então, os Templários de Roussillon vieram a Bezu? Segundo a tradição local, eles vieram para espionar. E para explorar ou enterrar ou guardar um tesouro de algum tipo. Seja qual for a misteriosa missão deles, eles obviamente desfrutaram de algum tipo de imunidade especial. De todos os Templários da França,  eles foram deixados não molestados pelos senescais do Rei Felipe O Belo em 13 de outubro de 1307. Naquele dia fatídico, o comandante do contingente Tempário em Bezu era um Senhor de Goth. E antes de tomar o nome de Clemente V, o arcebispo de Bordeaux, o peão vacilante do Rei Felipe era Bertrand de Goth. Sobretudo, a mãe do novo pontífice era Ida de Blanchefort, da mesma família de Bertrand de Blanchefort. O papa então conhecia algum segredo confiado a custódia de sua família, um segredo que permaneceu na família até o século XVIII, quando o Abade Antoine Bigou, o cura de Rennes-le-Chateau e confessor de Marie de Blanchefort, compôs os pergaminhos encontrados por Sauiere? Se este foi o caso, o papa podia bem ter estendido algum tipo de imunidade ao seu comando parental dos Templários em Bezu. A história dos Templários perto de Rennes-le-Chateau foi claramente tão repleta de enigmas perplexantes quanto a história da Ordem em geral. De fato, há um número de fatores do papel de Bertrand de Blanchefort, por exemplo, que parecerem constituir uma ligação discernível entre os enigmas mais gerais e os localizados. Nesse meio tempo, contudo, fomos confrontados com um conjunto assustador de coincidências numerosas demais para serem mesmo coincidências. Estávamos de fato lidando com um padrão calculado? Se assim o for, a questão óbvia era quem divisou isso, porque padrões tão intrincados não se criam sozinhos. Toda a evidência a nós disponível aponta para o planejamento meticuloso e organização cuidadosa tão crescentemente que suspeitamos deva haver um grupo específico de indivíduos, talvez comprendendo uma ordem de algum tipo, trabalhando assiduamente por trás das cenas. Não temos buscado a confirmação para a existência de tal Ordem. A própria confirmação se empurrou sobre nós. A confirmação de documentos secretos de uma terceira ordem por trás dos Templários e dos Cistercianos pulou ela própria sobre nós. De início, todavia, não pudemos considerar isso seriamente.

Os Enigmas que Compõem a História

A materia parecia tão não confiável, tão vaga e nebulosa como fonte. Até que pudessemos autenticar a veracidade desta fonte, não podiamos acreditar nas afirmações dela. Em 1956 uma série de livros, artigos, panfletos e outros documentos relacionados a Berenger Sauniere e ao enigma de Renes-le-Chateau começou a aparecer na França. Este material tinha constantemente proliferado e agora é volumoso. De fato, ele vem a constituir a base para uma verdadeira ‘indústria’. E sua grande quantidade, bem como o esforço e os recursos envolvidos em produzir e disseminar isso, implicitamente atestam algo de imensa importância, ainda que não explicada. Não surpreendentemente, o caso tem servido para excitar o apetite de inúmeros pesquisadores independentes  como nós mesmos, cujos trabalhos tem se acrescentado ao corpo do material disponível. O material original, contudo, parece ter saído de uma única fonte específica. Alguns claramente tem um vestido interesse em ‘promover’ Rennes-le-Chateau, em chamar a atenção pública para a história, em gerar publicidade e investigação posterior. Seja o que mais que isso possa ser, este vestido interesse não parece ser financeiro. Ao contrário, parece ser mais da ordem de propaganda; uma propaganda que estabelece a credibilidade para algo. E seja quem possam ser os indivíduos responsáveis por esta propaganda, eles tem buscado focar os holofotes em certas matérias enquanto mantém-se escrupulosamente nas sombras. Desde 1956 a quantidade de material relevante que tem sido deliberadamente e sistematicamente ‘vazada’, do modo pouco a pouco, fragmento por fragmento. A maioria desses fragmentos propõem uma matéria, implicita ou explicitamente, de alguma fonte ‘privilegiada’ ou ‘interna’. A maioria contém informação adicional, que suplementa o que era conhecido antes e assim contribui para o enigma completo. Nem a importação nem o significado do enigma completo ainda tem sido tornado claro, contudo. Ao invés, cada novo bocado de informação tem feito mais para intensificar do que para resolver o mistério. O resultado tem sido uma rede sempre proliferante de alusões sedutoras, pistas provocativas, referências cruzadas sugestivas e ligações. Ao confrontar a riqueza de dados agora disponível, o leitor bem pode sentir que ele está sendo brincado com, ou sendo engenhosamente e talentosamente levado de conclusão a conclusão por sucessivas cenouras penduradas diante de seu nariz. E sob tudo isso tudo está a constante e pervasiva intimação de um segredo; um segredo monumental de proporções explosivas. O material disseminado desde 1956 tem tomado um número de formas. Parte dele tem aparecido em livros populares, até mesmo best-sellers, mais ou menos sensacionais, mais ou menos cripticamente instigantes. Assim, por exemplo, Gerard de Sede tem produzido uma sequência trabalhos sobre tais aparente tópicos divergentes como os Cátaros, os Templários, a dinastia Merovíngia, a Rosa Cruz, Sauniere e Rennes-le-Chateau. Nestes trabalhos de Sede está frequentemente arqueando, modesto, deliberadamente mistificando e coquetemente evasivo. Seu tom implica constantemente que ele sabe mais do que está dizendo, talvez um instrumento para ocultar que ele não sabe tanto quanto finge saber. Mas seus livros contém bastante detalhes verificáveis para construir uma ligação entre seus temas respectivos. Seja mais o que for que possa se pensar, de Sede efetivamente estabelece que os assuntos diversos a que se dirige se entrelaçam e de alguma forma forma estão interconectados. Por outro lado, não podemos senão suspeitar que o trabalho de de Sede baseia-se pesadamente na informação fornecida por um informante  e de fato, de Sede mais ou menos reconhece isso ele próprio. Muito por acidente, sabemos quem era o informante. Em 1971, quando embarcamos em nosso primeiro filme para BBC sobre Rennes-le-Chateau, escrevemos ao publicante de de Sede em Paris para certo material visual. As fotografias que solicitamos foram de acordo postadas para nós. Em cada uma delas, na parte de trás, estava impresso Plantard. Naquele tempo o nome significava pouco para nós. Mas o apêndice de um dos livros de de Sede consistia em uma entrevista com um Pierre Plantard. E subsequentemente obtivemos evidência que Pierre Plantard tinha estado envolvido com certos trabalhos de de Sede. Eventualmente Pierre Plantard começou a emergir como uma das figuras dominantes em nossa investigação.

A informação disseminada desde 1956 não tem sido sempre contida na forma popular e acessível de de Sede. Parte dela tem aparecido em tomos pesados, assustadores e até mesmo pedantes, diametralmente opostos a abordagem jornalística de de Sede. Um de tais trabalhos foi produzido por Rene Descadeillas, antigo Diretor da Biblioteca Municipal de Carcassone. O livro de Descadeillas é estenuosamente anti-sensacional. Devotado a história de Rennes-le-Chateau e suas cercanias, ele contém uma plétora de minúncias sociais e economicas por exemplo, de nascimentos, mortes, casamentos, finanças, impostos e trabalhos públicos entre os anos de 1730 e 1820. No todo, ele não pode possivelmente diferir mais dos livros para o mercado de massa de de Sede que Descadeillas em algum lugar se submete ao fatal criticismo. Além dos livros publicados, incluindo alguns que tem sido publicados particularmente, tem havido um número de artigos em jornais e revistas. Tem havido entrevistas com vários indivíduos que afirmam serem versados em uma ou outra faceta do mistério. Mas a mais importante parte da informação não tem, em sua maior parte, aparecido sob a forma de um livro. A maior parte dela tem emergido em algum lugar em documentos e planfletos não destinados a circulação geral. Muitos destes documentos e planfletos tem sido depositados, em edições impressas limitadas e particulares, na Biblioteca Nacional de Paris. Eles parecem tem sido produzidos muito baratamente. Alguns, de fato, são meras páginas datilografadas, fotolitografia, e reproduzidos em um duplicador de escritório. Até mesmo mais do que marcados trabalhos, este corpo de efemera parece ter sido emitido da mesma fonte. Por meio de anotações cripticas paralelas e notas de rodapé pertencentes a Sauniere, Rennes-le-Chateau, Poussin, a dinastia Merovíngia e outros temas, cada pedaço disso complementa, aumenta e confirma as outras. Na maioria dos casos o efemera é de autoria incerta, aparecendo sob uma variedade de pesudônimos transparentes e até mesmo ‘adoráveis” como  Madeleine Blancassal, por exemplo, Nicolas Beaucean, Jean Delaude e Antoine Ermite.

”Madeleine’, com certeza, se refere a Maria Madalena, a Madalena, a quem a Igreja de Rennes-le-Chateau é dedicada e a quem Sauniere consagrou sua Torre, a Tour Magdala. ‘Blancassal’ é formado pelo nome de dois pequenos rios que convergem perto da vila de Rennes-le-Bains, o Blanque e o Sals.  Beaucean é uma variação de Beauseante, o oficial grito de batalha e estandarte de batalha dos Cavaleiros Templários. Jean Delaude é Jean de Aude, ou João do Aude, o departamento no qual é situado Rennes-le-Chateau. E Antoine Ermite é Santo Antonio o Eremita cuja estátua adorna a igreja de Rennes-le-Chateau e cujo dia de festa é 17 de janeiro – a data na tumba de Marie de Blanchefort e a data na qual Sauniere sofreu seu ataque cardíaco fatal. A palavra atribuida a Madeleine Blancassal é intitulada “Os Descendentes Merovingios e o Enigma dos Razes Visigodos”. Razes sendo o velho nome para a região de Sauniere. Segundo sua página titulo, este trabalho foi originalmente publicado em alemão e traduzido para o francês por  Walter Celse-Nazaire, um outro pseudônimo composto dos Santos Celso e Nazaire, a quem a igreja de Rennes-le-Bains é dedicada. E segundo a página título, o publicante do trabalho foi a Grande Loja Alpina, a suprema loja maçonica da Suiça – o equivalente suiço da Grande Loja da Bretanha ou Grande Oriente na França. Não há indicação como e porque uma moderna loja maçonica deva apresentar tal interesse no mistério que cerca um obscuro cura paroquial francês do século XIX e a história de sua paróquia um milenio e meio atrás. Um de nossos colegas e pesquisador independente afirma pessoalmente ter visto o trabalho nas prateleiras da biblioteca Alpina. E subsequentemente descobrimos que a impressão Alpina apareceu em dois outros planfletos também.

De todos os documentos particularmente publicados depositados na Biblioteca Ncional, o mais importante é uma compilação de papéis intitulados coletivamente “Dossiês Secretos’. Catalogo número 249, esta compilação agora está em microfilme. Até recentemente, contudo, ela compreendiam um pequeno volume não descrito, uma espécie de pasta com capas rígidas que contém uma frouxa semelhança dos itens ostensivamente não relacionados  de novos recortes, cartas coladas em folhas, panfletos, inúmeras árvores genealógicas, e estranhas páginas impressas aparentemente extraídas de algum outro trabalho. Periodicamente algumas das páginas individuais seriam removidas. Em tempos diferentes outras páginas seriam recentemente inseridas. Em certas páginas adições e correções algumas vezes seriam feitas em uma minúscula escrita completa. Em uma data posterior, estas páginas seriam substituídas por novas, impressas e incorporando todas as emendas prévias. O groso dos Dossiês, que consiste em árvores genealógicas, é atribuido a um Henri Lobineau, cujo nome aparece na página título. Dois itens adicionais na pasta declaram que Henri Lobineau é ainda um outro pseudônimo derivado talvez de uma rua, a Rue Lobineau, que corre fora de São Suspílcio em Paris e que as genealogias são realmente o trabalho de um homem chamado Leo Schidlof, um historiador austríaco e antiquário que supostamente viveu na Suiça e morreu em 1966. Com base nesta informação, quisemos saber o que pudéssemos sobre Leo Schidlof. Em 1978 conseguimos localizar a filha de Leo Schidlof, que estava vivendo na Inglaterra. Seu pai, ela disse, era de fato austríaco. Ele não era um genealogista, historiador ou antiquário, contudo era um especialista e comerciante de miniaturas, que tinha escrito dois trabalhos sobre o assunto. Em 1948 ele havia se estabelecido em Londres, onde viveu até sua morte em Viena em 1966, o ano e lugar especificado nos Dossiês Secretos. Miss Schidlof veementemente manteve que seu pai nunca tinha tido interesse em genalogias, na dinastia Merovíngia, ou nos misteriosos acontecimentos no sul da França. Ainda que, ela continuou, certas pessoas obviamente acreditassem que ele tivesse. Durante a década de 1960, por exemplo, ele tinha recebido inúmeras cartas e telefonemas de individuos não identificados tanto da Europa quanto dos Estados Unidos, que desejavam se encontrar com ele para discutir assuntos dos quais ele não tinha qualquer conhecimento. Em sua morte em 1966, houve outra barreira de mensagens, a maioria perguntando sobre os papéis dele. Seja qual for o caso no qual o pai de Miss Schifold foi envolvido, parece ter tocado uma corda sensível do governo americano. Ele havia pedido visto de entrada nos Estados Unidos. A aplicação foi recusada com base em uma suspeita espionagem ou alguma outra forma de atividade clandestina. Eventualmente o assunto foi revisto e o visto emitido e Leo Schidlof foi admitido nos Estados Unidos. Isto bem pode ter sido uma típica confusão burocratica. Mas Miss Schidlof parecia suspeitar que ela de alguma forma estava ligada com preocupações arcanas tão perplexantes atribuidas ao seu pai. A historia de Miss Schidlof nos deu uma pausa.  A recusa do visto americano pode bem ter sido uma coincidência, porque havia, entre os papéis nos Dossiês secretos, referências que ligavam o nome de Leo Schidlof com algum tipo de espionagem internacional. Neste meio tempo, todavia, um novo panfleto havia aparecido em Paris que, durante os meses que se seguiram, foi confirmado por outras fontes. Segundo este panfleto, o escorregdio Henri Lobineau não era afinal Leo Schidlof, mas um aristocrata francês de linhagem distinta, o Conde Henri de Lenoncourt. A questão da real identidde de Lobineau nÃo era o único enigma associado aos Dossiês Secretos.

Havia também um item que se referia a Maleta de Couro de Leo Schidlof. Esta maleta supostamente continha um número de papéis secretos relacionados a Rennes-le-Chateau entre 1600 e 1800. Pouco depois da morte de Schidlof, a maleta foi dita ter passado para as mãos de um mensageiro, um certo Fakhar ul Islam que, em fevereiro de 1967, estava para se encontrar na Alemanha Oriental com um ‘agente delegado de Genebra’ e confiar a maleta a ele. Antes que a transação pudesse ser efetuada, contudo, Fakhar ul Islam foi relatadamente expulso da Alemanha Oriental e voltou a Paris para aguardar ordens posteriores. Em 20 de fevereiro de 1967 seu corpo foi encontrado nos trilhos da ferrovia em Melun, tendo sido atirado do expresso Paris-Genebra. A maleta supostamente desapareceu. Iremos examinar esta lúrida história tão longe quanto pudermos. Uma serie de artigos nos jornais franceses de 21 de fevereiro confirmam isso. Um corpo decapitado tinha sido de fato encontrado nos trilhos em Melun. Ele foi identificado como um jovem paquistanês chamado Fakhar ul Islam. Por razões que permanecem oscuras, o homem morto foi expulso da Alemanha Oriental e estava viajando de Paris para Genebra engajado, assim parecia, em algum tipo de espionagem.  Segundo os relatos dos jornais, as autoridades suspeitavam de um delito, e o caso estava sendo investigado pelo DST [Diretorio de Vigilância Territorial, ou Contra-espionagem]. Por outro lado, os jornais não fizeram menção a Leo Schidlof, uma maleta de couro ou qualquer coisa mais que ligasse a ocorrência com o mistério de Rennes-le-Chateau. Como resultado, nos deparamos com um número de perguntas. Por um lado, era possível que a morte de Fakhar ul Islam estivesse ligada a Rennes-le-Chateau que, o item nos Dossiês Secretos de fato dirigiam para uma ‘informação interna’ inacessível aos jornais. Por outro lado, o item nos Dossiês Secretos pode ter sido uma mistificação deliberada e espúria. Precisava-se apenas encontrar qualquer morte suspeita ou inexplicável e atribuir isto, depois do fato, a um de seus próprios cavalos. Mas se este de fato fosse o caso, qual era o propósito do exercício? Porque alguém deliberadamente tentaria criar uma atmosfera de intriga sinistra ao redor de Rennes-le-Chateau? O que poderia ser ganho pela criação de uma tal atmosfera? E quem poderia lucrar com isso? Estas questões nos deixaram a todos perplexos, mas porque a morte de Fakhar ul Islam não foi, aparentemente, uma ocorrência isolada.

Menos de um mês depois um outro trabalho particularmente impresso foi depositado na Biblioteca Nacional. Era era chamdo A Serpente Vermelha, e datado simbolícamente, e muito sigificativamente, de 17 de janeiro. Sua página título o atribuia a três autores: Pierre Feugere, Louis Saint-Maxent e Gaston de Koker. A Serpente Vermelha é um trabalho singular. Ele contém uma genealogia Merovíngia e dois mapas da França nos tempos Merovíngios, junto com um comentário apressado. Ele também contém uma planta de solo de São Suspílcio em Paris, que delineia as capelas dos vários santos da igreja. Mas o grosso do texto consistem em 13 tipos de poemas em prosa de impressiva qualidade literária, muitos deles reminescentes dos trabalhos de e cada um corresponde a  um signo do Zodíaco; um zodíaco de 13 signos, com o 13o., Ophiuchus ou Mantenedor da Serpente, inserido entre Escorpião e Sagitário. Narrado na primeira pessoa, os 13 poemas em prosa são um tipo de simbólico: ou romaria alegórica, começando com Aquário e terminando com Capricórnio que, como afirma o texto explicitamente, preside sobre 17 de janeiro. Em um outro texto críptico, há referências familiares – a família Blanchefort, as decorações da igreja em Rennes-le-Chateau, a algumas das inscrições de Sauniere lá, a Poussin e a pintura dos “Pastores da Arcadia” , ao moto na tumba [Et Arcadia Ego]. Em um ponto, há menção a uma ‘serpente vermelha’, citada nos pergaminhos, enrolada através dos séculos em uma explícita alusão, assim  parece, a uma linhagem sanguínea ou linhagem. E do signo astrológico de Leão, há um parágrafo enigmático digno de ser citado em sua inteireza: “Dela que eu desejo libertar, lá flutua em minha direção, a fragrância do perfume que impregna o Sepulcro. Antigamente, alguns a chamavam: Isis, rainha de todas as fontes benevolentes. Venham a mim todos que sofrem e estão aflitos e eu lhe darei o repouso. Para outros, ela é Madalena, do celebrado vaso cheio de bálsamo curador. O iniciado sabe o verdadeiro nome dela: NOTRE DAME DES CROSS.” As implicações deste parágrafo são extremamente interessantes. Isis, de fato, é a Deusa Mãe Egípcia, a patrona dos mistérios da ‘Rainha Branca’ em seus aspectos benevolentes, a ‘Rainha Negra’, nos aspectos malévolos. Inúmeros escritores, sobre mitologia, antropologia, psicologia, teologia tem traçado o culto da Mãe Deusa dos tempos pagãos à época cristã. E segundo estes escritores, ela é dita ter sobrevivido sob a Cristandade sob o disfarce da Virgem Maria, a ‘Rainha do Céu’, como a chamava São Bernardo, uma designação aplicada no Velho Testamento a Deusa Mãe Astarte, o equivalente fenício de Isis. Mas segundo o texto da Serpente Vermelha, a Deusa Mãe da Cristandade não parece ser virgem.  Ao contrário, ela pareceria ser Madalena a quem a igreja de Rennes-le-Chateau é dedicada e a quem Sauniere consagrou sua torre. Sobretudo, o texto pareceria implicar que Notre Dame não se aplica a Virgem também. Este título ressonante conferido em todas as grandes catedrais da França também pareceriam se referir a Madalena. Mas porque Madalena deve ser reverenciada como ‘Nossa Senhora’ e, ainda mais, como a Deusa Mãe? A maternidade é a última coisa geralmente associada a Madalena. Na popular tradição cristã ela é uma prostituta que acha a redenção ao aprender com Jesus. E ela figura mais importantemente no Quarto Evangelho, onde ela é a primeira pessoa a ver Jesus depois da Ressureição. Em consequência, ela é exaltada como Santa, especialmente na França, onde é dito ela ter trazido o Santo Gral.

Mas entronizar Madalena no lugar gerealmente reservado a Virgem pareceria, no mínimo, ser heretíco. Seja qual for o ponto, os autores da Serpente Vermelha – ou, muito mais,  os alegados autores, encontraram um destino tão pavoroso quanto aquele de Fakhar ul Islam. Em 6 de março de 1967, Louis Saint-Maxent e Gaston de Koker foram encontrados enforcados. E no dia seguinte, 7 de março, Pierre Feugere foi encontrado enforcado também. Pode-se imediatamente assumir, com certeza, que estas mortes estão de algum modo  ligadas com a composição e divulgação pública da Serpente Vermelha. Como no caso de Fakhar ul Islam, contudo, não se pode descartar uma explicação alternativa. Se alguém quisesse criar uma aura de mistério sinistro, seria muito fácil o fazer. Precisaria apenas folhear os jornais até encontrar uma morte suspeita ou, neste caso, três mortes suspeitas. Depois do fato, pode-se então apensar os nomes dos mortos a um panfleto de própria criação de alguém e depositar este panfleto na Biblioteca Nacional com uma data anterior [17 de janeiro] na página título. Seria virtualmente impossível expor uma tal fraude, que certamente produziria a desejada intimação do delito. Mas porque perpetrar uma tal fraude afinal? Porque alguém desejaria evocar uma aura de violência, assassinato e intriga? Um tal golpe dificilmente deteria os investigadores. Ao contrário, ele posteriormente os atrairia. Se, por outro lado, não estamos lidando com uma fraude, havia ainda um número de pergunts perplexantes. Acreditaríamos, por exemplo, que estes três homens foram vítimas de suicídio ou de assassinato? Suicídio, nas circunstâncias, parece fazer pouco sentido e assasinato não parece fazer muito sentido mais. Pode-se entender três pessoas sendo despachadas para que elas não divulguem certa informação.  Mas neste caso a informação já havia sido divulgada, já havia sido depositada na Biblioteca Nacional. Podem os assassinatos se é que eles tenham sido uma forma de punição, ou retribuição? Ou talvez um meio de evitar qulquer indiscrição subsequente? Nenhuma destas explicações é satisfatória. Se alguém está zangado pela revelação de uma certa informação, ou se alguém deseja evitar adicionais revelações, não atrai atenção sobre o assunto ao cometer um trio de lúridos e sensacionais assassinatos a menos que esteja razoavelmente confiante que não haverá um inquérito muito assíduo. Nossas próprias aventuras no curso de nossa investigação foram misericordiosamente menos dramáticas mas igualmente mistificantes. Em nossa pesquisa, por exemplo, temos encontrado repetidas referências ao trabalho de um Antoine Ermite intitulado ‘Um Tesouro Merovíngo em Rennes-le-Chateau’. Tentamos localizar este trabalho e rapidamente o encontramos listado no catálogo da Biblioteca Nacional; mas ele se provou incomumente difícil de se obter. Todo dia, durante uma semana, fomos a biblioteca e preenchemos a ficha de requisição do trabalho. Em cada ocasião a ficha retornou marcada ‘comunique’, indicando que o trabalho estava sendo usado por alguém mais. Isto por sí só não é não usual. Depois de um período de duas semanas, contudo, isso começou a se tornar assim e tão exasperante também, porque não podíamos permanecer em Paris por muito tempo mais. Pedimos a ajuda de um bibliotecário. Ele nos disse que o livro estaria indisponível por três meses – uma situação extremamente não usual e que não podiámos encomendar isto antecipadamente ao seu retorno. Na Inglaterra não muito depois uma amiga nossa anunciou que ela estava indo a Paris para umas férias. Pedimos a ela para tentar obter este trabalho fugidio de Antoine Ermite e ao menos fazer uma anotação do que ele continha.

Na Biblioteca Nacional, ela requisitou o livro. A ficha dela nem ao menos voltou. No dia seguinte, ela tentou novamente e com o mesmo resultado. Quando nós fomos a seguir a Paris, alguns quatro meses depois, fizemos uma outra tentativa. Nossa ficha novamente voltou marcada como ‘comuique’. A este ponto, começamos a sentir que o jogo de certa forma tinha sido exagerado e começamos a jogar o nosso próprio. Fizemos o nosso caminho de volta ao catálogo, adjacente as ‘áreas’ que são, com certeza, inacessíveis ao público. Encontramos um assistente de biblioteca de aparencência gentil e idosa, com o qual assumimos o papel de gaguejantes turistas ingleses com um domínio neandertalense do francês. Pedindo a ajuda dele, explicamos que estavamos procurando um trabalho em particular mas estávamos incapazes de obte-lo, sem dúvida por causa de nosso entendimento imperfeito dos procedimentos da biblioteca. O genial velho cavalheiro concordou em nos ajudar. Nós demos a ele o número de catálogo do trabalho e ele desapareceu na área reservada. Quando ele emergiu, ele se desculpou, dizendo que nada havia que ele pudesse fazer já que o livro havia sido roubado. E o que havia mais, ele acrescentou, um nosso compatriota foi aparentemente o responsável pelo roubo, um homem inglês. Depois de algum cansaço, ele consentiu em nos dar o nome dela. Era aquela nossa amiga! Quando retornarmos a Inglaterra, buscamos a assistência de um serviço de biblioteca em Londres, e eles concordaram em olhar aquele assunto bizarro. Em nosso benefício, a Biblioteca Central Nacional escreveu a Bibliteca Nacional solicitando uma explicação para o que parecia ser uma obstrução deliberada de pesquisa legitima. Nenhuma explicação foi dada posteriormente. Pouco depois, contudo, uma cópia xerox do trabalho de Antoine Ermite foi ao menos despachada para nós –  junto com enfáticas instruções que ela devia ser devolvida imediatamente.  Isto por si só era extremamente singular, porque as bibliotecas gralmente não solicitam a devolução de cópias xerox. Tais cópias geralmente são vistas como mero desperdício de papel e dispostas de acordo. O trabalho, que finalmente estava em nossas mãos, provou-se ser distintamente desapontador e dificilmente digno do negócio complicado de obte-lo; Como trabalho de Madeleine Blancassal, ele tinha a impressão da Grande Loja Suiça Alpina. Mas não dizia nada de novo. Muito brevemente, ele recapitulava a história do Conde de Razes, de Rennes-le-Chateau e de Sauniere.

Em resumo, ele reafirmava todos os detalhes com os quais a muito tempo estávamos familiarizados. Parece não haver qualquer razão imaginável para alguém te-lo estado usando e mantendo-o incomunicável por uma semana inteira. Nem havia qualquer razão imaginável para te-lo subtraido de nós. Mas o mais enigmático de tudo, o próprio trabalho não era original. Com a exceção de umas poucas palavras alteradas aqui e ali, ele era o texto verbatim [palavra por palavra] recopiado e reimpresso, de um capítulo de uma brochura popular, um beste seller fácil, disponível nas prateleiras por uns poucos francos, sobre tesouros perdidos pelo mundo. Ou Antoine Ermite tinha desavergonhadamente plagiarizado o livro publicado, ou o livro publicado tinha plagiarizado Antoine Ermite. Tais ocorrências são típicas da mistificação que tem atendido o material que, desde 1956, tem estado aparecendo fragmento por fragmento na França. Outros pesquisadores tem encontrado enigmas similares. Nomes ostensivamente plausíveis tem provado serem pseudônimos. Endereços, incluindo endereços de casas publicadoras  e organizações, tem provado não existirem. Documentos tem desaparecido, sido alterados, ou inexplicavelmente mal catalogados na Biblioteca Nacional. As vezes alguém é tentado a suspeitar de uma piada prática. Se assim o é, contudo, é uma piada prática em uma escala enorme, envolvendo um conjunto impressionante de recursos financeiros e outros. E seja quem for que possa estar perpetrando uma tal piada pareceria estar levando isso muito seriamente. Neste meio tempo, novo material continua a aparecer, com os temas familiares recorrendo como motivos condutores: Sauniere, Rennes-le-Chateau, Poussin, ‘Os Pastores da Arcadia”, os Cavaleiros Templários, Dagoberto II e a dinastia Merovíngia. Alusões a vinocultura, o desenho de vinhas figura proeminentemente, presumidamente em algum sentido alegórico. A identificação de Henri Lobineau como o Conde de Lenoucourt é um exemplo. Um outro é uma insistência crescente embora inexplicável sobre a importância de Madalena. E duas outras locações tem sido ressaltadas repetidamente, assumindo um status agora aparentemente comensurado com Rennes-le-Chateau. Uma delas é Gisors, uma fortaleza na Normandia que era de importãncia vital e política no auge das Cruzadas. A outra é Stenay, uma vez chamada Satanicum, na borda das Ardenas, a velha capital da dinastia Merovíngia, perto da qual Dagoberto II foi assassinado em 679.

O corpo do material agora disponível não pode ser adequadamente revisto ou discutido nestas páginas. Ele é denso demais, confuso demais, desconectado demais, a sobretudo copioso demais. Mas desta sempre proliferante riqueza de informação, certos pontos chave emergem que constituem a fundação para pesquisa posterior. Eles são apresentados como incontestáveis fatos históricos e podem ser resumidos como se segue:
-1- Há uma ordem secreta por trás dos Cavaleiros Templários que criou os Templários como seu braço administrativo e militar. Esta Ordem, que tem funcionado sob uma variedade de nomes, é mais frequentemente conhecida como Priorado de Sião.
-2- O Priorado de Sião tem sido dirigido por uma sequência de Grão Mestres cujos nomes  estão entre os mais ilustres na história e cultura ocidental.
-3- Embora os Cavaleiros Templários tenham sido destruídos e dissolvidos entre 1307 e 1314, o Priorado de Sião permaneceu intocável. Embora ele próprio periodicamente se despedace por luta interna e faccional, ele tem continuado a funcionar  por séculos. Agindo nas sombras, por trás das cenas, ele tem orquestrado certos eventos críticos na história ocidental.
-4- O Priorado de Sião existe hoje, e ainda está operacional. Ele é influente e desempenha um papel de alto nível nos assuntos internacionais bem como nos assuntos domésticos de certos países europeus.  Em alguma importante extensão ele é responsável pelo corpo de informação diseminada desde 1956.
-5- a meta jurada e o objetivo declarado do Priorado de Sião é a restauração da dinastia Merovingia e da linhagem  sanguínea no trono não apenas da França, mas no trono de outras nações européias também.
-6- A restauração da dinastia Merovíngia é sancionada e justificável, tanto legal quanto moralmente. Embora deposta no século VIII, a linhagem sanguinea Merovíngea não se tornou extinta. Ao contrário, ela se perpetuou em uma linhagem direta de Dagoberto II e seu filho, Sigisberto IV. Por meio  de alianças dinásticas e intercasamentos, esta linhagem veio a incluir Godfroi de Bouillon, que capturou Jerusalém em 1099, e várias outras famílias nobres e reais, passadas e presentes,  Blanchefort, Gisors, Saint Clair (Sinclair na Inglaterra), Montesquieu, Montpezat, Poher, Luisignan, Plantard e Habsburg-Lorraine.

No presente, a linhagem sanguínea Merovíngia desfruta de uma reclamação legítima de seu direito de herança. Aqui, no chamado Priorado de Sião, estava a possível explicação para a referência ao Sião nos pergaminhos encontrados por Berenger Sauniere. Aqui, também, estava uma explicação para a curiosa assinatura ‘PS’ que apareceu em um dos pergaminhos, e na pedra da tumba de Marie de Blanchefort. Não obstante, éramos extremamente céticos, como a maioria das pessoas, sobre “as teorias de conspiração da história”; a a maioria das avaliações acima nos atingiu como irrelevantes, improváveis e/ou absurdas. Mas permaneceu o fato de que certas pessoas as estavam promulgando, e o fazendo muito seriamente; tão seriamente e, há razões para acreditar, de posições de considerável poder. E seja qual for a verdade de tais avaliações, eles estavam claramente ligadas de algum modo com o mistério que cerca Sauniere e Renes-le-Chateau. Nós, portanto, embarcamos em um exame sistemático do que tinhamos começado a chamar, ironicamente, os ‘Documentos do Priorado’ e das avaliações do que eles continham. Nos comportamos submetendo estas avaliações ao cuidadoso exame crítico para determinar se eles podiam ser de qualquer modo substanciados. Fizemos isso com um ceticismo  cínico, quase ridículo, completamente convencidos que as afirmações estranhas desapareceriam sob até mesmo uma investigação superficial. Embora nós não pudessemos o saber naquele tempo, estávamos para ficar grandemente surpresos.

As Duas Sociedades Secretas
A Ordem por trás das Cenas

Nós já tinhamos suspeitado da existência de um grupo de indivíduos, senão uma Ordem ‘coerente’, por trás dos Cavaleiros Templários. A afirmação de que o Templo foi criado pelo Priorado de Sião então parecia ligeiramente mais plausível do que as outras avaliações nos ‘Documentos do Priorado’. Foi com esta afirmação, portanto, que começamos o nosso exame. Tão cedo quanto 1962 o Priorado de Sião tinha sido mencionado, brevemente, cripticamente e de passagem  em um trabalho de Gerard de Sede. A primeira referência detalhada a isso que encontramos, contudo, foi uma única página nos Dossiês Secretos. No topo desta página há uma citação de Rene Grousset, uma das maiores autoridades sobre as Cruzadas, cuja obra monumental sobre o assunto, publicada na década de 1930, é vista como um trabalho que tem influência sobre o futuro por tais historiadores modernos como Sir Steven Runciman. A citação se refere a Bauduino I, o irmão mais novo de Godfroi de Bouillon, Duque de Lorraine e conquistador da Terra Santa. Com a morte de Godfroi, Bauduino aceitou a coroa oferecida a ele e portanto se tornou o primeiro rei oficial de Jerusalém. Segundo  Rene Grousset, lá existiu, por Bauduino I, uma ‘tradição real’. E porque isso foi fundado ‘sobre a rocha de Sião’, esta tradição era igual as dinastias reinantes na Europa, a dinastia Capetiana na França, a dinastia Plantageneta [anglo-normanda] da Inglaterra, as dinastias de Hohenstauffen e Hapsburg que governavam sobre a Alemanha e a velho Sagrado Império Romano. Mas Bauduino e seus descendentes foram eleitos reis, não eram reis pelo sangue. Porque, então, devia Grousset falar de uma ‘tradição real’  que existia através dele? O próprio Grousset não explica. Nem ele explica porque esta tradição, porque ela foi fundada “sobre a rocha de Sião’, devia ser igual as principais dinastias da Europa. Na página nos Dossiês Secretos a citação de Grousset é seguida de uma alusão ao misterioso Priorado de Sião ou Ordem de Sião, como aparentemente isso era chamado naquele tempo. Segundo o texto, a Ordem de Sião foi fundada por Godfroi de Bouillon em 1090, nove anos antes da conquista de Jerusalém embora haja outros “Documentos do Priorado’  que dão a data de fundação em 1099. Segundo o texto, Bauduino, o irmão mais novo de Godfroi, ‘recebeu seu trono’ da Ordem. E segundo o texto, o assento oficial da Ordem, ou sua sede, era uma específica abadia, a Abadia de Notre Dame du Mont de Sion em Jerusalém. Ou talvez exatamente fora de Jerusalém, no Monte Sião, a famosa ‘alta montanha’ exatamente ao sul da cidade. Em consultar todos os trabalhos padrão do século XIX sobre as Cruzadas, não encontramos qualquer menção seja a qual for Ordem de Sião. Portanto tentamos estabelecer se uma tal Ordem existiu realmente e se ela poderia ter tido o poder de conferir tronos. Para fazer isso, fomos obrigados a procurar com afinco entre feixes de antiquados documentos e cartas de direitos. Não buscavamos apenas referências explícitas a Ordem. Tmbém buscávamos algum traço de sua possível influência e atividades. E buscávamos confirmar se ou não existia uma abadia chamada Notre Dame du Mont de Sion. Ao sul de Jerusalém se esgueira a ‘alta montanha’ do Monte Sião. Em 1099, quando Jerusalém caiu sob os Cruzados de Godfroi de Bouillon, lá existia nesta montanha as ruinas de uma velha basílica bizantina, datando supostamente do século IV e chamada ‘A Mãe de todas as Igrejas’ – um titulo mais que sugestivo. Segundo as numerosas cartas de direitos existentes, crônicas e narrativas contemporâneas, uma abadia foi construida no sítio destas ruínas. Ela foi construida sob o expresso comando de Godfroi de Bouillon. Ela deve ter sido um edifício imponente, uma comunidade auto-contida. Segundo um cronista, escrevendo em 1172, ela era extremamente bem fortificada, com seus próprios muros, torres e  ameias. E esta estrutura foi chamada Abadia de Notre Dame du Mont de Sion. Alguém, obviamente tinha que ocupar este território. Pode eles terem sido uma ‘Ordem’ autônoma, tomando seu nome do próprio sítio? Podem os ocupantes da Abadia de fato terem sido a Ordem de Sião? Não era irrazoável assim o assumir. Os cavaleiros e monges que ocuparam a Igreja do Santo Sepulcro, também instalada por Godfroi, foram formados  em uma ordem oficial e devidamente constituida, a Ordem do Santo Sepulcro. O mesmo princípio pode muito bem ter sido seguido pelos ocupantes da Abadia de Monte Sião, e isso pareceria ter sido assim. Sendo o principal especialista do século XIX sobre o assunto, a abadia era habitada por um capítulo de canons agostinianos, encarregados de servirem os santuários sob a direção de um Abade. A comunidade assumiu o duplo nome de ‘Sainte-Marie du Mont Syon et du Saint-Esprit’

Um outro historiador, ecrevendo em 1698, é ainda mais explícito: “Havia em Jerusalém durante as Cruzadas… cavaleiros anexados a Abadia de  Notre Dame de Sion que receberam o nome de “Cavaleiros da Ordem de Notre Dame de Sião”. Se isto não for confirmação suficiente, também descobrimos documentos do período original – apresentando o selo e a assinatura de um ou outro prior de Notre Dame de Sião. Há por exemplo uma carta de direitos, assinada por um Prior Arnaldus e datada de 19 de julho de 1116. Em uma outra carta de direitos, datada de 2 de maio de 1125, o nome de  Arnaldus aparece em conjunção com aquele de Hugues de Paiens, o primeiro Grão Mestre do Templo. Até onde se tem provado válidos os ‘Documentos do Priorado’ podemos avaliar que uma Ordem de Sião existiu pela virada do século XII. Se a Ordem foi ou não formada anteriormente, contudo, premaneceu uma questão em aberto. Não há consistência sobre o que vem primeiro, uma ordem ou as terras na qual ele é hospedada. Os Cistercianos, por exemplo, tomaram seu nome de um lugar específico, Citeaux. Por outro lado, os Franciscanos e Beneditinos, para citar apenas dois exemplos, tomaram seus nomes de indivíduos que são anteriores a qualquer abrigo específico. O máximo que podemos dizer, portanto, é que uma abadia existia por 1100 e abrigava uma ordem do mesmo nome, que pode ter sido formada anteriormente. Os ‘Documentos do Priorado’ implicam que isso era, e há alguma evidência a sugerir, embora vaga e obliquamente, este de fato pode ter sido o caso. É sabido que em 1070, 29 anos antes da Primeira Cruzada, um bando específico de monges, da Calabria ao Sul da Itália, chegou nas vizinhanças da Floresta de Ardenas, parte dos domínios de  Godfroi de Bouillon.

Segundo Gerard de Sede, este bando de monges era liderado por um indivíduo chamado ‘Ursus’ – um nome que nos ‘Documentos do Priorado’ consistetemente se associa a linhagem sanguínea Merovíngia. Em sua chegada nas Ardenas, os monges calabreses obtiveram o patrocínio  de Mathilde de Toscane, Duquesa de Lorreine que era tia de Godfroi de Boillon e, de fato, mãe adotiva. De Mathilde os monges receberam um pedaço de terra em Orval, não longe de Stenay, onde Dagoberto II tinha sido assassinado alguns 500 anos antes. Aqui foi estabelecida uma abadia para abriga-los. Não obstante, eles não permaneceram em Orval por muito tempo. Por 1108 ele haviam desaparecido misteriosamente e nenhum registro sobre o paradeiro deles sobrevive. A tradição diz que eles voltaram a Calabria. Orval, por 1131, tinha se tornado um feudo possuido por São Bernardo. Antes da partida deles de Orval, contudo, os monges calabreses podem ter deixado uma marca crucial na história ocidental. Segundo Gerard de Sede, ao menos, eles incluiam o homem subsequentemente conhecido como Pedro O Eremita. Se isto assim o for, seria extreamente significativo, porque Pedro O Eremita é frequentemente acreditado ser o tutor pessoal de Godfroi de Bouillon. Nem esta é a única afirmação para a fama. Em 1095, junto com o Papa Urbano II, Pedro se tornou conhecido pela cristandade pelo carismático aliado pregando a necessidade de uma guerra santa que reclamaria o Sepulcro de Cristo e a Terra Santa das mãos dos muçulmanos infiéis. Hoje Pedro O Eremita é visto como um dos principais instigadores das Cruzadas. Com base nas pistas divisadas pelos ‘Documentos do Priorado’, começamos a imaginar se podia haver algum tipo de sombria continuidade entre os monges de Orval, Pedro O Eremita e a Ordem de Sião. Certamente pareceria que os monges de Orval não eram apenas uma bando aleatório de devotos religiosos itinerantes. Ao contrário os movimentos deles de chegada coletiva nas Ardenas vindos da Calábria e o seu misterioso desaparecimento em massa atestam algum tipo de coesão, algum tipo de organização e talvez uma base permanente em algum lugar. E se Pedro fosse membro deste bando de monges, seus pregação de uma Cruzada pode ter sido uma manifestação não de claro fanatismo, mas de política calculada. Se ele era o tutor pessoal de Godfroi de Bouillon, sobretudo, pode muito bem ter desempenhado o mesmo papel em convencer seu pupilo em embarcar para a Terra Santa. E quando os monges desapareceram de Orval, eles podem não ter afinal voltado a Calabria. Eles podem ter se estabelecido em Jerusalém, talvez na Abadia de Notre Dame de Sião.

Isto, de fato, é uma hipótese especulativa, sem qualquer confirmação documental. Novamente, contudo, encontramos fragmentos de evidência circunstancial que apoie isso. Quando Godfroi de Bouillon embarcou para a Terra Santa, ele é sabido ter sido acompanhado por uma entourage de figuras anônimas que agiam como conselheiros e administradores o equivalente, de fato, de uma equipe geral moderna. Mas o de Godfroi não foi o único exército cristão a embarcar para a Palestina. Havia ao menos três outros, cada um comandado por um ilustre e influente potentado ocidental. Se a cruzada se provasse bem sucedida, se Jerusalém caísse e um reino franco fosse estabelecido, qualquer um desses quatro potentados teria sido elegível para ocupar seu trono. E ainda que Godfroi pareça ter sabido de antemão que ele seria selecionado. Só entre os comandantes europeus, ele renunciou aos seus feudos, vendeu todos os seus bens e tornou aparente que a Terra Santa, pela duração de sua vida, seria seu domínio. Em 1099, imediatamente depois da captura de Jerusalém, um grupo de figuras anônimas se reuniu em um conclave secreto. A identidade dessse grupo tem fugido a todo inquérito histórico embora Guillaume de Tyre, escrevendo uns 75 anos depois, relata que o mais importante deles era um certo Bispo da Calabria. Em qualquer caso, o propósito do encontro era claro: eleger um rei de Jerusalém. E a despeito de uma afirmação persuasiva de Raymond, Conde de Toulouse, os eleitores obviamente misteriosos e influentes prontamente ofereceram o trono a Godfroi de Bouillon. Com modéstia não característica, Godfroi declinou o título, aceitando ao invés o de ‘Defensor do Santo Sepulcro’. Em outras palavras, ele era um rei em tudo, menos no nome. E quando ele morreu, em 1100, seu irmão, Bauduino, não hesitou em aceitar o nome também. Pode este misterioso conclave que elegeu o governante Godfroi ter sido os monges fugidios de Orval, incluindo, talvez Pedro O Eremita, que estava na Terra Santa nesse tempo e desfrutava de considerável autoridade? E pode este mesmo conclave ter ocupado a Abadia de Sião? Em resumo, podem estes três grupos ostensivamente distintos de indivídos [os monges de Orval, o conclave que elegeu Godfroi e os ocupantes de Notre Dame de Sião] terem sido um só e mesmo grupo? A possibilidade não pode ser provada, mas também não pode ser descartada. E se isso é verdade, certamente atestaria o poder da Ordem de Sião, um poder que incluia o direito de conferir tronos.

O Mistério que Cerca a Fundação dos Templários

O texto nos Dossiês Secretos continuam para se referir a Ordem do Templo. Os fundadores do Templo são especificamente listados como Hugues de Payen, Bisol de St. Omer e Hugues, o Conde de Champagne, juntos com certos outros membros da Ordem de Sião, Andre de Montbard, Archambaud de Saint-Aignan, Nivard de Montdidier, Gondemar e Rossal’. Já estávamos familiarizados com Hugues de Payens e Andre de Montbard, o tio de São Bernardo. Também estávamos familiarizados com Hugues, o Conde de Champagne que doou a terra da abadia de São Bernardo em Clairvaux, ele próprio se tornando um Templário em 1124 [jurando fidelidade ao seu próprio vassalo] e recebeu do Bispo de Chartres a carta citada acima. Mas embora a ligação do Conde de Champagne com os  Templários seja bem conhecida, nós nunca o tinhamos visto anteriormente citado como um de seus fundadores. Nos Dossiês Secretos ele é. E Andre de Montbard, o sombrio tio de São Bernardo, é listado como pertencendo a Ordem de Sião, em outras palavras, a uma outra ordem, que é anterior a Ordem do Templo e desempenha um papel fundamental na criação do Templo. Nem isso é tudo. O texto nos Dossiês Secretos afirma que em março de 1117, Bauduino I, ‘que possuia o trono de Sião’, foi obrigado a negociar a constituição da Ordem do Templo no sítio de Saint Leonard de Acre. Nossa própria pesquisa revelou que Saint Leonard de Acre era de fato um dos feudos da Ordem de Sião. Mas estamos incertos porque Bauduino tenha sido ‘obrigado’ a negociar a constituição do Templo. Em francês, o verbo certamente denota um grau de coação ou pressão. E a implicação nos Dossiês Secretos foi que esta pressão foi exercida para manter a Ordem de Sião de quem Bauduino recebeu seu trono. Se foi esse o caso, a Ordem de Sião teria sido a mais influente e poderosa organização; uma organização que não apenas podia conferir tronos, mas também, aparentemente, compelir um rei a cumprir sua ordem.. Se a Ordem de Sião foi de fato a responsável pela eleição de Godfroi de Bouillon, então Bauduino, o irmão mais novo de Godfroi, teria recebido seu trono por influência dela. Como já haviamos descoberto, sobretudo, há evidência incontestável que a Ordem do Templo existiu, ao menos em uma forma embrionária, por uns bons quatro anos antes da sua data de fundação geralmente aceita de 1118.

Em 1117 Bauduino era um homem doente, cuja morte estava patentemente iminente. É  portanto possível que os Cavaleiros Templários fossem ativos, embora em uma capacidade ex ofício, muito antes de 1118 como, digamos, o braço militar ou administrativo da Ordem de Sião, hospedada em sua abadia fortificada. E é possível que o rei Bauduino, em seu leito de morte, foi compelido pela doença, pela Ordem de Sião ou por ambas a garantir aos Templários algum status oficial, ao dar a eles uma constituição e torna-la pública. Ao pesquisar os Templários já tínhamos começado a discernir uma rede de conexões complicadas, provocantes e elusivas, os vestígios sombrios talvez de algum projeto ambicioso. Com base nestas conexões, tinhamos formulado uma hipótese temporária. Se nossa hipótese era acurada ou não, não podiamos saber; mas os vestígios de um projeto tinham agora e tornado até mesmo mais aparentes. Reunimos os fragmentos do padrão que se segue:
[ 1 ] – No fim do século XI um misterioso grupo de monges da Calabria aparece nas Ardenas, onde eles são bem recebidos, patrocinados e recebem terra em Orval da tia e mãe adotiva de Godfroi de Bouillon.
[ 2 ] – Um membro desse grupo pode ter sido o tutor pessoal de Godfroi de Bouillon e pode ter co-instigado a Primeira Cruzada
[ 3 ] – Algum tempo antes de 1108 os monges de Orval desacamparam e desapareceram. Embora não haja registro do destino deles, este pode muito bem ter sido Jerusalém. Certo Pedro O Eremita embarcou para Jerusalém; e se ele foi um dos monges de Orval, é provavel que sua irmandade tenha se juntado a ele.
[ 4 ] – Em 1099 Jerusalém cai e é oferecido a Godfroi o trono por um conclave anônimo cujo líder, como os monges de Orval, é de origem calabresa.
[ 5 ] – Uma abadia é criada sob o comando de Godfroi em Monte Sião, que abriga uma Ordem de mesmo nome; uma ordem que compreende indivíduos que ofereceram a ele o trono.
[ 6 ] – Por 1114 os Cavaleiros Templários já estão ativos, talvez como a entourage armada da Ordem de Sião; mas sua constituição não é negociada até 1117, e eles próprios não se tornam públicos até o ano seguinte.
[ 7 ] – Em 1115, São Bernardo, membro da Ordem Cisterciana, então as margens do colapso econômico, emerge como um proeminente portavoz da Cristandade. E os anteriormente destituidos cistercianos rapidamente se tornam uma das instituições mais proeminentes, influentes e ricas na Europa.
[ 8 ] – Em 1131 São Bernardo recebe a Abadia de Orval, vaga alguns anos antes pelos monges da Calabria. Orval então se torna uma casa Cisterciana.
[ 9 ] –  Ao mesmo tempo certas figuras obscuras parecem se mover constantemente para dentro e para fora desses eventos, alivanhando uma tapeçaria unida de uma maneira que não está de todo clara. O Conde de Champagne, por exemplo, doa a terra para a Abadia de São Bernardo em Clairvaux, estabelece uma côrte em Troyes, onde subsequentemente são divulgados os romances do Gral e, em 1114, pensa em se unir aos Cavaleiros Templários cujo primeiro Grão Mestre registrado, Hugues de Payens, já era seu vassalo.
[ 10 ] –  Andre de Montbard, o tio de São Bernardo, e alegado membro da Ordem de Sião, se une a Hugues de Payens para fundar os Cavaleiros Templários. Logo depois, os dois irmãos de Andre se unem a São Bernardo em Clairvaux.
[ 11 ] – São Bernardo se torna um entusiástico relações públicas exponente para os Templários, contribui para a incorporação oficial deles e para escrita de suas regras – que é essencialmente aquela dos Cistercianos, a própria ordem de Bernardo.
[ 12 ] – Entre aproximadamente 1115 e 1140, tantos Cistercianos quanto Templários começam a prosperar, adquirindo vastas somas de dinheiro e pedaços de terra.

Novamente não podemos senão imaginar se esta multitude de conecções intrincadas foi de fato inteiramente coincidental. Estamos olhando para um número de pessoas essencialmente não conectadas, eventos e fenômenos que apenas ‘aconteceram’, em intervalos, para se entrelaçar e cruzar com outros caminhos? Ou estamos lidando com algo que não foi aleatório ou coincidental afinal? Estavamos lidando com um plano de algum tipo, concebido e engendrado por alguma agência humana? E pode esta agência ter sido a Ordem de Sião? Pode a Ordem de Sião ter realmente ficado por trás de São Bernardo e dos Cavaleiros Templários? E ambos podem ter agido de acordo com alguma política cuidadosamente evoluida?

Luis VII  e o Priorado de Sião

Os ‘Documentos do Priorado’ não dão indicações das atividades da Ordem de Sião entre 1118 [a fundação pública dos Templários] e 1152. Por todo esse tempo, pareceria, a Ordem de Sião permaneceu baseada na Terra Santa, na abadia fora de Jerusalém. Então, na volta dele depois da Segunda Cruzada, Luis VII da França é dito ter trazido com ele 95 membros da Ordem. Não há indicação da capacidade na qual eles atendiam ao rei, nem porque ele deva ter estendido sua generosidade a eles. Mas se a Ordem de Sião fosse de fato o poder por trás do Templo, isto constituiria uma explicação já que Luis VII estava pesadamente em dívida com o Templo, tanto em dinheiro quanto em apoio militar. Em qualquer caso, a Ordem de Sião, criada meio século antes por Godfroi de Bouillon, em 1152 estabeleceu ou restabeleceu um pé na França. Segundo o texto, 62 membros da Ordem foram instalados no grande ‘priorado’ de Saint-Samson em Orleans, que o Rei Luis doou a eles. Sete deles foram relatadamente incorporados as fileiras combatentes dos Cavaleiros Templários.  E 26 grupos de 13 cada um são ditos terem entrado para o ‘pequeno priorado de Sião’, situado em Saint jean le Blanc nos arredores de Orleans. Ao tentar autenticar estas declarações, subitamente nos encontramos em solo prontamente provável. As cartas de direitos pelas quais Luis VII instalou a Ordem de Sião em Orleans ainda são existentes. Cópias tem sido reproduzidas por um número de fontes, e os originais podem ser vistos nos arquivos municipais de Orleans. Em alguns arquivos há também uma Bula datada de 1178, do Papa Alexandre III, que confirma oficialmente as posses da Ordem de Sião. Estas posses atestam a riqueza da Ordem, seu poder e influência. Elas incluem casas e grandes pedaços de terra na Picardia, na França [inclindo Saint-Samson em Orleans], a Lombardia, na Calábria , Sicília e Espanha, bem como, com certeza, um número de sítios na Terra Santa, incluindo Saint Leonard de Acre. Até a Segunda Guerra Mundial, de fato, havia nos arquivos de Orleans não menos que vinte cartas de direitos especificamente citando a Ordem de Sião. Durante o bombardeio da cidade em 1940 todas, menos três, desapareceram.

O Corte do Elmo em Gizors

Se são para serem acreditados os ‘Documentos do Priorado’, 1188 foi um ano de importância crucial para o Sião e os Cavaleiros Templários. Um ano antes, em 1187, Jerusalém havia sido perdida para os Sarracenos principalmente devido a impetuosidade e inépcia de Gerard de Ridefort, Grão Mestre do Templo. O texto nos ‘Dossiês Secretos’ é cosideravelmente mais severo. Ele explica não apenas a impetuosidade de Gerard ou sua inépcia, mas sua ‘traição’ – uma palavra de fato muito dura. O que constituiu esta traição não é explicado. Mas como resultado dela os ‘iniciados’ de Sião são ditos terem voltado em massa para a França, presumidamente para Orleans. Logicamente esta avaliação é bastante plausível. Quando Jerusalém caiu diante dos Sarracenos, a Abadia de Monte Sião obviamente caiu também. Sem a base deles na Terra Santa, não seria surpreendente se os ocupantes da abadia buscassem refúgio na França, onde uma nova base já existia. Os eventos de 1187, a ‘traição’ de Gerard de Ridefort e a perda de Jerusalém parecem ter precipitado uma ruptura desastrosa entre a Ordem de Sião e a Ordem do Templo. Não está claro precisamente porque isso deva ter ocorrido, mas segundo os ‘Dossiês Secretos’ o ano seguinte testemunhou um decisivo ponto de virada nos assuntos de ambas Ordens. Em 1188 uma separação formal supostamente ocorreu entre as duas instituições. A Ordem de Sião, que tinha criado os Cavaleiros Templários, agora lavava suas mãos de seus celebrados protegidos. O ‘pai’, em outras palavras, ‘oficialmente desconheceu o filho’. Esta ruptura é dito ter sido comemorada por um ritual ou cerimonia de algum tipo. Nos Dossiês Secretos e em outros Documentos do Priorado isso é referido como ‘cortar o elmo’ e alegadamente ocorreu em Gizors em 1188.  As narrativas são enfeitadas e obscuras, mas a história e a tradição confirmam que algo extremamente estranho aconteceu em Gizors em 1188 e que envolveu o corte de um elmo. Na terra adjacente a fortaleza havia um campo chamado Campo Sagrado. Segundo cronistas medievais, o sítio havia sido considerado sagrado deste os tempos pré cristãos, e durante o século XII tinha fornecido o assentamento para inúmeros encontros entre os Reis da Inglaterra e da França. No meio do Campo Sagrado ficava um elmo antigo. E em 1188, durante um encontro entre Henrique II da Inglaterra e Felipe II da França, por alguma razão desconhecida, este elmo se tornou objeto de disputa séria e até mesmo sangrenta. Segundo uma narrativa, o elmo fornecia a unica sombra do Campo Sagrado. É  dito que ele tinha mais de 800 anos e tão grande quanto nove homens, unindo as mãos podiam mão abraçar seu diâmetro.  Sob a sombra desta árvore Henrique II e sua entourage supostamente tomou abrigo, deixando o monarca francês, que chegou mais tarde, sem misericórdia sob a luz do sol. Pelo terceira dia das negociações a tempera francesa tinha se tornado fragilizada pelo calor, insultos foram trocados pelos homens em armas e uma flecha voou das fileiras dos mercenários de Henrique. Isto provocou uma matança em escala completa pelos franceses, que grandemente superavam em número os ingleses. Os últimos buscaram refúgio dentro dos próprios muros de Gizors, enquanto foi dito que os franceses cortaram a árvore em frustração. Felipe II então disparou para Paris declarando que não faria o papel de um lenhador. A história tem a característica simplicidade e encanto medieval , contentando-se com a narrativa superficial que aponta entra as linhas para algo de maior importância  e motivações que foram deixadas inexploradas. Por si só, ela quase parece absurda – tão absurda e possivelmente apócrifa como, digamos, as histórias associadas coma fundação da Ordem de Garter. Ainda que haja confirmação da história, se não em seus detalhes específicos, em outras narrativas. Segundo um outro cronista, Felipe parece ter dado a perceber a Henrique que ele pretendia cortar a árvore. Henrique supostamente respondeu ao reforçar o tronco do elmo com bandas de ferro. No dia seguinte os franceses se armaram e formaram uma falange de cinco esquadrões, cada um comandado por um senhor distinto do reino, que avançou sobre o elmo, acompanhado por arqueiros bem como carpinteiros equipados de machados e martelos. é dito ter começado uma luta, na qual Ricardo Coração de Leão, o filho mais velho e herdeiro de Henrique, participou, tentando proteger a árvore perdendo muito sangue no processo. Não obstante, os franceses mantinham o campo no dia seguinte e no fim do dia, a árvore foi cortada. Esta segunda narrativa implica em algo mais do que uma diputa medíocre ou escaramuça menor. Ela implica em um engajamento em escala completa, envolvendo números substanciais e possivelmente baixas substanciais. Ainda que nenhuma biografia de Ricardo faça muito de tal caso, ainda menos que o explore. Novamente, contudo, nos Documentos do Priorado foram confirmados a história registrada e a tradição  na extensão, ao menos, de uma curiosa disputa que ocorreu em Gizors em 1188, que envolveu o corte de um elmo. Não há confirmação externa que esse evento foi relacionado de qualquer modo aos Cavaleiros Templários ou a Ordem de Sião. Por outro lado, as narrativas existentes do caso são tão vagas , tão reduzidas, tão incompreensíveis, tão contraditórias para serem aceitas como definitivas. É extremamente provável que os Templários estivesem presentes no incidente já que Ricardo I era frequentemente acompanhado pelos cavaleiros da Ordem, e sobretudo, Gizors, trinta anos antes, tinha sido confiada ao Templo. Dado a evidência existente, é certamente possível, se não provável, que o corte do elmo envolveu algo mais ou alguém mais do que as narrativas que tem sido preservadas para a posteridade implicam. De fato, dado a absoluta estranheza das narrativas sobreviventes, não seria surpreendente se algo mais ou alguma outra coisa estivesse envolvida – algo desprezado, ou talvez nunca tornado público, pela história, algo, em resumo, das narrativas sobreviventes como uma espécie de alegoria, simultaneamente intimando e ocultando um caso de muito maior importância.

Ormus de 1188 em diante

Os documentos do priorado mantém, os Cavaleiros Templários eram autônomos e não mais estavam sob a autoridde da Ordem de Sião, ou agindo como seu braço administrativo e militar. A partir de 1188 os Templários estavam oficialmente livres para buscarem seus próprios objetivos e fins, seguirem seu próprio curso pelo resto do século aproximadamente e até sua amarga destruição em 1307.

E nesse meio tempo, a Ordem de Sião é dita ter passado por uma maior reestruturação administrativa sua própria. Até 1188 a Ordem de Sião e a Ordem do Templo eram ditas terem partilhado do mesmo Grão Mestre.  Hugues de Payen e Bertrand de Blanchefort, por exemlo, teriam presidido as duas instituições simultaneamente. Começando em 1188, todavia, depois de ‘ter cortado o elmo’, a Ordem de Sião reportadamente selecionou seu próprio Grão Mestre, que não tinha qualquer ligação com o Templo. O primeiro de tais Grão Mestres, segundo os Documentos do Priorado, foi Jean de Gizors, Em 1188 é dito que a Ordem de Sião alterou seu nome, adotando um  que tem sido alegadamente obtido até o presente de Priorado de Sião. E, como um tipo de sub-título, é dito ter adotado o curioso nome de Ormus. Este sub-título foi supostamente usado até 1306 – um ano antes da prisão dos Templários franceses. O símbolo para Ormus era um ‘U’ e envolve um tipo de acróstico ou anagrama que combina um número de palavras chave e símbolos. Ours significa urso em latim, um eco, como subsequentemente se tornou aparente, de Dagoberto II e da dinastia Merovíngia. Ome é o francês para elmo. Or de fato é ouro. e o ‘m’ que forma a estrutura envolvendo as outras letras não é a letra ‘m’, mas o símbolo astrológico de Virgem, significando, na iconografia medieval, Notre Dame. As nossas pesquisas não revelaram qualquer referência em qualquer lugar a uma ordem medieval ou instituição que tivesse o nome Ormus. Neste caso não encontramos substanciação externa para o texto nos Dossiês Secretos, nem até mesmo qualquer  evidência circunstancial para argumentar sua veracidade. Por outro lado ‘Ormus’ ocorre em dois outros contextos radicalmente diferentes. Ele figura no pensamento zoroastriano e nos textos gnósticos onde é sinônimo do princípio de luz. E ele aparece novamente entre os pedigrees afirmados pelo final do século XVII da Livre Maçonaria. Segundo os ensinamentos maçonicos, Ormus era o nome de um sábio e místico egípcio, um adepto gnóstico da Alexandria. Ele viveu, supostamente, durante os anos inciais da época cristã. Em 46 ele e seis de seus seguidores foram supostamente convertidos a uma forma de cristianismo por um dos discípulos de Jesus, São Marcos, na maioria das narrativas. Desta conversão é dito ter nascido uma nova seita ou ordem que fundiu os dogmas da cristandade inicial com os ensinamentos de outra escola de mistério até mesmo mais antiga. A nosso conhecimento esta história não pode ser autenticada. Ao mesmo tempo, contudo, é certamente plausível. Durante o século I de nossa era Alexandria era um real leito quente de atividade mística, uma encruzilha na qual as doutrinas judaicas, mitraicas, zoroastrianas, pitagoreanas, herméticas, e neo-platonicas expandiam-se no ar e se combinavam com inumeráveis outras. Professores de todos os tipos concebíveis abundavam. E dificilmente seria surpreendente se um deles adotasse um nome implicando no princípio  da luz. Segundo a tradição maçonica, em 46 Ormus é dito ter conferido a sua recentemente constituida ordem de ‘iniciados’ um específico símbolo identificador – uma cruz vermelha ou rosa. Garantidamente, a cruz vermelha foi subsequentemente para encontrar um eco no brazão dos Cavaleiros Templários, mas a importancia dos textos nos Dossiês Secretos, e em outros Documentos do Priorado é inequivocamente clara. Alguém pretendia ver em Ormus as origens da chamada Rosacruz, ou Rosacrucianos. E em 1188 é dito que o Priorado de Sião tem adotado um segundo sub-título, em adição a Ormus.  É  dito ter sido Ordem da Verdade Rosacruz [Ordre de la RoseCroix Veritas]. A este ponto nos pareceu ser um território muito questionável, e o texto dos Documentos do Priorado começaram a parecer altamente suspeitos.  Estavamos familiarizados com as declarações dos modernos Rosacrucianos na Califórnia e outras organizações contemporaneas, que afirmam elas próprias, depois de um fato, um pedigree remotando as névoas da antiguidade que inclue a maioria dos grandes homens do mundo.

Uma Ordem Rosacruz datando de 1188 pareceu igualmente espúria. Como tem demonstrado convincentemente Frances Yates, não há qualquer evidência connhecida de Rosacrucianos [ao menos no nome] antes do início do século XVII ou talvez os últimos anos do século XVI. O mito que cerca a legendária Ordem data de aproximadamente 1605, 1615 e 1616 respectivamente, proclamada a existência de uma fraternidade secreta ou confraternidade iniciados místicos, alegadamente fundada por um Cristão Rosacruz que, foi mantido, nasceu em 1378 e morreu, aos 106 anos, em 1484. Cristão Rosacruz e sua fraternidade secreta são agora geralmente reconhecidos terem sido ficticiamente uma fraude de tipos, divisada para algum propósito que ainda não foi satisfatoriamente explicado, embora não sem repercussões políticas naquele tempo. Sobretudo, o autor de um dos três tratados, o famoso Casamento Alquímico do Cristão Rosacruz, que apareceu em 1616, é agora conhecido. Ele foi Johann Valentin Andrea, um escritor e teólogo alemão vivendo em Wurttemberg, que os neo-platonicos confessaram que ele compôs o Casamento Alquímico como uma ‘troça’, uma ‘piada’ ou talvez uma comédia no sentido da palavra de Dante e Balzac. Há razão para acreditar que Andrea, ou um de seus associados, compôs os outros tratados rosacrucianos também. E esta é a fonte do Roascrucianismo, como ela evoluiu e como alguém pensa nela hoje, pode ser traçada. Se os Documentos do Priorado eram acurados, contudo, teriamos que reconsiderar, e pensar em algo difernte de uma farsa do século XVII. Teriamos que pensar em termos de uma ordem ou sociedade secreta que realmente existiu, uma genuina fraternidade clandestina. Ela não precisava ser inteiramente ou até mesmo primariamente mística. Ela podia ser grandemente política. Mas ela teria existido 425 anos completos antes que seu nome se tornasse público, e uns bons dois séculos antes que seu legendario fundador é ajegadamente ter vivido. Novamente não encontramos evidência substanciante. Certamente a rosa tem sido um símbolo místico desde tempo imemoriais e desfrutou de uma cultura particular durante a Idade Média no romance popular da Rosa de Jean de Meung, por exemplo, e no paraíso de Dante. Ela subsequentemente tornou-se a cruz de São Jorge e, como tal, foi adotada pela Ordem de Garter criada alguns trinta anos depois da queda do Templo. Mas embora rosas e cruzes vermelhas abundem como motivos simbólicos, não há evidencias de uma instituição ou uma ordem, ainda menos de uma sociedade secreta. Por outro lado,  Frances Yates mantém que havia sociedades secretas funcionando muito antes do século XVII, ‘rosacrucianas’, e que estas sociedades iniciais eram, de fato, ‘rosacrucianas’ na orientação política e filosófica, se não necessariamente no nome. Assim, em conversa com uma de nossas pesquisadoras, ela descreveu Leonardo da Vinci como um ‘rosacruciano’ usando o termo como uma metáfora para definir seus valores e atitudes. Não apenas isso. Em 1629, quando o interesse ‘rosacruciano’ na Europa estava em seu zênite, um homem chamado Robert Denyau, cura de Gisors, compôs uma história exaustiva de Gizors e da família Gizors. Em seu manuscrito, Denyau afirma explicitamente que a Rosacruz foi fundada por Jean de Gizors em 1188. Em outras palavras, há uma confirmação verbatim do século XVII das afirmações feitas nos Documentos do Priorado. Garantidamente, o manuscrito de Denyau foi composto alguns quatro séculos e meio depois do fato alegado.  Mas ele constitui um fragmento extremamente importante de evidência. E o fato de que ele tenha sido emitido de Gizors o torna ainda mais importante. Somos deixados, todavia, sem confirmação, somente com uma possiblidade. Mas em cada aspecto até onde diga respeito aos Documentos do Priorado, eles tem se mostrado atonitamente acurados. Então teria sido muito difícil descarta-los de antemão. Não estamos preparados para aceita-los com uma fé cega e inquestionável. Mas nos sentimos obrigados a reservar o julgamento.

O Priorado de Orleans

Além de suas afirmações mais grandiosas, os Documentos do Priorado ofereceram informação de um tipo muito diferente, minunciosamente assim aparentemente trivial e inconsequente que sua importância nos fugiu. Ao mesmo tempo a imensa importância desta informação argumentou a favor de sua veracidde. Muito simplesmente lá não parecia haver um ponto para inventar ou criar tais detalhes menores. E ainda mais, a autenticidade de alguns desses detalhes pode ser confirmada. Então, por exemplo, Girard, abade do pequeno priorado em Orleans entre 1239 e 1244, é dito ter cedido um pedaço de terra em Acre para os Cavaleiros Teutônicos. Porque isso devesse ser mencionado não está claro, mas isso pode ser definitivamente estabelecido. A real carta de direitos existe, datando de 1239 e tendo a assinatura de Girard. Informação de um tipo similar, embora mais sugestivo, é oferecida sobre um abade chamado Adam, que presidiu sobre o pequeno priorado em Orleans em 1281. Neste ano, segundo os Documentos do Priorado, Adam cedeu um pedaço de terra perto de Orval aos monges que então ocupavam a abadia lá – cistercianos, que tinham se mudado sob a égide de São Bernardo um século e meio antes. Não pudemos encontrar evidência escrita desta particular transação, mas ela nos parece bastante plausível já que há cartas de direitos atestando inumeras outras transações da mesma natureza. O que torna esta interessante, com certeza, é a recorrência de Orval, que tem figurdo anteriormente em nosso inquérito. Sobretudo, o pedaço de terra em questão parece ter sido de especial importância, porque os Documentos do Priorado nos dizem que Adam incorreu na ira da irmandade de Sião por esta doação; tanto que aparentemente ele foi compelido a renunciar a sua posição. O ato de abdicação, segundo os Dossiês Secretos, foi formalmente testemunhado por Thomas de Sainville, o Grão Mestre da Ordem de São Lázaro em 1281 e a sede de São Lázaro era próxima a Orleans onde a abdicação de Adam teria acontecido. Duas proclamações e duas cartas foram de fato assinadas por ele lá, a primeira datada de agosto de 1281 e a segunda de março de 1289.

O Chefe dos Templários,

Segundo os documentos do Priorado, o Priorado de Sião não era, estritamente falando, uma perpetuação ou continuação da Ordem do Templo: ao contrário, o texto ressalta enfaticamente que a separação entre as duas ordens data de ‘cortar o elmo’ em 1188. Aparentemente, contudo, algum tipo de entendimento continuou a existir, e em 1307,  Guillaume de Gisors recebeu a cabeça dourada, Caput LVIII Fa da Ordem do Templo. Nossa investigação sobre os Templários já nos havia famiiarizado com esta misteriosa cabeça. Liga-la ao Sião, contudo, e com a aparentemente importante família de Gizors, novamente nos atingiu como duvidosa como se os Documentos do Priorado estivessem se esticando para fazer ligações poderosas e evocativas. E ainda que fosse precisamente a este ponto que encontramos algumas de nossas mais sólidas e intrigantes confirmações. Segundo os registros oficiais da Inquisição: O guardião e administrador dos bens do Templo de Paris, depois das prisões, foi um homem do rei chamado Guillaume Pidoye. Diante dos inquisidores em 11 de maio de 1308, ele declarou que ao tempo da prisão dos Cavaleiros Templários, ele, juntamente com seu colega Guillaume de Gisors e um  Raynier Bourdon, tinham sido ordenados a apresentarem a Inquisição todas as figuras de metal ou madeira que encontrassem. Entre os bens do templo eles encontraram uma grande cabeça de prata… a imagem de uma mulher, que Gulhaume, em 11 de maio, apresentou diante da Inquisição. A cabeça carregava um rótulo: CAPUT LVIIIm.  Se a cabeça continuava a nos surpreender, o contexto no qual Gulhaume de Gizors apareceu foi igualmente perpexante. Ele é especificamente citado como sendo colega de Guillaume Pidoye, um dos homens do Rei Felipe. Em outras palavras, ele, como Felipe, pareceriam terem sido hostis aos Templários e participado do ataque a eles. Segundo os Documentos do Priorado, contudo, Guilhaume era Grão Mestre do Priorado de Sião naquele tempo. Isto significou que o Priorado endossou a ação de Felipe contra os Templários, talvez até mesmo colaborando nisso? Há certos documentos do Priorado que apontam para que este pode ter sido o caso, que Sião, de algum modo não especificado, autorizou e presidiu a dissolução de seus desgovernados protegidos. Por outro lado, os Documentos do Priorado também implicam queo Sião exercia um tipo de proteção paternal em relação ao menos a certos Templários durante os últimos dias da Ordem. Se isso é verdade, Guilhaume de Gizors pode ter sido um ‘agente duplo’. Ele bem pode ter sido o responsável pelo vazamento dos planos de Felipe, o meio portanto pelo qual os Templários receberam o aviso antecipado ds maquinações do Rei contra eles. Se depois da separação formal em 1188, o Sião de fato continuou a exercer algum controle clandestino sobre os assuntos do Templo, Guillaume de Gisors pode ter sido parcialmente responsável pela cuidadosa destruição dos documentos da Ordem e pelo desaparecimento inexplicável de seu tesouro.

Os Grão Mestres dos Templários

Além da informação fragmentada discutida acima, o texto nos Dossiês Secretos incluem três listas de nomes. A primeira desta é direta o suficiente – ao menos interessante, e ao menos aberta a controvérsia ou dúvida, sendo meramente uma lista de abades que presidiram as terras de Sião na Palestina entre 1152 e 1281. Nossa pesquisa confirmou sua veracidade: ela aparece em outros lugares, independentes dos Dossiês Secretos, e em fontes acessíveis e não impugáveis. As listas nestas fontes concordam com a história verificável, mas muito compreensivo no que elas preenchem certas lacunas. A segunda lista nos Dossiês secretos é uma lista dos Grão Mestres dos Cavaleiros Templários de 1118 até 1190, em outra palavras, da fundação pública do Templo até sua separação de Sião e do ‘cortar o elmo’ em Gizors . De início parecia não haver algo não usual ou extraordinário sobre esta lista. Quando a comparamos com outras listas, contudo aquelas citadas por historiadores reconhecidos escrevendo sobre os Templários, por exemplo certas discrepâncias óbvias rapidamente emergiram.

Segundo virtualmente todas as outras listas conhecidas, houve dez Grão Mestres entre 1118 e 1190. Segundo os Dossiês Secretos, houve apenas oito. Segundo a maioria das outras listas o tio de São Bernardo, Andre de Montbard não era apenas co-fundador da Ordem, mas também seu Grão Mestre entre 1153 e 1156. Segundo os Dossiês Secretos, contudo, Andre de Montbard, o tio de São Bernardo, nunca foi Grão Mestre da Ordem, mas parecia ter continuado funcionando como ele o fez por toda a sua carreira, por trás das cenas. Segundo a maioria das outras listas, Bertrand de Blanchefort aparece como o sexto Grão Mestre da Ordem do Templo, assumindo esta função depois de Andre Montbard, em 1156. Segundo os Dossiês Secretos, Bertrand não é o sexto, mas o quarto na sucessão, se tornando Grão Mestre em 1153. Há outras tais discrepâncias e contradições, e estamos incertos sobre o que fazer com ela ou quão seriamente considera-las. Porque ele discorda daqueles compiladas por historiadores estabelecidos, não iriamos ver a lista nos Dossiês Secretos como errada? Deve ser enfatizado que nenhuma lista oficial ou definitiva dos Grão Mestres do Templo existe. Nada de tal tipo foi preservado para a posteridade. Os próprios registros do Templo foram destruídos ou desapareceram, e a mais antiga compilação conhecida dos Grão Mestres da Ordem data de 1342, trinta anos depois que a própria Ordem foi suprimida e 225 anos depois de sua fundação. Como resultado, os historiadores compilando as listas dos Grão Mestres tem baseado seus achados nos cronistas contemporaneos sobre um homem escrevendo em 1170, por exemplo, que faz uma ligeira alusão a um ou outro indivíduo como Mestre ou Grão Mestre do Templo. Uma evidência adicional pode ser obtida ao examinar os documentos e as cartas de direitos do período, na qual um ou outro oficial Templário anexaria um título ou outro a sua assinatura. Portanto dificilmente é surpreendente que a sequência e a datação deva variar, algumas vezes dramaticamente, de escritor para escritor, narrativa a narrativa. Não obstante, há certos detalhes cruciais como aqueles resumidos acima nos quais os Documentos do Priorado se desviam sigificativamente de todas as outras fontes. Não podemos, entretanto, ignorar tais desvios. Tivemos que determinar, até onde pudemos, se a lista nos Dossiês Secretos era baseada em negligência, ignorância ou ambas; ou, alternativamente, se esta lista era de fato a definitiva, baseada em uma informação ‘interna’, inacessível aos historiadores.

Se Sião criou os Cavaleiros Templários, e se Sião [ou ao menos seus registros] sobrevivem até o presente dia, podemos razoavelmente esperar que ele esteja familiriazado com os detalhes não obteníveis em outros lugares. A maioria das discrepâncias entre a lista nos Dossiês Secretos e aquelas de outras fontes pode ser explicada muito facilmente. A este ponto, não vale a pena explorar cada uma de tais discrepâncias e responsabilizar-se por isso. Mas um único exemplo deve servir para ilustrar como e porque tais discrepâncias possam ocorrer. Além do Grão Mestre, o Templo tinha uma multitude de mestres locais e um Mestre para a Inglaterra, para a Normandia, para a Aquitania, para todos os territórios que compreendiam seus domínios. Haviam também um predominante Mestre Europeu, e, assim pareceria, um mestre marítimo também. Nos documentos e cartas de direitos estes mestres locais ou regionais invariavelmente assinariam “Magister Templi’ – Mestre do Templo. E em muitas ocasiões, o Grão Mestre – por modéstia, descuido, indiferença ou despreocupação descuidada também ele próprio assinaria como nada mais do que ‘Magister Templi’. Em outras palavras, Andre Montbard, Mestre regional de Jerusalém, em uma carta de direitos, teria a mesma designação depois de seu nome de seu Grão Mestre, Bertrand de Blancheford. Portanto não é difícil ver como um historiador, trabalhando com uma ou duas cartas de direitos e não entrecruzando as referências, pode prontalmente interpretar mal o verdadeiro status de Andre na Ordem. Em virtude precisamente deste tipo de erro, muitas listas dos Grão Mestres Templários incluem um homem chamado Everard des Barres. Mas o Grão Mestre, pelas próprias constituições do Templo, tinha que ser eleito por um capítulo geral em Jerusalém e tinham que residir lá. Nossa pesquisa revelou que Everard des Barres foi um mestre regional, eleito e residente na França, que nunca pôs o pé na Terra Santa senão muito mais tarde. Nesta base ele pode ser retirado da lista dos Grão Mestres como de fato ele foi nos Dossiês Secretos. Foi especificamente em tais bons pontos acadêmicos que os ‘Documentos do Priorado’ apresentavam uma acurácia e precisão meticulosa que nós não podiamos imaginar não sendo alcançada depois do fato. Passamos mais de um ano considerando e comparando as várias listas dos Grão Mestres Templários. Consultamos todos os escritores sobre a Ordem, em inglês, francês e alemão, e então examinamos as fontes deles também. Examinamos as cronicas do tempo como estes de Guilhaume de Tyre – e outras narrativas contemporaneas. Consultamos todas as cartas de direitos que pudemos encontrar e obtivemos informação compreensiva sobre todos estas conhecidas serem ainda existentes. Comparamos assinaturas e títulos em numerosas proclamações, éditos, deveres e outros documentos Templários. Como resultado desse inquérito exaustivo, tornou-se aparente que a lista nos Dossiês Secretos era mais acurada do que qualquer outra não apenas sobre a identidade dos Grão Mestres mas sobre as datas de seus respectivos regimes também. As implicações disso eram muito mais amplas. Garantidamente, uma tal lista pode talvez ter sido compilada por um pesquisador extremamente  cuidadoso, mas a tarefa teria sido monumental. Nos parece muito mais provável que uma lista de tal acurácia atestasse algum repositório de informação interna ou privilegiada; informação portanto inacessível aos historiadores. Se a nossa conclusão é ou não garantida, fomos confrontados por um fato incontestável de que alguém havia obtido acesso, de algum modo, a uma lista que era muito mais acurada que as outras. E desde que a lista, a despeito de sua divergência das outras mais aceitas, provou-se tão frequentemente estar correta, ela conferiu uma considerável credibilidade aos Documentos do Priorado como um todo. Se os Dossiês Secretos eram demonstravelmente confiáveis neste aspecto crítico, então de certa forma havia menos razão para duvidar deles em outros. Tal reasseguração foi oportuna e necessária. Sem ela, poderiamos muito bem ter descartado a terceira lista nos Dossiês Secretos dos Grão Mestres do Priorado de Sião imediatamente. Desta terceira lista, até mesmo uma olhada superficial, parece absurda.

Os Grão Mestres e A Corrente Subterrânea nos Dossiês Secretos

Os seguintes indivíduos são listados como Grão Mestres sucessivos do Priorado de Sião ou, para usar o termo oficial, ‘Nautonnier’, uma velha palavra francesa que significa ‘navegador’ ou ‘homem do elmo’:

Jean de Gisors 1188-1220
Marie de Saint-Clair 1220-66
Guillaume de Gisors 1266-1307
Edouard de Bar 1307-36
Jeanne de Bar 1336-51
Jean de Saint-Clair 1351-66
Blanche d’Evreux 1366-98
Nicolas Flamel 1398-1418
Rene d’Anjou 1418-80
Iolande de Bar 1480-83
Sandro Filipepi 1483-1510
Leonard de Vinci 1510-19
Connetable de Bourbon 1519-27
Ferdinand de Gonzague 1527-75
Louis de Nevers 1575-95
Robert Fludd 1595-1637
J. Valentin Andrea 1637-54
Robert Boyle 1654-91
Isaac Newton 1691-1727
Charles Radclyffe 1727-46
Charles de Lorraine 1746-80
Maximilian de Lorraine 1780-1801
Charles Nodier 1801-44
Victor Hugo 1844-85
Claude Debussy 1885-1918
Jean Cocteau 1918

Quando primeiramente vimos esta lista, ela imediatamente provocou o nosso ceticismo. Por um lado ela inclui um número de nomes que automaticamene se esperaria encontrar em uma tal lista de nomes de indivíduos famosos associados ao oculto e ao esotérico. Por outro lado, ela inclui um número de indivíduos ilustres e improváveis que, em certos casos, não podemos imaginar presidindo uma sociedade secreta. Ao mesmo tempo, muitos desses nomes são precisamente o tipo que as organizações do século XX teriam frequentemente tentado se apropriar elas próprias, assim estabelecendo uma espécie de pedigree espúrio. Há, por exemplo, listas publicadas pela AMORC, a Rosacruz moderna baseada na Califórnia, que incluem virtualmente cada figura importante na história e cultura ocidental, cujos valores, até mesmo se apenas tangencialmente, aconteceram coincidir com os da própria Ordem. Um entrelaçamento frequentemente casual ou convergência de atitudes é deliberadmente mal interpretada como algo supremo para a ‘afiliação iniciada’. E assim é dito a alguém que Dante, Shakespeare, Goethe e inumeráveis outros eram Rosacrucianos, implicando que eles eram membros que carregavam as cartas que pagavam seus deveres com regulariddae. Nossa atitude inicial em relação a lista acima foi igualmente cínica. Novamente, havia nomes previsíveis – nomes associados ao oculto e ao esotérico. Nicholas Flamel, por exemplo, é talvez o mais famoso e bem documentado dos alquimistas medievais. Robert Fludd, filósofo do século XVII, foi um expoente do pensamento hermético e outros assuntos arcanos. Johann Valentim Andre, contemporâneo alemão de Fludd, compôs, entre outras coisas, alguns dos trabalhos que divulgaram o mito do fabuloso Cristão Rosacruz. E há também nomes como o de Leonardo da Vinci e Sandro Filipepi, que é melhor conhecido como Boticelli. Há nomes de importantes cientistas, como Robert Boyle e Sir Issac Newton. Durante os últimos dois séculos os Grão Mestres do Priorado de Sião são alegados terem incluido tais importantes figuras literárias e culturais como Vitor Hugo, Claude Debussy e Jean Cocteau. Ao incluir tais nomes, a lista nos Dossiês Secretos não podia parecer senão suspeita. Foi quase inconcebível que alguns dos indivíduos citados tivessem presidido uma sociedade secreta e ainda mais, uma sociedade secreta devota ao oculto e a interesses esotéricos. Boyle e Newton, por exemplo, dificilmente são nomes que as pessoas no século XX associem ao oculto e ao esotérico. E embora Hugo, Debussy e Cocteau estivessem imersos em tais assuntos, eles pareceriam ser bem conhecidos demais, pesquisados e documentados demais, para terem exercido o papel de Grão Mestre em uma sociedade secreta. Não, a qualquer nível, sem que alguma palavra sobre isso de certa forma pudesse ter vazado.

Por outro lado os nomes distintos não são os únicos nomes na lista. A maioria dos outros nomes pertencem a nobres europeus de alto escalão, muitos dos quais eram obscuramente não familiarres não apenas ao leitores em geral, mas até mesmo ao historiador profisional. Há Guilhaume de Gizors, por exemplo, que em 1306 é dito ter organizado o Priorado de Sião  em uma ‘maçonaria livre hermética’. E há o avô de Guilhaume, Jean de Gizors, que é dito ter sido o primeiro Grão Mestre independente do Priorado de Sião, assumindo sua posição depois de ‘cortar o elmo’ e da separação do Templo em 1188. Não há dúvida de que Jean de Gozors existiu historicamente. Ele nasceu em 1133 e morreu em 1220. Ele é mencionado nas cartas de direitos e foi ao menos o senhor nominal da famosa fortaleza na Normandia onde os encontros tradicionalmente se realizavam entre os reis inglês e francês, como o foi o ‘corte do elmo’. Jean parece ter sido um proprietário de terras extremamente poderoso e rico e até 1193, um vassalo do Rei da Iglaterra. Ele também é conhecido por possuir uma propriedade na Inglaterra em Sussex, e a mansão de Titchfield em Hampshire. Segundo os Dossiês Secretos, ele se encontrou com  Thomas a Becket em Gisors em 1169 embora não haja indicação do propósito deste encontro. Fomos capazes de confirmar que Becket esteve de fato em Gizors em 1169 e portanto é provável que ele tivesse algum contrato com o senhor da fortaleza. Mas não pudemos encontrar registro de qualquer encontro real entre os dois homens. Em resumo, Jean de Gizors, fora uns poucos detalhes leves, se provou virtualmente não rastreável. Ele parece não ter deixado qualquer marca, seja o que for, na história, salvo sua existência e seu título. Não pudemos encontrar qualquer indicação de que ele fez que possa ter constituido sua afirmação para a fama, ou teremos garantido sua assunção de Grão Mestre de Sião.

Se a lista dos propostos Grão Mestres de Sião era autêntica, o que, imaginamos, fez Jean para merecer seu lugar nela? E se a lista era uma fabricação de última hora, porque alguém tão obscuro seria incluído afinal? Nos pareceu uma única explicação possível, que realmente não explica muito de fato. Como outros nomes aristocráticos da lista dos Grão Mestres de Sião, Jean de Gizors aparece em complicadas genealogias que figuram em outros lugares dos Documentos do Priorado. Juntamente com outros nobres esquivos, ele aparentemente pertencia a mesma densa floresta de árvores de famílias que ultimamente descendiam, supostamente, da dinastia Merovíngia. Assim parecia evidente para nós que o Priorado de Sião em uma extensão significativa, ao menos, era um assunto doméstico. De algum modo a Ordem pareceu estar intimamente ligada com uma linhagem sanguinea. E foi a sua ligação com esta linhagem sanguinea que talvez fosse a responsável pelos vários nomes intitulados na lista dos Grão Mestres. Da lista citada acima, o Grão Mestrado de Sião tinham recorrentemente mudado entre dois grupos essencialmente distintos de indivíduos. Por um lado havia figuras de estura monumental que pelo esoterismo, as artes ou ciências tem produzido algum impacto na tradição ocidental, história e cultura. Por outro lado, há membros de uma rede de famílias nobres específica e interligada, algumas vezes real. Em algum grau esta curiosa justaposição conferiu plausibilidade a lista. Se alguém meramente quisesse ‘fabricar’ um pedigree, não seria o ponto incluir tantos aristocratas desconhecidos e a muito tempo esquecidos. Não seria o ponto, por exemplo, incluir Charles de Lorreine, o austríaco marechal de campo do século XVIII, cunhado da Imperatriz Maria Tereza que se provou claramente inepto no campo de batalha e foi golpeado em um engajamento após outro por Frederico o Grande, da Prússia. A este respeito, ao menos, o Priorado de Sião pareceria ser modesto e realista. Ele não afirma haver funcionado sob os auspícios de genios qualificados, mestres sobre-humanos, iniciados iluminados, santos, sábios ou imortais. Ao contrário, ele reconhece que seus Grão Mestres são seres humanos falíveis, uma representativa seção cruzada da humanidade – uns poucos genios, uns poucos notáveis e uns poucos espécimens médios, um poucos sem importância e até mesmo uns poucos tolos. Porque, não podemos senão imaginar, deveria uma lista forjada ou fabricada incluir  um tal espectro? Se se deseja conceber uma lista de Grão Mestres, porque não tornar todos os nomes nela ilustres? Se alguém deseja ‘fabricar’ um pedrigree que inclua Leonardo, Newton e Vitor Hugo, porque não também incluir Dante, Miguelangelo, Goethe e Tolstoi ao invés de pessoas obscuras como Edouard de Bar e Maximilian de Lorreine? Porque, sobretudo, havia tantas ‘luzes menores’ na lista? Porque um escritor relativamente menor como Charles Nodier, muito mais do que os contemporaneos como Byron ou Pushkin? Porque um aparente ‘excêntrico’ como Cocteau muito mais que homens de tal prestígio internacional como Andre Gide ou Albert Camus? E porque a omissão de indivíduos como Poussin, cuja ligação com o mistério já havia sido estabelecida? Tais questões nos intrigaram, e argumentaram que a lista merecia consideração antes que nós a descartássemos como fraude. Portanto embarcamos em um estudo longo e detalhado dos alegados Grão Mestres e suas biografias, atividades e realizações. Ao realizar este estudo tentávamos, até onde podíamos,submeter cada nome na lista a certas perguntas críticas:

[1] – Houve qualquer contacto pessoal, direto ou indireto, entre cada alegado Grão Mestre, seu predecessor imediato e sucessor imediato?
[2] – Houve qualqer afiliação, por sangue ou outra, entre cada alegado Grão Mestre e as famílias que figuravam nas genealogias dos Documentos do Priorado com qualquer das famílias de suposta descendência Merovíngia, e especialmente com a casa ducal de Lorreine?
[3] – Estava cada um dos alegados Grão Mestres de algum modo ligado a Rennes-le-Chateau, Gozors, Stenay, São Suspílcio ou qualquer outro sítio que tem recorrido no curso de nossa investigação anterior?
[4] – Se Sião se definia como uma Livre Maçonaria Hermética, cada alegado Grão Mestre apresenta uma predisposição em relação ao pensamento hermético ou a um envolvimento com sociedades secetas?

Embora a alegada informação sobre os Grão Mestres antes de 1400 fosse difícil, algumas vezes impossível de se obter, nossas investigações sobre as figuras posteriores mantém  alguns resultados e consistência perplexantes. Muitos deles eram associados, de um modo ou outro, com um ou mais sítios que pareciam ser relevantes: Reenes-le-Chateau, Gizors, Stenay ou São Suspílcio. A maioria dos nomes da lista era aliada por sangue a casa de Lorreine ou asssocida a ela de algum modo, Até mesmo Robert Fludd, por exemplo, serviu como tutor para os filhos do Duque de Lorraine. De Nicholas Flamel em diante, cada nome na lista, sem exceção, era impregnado no pensamento hermético, e frequentemente associado com sociedades secretas até mesmo homens que não associariamos prontamente a estas coisas, como Boyle e Newton. E com apenas uma única exceção, cada alegado Grão Mestre teve algum contacto algums vezes por meio de amigos íntimos mútuos, com aqueles que o sucederam. Até onde pudemos determinar, havia apenas uma queda aparente na cadeia. E até mesmo esta parece ter ocorrido ao redor da Revolução Francesa, entre Maximilian de Lorreine e Charles Nodier que não é por qualquer meio conclusiva. No contexto deste capítulo, não é possível discutir cada alegado Grão Mestre em detalhes. Algumas das figuras mais obscuras assumem importância somente contra o fundo de uma dada época, e para explicar esta importância completamente compreenderia longas digressões nos caminhos esquecidos da história. No caso dos nomes mais famosos, seria impossível fazer a eles justiça em umas poucas páginas. O presente capítulo abrigará os desenvolvimentos mais amplos sociais e culturais, nos quais a sucessão dos alegados Grão Mestres desempenhou uma parte coletiva. Foi em tais desenvolvimentos culturais e sociais que nossa pesquisa pareceu manter um traço discernível da mão do Priorado de Sião.

Rene d’Anjou

Embora hoje seja pouco conhecido,  Rene d’Anjou – ‘O Bom Rei do Reno’ como ele era conhecido nos anos imediatamente precedentes a Renascença. Nascido em 1408, durante sua vida ele veio a manter um surpreendente conjunto de titulos. Entre os mais importantes estavam o Conde de Bar, o Conde de Provença, o Conde de Piemonte, o Conde de Guise, o Duque de Calábria, o Duque de Anjou, o Duque de Lorreine, Rei da Hungria, Rei de Nápoles e Sicília, Rei de Aragão, Valença, Maiorca e Sardenha – e, talvez, o mais ressonante de todos, Rei de Jerusalém. Este último era, com certeza, puramente titular. Não obstante ele evocava uma continuidade remontando a Godfroi de Bouillon, e foi reconhecido por outros potentados europeus. Uma das filhas de Rene, Marguerite d’Anjou, em 1445 se casou com Henrique VI da Inglaterra e desempenhou um papel importante na Guerra das Rosas. Em suas fases iniciais a carreira de Rene d’Anjou parece ter sido de algum modo obscuro associada aquela de Joana D’Arc. Até onde é conhecido, Joana nasceu na cidade de Domremy, no ducado de Bar, o que a tornava sudida de Rene. Ela primeiramente  impressionou a história em 1429, quando ela apareceu na fortaleza de Vaucoleurs, a umas poucas milhas acima de Meuse de Domremy. Se apresentando ao comandante da fortaleza, ela anunciou sua ‘divina missão’ de salvar a França dos invasores ingleses e assegurar que o dolfim, subsequentemente Carlos VII, fosse o rei coroado. Para realizar a missão dela, ele teria que se unir a côrte dele em Chinon, no Loire, longe a sudoeste. Mas ela não solicitou uma passagem para Chonou ao comandante em Vaucoleurs; ela solicitou uma audiência especial com o sogro do duque de Lorreine Rene e tio-avô. Em deferência a solicitação dela, foi garantida a Joana uma audiência com o duque em sua capital em Nancy. Quando ela chegou lá, é sabido que Rene D’Anjou estava presente. E quando o duque de Lorreine perguntou a ela o que ela desejava, ele respondeu explicitamente, nas palavras quem tem constantemente perplexado os historiadores. “Seu filho por lei, um cavalo e alguns bons homens para me levarem por dentro da França”. Naquele tempo e mais tarde, a especulação era prevalescente sobre a natureza da ligação de Rene com Joana. Segundo algumas fontes, provavelmente inacuradas, os dois eram amantes. Mas permanece o fato que eles conheciam um ao outro, e que Rene estava presente quando Joana pela primeira vez embarcou em sua missão. Sobretudo, os cronistas contemporaneos sustentam que quando Joana partiu para a côrte do Dolfim em Chinou, Rene a acompanhou. E não apenas isso. Os mesmos cronistas avaliam que Rene realmente estava presente ao lado dela durante o cerco de Orleans. Nos séculos que se seguiram uma tentativa sistemática parece ter sido feita para expurgar todo traço do possível papel de Rene na vida de Joana. Ainda que os biógrafos posteriores de Rene não possam responder sobre o paradeiro dele ou atividades entre 1429 e 1431, o ápice da carreira de Joana. É geral e tacitamente assumido que ele estava vegetando na corte ducal em Nancy, mas não há evidência que sustente esta avaliação. As circunstâcias argumentam que Rene acompanhou Joana a Chinon. Porque se havia qualquer uma personalidade dominante em Chinon naquele tempo, esta personalidade era Iolanda D’Anjou. Era Iolanda que fornecia ao dolfim febril, de fraca vontade incessantes tranfusões de moral. Foi Iolanda que inexpicavelmente se auto-indicou patrona oficial de Joana. E foi Iolanda que superou a resistência da côrte à garota visionária e obteve a autorização para que ela acompanhasse o exército a Orleans. Foi Iolanda que convenceu o dolfim que Joana de fato podia ser a salvadora que ela afirmava ser. Foi Iolanda que concebeu o casamento do dolfim com a sua própria filha. E Iolanda era a mãe de Rene D’Anjou. Na medida em que estudamos estes detalhes, nos tornamos crescentemente convencidos, como muitos historiadores modernos, que algo está sendo encenado por trás das cenas; algo intrincado, uma intriga de alto nivel, ou projeto audacioso. Quanto mais examinamos isso, mas a carreira metórica de Joana D’Arc começou a sugerir um negócio programado como se alguém, explorando as lendas populares da ‘Virgem de Lorreine’ e jogado engenhosamente com a psicologia de massa, tivesse engendrando e orquestrado a missão da chamada Donzela de Orleans. Isto não pressupôs, com certeza, a existência de uma sociedade secreta. Mas isto mostrou que a existência de uma tal sociedade decididamente fosse mais plausível. E se uma tal sociedade existiu, o homem que a presidia bem pode ter sido Rene D’Anjou.

Rene e o Tema da Arcadia

Se Rene estava associado a Joana D’Arc, sua carreira posterior, em sua maior parte, foi distintamente menos belicosa. Diferente de muitos de seus contemporaneos, Rene era menos um guerreiro que um cortesão. A este respeito ele foi mal colocado em sua própria era; ele era, em resumo, um homem a frente de seu tempo, antecipando os príncipes cultos da Renascença. Uma pessoa extremamente letrada, ele escreveu prolificamente e iluminou seu próprios livros. Ele compôs poesia e alegorias místicas, bem como compêndios de regras de torneio. Ele buscou promover o avanço do conhecimento e a um tempo empregou Cristóvão Colombo. Ele estava familiarizado com a tradição esotérica e sua côrte incluia um astrólogo judeu, cabalista e físico conhecido como Jeam de Saint Remy. Segundo um número de narrativas, Jean Saint-Remy era o avô de Nostradamus, o famoso profeta do século XVI que também figurou em nossa história. Os interesses de Rene incluiam a cavalaria, e os romances arturianos e do Gral. De fato ele parece ter tido uma preocupação particular como Ele a havia obtido, ele afirmou, em Marselha onde Madalena, segundo a tradição, chegou com o Gral. Outros cronistas falam de uma taça na posse de Rene – talvez a mesma que tinha uma inscrição misteriosa gravada na borda: ‘Qui bien beurra Dieu voira. Qui beurra tout dune baleine Voita Dieu et la Madeleine. [ Ele que bebe bem verá Deus. Ele que “saboreia um único gole verá Deus e Madalena] Não seria inacurado ver Rene D’Anjou como um maior ímpeto por trás do fenômeno agora chamado Renascença. Em virtude de suas inúmeras possessões italianas ele passou alguns anos na Itália; e por sua amizade íntima com a regente família Sforza de Milão ele estabeleceu contacto com os Medicis de Florença. Há boas razões para acreditar que foi grandemente a influência de Rene que fez com que Cisimo de Medici embarcasse em uma série de ambiciosos projetos. Projetos destinados a transformar a civilização ocidental. Em 1439, quando Rene estava residindo na Itália, Cosimo de Medici começou a enviar seus agentes por todo o mundo em busca de manuscritos antigos. Então, em 1444, Cosimo fundou a primeira biblioteca pública, a Bibliteca de São Marcos, e assim começou a desafiar o longo monopólio da Igreja sobre o ensino. Por expressa comissão de Cosimo, o corpo de pensamento platonico, neo-platonico, pitagoreano, gnóstico e hermético encontrou seu caminho para a tradução pela primeira vez e se tornou imediatamente acessível. Cosimo também instruiu a Universidade de Florença a começar a ensinar grego, pela primeira vez na Europa por alguns 700 anos. E ele assumiu criar uma academia de estudos pitagoreanos e platonicos. A academia de Cosimo rapidamente gerou uma multitude de instituições similares pela península italiana, que se tornaram bastiões da tradição esotérica ocidental. E delas a alta cultura da Renascença começou a florescer. Rene D’Anjou não apenas contribuiu em alguma medida para a formação destas academias, mas também parece ter conferido sobre elas um de seus favoritos temas simbólicos, aquele da Arcadia. Certamente é na própria carreira de Rene que o motivo da Arcadia parece ter feito sua estréia na cultura ocidental pós cristã. Em 1449, por exemplo, em sua côrte em Tarrascon, Rene preparou uma série de “pas dames’ curiosas amálgamas híbridas de torneio e máscara, que foi chamada de ‘The Pas dAmes of the Shepherdess’. Representada por sua amante naquele tempo, A Pastora era explicitamente uma figura arcadiana, incorporando os atributos românticos e filosóficos. Ela presidiu um torneio no qual os cavaleiros assumiram identidades alegóricas representando valores e idéias conflitantes. O evento foi uma fusão singular do pastoral romance arcadiano com a ostentação da Távola Redonda e os mistérios do Santo Gral. A Arcadia figura em outros lugares nos trabalhos de Rene também. É frequentemente denotada como uma fonte ou pedra de túmulo, ambas sendo associadas com uma corrente subterrânea. Esta corrente é igualmente equiparada ao Rio Alfeu, o rio central na geral geográfica Arcadia na Grécia, que flui subterraneamente e é dito emergir novamente na Fonte de Aretusa na Sicília. Desde a mais remota antiguidade até o Kubla Kan de Coleridge o rio Alfeu tem sido considerado sagrado. Seu próprio nome deriva da mesma raiz grega da palavra ‘alfa’ que significa ‘primeiro’ ou ‘fonte’. Para Rene, o motivo de uma corrente subterrânea parece ter sido extremamente rico nas ressonâncias simbólicas e alegóricas. Entre outras coisas, ele pareceria ligar a tradição esotérica subterrânea do pensamento pitagoriano, gnóstico, cabalístitico e hermético.

Mas ele também pode indicar algo mais do que um corpo geral de ensinamentos, talvez alguma informação factual muito específica de um ‘segredo’ de algum tipo, transmitido de maneira clandestina de geração a geração. E ele pode ligar uma não reconhecida e assim subterrânea linhagem sanguinea.  Nas academias italianas a imagem da corrente subterrânea parece ter sido investida com todos os níveis de significado. E ela recorre consistentemente tanto assim, de fato, que as próprias academias tem sido frequentemente rotuladas como Arcadianas.  Assim, em 1502, um maior trabalho foi publicado, um longo poema intitulado Arcadia, por Jacopo Sannazaro e a entourage italiana de Rene d’Anjou de alguns anos antes incluia um Jacques Sannazar, provavelmente o pai do poeta. Em 1553 o poema de Sannazaro foi traduzido para o francês. Ele foi dedicado, muito interessantemente, ao Cardeal de Unocourt, que compilou as genealogias nos Documentos do Priorado. Durante o século XVI a Arcadia e a corrente subterrânea se tornaram uma moda proeminentemente cultural. Na Inglaterra eles inspiraram o mais importante trabalho de Sir Philip Sidney, Arcadia, Na Itália eles inspiraram tais figuras ilustres como Torquato lasso cuja peça magistral, Jerusalém Libertada, lida com a captura da Cidade Santa por Godfroi de Bouillon. Pelo século XVII o motivo da Arcadia havia culminado na pintura ‘Os Pastores da Arcadia” de Nicholas Poussin. Quanto mais exploramos o assunto, mais aparente se torna que algo – uma tradição de algum tipo, uma hierarquia de valores ou atitudes, talvez um corpo específico de informação estava constantemente sendo intimado pela corrente subterranea. Esta imagem parece ter assumido proporções obsessivas nas mentes de certas eminentes famílias políticas do período todo do qual, direta ou indiretamente, figuram nas genealogias dos Documentos do Priorado. E as famílias em questão tem transmitido a imagem aos seus protegidos nas artes. De Rene D’Anjou, algo parece ter sido passado aos Medicis, aos Sforzas, aos Estes e aos Gonzagas, os últimos dos quais, segundo os Documentos do Priorado, forneceram ao Sião dois Grão Mestres,  Ferrante de Gonzaga e Louis de Gonzaga, Duque de Nevers. Dele isso parece ter encontrado seu caminho nos trabalhos dos mais ilustres pintores e poetas da época, inclindo Boticelli e Leonardo da Vinci.

O Manifesto Rosacruz

Uma disseminação de idéias de certa forma similar ocorreu no século XVII, primeiro na Alemanha e então se espalhando para a Inglaterra. Em 1614 o primeiro dos chamados Manifestos Rosacrucianos apareceu, seguido de um segundo tratado um ano mais tarde. Estes manifestos criaram um furor naquele tempo, provocando fulminações da Igreja e dos Jesuítas, e despertando um apoio freventemente entusiástico das facções liberais na Europa Protestante. Entre os mais eloquentes e influentes expoentes do pensamento rosacruciano estava Robert Fludd, que é listado como o sexto Grão Mestre do Priorado de Sião, presidindo entre 1595 e 1637. Entre outras coisas, os Manisfestos Rosacrucianos promulgavam a história do lendário Cristão Rosacruz. Eles apoiavam a matéria de uma confraternidade secreta, invisível de iniciados na Alemanha e na França. Eles prometiam uma transformação do mundo e do conhecimento humano de acordo com os príncipios esotéricos e herméticos, a corrente subterrânea que tinha fluido de Rene D’Anjou para a Renascença. Uma nova época de liberdade espiritual foi anunciada, uma época na qual o homem podia se libertar de suas antigas algemas, destrancar os domentes ‘segredos da natureza’ e governar o seu próprio destino de acordo com leis harmoniosas, universais e cósmicas. Ao mesmo tempo, os manisfestos eram altamente inflamatoriamente políticos, ferozmente atacando a Igreja Católica e o velho Santo Império Romano. Estes manisfestos agora são acreditados terem sido escritos por um teólogo e sotetérico alemão, Johann Valentin Andrea, listado como Grão Mestre do Priorado de Sião depois de Robert Fludd. Se eles não foram escritos por Andrea, eles certamente foram escritos por um ou mais de seus associados. Em 1616, um terceiro tratado apareceu,  O Casamento Alquímico do Cristão Rosacruz. Como os dois trabalhos anteriores, O Casamento Alquimico foi originalmente de autoria anônima; mas o próprio Andrea mais tarde confessou ter composto isso como uma ‘piada’ ou comédia. O Casamento Alquimico é uma alegoria complexa, que subsequentemente influenciou trabalhos tais como Fausto de Goethe. Como tem demonstrado Frances Yates, ele contém inumeráveis ecos do esotérico inglês, John Dee, que também influenciou Robert Fludd. O trabalho de Andrea também evoca ressonâncias dos romances do Gral e dos Cavaleiros Templários. Cristão Rosacruz, por exemplo, é dito usar uma tunica branca com uma cruz vermelha no ombro. No curso da narrativa, uma peça realizou uma alegoria dentro de uma alegoria. Esta peça envolve uma princesa, de linhagem real não específica, cujos domínios por direito tinham sido usurpados pelos mouros e que foi lançada para fora do litoral em um bau de madeira. O resto da peça lida com as vicissitudes dela e seu casamento com um príncipe que a ajudaria a reconquistar sua herança. Nossa pesquisa revelou variados links de segunda e terceira mão entre Andrea e as famílias cujas genealogias figuravam nos Documentos do Priorado. Não descobrimos links diretos ou em primeira mão, contudo, exceto talvez para Frederico, o Eleitor Palatino do Reno. Frederico era sobrinho de um importante líder protestante francês, Henri de la Tour dAuvergne, Visconde de Turenne e Duque de Bouillon, o velho título de Godfroi. Henrique era também associado a família Longueville, que figurou proeminentemente tanto nos Documentos do Priorado quanto em nossa própria pesquisa. E em 1591 ele tinha entrado em grandes problemas ao adquirir o centro de Stenay. Em 1613, Frederico do Palatinado havia se casado com Elizabeth Stuart, filha de James I da Inglaterra, neta da Rainha Mary da Escócia e bisneta de Marie de Guise e Guise era o ramo cadete da casa de Lorreine. Marie de Guise, um século antes, havia se casado com o duque de Longueville  e então, com a morte dele, com James V da Escócia. Isto criou uma aliança dinástica entre as casas de Stuart e Lorreine.  Em consequência, os Stuarts começaram a figurar nas genealogias dos Documentos do Priorado. E Andrea, bem como outros três alegados Grão Mestres que o seguiram, apresentarm vários graus de interesse na casa real escocesa. Durante este periodo a casa de Lorreine estava, em um grau significativo, em eclipse.

Se Sião fosse uma ordem coerente e ativa naquele tempo, ele pode portanto ter transferido sua fidelidade – ao menos parcial e temporariamente aos decididamente mais influentes Stuarts. Em qualquer caso, Frederico do Palatinado, depois de seu casamento com Elizabeth Stuart, estabeleceu uma côrte aliada de orientação esotérica em sua capital de Heidelberg. Como escreve Frances Yates, umaa cultura estava se formando no Palatinado que veio diretamente da Renascença mas com mais tendências recentes acrescentadas, uma cultura que pode ser definida pelo adjetivo de rosacruciana. O príncipe ao redor do qual estas profundas correntes estavam fazendo rodamoinho era Frederico, o Eleitor Palatino, e seus exponentes estavam esperando por uma expressão politico-religiosa de suas metas… O movimento de Frederico… foi uma tentativa de dar a estas correntes político-religiosas uma expressão, para realizar o ideal da reforma hermética centrada em um príncipe real… Isto… criou uma cultura… um estado ‘rosacruciano’ que a côrte dele centrou em Heidelberg. Em resumo os anônimos rosacrucianos e seus simpatizantes parecem ter investido em Frederico com um sentido de missão, tanto espiritual quando política. E Frederico parece ter aceitado prontamente o papel imposto a ele, juntamente com as esperanças e expectativas que isso compreendia. Então, em 1618, ele aceitou a coroa da Boemia, oferecida a ele pelos nobres rebeldes daquele país. Ao fazer isso, ele incorreu na ira do Papado e do Santo Império Romano e precipitou o caos da Guerra dos Trinta Anos. Dentro de dois anos ele e Elizabeth tinham sido levados ao exílio na Holanda, e Heidelberg foi dominada por tropas católicas. E pelo seguinte quarto de século, a Alemanha se tornou o maior campo de batalha para o conflito mais amargo e mais sangrento e custoso na historia européia antes do conflito do século XX no qual a Igreja quase gerenciou para reimpor a hegemonia que ela havia desfrutado durante a Idade Média. Entre o turbilhão que corria solto ao redor dele, Andrea criou uma rede de sociedades mais ou menos secretas conhecidas como Uniões Cristãs. Segundo o projeto de Andrea, cada sociedade era chefiada por um príncipe anônimo, assistido por doze outros divididos em grupos de três cada um dos quais era para ser um especialista em uma dada esfera de estudo.  O propósito original das Uniões Cristãs era preservar o conhecido ameaçado especialmente os mais recentes avanços científicos, muitos dos quais eram considerados pela Igreja como heréticos. Ao mesmo tempo, contudo, as Uniões Cristãs também funcionavam como um refugio para pessoas que fugiam da Inquisição que acompanhava os invasores exércitos católicos, e pretendia desenraizar todos os vestígios do pensamento rosacruciano. Assim inúmeros eruditos, cientistas, filósofos e esotéricos encontraram um paraíso nas instituições de Andrea. Por elas muitos deles eram contrabandeados para a segurança na Inglaterra onde a Maçonaria Livre estava apenas começando a coalescer. Em algum significado importante as Uniões Cristãs de Andrea podem ter contribuido para o organização do sistema maçonico de lojas. Entre os europeus deslocados encontrando seu caminho para a Inglaterra estava um número de associados pessoais de Andrea:  Samuel Hartlib, por exemplo; Adam Komensky, mais conhecido como Comenius, com quem Andrea manteve uma corespondência contínua;  Theodore Haak, que também era uma amigo pessoal de Elizabeth Stuart e mantinha correspondência com ela; e o Doutor John Wilkins, ex capelão pessoal de Frederico do Palatinado e subsequentemente bispo de Chester. Uma vez na Inglaterra, estes homens se tornaram intimamente associados aos círculos maçonicos. Eles eram íntimos de Robert Morau, por exemplo, cuja iniciação na loja maçonica em 1641 é um dos primeiros registros; com Elias Ashmole, antiquário  e especialista em ordens caveleirescas, que foi iniciado em 1646, com o jovem e precoce Robert Boyle que embora ele próprio não fosse um maçom livre, foi um membro de uma outra mais fugidia sociedade secreta.

Não há evidência concreta que esta sociedade secreta fosse o Priorado de Sião, mas Boyle, segundo os documentos do Priorado, sucedeu Andrea como Grão Mestre de Sião. Durante o Protetorado de Cromwell, estas mentes dinâmicas, tanto inglesas quanto européias, formaram o que Boyle em um eco deliberado dos manifestos rosacrucianos chamou de ‘colégo invisível’ que se tornou a Real Sociedade com o governante Stuart, Carlos II como seu patrono e patrocinador. Virtualmente todos os membros fundadores da Sociedade Real eram Maçons Livres. Pode-se razoavelmente argumentar que a própria Sociedade Real, ao menos em sua iniciação, era uma instituição maçonica derivada, das Uniões Cristãs de Andrea, da ‘invisível fraternidade rosacruciana’. Mas esta não era para ser a culminação da corrente subterrânea. Ao contrário, ela iria fluir de Boyle para Sir Isaac Newton, listado como o Grão Mestre seguinte de Sião, e dai para complexos tributários da Maçonaria Livre do século XVIII.

A Dinastia Stuart

Segundo os Documentos do Priorado, Newton foi sucedido como Grão Mestre do Sião por Charles Radclyffe. O nome era dificilmente tão ressonante para nós quanto os de Newton, Boyle ou até mesmo Andrea. De fato, incialmente não estávamos certos sobre quem era Charles Raddcliffe. Então começamos a pesquisar sobre ele, e contudo, ele emergiu como uma figura de considerável, se subterrânea, consequência na história cultural do século XVIII. Desde o século XVI os Raddcliffes tinham sido uma influente família Nortumbriana. Em 1688, pouco antes dele ser deposto, James II os havia tornado Condes de Derwentwater. Chales Raddcliffe nasceu em 1693. Sua mãe era filha ilegítima de Carlos II com sua amante, Moll Davies. Radcliffe era então, pelo lado de sua mãe, de sangue real, um neto do quase último monarca Stuart. Ele era primo de Bonnie Príncipe Charlie e de George Lee, Conde de Lichfield, um outro neto ilegítimo de Carlos II. Não surpreendentemente, portanto, Raddcliffe devotou a maior parte de sua vida, a causa Stuart.

Em 1715 esta causa repousava com o Velho Pretendente, James III, então no exílio e residindo em Bar-le-Duc, sob a proteção especial do Duque de Lorreine. Radcliffe e seu irmão mais velho participaram da rebelião escocesa daquele ano. Ambos foram capturados e aprisionados e James foi executado. Charles, neste meio tempo, aparentemente ajudado pelo Conde de Lichfield, fez uma fuga ousada e sem precendentes da prisão de Newgate, e encontrou refúgio nas fileiras Jacobitas na França. Nos anos que se seguiram ele se tornou secretário pessoal do Jovem Pretendente,  Bonnie Prince Charlie. Em 1745 o último chegou a Escócia e embarcou em sua tentativa quixotesca de reinstalar os Stuarts no trono britânico. No mesmo ano, Raddcliffe, em rota para se unir a ele, foi capturado em um navio francês fora de Dogger Bank. Um ano mais tarde, O Jovem Pretendente foi desastrosamente derrotado na Batalha de Culloden Moor. Uns poucos meses depois, Charles Raddcliffe morreu sob o machado do carrasco na Torre de Londres. Durante sua estada na França os Stuarts tinham estado profundamente envolvidos na disseminação da Maçonaria Livre. De fato, eles geralmente são vistos como a fonte de uma forma particular de Maçonaria conhecida como Rito Escocês. A Livre Maçonaria introduziu graus superiores aqueles oferecidos por outros sistemas maçonicos naquele tempo. Ela prometia iniciação em mistérios maiores e mais profundos – mistérios supostamente preservados e manipulados na Escócia. Ela estabelecia ligações mais diretas entre a Maçonaria Livre e várias atividades: alquimia, cabalismo e pensamento hermético, por exemplo, eram vistos como rosacrucianos. E ela elaborava não apenas sobre a antiguidade mas também sobre o pedigree ilustre da ‘arte’. É provável que o Rito Escocês da Maçonaria Livre fosse originalmente promulgado, se não de fato divisado, por Charles Raddcliffe. Em qualquer caso, Charles Raddcliffe, em 1725, é dito ter fundado a primeira loja maçonica no continente, em Paris. Durante o mesmo ano, ou talvez no ano seguinte, ele parece ter sido reconhecido como Grão Mestre de todas as lojas francesas, e ainda é citado uma década depois, em 1736. A disseminação da Livre Maçonaria do século XVIII deve mais, ultimamente, a Charles Raddcliffe que a qualquer outro homem.

Isto nem sempre tem sido prontamente aparente porque Raddcliffe, especialmente depois de de 1738, manteve um perfil relativamente baixo. Em um grau muito significativo, ele parece ter trabalhado através de intermediários e portavozes. O mais importante deles, e o mais famoso, foi o enigmático indivíduo conhecido como Cavaleiro Andrew Ramsay. Ramsay nasceu na Escócia em algum tempo nos anos de 1680. Como um jovem homem ele foi membro de uma sociedade rosacruciana quase maçonica chamado Os Filadelfianos. Entre os outros membros desta sociedade estavam ao menos dois amigos íntimos de Sir Issac Newton. O próprio Ramsay via Newton com imitigada reverência, considerando-o um tipo de alto iniciado místico – um homem que havia descoberto e reconstruido as verdades eternas ocultas nos antigos mistérios. Ramsay tinha outras ligações com Newton. Ele era  associado a Jean Desaguliers, um dos amigos mais próximos de Newton. Em 1708 ele estudou matemática sob um  Nicolas Fatio de Duillier, o mais íntimo companheiro de Newton. Como Newton, ele apresentava um interesse simpático nos Camisardos – uma seita de Cátaros de tipo herege então sofrendo perseguição no sul da França, e um tipo de  causa célebre  para Fatio de Duillier. Por 1710 Ramsay estava em Cambrai e em termos íntimos com o filósofo místico Fenelon, anteriormente cura de São Suspílcio que, até mesmo naquele tempo, era um bastião de ortodoxia mais que questionável. Não é sabido precisamente quando Ramsay travou conhecimento com Charles Raddcliffe, mas pelos anos de 1720 ele estava intimamente afiliado a causa Jacobita. Por um tempo ele até mesmo serviu como tutor de Bonnie Prince Charlie. A despeito de suas ligações Jacobitas, Ramsay voltou a Inglaterra em 1729 onde não obstante, uma aparente falta de qualificações apropriadas, ele foi admitido prontamewnte na Sociedade Real. Ele também tornou-se um membro de uma instituição ainda mais obscura chamada Clube de Spalding de Cavalheiros. Este ‘clube’ incluia homens como Desaguliers, Alexander Pope e, até sua morte em 1727, Isaaac Newton. Por 1730 Ramsay estava de volta a França e incrivelmente ativo em benefício da Livre Maçonaria. Ele está a registro como tendo comparecido a encontros da loja com um número de figuras notáveis, incluindo Desaguliers. E ele recebeu o patrocínio especial da família Tour dAuvergne, os viscondes de Turenne e o duque de Bouillon que, três quartos de século antes, tinha sido relacionado a Frederico do Palatinado. Ao tempo de Ramsay o Duque de Bouillon era um primo de Bonnie Prince Charlie e estava entre as mais proeminentes figuras da Livre Maçonaria. Ele conferiu uma propriedade imobiliária e uma casa na cidade a Ramsay, que ele também indicou tutor de seu filho. Em 1737 Ramsay enviou sua famosa ‘Oração’ – uma longa dissertação sobre a história da Livre Maçonaria que subsequentemente se tornou um documento embrionário para a ‘arte’. Com base nesta ‘Oração’ Ramsay se tornou o portavoz proeminente maçonico de sua era. Nossa pesquisa nos convenceu, contudo, que a voz real por trás de Ramsay era aquela de Charles Radclyffe que presidia a loja na qual Ramsay tinha feito seu discurso e que apareceu novamente, em 1743, como signatário principal no funeral de Ramsay. Mas se Radcliffe era o poder por trás de Ramsay, poderia ter sido Ramsay que constituiu a ligação entre Radcliffe e Newton. A despeito da morte prematura de Ramsay em 1746, as sementes que ele havia plantado na Europa continuaram a dar frutos. Cedo nos anos de 1750 um novo embaixador da Livre Maçonaria apareceu; um alemão chamado  Karl Gottlieb von Hund. Hund afirmou ter sido iniciado em 1742, um ano antes da morte de Ramsay, quatro anos antes da de Radcliffe. Em sua iniciação, ele afirmou, ele tinha sido introduzido em um novo sistema de Maçonaria Livre, confiado a ele por ‘superiores desconhecidos’. Estes ‘superiores desconhecidos’, mantinha Hund, eram estreitamente associados a causa Jacobita. De fato, ele até mesmo acreditou de início que o homem que presidiu sua iniciação fosse Bonnie Prince Charlie. E embora isso tenha se provado não ser o caso, Hund permaneceu convencido que o personagem não identificado em questão estava estreitamente ligado ao Jovem Pretendente. Parece razoável supor que o homem que realmente presidiu foi Charles Radcliffe. O sistema da Maçonaria Livre em que Hund foi introduzido era uma extensão posterior do Rito Escocês e que foi subsequentemente chamado Estrita Observância. Seu nome derivou do voto que ele exigiu, de obediência inquestionável aos misteriosos ‘superiores desconhecidos’.

E a doutrina básica da Estrita Observância era que ela tinha descendido diretamente dos Cavaleiros Templários, alguns dos quais propostamente sobreviveram a purga de 1307-14 e perpetuaram sua Ordem na Escócia. Nós já estávamos familiarizados com esta afirmação. Com base em nossa pesquisa podemos admitir nisso alguma verdade. Um contingente de Templários tinha alegadamente combatido do lado de Robert Bruce na Batalha de Bannockburn. Por causa da Bula Papal dissolvendo os Templários nunca ter sido promulgada na Escócia, a Ordem nunca foi oficialmente suprimida lá. E nós mesmos temos localizado o que parece ser um cemitério templário em Argyllshire. As mais iniciais sepulturas neste cemitério datavam do século XIII, e as últimas, do século XVIII. As pedras mais antigas mantém certas gravações únicas e símbolos gravados idênticos aqueles encontrados nos conhecidos preceptórios Templários na Inglaterra e na França. As pedras mais recentes combinaram estes símbolos com motivos especificamente maçonicos, atestando desta forma algum tipo de fusão. Portanto não é impossível, concluimos, que a Ordem de fato tenha se perpetuado nas selvagerias sem trilhas da medieval Argyll – mantendo uma existência clandestina, gradualmente se secularizando e se tornando associada as guildas maçonicas e aos prevalecentes sistemas de clãs. O pedigree que Hund afirmou para a Estrita Observância não nos parecia, portanto, improvável. Para seu próprio embaraço e subsequente desgraça, contudo, ele foi incapaz de eleborar posteriormente sobre este novo sistema de Livre Maçonaria. Como resultado seus contemporaneos o descartaram como charlatão, e o acusaram de ter fabricado a história de sua iniciação, seu encontro com os ‘superiores desconhecidos’, sua ordem para disseminar a Estrita Observância. A estas acusações Hund apenas podia responder que seus ‘superiores desconhecidos’ o tinham inexplicavelmente abandonado. Eles haviam prometido contacta-lo novamente e dar a ele instruções posteriores, ele protestou, mas eles nunca o fizeram. Pelo fim de sua vida ele afirmou sua integridade, mantendo que ele havia sido desertado de seus patronos originais que, ele insistiu, realmente haviam existido. Quanto mais consideramos as avaliações de Hund, mais plausíveis elas soam e ele parece ter sido uma vítima infeliz não tanto de traição deliberada como de circunstâncias além do controle de todos. Segundo sua própria narrativa, Hund havia sido iniciado em 1742, quando os Jacobitas ainda eram uma poderosa força política nos assuntos do continente. Por 1746, contudo, Radcliffe estava morto. E assim o estavam tantos de seus colegas, enquanto outros estavam na prisão ou no exilio muito distante, em alguns casos, na América do Norte.

Se os ‘superiores desconhecidos’ de Hund falharam em reestabelecer contacto com seu protegido, a omissão não parece ter sido voluntária. O fato de que Hund foi abandonado imediatamente depois do colapso da causa Jacobita pareceria, se algo, confirmar sua história. Há um outro fragmento de evidência que confere credencial não apenas as afirmações de Hund mas aos Documentos do Priorado também. Esta evidência é uma lista dos Grão Mestres dos Cavaleiros Templários, que Hund insistiu ter obtido de seus ‘superiores desconhecidos’ e que pareceu se derivar de ‘informação interna’. Salvo pela soletração de um único sobrenome, a lista que Hund apresentou concorda com aquela nos Dossiês Secretos. Em resumo, de algum modo Hund havia obtido a lista dos Grão Mestres Templários mais acurada do que qualquer outra de seu tempo. Sobretudo, ele a obteve quando muito muitos documentos nos quais confiamos as cartas de direitos, deveres, proclamações ainda estavam sequestradas no Vaticano e não obtíveis. Isto pareceria confirmar que a história de Hund sobre ‘superiores desconhecidos’ não era uma fabricação. Isto também pareceria indicar que estes ‘superiores desconhecidos’ eram extraordinariamente conhecedores da Ordem do Templo e mais conhecedores do que eles possivelmente tivessem sido sem o acesso a ‘fontes privilegiadas’. Em qualquer caso, a despeito das acusações levantadas contra ele, Hund não estava completamente sem amigos. Depois do colapso da causa Jacobita ele encontrou um patrono simpático e um estreito companheiro, não menos na pessoa do Santo Imperador Romano. O Santo Imperador Romano naquele tempo era François, o Duque de Lorreine que, pelo seu casamento com Maria Teresa da Áustria em 1735, tinha ligado as casas dos Hapsburgs e Lorreine e inaugurado a dinastia Hapsburg-Lorreine.

E segundo os Documentos do Priorado, o irmão de François, Charles de Lorreine, que sucedeu Radcliffe como Grão Mestre de Sião. François foi o primeiro príncipe europeu a se tornar maçom e tornar pública sua afiliação a Maçonaria. Ele foi iniciado em Haia, um bastião de atividade esotérica desde que os círculos rosacrucianos haviam se instalado lá durante a Guerra dos Trinta Anos. E o homem que presidiu a iniciação de François foi Jean Desaguliers, íntimo associado de Newton, Ramsay e Radcliffe. Pouco depois de sua iniciação sobretudo, François embarcou para uma longa estada na Inglaterra. Aqui ele se tornou um membro daquela instituição de aparência inócua, O Clube de Spalding de Cavalheiros. Nos anos que se seguiram François de Lorreine foi provavelmente mais responsável do que qualquer outro potentado europeu na disseminação da Livre Maçonaria. Sua côrte em Viena se tornou, em um sentido, a capital Maçonica da Europa, e um centro para um amplo espectro de outros interesses esotéricos também. O próprio François era um alquimista praticante, com um laboratório alquimico no palácio imperial, o  Hofburg. Na morte do último Medici ele se tornou Grão Duque da Toscana, e com habilidade frustrou a perseguição dos Maçons Livres em Florença. Por meio de François, Charles Radcliffe que fundou a primeira loja maçonica no continente, deixou um legado duravel.

Charles Nodier e Seu Círculo

Comparado aas importantes figuras politicas e culturais que o precederam, comparado ate mesmo a um homem como Charles Radcliffe, Charles Nodier parecia uma escolha das mais improváveis para Grão Mestre. O conhecemos primariamente como um tipo de curiosidade literária de uma bela arte relativamente menor, um ensaista de certo modo tagarela, um novelista de segundo nível e um escritor de histórias curtas na tradição bizarra de  E. T. A. Hoffmann e, mais tarde, de Edgar Allan Poe. Em seu próprio tempo, todavia, Nodier era visto como uma maior figura cultural, e sua influência era enorme. Sobretudo, ele se provou estar ligado a nossa pesquisa em um número de modos surpreendentes. Por 1824 Nodier já era uma celebridade literária. Neste ano ele foi indicado bibliotecário chefe da Arsenal Library, o maior depositório francês para manuscritos medievais e especificamente ocultos. Entre os vários tesouros do Arsenal foi dito que teria contido os trabalhos alquímicos de Nicholas Flamel, o alquimista medieval listado como um dos iniciais Grão Mestres de Sião. O Arsenal também continha a biblioteca do Cardeal Richelieu; uma coleção exaustiva de trabalhos sobre pensamento mágico, cabalístico e hermético. E havia outros tesouros também. Ao romper a Revolução Francesa os monastérios pelo país foram saqueados e todos os livros e manuscritos enviados a Paris para armazenamento. Então em 1810 Napoleão, como parte de sua ambição de criar uma definitiva biblioteca mundial, confiscou e trouxe a Paris quase que o arquivo inteiro do Vaticano. Havia mais de três mil caixas de material, algumas das quais todas de documentos pertencentes aos Templários, por exemplo – que tinham sido especificamente solicitados. Embora alguns desses papéis fossem subsequentemente devolvidos a Roma, uma grande quantidade permaneceu na França. E era material deste tipo – livros ocultos e manuscritos, trabalhos pilhados de monastérios e do arquivo do Vaticano que passaram às mãos de Nodier e seus associados. Metodicamente eles filtraram isso, catalogaram, exploraram. Entre os colegas de Nodier nesta tarefa estavam Eliphas Levi e Jean Baptiste Pitois, que adotou o nome de pena de Paul Christian. Os trabalhos desses dois homens, e de Charles Nodier, o mentor deles, é aquele ‘renascimento’ francês do século XIX, como tem sido chamado, e que pode ultimamente ser traçado. De fato, a “História e Prática da Magica’ de Pitois se tornou uma bíblia para os estudantes do arcano do século XIX. Recentemente republicada na tradução completa inglesa com sua dedicatória original a Nodier este agora é um trabalho cobiçado pelos estudantes do oculto. Durante seu tempo no Arsenal, Nodier continuou a escrever e publicar prolificamente. Entre os mais importantes de seus últimos trabalhos está um multi volume maciço, belamente ilustrado, obra de interese de antiquário, devotado aos sítios de particular consequência na antiga França. Neste compêndio monumental Nodier devotou um espaço considerável a época Merovíngia, um fato o mais surpreendente já que ele em que em nenhum tempo apresentou o menor interesse nos Merovíngios. Há também longas seções sobre os Templários, e há um artigo especial sobre Gizors incluindo uma narrativa detalhada do ‘corte do elmo’ em 1188, que, segundo os Documentos do Priorado, marcou a separação dos Cavaleiros Templários e o Priorado de Sião. Ao mesmo tempo Nodier era mais do que um bibliotecário e um escritor. Ele era também um indivíduo gregário, egocêntrico e excentrico que constantemente buscava ser o centro da atenção e não hesitava em exagerar sua própria importância. Em suas salas em Arsenal Library ele inaugurou um salão que o estabelecia como um dos mais influentes e prestigiados ‘potentados estéticos’ da época. Ao tempo de sua morte em 1845, ele havia servido como mentor de uma inteira geração  muitos dos quais bem o eclipsaram em suas obtenções subsequentes. Por exemplo, o principal discípulo de Nodier e seu mais estreito amigo era o jovem Vitor Hugo, o próximo Grão Mestre segundo os Documentos do Priorado. HAvia François-Rene de Chateaubriand que fez uma romaria especial a tumba de Poussin em Roma e tinha uma pedra ereta lá sustentando a reprodução dos “Pastores da Arcadia”. Havia Balzac, Delacroix, Dumas pai, Lamartine, Musset, Theophile Gautier, Gerard de Nerval e Alfred de Vigny. Como os poetas e pintores da Renascença, estes homens frequentemente desenharam pesamente sobre o esotérico, e especialmente sobre a tradição hermética. Eles também incorporaram em seus trabalhos um número de motivos, temas, referências e alusões ao mistério que, para nós, começou com Sauniere e Rennes-le Chateau. Em 1832, por exemplo, um livro foi publicado intitulado  ‘Uma Jornada a Rennes-le-Bains”, que fala longamente de um legendário tesouro associado com Blanchefort e  Rennes-le-Chateau. O autor deste livro obscuro,  Auguste de Laboulsse-Rochefort, também produziu um outro trabalho, ‘Os Amantes Para Eleonore’. Na página título lá aparece, sem qualquer explicação, o moto ‘ET ARCADIA EGO’. As atividades literárias e esotéricas de Nodier eram muito claramente pertinentes a nossa investigação. Mas havia um outro aspecto da carreira dele que era, se algo, ainda mais pertinente. Porque Nodier, desde sua infância, esteve profundamente envolvido em sociedades secretas. Já em 1790, por exemplo, aos dez anos, ele é sabido ter se envolvido com um grupo conhecido como Os Filadelfos. Por volta de 1793 ele criou um outro grupo ou talvez um círculo interno do primeiro – que incluia um dos subsequentes conspiradores contra Napoleão. Uma carta de direitos datada de 1797 atesta a fundação de ainda um outro grupo também chamado Os Filadelfos naquele ano. Na biblioteca de Besanion há um ensaio criptico composto e recitado por este grupo escrito por um dos mais íntimos amigos de Nodier. Ele é intitulado “Os Pastores da Arcadia Soam os Primeiros Acentos de uma flauta Rústica”.

Em Paris em 1802 Nodier escreveu sobre sua afiliação a uma sociedade secreta que ele descreveu como ‘Bíblica e Pitagoriana”. Então, em 1816, ele publicou anonimamente um de seus mais curiosos e influentes trabalhos: “a História das Sociedades Secretas em um Exército sob Napoleão”. Neste livro Nodier é deliberadamente ambíguo. Ele não esclarece se estava escrevendo pura ficção ou puro fato. Se algo, ele implica, o livro é uma espécie de alegoria pequeninamente disfarçada de reais ocorrências históricas. Em qualquer caso o livro desenvolve uma filosofia compreensiva ds sociedades secretas. E ele credita a tais sociedades um número de realizações históricas, inclusive a queda de Napoleão. Há muitas grandes sociedades secretas em operação, declara Nodiers. Mas há uma, ele acrescenta, que tem precedência sobre todas as outras, que de fato preside todas as outras. Segundo Nodier, esta ‘suprema’ sociedade secreta é chamada Os Filadelfos. Ao mesmo tempo, todavia, ele fala do juramento que me curva aos Filadelfos e me proibe de torna-los conhecidos sob seu nome social. Não obstante há uma pista de Sião em uma fala que Nodier cita. Ela supostamente foi dada em uma assembléia dos Filadelfos por um dos conspiradores contra Napoleão. O homem em questão está falando de seu filho recém nascido: “Ele é tão jovem para se engajar com vocês pelo voto a Anibal; mas lembrem que o tenho chamado Eliacin, e que delego a ele a guarda do templo e do altar, se eu deva morrer e tenho visto cair de seu trono os últimos opressores de Jerusalém.” O livro de Nodier entra em cena quando o medo das sociedades secretas tinha assumido virtualmente proporções patologicas. Tais sociedades eram frequentemente acusadas de instigarem a Revolução Francesa; e a atmosfera da Europa pós Napoleonica era similar, em muitos aspectos, aquela da “Era McCarthy” nos Estados Unidos durante a década de 1950. As pesoas viam, ou pareciam ver, conspirações em todos os lugares. Cada perturbação pública, cada rompimento menor, cada ocorrência desconfortável era atribuida a ‘atividade subversiva’ do trabalho de organizações clandestinas altamente organizadas por trás das cenas, erodindo o tecido das instituições estabelecidas, perpetrando de todas as maneiras malignas sabotagens. Esta mentalidade engendrou medidas de extrema repressão. E a repressão, dirigida frequentemente contra uma ameaça fictícia, em troca gerou reais oponentes, grupos reais de conspiradores subversivos que se formariam de acordo com os projetos ficticios. Até mesmo como invenções da imaginação, as sociedades secretas estimularam uma paranóia contagiosa nos escalões superiores do governo; e esta paranóia frequentemente realizou mais do que qualquer própia sociedade secreta poderia possivelmente ter feito. Não há dúvida de que o mito da sociedade secreta, se não a própria sociedade secreta, desempenhou um papel maior na história européia do século XIX. E um dos principais arquitetos deste mito, e possivelmente da realidade por trás dele, foi Charles Nodier.

Debussy e a Rosa Cruz

As tendências as quais Nodier deu uma expressão de fascinação com as sociedades secretas e um interesse renovado no esotérico continuaram a ganhar influência e aderentes pelo século XIX. Ambas as tendências alcançaram o auge em Paris no fim do século e os arredores de Claude Debussy, o alegado Grão Mestre de Sião quando Berenger Sauniere, em 1891, descobriu os misteriosos pergaminhos em Rennes-le-Chateau. Debussy parece ter feito conhecimento com Vitor Hugo por meio do poeta simbolista Paul Verlaine. Subsequentemente ele estabeleceu um número de trabalhos de Hugo para a música. Ele também se tornou um  membro integral dos círculos simbolistas que, pela última década do século, tinham vindo a dominar a vida cultural parisiense.

Estes círculos algumas vezes eram ilustres, algumas vezes estranhos e algumas vezes ambos. Eles incluiam o jovem clérigo Emile Hoffet e Emma Calve pelos quais Debussy veio a conhecer Sauniere. Havia também o mago enigmático da poesia simbolista francesa, Stephane Mallarme, que uma das peças principais, ‘L’Apres-Midi dun Faune’, Debussy criou em música. Havia o teatrólogo simbolista Maurice Maeterlinck, cujo drama Merovígio, ‘Pelleas et Me1isande’, Debussy transformou em ópera de fama mundial. Havia o excêntrico Conde Philippe Auguste Villiers de Isle-Adam, cuja peça rosacruciana, ‘Axel’, se tornou uma biblia para o inteiro Movimento Simbolista. Embora sua morte em 1918 evitasse a sua conclusão, Debussy começou a compor um libreto para o drama oculto de Viliers, pretendendo transforma-lo, também, em uma ópera. Entre seus outros associados, estavam os luminares que frequentavam as famosas soarées das noites de sexta feira de Mallarme:  Oscar Wilde, W. B. Yeats, Stefan George, Paul Valery, o jovem Andre Gide e neles próprios os círculos de Debussy e Mallarme eram baseados no esotérico.  Ao mesmo tempo, eles entrelaçavam círculos ainda mais esotéricos. Então Debussy conviveu e se associou com virtualmente todos os nomes proeminentes no chamado revivalismo oculto francês. Nestes estavam o Marquês Stanislas de Guaita, um íntimo de Emma Calve e fundador da chamada Ordem Cabalística da Rosa Cruz. Um segundo era Jules Bois, um notório satanista, um outro íntimo de Emma Calve e um amigo de MacGregor Mathers. Estimulado por Jules Bois, Mathers estabeleceu a mais famosa sociedade oculta britânica, A Ordem do Amanhecer Dourado [Order of the Golden Dawn]. Um outro ocultista de conhecimento de Debussy era o Doutor Gerard Encausse mais conhecido como Papus, sob cujo nome ele publicou e que ainda é considerado um dos trabalhos definitivos sobre o Tarot. Papus não era apenas um membro de numerosas ordens esotéricas e sociedades, mas também era um confidente do Tzar e da Tzarina, Nicholas e Alexandra da Rússia. E entre os mais íntimos associados de Papus estava um nome que já figurava em nossa pesquisa que era Jules Doinel.

Em 1890 Doinel se tronou bibliotecário em Carcassone e estabeleceu uma igreja neo-cátara em Languedoc na qual ele e Papus funcionavam como bispos. Doinel de fato se proclamou o Bispo Gnóstico de Mirepoix, que incluia a paróquia de Montsegur e de Alet, que incluia a paróquia de Reenes-le-Chateau. A igreja de Doinel foi supostamente consagrada por um bispo oriental em Paris em casa, e muito interessantemente, de Lady Caithness, esposa do Conde de Caithness, Lord James Sinclair. Em retrospecto esta igreja parece ter sido meramente um outra seita ou culto inócuo, como tantos do fim do século. Naquele tempo, contudo, ela causou uma alarme considerável nas sedes oficiais. Um relato especial foi preparado para a Santa Sé do Vaticano sobre a ‘ressurgência das tendências cátaras’. E o Papa divulgou uma explícita condenação da instituição de Doinel, por meados dos anos de 1890, foi ativo no território lar de Sauniere e precisamente ao tempo em que o cura de Rennes-le-Chateau começou a ostentar sua riqueza. Os dois homens podem bem terem sido apresentados por Debussy. Ou por Emma Calve. Ou pelo Abade Henri Budet, cura de Rennes-le-Bains, o melhor amigo de Sauniere e colega de Doinel na Sociedade das Artes e Ciências de Carcassone. Um dos mais íntimos contactos ocultos de Debussy era Josephin Peladan, um outro amigo de Papus  e, muito previsivelmente, um outro íntimo de Emma Calve. Em 1889 Peladan embarcou em uma visita a Terra Santa. Quando ele voltou, ele afirmou ter descoberto a tumba de Jesus não o sítio tradicional do Santo Sepulcro mas sob a Mesquita de Omar, antigamente parte do enclave dos Templários. Nas palavras de um admirador entusiástico, a alegada descoberta de Peladan era ‘tão perplexante que em qualquer outra era teria abalado o mundo católico em suas fundações”. Nem Peladan e nem seus associados, contudo, voluntariaram qualquer indicação de como a tumba de Jesus poderia ter sido tão definitivamente identificada  e verificada como tal, nem porque esta descoberta devesse necessariamente abalar o mundo católico a menos, com certeza, que ela contivesse algo importante, controverso e talvez até mesmo explosivo. De qualquer modo, Peladan não elaborou sobre sua proposta descoberta. Mas embora um católico auto-professo, ele não obstante insistiu na mortalidade de Jesus. Em 1890 Peladan fundou uma nova ordem de Rosa Cruz Católica, O Templo e o Gral.

E esta Ordem, diferente das outras instituições rosacruzes do período, de algum modo escapou da condenação papal. Neste meio tempo, Peladan voltou crescentemente sua atenção para as artes. O artista, ele declarou, deve ser ‘um cavaleiro em uma armadura, avidamente engajado na busca simbólica do Santo Gral”. E em aderencia e este princípio, Peladan embarcou em uma cruzada estética completamente madura. Ela tomou a forma de uma série altamente publicada de exibições anuais, conhecida como Salão da Rosa Cruz cujo propósito declarado era “arruinar o realismo, reformar o gosto latino e criar uma escola de arte idealista”. Para este fim certos temas e assuntos eram sumária e autocraticamente rejeitados como indignos “não importa quão bem executados , até mesmo se perfeitamente’. A lista de temas e assuntos rejeitados incluia  a pintura da história prosaica, a pintura patriótica e militar, reprsentações da vida contemporanea, retratos, cenas rústicas e todos os panoramas exceto aqueles compostos da maneira de Poussin’. Nem Paladan se confinou a pintura. Ao contrário, ele tentou promulgar sua estética para o teatro e a música também. Ele formou sua própria companhia de teatro, que representava especialmente os trabalhos compostos sobre tais assuntos como Orfeu, os Argonautas, e a Busca pela Flecha Dourada, o Mistério da Rosacruz, e o Mistério do Gral. Um dos regulares promotores e patronos dessas produções era Claude Debussy.  Entre outros associados de Debussy e de Paladan estava Maurice Barres que, como um homem jovem, que tinha estado envolvido no círculo da Rosacruz com Vitor Hugo.

Em 1912  Barres publicou sua mais famosa novela, A Colina Inspirada. Certos comentaristas modernos tem sugerido que seu trabalho é de fato uma alegoria pequeninamente disfarçada  de Berenger Sauniere e Rennes-le-Chateau. Certamente há paralelos que seriam tão surpreendentes para serem completamente coincidentais. Mas Barres não situa sua narrativa em Rennes-le-Chateau ou qualquer outro lugar no Languedoc. Ao contrário, o monte inspirado do titulo é uma montanha acima de uma vila em Lorreine, e a vila é um velho centro de romaria de Sião.

Jean Cocteau

Mais do que  Charles Radclyffe, mais do que Charles Nodier, Jean Cocteau nos pareceu um candidato mais improvável para o Grão Mestrado de uma influente sociedade secreta. Nos casos de Radcliffe e Nodier, contudo, nossa investigação tinha sustentado certas ligações de considerável interesse. Na investigação de Cocteau descobrimos muito poucas. Certamente ele foi criado em um ambiente próximo aos ‘corredores de poder’; sua  famíla era politicamente proeminente e seu tio era um importante diplomata. Mas Cocteau, ao menos ostensivamente, abandonou este mundo, deixando o lar com a idade de 15 anos e se atirando dentro da miserável sub-cultura de Marselha. Por 1908 ele se estabeleceu nos círculos artísticos boemios. No início de seus vinte anos ele se tornou associado a Proust, Gide e Maurice Barres. Ele também era um grande amigo do bisneto de Vito Hugo, Jean, com quem ele embarcou em excursões variadas no espiritualismo e no oculto. Ele rapidamente tornou-se versado no esotérico; e o pensamento hermético não formou somente muito de seu trabalho, mas também sua inteira estética. Por 1912, se não antes, ele tinha começado a se consorciar com Debussy, a quem ele alude frequentemente, senão não comitantemente em seus jornais. Em 1926 ele projetou o set para uma produção da ópera ‘Pelleas et Me1isande’ porque, segundo um comentador, ele era incapaz de resistir de ligar seu nome durante todo tempo ao de Claude Debussy. A vida privada de Cocteau que incluia surtos de vícios de drogas e uma sequência de casos homossexuais era notoriamente errática. Isto tem estimulado uma imagem dele como um indivíduo volátil e imprudentemente irresponsável. De fato, contudo, ele sempre foi agudamente consciente de sua persona pública; e fossem quais fossem suas escapadas pessoais, ele não as deixou impedirem seu acesso a pessoas de influência e poder. Como ele próprio admitiu, ele sempre havia ansiado pelo reconhecimento público, honra, estima, até mesmo a Admissão na Academia Francesa. E ele estabeleceu o ponto de se conformar suficientemente para se assegurar do status que buscava. Assim ele nunca esteve afastado das figuras proeminentes como Jacques Maritain e Andre Malraux. Embora nunca ostensivamente interessado em política, ele denunciou o Governo de Vichy durante a guerra e parece ter estado discretamente em liga com a Resistência. Em 1949 ele foi feito Cavaleiro da Legião de Honra. Em 1958 ele foi convidado pelo irmão de deGaulle a fazer uma fala pública sobre o assunto geral da França. Este não era o tipo de papel geralmente atribuido a Cocteau, mas ele parece o ter desempenhado suficientemente frequentemente e ter  saboreado assim o fazer. Por uma boa parte de sua vida, Cocteau esteve associado, algumas vezes intimamente, algumas vezes perifericamente aos círculos roialistas católicos. Aqui ele frequentemente tinha relações amigáveis com membros da velha aristocracia, incluindo alguns dos amigos e patronos de Proust. Ao mesmo tempo, contudo, o catolicismo de Cocteau era altamente suspeito, altamente não ortodoxo, e parece ter sido mais um comprometimento estético do que religioso. Na última parte de sua vida, ele devotou grande parte de sua energia redecorando igrejas – um eco curioso, talvez, de Berenger Sauniere. Ainda que até mesmo sua piedade seja questionável: “Eles me tomam por um pintor religioso porque tenho decorado uma capela. Sempre a mesma mania de rotular as pessoas.’ Como Sauniere, Cocteau em suas redecorações, incorporou certos dados curiosos e sugestivos. Alguns estão visíveis na Igreja de Notre Dame de France, ao redor do esquina de Leicester Square em Londres. A própria igreja data de 1865 e pode, em sua consagração, ter tido  certas conexões maçonicas. Em 1940, no auge da blitz, ela estava seriamente danificada. Não obstante, ela permaneceu o centro favorito de veneração para muitos membros das Forças Livres Francesas e depois da guerra foi restaurada e redecorada por artistas de toda França. Entre eles estava Cocteau, que, em 1960, três anos antes de sua morte, executou um mural apresentando a Cricificação. Há um sol negro, e uma figura sinistra não identificada pintada de verde no canto inferior direito. Há um soldado romano sustentando um escudo com um  pássaro emblazonado nele sobre isso, um pássaro em alto estilo sugerindo uma restituição egípcia de Horus. Entre as mulheres que lamentam e os centuriões que jogam dados há duas figuras incongruentemente modernas – uma das quais é o próprio Cocteau, apresentado em um auto-retrato com suas costas significativamente viradas para a cruz. A mais desconcertante de todas é o fato de que o mural apresenta somente a parte inferior da cruz. Seja o que for que esteja pendurado nela é visível apenas até os joelhos e assim não se pode ver a face ou determinar a identidade de quem está sendo crucificado. E fixado na cruz, imediatamente abaixo do pé da vítima anônima, está uma rosa gigantesca. O projeto, em resumo, é um flagrante aparelho rosacruz. E se nada mais, é um motivo muito singular para uma igreja católica.

Os Dois Joões e a Igreja Católica

Os Dossiês Secretos, nos quais apareceu a lista dos alegados Grão Mestres de Sião, foram datados de 1956. Cocteau não morreu senão em 1963. Assim não há indicação sobre quem pode te-lo sucedido, ou quem pode presidir o Priorado de Sião no presente. Mas o próprio Cocteau apresentou um ponto adicional de imenso interesse. Até o ‘corte do elmo’ em 1188, avaliaram os documentos do Priorado, Sião e a Ordem do Templo partilhavam do mesmo Grão Mestre. Depois de 1188 é dito que Sião escolheu um Grão Mestre próprio, o primeiro deles sendo Jean de Gizors. Segundo os Documentos do Priorado, cada Grão Mestre, ao assumir a sua posição, tem adotado o nome de Jean [João] ou, como houve quatro mulheres, Joana. Portanto os Grão Mestres de Sião tem alegadamente compreendido uma sucessão de Joões e Joanas, de 1188 até o presente. Esta sucessão era claramente pretendida para implicar um papado hermético e esotérico baseado em João, em contraste [e talvez oposição] aquele exotérico baseado em Pedro. Uma questão maior, com certeza, era que João. João Batista? João Evangelista, o Discípulo Amado no Quarto Evangelho? O ou João o Divino, autor do Livro da Revelação?  Parecia muito bem ser um desses três porque Jean de Gizors em 1188 tinha supostamente tomado o título de João II. Quem era então João I? Seja qual for a resposta a esta questão, Jean Cocteau aparece na lista dos alegados Grão Mestres como João XXIII. Em 1959, enquanto Cocteau ainda presumidamente mantinha o Grão Mestrado, morreu o Papa Pio XII e os cardeais reunidos elegeram, como seu novo pontífice, o Cardeal Angelo Roncalli de Veneza. Qualquer Papa reecém eleito escolhe seu próprio nome e o Cardeal Roncalli causou uma consternação considerável quando ele escolheu o nome de João XXIII. Tal consternação não era injustificada. Em primeiro lugar o nome João tem sido anatematizado implicitamente desde que ele foi por último usado no século V por um anti-papa. Sobretudo, já havia existido um João XXIII. O papa que abdicou em 1415 e que, muito interessantemente, tinha anteriormente sido bispo de Alet era de fato João XXIII. Isto era então não usual, para dizer o mínimo, para o Cardeal Roncalli assumir o mesmo nome. Em 1976 um pequeno livro enigmático foi publicado na Itália e logo depois traduzido para o francês. Ele era chamado ‘As Profecias do Papa João XXIII’ e continha uma compilação de obscuros poemas em prosa compostos pelo pontífice que morreu 13 anos antes em 1963, no mesmo ano de Cocteau. Em sua maior parte estas profecias são extremamente ‘opacas’ e desafiam qualquer interpretração coerente.  Se este é de fato um trabalho de João XXIII é também uma questão em aberto. Mas a introdução ao trabalho mantém que elas sejam de fato trabalho do Papa João. E ela mantém algo posterior bem como João XXIII era um membro secreto da Rosacruz, a qual ele se afiliou enquanto atuava como núncio papal na Turquia em 1935. É desnecessário dizer que esta avaliação soa incrível. Certamente isso não pode ser provado e não encontramos evidência externa que sustente isso. Mas porque, imaginamos, deve uma tal avaliação até mesmo ter sido feita em primeiro lugar? Pode ela ser verdadeira afinal? Pode haver ao menos um grão de verdade nisto? Em 1188 o Priorado de Sião é dito ter adotado o sub-título de ‘Rose-Croix Veritas’. Se o Papa João fosse afiliado a uma organização Rosacruz, e se esta Rosacruz fosse o Priorado de Sião, as implicações seriam extremamente intrigantes. Entre outras coisas elas sugeririam que o Cardeal Roncalli, ao se tornar Papa, escolheu o nome de seu próprio Grão Mestre, de forma que, por alguma razão simbólica, haveria um João XXIII presidindo simultaneamente sobre o Papado e Sião. Em qualquer caso o governo simultaneo de um João XXIII sobre Sião e Roma teria sido uma extraordinária coincidência. Nem podia os Documentos do Priorado divisarem uma tal lista para criar uma tal coincidêcia; uma lista que culminava com João XXIII ao mesmo tempo em que um homem com este título ocupava o trono de São Pedro. Porque a lista dos Grão Mestres tinha sido composta e depositada na Biblioteca Nacional não mais tarde do que 1956, três anos antes de João XXIII se tornar Papa.

Havia uma outra coincidência desconcertante: no século XII um monge irlandês chamado Malaquias compilou uma série de profecias do tipo das de Nostradamos. Nestas profecias, que, incidentalmente, são ditas serem altamente estimadas por muitos católicos romanos importantes, incluindo o papa atual, João Paulo II, Malaquias enumera os pontífices que ocuparação o trono de São Pedro nos séculos a virem. Para cada pontífice ele oferece uma espécie de moto descritivo. E para João XXIII, o moto, traduzido para o francês, é ‘Pasteur et Nautonnier’ – [Pastor e Navegador]. O título oficial do alegado Grão Mestre de Sião é também “Nautonnier”. Seja qual for a verdade subjacente a estas estranhas coincidências, não há dúvida de que mais do que qualquer outro homem o Papa João XXIII foi responsável pela reorientação da Igreja Católica Romana e por traze-la, como tem frequentemente dito seus comentaristas, para o século XX. Muito disso foi realizado por reformas do Segundo Concílio do Vaticano, que João inaugurou. Ao mesmo tempo, contudo, João foi responsável por outras mudanças também. Ele revisou a posição católica sobre a Livre Maçonaria, por exemplo rompendo com ao menos dois séculos de tradição enraizada e pronunciando que um católico pode ser um Maçom Livre. E em junho de 1960 ele emitiu uma carta apostólica extremamente importante. Esta missiva se dirigia especificamente ao assunto do ‘Precioso Sangue de Jesus’. E ela atribuiu um até aqui sem precendentes significado a este sangue. Ela enfatizava o sofrimento de Jesus como um ser humano, e mantinha que a redenção da humanidade tinha sido afetada pelo derramamento do sangue Dele. No contexto da carta do Papa, a paixão humana de Jesus, e o derramamento de seu sangue, assumem uma maior consequência do que a Ressureição ou até mesmo do que a mecânica da Crucificação. As implicações desta carta são ultimamente enormes. Como tem observado um comentador, eles alteram a inteira base da crença cristã. Se a redenção da humanidade foi alcançada pelo derramamento do sangue de Jesus, sua morte e ressureição se tornam incidentais, se não de fato superfluos. Jesus não precisava ter morrido na cruz para que a fé mantivesse sua validade.

A Conspiração Através dos Séculos

Como iriamos sintetizar a evidência que tinhamos acumulado? Muito dela era impressiva e parecia manter o testemunho de algo de algum padrão, algum projeto coerente. A lista dos alegados Grão Mestres do Sião, contudo improvável como originalmente tinha se parecido, agora apresentava algumas consistências interessantes. A maioria das figuras na lista estavam ligadas, por exemplo, ou por sangue ou associação pessoal, com as famílias cujas genealogias figuravam nos Documentos do Priorado e particularmente com a casa de Lorreine. A maioria das figuras na lista estavam envolvidas com ordens de um tipo ou outro, ou com sociedades secretas. Virtualmente todas as figuras na lista, até mesmo quando nominalmente católicas, mantinham crenças religiosas não ortodoxas. Virtualmente todas elas estavam imersas no pensamento e tradição esotéricos. E em quase todos os casos tem havido alguma espécie de contacto íntimo entre um alegado Grão Mestre, seu predecessor e seu sucessor. Não obstante, estas consistências, tão impressivas quanto possam ser, necessariamente não provam algo. Elas não provam, por exemplo, que o Priorado de Sião, cuja existência durante a Idade Média tinha sido confirmada, tivesse realmente continuado a sobreviver pelos séculos subsequentes. Ainda menos elas provam, por exemplo, que indivíduos citados como Grão Mestres realmente mantiveram esta posição. Ainda que nos pareça incrível que alguns deles realmente o tenham feito. Tanto quanto diga respeito a certos indivíduos, a idade na qual eles alegadamente se tornaram Grão Mestres argumenta contra eles. Garantidamente, era possível que Edouard de Bar possa ter sido eleito Grão Mestre aos cinco anos de idade ou que Rene D’Anjou o fosse aos oito anos com base em princípio hereditário. Mas nenhum de tal princípio parece ser obtido para Robert Fludd ou Charles Nodier, que supostamente se tornaram Grão Mestres aos 21 anos, ou para Debussy, que supostamente o fez aos 23.

Tais indivíduos não tiveram tempo para percorrer seu caminho pelos escalões, como alguém pode, por exemplo, na Livre Maçonaria.  Nem eles haviam se tornado solidamente estabelecidos em suas próprias esferas. Esta anomalia não faz qualquer sentido aparente. A menos que se assuma que o Grão Mestrado de Sião fosse frequentemente puramente simbolico, uma posição ritual ocupada por uma figura cabeça que, talvez, não estivesse ciente do status atribuido a ela. Contudo tem se provado fútil especular  ao menos com base na informação que possuimos. Portanto voltamos novamente a história, buscando a evidência do Priorado de Sião em outros lugares, diferentes da lista citada dos alegados Grão Mestres. Lançamos particularmente nossa sorte na casa de Lorreine, e algumas outras famílias citadas nos Documentos. E buscamos evidência adicional para o trabalho de uma sociedade secreta, agindo mais ou menos encobertamente por trás das cenas. Se ela fosse de fato genuinamente secreta, não podiamos, com certeza, esperar encontrar o Priorado de Sião explicitamente mencionado por este nome. Se ela tivesse continuado a funcionar através dos séculos, ela o teria feito sob uma variedade de máscaras e disfarces, frentes e fachadas exatamente como ela supostamente funcionou por um tempo sob o nome de Ormus, o que é descartado. Nem ela teria apresentado uma única e óbvia política específica, posição política ou atitude prevalente. De fato qualquer tal caso coesivo e unificado, até mesmo se visto de relance, teria sido altamente suspeito. Se estamos lidando com uma organização que tem sobrevivido por nove séculos, temos que creditar a ela uma considerável flexibilidade e adaptabilidade. Sua própria sobrevivência deve ter dependido destas qualidades. E sem elas, ela teria degenerado em uma forma vazia, tão vazia de poder real, como, vamos dizer, o  Oficial da Casa Real da Guarda. Em resumo, o Priorado de Sião não pode ter permanecido rígido e imutável por toda sua história. Ao contrário, ele deve ter sido compelido a mudar periodicamente, se modificar e suas atividades, se ajustar e aos seus objetivos, a um mutante caleidoscópio dos assuntos mundiais exatamente como as unidades de cavalaria durante o século passado tem sido compelidas a trocarem seus cavalos por tanques e carros blindados. Nesta capacidade de se corformar a uma dada idade e explorar e dominar sua tecnologia e seus recursos, o Sião teria constituido um paralelo ao que pareceria seu rival exotérico, a Igreja Catolico Romana; ou talvez para citar um exemplo enganosamente sinistro, a organização conhecida como Máfia. Não vemos, com certeza, o Priorado de Sião como vilões não adulterados. Mas a Máfia ao menos forneceu o testemunho de como, ao se adaptar de idade a idade, uma sociedade secreta pode existir, e um tipo de poder que ela pode exercer.

O Priorado de Sião na França

Segundo os Documentos do Priorado, o Sião entre 1306 e 1480 possuia nove membros de comando. Em 1481, quando Rene D’Anjou morreu, este número foi supostamente expandido para 27. Os mais importantes são listados como tendo sido situados em Bouges, Gizors, Jarnac, Mont Saint-Michel, Montreval, Paris, Le Puy, Solesmes e Stenay. E os Dossiês Secretos acrescentam cripticamente, havia ‘um arco chamado Bethanis cas de Anne situada em Rennes-le-Chateau”. Não está precisamente claro o que significa esta passagem, exceto que Rennes-le-Chateau pareceria desfrutar de algum tipo de significado altamente especial. E certamente não pode ser coincidental que Sauniere, ao construir sua vila, então a batizou de Vila Bethania. Segundo os Dossiês Secretos, a jurisdição do comandante em Gizors datou de 1306 e estava situada na Rue de Vienne. De lá isso supostamente se comunicava, por meio de uma passagem subterrânea, com o cemiterio local e com a capela subterrânea de Santa Catarina localizada sob a fortaleza. No século XVI esta capela, ou talvez uma cripta adjacente a ela, é dito ter se tornado um depositório dos arquivos do Priorado de Sião, guardados em trinta cofres. Já em 1944, quando Gizors foi ocupada pelo pessoal alemão, uma missão especial foi enviada de Berlim, com instruções para planejar uma série de excavações sob a fortaleza. A invasão aliada da Normandia impediu tal realização; mas não muito depois, um trabalhador francês chamado Roger Lhomoy embarcou em suas próprias escavações. Em 1946 ele anunciou ao Prefeito de Gizors que ele tinha encontrado uma capela subterrânea contendo nove sarcófagos de pedra e trinta cofres de metal. Sua petição para escavar poteriormente, e tornar pública sua descoberta, foi retardada quase deliberadamente e pode ver por uma oficial fita vermelha. Ao menos, em 1962, Lhomoy começou suas solicitadas escavações em Gizors. Elas foram realizadas sob os auspícios de Andre Malraux, o Ministro francês da Cultura naquele tempo, e não foram oficialmente abertas ao público. Certamente nenhum cofre ou sarcófago foi encontrado. Se a capela subterrânea foi encontrada tem sido debatido na imprensa, bem como em vários livros e artigos. Lhomoy insistiu que ele encontrou novamente seu caminho para a capela, mas seus conteúdos haviam sido removidos. Seja qual for a verdade sobre este assunto, há menção da capela subterrânea de Santa Catarina em dois velhos manuscritos, um datado de 1696 e o outro de 1375. Sobre esta base, a história de Lhomoy se torna ao menos plausível. Assim o faz a avaliação de que a capela subterrânea era um depositório dos arquivos de Sião. Para nós, em nossa própria pesquisa, encontramos prova conclusiva que o Priorado de Sião continuou a existir por ao menos três séculos depois das Cruzadas e da dissolução dos Cavaleiros Templários. Entre o início do século XIV e até o século XVII, por exemplo, os documentos pertinentes a Orleans, e a base em Sião lá em Saint Samson, faz referências esporádicas a Ordem. Então está no registro que no início do século XVI membros do Priorado de Sião em Orleans ao desconsiderar suas ‘regras’ e se recusar ‘a viver em comum’ sendo licensiosos, residindo fora dos muros de Saint-Samson, boicotando os serviços divinos e negligenciando em reconstruir as paredes da casa, que haviam sido seriamente danificadas em 1562. Por 1619 as autoridades pareciam  ter perdido a paciencia. Naquele ano, segundo os registros, o Priorado de Sião foi expluso de Saint- Samson e a casa foi entregue aos Jesuítas. A partir de 1619 não pudemos encontrar referências ao Priorado de Sião, a qualqur nível sob seu nome. Mas se nada mais, podemos ao menos provar sua existência até o século XVII. E ainda que a própria prova, tal como ela era, levantasse um número de questões cruciais.

Em primeiro lugar as referências encontradas não lançam luz sobre quais foram as reais atividades do Sião, seus objetivos e interesses ou possivelmente sua influência. Em segundo lugar, estas referências, parecia, tinham o testemunho somente de algo de consequência insignificante, uma fraternidade curiosamente fugidia de monges ou devotos religiosos cujo comportamento, embora não ortodoxo e talvez clandestino, era relativamente de menor importância. Não pudemos reconciliar os ocupantes aparentemente negligentes de Saint-Samson com os celebrados e legendários Rosacruzes, ou um bando de monges voluntariosos com uma instituição cujos Grão Mestres supostamente compreendiam alguns dos nomes mais ilustres no história e cultura ocidentais. Segundo os Documentos do Priorado, Sião era uma organização de considerável poder e influência, responsável pela criação dos Templários e por manipular o curso dos assuntos internacionais. As referências que encontramos nada sugeriram de uma tal magnitude. Uma explicação possível, com certeza, foi que Saint-Samson em Orleans era apenas um assento isolado, e provavelmente um menor, das atividades de Sião. E de fato a lista das importantes jurisdições de comando nos Dossiês Secretos nem mesmo incluem Orleans. Se Sião era de fato uma força a ser reconhecida, Orleans pode ter sido apenas um pequeno fragmento de um padrão muito mais amplo. E se este foi o caso, teriamos que procurar por traços da Ordem em outros lugares.

Os Duques de Guise e Lorreine

Durante o século XVI a casa de Lorreine e seu ramo cadete, a casa de Guise, fex uma tentativa combinada e determinada de derrubar a dinastia Valois da França e exterminar a linhagem de Valois e reclamar o trono francês. Esta tentativa, em várias ocasiões veio com um alento fino de suprendente sucesso. No curso de alguns trinta anos todos os governantes Valois, herdeiros e príncipes foram dizimados, e a linhagem levada a extinção. A tentativa de se apoderar do trono francês se estendeu através de três gerações de familia dos Guises e Lorraine. Ela chegou mais perto do sucesso nos anos de 1550 e 1560 sob os auspícios de Charles, Cardeal de Lorraine e de seu irmão, François, Duque de Guise. Charles e François eram relacionados a família Gonzaga de Mantua e a Charles de Montpensier, Policial de Bourbon listado nos Dossiês Secretos como Grão Mestre de Sião até 1527. Sobretudo, François, Duque de Lorrraine, tem sido estigmatizado pelos últimos historiadores tão raivosamente e fanáticos católicos, intolerante, brutal e sedento de sangue. Mas há evidência substancial a sugerir que a reputação dele é em alguma extensão não justificada, ao menos quanto diga respeito a aderência ao catolismo. François e seu irmão aparecem, muito patentemente, terem sido acalorados, se não ambiciosos, oportunistas, cortejando tanto católicos quanto protestantes em nome de seu projeto ulterior. Em 1562, por exemplo, no Concílio de Trento, o Cardeal de Lorraine lançou uma tentativa para descentralizar o Papado e conferir autonomia aos bispos locais e restaurar a hierarquia eclesiástica ao que havia sido nos tempos Merovíngios.

Por 1563 François de Guise já era virtualmente o rei quando caiu sob uma bala de um assassino. Seu irmão, o Cardeal de Lorraine, morreu doze anos depois, em 1575. Mas a vingança contra a linhagem real francesa não cessou. Em 1584 o novo Duque de Guise e o novo cardeal de Lorraine embarcaram em um novo assalto contra o trono. Seu principal aliado neste emprendimento era Luis Gonzaga, Duque de Nevers, que, segundo os Documentos do Priorado, tinha se tornado Grão Mestre de Sião nove anos antes. A bandeira dos conspiradores era a cruz de Lorraine, o antigo emblema de Rene D’Anjou. A luta continuou. Pelo fim do século os Valois estavam extintos. Mas a casa de Guise tinha ela própria sangrado até a morte no processo, e não podia apresentar nenhum candidato elegível para um trono que finalmente tinha caído sob suas garras. Simplesmente não é sabido se havia uma sociedade secreta, ou ordem secreta, apoiando as casas de Guise e Lorraine. Certamente eles foram auxiliados por uma rede internacional de emissários, embaixadores, assasinos, agentes provocadores, espiões e agentes que podem muito bem ter compreendido uma tal instituição clandestina. Segundo Gerard de We, um desses agentes era Nostradamus que de fato era um agente secreto trabalhando para François de Guise e Charles, Cardeal de Lorraine.  Se Nostradamus era um agente para as casas de Guise e Lorraine, ele pode ter sido responsável por fornecer a elas importante informação concernente as atividades e planos de seus adversários, mas ele também, em sua capacidade de astrólogo da côrte francesa, teria sido familiarizado de todas as maneira com os segredos íntimos, bem como costumes diferentes e fraquezas de personalidade. Ao jogar com as vulnerabilidades com as quais ele se tornou familiriarizado, ele pode ter manipulado psicologicamente os Valois nas mãos de seus inimigos. E em virtude de sua familiaridade com os horóscopos deles, ele pode muito bem ter avisado aos inimigos deles sobre, vamos dizer, um momento aparentemente propício para assassinato. Muitas das profecias de Nostradamus, em resumo, podem não terem afinal profecias. Elas podem ter sido mensagens crípticas, cifras, programações, tabelas de tempo, instruções, projetos para ação. Se este realmente foi ou não o caso, não há dúvida de que algumas profecias de Nostradamus não eram profecias, mas se referiam, muito explicitamente, ao passado dos Cavaleiros Templários, a dinastia Merovíngia, a história da casa de Lorraine. Um número desconcertante delas se refere aos Razes, o velho Conde de Rennes-le-Chateau. E númerosas quartilhas se referem ao advento de um ‘Grande Monarca’. O Grande Monarca indica que este soberano derivará ultimamente de Languedoc. Nossa pesquisa revelou um fragmento adicional que ligava Nostradamus ainda mais diretamente a nossa investigação. Segundo Gerard de Sede, bem como a história popular, Nostradamus, antes de embarcar em sua carreira como profeta, passou um tempo considerável em Lorraine. Isto pareceria ser algum tipo de noviciado, ou período de provação, depois do qual ele teria sido supostamente iniciado em algum segredo portentoso. Mais especificamente ele é dito ter sido apresentado a um livro antigo e arcano, sobre o qual ele baseou todo seu trabalho subsequente. E este livro foi reportadamente divulgado a ele em um lugar muito importante na misteriosa Abadia de Orval, doado pela mãe adotiva de Godfroi de Bouillon, onde nossa pesquisa sugeriu que o Priorado de Sião pode ter tido o seu início. Em qualquer caso, Orval continuou, por outros dois séculos, a ser associado ao nome de Nostradamus. Tão tarde quanto durante a Revolução Francesa e a era Napoleônica os livros de profecias, supostamente de autoria de Nostradamus, eram emitidos de Orval.

O Lance pelo Trono da França

Por meados dos anos de 1620 o trono da França foi ocupado por Luis XIII. Mas o poder por trás do trono, e o real arquiteto da política francesa, era o primeiro ministro do rei, o Cardeal Richelieu. Richelieu é geralmente reconhecido por ter sido super maquiavélico, o supremo maquinador de sua era. Ele pode também ter sido algo mais. Conquanto Richelieu estabelecesse uma estabilidade sem precedentes na França, o resto da Europa e especialmente a Alemanha se inflamavam nos sofrimentos da Guerra dos Trinta Anos. Em suas origens, a Guerra dos Trinta Anos não era essencialmente religiosa. Não obstante, ela rapidamente se tornou polarizada em termos religiosos. Por um lado estavam as forças resolutamente católicas da Espanha e da Áustria.  Por outro lado estavam os exércitos protestantes da Suécia e de pequenas principalidades alemãs – incluindo o Palatinado do Reno, cujos regentes, o Eleitor Frederico e sua esposa Elizabeth Stuart estavam no exílio em Haia. Frederico e seus aliados de campo eram endossados e apoiados pelos pensadores e escritores rosacrucianos do continente e da Inglaterra. Em 163 o Cardeal Richelieu embarcou em uma política audaciosa e aparentemente incrível. Ele levou a França para a Guerra dos Trinta Anos mas não do lado que se poderia esperar. Para Richelieu, um número de considerações tomaram precedência sobre suas obrigações religiosas como Cardeal. Ele buscava estabelecer a supremacia da França na Europa. Ele buscava neutralizar a perpétua e tradicional ameaça oferida à segurança francesa pela Áustria e a Espanha. Ele buscava abalar a hegemonia espanhola que havia sido obtida por mais de um século especialmente no velho coração da terra Merovíngia dos Países Baixos e partes da moderna Lorraine. Como resultado destes fatores, a Europa foi tomada de surpresa pela ação sem precedentes de um Cardeal católico, presidindo um país católico, despachando tropas católicas para combater com os protestantes contra outros católicos. Nenhum historiador tem até mesmo sugerido que Richelieu fosse um rosacruciano. Mas ele não podia possivelmente ter feito algo mais do que manter atitudes rosacrucianas, ou mais provavelmente ganhar o favor rosacruciano. Neste meio tempo a casa de Lorraine tinha novamente começado a aspirar, embora obliquamente, o trono francês. Desta vez o reclamante era Gaston D’Orleans, o irmão mais jovem de Luis XIII. Gaston não era ele próprio da casa de Lorraine. Em 1632, contudo, ele havia se casado com a irmã do Duque de Lorraine. Seu herdeiro portanto teria o sangue de Lorraine pelo lado materno; e se Gaston subisse ao trono Lorraine presidiria a França na próxima geração. Esta perspectiva era suficiente para mobilizar apoio. Entre estes avaliados apoiadores dos direitos de sucessão de Gaston encontramos um individuo que já haviamos encontrado antes de Charles, o Duque de Guise. Charles tinha sido tutelado pelo jovem Robert Fludd. E ele havia se casado com Henriette Catarine de Joueeuse, proprietária de Couiza e Arques – onde a tumba identica aquela da pintura de Poussin foi encontrada.

Tentativas para depor Luis em favor de Gaston fracassaram, mas o tempo parecia estar do lado de Gaston; ou ao menos do lado dos herdeiros de Gaston, porque Luis XIII e sua esposa Anne da Áustria permaneciam sem herdeiros. Já existiam rumores em circulação que o rei era homossexual ou sexualmente incapacitado; e de fato, segundo certos relatos a seguir sua subsequente autópsia, ele foi pronunciado incapaz de gerar filhos. Mas então, em 1638, depois de 23 anos de casamento consideradamente estéril, Anne da Áustria subitamente teve um filho. Poucas pessoas naquele tempo acreditaram na legitimidade do  menino, e ainda há considerável dúvida quanto a isso. Segundo autores contemporaneos e posteriores, o pai do menino era o Cardeal Richelieu, ou talvez alguém empregado por Richelieu, muito possivelmente seu protegido e sucessor Cardeal Mazarin. Foi até mesmo afirmado que depois da morte de Luis XIII Mazarin a Anne se casaram secretamente. Em qualquer caso, o nascimento do herdeiro de Luis XIII foi uma séria explosão nas esperanças de Gaston d’Orleans e da casa de Lorraine. E quando Luis e Richelieu morreram em 1642, a primeira de uma série de tentativas concertadas foi lançada para expulsar Mazarin e tirar o jovem Luis XIV do trono. Estas tentativas, que começaram como levantes populares, culminaram em uma guerra civil que irrompeu intermitentemente por dez anos. Para os historiadores, a guerra é conhecida como Fronde. Além de Gaston D’Orleans, seus instigadores principais incluem um número de nomes, famílias e títulos que já nos são familiares. Houve Frederic-Maurice de la Tour dAuvergne, Duque de Bouillon. Houve o Visconde de Turenne. Houve o Duque de Longueville – neto de Luis Gonzaga, Duque de Nevers, e alegado Grão Mestre de Sião meio século antes.  A sede e capital dos ‘frondeurs’ era, muito significativamente, a antiga cidade das Ardenas de Stenay.

A Companhia do Santo Sacramento

Segundo os Documentos do Priorado, o Priorado de Sião, durante meados do século XVII, se dedicou a depor Mazarin. Muito claramente isso pareceria não ter sido bem sucedido. A Fronde fracassou, Luis XIV ascendeu ao trono da França e Mazarin, emboras brevemente removido, foi rapidamente reinstalado, presidindo como primeiro ministro até sua morte em 1660. Mas se Sião de fato se devotou a depor Mazarin, ao menos temos algum vetor para isso, alguns meios de localizar e verificar isso. Dado as famílias envolvidas no Fronde, famílias cujas genealogias figuram nos Documentos do Priorado, pareceu razoável associar Sião aos instigadores do tumulto. Os Documentos do Priorado tem avaliado que Sião se opunha ativamente a Mazarin. Eles também avaliaram que certas famílias e títulos – Lorraine, por exemplo, Gonzaga, Nevers, Guise, Longueville e Bouillon não tinham sido apenas abertamente ligadas a Ordem, mas também forneceram a ela alguns de seus Grão Mestres. E a história confirmou que foram estes nomes e títulos que tinham se esgueirado na linha de frente da resistência ao Cardeal. Assim parece que haviamos localizado o Priorado de Sião, e que tinhamos identificado ao menos alguns de seus membros. Se estivesssemos certos, Sião durante o período em questão, ao mesmo a qualquer nível, foi um outro nome para um movimento e uma conspiração que a muito os historiadores tem reconhecido e identificado. Mas se os ‘freudeurs’ constituem um enclave de oposição a Mazarin, eles não eram os únicos de tais enclaves. Havia outros também, enclaves entrelaçados que funcionavam não apenas durante o Fronde mas muito depois. Os Documentos do Priorado, eles próprios, se referem repetida e insistentemente a Companhia do Santo Sacramento. Eles implicam, muito claramente, que a Companhia era de fato Sião, ou uma fachada para Sião, operando sob um outro nome. E certamente a Companhia em suas estruturas, organização, atividade e modos de operação se conformavam a imagem que haviamos começado a formar de Sião. A Companhia do Santo Sacramento era uma sociedade secreta altamente organizada e eficiente. Não há questionamento disso ser fictício. Ao contrário, sua existência tem sido reconhecida por seus contemporaneos, bem como pelos historiadores subsequentes. Ela tem sido exaustivamente documentada, e numerosos livros e artigos tem sido devotados a ela. Seu nome é bastante familiar na França, e continua a desfrutar de uma certa mística atual.

Alguns de seus papéis tem até mesmo vindo a luz. A Companhia é dito ter sido fundada, entre 1627 e 1629, por um nobre associado a Gaston d’Orleans. Os indivíduos que guiaram e formaram sua política permaneceram escrupulosamente anônimos, contudo, e ainda hoje o são. Os únicos nomes definitivamente asociados a ela são aqueles de membros de baixo escalão ou intermediários de sua hierarquia de ‘homens de frente’, por assim dizer, que agiam sob instruções dos acima. Um desses era o irmão da Duquesa de Longueville. Um  outro era Charles Fouquet, irmão do Superintendente de Finanças de Luis XIV. E havia um tio do filósofo Fenelon que, meio século mais tarde, exerceu uma profunda influência na Livre Maçonaria como Cavaleiro Ramsay. Entre estes mais proeminentemente associados a Companhia estava a figura misteriosa agora conhecida como São Vicente de Paulo, e Nicolas Pavillon, bispo de Alet, o centro a poucas milhas de Rennes-le-Chateau, e Jean Jacques Olier, fundador do Seminário de São Suspílcio. De fato São Suspílcio é reconhecido agora geralmente ter sido o centro de operações da Companhia. Em suas organizações e atividades, a Companhia ecoava a Ordem do Templo e prefigurava a posterior Maçonaria Livre. Trabalhando de São Suspílcio, ela estabeleceu uma rede intrincada de ramos e capítulos provinciais. Os membros provinciais permaneceram ignorantes da identidade de seus diretores. Eles eram frequentemente manipulados em benefício de objetivos que eles próprios não partilhavam. Eles eram até mesmo proibidos de contactar uns aos outros exceto via Paris, assim assegurando um controle altamente centralizado. E até mesmo em Paris os arquitetos da sociedade permaneciam desconhecidos daqueles que obedientemente os serviam.  Em resumo, a Companhia compreendia uma organização em cabeça de hidra com um coração invisível. Até hoje não é sabido o que constituia o coração. Nem quem o constituia. Mas é sabido que o coração bate de acordo com algum segredo velado e poderoso. Narrativas contemporaneas referem-se expecificamente ao ‘segredo que está no núcleo da companhia’. Segundo um dos estatutos da sociedade, descoberto não muito depois, ‘o canal primário que forma o espírito da Companhia, e que é essencial a ela, é o segredo’. Até onde diga respeito aos membros noviços não iniciados, a Companhia era ostensivamente devotada ao trabalho caritativo, especialmente em regiões devastadas pelas Guerras de Religião e subsequentemente o Fronde na Picardia, por exemplo, Champagne e Lorraine.

Agora é geralmente aceito, contudo, que este ‘trabalho caritativo’ era meramente uma fachada conveniente e engenhosa, que tinha pouco a ver com a razão de ser da Companhia. A real razão de ser era duplamente se engajar no que era chamado de ‘pia espionagem’, reunir ‘informação de inteligência’, e infiltrar os ofícios mais importantes na terra, incluindo os círculos em proximidade direta ao trono. Nestes objetivos a Companhia parece ter desfrutado um notável sucesso. Como membro do real ‘Conselho de Consciência’, por exemplo, Vicente de Paulo se tornou confessor de Luis XIII. Ele também foi um íntimo conselheiro de Luis XIV até que sua oposição a Mazarin o forçou a abdicar de sua posição. E a Rainha Mãe, Anne da Áustria, foi, em muitos aspectos, um peão infeliz da Companhia, que por um tempo gerenciou a qualquer nível volta-la contra Mazarin. Mas a Companhia não se confinou exclusivamente ao trono. Em meados do século XVII ela podia manter o poder sobre a aristocracia, o parlamento, o judiciário e a polícia – tanto assim, que em várias ocasiões estes corpos abertamente ousaram desafiar o rei. Em nossas pesquisas não encontramos historiadores, escrevendo seja na época ou mais recentemente, que explicassem adequadamente a Companhia do Santo Sacramento. A maioria das autoridades a apresentam como uma organização militante arqui católica, um bastião rigidamente entrincheirado e ortodoxamente fanático. As mesmas autoridades afirmam que ela se devotava a remover os heréticos. Mas porque, em um país devotamente católico, deve uma tal organização ter vindo a funcionar com tal estrito segredo? E quem constituia um herético naquele tempo? Os Protestantes? os Jansenistas? De fato havia inúmeros protestantes e jansenistas dentro das fileiras da Companhia. Se a Companhia era piamente católica, ela devia, na teoria, ter endossado o Cardeal Mazarin, que, afinal, incorporava os interesses católicos naquele tempo. Ainda que a Companhia militantemente se opusesse ao Cardeal e tanto que Mazarin, perdendo toda sua tempera, jurou empregar todos os seus recursos para destrui-la. E o que é mais, a Companhia provocou a vigorosa hostilidade em outras partes convencionais também.

Os Jesuítas, por exemplo, assiduamente faziam campanha contra ela. Outras autoridades católicas acusavam a Companhia de ‘heresia’, a própria coisa que a Companhia  propôs se opor. Em 1651 o bispo de Toulouse acusou a Companhia de ‘práticas ímpias’ e apontou algo altamente irregular em suas cerimônias – um eco curioso das acusações levantadas contra os Templários. Ele até mesmo ameaçou os membros da sociedade com a excomunhão. A maioria deles acaloradamente desafiava esta ameaça com uma resposta extremamente singular aos supostamente pios católicos. A Companhia havia sido sido formada quando o furor rosacruciano ainda estava em seu zênite. A ‘fraternidade invisível’ era acreditada estar em todos os lugares, omnipresente e isto gerou não apenas pânico e paranóia mas também a inevitável ‘caça às bruxas’. E ainda que nem mesmo um traço tenha sido encontrado de um rosacruciano carregando os cartões em qualquer lugar, ao menos em toda França católica. Até onde diga respeito a França, os rosacrucianos permaneceram invenções de uma imaginação popular alarmista. Ou eles existiram? Se houve de fato interesses ‘rosacrucianos’ determinados a estabelecer um apoio para os pés na França, que melhor fachada poderia ser que uma organização dedicada a caçar rosacrucianos? Em resumo, os rosacrucianos podem ter levado adiante seus objetivos, e ganhado um acompanhamento na França, ao se passar por seu próprio arqui inimigo. A Companhia bem sucedidamente desafiou Mazarin e Luis XIV. Em 1660, menos de um ano antes da morte de Mazarin, o rei pronunciou-se oficialmente contra a Companhia e ordenou sua dissolução. Pelos próximos cinco anos a Companhia desdenhosamente ignorou o édito real. Ao menos, em 1665, ela concluiu que não podia continuar a operar em sua ‘presente forma’. Concomitantemente todos os documentos pertinentes a sociedade foram reconvocados e escondidos em algum depositório secreto em Paris. Este depositório nunca foi localizado embora geralmente seja acreditado ter sido em São Suspílcio. Se assim o foi, os arquivos da Companhia teriam sido disponíveis, mais do que dois séculos mais tarde, para homens como o Abade Emile Hoffet. Mas embora a Companhia deixasse de existir no que era então sua ‘presente forma’, não menos ela continuou a operar ao menos até o início do século seguinte, ainda constituindo um espinho no quadril de Luis XIV.

Segundo tradições não confirmadas ela sobreviveu bem para dentro do século XX. Se esta última avaliação é verdadeira ou não, não há dúvida de que a Companhia sobreviveu a sua suposta dissolução em 1665. Em 1667 Moliere, um leal aderente de Luis XIV, atacou a Companhia por certas veladas mas agudas alusões em ‘Le Tartuffe’. A despeito de sua aparente extinção, a Companhia retaliou ao ter a peça suprimida e a guardando por dois anos, a despeito do patrocínio real de Moliere. E a Companhia parece ter empregado seu próprio portavoz literário também. É murmurado, por exemplo, ter incluido La Rochefoucauld que certamente foi ativo no Fronde. Segundo Gerard de Sede, La Fontaine também era um membro da Companhia, e suas fábulas encantadoras e ostensivamente inócuas eram de fato ataques alegoricos ao trono. Isto não é inconcebível. Luis XIV  desgostava intensamente de La Fontaine, e ativamente se opôs a sua admissão na Academia Francesa. E os patronos e patrocinadores de La Fointaine incluiam o Duque de Guise, o Duque de Bouillon e o Visconde de Turenne e a viúva de  Gaston d’Orleans. Na Companhia do Santo Sacramento assim encontramos uma real sociedade secreta, muitas das quais a história estava a registro. Ela era ostensivamente católica, mas não obstante ligada a atividades distintamente não católicas. Ela era intimamente associada com certas famílias aristocráticas que tinham sido ativas no Fronde e cujas genealogias figuravam nos Documentos do Priorado. Ela estava estreitamente ligada a São Suspílcio. Ela trabalhava primariamente pela infiltração e veio a exercer enorme influência. E ela era ativamente oposta ao Cardeal Mazarin. Em todos estes aspectos, ela se conformava quase que perfeitamente a imagem do Priorado de Sião como apresentada nos Documentos do Priorado. Se Sião de fato estava ativo durante o século XVII, podemos assumir razoavelmente que ele tenha sido sinônimo da Companhia. Ou talvez com o poder por trás da Companhia.

Castelo Barberie

Segundo os Documentos do Priorado, a oposição de Sião a Mazarin provocou a amarga retribuição do Cardeal. Entre as principais vítimas desta retribuição é dito ter estado a família Plantard, descendentes lineares de Dagoberto II e da dinastia Merovíngia. Em 1548, afirmam os documentos do Priorado, Jean des Plantard tinha se casado com Marie de Saint-Clair assim fabricando um outro link entre a sua famíla e aquela de Saint-Clair/Gizors. Por aquele tempo também, a família Plantard estava supostamente estabelecida em um certo  Chateau Barberie perto de Nevers, na região Nivernais da França. Este castelo supostamente constituia a residência oficial da família Plantard pelo século seguinte. Então, em 11 de julho de 1659, segundo os Documentos do Priorado, Mazarin ordenou o arrasamento e a destruição total do castelo. Na conflagração que se seguiu, é dito que a família Plantard perdeu todas as suas posses. Nenhum livro convencional ou estabelecido de história, nem a biografia de Mazarin, confirmaram estas avaliações. Nossas pesquisas não encontraram menção seja ela qual fosse a uma família Plantard em Nivernais, ou, de início, a qualquer Castelo Barberie. E ainda que Mazarin, por alguma razão não especificada, cobiçasse Nivernais e invejassse o Duque de Nevers. Eventualmente ele conseguiu comprar deles e o contrato é assinado em 11 de julho de 1659, o mesmo dia no qual é dito que o Castelo Barberie foi destruido. Isto nos provocou investigar o assunto posteriormente. Eventualmente exumamos uns poucos fragmentos esparsos de evidência. Eles não eram suficientes para explicar as coisas, mas eles atestaram a veracidade dos Documentos do Priorado. Em uma compilação, datada de 1506, de propriedades e bens em Nivernais é mencionado um Barberie. Uma carta de direitos de 1575 mencionou um  pequeno vilarejo em Nivernais chamado Les Plantards. Mais convincente de todos, ele transpirava a existência de um Castelo Barberie que de fato tinha sido estabelecido. Durante 1874-5 membros da Sociedade de Letras, Ciências e Artes de Nevers realizaram uma escavação exploratória no sítio de certas ruínas. Foi um empreendimento difícil, porque as ruínas estavam quase irreconhecíveis como tais, as pedras haviam sido vitrificadas pelo fogo e o próprio sítio foi espessamente encoberto por árvores. Eventualmente, contudo, remanescentes de uma parde de torre e de um castelo foram descobertos. Este sítio agora é reconhecido ter sido Barberie.

Antes de sua destruição ele aparentemente consistia de um pequeno centro fortificado e um castelo. E está dentro de uma pequena distância do pequeno vilarejo de Les Plantards, e não há razão para não ter sido possuído por um família deste nome. O fato curioso é que não há registro de quando o castelo foi desrtuído, nem por quem. Se Mazarin foi o responsável, ele parece ter tido extraordinárias dores para erradicar todos os traços de sua ação. De fato pareceu ter sido uma tentativa metódica e sistemática de dizimar o Castelo Barberie do mapa e da história. Porque embarcar em um tal processo de obliteração, a menos que haja algo a esconder?

Nicolas Fouquet

Mazarin tinha outros inimigos além dos ‘frondeurs’ e da Companhia do Santo Sacramento. Entre os mais poderosos deles estava  Nicolas Fouquet, que em 1653, tinha se tornado Superintendente das Finanças de Luis XIV. Um homem dotado, ambicioso e precoce, Fouquet, dentro dos próximos poucos anos, tiha se tornado o mais rico e mais poderoso indivíduo no reino. Ele as vezes era chamado de ‘o verdadeiro rei da França’. E ele não era sem aspirações políticas. Era murmurado que ele pretendia fazer da Britania um ducado independente e ele próprio seu duque presidente. A mãe de Fouquet era um membro proeminente da Companhia do Santo Sacramento. E assim o era seu irmão Charles, Arcebispo de Narbonne no Languedoc. Seu irmão mais novo, Luis, também era um eclesiástico. Em 1656 Nicolas Fouquet despachou Luis para Roma, por razões – não necessariamente misteriosas – nunca explicadas.  De Roma, Luis escreveu uma carta enigmática citada anteriormente que fala de um encontro com Poussin e um segredo ‘que até mesmo os reis teriam grandes dores para tirar dele”. E de fato, se Luis foi indiscreto na correspondência, Poussin nada deu seja o que fosse. Seu selo pessoal tinha o moto ‘Tenet Confidentiam’.

Em 1661 Luis XIV ordenou a prisão de Nicolas Fouquet. As acusações eram estremamente gerais e nebulosas. Havia acusações vagas de mal versação de fundos e outras, até mesmo mais vagas, de sedição. Com base nestas acusações todas as propriedades de Fouquet foram colocadas sob sequestro real. Mas o rei proibiu seus oficiais de tocar nos papéis de correspondência do Superintendente. Ele insistiu em mergulhar e esmiuçar estes documentos pessoalmente e em particular. O seguinte julgamento se arrastou por quatro anos e se tornou uma sensação na França daquele tempo, violentamente partindo e polarizando a opinião pública. Luis Fouquet que havia se encontrado com Poussin e escrito a carta de Roma estava morto então. Mas a mãe do Superintendente e o irmão sobrevivente mobilizaram a Companhia do Santo Sacramento, cuja afiliação também incluia um dos juízes presidentes. A Companhia lançou todo seu apoio por trás do Superintendente, trabalhando ativamente pelas cortes e na mente popular. Luis XIV que não era sedento de sangue exigia nada menos do que uma sentença de morte. Recusando-se a ser intimidada por ele, a corte aprovou uma sentença de banimento perpétuo. Ainda exigindo a morte, o rei enraivecido removeu os juízes recalcitrantes e os substituiu por outros mais obedientes, mas a Companhia ainda parecia te-lo desafiado. Eventualmente, em 1665, Fouquet foi sentenciado a prisão perpétua. Por ordens do rei ele era mantido em um rigoroso isolamento. Ele foi proibido de escrever e de todos os meios pelos quais ele podia se comunicar com alguém. E qualquer soldado que alegadamente conversasse com ele era destinado as navios de prisão ou, em alguns casos, enforcado. Em 1665, o ano da prisão de Fouquet, Poussin morreu em Roma. Durante os anos que se seguiram Lus XIV persistentemente se comportou por meio de seus agentes para obter a pintura única dos “Pastores da Arcadia”. Em 1685 ele finalmente o conseguiu. Mas a pintura não foi mostrada ou exibida nem mesmo na residência real. Ao contrário, ela foi sequestrada nos apartamentos particulares do rei, onde ninguém podia ve-la sem a autoridade pessoal do monarca. Há uma nota de rodapé na história de Fouquet, para sua própria desgraça, seja qual for suas causas e magnitude, ele nunca foi visitado por seus filhos.

Em meados do século seguinte o neto de Fouquet, o Marquês de Belle-Isle, tinha se tornado, de fato, o único homem mais importante na França. Em 1718 o Marquês de Belle-Isle cedeu a própria Belle-Isle, uma ilha fortificda fora da costa de Breton para a coroa. Em troca ele recebeu certos territórios interessantes. Um deles foi Longueville, cujos antigos duques e duquesas tinham figurado recorrentemente em nossa investigação. E um outro foi Gizors. Em 1718 o Marquês de Belle-Isle tornou-se Conde de Gizors. Em 1742 ele se tornou Duque de Gizors. E em 1748 Gizors foi elevada ao status de primeiro ducado.

Nicolas Poussin

O próprio Poussin nasceu em 1594 em um pequeno centro chamado Les Andelys – a umas poucas milhas, descobrimos, de Gizors. Como um jovem homem ele deixou a França e estabeleceu residência em Roma, onde passou a duração de sua vida, voltando apenas uma vez ao seu país natal. Ele voltou a França na década de 1640 a pedido do Cardeal Richelieu, que o havia convidado a realizar uma específica comissão. Embora ele não fosse ativamente envolvido em política, e poucos historiadores tem tocado em seus interesses politicos, Poussin era de fato estreitamente associado ao Fronde. Ele não deixou seu refúgio em Roma. Mas sua correspondência do período o revela tendo estado profundamente envolvido no movimento anti-Mazarin, e em termos surpreendentemente familiares com um número de ‘frondeours’ influentes tanto que, de fato, ao falar deles, ele repetidamente usou o pronome nós. E assim claramente se implicando. Nós já tinhamos traçado os motivos da corrente subterrânea de Alfeu, da Arcadia e dos Pastores da Arcadia, até Rene D’Anjou.  Agora buscamos encontrar um antecedente para a frase específica na pintura de Poussin: “ET ARCADIA EGO’. Ela apareceu em uma pintura anterior de Poussin, na qual a tumba é sobreposta por um cranio e não constitui um edifício ela mesma, mas está embebida do lado de um penhasco. No fundo desta pintura repousa uma deidade aquária barbada em uma atitude de melancolia pensativa  o rio deus Alfeu, senhor da corrente subterrânea. O trabalho data de 1630 ou 1635, cinco ou dez anos antes da versão mais familiar dos ‘Pastores da Arcadia’. A frase ‘ET ARCADIA EGO’ fez seu aparecimento público entre 1618 e 1623 em uma pintura de Giovanni Francesco Guercino – uma pintura que constitui a base real para o trabalho de Poussin. Na pintura de Guercino, dois pastores, entrando em clareira na floresta, tem apenas dado com sepulcro de pedra. Ele tem a inscrição agora famosa, e há um grande cranio repousando no topo dele. Seja qual for o significado simbólico deste trabalho, o próprio Guercino levantou um número de questões. Não apenas ele era bem versado na tradição esotérica. Ele também parece ter sido um conhecedor da história das sociedades secretas, e algumas outras de suas pinturas lidam com temas de um caráter especificamente maçonico, uns bons vinte anos antes que as lojas começassem a proliferar na Inglaterra e na Escócia. Uma pintura, ‘O Elevar-se do Mestre’ pertence expicitamente a história maçonica de Hiram Abiff, arquiteto e construtor do Templo de Salomão. Ela foi executada quase um século antes que a história de Hiram seja geralmente acreditada e encontre seu caminho na maçonaria. Nos Documentos do Priorado, ‘ET ARCADIA EGO’ é dito ter sido o instrumento oficial da família Plantard desde ao menos o século XII, quando Jean des Plantard se casou com Idoine de Gizors. Segundo uma fonte citada nos Documentos do Priorado, é citado como tal já em 1210 por um Robert, Abade de Mont Saint Michel. Não fomos capazes de obter acesso aos arquivos de Mont Saint Michel e assim não pudemos verificar esta afirmação. Contudo, nossa pesquisa nos convenceu, que a data de 1210 era demostravelmente errada. Como questão de fato, não havia um abade em Mont Saint Michel chamado Robert em 1210. Por outro lado, um Robert de Torigny foi de fato abade de Mont Saint Michel entre 1154 e 1186. E Robert de Tourigny é conhecido ter sido um historiador prolífico e assíduo cujos hobies incluiam colecionar motos, instrumentos, brasões e cotas de armas das famílias nobres pela cristandade. Seja qual for a origem da frase, ‘ET ARCADIA EGO’ parece, para Guercino e Poussin, ter mais do que uma linha de poesia elegíaca. Muito claramente isto parece ter desfrutado de algum significado de importancia secreta, que era reconhecível ou identificável para certas outras pessoas; o equivalente, em resumo, de um sinal ou senha maçonica.

É precisamente em tais termos que uma declaração nos Documentos do Priorado define o caráter da arte simbólica ou alegórica; os trabalhos alegóricos tem esta vantagem, que uma única palavra seja suficiente para iluminar ligações que a multidão não pode alcançar. Tais trabalhos estão disponíveis a todos,  mas seu significado se dirige a uma elite. Acima e além das massas, o remetente e o destinatário entendem um ao outro. O sucesso inexplicável de certos trabalhos deriva de sua qualidade de alegoria, que constitui não uma mera moda, mas uma forma de comunicação esotérica. Neste contexto, esta declaração foi dada em relação a Poussin. Como tem demonstrado Frances Yates, contudo, ela pode igualmente ser bem aplicada aos trabalhos de Leonardo, Botticelli e outros artistas da Renascença. Ela também pode ser aplicada a figuras posteriores para Nodier, Hugo, Debussy, Cocteau e seus círculos respectivos.

A Capela Rosslynn e  Shugborough Hall

Em nossa pesquisa prévia temos encontrado um número de importantes ligações entre os alegados Grão Mestres de Sião dos séculos XVII e XVIII e a Livre Maçonaria européia. No curso do nosso estudo da Livre Maçonaria descobrimos certas outras ligações também. Estas ligações adicionais não se relacionam aos alegados Grão Mestres como tais, mas elas se relacionam a outros aspectos de nossa investigação, Então, por exemplo, encontramos repetidas referências a família Sinclair, o ramo escocês da família normanda de Saint-Clair/Gizors. O domínio deles em Rosslynn ficava a apenas umas poucas milhas da antiga sede escocesa dos Cavaleiros Templários, e a capela de Rosslynn construída entre 1446 e 1486 a muito tem sido associada a Livre Maçonaria e a Rosacruz. Em uma carta de direitos acreditada datar de 1601, sobretudo, os Sinclairs são reconhecidos como Grão Mestres hereditários da Maçonaria Escocesa. Este é o mais inicial documento específicamente maçonico a registro.

Segundo fontes maçonicas, contudo, o Grão Mestrado hereditário foi conferido aos Sinclairs por James II, que governou entre 1437 e 1469 na era de Rene D’Anjou. Uma peça ainda mais misteriosa de nosso quebra-cabeças também apareceu na Bretanha desta vez em Staffordshire, que tinha sido um leito quente para a atividade maçonica em meados do século XVII. Quando Charles Radcliffe, alegado Grão Mestre de Sião, escapou da Prisão Newgate em 1714, ele foi ajudado por seu primo, o Conde de Lichfield. Mais tarde no  século a linhagem do Conde de Lichfield tornou-se extinta e seu título se interrompeu. Ele foi comprado no início do século XIX pelos descendentes da família Anson, que são os atuais Condes de Lichfield. O assento dos atuais Condes de Lichfield é Shugborough Hall em Staffordshire. Antigamente uma residência de um bispo, Shugborough foi comprado pela família Anson em 1697. Durante o século seguinte ele foi a residência do irmão de George Anson, o famoso almirante que circumnavegou o globo. Quando George Anson morreu em 1762, um poema elegíaco foi lido alto no Parlamento. Em uma estancia deste poema se lê: “Sobre este mármore celebre lance seu olho. A cena exige uma visão moralisante. E em Arcadia plana o abençoado Elísio, entre ninfas sorridentes e cisnes esportivos, Veja alegria festiva se acalmar, com graça enternecida, E a piedosa visita de uma face meio sorrindo; Onde agora a dança, o luto, a festa nupcial, A paixão palpitando no peito do amante, o emblema da vida aqui, na juventude e florescer vernal, Mas o dedo da razão aponta para a tumba.’  Esta seria uma alusão explícita a pintura de Poussin e a inscrição ‘et arcadia ego’ exatamente no ‘dedo apontando para a tumba’. E nos solos de Shugborough há um mármore imponente que tem um relevo executado a mando da família Anson entre 1761 e 1767. Este relevo compreende uma versão invertida, a modo de espelho, da pintura “Os Pastores da Arcadia” de Poussin e imediatamente abaixo dele está uma inscrição enigmática, uma que nunca tem sido decifrada satisfatoriamente:  O.U.O3N.ANN. DM

A Carta Secreta do Papa

Em 1738 o Papa Clemente XII emitiu uma Bula Papal condenando e excomungando todos os Maçons Livres, que ele pronunciou ‘inimigos da Igreja Romana’. Nunca tem sido claro porque eles devessem ter sido vistos como tais especialmente já que muitos deles, como os Jacobitas eram católicos. Talvez o Papa estivesse ciente da ligação que tinhamos descoberto entre os maçons iniciais e os ‘rosacrucianos’ anti-romanos do século XVII. Em qualquer caso, alguma luz pode ser lançada sobre o assunto pr uma carta liberada e publicada pela primeira vez em 1962. Esta carta tinha sido escrita pelo Papa Clemente XII e dirigida a um correspondente desconhecido. Em seu texto o papa declara que o pensamento maçonico repousa em uma heresia que temos encontrado repetidamente antes da negativa da divindade de Jesus. E ele posteriormente avalia que os espíritos guias, as ‘mentes mestras’ por trás da Livre Maçonaria são os mesmas que provocaram a Reforma Luterana. O papa pode muito bem ter sido paranóide; mas é importante notar que ele não está falando de nebulosas correntes de pensamento ou vagas tradições. Ao contrário,ele está falando de um grupo altamente organizado de indivíduos, uma seita, uma ordem, uma sociedade secreta que, através das idades, tem se dedicado a subverter o edifício da cristandade católica.

A Rocha de Sião

No século XVIII, quando diferentes sistemas maçonicos estavam proliferando selvagemente, o chamado Rito Oriental de Mênfis fez seu aparecimento. Neste rito o nome Ormus ocorreu, para nosso conhecimento, pela primeira vez, o nome alegadamente adotado pelo Priorado de Sião entre 1188 e 1307. Segundo o Rito Oriental de Mênfis, Ormus era um sábio egípcio que, por volta de 46, amalgamou os mistérios cristãos e pagãos e, ao fazer isso, fundou a Rosacruz. Em outros ritos maçonicos do século XVIII aparecem repetidas referências a ‘Rocha de Sião’. A mesma ‘Rocha de Sião’ que, nos Documentos do Priorado, tornou  a ‘tradição real’ estabelecida por Godfroi de Bouillon e Bauduino de Bouillon ‘igual’ a qualquer outra dinastia governante na Europa. Tinhamos previamente asumido que a Rocha de Sião fosse simplesmente o Monte Sião, a alta colina ao sul de Jerusalém na qual Godfroi construiu uma abadia para abrigar a ordem que se tornou o Priorado de Sião. Mas fontes maçonicas atribuem uma importância adicional a Rocha de Sião. Dado a preocupação deles com o Templo de Jerusalém, não é surpreendente que eles se refiram a passagens específicas da Bíblia. E nestas passagens a Rocha de Sião é algo mais que uma alta colina; é uma pedra em particular desprezada ou injustificavelmente negligenciada durante a construção do Templo, que deve subsequentemente ser recuperada e reincorporada como a pedra chave da estrutura. Segundo o Salmo 118, por exemplo: ‘A pedra que os construtores recusaram é para vir a ser a pedra fundamental no canto’. Em Mateus 21:42 Jesus alude especificamente a este salmo: ‘Você nunca leu as escrituras, a pedra que os construtores rejeitaram, a mesma é para se tornar a principal do canto’. Em Romanos 9:33 há uma outra referência , muito mais ambígua: ‘Preste atenção, Eu coloco em Sião uma pedra de tropeço e uma rocha de ofensa; e seja quem for que acredite nele não deve ser envergonhado’. Em Atos 4:11 ‘a Rocha de Sião pode bem ser interpetrada como uma metáfora para o próprio Jesus; pelo nome de Jesus Cristo de Nazaré… este homem permanece aqui antes de você inteiro. Esta é a pedra que foi colocada desprezada de vocês construtores, que é para se tornar a principal do canto. Em Efésios 2:20 a equação de Jesus e a Rocha de Sião se torna mais aparente : ‘construa sob a fundação dos apóstolos e profetas, o próprio Jesus Cristo sendo a pedra principal do canto’. E em Pedro 2:3-8 esta equação é tornada ainda mais explícita : ‘O Senhor é gracioso, Para quem vem, como sob uma pedra viva, desautorizado de fato dos homens, mas escolhido de Deus, e precioso. Nós também, como pedras vivas, estamos construidos acima de uma casa espiritual, um sacerdócio sagrado, para oferecer sacrifícios espirituais, aceitaveis a Deus por Jesus Cristo.  Por consequinte issso também está contido na escritura, Acautele-se, estou em Sião uma pedra principal de canto, eleito, precioso; e aquele que acreditou Nele não deve ser confundido. Até você portanto que acredita que ele é precioso, mas até eles que são desobedientes, a pedra que os construtores não autorizaram, a mesa é feita a principal do canto. E uma pedra de tropeço, e uma rocha de ofensa, até mesmo para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para a qual eles eram apontados.’  No próprio próximo verso, o texto contuna para ressaltar temas cuja importância não se torna aparente a nós senão mais tarde. Ele fala de uma linhagem eleita de reis que são líderes seculares e espirituais, uma linhagem de reis-sacerdotes: Mas vocês são uma geração escolhida, um sacerdócio real, uma nação sagrada, um povo peculiar… ‘ O que iriamos fazer destas passagens surpreendentes? O que iríamos fazer da Rocha de Sião, a pedra chave do Templo, que parecia figurar tão salientemente entre os ‘segredos internos’ da Livre Maçonaria? O que iriamos fazer da identificação explícita desta pedra chave com o próprio Jesus? E o que iriamos fazer com a ‘tradição real’
que se tornou fundada na Rocha de Sião ou o próprio Jesus que era ‘igual’ as dinastias governantes da Europa durante s Cruzadas?

O Movimento Modernista Católico

Em 1833 Jean Baptiste Pitois, antigo discípulo de Charles Nodier em  Arsenal Library, era um funcionário no Ministério da Educação Pública. E neste ano o Ministério assumiu o projeto ambicioso de publicar todos os documentos suprimidos  pertinentes à história da França. Dois comitês foram formados para presidirem o empreendimento. Estes comitês incluiam, entre outros, Victor Hugo, Jules Michelet e uma autoridade sobre as Cruzadas, o Barão Emmanuel Rey. Entre os trabalhos subsequentemente publicados sob os auspícios do Ministério da Educação Pública estava o monumental de Michelet ‘Le Proces des Templiers’, uma compilação exaustiva dos registros da Inquisição lidando com os julgamentos de Cavaleiros Templários. Sob os mesmos auspícios o Barão Rey publicou um número de trabalhos lidando com as Cruzadas e o reino franco de Jerusalém. Nestes trabalhos apareceram em impressão pela primeira vez as cartas de direitos originais relativas ao Priorado de Sião. Em certos pontos do texto que Rey cita são quase verbatim as passagens dos Documentos do Priorado. Em 1875 o Barão Rey co-fundou a Sociedade do Latim ou Franco Oriente Médio. Baseada em Genebra, esta sociedade se devotou a ambiciosos projetos arqueológicos. Ela também publicava sua própria revista, ‘ Revue de Orient Latin’, que agora é uma das fontes primárias para historiadores modernos como  Sir Steven Runciman, A Revue de Orient Latin reproduziu um número de cartas de direitos adicionais do Priorado de Sião. A pesquisa de Rey era típica de uma nova forma de erudição histórica aparecendo na Europa naquele tempo, mais proeminentemente na Alemanha, que constituia uma ameaça extremamente séria à Igreja. A disseminação do pensamento darwiniano e do agnosticismo já haviam produzido uma ‘crise de fé’ no século XIX, e a nova erudição magnificou a crise. No passado, a pesquisa histórica tinha sido, em sua maior parte, um caso não confiável, repousando em fundações altamente tenues – em lendas e tradição, em memórias pessoais, em exageros promulgados para o bem de uma ou outra causa. Somente no século XIX os eruditos alemães começaram a introduzir técnicas rigorosas, meticulosas que agora são aceitas como lugar comum, a reserva de base de qualquer historiador responsável. Tal preocupação com o exame crítico, com a investigação de fontes em primeira mão, com referências cruzadas e cronologia exata, estabeleceram o esteriótipo convencional do pedante teutônico. Mas se os escritores alemães do período tendiam a se perderem em minuncias, eles também forneceram uma base sólida para a pesquisa. E para um número de maiores descobertas arqueológicas também. O exemplo mais famoso, com certeza, é a escavação de Heinrich Schliemann do sítio de Tróia. Foi apenas uma questão de tempo antes que as técnicas da erudição alemã fossem aplicadas, com diligência similar, à Bíblia. E a Igreja, que repousava na aceitação inquestionável do dogma, estava também ciente que a própria Bíblia não poderia resistir a um tal exame crítico. Em seu livro best seller e altamente controvertido ‘A Vida de Jesus’, Ernest Renan já havia aplicado a metodologia alemã ao Novo Testamento e os resultados, para Roma, eram altamente embaraçantes.

O Movimento Católico Modernista elevou-se inicialmente como uma resposta a este novo desafio. Seu objetivo original era produzir uma geração de especialistas eclesiásticos treinados na tradição alemã, que pudessem defender a verdade literal das Escrituras com toda sua pesada munição de erudição crítica. Na medida em que isto transpirava, o plano explodia antes do tempo. Quanto mais a Igreja buscava equipar seus clérigos mais jovens com os instrumentos para o combate no polêmico mundo moderno, mais estes mesmos clérigos começaram a desertar da causa para qual eles foram recrutados. O exame crítico da Bíblia revelou uma multitude de inconsistências, discrepâncias e implicações que eram positivitamente inimigas do dogma católico. E pelo fim do século os Modernistas não eram mais as tropas de choque de elite da Igreja que ela esperava que eles fossem, mas os desertores e hereges incipientes. De fato, eles constituiam a mais séria ameaça que a Igreja havia vivenciado desde Martinho Lutero, e trouxeram o inteiro edifício do catolicismo a beira de um cisma sem precedentes por séculos. O leito quente da atividade Modernista, como ela havia sido para a Companhia do Santo Sacramento, era São Suspílcio em Paris. De fato, uma das vozes mais ressonantes no Movimento Modernista era o homem que era diretor do Seminário de São Suspílcio de 1852 a 1884. As atitudes modernistas de São Suspílcio espalharam-se rapidammente para o resto da França, Itália e Espanha. Segundo estas atitudes, os textos Bíblicos não eram unicamente autoritários, mas tinham de ser entendidos no contexto específico de seu tempo. E os modernistas também se rebelaram contra a crescente centralização do poder eclesiástico especialmente na doutrina recentemente instituida da infalibilidade papal, que ia flagrantemente contra a nova tendência.

Muito antes que as atitudes modernistas estivessem sendo disseminadas não somente pelos clérigos intelectuais, mas por distinguidos e influentes escritores também. Figuras como  Roger Martin du Gard na França, e Miguel de Unamuno na Espanha estavam entre os portavozes primários do Modernismo. A Igreja respondeu com o previsível vigor e ira. Os Modernistas foram acusados de serem Maçons Livres. Muitos deles foram suspensos e até mesmo excomungados, e seus livros foram colocados no Index. Em 1903, o Papa Leão XII estabeleceu a Pontifícia Comissão Bíblica para monitorar o trabalho dos eruditos escriturais. Em 1907 o Papa Pio X emitiu uma condenação formal do Modernismo. E em 1o. de setembro de 1910 a Igreja exigiu que seus clérigos fizessem um voto contra as tendências modernistas. Não obstante, o Modernismo continuou a florescer até a Primeira Guerra Mundial desviar a atenção pública para outras preocupações. Até 1914 ele permaneceu uma causa célebre.

Um autor Modernista, o Abade Turmel, provou-se um indivíduo particularmente prejudicial. Conquanto ostensivamente se comportava impecavelmente em seu posto de ensino na Britania, ele publicou uma série de trabalhos modernistas sob não menos que quatorze pseudonimos diferentes. Cad um deles foi colocado no Index ms não foi até 1929 que Turmel se identificou como autor deles. É desnecessário dizer, ele foi então sumariamente excomungado. Enquanto isso o Modernismo espalhava-se na Britania, onde ele foi calorosamente benvindo e endossado pela Igreja Anglicana. Entre seus aderentes anglicanos estava William Temple, mais tarde arcebispo de Canterbury, que declarou que o Modernismo era o que as pessoas mais educadas já acreditavam. Um dos associados de Temple era Canon A. L. Liney. E Liney conhecia o sacerdote do qual ele havia recebido aquela carta portentosa que fala da ‘prova incontroversa’ que Jesus não morreu na cruz. Liney, como sabemos, tinha trabalhado por algum tempo em Paris, onde ele fez conhecimento com o Abade Emile Hoffet, o homem a que Sauniere levou os pergaminhos encontrados em Rennes-le-Chateau. Com seu talento em história, linguagem e linguística, Hoffet era um típico jovem erudito Modernista de sua era. Contudo, ele não tinha sido treinado em São Suspílcio. Ao contrário, ele tinha sido treinado em Lorraine. Na Escola Seminário de Sião: A Colina Ispirada.

Os Protocolos de Sião

Um dos testemunhos mais persuasivos que encontramos da existência e atividade do Priorado de Sião datou do final do século XIX. O testemunho em questão é suficientemente bem conhecido ms não é reconhecido como testemunho. Ao contrário, ele sempre tem sido associado a coisas mais sinistras. Ele tem desempenhao um papel notório na história recente e ainda tende a levantar tais violentas emoções, amargos antagonismos e pavorosas memórias que a maioria dos escritores ficam felizes em antecipadamente o descartar. Na extensão em que este testemunho tem contribuido significativamente para o preconceito e sofrimento humanos, uma tal reação é perfeitamente compreensível. Mas se o testemunho tem sido criminosamente mal usado, nossas pesquisas nos convenceram  que ele também tem sido seriamente mal entendido. O papel de Rasputin na côrte de Nicholas e Alexandra da Rússia é mais ou menos geralmente conhecido, contudo, havia influentes e até mesmo poderosos enclaves esotéricos na corte russa muito antes de Rasputin. Durante os anos de 1890 e 1900 um de tais enclaves se formou ao redor de um indivíduo conhecido como Monsieur Philippe, e ao redor de seu mentor, que fez visitas periódicas a côrte imperial em Petersburg. E o mentor de Monsieur Philippe não era outro que o homem chamado Papus, o esoterista francês associado a Jules Doinel (o fundador da igreja neo-cátara em  Languedoc), Peladan (que afirmou haver descoberto a tumba de Jesus), Emma Calve e Claude Debussy. Em uma palavra, o ‘reavivamento oculto francês’ do final do século XIX não tinha apenas se espalhado a Petersburg. Seus representantes também desfrutavam de um status privilegiado de confidentes pessoais do Tzar e da Tzarina. Contudo, o enclave esotérico de Papus e de  Monsieur Philippe era ativamente oposto a certos outros interesses poderosos da Grande Duquesa Elizabeth, por exemplo, que tinha a intenção de instalar seus próprios favoritos na proximidade do trono imperial. Um dos favoritos da Grande Duquesa era um homem mais que desprezível conhecido pela posteridade como Sergei Nilus.

Em algum tempo por volta de 1903 Nilus apresentou um documento altamente controvertido ao Tzar; um documento que supostamente continha o testemunho de uma grande conspiração. Mas se Nilus esperava a gratidão do Tzar por esta revelação, ele deve ter ficado profundamente desapontado. O Tzar declarou o documento uma ultrajante fabricação e ordenou que todas as cópias fossem destruídas. E Nilus foi banido da corte em desgraça. De fato o documento, ou, a qualquer nível, uma cópia dele, sobreviveu. Em 1903 ele foi serializado em um jornal mas fracassou em atrair interesse. Em 1905 ele foi novamente publicado desta vez na forma de um apendice de um livro por um distinto filósofo místico, Vladimir Soloviov. A este ponto o documento começou a atrair atenção. Nos anos que se seguiram ele se tornou um dos mais infames documentos do século XX.

O documento em questão era um tratado, ou falando mais estritamente, um proposto programa social e político. Ele tem aparecido sob uma variedade de títulos ligeiramente diferentes, o mais comum dos quais é ‘Os Protocolos dos Sábios de Sião’. Os Protocolos alegadamente sairam de fontes especialmente judias. E para uma grande quantidade de anti-semitas daquele tempo eles eram a prova convincente de uma ‘conspiração internacional judaica’. Em 1919, por exemplo, eles foram distribuídos às tropas do Exército Russo Branco e estas tropas, durante os seguintes dois anos, massacraram uns 60.000 judeus que eram considerados responsáveis pela revolução de 1917. Por 1919 os Protocolos estavam também sendo circulados por Alfred Rosenberg, mais tarde o chefe racial teórico e propagandista do Partido Nacional Socialista na Alemanha. Em Mein Kampft Hitler usou os Protocolos para alimentar seus próprios preconceitos fanáticos, e é dito ter acreditado inquestionavelmente em sua autenticidade. Na Inglaterra aos Protocolos foram imediatamente concedidas credenciais no Morning Post. Até mesmo o The Times, em 1921, os considerou seriamente e somente mais tarde admitiu seu erro.  Hoje os especialistas concluem muito certamente, como nós concluimos, que os Protocolos, ao menos em sua forma presente, são uma fraude viciosa e insidiosa. Não obstante, eles ainda circulam na América Latina, Espanha e até mesmo na Bretanha na propaganda anti-semita.

Os Protocolos propõem um projeto para nada menos do que o total domínio mundial. À primeira leitura eles nos parecem um programa maquiavélico, um tipo de memorando inter-ofício, por assim dizer de um grupo de indivíduos determinados a imporem uma nova ordem mundial, com eles próprios como déspotas supremos. O texto advoga uma conspiração de uma cabeça de hidra com muitos tentáculos dedicada a desordem e anarquia, e a derubar certos regimes existentes, infiltrando a Livre Maçonaria e outras tais organizações e eventualmente tomando o controle absoluto das instituições políticas, economicas e sociais do mundo ocidental. E os autores anônimos dos Protocolos declaram que eles explicitamente gerenciam por estágio povos inteiros ‘de acordo com um plano político, que ninguém tem suposto imaginar mas que está em curso por séculos’. Para um leitor moderno os Protocolos podem parecer terem sido divisados de alguma organização fictícia como SPECTRE –  o adversário de James Bond ns novelas de Ian Fleming. Quando eles foram primeiramente publicados, contudo, os Protocolos foram alegados terem sido compostos em um Congresso Internacional Judaico que se reuniu em Basle em 1897. Esta alegação a muito tempo tem sido desaprovada. As mais iniciais cópias dos Protocolos, são conhecidas terem sido escritas em francês e o Congresso de 1897 em Basle não incluiu um único delegado francês. Sobretudo, uma cópia dos Protocolos é sabida ter estado em circulação em 1884 – 13 anos antes do encontro do Congresso em Basle. A cópia de 1884 aparece nas mãos de um membro de uma loja maçonica; a mesma loja maçonica da qual Papus era um membro e consequentemente um Grão Mestre. Sobretudo esta foi a mesma loja na qual a tradição de Ormus tinha primeiro aparecido; o legendário sábio egípcio que amalgamou os mistérios cristão e pagãos e fundou a Rosacruz. Os eruditos modernos tem estabelecido no fato que os Protocolos, em sua forma publicada, são baseados ao menos em parte em um trabalho satírico escrito e impresso em Genebra em 1864. O trabalho foi composto como um ataque a Napoleão III por um homem chamado Maurice Joly, que foi subsequentemente preso. Joly é dito ter sido um membro de uma Ordem Rosacruz. Se isto é ou não verdade, ele era amigo de Victor Hugo; e Hugo, que partilhava da antipatia de Joly por Napoleão III, era membro de uma Ordem Rosacruz.

Portanto pode ser provado conclusivamente que os Protocolos não sairam do Congresso Judaico em Basle em 1897. Sendo assim, a pergunta óbvia é de onde eles sairam. Os eruditos modernos o tem descartado como uma fraude total, um documento completamente espúrio criado por interesses anti-semitas que pretendiam desacreditar o Judaismo.  Ainda que os Protocolos argumentem fortemente contra esta conclusão. Eles contém, por exemplo, um número de referências enigmáticas – que são claramente não judaicas. Mas estas referências são tão claramente não judaicas que elas podem plausivelmente terem sido fabricadas por um fraudador também. Nenhum fraudador anti-semita com até mesmo uma inteligência média possivelmente teria criado tais referências para desacreditar o Judaísmo. Porque ninguém teria acreditado que estas referências fossem de origem judaica. Então, por exemplo, o texto nos Protocolos termina com uma única declaração, ‘Assinado pelos Representantes de Sião do 33o Grau’. Porque um fraudador anti-semita teria feito uma tal afirmação? Porque ele não teria tentado incriminar todos os judeus, muito mais que uns poucos que constituem ‘os representantes de Sião do 33o grau’? Porque ele não declararia por exemplo que este documento era assinado  pelos representantes do Congresso Internacional Judaico? De fato, pareceria se referir a algo especificamente maçonico. E o 33o grau na Livre Maçonaria é o chamado ‘Estrita Observância’, o sistema da Livre Maçonaria introduzido por Hund em benefício de seus ‘superiores desconhecidos’, um dos quais parece ter sido Charles Radcliffe. Os Protocolos contém outras anomalias até mesmo mais flagrantes. O texto fala repetidamente, por exemplo, do advento de um ‘Reino Maçonico’ e de ‘Um Rei do Sangue de Sião’, que presidirá o Reino Maçonico. Ele avalia que o futuro Rei dos Judeus será o real Papa e ‘patriarca da igreja internacional’. E ele conclui de uma maneira mais críptica, ‘certos membros da semente de David prepararão o Rei e seus herdeiros… Somente o Rei e a árvore que permanece patrocinando-o saberão o que está vindo”.

Como uma expresssão do pensamento judaico, real ou fabricado, tais afirmações são claramente absurdas. Desde os templos bíblicos, rei algum tem figurado na tradição judaica, e o próprio princípio de reinado tem sido completammente irrelevante. O conceito de um rei teria sido tão sem sentido para os judeus de 1897 quanto ele o seria para os judeus hoje; e ninguém pode ser ignorante desse fato. De fato, as referencias citadas pareceriam mais cristãs do que judaicas. Pelos últimos dois milênios o único ‘Rei dos Judeus’ tem sido o próprio Jesus e Jesus, segundo os Evangelhos, era ‘das raízes dinásticas de David’. Se alguém está fabricando um documento e o atribuindo a uma conspiração judaica, porque este documento inclue tais ecos patentemente cristãos? Porque fala de um conceito táo especifico e unicamente cristão quanto o de Papa? Porque falar de uma ‘igreja internacional’ muito mais que de uma sinagoga internacional ou um templo internacional? E porque incluir a alusão enigmática ao ‘Rei e a árvore que permanece o patrocinador’ que é menos sugestiva do judaismo e da cristandade do que o é das sociedades secretas de Johann Valentin Andrea e Charles Nodier? Se os Protocolos sairam inteiramente de uma imaginação propagandista anti-semita, é difícil imaginar um propagandista tão inepto, ou tão ignorante e desinformado. Com base na pesquisa prolongada e sistemática, chegamos a certas conclusões sobre os Protocolos dos Sábios de Sião. Elas são as seguintes:
[1] – Houve um texto original no qual a versão publicada dos Protocolos foi baseada. Este texto original não era uma fraude. Ao contrário, ele era autêntico. Mas ele nada tinha a ver com o judaismo ou com uma ‘conspiração intrenacional judaica’. Ele foi emitido muito mais de alguma organização maçonica ou sociedade secreta maçonicamente orientada  que incorporou a palavra ‘Sião’.
[2] – O texto original sobre o qual a versão publicada dos Protocolos foi baseado necesariamente não precisava ser provocativo ou inflamatório em sua linguagem. Mas pode muito bem ter incluindo um programa de ganhar poder, por infiltrar a Maçonaria Livre, por controlar as instituições sociais, políticas e economicas.  Um tal programa teria sido perfeitamente de acordo com as sociedades secretas da Renascença, bem como com a companhia do Santo Sacramento e as instituições de Andrea e Nodier.
[3] – O texto original sobre a qual foi baseada a versão publicada dos Protocolos caiu nas mãos de Sergei Nilus; Nilus de início não pretendia desacreditar o judaismo. Ao contrário, ele o levou ao Tzar com a intenção de desacreditar o enclave esotérico na corte imperial – o enclave de Papus, Mosieur Philippe e outros que eram membros da sociedade secreta em questão. Mais antes de fazer isso, ele quase certamente doutorou a linguagem, tornando-a mais venenosa e inflamatória do que o era inicialmente. Quando o Tzar o menosprezou, Nilus então liberou os Protocolos em sua forma doutorada para publicação. Eles tinham falhado em seu objetivo primário de comprometer Papus e Monsieur Philippe. Mas eles ainda podiam muito bem servir ao propósito secundário de estimular o anti-semitismo. Embora os alvos principais de Nilus tivessem sido Papus e Monsieur Philippe, ele era hostil ao judaismo também.
[4 – – A versão publicada dos Protocolos não é, portanto, um texto totalmente fabricado. Ele é muito mais um texto radicalmente alterado. Mas a despeito de tais alterações, certos vestígios da versão original podem ser discernidos como em um manuscrito em pergaminho ou como nas passagens da Bíblia. Estes vestígios que se referem a um Rei, um Papa, uma igreja internacional, e ao Sião provavelmente significavam pouco ou nada para Nilus. Ele certamente não teria ele próprio os inventado. Mas se eles já estavam lá, ele não teria tido qualquer razão, dado sua ignorância, para exclui-los. E conquanto tais vestígios possam ter sido irrelevantes para o judaismo, eles podem ter sido extremamente relevantes para uma sociedade secreta. Como aprendemos subsequentemente, eles eram e ainda são de suprema importância para o Priorado de Sião.

Hieron du Val d’Or

Enquanto buscávamos a nossa pesquisa independente, novos ‘Documentos do Priorado’ tinham continuado a aparecer. Alguns deles trabalhos particularmente impressos, como os Dossiês Secretos, e que se destinavam a uma circulação limitada, tornaram-se disponível para nós por meio de ações de amigos na França ou por meio da Biblioteca Nacional. Outros apareceram sob a forma de livro, recentemente publicados e liberados no mercado pela primeira vez.

Em alguns destes trabalhos havia informação adicional sobre o século XIX e especificamente sobre Berenger Sauniere. Segundo uma de tais narrativas atualizadas Sauniere não descobriu os fatídicos pergaminhos em sua igreja por acidente. Ao contrário, é dito que ele tenha sido dirigido a eles por emissários do Priorado de Sião que o visitaram em Renes-le-Chateau e o alistaram como seu faz-tudo. Em 1916 Sauniere é relatado ter desafiado os emissários de Sião e brigado com eles. Se isto é verdade, a morte do cura em 17 de janeiro adquire uma qualidade mais sinistra do que geralmente é atribuída a ela. Dez dias antes de sua morte ele tinha estado em saúde satisfatória. Não obstante, dez dias antes de sua morte um caixão foi encomendado para ele. O recibo do caixão, datado de 12 de janeiro de 1917, é entregue a governante e amiga de Sauniere,  Marie Denarnaud. Uma publicação mais recente e aparentemente de mais autoridade do Priorado elabora a posterior história de Sauniere e parece confimar, ao menos em parte, a narrativa resumida acima. Segundo esta publicação, o próprio Sauniere era pouco mais do que um peão e seu papel no mistério de Rennes-le-Chateau tem sido exagerado. A força real por trás dos eventos na vila da montanha é dita ter sido o amigo de Sauniere, o Abade Henri Boudet, cura da vila adjacente de Rennes-le-Bains. Boudet é dito ter fornecido a Sauniere todo seu dinheiro, um total de 13 milhões de francos, entre 1887 e 1915. E Boudet é dito ter guiado Sauniere em seus vários projetos e trabalhos públicos, a construção da Vila Bethania e da Tour Magdala. Ele também é dito ter supervisionadoo a restauração da igreja de Renes-le-Chateau, e ter projetado as perplexantes Estações da Cruz de Sauniere como um tipo de versão ilustrada, ou equivalente visual, de um livro críptico de sua propriedade. Segundo esta recente publicação do Priorado, Sauniere permaneceu essencialmente ignorante do real segredo para o qual ele agia como tutor até que Boudet, ao se aproximar da morte, o confidenciou a ele em março de 1915. Segundo a mesma publicação, Marie Denarnaud, a governanta de Sauniere, era de fato agente de Boudet. Era por meio dela que Boudet supostamente transmitia instruções a Sauniere. E foi para ela que todo dinheiro era pagável. Ou ao menos, a maior parte do dinheiro.

Boudet, entre 1885 e 1901, é dito ter pago 7.655.250 francos ao bispo de Carcassone; o homem que, por sua própria conta, despachou Sauniere para Paris com os pergaminhos. O bispo, também, pareceria então ser essencialmente empregado de Boudet. É certamente uma situação incongruente um importante bispo regional sendo pago por um servidor ou um humilde sacerdote pároco do interior. E o próprio sacerdote da paróquia? Para quem estava Boudet trabalhando? Que interesses ele representava? O que pode ter dado a ele o poder de alistar os serviços e o silêncio de seu superior eclesiástico? E quem pode ter fornecido a ele os vastos recursos financeiros a serem dispensados prodigamente? Estas perguntas não são respondidas explicitamente. Mas a resposta está constantemente implícita no Priorado de Sião. Uma luz posterior sobre a matéria foi lançada por um outro trabalho recente que, como seus predecessores, parece vir de ‘fontes privilegiadas de informação’. O trabalo em questão é “O Tesouro do Triângulo de Ouro’ de Jean-Luc Chaumiel , publicado em 1979. Segundo Chaumiel, um número de clérigos envolvidos no enigma de Rennes-le-Chateau – Sauniere, Boudet, muito provavelmente outros como Hoffet, o tio de Hoffet em São Suspílcio e o bispo de Carcassone eram afiliados a uma forma de Rito Escocês da Livre Maçonaria. Esta maçonaria, declara Chaumiel, difere das muitas outras formas no que ele era ‘cristã, hermética e aristocrática’. Em resumo, ele não consistia, como muitos ritos da Livre Maçonaria, primariamente em livres pensadores e ateus. Ao contrário, ele parece ter sido profundamente religiosa e magicamente orientada, enfatisando uma sagrada hierarquia social e política, uma ordem divina, um subjacente plano cósmico. E os graus superiores desta Livre Maçonaria, segundo Chaumiel, eram os graus inferiores do Priorado de Sião. Em nossas próprias pesquisas nós já tinhamos encontrado uma Livre Maçonaria do tipo que Chaumiel descreve. De fato, a descrição de Chaumiel pode prontamente ser aplicada ao original Rito Escocês introduzido por Charles Radcliffe e seus associados. Tanto a maçonaria de Radcliffe quanto a maçonaria de Chaumiel descrevem o que teria sido aceitável, a despeito da condenação papal, a católicos devotos sejam eles Jacobitas do século XVIII ou sacerdotes franceses do século XIX. Em ambos os casos Roma desaprovou muito veementemente.

Não obstante, os indivíduos envolvidos não parecem apenas terem persistido em se verem como cristãos e católicos. Eles também parecem, com base na evidência disponível, terem recebido uma maior e estimulante transfusão de fé, uma transfusão que os habilitou a se verem como, se algo, mais verdadeiramente cristãos do que o Papado. Embora Chaumiel seja vago e evasivo, ele implica fortemente que nos anos anteriores a 1914 a Maçonaria Livre da qual Boudet e Sauniere eram membros se tornou amalgamada a uma outra instituição esotérica – uma instituição que pode bem explicar algumas referências curiosas a um monarca nos Protocolos dos Sábios de Sião, especialmente se, como indica Chaumiel posteriormente, o real poder por trás desta outra instituição fosse também o Priorado de Sião. A instituição em questão foi chamada Hieron du Val d’Or o que pareceria uma transposição verbal de um sítio recorrente, Orval. A Hieron du Val d’Or era uma espécie de sociedade secreta política fundada, pareceria, por volta de 1873. Ela parece ter partilhado muito de outras organizações esotéricas do período. Havia, por exemplo, uma ênfase característica na geometria sagrada e vários sítios sagrados. Havia uma insistência na verdade mística ou gnóstica que subjazem aos motivos mitológicos. Havia uma preocupação com as origens dos homens, raças, linguagens e símbolos tais como ocorre na Teosofia. E como muitas outras seitas e sociedades daquele tempo, a  Hieron du Val d’Or era simultaneamente cristã e trans-cristã. Ela soube reconciliar como é dito que o legendário Ormus reconciliou os mistérios cristãos e pagãos. Ela atribuiu uma importãncia especial ao pensamento druidico que, como muitos especialistas modernos, é visto como parcialmente pitagoriano. Todos estes temas estão descritos no trabalho publicado do amigo de Sauniere, o Abade Henri Boudet. Para os propósitos de nossa pesquisa, o Hieron du Val d’Or se provou relevante em virtude de sua formulação do que Chaumiel chama de ‘geopolítica esotérica’ e ‘ordem mundial entárquica’. Traduzido em termos mais mundanos, isto compreende, de fato, o estabelecimento de um novo Sagrado Império Romano na Europa do século XIX – um Sagrado Império Romano revitalizado e reconstituido, um Estado secular que unificasse todos os povos e repousasse em fundações espirituais muito mais que sociais, políticas ou economicas. Diferente de seu predecessor, este novo Sagrado Império Romano teria sido genuinamente ‘sagrado’, genuinamente ‘romano’ e genuinamente ‘imperial’ embora o significado específico destes termos tivessem diferido crucialmente do significado aceito pela tradição e convenção. Um tal Estado teria realizado o velho sonho de séculos de um ‘reino celestial’ na terra, uma réplica terrena ou uma imagem em espelho da ordem, harmonia, hierarquia do cosmos.

Isto teria atualizado a antiga premissa hermética “Como  é encima, é embaixo”. E não era utópica ou ingenua. Ao contrário, ela era ao menos remotamente possivel no contexto da Europa do século XIX. Segundo Chaumiel, os objetivos do Hieron du Val d’Or eram: uma teocracia onde as nações não seriam mais do que províncias, seus líderes apenas pró-consuls a serviço de um governo mundial oculto consistente de uma elite. Para a Europa, este regime do Grande Rei implicava em uma dupla hegemonia do Papado e do Império, do Vaticano e dos Hapsburgs, que teriam sido o braço direito do Vaticano. Pelo século XIX, com certeza, os Hapsburgs eram sinônimo da casa de Lorraine.  O conceito de um Grande Rei assim teria constituido um cumprimento das profecias de Nostradamus. E isso também teria atualizado, ao menos em algum sentido, o projeto monarquista ressaltado nos Protocolos dos Sabios de Sião. Ao mesmo tempo, a realização de um projeto tão grandioso, claramente teria compreendido um número de mudanças nas instituições existentes. O Vaticano, por exemplo, presumidamente teria sido um Vaticano muito diferente daquele situado em Roma. E os Hapsburgs teriam sido mais do que imperiais cabeças do Estado. Eles teriam se tornado, de fato, uma dinastia de reis-sacerdotes como os faraós do antigo Egito. Ou como o Messias antecipado pelos judeus no amanhecer da era cristã. Chaumiel não esclarece a extensão, se alguma, que os próprios Hapsburgs estivessem ativamente envolvidos nestes ambiciosos projetos clandestinos.

Há contudo uma quantidade de evidência, incluindo a visita de um arquiduque Hapsburg a Rennes-le-Chateau que aparentemente atesta ao menos alguma implicação. Mais sejam quais forem os planos que estavam em ação, eles foram impedidos pela Primeira Guerra Mundial, que, entre outras coisas, derrubou os Hapsburgs do poder. Como Chaumiel os explicou, os objetivos do Hieron du Val d’Or ou do Priorado de Sião fazem um certo sentido de lógica no contexto do que temos descoberto. Eles lançam uma nova luz sobre os Protocolos dos Sábios de Sião. Eles concorreram com os objetivos afirmados de várias sociedades secretas, inclusive daquelas de Charles Radcliffe e Charles Nodier. E o mais importante de tudo, eles conformaram as aspirações politicas que, pelos séculos, temos traçado na casa de Lorraine.  Mas se os objetivos do Hieron du Val d’Or fazem um sentido lógico, eles não fazem um sentido politico prático. Em que bases, imaginamos, os Hapsburgs teriam avaliado seu direito a funcionar como um dinastia de reis-sacerdotes? A menos que eles conquistassem o completo apoio popular, um tal direito possivelmente não teria sido avaliado contra o governo republicano da França, sem mencionar as dinastias imperiais então presidindo sobre a Rússia, Alemanha e Bretanha. E como poderia o necessário apoio popular ter sido obtido? No contexto das realidades políticas do século XIX um tal esquema, conquanto logicamente consistente, nos pareceu efetivamente absurdo. Talvez, concluimos, tivessemos interpretado mal o Hieron du Val d’Or. Ou talvez os membros do Hieron du Val d’Or fossem muito simplesmente sem importância. Até que obtivéssemos informação posterior, mão tinhamos outra escolha senão colocar o assunto na prateleira. Neste meio tempo, voltamos nossa atenção ao presente para determinar se o Priorado de Sião existia hoje. Como rapidamente descobrimos, ele existia. Seus membros não eram todos insignificantes, e eles estavam buscando, no século XX pós guerra, um programa essencialmewnte similar aquele buscado no século XIX pelo Hieron du Val d’Or.

A Sociedade Secreta Hoje

O jornal Francês Offciel é uma publicação semanal do governo na qual todos os grupos, sociedades e organizações no país devem se declarar. No Jounal Officiel para a semana de 20 de julho de 1956 [publicação número 167], há a seguinte entrada: 25 de junho de 1956. Declaração a sub-prefeitura de Saint-Julien-en-Genevois. Priorado de Sião. Objetivos: estudos e ajuda mútua a membros. Chefe oficial: SousCassan, Annemasse, Haute Savoie. O Priorado de Sião foi oficialmente registrado com a polícia. Aqui, a qualquer nível, pareceu ser a prova definitiva de sua existência em nossa própria idade até mesmo embora achemos de certa forma estranho que uma sociedade supostamente secreta deva então se revelar. Mas talvez isso não fosse assim tão estranho. Não havia listagem para o Priorado de Sião em qualquer diretório telefônico francês. O endereço se provou vago demais para identificar um escritório específico, casa, construção ou até mesmo rua. E a sub-prefeitura, quando telefonamos para ela, foi de pouca ajuda. Tem havido inúmeras pesquisas, ele disseram, com uma resignação de longo sofrimento e  cansaço. Mas ele não puderam nos oferecer uma informação posterior. Até onde sabemos, o endereço era não rastreável. Se nada mais, isto nos deu uma pausa. Entre outras coisas, isto nos fez imaginar como certos indivíduos tinham conseguido registrar um endereço fictício ou não rastreável com a polícia e então, aparentemente escapar de todas as consequências subsequentes e processo da matéria. Estava a polícia realmente tão  despreocupada e indiferente como parecia? Ou Sião de algum modo tinha alistado sua cooperação e discrição?

A sub-prefeitura, a nosso pedido, nos forneceu uma cópia do que é proposto ser os estatutos do Priorado de Sião. Este documento, que consistia em 21 artigos, não era controvertido nem aparentemente esclarecedor. Ele não dava qualquer indicação da possível influência de Sião, seus membros ou recursos. No todo, ele era mais que brando enquanto ao mesmo tempo compunha a nossa perplexidade. A um ponto, por exemplo, o documento declarava que a admissão a ordem não estava restrita em base de linguagem, origem social, classe ou ideologia política. Em outro ponto, eles estipulavam que todos os católicos acima da idade de 21 anos eram elegíveis para candidatura. De fato os estatutos em geral pareciam ter derivado de uma pia instituição até mesmo ferventemente católica. E ainda que o alegado Grão Mestre de Sião e a história passada, até onde tinhamos sido capazes de rastrea-la, dificilmente atestasse qualquer ortodoxia católica. Para este assunto, até mesmo os modernos Documentos do Priorado, muito deles publicados ao mesmo tempo que os estatutos, eram menos catolicos em orientação do que herméticos, até mesmo hereticamente gnósticos. A contradição não parecia fazer sentido – a menos que Sião, como os Cavaleiros Templários, e a Companhia do Santo Sacramento exigiam o catolicismo como um pré requesito exotérico , que pode então ser transcedido dentro da Ordem. Em qualquer nível Sião, como o Templo e a Companhia do Santo Sacramento, aparentemente exigiam uma obediência que, em sua natureza absoluta, resumia todos os outros compromissos, seculares ou espirituais. Segundo o Artigo VII dos estatutos, ‘O candidato deve renunciar a sua personalidade para se devotar ao serviço de um apostolado alto moral’. Os estatutos posteriormente declaram que Sião funciona sob o sub-título de Cavalaria de Instituições e Regras Católicas da União Independente e Tradicionalista. Isto é abreviado para CIRCUIT, o nome de uma revista que, segundo os estatutos, é publicada internamente pela Ordem e que circulava dentro de suas fileiras. Talvez a informação mais interessante nos estatutos é que desde 1956 o Priorado de Sião pareceria ter expandido sua afiliação quase cinco vezes. Segundo uma página reproduzida nos Dossiês Secretos, impressa em algum tempo antes de 1956, Sião tinha um total de 1.093 enfileirados em sete graus. A estrutura era tradicionalmente piramidal. No topo estava um Grão Mestre, ou ‘Nautonnier’. Havia três no grau abaixo dele [Príncipe Noaquita de Notre Dame], nove no grau abaixo desse [Cruz de São João]. Cada um dos graus abaixo era tão grande tres vezes quando o grau adiante dele 27, 81, 243, 729. Os três graus mais altos do Grão Mestre e seus doze subordinados imediatos eram ditos constituirem os 13 Rosacruz. O número também corresponderia, com certeza, a algo de uma cobertura satânica a Jesus e seus doze discípulos. Segundo os estatutos pós 1956, Sião tinha uma afiliação total de 9.841 enfileirados não em sete graus, mas em nove. A estrutura parece ter permanecido essencialmente a mesma, embora fosse esclarecido, e dois nove graus tivessem sido introduzidos na parte inferior da hierarquia assim posteriormente insulando a liderança por trás de uma grande rede de noviços. O Grão Mestre ainda retinha o título de Nautonnier. Os Três Príncipes Noaquitas de Notre Dame eram simplesmente chamados de Senescais. Os nove Cruzes de São João eram chamados de ‘Constables’. A organização da Ordem, em seu jargão portentosamente enigmático dos estatutos, era como se segue: A assembléia geral é composta de todos os membros da associação. Ela consiste em 729 províncias, 27 comamdanterias e um Arco chamado de Kyria. Cada uma das comandanterias bem como o Arco deve consistir em quarenta membros e cada província tinha treze membros. Os membros são divididos em dois grupos efetivos:
[a] – A Legião, encarregada do apostolado
[b] – A falange, guardiã da tradição.
Os membros compõe uma hierarquia de nove graus . A herarquia de nove graus consiste em:
a) nas 729 províncias [1 – noviços: 6.561 membros; [2] – Cruzados: 2187 membros
[b] – nas 27 comandanterias [3] – preux: 729 membros [4] – Ecuyers: 243 membros [5] – cavaleiros: 81 membros [6] Comandantes: 27 mebros
c) no Arco ‘Kyria’: 7) Connetables: 9 membros 8) Senechaux: 3 membros 9) Nautonnier: 1 membro

Aparentemente por propósitos legais e oficiais burocráticos, quatro indivíduos estavam listados como comprendendo “O Conselho’. Três dos nomes não nos eram familiares e muito possivelmente, pseudônimos – Pierre Bonhomme, nascido em 7 de dezembro de 1934, presidente; Jean Delaval, nascido em 7 de março de 1931, vice-presidente; Pierre Defagot, nascido em 11 de dezembro de 1928, tesoureiro. Um nome, contudo, nós já tinhamos encontrado antes: Pierre Plantard, nascido em 18 de março de 1920, secretário geral. Segundo a pesquisa de um outro escritor, o título oficial de Plantard era Secretário Geral do Departamento de Documentação o que implica, com certeza, que há outros departamentos também.

Alain Poher

Pelo início dos anos de 1970 o Priorado de Sião tinha se tornado uma modesta causa célebre entre certas pessoas na França. Havia um número de artigos de revista e alguma cobertura nos jornais. Em 13 de fevereiro de 1973, o  Midi Libre publicou uma longa apresentação sobre Sião, Sauniere e o mistério de Rennes-le-Chateau. Esta apresetação especificamente ligava Sião com a possível sobrevivência da linhagem sanguínea Merovíngia no século XX. Isso também sugeriu que os descendentes merovíngios incluiam um verdadeiro pretendente ao trono da França que eles identificaram como M. Alain Poher. Conquanto não especialmente bem conhecido na Bretanha ou nos Estados Unidos, Alain Poeher era [e ainda é] um nome familiar na França.

Durante a Segunda Guerra Mundial ele ganhou a Medalha da Resistência e a Cruz de Guerra. Depois da resignação de deGaulle ele foi o Presidente Provisório da França de 28 de abril a 19 de junho de 1969. Ele ocupou a mesma posição na morte de Georges Pompidou, de 2 de abril a 27 de maio de 1974. Em 1973, quando apareceu a apresentação de Midi Libre, Poher era Presidente do Senado Francês. Até onde sabemos, Poher nunca comentou, de um modo ou outro, sobre suas alegadas ligações com o Priorado de Sião e/ou linhagem sanguinea Merovíngia. Nas genealogias dos Documentos do Priorado, contudo, há menção de Arnaud, Conde de Poher, que, em algum tempo entre 894 e 896, se entrecasou com a família Plantard, os descendentes supostamente diretos de Dagoberto II. O neto de Arnaud Poher, Alain, se tornou duque da Bretanha em 937. Se ou não Poher reconhece Sião, então parece claro que Sião o reconhece como sendo, ao menos, de descendência Merovíngia.

O Rei Perdido.

Neste meio tempo, enquanto buscavamos a nossa pesquisa e a media francesa despertava períodicas exaltações de atenção do caso inteiro, novos Documentos do Priorado continuaram a aparecer. Como  antes, alguns apareceram sob a forma de livro, outros como panfletos particularmente impressos, ou artigos depositados na Biblioteca Nacional. Se algo, eles somente compunham a mistificação. Alguém obviamente estava produzindo este material, mas seu real objetivo permanecia não esclarecido. As vezes quase descartamos o caso inteiro como uma piada elaborada, uma farsa de extravagantes proporções. Se isto fosse verdade contudo, era uma farsa que certas pessoas pareciam ter estado sustentando por séculos e se alguém investe tanto tempo, energia e recursos em uma fraude, ela pode realmente ser uma fraude afinal? De fato as meadas entrelaçadas e todo o tecido completo dos Documentos do Priorado eram menos uma piada do que um trabalho de arte uma apresentação de ingenuidade, suspense, brilho, intrincado, conhecimento histórico e complexidade arquitetônica digna de, digamos, James Joyce. E conquanto ‘ Finnegans Wake’ pode ser visto como uma piada de tipos, não há dúvida que seu criador levou isso de fato muito seriamente. É importante notar que os Documentos do Priorado não constituem um convencional movimento que atrai pessoas porque parece estar vencendo, um modo lucrativo que se transformou em uma indústria lucrativa, disseminando sequelas, ‘prequelas’ outros derivados variados. Eles não podem ser comparados, por exemplo, a ‘Carruagem dos Deuses’ de von Dennikenn, as diferentes narrativas do Triangulo das Bermudas ou aos trabalhos de Carlos Castaneda. Seja qual for a motivação por trás dos Documentos do Priorado, certamente não eram as de ganho financeiro. De fato, o dinheiro pareceu ser apenas uma fator incidental, se um fator afinal. Embora eles tenham se mostrado extremamente lucrativos sob a forma de livro, os mais importantes dos Documentos do Priorado não foram publicados como tal. A despeito de seu potencial comercial, eles estavam confinados a impressões particulares, edições limitadas e deposição discreta na Biblioteca Nacional aonde, para este assunto, eles nem sempre estavam disponíveis. E a informação que aparecia sob a forma de um livro convencional não era casual ou arbitrária e em sua maior parte não era o trabalho de pesquisadores independentes. A maior parte dela parece se emanar de uma única fonte. A maior parte dela foi baseada no testemuho de informantes muito específicos, que mediam precisas quantidades de informação acrescentada ao menos uma modificação, uma peça posterior do quebra-cabeças completo. Muitos desses fragmentos foram divulgados sob nomes diferentes. Uma impressão superficial foi assim obtida de um conjunto de escritores separados, cada um dos quais confirmou a atribuiu credibilidade a outros.

Nos parece haver apenas uma motivação plausível para um tal procedimento para atrair a atenção pública para certos assuntos, estabelecer a credibilidade, engendrar o interesse, criar um clima psicológico ou atmosfera que mantém o povo aguardando ansiosamente novas revelações. Em resumo, os Documentos do Priorado parecem especificamente calculados para pavimentar o caminho para alguma revelação perplexante. Seja qual for esta revelação que eventualmente ela se prove ser, ela de certa forma envolveu a Dinastia Merovíngia, a perpetuação da linhagem sanguínea da dinastia até os dias presente e uma realeza clandestina. Então, em uma artigo de revista supostamente escrito por um membro do Priorado de Sião, encontramos a seguinte afirmação: “Sem os Merovíngios, o Priorado de Sião não existiria, e sem o Priorado de Sião, a dinastia Merovíngia estaria extinta.’

O relacionamente entre a Ordem e a linhagem sanguínea é parcialmente esclarecida, parcialmente posteriormente confundida, pela seguinte elaboração: “O Rei é Pastor e pastor ao mesmo tempo. Algumas vezes ele despacha algum brilhante embaixador para seu vassalo no poder, seus factotum, um que tem a felicidade de ser sujeito a morte. Então Rene d’Anjou, Connetable de Bourbon, Nicolas Fouquet … e numerosos outros para os quais o atonito sucesso é seguido pela inexpilcável desgraça para estes emissários são ambos terríveis e vulneráveis. Gardiões de um segredo, alguém pode apenas exalta-los ou destrui-los. Então pessoas como Gilles de Rais, Leonardo da Vinci, Joseph Balsamo, os duques de Nevers e Gonzaga, cujo despertar é frequentado pelo perfume da mágica na qual o enxofre é misturado ao incenso, o perfume de Madalena. Se o Rei Carlos VII, na entrada de Joana D’Arc no grande hall de seu castelo em Chinon, se escondesse entre a multidão de seus cortesãos, não era pelo amor de uma piada frívola onde estava o humor nisso? O segredo que ela entregou a ele em particular continha estas palavras: ‘Gentil Senhor, Venho em benefício do Rei’. As implicações desta passagem são provocantes e intrigantes. Uma é a de que o Rei, ‘O Rei Perdido’, presumidamente da linhagem sanguínea Merovingia continua de fato a reinar, simplesmente em virtude de quem ele é. Uma outra, talvez até mesmo mais surpreendente, implicação é que os soberanos temporais estão cientes de sua existência, o reconhecem , o respeitam e o temem. Uma terceira implicação é que o Grão Mestre do Priorado de Sião, ou algum outro membro da Ordem, atua como embaixador entre o ‘Rei Perdido’ e seus substitutos temporais ou sub-rogados. E tais embaixadores, pareceria, são considerados descartáveis.

Curiosos planfletos na Biblioteca nacional em Paris

Em 1966 uma curiosa troca de cartas ocorreu relativa à morte de Leo Schidlof, o homem que, sob o pseudonimo de Henri Lobineau, era naquele tempo alegado ter composto as geneaologias em alguns documentos do Priorado. A primeira carta, que apareceu em Catholic Weekly de Genebra, é datada de 22 de outubro de 1966. Ela é assinada por um Lionel Burrus, que afirma falar em benefício de uma organização chamada Juventude Suiça Cristã. Burrus anuncia que Leo Schidlof, ou seja Henri Lobineau, morreu em Viena uma semana antes , em 17 de outubro. Ele então defende o defunto contra um ataque difamador, que, ele declara, apareceu em um recente boletim Católico Romano. Burrus registra sua indignação a este ataque. Eu seu elogio a Schidlof ele declara a carta, sob o nome de Lobineau, compilada em 1956, ‘um estudo notável… sobre a genealogia dos Reis Merovíngios e o caso de Rennes-le-Chateau’. Roma, avalia Burrus, não ousou caluniar Schidlof enquanto ele estava vivo, até mesmo embora tivesse um dossiê compreensivo sobre o homem e suas atividades. Mas até mesmo agora, a despeito de sua morte, os intereses merovíngios continuam a serem levados adiante. Para suportar esta avaliação, Burrus parece iluminar mais do que um pouco absurdo. Ele cita que, em 1966, era o emblema de Antar, uma das principais companhia de petróleo da França. Este emblema é dito incorporar um instrumento Merovíngio e apresenta, embora em um modo de cartoon, um rei Merovíngio. E este emblema, segundo Burrus, prova que a informação e propaganda em benefício dos Merovíngios está sendo efetivamente disseminada; e até mesmo o clérigo francês, ele acrescenta com imperfeita relevância, nem sempre pula em benefício do Vaticano. Quanto a Leo Schidlof, Burrus conclui [com ecos da Livre Maçonaria e do pensamento cátaro] ‘Para todos aqueles que conheciam Henri Lobineau, que foi um grande viajante e buscador, um homem leal e bom, ele permanece em nossos corações como um símbolo do ‘mestre perfeito que se respeita e venera.’

Esta carta de  Lionel Burrus pareceria ser distintamente estranha. Certamente ela é extremamente curiosa. Mais curioso ainda, contudo, é o alegado ataque a Schidlof em um boletim Católico Romano, do qual Burrus cita liberalmente. O boletim, segundo Burrus, acusou Schidlof de ser ‘pró-soviético, um notório Maçom Livre ativamente preparando o caminho para uma monarquia popular na França’. Esta é uma acusação singlar e aparentemente contraditória para alguém que geralmente não combina as simpatias soviéticas com uma tentativa de estabelecer uma monarquia. E ainda que o boletim, como Burrus afirma ao cita-lo, faça acusações até mesmo mais extravagantes: os descendentes Merovíngios tem sempre estado por trás de todas as heresias, do Arianismo, pelos cátaros e templários, a Livre Maçonaria. No início da Reforma Protestante, o Cardeal Mazarin, em julho de 1659, teve o castelo deles em Barberie, datando do século XII, destruído. Para a casa e família em questão, por todos os séculos, tem se semeado nada mais do que agitadores secretos contra a Igreja. Burrus não identifica especificamente o boletim Católico Romano no qual esta citação supostamente apareceu, então não pudemos verificar sua autenticidade. Se ele é autêntico, contudo, seria de importância considerável. Constituiria um testemunho independente, de fontes católico romanas, da destruição do Castelo Barberie em Nevers. Também pareceria sugerir, ao menos uma razão parcial de ser para o Priorado de Sião. Nos já tinhamos vindo a ver Sião, e as famílias citadas nele, como manobrando pelo poder em seu próprio benefício e no proceso repetidamente batendo de frente com a Igreja. Segundo a citação acima, contudo, a oposição a Igreja não pareceria ter sido uma questão de acaso, circunstâncias ou até mesmo política. Ao contrário, pareceria ter sido uma questão de política em andamento. Isto nos confrontou com uma outra contradição. Pelos estatutos do Priorado de Sião que tinham sido divulgados, ao menos ostensivamente, de uma instituição dedicadamente católica. Não muito depois da publicação desta carta, Lionel Burrus foi morto em um acidente de carro que matou outras seis vítimas também. Pouco antes de sua morte, contudo, sua carta provocou uma resposta até mesmo mais curiosa e provocante de que aquele que ele próprio havia escrito. Esta resposta foi publicada em um panfleto impresso particularmente sob o nome de S. Roux.

Em certos aspectos o texto de S. Roux pareceria ecoar o ataque original a Schidlof que causou a carta de Schidlof. Ele também acusa Burrus de ser jovem, super-zeloso, irresponsável e inclinado a falar demais. Mas enquanto parece condenar a posição de Burrus, o panfleto de Roux não apenas confirma os fatos, mas realmente elabora sobre eles. Leo Schidlof, S. Roux afirma, era um dignatário da Grande Loja Suiça Alpina, a grande loja maçonica que imprimiu certos Documentos do Priorado. Segundo S. Roux, Schidlof ‘não escondia seus sentimentos de amizade pelo Bloco Oriental’. E quanto as afirmações de Burrus sobre a Igreja, S. Roux continua: não se pode dizer que a Igreja seja ignorante da linhagem de Razes, mas deve ser lembrado que todos os seus descendentes, desde Dagoberto, tem sido agitadores secretos contra a linhagem real da França e contra a Igreja e que eles tem sido a fonte de todas as heresias. O retorno de um descendente Merovíngio ao poder compreenderia para a França a proclamação de uma monarquia popular aliada a URSS, e o triunfo da Livre Maçonaria; em resumo, o desaparecimento da liberdade religiosa. Se tudo isso soa muito mais do que extraodinário, as declarações conclusivas do panfleto de S. Roux são até mesmo ainda mais: Quanto a questão da propaganda Merovíngia na França, todo mundo sabe que a publicidade da Antar Petrol, com um rei Merovíngio sustentando um Lírio e um Círculo, é um apelo popular a favor do retorno dos Merovíngios ao poder. E não se pode mais que imaginar o que Lobineau estava preparando ao tempo de sua morte em Viena, ns vésperas das profundas mudanças na Alemanha. Não é também verdade que Lobineau preparou na Áustria um futuro acordo recíproco com a França? Não foi este a base do acordo franco-russo? Não surpreendetemente estavamos profundamente estupefatos, imaginando sobre o que, diabos, S. Roux estaria falando. Se algo, ele pareceu ter ultrapassado Burrus em falta de lógica. Como o boletim que Burrus havia atacado, S. Roux liga os objetivos políticos tão aparentemente diversos e discordantes quanto a hegemonia soviética e a monarquia popular. Ele vai mais adiante do que Burrus ao dizer que ‘todo mundo sabe que o emblema de uma companhia de petróleo seja uma forma sutil de propaganda para uma causa aparentemente desconhecida e absurda. Ele aponta para as abrangentes mudanças na França, Alemanha e Áustria como se estas mudanças já estivessem ‘nas cartas’, se não fatos consumados. E ele fala de um misterioso acordo franco-russo como se este acordo fosse um assunto de conhecimento público. A primeira leitura, o panfleto de S. Roux não parece fazer qualquer sentido. Um exame mais próximo nos convenceu que ele era, de fato, um outro engenhoso Documento do Priorado deliberadamente calculado para mistificar, confundir, atiçar e dar pistas de algo portentoso e monumental. Em qualquer caso isso ofereceu, de seu modo selvagemente excêntrico, uma intimação da magnitude dos assuntos envolvidos. Se S.Roux estava correto, o assunto da nossa pesquisa não estava confinado as atividades de alguma ordem cavaleiresca elusiva mas inócua dos dias recentes. Se S. Roux estivesse correto o assunto de nossa pesquisa pertencia de algum modo  aos escalões superiores da política internacional de alto nível.

Os Tradicionalistas Católicos

Em 1977 um novo e particularmente significante Documento do Priorado apareceu em um panfleto de seis páginas intitulado “O Cerco de Ulisses” escrito por um Jean Delaude. No curso de seu texto o escritor se dirige explicitamente ao Priorado de Sião. E embora ele reprocesse um material muito mais velho, ele também fornece certos detalhes novos sobre a Ordem: Em março de 1177 Bauduino foi compelido, em Saint Leonard de Acre, a negociar e preparar a constituição da Ordem do Templo, sob as diretivas do Priorado de Sião. Em 1118 a Ordem do Templo foi então estabelecida por Hugues de Payen. De 1118 a 1188 o Priorado de Sião e a Ordem do Templo partilhavam os mesmos Grão Mestres. Desde a separação das duas instituições em 1188, o Priorado de Sião tinha tido 27 Grão Mestres até os dias atuais. Os mais recentes eram: Charles Nodiers de 1801 a 1844; Vitor Hugo, de 1844 a 1885; Claude Debussy, de 1885 a 1918; Jean Cocteau de 1918 a 1963 e de 1963 até o advento da nova Ordem, o Abade Ducaud-Bourget. O que estava o Priorado de Sião preparando? Não sei, mas isso representa um poder capaz de confrontar o Vaticano nos dias a seguir. O Monsenhor Lefebvre é o mais ativo e terrrível membro, capaz de dizer: “Vocês me fazem Papa e eu lheis farei Rei”. HÁ dois novos fragmentos importantes de informação neste extrato. Um é a alegada afiliação ao Priorado de Sião do Arcebispo Marcel Lefebvre. Monsenhor Lefebvre com certeza, representa a ala extremamente conservadora da Igreja Católico Romana. Ele foi vociferantemente expressivo contra o Papa Paulo VI, a quem ele flagrante e excentricamente desafiou. Em 1976 e 1977, de fato, ele foi explicitamente ameaçado de excomunhão; e sua fervorosa indiferença a esta ameaça quae precipitou um cisma eclesiástico em escala completa. Mas como reconciliamos um  militante católico linha dura como Monsenhor Lefebvre com um movimento e uma Ordem que era hermética, se não claramente herética, em orientação? Parecia não haver explicação para esta contradição: a menos que Monsenhor Lefebvre fosse um representante dos dias modernos da Livre Maçonaria do século XIX associada com o Hieron du Val d’Or , a ‘Livre Maçonaria cristã, aristocrática e hermética’ que presumidamente se via como mais catolica que o Papa.

O segundo maior ponto no extrato citado acima é, com certeza, a identificação do Grão Mestre atual do Priorado do Sião como o Abade Ducaud-Bourget. François Ducaud-Bourget nasceu em 1897 e se treinou para o sacerdócio muito previsivelmente no Seminário de São Suspílcio. Ele portanto é provável de ter conhecido muitos dos Modernistas daquele tempo e, muito possivelmente, Emile Hoffet. Subsequentemente ele foi o Capelão do Convento da Soberana Ordem de Malta. Por suas atividades durante a Segunda Grande Guerra ele recebeu a Medalha da Resitência e a Cruz de Guerra. Hoje ele é reconhecido como um distinto homem de Letras e membro da Academia Francesa, um biógrafo de importantes escritores católicos franceses como Paul Claudel e Francois Mauriac, e altamente estimado por seu próprio direito. Como Monsenhor Lefebvre, o Abade Ducaud-Bourget assumiu uma posição de oposição militante ao Papa Paulo VI. Como o Monsenhor Lefebvre, ele é um aderente da Missa Tridentina. Como Monsenhor Lefebvre, ele tem se proclamado um ‘tradicionalista’, adamantemente se opondo a reforma eclesiástica ou qualquer tentativa de ‘modernizar’ o catolicismo romano. Em 22 de maio de 1976 ele foi proibido de administrar a confissão e a absolvição e, como Monsehor Lefebvre, ele claramente desafiou a interdição imposta a ele por seus superiores. Em 27 de fevereiro de 1977 ele liderou mil tradicionalistas católicos em sua ocupação da Igreja de Saint-Nicolas-du-Chardonnet em Paris. Se Marcel Lefebvre e François Ducaud-Bourget parecem ser de ‘ala direita’ teologicamente, eles assim o seriam igualmente politicamente. Antes da Segunda Grande Guerra, Monsenhor Lefebvre estava associado com a Ação Francesa, a extrema direita da política francesa naquele tempo, que partilhava de certas atitudes em comum com o Nacional Socialismo na Alemanha. Mais recentemente o ‘arcebispo rebelde’ atrai considerável notoriedade por calorosamente endossar o regime militar na Argentina. Quando questionado sobre sua posição, ele respondeu que tinha cometido um engano. Ele não queria dizer Argentina, mas Chile! François Ducaud-Bourget não parece ser tão extremo; e suas medalhas, a qualquer nível, atestam a atividade patriótica anti-germanica durante a guerra. Não obstante, ele tem expressado uma alta consideração por Mussolini, e a esperança que a França “recupere seu senso de valores sob a orientação de um novo Napoleão’. Nossa primeira suspeita era que  Marcel Lefebvre e François Ducaud-Bourget não eram, de fato, afiliados ao Priorado de Sião, mas que alguém tenha tentado embaraça-los ao alinha-los as mesmos forças que eles, na teoria, mais vigorosamente se opõem. Ainda que segundo os estatutos que temos obtido da polícia francesa, o sub-título do Priorado de Sião fosse Cavalaria das Instituições das Regras Católicas da União Independente e Tradicionalista.

Uma instituição com um tal nome pode muito bem acomodar indivíduos como Marcel Lefebvre e François Ducaud Bourget. Pareceu-nos uma segunda explicação possível, uma explicação muito distanciada admitidamente, mas uma que ao menos responderia pela contradição com a qual os confrontávamos. Talvez Marcel Lefebvre e François Ducaud Bourget não fossem o que pareciam ser. Talvez eles fossem algo mais. Talvez, na realidade, eles fossem agentes provocadores cujo objetivo era sistematicamente criar o turbilhão, a dissenção, fomentar um cisma incipiente que ameaçasse o pontificado do Papa Paulo VI. Tais táticas estariam de acordo com as sociedades secretas descritas por Charles Nodier, bem como nos Protocolos dos Sábios de Sião. E um número de comentadores recentes – jornalistas, bem como autoridades eclesiásticas – tem declarado que o Arcebispo Lefebvre estaria trabalhando para, ou sendo manipulado, por alguém mais. Tão adiantada quanto possa ser a nossa hipótese, há uma lógica coerente subjacente a ela. Se o Papa Paulo VI fosse visto como um inimigo, e alguém quisesse força-lo a uma posição mais liberal, como conseguir isso? Não pela agitação de um ponto de vista liberal. Isto somente teria afirmado o papa mais firmemente em seu conservadorismo. Mas que tal se alguém adotasse uma posição até mesmo mais raivosamente conservadora que a do Papa Paulo VI? Isto não o forçaria, a despeito de seus desejos ao contrário, a uma posição crescentemente liberal? E o que, certamente é o que o Arcebispo Lefebvre e seus colegas realizaram o feito sem precedentes de lançar o Papa como um liberal. Se as nossas conclusões são ou não válidas, pareceu claro que o Arcebispo Lefebvre, como tantos outros indivíduos em nossa investigação, era conhecedor de algum segredo momentoso e explosivo. Em 1976, por exemplo, sua excomunhão parecia eminente. A imprensa, de fato, a estava esperando para qualquer dia, pelo Papa Paulo VI, confrontado pelo desafio abrasado e repetido, que parecia não ter alternativa. Ainda que, no último minuto, o Papa recuasse. Ainda não está claro porque ele precisamente assim o fez, mas o seguinte trecho do ‘Guardian’, datado de 30 de agosto de 1976 sugere uma pista: ‘A equipe de sacerdotes do Arcebispo na Inglaterra… acredita que seu líder ainda tenha uma poderosa arma eclesiástica a usar em sua disputa com o Vaticano. Ninguém dá uma pista de sua natureza, mas o Padre Peter Morgan, o líder do grupo… a descreve como sendo algo ‘abalador da Terra’. Que tipo de assunto ‘abalador da Terra’ ou ‘arma secreta’ pode então intimidar o Vaticano? Que tipo de espada de Damocles, incisível ao mundo ao largo, podia estar sendo mantida sobre a cabeça do pontifice?  Seja o qe fosse, certamente parece ter se mostrado eficaz. Parece, de fato, ter deixado o arcebispo inteiramente imune da ação punitiva de Roma. Como escreveu Jean Delaud, Marcel Lefebvre de fato pareceu “representar um poder capaz de confrontar o Vaticano diretamente, se necessário. Mas para quem ele alegadamente disse ou dirá: ‘Faça-me Papa e eu o farei Rei’?

O Convento de 1981 e os Estatutos de Cocteau

Mais recentemente, algumas das matéria que cercam François Ducaud-Bourget parecem ter sido esclarecidas. Este esclarecimento tem resultado de um súbito da publicidade que o Priorado de Sião, durante 1980 e 1981, tem recebido na França. Esta publicidade tem feito disso algo de um nome familiar. Em agosto de 1980 a revista popular Bonne Soiree, um tipo de amálgama entre o suplemento British Sunday e o Guia Americano de TV,publicou uma apresentação em duas partes sobre o mistério de Renes-le-Chateau e o Priorado de Sião. Nesta apresentação Marcel Lefebvre e François Ducaud-Bourget são explicitamente ligados ao Sião. Ambos são ditos terem feito uma visita recente a um dos sítios sagrados de Sião, a vila de Sainte-Colombe em Nevers, onde o domínio Plantard do Castelo de Barberie estava situado antes de sua destruição pelo Cardeal Mazarin em 1659. Por este tempo nós mesmos tinhamos estabelecido por telefone e contacto postal com o Abade Ducaud-Bourget. Ele se provou bastante cortês. Mas suas respostas a maioria de nossas perguntas eram vagas, senão evasivas; e, não surprendentemente, ele desaprovou toda afiliação ao Priorado de Sião. Esta desaprovação foi reiterada em uma carta que, pouco depois, ele dirigiu a Bonne Soiree.

Em 22 de janeiro de 1981 um curto artigo apareceu na imprensa francesa, do qual vale a pena citar a maior parte: “uma real sociedade secreta de 121 dignatários, o Priorado de Sião, fundada por Godfroi de Bouillon em Jerusalém em 1099, tem numerado entre seus Grão Mestres Leonardo da Vinci, Victor Hugo e Jean Cocteau. Esta Ordem reuniu-se em sua convenção em Blois em 17 de janeiro de 1981 [a prévia convenção datando de 5 de junho de 1956, em Paris]. Como resultado desta recente convenção em Blois, Pierre Plantard de Saint-Clair foi eleito Grão Mestre da Ordem por 83 dos 93 votos na terceira votação. Esta escolha do Grão Mestre marca um passo decisivo na evolução da concepção da Ordem e o espírito em relação ao mundo; porque todos os 121 dignatários do Priorado de Sião são todos eminências pardas das altas finanças e da política internacional ou sociedades filosóficas; e Pierre Plantard é um descendente direto, por Dagoberto II, dos reis Merovíngios. Sua descendência tem sido provada legalmente pelos pergaminhos da Rainha Blanche de Castilha, descobertos pelo Abade Sauniere em sua Igreja em Rennes-le-Chateau [rude] em 1891. Estes documentos foram vendidos pela sobrinha do sacerdote em 1965 ao Capitão Roland Stanmore e Sir Thomas Frazer, e foram depositados em um cofre de segurança do ‘Lloyds Bank Europe Limited of London’.”‘

Pouco antes desse item aparecer na imprensa , tinhamos escrito a Philippe de Cherisey, com o qual já haviamos estabelecido contacto e cujo nome figurava tão frequentemente quanto o de Pierre Plantard como um portavoz para o Priorado de Sião. Em resposta a uma das perguntas que fizemos a ele, M. de Cherisey declarou que François Ducaud-Bourget não tinha sido eleito Grão Mestre por um córum apropriado. Sobretudo, ele declarou, o Abade Ducaud-Bourget tinha publicamente repudiado sua afiliação a Ordem. Esta última avaliação pareceu não clara. Fez mais sentido, contudo, no contexto de algo que M. de Cherisey incluiu em sua carta. Algum tempo antes, tinhamos obtido da sub-prefeitura de Saint-Julien, os estatutos do Priorado do Sião. Uma cópia destes mesmos estatutos tem sido publicada em 1973 por uma revista francesa. Contudo, nos tem sido dito em Paris por Jean Luc Chaumiel que estes estatutos eram fraudulentos. Nesta carta M. de Cherisey incluiu uma cópia do que ele disse serem os verdadeiros estatutos do Priorado do Sião traduzidos do latim. Estes estatutos tem a assinatura de Jean Cocteau; e a menos que eles tenham sido executados por um falsificador muito talentoso, a assinatura era autêntica. Certamente não podemos distingui-la de outros espécimens da assinatura de Cocteau. Sob esta base, estamos inclinados a aceitar os estatutos nos quais a asssinatura está apensada como genuínos. Eles são estabelecidos como se segue:

Artigo Um – é formada entre os que assumam esta presente constituição e aqueles que devem subsequentemente se unir e cumprir as seguintes condições, uma ordem iniciática de cavalaria, cujos usos e costumes repousam sobre a fundação feita por Godfroi VI, chamado Pioi, Duque de Bouillon, em Jerusalém em 1099 e reconhecido em 1100.
Artigo Dois – A ordem é chamada ‘Sionis Prioratus’ ou “Priorado de Sião’.
Artigo Três – O Priorado de Sião tem como seu objetivo a perpetuação da ordem tradicionalista de cavalaria, seu ensino iniciático e a criação entre os membros de assistência mútua, tanto moral quanto material, em todas as circunstâncias.
Artigo Quatro – A duração do Priorado de Sião é ilimitada.
Artigo Cinco – O Priorado de Sião adota, como seu ofício representativo, o domicílio do Secretário Geral nomeado pela Convenção. O Priorado de Sião não é uma sociedade secreta. Todos os seus decretos, bem como seus registros e compromissos, estão disponíveis ao público no texto em latim.
Artigo Seis – O Priorado de Sião compreende 121 membros. Dentro destes limites, é aberto a todas as pessoas adultas que reconhecem suas metas e aceitam as obrigações especificadas na presente constituição. Os membros são admitidos sem consideração a sexo, raça ou idéias filosóficas, políticas e religiosas.
Artigo Sete – Não obstante, no caso que um membro deva designar na escrita um de seus descendentes para sucede-lo, a convenção deve aceder a esta solicitação e pode, se necessário, no caso de menor idade, assumir a educação do acima designado.
Artigo Oito – Um futuro membro deve fornecer, para sua iniciação no primeiro grau, um robe branco com uma corda, a sua própria custa. Pelo tempo de sua admissão no primeiro grau, o membro mantém o direito de voto. Na admissão o novo membro deve jurar servir a Ordem em todas as circunstâncias, bem como trabalhar pela Paz e o respeito pela vida humana.
Artigo Nove – Em sua admissão o membro deve pagar uma taxa simbólica. a quantidade sendo discricionária. A cada ano ele deve enviar ao Secretário Geral uma contribuição vountária para a Ordem, a quantida sendo decidida por ele mesmo.
Artigo Dez – Na admissão o membro deve fornecer um certificado de nascimento e um espécimen de sua assinatura.
Artigo Onze – Um membro do Priorado do Sião contra o qual uma sentença tenha sido pronunciada em um tribunal por uma ofensa a lei comum pode ser suspenso de seus deveres e títulos bem como de sua afiliaçao.
Artigo Doze – A assembléia geral de membros é quem designa a convenção. Nenhuma deliberação na convenção deve ser considerada válida se o número de membros presentes é menos de 81. O voto é secreto e é dado por meio de bolas brancas e pretas. A ser adotado, todas as moções devem receber 81 bolas brancas. Todas as moções que não receberem 81 bolas brancas em um voto não podem ser re-submetidas.
Artigo Treze – A Convenção do Priorado de Sião sozinha decide, com uma maioria de 81 votos dos 121 membros, todas as mudanças na constituição e o regulamento interno do cerimonial.
Artigo Quatorze – Todas as admissões devem ser decididas pelo Conselho dos 13 Rosacruz. Títulos e deveres devem ser conferidos pelo Grão Mestre do Priorado de Sião. Os membros são admitidos por seu ofício para a vida. Seus títulos revertem por direito a um de seus filhos escolhido por eles sem consideração de sexo. O filho assim designado pode fazer um ato de renúncia de seus direitos, mas não pode transferir este ato a favor de um irmão, irmã, parente ou outra pessoa. Ele não pode ser readmitido pelo Priorado de Sião.
Artigo     Quinze – Dentro de 27 dias completos, dois membros serão solicitados para contactarem um futuro membro para obter seu consentimento ou sua renúncia. No caso de um dever de aceitação depois de um período de reflexão de 81 dias completos, a renúncia deve ser legalmente formalizada
Artigo Dezesseis – Em virtude do direito hereditário confirmado pelos artigos precedentes, os deveres e títulos de Grão Mestre do Priorado de Sião devem ser transmitidos ao seu sucessor segundo as mesmas prerrogativas. Em caso de vacância do ofício de Grão Mestre, e na ausência de um sucessor direto, a convenção deve realizar uma eleição por três anos, renováveis por consentimento tácito.
Artigo Dezessete – Todos os decretos devem ser votados pela Convenção e receberem validação pelo selo do Grão Mestre. O Secretário Geral é nomeado pela Convenção por três anos, renováveis por consentimento tácito. O Secretário Geral deve ter o Grau de Comandante para realizar seus deveres. As funções e deveres não são pagas.
Artigo Dezoito – A hierarquia do Priorado de Sião é composta de cinco graus:
primeiro Nautonnier número :1
Arche de segundo Cruzado número:313
RosaCruz terceiro coamandante número:9
quarto cavaleiro número:27
o nono quinto escudeiro número: 81 comandos
número total:121 do Templo

Artigo Dezenove – Há 243 Irmãos Livres, chamados Preux, ou, desde o ano de 1681, Filhos de São Vicente que não participam  dos votos e nem das Convenções mas aos quais o Priorado de Sião concede certos direitos e privilégios de conformidade com o decreto de 17 de janeiro de 1681.
Artigo Vinte – Os fundos do Priorado do Sião são compostos de doações e taxas de seus membros. Uma reserva, chamada ‘patrimonio da Ordem’ é estabelecida pelo Conselho dos 13 Rosacruz. Este tesouro só pode ser usado no caso de absoluta necessidade e grave perigo ao Priorado de Sião e seus membros.
Artigo Vinte e Um – A Convenção é convocada pelo Secretário Geral quando o Conselho dos Rosacruz julgue isso útil.
Artigo Vinte e Dois –  A desaprovação da afiliação no Priorado de Sião, manifestada publicamente e por escrito, sem causa ou perigo pessoal, deve incorrer na exclusão do membro, que deve ser pronunciada pela Convenção.

O texto da constituição em vinte e dois artigos segundo o texto original e as modificações de 5 de junho de 1956. A assinatura do Grão Mestre Jean Cocteau. Em certos detalhes, estes estatutos são diferentes dos estatutos que recebemos da policia francesa e da informação relacionada ao Sião nos Documentos do Priorado. O último mostra um total de afiliação de 1.093, o anterior de 9.841. Segundo os artigos citados acima, a afiliação total de Sião, incluindo os 243 Filhos de São Vicente, é de apenas 364. Os Documentos do Priorado, sobretudo, estabelecem uma hierarquia de sete graus. Nos estatutos que recebemos da policia francesa esta hierarquia se expande para nove. Segundo os artigos citados acima há apenas cinco graus na hierarquia. E as apelações específicas destes graus diferem também das fontes anteriores.

Estas contradições bem podem ser a evidência de algum tipo de cisma, ou cisma incipiente, dentro do Priorado de Sião, datando por volta de 1956 quando os Documentos do Priorado pela primeira vez começaram a aparecer na Biblioteca Nacional. E de fato,  Philippe de Cherisey alude justamente a um tal cisma em um artigo recente. Ele ocorreu entre 1956 e 1958, ele diz, e ameaçou assumir as proporções de rachadura entre Sião e a Ordem do Templo em 1188, marcada pelo ‘corte do elmo’. Segundo Cherisey, o cisma foi evitado pelo talento diplomático de M. Plantard, que trouxe os potenciais desertores de volta ao grupo. Em qualquer caso, e seja qual for a política interna do Priorado de Sião, a Ordem, como da Convenção de janeiro de 1981, pareceria constituir um todo unificado e coerente.

Se François Ducaud-Bourget foi Grão Mestre do Priorado de Sião, pareceria claro que ele não o era no presente. Cherisey declarou que ele não tinha sido eleito pelo córum necessário. Isto pode significar que ele foi eleito pelos incipientes cismáticos. É incerto se ele está sujeito a [ou em violação do] artigo vinte e dois dos estatutos. Podemos assumir que sua afilação ao Sião, seja qual for que possa ter sido no passado, não mais existe. Os estatutos citados podem parecer esclarecer o status de François Ducaud-Bourget. Eles deixam claro, de qualquer modo, o princípio de seleção que governa os Grão Mestres do Priorado de Sião. Agora é compreensível porque o Grão Mestrado deva passar, como o faz, para dentro e para fora de uma particular linhagem sanguínea e rede interligada de genealogias. A princípio, deveria ser hereditário, transmitido através dos séculos por um agrupamento interligado de famílias afirmando descendência Merovíngia. Onde não há um reclamante elegível, contudo, ou quando o designado declina o status oferecido a ele, o Grão Mestrado, presumivelmente de acordo com os procedimentos ressaltados no estatutos, era conferido a um externo escolhido. Seria nestas bases que indíviduos como Leonardo, Newton, Nodier and Cocteau encontraram seu caminho na lista.

M. Plantard de Saint-Clair

Entre os nomes que figuravam mais proeminente e recorrentemente nos vários Documentos do Priorado estava aquele da família Plantard. E entre os numreosos indivíduos associados ao mistério de Sauniere e de Rennes-le-Chateau o mais autoritativo pareceu ser o de Pierre Plantard de Saint-Clair. Segundo as genealogias nos Documentos do Priorado, M. Plantard é um descendente linear do Rei Dagoberto II e da dinastia Merovíngia. Segundo as mesmas genealogias, ele é também um descendente linear dos proprietários do Castelo Barberie, a propriedade destruída pelo Cardeal Mazarin em 1659. Por todo o curso da pesquisa temos repetidamente encontrado o nome de M. Plantard. De fato, até onde diga respeito a liberação de informação durante dos últimos vinte e cinco anos, todas as trilhas parecem levar ultimamente a ele. Em 1960, por exemplo, ele foi entrevistado por Gerard de Sede e falou de ‘um segredo internacional’ escondido em Gizors. Durante a subsequente década ele parece ter sido uma maior fonte de informação para os livros de de Sede sobre Gizors e Rennes-le-Chateau. Segundo revelações recentes, o avô de M. Plantard era um conecido pessoal de Berenger Sauniere. E o próprio M. Plantard provou possuir um número de tratos de terra nas vizihanças de Rennes-le-Chateau e Rennes-le-Bains, incluindo a montanha de Blanchefort. Quando nós entrevistamos o antiquário do centro em Stenay, em Arennes, nos foi dito que o sítio da Velha Igreja de São Dagoberto também era de propriedade de M. Plantard. E segundo os estatutos que obtivemos da polícia francesa, M.  Plantard estava listado como Secretário Geral do Priorado de Sião. Em 1973 uma revista francesa publicou o que parece ser uma transcrição de uma entreista telefonica com M. Plantard. Não surpreendentemente ele não disse muita coisa. Como pode ser esperado, suas declarações foram alusivas, crípticas e de elevação provocante, de fato, mais perguntando do que respondendo. Assim, por exemplo, quando falava da linhagem sanguinea Merovíngia e duas afirmações reais, ele declarou, ‘você deve explorar as origens de certas grandes famílias francesas e você então compreenderá como um personagem chamado Henri de Montpezat pode um dia se tornar rei’. E quando perguntado sobre os objetivos do Priorado de Sião, M. Plantard respondeu de uma maneira cuja evasividade era previsível. ‘Não posso dizer a você isso. A sociedade a que estou ligado é extremamente antiga. Meramente sucedi outros, um ponto em uma sequência. Somos os guardiães de certas coisas. E sem publicidade.’

A mesma revista francesa também publicou um esquete de M.Plantard, escrito por sua primeira esposa, Anne Lea Hisler, que morreu em 1971. Se a revista é para ser acreditada, este esquete apareceu pela primeira vez na revista CIRCUIT, a própria publicação interna do Priorado de Sião para a qual é dito que M. Plantard tenha escrito regularmente sob o pseudônimo de Chyren: ‘Não vamos nos esquecer que este psicólogo foi amigo de personagens tão diversas quanto o Conde Israel Monti, um dos irmãos de Holy Vehm, Gabriel Trarieux d’Egmont, um dos treze membros da Rosacruz, Paul Lecour, o filósofo sobre a Atlântida, o Abade Hoffet do Serviço de Documentação do Vaticano,  Th. Moreaux, o diretor do Conservatório em  Bourges, etc. Vamos lembrar que durante a Ocupação, ele foi preso, sofreu tortura pela Gestapo e foi internado como um prisioneiro político por longos meses. Em sua capacidade de doutor nas ciências arcanas, ele aprendeu a apreciar o valor da informação secreta, que sem dúvida o levou a receber o título de membro honorário de várias sociedades herméticas. Tudo isso foi a formar uma personagem singular, um místico da paz, um apóstolo da liberdade, um asceta cujo ideal é servir ao bem estar da humanidade. Portanto é perplexante que ele deva se tornar uma das eminências pardas das quais este mundo busca o conselho? Convidado em 1947 pelo Governo Federal da Suiça, ele residiu por vários anos lá, perto do Lago Uman, onde númerosas cargas de missões e delegados do mundo inteiro são reunidos.’ Madame Hisler indubitavelmente pretendia que este fosse um brilhante retrato. Os torna vaga e parabólica. Sobretudo, as diversas pessoas listadas como distinguidos conhecidos de M. Plantard são, para dizer o mínimo, um grupo muito estranho.

Por outro lado, os contratempos de Plantard com a Gestapo pareceriam apontar para alguma ação louvável durante a Ocupação. E nossas próprias pesquisas eventualmente tiveram a evidência documental. Já em 1941 Pierre Plantard tiha começado a editar o jornal de Resistência Vaincre, publicado em um subúrbio de Paris. Ele foi aprisionado pela Gestapo por mais de um ano, de outubro de 1943 até o fim de 1944. Os amigos e associados de Plantard provaram incluir indivíduos muito mais conhecidos do que aqueles listados por Madame Hisler. Eles incluiam Andre Malraux e Charles de Gaulle. De fato as ligações de Plantard aparentemente se estendiam bem nos corredores do poder. Em 1958, por exemplo, a Algeria se levantou em revolta e o General de Gaulle  conseguiu retornar a presidência da França. Ele parece ter se voltado especificamente a M. Plantard por ajuda. M. Plantard, junto com Andre Malraux e outros, parecem ter respondido ao mobilizar os chamados ‘Comitês de Segurança Pública’ que desempenharam um papel crítico para o retorno de de Gaulle ao Palácio Elysee. Em uma carta datada de 29 de julho de 1958, de Gaulle pessoalmente agradeceu a Plantard os seus serviços. Em uma segunda carta, datada de cinco dias mais tarde, o General requisitou a Plantard que os Comitês, tendo atingido seu objetivo, fossem debandados. Por um comunicado oficial na imprensa e no rádio Plantard dissolveu os comitês. É desnecessario dizer, nos tornamos crescentemente ansiosos, na medida em que progredia a nossa pesquisa, em fazer conhecimento com Plantard. A primeira vista não havia muita possibilidade de se o fazer, contudo, Plantard pareceu ser não rastreável e parecia não haver meio pelo qual nós, como indivíduos particulares, pudessemos possivelmente localiza-lo. Então, durante o ínício da primavera de 1979, embarcamos em outro filme sobre Rennes-le-Chateau para a BBC, que colocou os recursos dela a nossa disposição. Foi sob os auspícios da BBC que afinal conseguimos estabelecer contacto com Plantard e o Priorado de Sião.

As pesquisas iniciais foram realizadas por uma inglesa, uma jornalista vivendo em Paris, que trabalhava em vários projetos para a BBC e havia adquirido uma imponente rede de ligações pela França, através da qual ela tentou localizar o Priorado de Sião. De início, seguindo sua busca pelas lojas maçonicas e a sub-cultura esotérica parisiense, ele encontrou a previsível tela de fumaça de mistificação e contradição. Um jornalista a avisou, por exemplo, que qualquer um sondando Sião tão estreitamente mais cedo ou mais tarde seria morto. Um outro jornalista disse a ela que Sião de fato existiu durante a Idade Média, mas não existia mais hoje em dia. Um oficial da Grande Loja Alpina, por outro lado, relatou que Sião existia hoje, mas era uma organização moderna que nunca tinha existido no passado, ele disse. Tecendo seu caminho por este tumulto de confusão, nossa pesquisadora afinal estabeleceu contacto com Jean Luc Chaumiel que havia entrevistado Plantard para uma revista e escrito extensamente sobre Sauniere, Rennes-le-Chateau e o Priorado de Sião. Ele próprio não era um membro do Sião , disse Chaumiel, mas podia contactar Plantard e possivelmente arranjar um encontro para nós. Neste meio tempo, ele forneceu a nossa pesquisadora fragmentos adicionais de informação. Segundo Chaumiel, o Priorado de Sião não era, falando estritamente, uma sociedade secreta. Ela meramente deseja ser discreta sobre sua existência, suas atividades e sua afiliação. A entrada no Journal Officiel, M. Chaumeil declarou, era espúria, colocada lá por certos ‘membros desertores’. Chaumiel confirmou nossa suspeita que Sião entretivesse ambiciosos planos políticos para um futuro próximo. Dentro de poucos anos, ele avaliou, haverá uma mudança dramática no governo francês, uma mudança que pavimentará o caminho para uma monarquia popular com um governante Merovíngio no trono. E Sião, ele avaliou posteriormente, estaria por trás desta mudança como tem estado por trás de numerosas outras mudanças importantes por séculos. Segundo Chaumiel, Sião era anti-materialista e pretende presidir a restauração dos ‘verdadeiros valores’; estes valores pareceriam serem espirituais, talvez de caráter esotérico. Estes valores, explicou Chaumiel, eram ultimamente pré cristãos a despeito da ostensiva orientação cristã de Sião, a despeito da ênfase católica em seus estatutos.

M. Chaumeil também reiterou que o Grão Mestre de Sião naquele tempo era François Ducaud-Bourget. Quando perguntado como o mais recente tradicionalismo católico podia ser reconciliado com os valores pré cristãos, Chaumiel respondeu cripticamente que teriamos que perguntar ao próprio Abade Ducaud-Bourget. Chaumiel enfatizou a antiguidade do Priorado de Sião bem como o a largura de sua afiliação. Ele incluia, ele disse, membros de todas as esferas da vida. Seus objetivos, ele acrescentou, não estavam exclusivamente confinados a restaurar a linhagem sanguinea Merovíngia. E a este ponto, Chaumiel fez uma curiosa declaração a nossa pesquisadora. Nem todos os membros do Priorado eram judeus. A implicação deste aparente non sequitur é óbvia que membros da Ordem, se não de fato muitos, são judeus. E novamente fomos confrontados com uma surpreendente contradição. Até mesmo se os estatutos fossem espúrios, como podemos reconciliar uma Ordem com afiliação judaica e um Grão Mestre que abraçou o extremo tradicionalismo católico e cujos amigos incluem Marcel Lefebvre, um homem conhecido por declarações que beiram o anti-semitismo? Chaumiel fez outras declarações perplexantes também. Ele falou, quanto a linhagem sanguinea Merovíngia e cuja ‘missão sagrada era portanto óbvia’. Esta avaliação é ainda mais perplexante porque não há um Príncipe de Lorraine conhecido hoje, nem mesmo um titular. Estava Chaumiel implicando que de fato exista um tal príncipe, vivendo talvez incógnito? Ou ele queria dizer um ‘príncipe’ em um sentido mais amplo de ação? Neste caso, o presente príncipe [como oposto ao príncipe] de Lorraine é o Dr. Otto von Habsburg, que é o titular duque de Lorraine. No todo, as respostas de Chaumiel eram menos respostas do que bases para futuras perguntas e a nossa pesquisadora, no curto tempo de preparação permitido a ela, não sabia precisamente que perguntas fazer. Ele fez um considerável progresso, contudo, ao ressaltar o interesse da BBC no assunto; porque a BBC, no continente, desfruta de consideravelmente mais prestígio do que ela o tem na Bretanha e ainda é um nome a ser conjurado. Em consequência a perspectiva do envolvimento da BBC não foi tomado superficialmente. Propaganda é uma palavra forte demais, mas um filme da BBC que anfatisasse e autenticasse certos fatos certamente teria sido um meio atraente de ganhar credencial e criar um clima psicologico ou atmosfera, especialmente no mundo de lingua inglesa. Se os Merovíngios e o Priorado de Sião se tornassem aceitos como ‘dados históricos’ ou geralmente reconhecidos fatos como, digamos, a Batalha de  Hastings ou o assassinato de Thomas a Becket isto patentemente teria sido para a vantagem de Sião. Foi indubitavelmente tais considerações que levaram Chaumiel a telefonar para Plantard.

Eventualmente em março de 1979, o nosso produtor, Roy Davies e seu pesquisador funcionando como ligação, um encontro foi arrranjado entre Plantard e nós. Quando isso ocorreu, tinha algo de um encontro entre os padrinhos da Máfia. Ele foi realizado em ‘solo neutro’ em um cinema de Paris alugado pela BBC para a ocasião, e todas as partes foram acompanhdas por uma entourage. Plantard provou ser um digno e cortês homem de discreta origem aristocrática, sem ser ostentoso na aparência, com uma maneira de falar graciosa, volátil e suave. Ele apresentou enorme erudição e uma imprenssionante agilidade mental, um dom para o seco, inteligente, travesso mas não de qualquer modo barbado repratriado. Havia frequentemente um piscar indulgente, gentilmente divertido, em seus olhos, uma qualidade quase avuncular. Por todo seu modo modesto, não assertivo, ele exercia uma autoridade imposta sobre seus companheiros. E havia uma marcada qualidade de ascetismo e austeridade sobre ele. Ele não ostentava qualquer riqueza. Sua aparência era conservadora, saborosa, despreocupadamente informal mas nem ostensivamente elegante nem manifestamente cara. Até onde pudemos reunir, ele nem mesmo dirigia um carro. Em nosso primeiro encontro, e nos dois subsequentes com ele, Plantard deixou claro para nós que ele nada diria seja o que fosse sobre as atividades de Sião ou seus objetivos no presente tempo. Por outro lado, ele se ofereceu para responder qualquer pergunta sobre  a história passada da Ordem. E embora ele se rcusasse a discutir o futuro em qualquer declaração pública ou filme, por exemplo – ele nos concedeu algumas pistas durante a conversa. Ele declarou, por exemplo, que o Priorado de Sião  de fato mantém o tesouro perdido do Templo de Jerusalém; o botim saqueado pelas legiões romanas de Tito em 70 de nossa era. Ests itens, ele afirmou, deveriam retornar a Israel ‘quando for o tempo certo’.

Mas seja qual for a importância histórica, arqueológica ou até mesmo política deste tesouro, Plantard a descartou como incidental. O verdadeiro tesouro, ele insistiu, era ‘espiritual’. E ele implicou que este ‘tesouro espiritual’ consistia, ao menos em parte, em um segredo. De algum modo não especificado o segredo em questão facilitaria uma maior mudança social. Plantard ecoou Chaumiel ao declarar que, em um futuro próximo, haveria um dramático levante na França, se não uma revolução, mas uma mudança radical nas instituições francesas que pavimentariam o caminho para a reinstalação de uma monarquia. Esta avaliação não foi feita em tom profético. Ao contrário, Plantard simplesmente nos assegurou isso, muito discretamente, muito como matéria de fato e muito definitivamente.  No discurso de Plantard há certas curiosas inconsistências. As vezes, por exemplo, quando ele pareceu estar falando em benefício do Priorado de Sião, dizia ‘nós’ e portanto indicava a Ordem. Em outras vezes, ele pareceria se distanciar da Ordem e falaria dele próprio, sozinho, como um afirmante Merovíngio, um rei por direito, e Sião como seus aliados e apoiadores. Parecia que estávamos ouvindo duas vozes distintas que nem sempre eram compatíveis. Uma das vozes era a do Secretário Geral do Sião. A outra era a do rei incógnito que ‘reina mas não governa’ e que via Sião como um tipo de conselho particular. Esta dicotmomia entre as duas vozes nunca foi satisfatoriamente resolvida e Plantard não pode ser prevalecido para explicar isso. Depois de três encontros com Plantard e seus associados, não estávamos significativamente mais sábios do que tinhamos estado antes. Fora os Comitês de Segurança Pública e s cartas de Charles de Gaulle, não recebemos indicação da influência política ou poder de Sião, ou que os homens que tinhamos encontrado estivessem em qualquer posição de transformar o governo e as instituições da França. E não recebemos qualquer indicação de porque a linhagem sanguínea Merovíngia devia ser tomada muito mais seriamente do que as várias outras tentativas de restaurar qualquer outra dinastia real.  Há vários reclamantes Stuart ao trono britânico, or exemplo, e suas declarações, ao menos no que diz respeito aos modernos historiadores, repousam em uma base mais sólida do que aquela dos Merovíngios. Para este assunto, há numerosos outros reclamantes às coroas vacantes e tronos pela Europa; e há membros sobreviventes das dinastias dos Bourbon, Habsburg, Hohenzollern e Romanov.

Porque eles devem receber menos credibilidade do que os Merovíngios? Em termos de ‘legitimidade absoluta’ e de um ponto de vista puramente técnico, a afirmação Merovíngia deve de fato tomar precedência. Mas o assunto pareceria ser academico no mundo moderno; tão academico quanto, digamos, os contemporaneos irlandeses se provarem descendentes dos Altos Reis de Tara. Novamente consideramos descartar o Priorado de Sião como uma seita menor ‘marginal lunática’ se não como uma completa farsa. E ainda que toda nossa pesquisa tenha indicado que a Ordem, no passado, tinha um poder real e estado envolvida nos assuntos de importancia internacional de alto nível. Até mesmo hoje há mais sobre isto do que encontra o olho. Nada há de mercenário sobre isso, por exemplo, ou explorador de qualquer modo. Assim o tivesse desejado Plantard, ele podia ter virado o Priorado de Sião em um caso altamente lucrativo como muitos outros cultos ‘new age’ em moda, seitas e instituições. Ainda que os mais primários Documentos do Priorado permanecessem confinados a impressões particulares. E o próprio Sião não solicitou recrutas nem mesmo do modo que uma loja maçonica o faz. Sua afiliação, até onde pudemos determinar, permanece rigorosamente fixada em um número preciso, e novos membros foram admitidos apenas quando ocorreram vagas. Tal exclusividade atestou, entre outras coisas, que ele já tinha uma auto-confiança, uma certeza que ele simplesmente não precisava arrolar enxames de noviços para ganho financeiro ou qualquer outra razão. Em outras palavras, já havia algo acontecendo para isso, algo que parece ter alistado a lealdade de homens como Malraux e de Gaulle. Mas podemos seriamente acreditar que homens como Malraux e de Gaulle pretendessem restaurar a linhagem sanguinea Merovíngia?

A Política do Priorado de Sião

Em 1973 foi publicado um livro intiulado ‘As Sub-correntes de uma Ambição Política”. Este livro, escrito por um jornalista suíço chamado Mathieu Paoli, reconta as exaustivas tentativas do autor de investigar o Priorado de Sião. Como nós, Paoli eventualmente estabeleceu contacto com um representante da Ordem que ele não identifica pelo nome. Mas Paoli não tinha o prestígio da BBC por trás dele, e o representante com o qual ele se encontrou, se podemos nos basear em sua narrativa, pareceria ter um status menor que o de Plantard. Nem era um representante tão comunicativo quanto Plantard foi conosco. Ao mesmo tempo, Paoli, estando baseado no continente e desfrutando de uma maior mobilidade do que nós, foi capaz de buscar certos caminhos e tarefas da pesquisa ‘no ponto’ de um modo que não pudemos. Como resultado seu livro é extremamente valioso e contém tanta informação, de fato, que parece ser uma garantia de uma continuação, e imaginamos porque Paoli não tivese escrito uma. Quando perguntamos sobre ele, nos foi dito que em 1977 ou 1978 ele tinha recebido um tiro como um espião pelo governo israelense por uma tentativa de vender certos segredos aos árabes. A abordagem de Paoli, como ele a descreve em seu livro, foi em muitos aspectos similar a nossa. Ele também contactou a filha de Leo Schidlof em Londres; ele também ouviu de Miss Schidlof que seu pai, a seu conhecimento, não tinha qualquer ligação com sociedades secretas, livre maçonaria, ou genealogias Merovíngias. Como a nossa pesquisadora da BBC, Paoli também contactou a Grande Loja Alpina e se encontrou com o Chanceler da Loja, e de cada um recebeu uma resposta ambígua. Segundo Paoli, o Chanceler negou todo conhecimento de alguém chamado ‘Lobineau’ ou ‘Schidlof’. E quanto aos vários trabalhos de impressão Alpina, o Chanceler avaliou muito categoricamente que eles não existiam. E ainda que um amigo pessoal de Paoli que também era membro da Loja Alpina, afirmasse ter visto os trabalhos na biblioteca da Loja. A conclusão de Paoli é a seguinte: “Há uma de duas possibilidades. Dado o caráter específico dos trabalhos de Henri Lobineau, a Grande Loja Alpina que proibe toda a atividade política dentro da Suiça e portanto não quer ter envolvimento neste caso. Um outro movimento tem se apropriado do nome da Grande Loja para camuflar suas próprias atividades.

Em Versalhes, no Anexo da Biblioteca Nacional Paoli descobriu  quatro divulgações de CIRCUIT, mencionados nos estatutos do Priorado de Sião. O primeiro estava datado de 1o. de julho de 1959 e seu diretor era listado como Pierre Plantard. Mas a própria revista não suportou ser ligada ao Priorado de Sião. Ao contrario, ela se declarou o órgão oficial de algo chamado Federação das Forças Francesas. Tem até mesmo um selo, que Paoli reproduz em seu livro, e os seguintes dados:  Publication periodique culturelle de la Federation des Forces Françaises 116 Rue Pierre Jouhet, 116 Aulnay-sous-Bois (Seine-et-Oise) Te1: 929-72-49 M. Paoli examinou o endereço acima. Nenhuma revista foi algum dia publicada lá. O número telefonico também se mostrou falso. E todas as tentativas de Paoli de rastrear a Federation of French Forces se provaram fúteis. Até este dia nenhuma informação de qualquer organização como tal tem sido localizado. Mas dificilmente pareceria ser concidental que a sede francesa dos Comitês de Segurança Pública fosse também em Aulnay-sous-Bois. A Federação das Forças Francesas assim pareceria ter sido de alguma forma ligada aos comitês. Haveria uma base considerável para esta avaliação. Paoli relata que o Volume 2 do CIRCUIT alude a uma carta de de Gaulle a Pierre Plantard, agradecendo ao último por seus serviços. O serviço em questão pareceria ter sido o trabalho dos Comitês de Segurança Pública. Eles foram assinados por Pierre Plantard em seu próprio nome e sob o pseudônimo de Chyren. Anne Lea Hisler e outros com os quais estamos familiriarizados. Ao mesmo tempo, contudo, houve outros artigos de um tipo muito diferente. Alguns deles, por exemplo, falavam de uma secreta ciência de vinhas e vinicultura, o enxerto de vinhas que, aparentemente, tem alguma crucial influència em política. Isto não parece fazer sentido a menos que assumamos que as vinhas e a vinicultura eram para serem compreendidas alegoricamente; uma metáfora talvez para genealogias, para árvores de famílias e alianças dinásticas. Quando os artigos no CIRCUIT não eram arcanos ou obscuros, eles eram, segundo Paoli, ferventemente nacionalistas. Em um deles, por exemplo, assinado por Adrian Sevrette, o autor avalia não haver solução para os problemas que virão exceto por meio de novos métodos e novos homens, para a política estão mortos. O fato curioso permanece que homens não querem reconhecer isso. Existe apenas uma questão: a organização economica. Mas ainda existem homens capazes de pensar na França, como durante a Ocupação, quando os patriotas e os combatentes da Resistência não se preocupavam com as tendências politicas de seus companheiros de luta.

E do Volume 4 de CIRCUIT Paoli cita a seguinte passagem: desejamos que as 1500 cópias de CIRCUIT seja um contacto que acenda uma luz, desejamos que a voz dos patriotas seja capaz de transcender os obstáculos como em 1940, quando eles deixaram a França invadida para virem e baterem na porta de trás do líder da França Livre. Hoje, é o mesmo, antes de mais nada somos franceses, somos aquela força que combate de um modo ou outro para construir uma França limpa e nova. Isto deve ser feito com o mesmo espírito patriótico, com a mesma vontade e solidariedade de ação. Então citamos aqui o que declaramos ser uma velha filosofia. Há então a seguir um detalhado plano de governo para restaurar a França no lustre perdido. Ele insiste, por exemplo, no desmantelamento dos departamentos e na restauração das províncias; o departamento é um sistema arbitrário, criado ao tempo da Revolução, ditado e determinado por uma era de acordo com as demandas da locomoção a cavalo; hoje, ele não mais representa algo. Em contraste, a província é uma porção viva da França; é o vestígio completo de nosso passado, as mesmas bases sobre as quais formou-se a existencia de nossa nação; ela tem seu próprio folclore, seus costumes, seus monumentos, frequentemente seu dialeto local, que desejamos reclamar e promulgar. A província deve ter seu próprio aparato específico de defesa e administração, adaptada a suas necessidades específicas, com a unidade nacional.

Paoli então cita oito páginas seguintes. O material que elas contém é organizado sob os seguintes sub-títulos:
Conselho das Províncias
Conselho de Estado
Conselho Parlamentar
Trabalho de Taxas e Produção Médica Nacional
Idade da Maioria
Casa e Escolas

O plano de governo proposto sob estes sub-títulos não é desordenamente controverso e pode provalmente ser instituído com um mínimo de revolta. Nem pode o plano ser rotulado politicamente. Ele não pode ser chamado de ala direita ou de ala esquerda, liberal ou conservador, radical ou reacionário. No todo, ele parece ser bem inócuo; e alguém estaria perdido para ver em como ele necessariamente traria qualquer particular lustre perdido a França. Como diz Paoli, ‘As propostas… não são revolucionárias. Contudo, elas repousam em uma analise realista das reais estruturas do Estado francês, e estão impregnadas de um sólido bom  senso’.  Mas então o plano de governo ressaltado no CIRCUIT não faz menção explícita da base real sobre a qual, se implementado, ele presumidamente repousaria na restauração de uma monarquia popular governada por uma linhagem sanguinea merovingia. No CIRCUIT não haveria necessidade de afirmar isso, porque isso constituiria uma dádiva subjacente, uma premissa sobre a qual gira tudo o que é publicado na revista. Para os pretendidos leitores da revista a restauração da linhagem sanguínea merovíngia era claramente óbvia demais e aceita como um objetivo necessário a ser trabalhado. A este ponto, o livro de Paoli faz uma pergunta crucial. Uma pergunta que também nos tem assombrado: ‘Temos, por um lado, uma descendência escondida dos Merovíngios, e, de outro, um movimento secreto, o Priorado de Sião, cuja meta é facilitar a restauração de uma monarquia popular de linhagem Merovíngia. Mas é necessário saber se este movimento se contenta com as especulações esotérico-politicas cujo fim não juramentado é fazer muito dinheiro ao explorar a cobiça e ingenuidade do mundo] ou se este movimento é genuinamente ativo’. Paoli então considera esta questão, revendo a evidência a sua disposição. Sua conclusão é a que se segue:

‘Inquestionavelmente, o Priorado de Sião parece possuir poderosas ligações. Na realidade, qualquer criação de uma associação é submetida a um inquérito preliminar pelo Ministro do Interior. Isto obtém tão bem para uma revista, uma casa publicadora. E ainda que estas pessoas sejam capazes de publicar, sob pseudônimos, em falsos endereços, por meio de casas publicadoras não existentes, os trabalhos que não podem ser encontrados em circulação na Suiça ou na França. Há duas possibilidades. Os as autoridades do governo não estão fazendo o trabalho delas. Ou alguém mais.. . e Paoli não conclui a alternativa. Ao mesmo tempo é aparente que ele pessoalmente vê a alternativa não declarada como a mais provável das duas. A conclusão de Paoli, em resumo, é que funcionários do governo, e muitas outras pessoas poderosas  ou são membros de Sião ou obedientes a ele. Se assim o é, Sião de fato deve ser uma organização muito influente. Tendo conduzido uma extensa pesquisa por conta própria, Paoli está satisfeito com a afirmação merovíngia de legitimidade. Nesta extensão, ele admite, ele pode fazer sentido dos objetivos de Sião. Além desse ponto, contudo, ele se confessa profundamente intrigado. Qual é o ponto, ele imagina, de restaurar a linhagem merovíngia hoje, 1300 anos depois que ela foi deposta? Nos dias modernos seria um regime Merovíngio diferente de qualquer outro regime dos dias modernos? Se assim o for, como e porque? O que há de tão especial sobre os Merovíngios? Até mesmo se a afirmação deles é legítima, pareceria ser irrelevante. Porque devem tais pessoas tão poderosas e inteligentes, tanto hoje quanto no passado, dedicar não apenas sua atenção a isso mas sua lealdade também? Nos, com certeza, estamos fazendo as mesmas perguntas. Como Paoli, estavamos preparados para reconhecer a afimação Merovíngia de legitimidade. Mas qual a possível importância que uma tal declaração desfruta hoje? Pode a legitimidade técnica da monarquia realmente ser tão persuasiva e convincente como argumento? Porque, no final do século XX, deve qualquer monarquia, legítima ou não, comandar o tipo de lealdade que os Merovíngios parecem comandar?  Se estivessemos apenas lidando com um tipo de lunáticos idiossincrasicos, poderiamos descartar a matéria de antemão. Mas não estavamos. Ao contrário, nos pareceu estarmos lidando com uma organização extremamente influente que incluiu em suas fileiras alguns dos homens mais importantes, mais distinguidos, mais aclamados e mais responsáveis de nossa era. E esses homens, em muitos casos, pareciam ver a restauração da dinastia Merovíngia como uma meta suficientemente válida para transcender suas próprias diferenças pessoais políticas, sociais e religiosas. Não parece fazer sentido que a restauração de uma linhagem sanguínea de 1300 anos deva constituir uma tão vital causa célebre para tantas pessoas públicas altamente estimadas. A menos que a legitimidade não fosse a única declaração Merovíngia. A menos que eles estivessem supervisionando algo. A menos que a legitimidade fosse algo de imensa importância que diferenciasse os Merovíngios de outras dinastias. A menos, em resumo, que houvesse algo muito especial de fato sobre o sangue real Merovíngio.

Os Monarcas de Longos Cabelos

Por este tempo, com certeza, já haviamos pesquisado a dinastia Merovíngia. Até onde pudemos levar nosso caminho por uma névoa de fantasia e obscuridade cada vez mais opaca do que aquela que rodeia os cátaros e os Cavaleiros Templários. Tivemos passado alguns meses nos empenhando em desemaranhar complexas meadas de história e fábula interligadas. A despeito de nossos esforços, contudo, os Merovíngios permaneciam em sua maior parte envoltos em mistério. A dinastia Merovíngia saiu dos Sicambrianos, uma tribo de povo germânico coletivamente conhecidos como Francos. Ente os séculos V e VII os Merovíngios governaram grande parte do que agora é a Alemanha e a França. O período de sua ascendência coincide com o período do Rei Arthur, um período que constitui o estabelecimento dos romances do Santo Gral. É provavelmente o período mais impenetrável do que agora é chamado de Idade das Trevas. Mas a Idade das Trevas, descobrimos, não foram verdadeiramente escuras. Ao contrário rapidamente tornou-se aparente para nós que alguém tinha deliberadamente a obscurecido. Em que extensão a Igreja Católica exerceu um real monopólio sobre o aprendizado, e especialmente sobre a escrita, os registros que sobreviveram representam certos vestidos interesses. Quase tudo mais foi perdido ou censurado. Mas aqui e ali algo de tempo em tempo escorregou pela cortina através do passado, gotejando até nós a despeito do silêncio oficial. Destes vestígios sombrios, uma realidade pode ser reconstituida; uma realidade de um tipo mais interessante, e uma muito discordante dos dogmas da ortodoxia.

A História dos Merovíngios

Encontramos um número de enigmas que cercam as origens da dinastia Merovíngia. Geralmente se pensa em uma dinastia, por exemplo, como uma família ou casa governante que não meramente sucede uma outra família ou casa governante, mas assim o faz, em virtude de ter deslocado, deposto ou suplantado seus predecessores. Em outras palavras, pensa-se em dinastias como começando por um golpe de Estado de um tipo ou de outro, frequentemente compreendendo a extinção da previa linhagem governante. A Guerra das Rosas na Inglaterra, por exemplo, marcou uma mudança de uma dinastia. Aproximadamente um século mais tarde os Stuarts subiram ao trono inglês apenas quando os Tudors estavam extintos. E os próprios Stuarts foram depostos à força pelas casas de Orange e Hannover. No caso dos Merovíngios, contudo, não houve uma transição tão abrupta e violenta, nem usurpação, nem deslocamento, nem extinção de um regime anterior. Ao contrário, a casa que veio a ser chamada Merovíngia parece já haver governado sobre os Francos. Os Merovíngios já eram reconhecidos reis por direito e apropriadamente. Mas parece ter havido algo especial sobre um deles de forma que conferiu seu nome a uma inteira dinastia. O governante do qual os Merovíngios derivaram seu nome é a mais elusiva da realidade histórica eclipsada pela lenda. Merovee (Merovech ou Meroveus) era uma semi figura sobrenatural digna de um mito clássico. Até mesmo seu nome testemuha esta origem e caráter miraculoso. Ele ecoa a palavra ‘mãe’ bem como as palavras francesa e latina para ‘mar’. Segundo os principais cronistas francos e a tradição subsequente, Merovee nasceu de dois pais. Quando já grávida de seu marido, o Rei Clodio, a mãe de Merovee supostamente estava nadando no oceano. Na água é dito que ela foi seduzida e/ou violentada por uma obscura criatura marinha não identificada de além do mar, uma besta similar ao Quinotauro de Netuno, seja o que for que possa ter sido um Quinotauro. Esta criatura aparentemente engravidou a senhora pela segunda vez. E quando Merovee nasceu, alegadamente fluia em suas veias uma reunião dos dois sangues diferentes; o sangue do governante franco e da misteriosa figura aquática. Tais histórias fantásticas são muito comuns, com certeza, não apenas no mundo antigo, mas na tradição posterior européia também. Geralmente elas não são inteiramente imaginárias, mas simbólicas ou alegóricas, mascarando algum fato concreto histórico por trás de sua fabulosa fachada.

No caso de Merovee a fabulosa fachada bem pode indicar um intercasamento de algum tipo, um pedigree transmitido através da mãe, como por exemplo no Judaismo, ou uma mistura de linhagens dinásticas onde os francos se tornaram aliados pelo sangue a alguém mais; muito possivelmente uma fonte de além mar – uma fonte que, por uma razão ou outra, foi transformada pela fábula subsequente em uma criatura do mar. Em qualquer caso, em virtude deste duplo sangue é dito que Merovee foi dotado com um conjunto impressivo de poderes sobrehumanos. E seja qual for a realidade histórica por trás da lenda, a dinastia Merovíngia continuou a ser mantida em uma aura de magia, feitiçaria e sobrenatural. Segundo a tradição, os monarcas merovíngios eram adeptos ocultos, iniciados nas ciências arcanas, praticantes das artes esotéricas, dignos rivais de Merlin, seu fabuloso quase contemporaneo. Eles frequentemente são chamados ‘os reis feiticeiros’ ou ‘reis taumaturgos’. Em virtude de alguma propriedade miraculosa do sangue deles eles podiam alegadamente curar ao colocar suas mãos; e segundo uma narrativa as franjas de seus robes eram consideradas possuirem miraculosos poderes curativos. Eles são ditos serem capazes de clarividência ou comunicação telepática com bestas e com o mundo natural ao redor deles, e usar um poderoso colar mágico. Eles são ditos possuirem um encantamento arcano que os protegia e garantia a eles uma fenomenal longevidade que a história, incidentalmente, não parece confirmar. E eles são suspeito de terem uma suposta marca de nascimento, que os distinguia de outros homens, que os tornava imediatamente identificáveis e que atestava seu sangue semi-divino ou sagrado. Esta marca de nascimento reputadamente tomava a forma de uma cruz vermelha, ou sobre o coração [uma curiosa antecipação do brasão Templário] ou entre as omoplatas. Os Merovíngios são também frequentemente chamados ‘os reis de cabelos longos’. Como Sansão no Velho Testamento, eles não podiam cortar seu cabelo. Como Sansão, o cabelo deles supostamente continha a virtude, a essencia e o segredo de seu poder. Seja qual for a base para a crença no poder dos cabelos dos Merovíngios, ela parece ter sido considerada muito seriamente e até tão tarde quanto 754.

Quando Childeric III foi deposto em 764 e aprisionado, seu cabelo foi ritualmente tosado por ordem expressa do Papa. Conquanto sejam extravagantes as histórias que cercam os Merovíngios, elas parecem repousar em bases concretas, algum status desfrutado pelos monarcas Merovíngios durante seu próprio tempo de vida. De fato os Merovíngios não eram vistos como reis no sentido moderno da palavra. Eles eram vistos como encarnações reis sacerdotes do divino, em outras palavras, não diferente, digamos, dos antigos faraós egípcios. E não governavam simplesmente pela graça de Deus. Ao contrário, eles eram aparentemente considerados a coroação viva e encarnação da graça de Deus; um status geralmente reservado a Jesus. E eles parecem terem se engajado em práticas rituais que pertenciam, se algo, mais ao sacerdócio que a um reinado. Cranios encontrados de monarcas Merovíngios, por exemplo, mantém o que parece ser uma incisão ritual ou buraco na coroa. Incisões similares podem ser encontradas nos cranios de altos sacerdotes do inicial budismo tibetano para permitir que a alma escape da morte e para abrir contacto direto com o divino. Há razão para supor que a tonsura clerical é um resíduo da pratica Merovíngia. Em 1653 uma importante tumba merovíngia foi encontrada em Ardennes; a tumba do Rei Childeric I, filho de Merovee e pai de Clovis, o mais famoso e imfluentes de todos os governantes merovíngios. A tumba continha armas, tesouro e regalias, tais como se esperaria encontrar em uma tumba real. Ela tamém continha itens menos característicos de reinado do que de mágica, feitiçaria e adivinhação: uma cabeça cortada de cavalo, por exemplo, uma cabeça de touro feita de ouro e uma bola de cristal. Um dos símbolos mais sagrados merovíngios eram as abelhas; e a tumba de Childeric continha não menos que 300 miniaturas de abelhas feitas de sólido ouro. Juntamente com outros conteúdos da tumba,  estas abelhas foram confiadas a Leopold Wilhelm von Habsburg, governador militar das Holandas austríacas naquele tempo e irmão do Imperador Ferdinand III. Eventualmente, a maior parte do tesouro de Childeric voltou a França. E quaando foi coroado imperador em 1804, Napoleão fez uma coisa especial ter as abelhas de ouro afixadas aos seus robes de coroação,

Este incidente não foi a unica manifestação de interesse de Napoleão nos Merovíngios. Ele comissionou uma compilação de genealogias de um Abade Pichon, para determinar se ou não a linhagem sanguínea Merovíngia tinha sobrevivido a queda da dinastia. Foi sobre estas genealogias, comisssionadas por Napoleão, que as genealogias dos Documentos do Priorado eram em grande parte baseadas.

O Urso da Arcadia

As histórias que cercam os Merovíngios se provaram merecedoras da era de Arthur e dos romances do Gral. Ao mesmo tempo elas constituiam uma barreira assombrosa entre nós e a realidade histórica que queremos explorar. Quando afinal ganhamos aceso a isso ou do pouco que sobreviveu, esta realidade histórica era de algum modo diferente das lendas. Mas ela não era de modo algum menos misteriosa, extraordinária ou evocativa. Pudemos encontrar pouca informação verificável sobre as verdadeiras origens dos Mrovíngios. Eles próprios afirmavam desdenderem de Noé, que eles viam, até mesmo mais do que Moisés, como a fonte de toda sabedoria bíblica; uma posição interessante que emergiu novamente mil anos mais tarde na Livre Maçonaria européia. Os Merovíngios também afirmaam serem descendentes diretos da antiga Tróia que, se verdade ou não, serviria para explicar a ocorrência de nomes troianos na França, como Trojan e Paris. Mais escritores contemporâneos incluindo os autores dos Documentos do Priorado tem pretendido rastrear os Merovíngios até a Grécia antiga, e especificamente a região conhecida como Arcadia. Segundo estes documentos, os ancestrais dos Merovíngios eram ligados a casa real da Arcadia. Em alguma data não especificada na direção do advento da era cristã eles supostamente emigraram Danúbio acima, então Reno acima, e se estabeleceram onde é hoje a Alemanha Ocidental. Se os Merovíngios derivaram de Tróia ou da Arcadia pareceria ser academico, e não há necessariamewnte um conflito entre as duas afirmações. Segundo Homero um contingente substancial de Arcadianos estava presente no cerco de Tróia. Segundo as iniciais histórias gregas, Tróia de fato foi fundada por colonos da Arcadia. Também vale citar de passagem que o urso, na antiga Arcadia, era o animal sagrado ou totem sobre o qual cultos de mistério eram baseados e a quem eram feitos sacrifícios rituais. De fato, o próprio nome ‘Arcadia’ deriva de ‘Arkades’, que significa ‘povo do urso’. Os antigos arcadianos declaravam descenderem de Arkas, a deidade patrona da terra, cujo nome também significa ‘urso’. Segundo o mito grego, Arkas era o filho de Kallisto, a ninfa ligada a Artemis, a Caçadora. Para a mente moderna Kallisto é mais familiar como a constelação da Ursa Maior, a Grande Ursa.

Para os Francos Sicambrianos, de quem sairam os Merovíngios, o urso desfrutava de um similar status exaltado. Como os antigos Arcadianos eles veneravam o urso na forma de Artemis, ou, mais especificamente, a forma de seu equivalente gálico, Arduina, a deusa patrona de Ardennes. O culto de mistério de Arduina persistiu bem até a Idade Média, um centro dele sendo a cidade de Luneville, não longe dos outros dois sítios que recorrentemente aparecem em nossa investigação: Stenay e Orval. Tão tarde quanto 1304 estatutos estavam sendo promulgados pela Igreja proibindo a veneração da deusa bárbara. ‘Dado o status mágico, mítico e totemico do urso no coração da terra Merovíngia de Ardennes, não é surpreendente que o nome Ursus [o latim para urso] deva estar associado nos Documentos do Priorado a linhagem sanguínea real merovíngia. Muito mais surpreendente é o fato que a palavra galesa para urso seja ‘arth’ de onde deriva o nome Arthur. Embora não buscassemos o assunto a este ponto, a coincidência nos intrigou que Arthur não deva ser apenas contemporaneo dos Merovíngios mas, também como eles, associado ao urso.

Os Sicambrianos entram no Gaul

No início do século V a invasão dos Hunos provocou migrações em grande escala em quase todas as grandes tribos européias. Foi a esse tempo que os Merovíngios, ou, mais acuradamente, os ancestrais Sicambrianos dos Merovíngios atravessaram o Reno e se moveram em massa para dentro de Gaul, se estabelecendo no que agora é a Bélgica e o norte da França, mas vizinhanças da Ardennes. Um século depois esta região veio a ser chamada o Reino de Austrasie. E o núcleo do Reino de Austrasie era o que agora é conhecido como Lorraine. O influxo sicambriano para dentro do Gaul não consistiu em uma horda de selvagens bárbaros descontrolados tumultuadamente tomando a terra. Ao contrário, este foi um caso plácido e civilizado. Por séculos os sicambrianos tinham mantido um estreito contacto com os romanos; e embora eles fossem pagãos, eles não eram selvagens amotinados. De fato eles eram bem versados nos costumes romanos e na administração, e seguiam as modas de Roma. Alguns sicambrianos haviam se tornado oficiais de alto escalão no exército imperial. Alguns até mesmo haviam se tornado consuls romanos. Então o influxo sicambriano era menos de uma matança ou invasão do que um tipo de absorção pacífica. E quando, na direção do fim do século V, o império romano desabou, os sicambrianos preencheram o vácuo. Eles não o fizeram violentamente ou pela força. Eles mantiveram os velhos costumes e mudaram muito pouco. Sem qualquer tipo de revolta, eles assumiram o controle do aparato administrativo já existente, mas vago. O regime dos Merovíngios iniciais assim se conformou muito bem estreitamente ao modelo do velho império romano.

Merovee e Seus Descendentes

Nossa pesquisa encontrou menção ao menos a duas figuras históricas chamadas Merovee e não está claro a quais delas a lenda credita descender de uma criatura do mar. Um Merovee foi um chefe sicambriano, vivo em 417, que combateu sob os romanos e morreu em 438. Tem sido sugerido por ao menos um especialista moderno do período que este Merovee realmente visitou Roma e causou algo de uma sensação. Há certamente um registro de uma visita de um imponente líder Franco, evidente por seu repleto cabelo amarelo. Em 417, o filho deste primeiro Merovee, usando o mesmo nome de seu pai, foi proclamado rei dos Francos em Tournai e reinou até sua morte dez anos depois. Ele pode ter sido o primeiro rei oficial dos Francos como povo unido. Em virtude disso, talvez, ou do que era simbolizado por seu fabuloso nascimento dual, a dinastia que sucedeu a ele foi chamada Merovíngia. Sob os sucessores de Merovee o reino dos Francos floresceu. Ela não era a crua cultura bárbara frequentemente imaginada. Ao contrário, ele garante comparações em muitos aspectos com a ‘alta civilização’ de Bizancio. Até mesmo a alfabetização secular foi encorajada. Sob os Merovíngios a alfabetização secular era mais disseminada do que o seria em duas dinastias e quinhentos anos depois. Esta alfabetização se extendia aos próprios governantes e um fato surpreendente, dado o caráter rude, não cultivado e iletrado dos monarcas medievais mais posteriores. O Rei Chilperic, por exemplo, que reinou durante o século VI, não apenas construiu belos anfitreatros no estilo romano em Paris e Soissons, mas foi também um dedicado e completo poeta, que tinha um orgulho considerável de sua arte. E há narrativas verbatim de suas discussões com autoridades eclesiásticas que refletem uma sutileza extaordinária, sofisticação e aprendizado; dificilmente qualidades que se possa associar a um rei daquele tempo. Em muitas destas discussões Chiperic se provou mais do que igual ao seus interlocutores clericais. Sob o governo Merovíngio os Francos eram frequentemente brutais, mas eles realmente não eram um povo de tipo guerreiro por natureza ou disposição. Eles não eram como os Vikings, por exemplo, ou os Vândalos, Visigodos e Hunos. Suas principais atividades eram a agricultura e o comércio. Muita atenção era devotada ao comércio marítimo, especialmente no Mediterrâneo. E os artefatos da época Merovíngia refletem a qualidade do artezanato que é verdadeiramente surpreendente como o atesta o tesouro do navio Sutton Hoo, que pode ser visto no Museu Britânico. Muitas das moedas tem uma igualmente distintiva cruz em braços, identica aquela subsequentemente adotada durante as Cruzadas pelo reino Franco de Jerusalém.

O Sangue Real

Embora a cultura Merovíngia fosse temperada e surpreendentemente moderna, os monarcas que a presidiam eram um outro assunto. Eles não eram típicos monarcas nem mesmo de seu tempo, porque uma atmosfera de mistério, lenda, mágica e sobrenatural os cercava até mesmo durante seus períodos de vida. Se os costumes e economia do mundo Merovíngio  não diferem marcantemente de outros do período, a auro sobre ‘os filhos do sangue Merovíngio’ não era a de reis criados. Ao contrário, eles eram meramente vistos como tal no advento de seu 12o aniversário. Não havia cerimonia pública ou unção, nem coroação de qualquer tipo. O poder era simplesmente assumido pelo direito sagrado. Mas conquanto o rei fosse a autoridade suprema no reino, ele nunca era obrigado ou até mesmo esperado envolver suas mãos nos negócios mundanos de governar – Ele era essencialmente uma figura ritualizada, um rei-sacerdote, e seu papel era de certa forma similar aquela da presente família real britânica. O governo e a adminstração eram deixados para um oficial não real, o equivalente a um chanceler, que tinha o título de Prefeito do Palácio. No todo, a estrutura do regime Merovíngio tinha muitas coisas em comum com as modernas monarquias constitucionais. Até mesmo depois de sua conversão a cristandade, os regentes Merovíngios, como os Patriarcas do Velho Testamento, eram polígamos. Na ocasião eles desfrutavam de haréns em proporções orientais. Até mesmo quando a aristocracia, sob pressão da Igreja, se tornou rigorosamente monógama, a monarquia permaneceu isenta. E a Igreja, muito curiosamente, parece ter aceitado esta prerrogativa sem qualquer protesto exagerado. Segundo um comentador moderno, Porque era a poligamia aprovada tacitamente pelos próprios Francos? Devemos aqui estar na presença de um antigo uso da poligamia na família real de um tal escalão que seu sangue não pode ser enobrecido por qualquer combinação, embora vantajosa, nem degradado pelo sangue de escravos… Era um assunto e indiferença se a rainha era tomada de uma dinastia real ou do meio das cortesãs… A fortuna da dinastia repousava em seu sangue e era partilhada por todos que eram daquele sangue. E novamente, ‘seria possivel que, nos Merovíngios, possamos ter uma dinastia de herança germânica derivada de uma antiga família real do período da migração. Mas quantas famílias possam possivelmente ter estado no todo da história mundial que desfrutaram de tal status extraordinário e exaltado? Porque devem os Merovíngios serem assim? Porque deve ser o sangue dele investido de tal imenso poder? Estas perguntas continuavam a nos deixar perplexos.

Clovis e Seu Pacto com a Igreja

O mais famoso de todos os regentes Merovíngios foi o neto de Merovee, Clovis I, que reinou entre 481 e 511. O nome de Clovis é familiar a qualquer aluno francês porque foi sob Clovis que os Francos foram convertidos ao cristianismo romano. E foi através de Clovis que Roma começou a estabelecer sua supremacia indiscutivel na Europa Ocidental; uma supremacia que permaneceria não desafiada por mil anos. Por 496 a Igreja Romana estava em uma situação precária. Durante o curso do século V, sua própria existência tinha sido severamente ameaçada. Entre 384 e 399 o Bispo de Roma já havia começado a se chamar Papa, mas seu status oficial não era maior do que aquele de qualquer outro bispo e muito diferente do status atual do papa. Ele não era, em qualquer sentido, o líder espiritual ou chefe supremo da cristandade. Ele meramente representava um único corpo de vestidos interesses, uma das muitas formas divergentes da cristandade, e uma que desesperadamente estava lutando para sobreviver contra uma multitude de cismas conflitantes e pontos de vista teológicos. Oficialmente a Igreja Romana não tinha maior autoridade do que, digamos, a Igreja Céltica – com a qual ela constantemente estava em conflito. Ele não tinha maior autoridade do que heresias tais como o Arianismo, que negava a divindade de Jesus e insistia em sua humanidade. De fato durante grande parte do século V cada bispado na Europa Ocidental ou era ariano ou estava vago. Se a Igreja Romana era para sobreviver, ainda mais avaliar sua autoridade, ela precisava do apoio de um campeão, uma poderosa figura secular que pudesse representa-la. Se a cristandade era para evoluir segundo a doutrina romana, esta doutrina teria que ser disseminada, implementada e imposta pela força secular; uma força suficientemente poderosa para resistir e até mesmo extirpar o desafio dos credos cristão rivais. Não surpreendentemente, a Igreja Romana, em seu mais agudo momento de necessidade, se voltou para Clovis. Por 486 Clovis havia significativamente aumentado a extensão dos domínios Merovíngios, atacando das Ardennes para anexar um número de reinos e principalidades adjacentes, derrotando um número de tribos rivais. Como resultado, muitas cidades importantes – Troyes, por exemplo, Rheims e Amiens foram incorporadas ao reino dele. Dentro de uma década estava aparente que Clovis estava bem em seu caminho de se tornar o mais poderoso potentado da Europa Ocidental. A conversão e o batismo de Clovis provaram ser de crucial importância em nossa investigação. Uma narrativa disso foi compilada, em todos seus particulares e detalhes, ao redor do tempo em que aconteceu. Dois e meio séculos depois esta narrativa, chamada de A Vida de Saint Rhemy, foi destruida, exceto por umas poucas páginas manuscritas espalhadas. E a evidência sugere que ela foi destruida deliberadamente. Não obstante os fragmentos que testemunham a importância do que estava envolvido.

Segundo a tradição, a conversão de Clovis foi um assunto súbito e inesperado, efetuada pela esposa do rei, Clotilde, uma fervente devota de Roma, que parece ter cansado seu marido até que ele aceitase a fé dela e que foi subsequentemente canonizada pelos seus esforços. Nestes esforços é dito que ele foi guiada e auxiliada por seu confessor,  Saint Remy. Mas por trás dessas tradições reside uma realidade histórica muito prática e mundana. Quando Clovis foi convertido ao cristianismo  e se tornou o primeiro rei católico dos Francos, ele tinha mais a ganhar do que a aprovação de sua esposa, e um reinado mais tangivelmente substancial do que o Reino dos Céus. É sabido que em 496 um número de encontros secretos ocorreu entre Clovis e Saint Rémy. Immediatamente a seguir um acordo foi ratificado entre Clovis e a Igreja Romana. Para Roma este acordo era um maior triunfo político. Ele asseguraria a sobrevivência da Igreja como suprema autoridade espiritual no Ocidente. Isso consolidaria o status de Roma como uma igual a fé Grega Ortodoxa baseada em Constantinopla. Isto ofereceria uma perspectiva de hegemonia romana e um meio eficaz de herradicar as cabeças de hidra da heresia. E Clovis seria o meio de implentar estas coisas, a espada de Roma, o instrumento pelo qual Roma imporia seu domínio espiritual, o braço secular e a manisfestação palpável do poder Romano. Em troca era garantido a Clovis o título de ‘Novus Constantinus’. Em outras palavras, ele iria presidir um império unificado, um Sagrado Império Romano, que pretendia suceder aquele supostamente criado sob Constantino e destruído pelos Visigodos e Vãndalos não muito antes.

Segundo um especialista moderno sobre o período, Clovis, antes de seu batismo, era ‘fortalecido’… com visões de um império em sucessão aquele de Roma, que devia ser herança da raça Merovíngia’. Segundo outro escritor moderno, ‘Clovis deve agora se tornar um tipo de imperador ocidental, um patriarca para os alemães ocidentais, reinando sobre, embora não governando, todos os povos e reis’. O pacto entre Clovis e a Igreja Romana, em resumo, era um de momentosa consequência para a cristandade; não apenas para a cristandade daquele tempo, mas também para a cristandade do milênio seguinte. O batismo de Clovis era para marcar o nascimento de um novo Império Romano, um império cristão, baseado na Igreja Romana e administrado, a nível secular, pela linhagem sanguinea Merovíngea. Em outras palavras, um laço indissolúvel foi estabelecido entre a Igreja e o Estado, cada um jurando lealdade ao outro, cada um se curvando ao outro, em perpetuidade. Na ratificação deste laço. em 496, Clovis se permitiu ser formalmente batizado por Saint Remy em Rheims. No clímax da cerimônia, Saint Remy pronunciou suas famosas palavras: ‘Mitis depone colla, Sicamber, adora quod incendisti, incendi quod adorasti’. (Curve sua cabeça humildemente, Sicambriano, reverencie o que tem queimado e que tem sido reverenciado]. É importante notar que o batismo de Clovis não foi uma coroação como alguns históriadores algumas vezes sugerem. A Igreja não fez de Clovis rei. Ele já o era, e tudo o que a Igreja podia fazer era reconhece-lo como tal. Em virtude de assim o fazer, a Igreja se ligou não apenas a Clovis, mas também aos sucessores dele; não a um único individuo, mas a uma linhagem sanguinea. A este respeito o pacto se asemelhou a uma aliança que Deus, no Velho Testamento, fez com o Rei David; um pacto que não pode ser modificado, como no caso de Salomão, nem revogado, quebrado ou traido. E os Merovíngios não perderiam de vista o paralelo. Durante os dias restantes de sua vida Clovis completamente realizou as expectativas ambiciosas de Roma quanto a ele. Com irresistível eficiência, a fé foi imposta pela espada; e com a sanção e mandato espiritual da Igreja, o Reino Franco se expandiu a leste e sul, abrangendo a maior parte da França moderna e grande parte da moderna Alemanha. Entre os numerosos adversários de Clovis os mais importantes eram os Visigodos que tomaram os Pirineus e se estenderam muito ao norte como Toulouse que Clovis dirigiu suas mais assidúas e concentradas campanhas.

Em 507 ele decisivamente derrotou os Visigodos na Batalha de Vouille. Pouco depois Aquitaine e Toulouse cairam em mãos francas. O império visigodo ao norte dos Pirineus efetivamente desabou diante da matança franca. De Toulouse, os Visigodos cairam de volta a Carcassone. Expulsos de Carcassone, eles estabeleceram a capital deles, e último bastião remanescente em Razes, em Rhedae agora a vila de Rennes-le-Chateau.

Dagoberto II

Em 511 Clovis morreu e o império que ele havia criado foi dividido, segundo os costumes Merovíngios, entre seus quatro filhos. Por mais de um século a seguir a dinastia Merovíngia presidiu um número de separados e frequentemente guerreiros reinos, enquanto as linhas de sucessão se tornavam crescentemente interligadas  e as solicitações de tronos crescentemente confusas. A autoridade uma vez concentrada em Clovis se tornou progressivamente mais difusa, mais inchada e a ordem secular se deteriorou. Intrigas, maquinações, raptos e assassinato político se tornaram até mesmo lugar comum. E os chanceleres da Côrte, os Prefeitos do Palácio, acumulavam mais e mais poder; um fator que eventualmente contribuiria para a queda da dinastia. Privados crescentemente de autoridade, os últimos regentes Merovíngios tem sido frequentemente chamados ‘les rois faineant’ – ‘os reis enfraquecidos’. A posteridade tem desdenhosamente os estigmatizado como fracos, monarcas ineficazes, efeminados e flexivelmente indefesos nas mãos de conselheiros cobiçososos e astutos. Nossa pesquisa revelou que este estereótipo não era estritamente acurado. É verdade que as guerras constantes, as vinganças e a luta interna colocou um número de príncipes merovíngios no trono em uma idade extremamente jovem e assim eles eram facilmente manipuláveis por seus conselheiros. Mas aqueles que atingiram a idade adulta se provaram tão fortes e decisivos como qualquer de seus predecessores. Isto certamente parece ter sido o caso de Dagoberto II.

Dagoberto II nasceu em 653, herdeiro do trono da Austrasie. Com a morte de seu pai em 653 foram feitas tentativas extravagantes de evitar sua herança do trono. De fato a vida inicial de Dagoberto parece uma história medieval, ou um conto de fadas. Mas é história bem documentada. Com a morte de seu pai, Dagoberto foi raptado pelo Prefeito do Palácio, um indivíduo chamado Grimoald. Tentativas de encontrar a criança de cinco anos se provaram infrutíferas, e não foi difícil convencer a côrte que ele estava morto. Sobre esta base Grimoald engendrou a ascensão de seu próprio filho ao trono, afirmando que estes teria sido o desejo do monarca anterior, o falecido pai de Dagoberto. O truque funcionou eficazmente. Até mesmo a mãe de Dagoberto, acreditando que seu filho estava morto, deferiu a ambição do Prefeito do Palácio. Contudo, Grimoald tinha aparentemente hesitado em realmente matar o jovem príncipe. Em segredo Dagoberto havia sido confiado aos cuidados do bispo de Poitiers. O bispo, assim parece, estava igualmente relutante de matar a criança. Dagoberto portanto foi destinado ao exílio permanente na Irlanda. Ele cresceu até a idade adulta em um monastério irlandês em Slane, não longe de Dublin; e lá, na escola anexa ao monastério, ele recebeu uma educação não obtível na França daquele tempo. Em algum ponto durante este período é suposto ele ter frequentado a côrte do Alto Rei de Tara. E é dito que ele fez conhecimento com três príncipes nortumbrianos, que também estavam sendo educados em Slane. Em 666, provavelmente ainda na Irlanda, Dagoberto se casou com uma princesa Celta, Matilde. Não muito depois ele se mudou da Irlanda para a Inglaterra, estabelecendo residência em York, no reino da Nortumbria. Aqui ele fez uma sólida amizade com São Wilfrido, bispo de York, que se tornou seu mentor. Durante o período em questão já existia um cisma entre as Igrejas Romana e Celta, com a última se recusando a reconhecer a autoridade da anterior. No interesse da unidade, Wilfrido tinha a inteção de trazer a Igreja Celta ao rebanho romano. Isto ele já tinha realizado no famoso Concílio de Whitby em 664. Mas sua subsequente amizade e patrocínio de Dagoberto II pode não ter sido vazia de um motivo ulterior. Pelo tempo de Dagoberto a lealdade a Roma como ditado pelo pacto da Igreja com Clovis um século e meio antes – era de certa forma menos fervente do que devia ser. Como um leal aderente a Roma, Wilfrido estava ávido de consolidar a supremacia Romana não apenas na Bretanha, mas também no continente. Fosse Dagoberto voltar a França e reclamar o reino de Austrasie, este teria sido o expediente para assegurar sua lealdade. Wilfrido pode bem ter visto o rei exilado como um possivel braço-espada da Igreja. Em 670, Matilde, a esposa celta de Dagoberto, morreu dando a luz sua terceira filha. Wilfrido se apressou em arranjar uma nova união para o monarca recentemente viúvo. A nova esposa de Dagoberto foi Giselle de Razes, filha do Conde de Razes e sobrinha do rei dos Visigodos. Em outras palavras, a linhagem Merovíngia agora estava aliada a linhagem real dos Visigodos. Aqui estão as sementes de um império embrionário que teria unido grande parte da França moderna,se estendendo dos Pirineus  até as Ardennes. Um tal império, sobretudo, teria trazido os Visigodos ainda com fortes tendências arianas firmemente sob controle romano.

Quando Dagoberto se casou com Giselle, ele já tinha voltado ao continente. Segundo documentação oficial, o casamento foi celebrado na residência oficial de Giselle em Rhedae, ou Rennes-le-Chateau. De fato, o casamento foi reputadamente celebrado na Igreja de Santa Madalena, a estrutura no local no qual a igreja de Sauniere foi subsequentemente eregida. O primeiro casamento de Dagoberto havia produzido três filhas mas nenhum herdeiro homem. De Giselle Dagoberto teve mais duas meninas e ao menos, em 676, o filho Sigisberto IV. E pelo tempo em que Sigisberto nasceu Dagoberto era uma vez mais um rei. Por alguns três anos parece que Dagoberto passou seu tempo em Rennes-le-Chateau, observando as vicissitudes de seus domínios ao norte. Finalmente, em 674, a oportunidade havia se apresentado. Com o apoio de sua mãe e dos conselheiros dela, o monarca a tanto tempo exilado se anunciou, reclamando seu reino e foi oficialmente proclamado rei da Austrasie. Wilfredo de York foi instrumental em sua instalação como rei.

Segundo Gerard de Sede havia também uma figura mais elusiva, muito mais misteriosa, sobre a qual há pouca informação histórica: Saint Amatus, bispo de Sião na Suíça. ‘Uma vez restaurado no trono, Dagoberto não foi um rei frágil. Ao contrário, ele se provou um digno sucessor de Clovis. De uma vez ele buscou avaliar e consolidar sua autoridade, domando a anarquia que prevalecia na Austrasie e restaurando a ordem. Ele governou firmemente, quebrando o controle de vários nobres rebeldes que tinham mobilizado suficiente poder militar e economico para desafiar o trono. E em Rennes-le-Chateu é dito que ele reuniu um tesouro substancial. Estes recursos eram para serem usados em sua reconquista da Aquitaine, que tinha se separado das mãos Merovíngias alguns quarenta anos antes e se declarado uma principalidade independente. Ao mesmo tempo Dagoberto deve ter sido um severo desapontamento para Wilfrido de York. Se Wilfrido tinha esperado que ele fosse o braço-espada da Igreja, Dagoberto provou ser nada desse tipo. Ao contrário, ele parece ter contido a tentada expansão da parte da Igreja dentro de seu reino, e portanto incorreu no desprazer eclesiástico.

Uma carta de um irado prelado franco para Wilfrido existe, condenando Dagoberto por aumentar os impostos, desdenhando as Igrejas de Deus e seus bispos’. Nem foi apenas a este respeito que Dagoberto parece ter sido desfavorável para Roma. Em virtude de seu casamento com um princesa Visigoda ele havia adquirido um território considerável no que hoje é o Languedoc. Ele pode também ter adquirido algo mais. Os Visigodos eram apenas nominalmente leais a Igreja Romana. De fato sua lealdade a Roma era extremamente tenue e uma tendência ao Arianismo ainda existia na família real. Há evidência que sugere que Dagoberto absorveu algo desta tendência. Por 679, depois de três anos no trono, Dagoberto tinha feito um número de inimigos poderosos, tanto seculares quanto eclesiásticos. Ao conter a autonomia rebelde deles, ele havia incorrido na hostilidade de certos nobres vingativos. Ao impedir sua tentada expansão, ele tinha levantado a antipatia da Igreja. Ao estabelecer um regime eficaz e centralizado ele havia provocado a inveja e o alarme de outros potentados francos governantes dos reinos adjacentes. Alguns destes governantes tinham aliados e agentes dentro do reino de Dagoberto. Um deles era o próprio Prefeito do Palácio do rei, Pepino o Gordo. E Pepino clandestinamente se alinhou com os inimigos políticos de Dagoberto, não recuando de traição ou assassinato. Como a maioria dos regentes Merovíngios, Dagoberto tinha ao menos duas cidades capitais. A mais importante delas era Stenay, na beira de Ardennes. Perto do palacácio real em Stenay estendia-se uma pesada área de arborização, a muito tempo considerada sagrada, chamada Floresta de Woevres. Foi nesta floresta, em 23 de dezembro de 679 que é dito que Dagoberto tenha ido caçar. Dado a data, a caçada pode bem ter sido uma ocasião ritual de algum tipo. Em qualquer caso, o que aconteceu evoca uma multitude de ecos arquetípicos, incluindo o assassinato de Siegfried em Nibelungenlied. Em direção ao meio dia, sucumbindo a fadiga, o rei deitou-se para descansar ao lado de um riacho, aos pés de uma árvore. Enquanto ele dormia, um de seus serventes, supostamente seu afilhado, chegou furtivamente acima dele e, agindo sob as ordens de Pepino, cravou uma lança no olho de Dagoberto. Os assassinos então retornaram a Stenay, pretendendo exterminar o resto da família na residência lá. Quão bem sucedidos eles foram nesta tarefa não está claro. Mas não há dúvida de que o reino de Dagoberto e de sua família veio a um fim abrupto e violento. Nem a Igreja perdeu muito tempo lamentando. Ao contrário, ela prontamente endossou as ações dos assassinos do rei.

Há até mesmo uma carta de um prelado franco a Wilfrido de York, que tenta racionalizar e justificar o regicídio. O corpo de Dagoberto e seu status póstumo passaram por um curioso número de vicissitudes. Imediatamente depois de sua morte, ele foi enterrado em Stenay, na Capela Real de Saint Remy. Em 872 quase dois séculos mais tarde ele foi exumado e mudado para uma outra igreja. Esta nova igreja se tornou a Igreja de São Dagoberto, e no mesmo ano o rei morto foi canonizado não pelo Papa [que não afirmava este direito até 1159], mas por um Conclave Metropolitano. A razão para a canonização de Dagoberto permanece não esclarecida. Segundo uma fonte, foi por causa que suas relíquias eram acreditadas terem sido preservadas nas vizinhanças de Stenay contray os ataques Vikings, embora esta explicação exija uma pergunta, porque não está claro porque as relíquias devessem possuir tais poderes em primeiro lugar. As autoridades eclesiásticas parecem embaraçosamente ignorantes a respeito do assunto. Elas admitem que Dagoberto, por alguma razão, se tornou o objeto de um culto completamente maduro e tinha sua própria festa em 23 de dezembro, o aniversário de sua morte. Mas eles parecem absolutamente perdidos em saber o porque ele deve ter sido tão exaltado. É possível, com certeza, que a Igreja se sentisse culpada sobre seu papel na morte do rei. A canonização de Dagoberto pode portanto ter sido uma tentativa de fazer emendas. Se assim o foi, contudo, não há indicações de porque um tal gesto tivesse sido considerado necessário, nem porque ele teria tido que esperar por dois séculos. Stenay, a Igreja de São Dagoberto e talvez as relíquias que ela continha eram todas consideradas de grande importância por um número de ilustres figuras nos séculos que se seguiram. Em 1069, por exemplo, o duque de Lorraine, o avô de Godfroi de Bouillon concedeu especial proteção a igreja e a colocou sob os auspícios do vizinho Abade de Gorze. Alguns anos mais tarde a igreja foi apropriada por um nobre local. Em 1093 Godfroi de Bouillon mobilizou um exército e submeteu Stenay a um cerco em escala completa com o único propósito, pareceria, de reconquistar a igreja e devolve-la a Abadia de Gorze. Durante a Revolução Francesa, a igreja foi destruída e as relíquias de São Dagoberto, como tantas outras pela França, foram dispersadas. Hoje um crânio ritualmente trepanado é dito ser o de Dagoberto e está sob custódia de um convento em Mons. Todas as outras relíquias do rei tem desaparecido.

Mas em meados do século XIX um documento mais curioso veio a luz. Era um poema, uma litania de 21 versos, intitulado ‘De sancta Dagoberto mar tyre prose’ implicando que Dagoberto foi martirizado por, ou para, algo. Este poema é acreditado datar de ao menos da Idade Média, possivelmente mais cedo. Muito significativamente, ele foi eencontrado na Abadia de Orval.

A Usurpação pelos Carolíngios

Estritamente falando Dagoberto não foi o último governante da dinastia Merovíngia. De fato os monarcas Merovíngios retiveram ao menos o status nominal por outros três quartos de séculos. Mas estes últimos Merovíngios mereciam o título de reis frageis. Muitos deles eram extremamente jovens. Em consequencia eles eram frequentemente fracos, peões indefesos nas mãos dos Prefeitos do Palácio, incapazes de avaliar a autoridade deles e impor decisões suas próprias. Eles realmente eram pouco mais do que vítimas; e mais do que uns poucos se tornaram sacrifícios. Sobretudo, os últimos Merovíngios eram ramos aprendizes, não descendentes da linhagem principal de Clovis e Merovee. A principal linhagem de ascendencia merovíngia havia sido deposta com Dagoberto II. Para todos os intentos e propósitos, portanto, o assassinato de Dagoberto pode ser visto como sinalizando o fim da dinastia Merovíngia. Quando Childeric III morreu em 754, era uma mera formalidade no que dizia respeito ao poder dinástico. Como regentes dos Francos a linhagem sanguínea Merovíngia tinha sido ativamente extinta muito tempo antes. Com o poder pingando das mãos dos Merovíngios, ele passou aos Prefeitos do Palácio; um processo que já havia começado antes do reinado de Dagoberto. Foi um Prefeito do Palácio, Pepino o Gordo, que arquitetou a morte de Dagoberto. E Pepino o Gordo foi seguido pelo seu filho, o famoso Charles Martel. Aos olhos da posteridade Charles Martel é uma das mais heróicas figuras da história francesa. Certamente existe alguma base para a aclamação dada a ele. Sob Charles, a invasão moura da França foi detida na Batalha de Pointiers em 732; e Charles, em virtude desta vitória, foi, em algum sentido, ‘defensor da fé’ e ‘salvador da cristandade’. O que é curioso é que Charles Martel, o homem forte que se pensa que ele era, nunca tomou o trono – que certamente estava dentro de sua garra. De fato ele parece ter visto o trono com um certo espanto supersticioso e, com toda probabilidade, como especificamente uma prerrogativa merovíngia. Certamente os sucessores de Charles, que tomaram o trono, buscaram seu caminho de estabelecer legitimidade ao se casarem com princesas merovíngias. Charles Martel morreu em 741. Dez anos mais tarde seu filho, Pepino III, Prefeito do Palácio do rei Chideric III, conseguiu o apoio da Igreja para reclamar legalmente o trono. ‘Quem devia ser o rei?’, perguntaram os embaixadores de Pepino ao Papa. ‘O homem que atualmente mantém o poder ou ele, favoreceria Pepino’. Pela autoridade apostólica ele ordenou que Pepino fosse criado rei dos Francos, uma calorosa traição do pacto ratificado com Clovis dois séculos e meio antes. Assim endossado por Roma, Pepino depôs Childerichic III, confinou o rei em um monastério, e o humilhou, privando-o de seus ‘poderes mágicos’ ou ambos porque ele tinha tosado seu cabelo sagrado. Quatro anos depois Childeric morreu, e a afirmação de Pepino sobre o trono não era contestada. Um ano antes, um documento crucial tinha convenientemente feito seu aparecimento, que subsequenemente alterou o curso da história ocidental. Este documento foi chamado ‘Doação de Constantino’. Hoje não há dúvidas que ele era uma fraude, criada não muito talentosamente dentro da chancelaria papal. A este tempo, contudo, ele era considerado genuíno, e sua influência foi enorme. A ‘Doação de Constantino’ tinha a data da alegada conversão de Constantino ao cristianismo em 312. Segundo a ‘Doação’, Constantino tinha oficialmente doado ao bispo de Roma seus símbolos e regalia imperiais, que assim se tornou propriedade da Igreja.

A ‘Doação’ porteriormente alegava que Constantino, pela primeira vez, tinha declarado o Bispo de Roma ser o ‘Vigário de Cristo’ e oferecido a ele o status de imperador. Em sua capacidade como ‘Vigário de Cristo’ o bispo tinha supostamente devolvido a regalia imperial a Constantino, que as usou subsequentemente com a sanção e permissão eclasiástica mais ao menos da maneira de um empréstimo. As implicações deste documento são suficientemente claras. Segundo a ‘Doação de Constantino’ o Bispo de Roma exercia a autoridade secular suprema bem como a suprema autoridade espiritual sobre a Cristandade. Ele era, de fato, um imperador papal, que podia dispor como desejasse da coroa imperial, que podia delegar seu poder ou qualquer aspecto que ele visse se enquadrar. Em outras palavras, ele possuia, através de Cristo, o direito indesafiável de criar ou depor reis. È da ‘Doação de Constantino’ que o subsequente poder do Vaticano nos assuntos seculares se deriva. Afirmando a autoridade através da ‘Doação de Constantino’, a Igreja empregou sua influência em benefício de Pepino III. Isto criou uma cerimônia onde o sangue dos usurpadores, ou de qualquer outro mais para este assunto, podia se tornar sagrado. Esta cerimônia veio a ser conhecida como coroação e unção no que estes termos eram comprendidos durante a Idade Média e na Renascença. Na coroação de Pepino, os bispos pela primeira vez eram autorizados a comparecerem, com escalão igual aos dos nobres seculares. E a própria coroação não mais compreendia o reconhecimento de um rei, ou um pacto com um rei. O ritual de unção era similarmente transformado. No passado, quando praticado, era um encontro cerimonial, um ato de reconhecimento ou de ratificação. Agora, contudo, ele assumia uma nova importância. Agora ele tomava precedência sobre o sangue, e podia ‘magicamente’como era, santificar o sangue. A unção se tornou algo mais do que um gesto simbólico. Ela se tornou o ato literal onde a graça divina era conferida a um regente. E o Papa, ao realizar estes atos, se tornava o supremo mediador entre Deus e os reis. Pelo ritual de unção, a Igreja arrogou-se o direito de fazer reis. O sangue agora estava subordinado ao óleo. E todos os monarcas eram tornados mramente subordinados e subservientes ao Papa.

Em 754 Pepino III foi oficialmente ungido em Ponthion, assim inaugurando a dinastia Carolíngia. O nome deriva de Charles Martel, embora seja geralmente associado ao mais famoso dos governantes Carolíngios, Carlos O Grande, Carlos Magno ou, como ele é melhor conhecido, Charlemagne. E em 800 Carlos Magno foi proclamado Sagrado Imperador Romano; um título que, em virtude do pacto com Clovis três séculos antes, devia ter sido reservado apenas a linhagem sanguínea Merovíngia. Roma agora se tornava o assento de um império que abarcava toda a Europa Ocidental, cujos regentes apens governavam com a sanção do Papa. Em 496 a Igreja havia se comprometido com a perpetuidade da linhagem sanguinea Merovíngia. Ao sancionar o assassinato de Dagoberto, ao divisar as cerimonias de coroação e unção, ao endossar o pedido de Pepino ao trono, ela tinha clandestinamente traído este pacto. Ao coroar Carlos Magno ele tinha tornado sua traição não apenas um ato público, quanto um fato realizado. Nas palavras de uma autoridade moderna: “Não podemos portanto estar seguros que a unção com a crisma dos Carolíngios não pretendesse compensar a perda das propriedades mágicas do sangue simbolizado pelos cabelos longos. Se isso fosse a compensação de algo, fosse provavelmente a perda da fé incorrida na quebra de um juramento de fidelidade de um modo particularmente chocante. E novamente Roma mostrou o caminho ao fornecer na unção um rito de fazer reis que de algum modo limpou as consciências de todos os Francos’. Nem todas as conciencias, contudo. Os próprios usurpadores parecem ter sentido, se não um sentimento de culpa, ao menos uma aguda necessidade de estabelecer a legitimidade deles. Para este fim Pepino III, imediatamente antes de sua unção, tinha ostentosamente se casado com uma princesa Merovíngia. E Carlos Magno fez igual. Carlos Magno, contudo, parece ter sido dolorosamente ciente da traição envolvida em sua coroação. Segundo narrativas contemporaneas, a coroação foi um assunto duidadosamente programado, arquitetado pelo Papa por trás das costas do monarca; e Carlos Magno parece ter sido surpreso e profundamente embaraçado. Uma coroa de algum tipo já havia sido clandestinamente preparada. Carlos Magno tinha sido atraido a Roma e lá persuadido a comparecer a uma missa especial. Quando ele tomou seu lugar na Igreja, o Papa, sem aviso, colocou a coroa sobre sua cabeça, enquanto a populaça o aclamava “Carlos, Augusto, coroado por Deus, o grande e amante da paz imperador dos Romanos’. Nas palavras de um cronista escrevendo naquele tempo, ‘Carlos Magno deixou claro que ele não teria entrado na catedral naquele dia, embora fosse um dos maiores festivais da Igreja, se tivesse sabido antecipadamente o que o Papa estava planejando fazer’. Mas seja qual for a responsabilidade de Carlos Magno neste caso, o pacto com Clovis e a linhagem sanguínea Merovíngia tinha sido vergonhosamente traído. E todas as nossass pesquisas indicaram esta traição, até mesmo embora ela tenha ocorrido a mais de 1.100 anos atrás, continuaram a irritar para o Priorado de Sião.

Mathieu Paoli, o pesquisador independente citado no capítulo anterior, chegou a uma conclusão similar: Para eles [o Priorado de Sião] a única nobreza autêntica é a nobreza de origem Visigoda/Merovíngia. Os Carolíngios, e então todos os outros, são apenas usurpadores. De fato, eles eram apenas funcionários do rei, encarregados de administrarem as terras que, depois de transmitidas pelo direito hereditário de governar estar terras, então pura e simplesmente tomaram o poder para eles próprios. Ao consagrar Carlos Magno em 800, a Igreja perjurou-se, porque ela tinha concluído, pelo batismo de Clóvis uma aliança com os Merovíngios que tinha feito da França a filha mais velha da Igreja.

A Exclusão de Dagoberto II da História

Com o assassinato de Dgoberto II em 679 a dinastia Merovíngia efetivamente terminou. Com a morte de Childeric III em 755 os Merovíngios pareceram desaparecer da história mundial completamente. Segundo os Documentos do Priorado, contudo, a linhagem sanguinea Merovíngia de fato sobreviveu. Segundo os Documentos do Priorado ela se perpetou até os dias atuais, do infante Sigisbert IV, filho de Dagoberto II com sua segunda esposa, Giselle de Razes. Não há dúvida de que Sigisbert existiu e era herdeiro de Dagoberto. Segundo todas as fontes outras que os Documentos do Priorado, contudo, não está claro o que aconteceu a ele. Certos cronistas tem tacitamente assumido que ele foi assassinado juntamente com seu pai e outros membros da família real. Uma narrativa altamente duvidosa avalia que ele morreu em um acidente de caça um ano ou dois antes da morte de seu pai. Se isto é verdade, Sigisbert teria sido um caçador precoce porque possivelmente ele não tivesse mais que três anos naquele tempo. Não há qualquer registro sobre a morte de Sigisbert. Nem há qualquer registro fora a evidência nos Documentos do Priorado de sua sobrevivência. A matéria toda parece ter sido perdida ‘nas névoas do tempo’, e ninguém parece ter sido muito preocupado sobre isso, exceto, com certeza, o Priorado de Sião. Em qualquer caso Sião pareceu estar conhecedor de certa informação que não estava disponível em lugar algum. Ou que era considerada de tão pequena consequência para garantir muita investigação. Ou foi deliberamente suprimida. Dificilmente seja surpreendente que nenhuma narrativa sobre o destino de Sigisbert tenha sido filtrada até nós. Não há narrativa publicamente acessível até mesmo de Dagoberto até o século XVII. Em algum ponto durante a Idade Média foi feita aparentemente uma tentativa sistemática de apagar Dagoberto da história, de negar até mesmo que ele tenha existido. Hoje Dagoberto II pode ser encontrado em qualquer enciclopédia. Ate 1646, contudo, não havia reconhecimento até mesmo de que ele tenha vivido. Qualquer lista ou genealogia de regentes franceses compilada antes de 1646 simplesmente o omite, pulando [a despeito da flagrante inconsistência] de Dagoberto I para Dagoberto III, um dos últimos monarcas Merovíngios, que morreu em 715. E não foi senão em 1655 que Dagoberto II foi reinstalado nas listas aceitas dos reis franceses. Dado este processo de erradicação, não estamos indevidamente perplexos pela falta de informação relacionada a Sigisbert. E não podemos senão suspeitar que seja qual for a informação que existiu ele tenha sido deliberadmente suprimida. Mas porque, imaginamos, deve Dagoberto II ter sido retirado da história? O que estava sendo escondido em tal exclusão? Porque alguém deveria querer negar a própria existência de um homem? Uma possibilidade, com certeza, é negar portanto a existência de seus herdeiros. Se Dagoberto nunca viveu, Sigisbert também não pode ter vivido.

Mas porque deveria ter sido importante, até o século XVII, negar que Sigisbert tenha vivido? A menos que de fato ele tenha sobrevivido, e seus descendentes ainda fossem vistos como uma ameaça. Nos parece que claramente estamos lidando com algum tipo de ‘acobertamento’. Muito patentemente existiam interesses vestidos que tinham algo de importância a perder se o conhecimento da sobrevivência de Sigisbert fosse tornado público. No século IX e talvez tão tarde quanto as Cruzadas estes interesses pareciam ter sido da Igreja Romana e da linhagem real francesa. Mas porque um tal assunto deva ter continuado a importar tão tarde quando na época de Luis XIV? Certamente isso teria sido um ponto academico então, porque três dinastias francesas tinham vindo e ido, enquanto o Protestantismo tinha quebrado a hegemonia Romana. A menos que houvesse de fato algo muito especial sobre o sangue Merovíngio. Não ‘propriedades mágicas’ mas algo mais – algo que havia retido a sua potência explosiva até mesmo depois que as superstições sobre o sangue mágico tinham sido postas de lado.

O Príncipe  Guillem de Gellone, Conde de Razes

Segundo os Documentos do Priorado, Sigisbert IV, com a morte de seu pai, foi resgatado pela sua irmã e levado para o sul para os domínios de sua mãe, a princesa visigoda Giselle de Razes. Ele é dito ter chegado ao Languedoc em 681 e, um pouco tempo depois, ter adotado e herdado o título de seu tio, o Duque de Razes e Conde de Rhedae. Também é dito que ele adotou o sobrenome ou apelido de ‘Plant-Ard’ (subsequentemente Plantard) da apelação  ‘rejeton ardent’ ‘tiro ardentemente florescente’ da vinha Merovíngia. Sob este nome, e sob os títulos adquiridos de seu tio, é dito que ele tenha perpetuado sua linhagem. E por 886 uma ramo desta linhagem é dito ter culminado em um certo Bernard Plantavelu aparentemente derivado de Plant-and ou Plantard cujo filho se tornou o primeiro Duque de Aquitaine, Até onde pudemos avaliar, nenhum historiador independente confirmou ou descartou estas avaliações. O assunto inteiro foi simplesmente ignorado. Mas a evidência circunstancial argumentou persuasivamente que Sigisbert de fato sobreviveu e perpetuou sua linhagem. A assídua erradicação de Dagoberto da história dá credencial a esta conclusão. Ao negar sua existência, qualquer linhagem descendente dele teria sido invalidada. Isto constitui um motivo para uma ação que outro modo seria inexplicável. Entre os outros fragmentos de evidência está uma carta de direitos datada de 718 que pertence a fundação de um monastério a umas poucas milhas de Rennes-le-Chateau por Sigisbert, Conde de Rhedae e sua esposa, Magdala. Fora esta carta de direitos nada é ouvido dos títulos de Rhedae e Razes por um outro século. Quando um deles reaparece, contudo, ele o faz em um contexto extremamente interessante. Por 742 há um Estado independente e completamente autônomo no sul da França; um principado segundo algumas narrativas, um reino completamente maduro, segundo outras. A documentação é não elaborada e a história é vaga sobre isso e a maioria dos historiadores, de fato, não é ciente de sua existência mas não há dúvida de sua realidade. Ele foi oficialmente reconhecido por Carlos Magno e seus sucessores, e pelo califa de Bagdá e o mundo islâmico. Ele foi rancorosamente reconhecido pela Igreja, de quem confiscou algumas terras. E ele sobreviveu até o final do século IX. Em algum tempo entre 759 e 768 o governante deste Estado – que incluia Razes e Rennes-le-Chateau foi oficialmente pronunciado rei. A despeito da desaprovação de Roma, ele foi recohecido como tal pelos Carolíngios, dos quais ele se considerava vassalo. Nas existentes narrativas ele figura mais proeminente sob o nome de Teodorico, ou Thierry. E a maioria dos eruditos modernos o vêem como sendo de descendência Merovíngia. Não há evidência definitiva de onde tal descendência se derivou. Pode muito bem ter derivado de Sigisbert. Em qualquer caso, não há dúvida que o filho de Teodorico, Guillem de Gellone, manteve o título de Conde de Razes. O título que é dito ter sido possuido por Sigisbert e passado aos seus descendentes. Guillem de Gellone era um dos mais famosos homens de seu tempo, tanto que, sua realidade histórica – como a de Carlos Magno e Godfroi de Boiullon tem sido obscurecidas pela lenda.

Antes da época das Cruzadas, houve ao menos seis poemas épicos compostos sobre ele, canções similares a famosa Chanson de Roland. Na Divina Comédia Dante se refere a ele unicamente em um status exaltado. Mas até mesmo antes de Dante, Guillem tinha se tornado objeto de atenção literária. No século XIII ele figurou como protagonista de  Willehalm, um romance épico inacabado composto por Wolfram von Eschenbach cujo trabalho mais famoso, Parzival, é provavelmente o mais importante dos romances que lidam com os mistérios do Santo Gral. Nos pareceu de certa forma curioso, inicialmente, que Wolfram – todos os outros trabalhos lidam com o Gral, a ‘família do Gral’ e a ‘linhagem da família do Gral’ deva subitamente se devotar a um tema tão radicalmente diferente como Guillem de Gellone. Por outro lado, Wolfram declarou em um outro poema que o ‘Castelo do Gral’, lar da ‘família do Gral’ estava situado nos Pirineus, no que, no início do século IX, era o domínio de Guillem de Gellone. Guillem manteve um relacionamente estreito com Carlos Magno. Sua irmã, de fato, casou-se com um dos filhos de Carlos Magno assim estabelecendo uma ligação dinástica com o sangue imperial. E o próprio Guillem era um dos mais importantes comandantes de Carlos Magno na incessante guerra contra os mouros. Em 803, pouco depois da coroação de Carlos Magno como Sagrado Impreador Romano, Guillem capturou Barcelona dobrando seu próprio território e estendendo sua influência aos Pirineus. Carlos Magno ficou tão grato por seus serviços que seu principado foi confirmado pelo imperador como uma instituição permanente. A carta de direitos ratificando isto foi perdida ou destruída, mas há abundante testemunho de sua existência. Autoridades independentes e inimpugnáveis tem fornecido genealogias detalhadas da linhagem de Guillem de Gelone e sua família e descendentes.  Estas fontes, contudo, não fornecem indicação dos ascendentes de Guillem exceto por seu pai, Teodorico. Em resumo, as origens reais da família foram envoltas em mistério. E eruditos e historiadores contemporaneos estão geralmente de certa forma intrigados sobre o aparecimento enigmático, como se em combustão espontanea, de uma casa nobre tão influente. Mas uma coisa, a qualquer nível, é certa. Por 886 a linhagem de Guillem de Gelone culminou em um certo Bernard Plantavelu, que estabeleceu o ducado de Aquitaine.

Em outras palavras, a linhagem de Guillem culminou precisamente no mesmo indivíduo da linhagem descrita nos Documentos do Priorado para Sigisbert IV e seus descendentes. Estávamos tentados, com certeza, de pular para as conclusões, e usar as genealogias nos Documentos do Priorado para atravessar a brecha deixada pela história aceita. Estávamos tentados a assumir que os elusivos progenitores de Guillem de Gelone eram Dagoberto II, e Sigisbert IV e a linhagem principal da deposta dinastia Merovíngia, a linhagem citada nos Documentos do Priorado sob o nome de Plant-ard ou Plantard. Infelizmente não pudemos assim o fazer. Dado o estado confuso dos registros existentes, não pudemos definitivamente estabelecer a precisa conexão entre a linhagem Plantard e a linhagem de Guillem de Gelone. Eles podem de fato ter culminado no mesmo. Por outro lado, eles podem ter intercasado em algum ponto. O que permaneceu certo, contudo, foi que ambas linhagens, por 886, tinham culminado em Bernard Plantavelu e nos duques da Aquitaine. Embora eles nem sempre combinem precisamente na datação e tradução de nomes, podemos então tentativamente aceitar, na ausência de qualquer contradição histórica, que a linhagem sanguinea Merovingia de fato continuou, mais ou menos como é mantido nos Documentos do Priorado. Podemos tentativamente aceitar que Sigisbert IV sobreviveu ao assassinato de seu pai, adotou o nome de família Plantard e, como Conde de Razes, perpetuou a linhagem de seu pai.

O Príncipe Ursus

Por 886, de fato, o ‘tiro florescente da vinha Merovingia’ tinha florescido em uma grande e complicda árvore familiar. Bernard Plantavelu e os Duques de Aquitaine constituem um ramo. Há outros ramos também. Então os Documentos do Priorado declaram que o neto de Sigisbert IV, Sigisbert VI, era conhecido pelo nome de Príncipe Ursus. Entre 877 e 879 o Príncipe Ursus é dito ter sido oficialmente proclamado Rei Ursus. Ajudado por dois nobres Bernard dAuvergne e o Marquês de Gothic ele é dito ter realizado uma inssureição contra Luis II da França em uma tentativa de reconquistar sua herança por direito. Historiadores independentes confirmam que uma tal inssureição de fato ocorreu entre 877 e 879. Estes mesmos historiadores se referem a Bernard dAuvergne e ao Marquês de Gothic. O líder, ou instigador, da insurreição não é especificamente chamado como Sigisbert VI. Mas há referências a um indivíduo conhecido como Prícipe Ursus. Sobretudo, o Príncipe Ursus é conhecido por ter estado envolvido em uma cerimonia curiosa e elaborada em Nimes, na qual quinhentos eclesiásticos reunidos cantaram o Te Deum. De todas as narrativas sobre isso, este cerimonia pareceria ter sido uma coroação. Bem pode ter sido a coroação a qual aludiu os Documentos do Priorado quando se referem a proclamação do Príncipe Ursus como rei. Mais uma vez, os Documentos do Priorado receberam apoio independente. Mais uma vez, eles parecem se basear na informação não obtível em outros lugares que suplementou e algumas vezes até mesmo ajudou a explicar censuras na história aceita.  Neste caso, eles aparentemente nos tinham dito que o elusivo Príncipe Ursus realmente era – o descendente linear, por Sigisbert IV, do assassinado Dagoberto II. E a insurreição para a qual os historiadores parecem não fazer sentido, podia ter sido uma tentativa completamente compreensiva da deposta dinastia Merovíngia de reconquistar a herança conferida por Roma através do pacto com Clovis, e então subsequentemente traído. Segundo os Documentos do Priorado e fontes independentes, a insurreição fracassou. O Príncipe Ursus e seus apoiadores foram derrotados em uma batalha perto de Poitiers em 881. Com este retrocesso, é dito que a família Plantard perdeu suas possessões no sul da França embora ainda mantivesse o agora puramente titular status de Duque de Rhedae e Conde de Razes. O Príncipe Ursus é dito ter morrido na Bretanha onde sua linhagem se tornou aliada pelo casamento com a casa ducal de Breton. Pelo século IX, então, o sangue Merovíngio havia fluido nos ducados de Brittany e Aquitaine. Nos anos que se seguiram, a família incluindo Alain, mais tarde Duque da Brittany é dito ter buscado refúgio na Inglaterra, estabelecendo um ramo inglês chamado ‘Planta’.

Novamente autoridades independentes confirmam que Alain, sua família e entourage fugiram dos Vikings para a Inglaterra. Segundo os Documentos do Priorado, um dos ramos ingleses da família, listado como Bera VI, era apelidado ‘O Arquiteto’. Ele e seus descendentes, tendo encontrado um paraíso na Inglaterra sob o Rei Athelstan, são ditos terem praticado a arte da construção – uma referência aparentemente enigmática. Muito interessantemente, as fontes maçonicas datam a origem da Livre Maçonaria na Inglaterra no reino do Rei Athelstan. Pode a linhagem sanguínea Merovíngia, imaginamos, além de suas declarações pelo trono francês, estar de algum modo ligada com algo no núcleo da Livre Maçonaria?

A Família do Gral

A Idade Média abunda com uma mitologia tão rica e ressonante quanto aquelas das antigas Grécia e Roma. Algumas destas mitologias pertencem, embora de forma selvagemente exagerada, a reais personagens históricos para Arthur, Roland e Carlos Magno, para Rodrigo Diaz de Vivar, popularmente conhecido como El Cid. Outros mitos como aqueles relativos ao Gral, por exemplo, parecem de início repousar em uma fundação mais fabulosa. Entre os mitos medievais mais populares e evocativos está aquele de Lohengrin, o Cavaleiro Cisne’. Por uma lado ele é estreitamente ligado aos fabulosos romances do Gral; por outro, ele cita personagens históricas específicas. Esta mistura de fato e fantasia pode bem ser única. E por tais trabalhos como a ópera de Wagner ele continua a exercer seu apelo arquetípico até mesmo hoje. Segundo as narrativas medievais, Lohengrin algumas vezes chamou Halias, implicando associações solares foram um descendente da elusiva e misteriosa família do Gral. No poema de Wolfram von Eschenbach, ele é de fato o filho de Parzival, o supremo Cavaleiro do Gral. Um dia, no sagrado templo do castelo do Gral em Munsalvaesche, Lohengrin é dito ter ouvido o sino da capela tocando sem a intervenção de mãos humanas; um sinal que sua ajuda era urgentemente solicitada em algum lugar no mundo. Foi requerido, muito previsivelmente, por uma donzela em apuros, a Duquesa de Brabant, segundo algumas fontes, a Duquesa de Bouillon segundo outras. A dama precisava desesperadamente de um campeão, e Lohemgrin se apressou em seu resgate em um bote levado por cisnes heráldicos. Em um único combate ele derrotou o perseguidor da Duquesa e então se casou com a dama. Em suas núpcias, contudo, ele deu um aviso restringente. Nunca sua noiva era para interroga-lo sobre suas origens ou ancestralidade, seu fundo ou lugar de onde veio. E por alguns anos a dama obedeceu a ordem de seu marido. Afinal, contudo, estimulada pela curiosidade fatal e pelas grosseiras insinuações de rivais, ele presumiu fazer a pergunta proibida. Portanto, Lohengrin foi compelido a partir, desaparecendo em seu bote levado por cisnes ao por do sol. E para trás dele, com sua esposa, ele deixou uma criança de linhagem incerta. Segundo as várias narrativas, este criança foi o pai ou avô de Godfroi de Bouillon.

É difícil para a mente moderna apreciar a magnitude do status de Godfroi na consciência popular – não somente de seu próprio tempo mas até mesmo tão tarde quanto no século XVII. Hoje, quando se pensa nas Cruzadas, pensa-se em Ricardo Coração de Leão, Rei João, talvez Luis IX [São Luis] ou Frederico Barbarossa. Mas até relativamente recentemente, nenhum destes indivíduos desfrutava do prestígio e da aclamação de Godfroi. Godfroi, líder da Primeira Cruzada, foi o supremo herói popular, o herói por excelência. Foi Godfroi que inaugurou as Cruzadas.  Foi Godfroi que capturou Jerusalém dos Sarracenos. E foi Godfroi que resgatou o Sepulcro de Cristo das mãos infiéis. Foi Godfroi, acima de todos os outros, que, na imaginação das pessoas, reconciliou os ideais do empreendimento da alta cavalaria com a fervente piedade cristã. Não surpreendentemente, portanto, Godfroi se tornou objeto de um culto que persistiu muito depois de sua morte. Dado seu status exaltado, é compreensível que Godfroi deva ser creditado de todas as maneiras de ilustres pedigrees místicos. É até mesmo compreensível que Wolfram von Eschenbach, e outros romancistas medievais, devam liga-lo diretamente ao Gral e devam apresenta-lo como descendente linear da misteriosa família do Gral. E tais pedigreees fabulosos tem se tornado até mesmo mais compreensíveis pelo fato de que a verdadeira linhagem de Godfroi é obscura. A história permanece desconfortavelmente incerta de sua ancestralidade.

Os Documentos do Priorado nos forneceram a genealogia mais plausível, talvez de fato, a primeira plausível, de Godfroi de Bouillon que tenha vindo a luz. Até onde esta genealogia pode ser examinada e muito dela pode ser provado acurado. Não encontramos evidência que a contradiga,  grande parte a sustenta, e está convincentemente preenchida por um número de perplexantes falhas históricas. Segundo a genealogia nos Documentos do Priorado, Godfroi de Bouillon em virtude de sua avó, que se casou com Hugues de Plantard em 1009 era um descendente linear da família Plantard. Em outras palavras, Godfroi era de sangue Merovíngio, diretamente descendendo de Dagoberto II, Sigesbert IV e a linhagem dos ‘reis perdidos’ merovíngios. Por quatro séculos o sangue real merovíngio parece ter fluido por retorcidas e numerosas árvores familiares. Afinal, por um processo análogo ao de enxertar as vinhas em vinicultura pareceria ter dado fruto em Godfroi de Bouillon, Duque de Lorraine. Podemos agora perceber as Cruzadas sob uma nova perspectiva, e discernir nelas algo mais do que o gesto simbólico de reclamar o Sepulcro de Cristo dos Sarracenos. Esta revelação lança uma importante luz nova sobre as Cruzadas. A seus próprios olhos, bem como aos olhos de seus apoiadores, Godfroi teria sido mais do que Duque de Lorraine. E aqui, na casa de Lorraine, é estabelecido um novo patrimônio. Ele seria de fato, um rei por direito, um legítimo reclamante da dinastia deposta com Dagoberto II em 679. Mas se Godfroi era um rei por direito, ele era também um rei sem reino, e a dinastia Capetiana na França, apoiada pela Igreja Romana, estava por então entrincheirada demais para ser destronada. O que alguém pode fazer se é um rei sem reino? Talvez encontrar um reino. Ou criar um reino. O mais precioso reino no mundo inteiro, a Palestina, a Terra Sagrada, o solo caminhado pelo próprio Jesus. Não deveria o regente de um tal reino ser comparável a qualquer um na Europa? E ele não estaria, ao presidir sobre o mais sagrado dos sítios terrenos, obtendo uma doce vingança sobre a Igreja que traiu seus ancestrais quatro século antes?

O Mistério Elusivo

Gradualmente certas peças do quebra-cabeças estão começando a entrar em seu lugar. Se Godfroi era de sangue Merovíngio, um número de fragmentos aparentemente desconectados param de serem desconexos e assumem uma continuidade coerente. Podemos então explicar a ênfase aceita em tais elementos aparentemente disparatados como a dinastia Merovíngia e as Cruzadas, Dagoberto II e Godfroi, Rennes-le-Chateau, os Cavaleiros Templários, a casa de Lorraine, o Priorado de Sião. Podemos até mesmo traçar as linhagens sanguineas merovíngias até o dia presente a Alain Poher, a Henri de Montpezat [consorte da Rainha da Dinamarca], a Pierre Plantard de Saint-Clair, a Otto von Habsburg, duque titular de Lorraine e Rei de Jerusalém. Ainda que uma questão realmente crucial continue a se evadir de nós. Ainda não podemos ver porque a linhagem sanguínea Merovíngia deva ser tão inexplicavelmente importante hoje. Não podemos ver porque sua declaração deve ser de qualquer modo relevante aos assuntos contemporaneos, ou porque ela deva comandar a fidelidade de tantos homens importantes através dos séculos. Ainda não podemos ver porque uma moderna monarquia Merovíngia, contudo tão tecnicamente legítima quanto ela possa ser, garantiria um tal endosso urgente. Muito claramente estamos negligenciando algo.

A Tribo Exilada

Pode haver algo especial sobre a linhagem sanguínea Merovíngia, algo mais do que a legitimidade academica e técnica? Pode realmente haver algo, de algum modo, que genuinamente possa dizer respeito aos povos de hoje? Pode haver algo que possa afetar, talvez até mesmo alterar, as existentes instituições sociais, políticas e religiosas? Estas perguntas continuam a nos intrigar. Como ainda que, contudo, não pareça haver respostas para elas. Mais uma vez mergulhamos pela compilação dos Documentos do Priorado, e especialmente os todo importantes Dossiês Secretos. Relemos passagens que antes nada haviam significado para nós. Agora elas faziam sentido, mas não serviam para explicar o mistério, nem para responder o que havia se tornado perguntas críticas. Por outro lado, havia outras passagens cuja relevância ainda não estava clara para nós. Estas passagens por nenhum modo resolviam o enigma; mas, se nada mais, eles estabeleceram o nosso pensamento ao longo de certas linhas que eventualmente se provaram ser de suprema importância. Como já haviamos descoberto, os próprios Merovíngios, segundo seus próprios cronistas, afirmavam descenderem da antiga Tróia. Mas segundo certos Documentos do Priorado o pedigree Merovíngio era mais velho do que o cerco de Tróia. Segundo certos Documentos do Priorado, o pedigree Merovíngio podia de fato ser traçado de volta ao Velho Testamento. Entre as genealogias nos Dossiês Secretos, por exemplo, há numerosas notas de rodapé e anotações. Muitas delas se referem especificamente a uma das doze tribos do antio Israel, a Tribo de Benjamim. Uma de tais referências cita, e enfatisa, três passagens bíblicas – Deuteronomio 33, Josué 18 e Juízes 20 e 21. Deuteronomio 33 contém a benção pronunciada por Moisés sobre os patriarca de cada uma as doze tribos. De Benjamim, Moisés diz: ‘O amado do Senhor deve habitar em segurança por Ele; e o Senhor deve cobri-lo por todo dia, e Ele habitará entre seus ombros’ (33:12) Em outras palavras Benjamim e seus descendentes eram selecionados por uma benção muito especial e exaltada. Isto, de fato, era claro. Estavamos, com certeza, intrigados pela promessa do Senhor habitar entre os ombros de Benjamim. Isso deve ser associado com a legendária marca de nascimento Merovíngia, a cruz vermelha entre as omoplatas? A ligação nos parece de certa forma levada longe demais. Por outro lado, havia outras similaridades mais claras entre Benjamim no Velho Testamento e o assunto de nossa investigação. Segundo Robert Graves, por exemplo, o dia sagrado de Benjamim era 23 de dezembro – o dia da festa de Dagoberto. Entre os três clãs que compreendiam a Tribo de Benjamim, havia o clã de Ahiram que pode de algum modo obscuro pertencer a Hiram, construtor do Templo de Salomão e figura central na tradição maçonica. O mais devotado discípulo de Hiram, sobretudo, era chamado Benoni; e Benoni, muito interessantemente, era o nome originalmente conferido ao infante Benjamim por sua mãe, Raquel, antes que ela morresse. A segunda referência bíblica nos Dossiês Secretos, em Josué 18, é ainda mais clara. Ela lida com a chegada do povo de Moisés a Terra Prometida e a indicação de cada uma das doze tribos para partes particulares do território. Segundo esta indicação, o território da Tribo de Benjamim incluia o que subsequentemente veio a ser a sagrada cidade de Jerusalém. Jerusalém, em outras palavras, até mesmo antes de se tornar a capital de David e de Salomão, foi atribuida por direito de nascimento à Tribo de Benjamim. Segundo Josué 18:28 o direito de nascimento dos Benjamitas abarcava Zelah, Eleph e Jebusi, que é Jerusalém, Gibeath e Kirjath; quatorze cidades com suas vilas. Esta é a herança dos filhos de Benjamim segundo suas famílias. A terceira referência bíblica citada nos Dossiês Secretos envolve uma sequência muito complexa de eventos. Um Levita, viajando pelo território Benjamita, é assaltado, e sua concubina violentada, por adoradores de Belial, uma variante da Mãe Deusa Suméria, conhecida como Ishtar pelos babilonios e Astarte pelos Fenícios.

Chamando representantes das doze tribos para testemunhar, o Levita exige vingança pela atrocidade; e em um conselho, os Benjamitas são aconselhados a entregarem os malfeitores a justiça. Pode-se esperar que os Benjamitas cumprissem isso prontamente. Por alguma razão, contudo, eles não o fazem, e resolvem, pela força das armas, proteger os ‘filhos de Belial’. O resultado é uma guerra sangrenta e amarga entre os Benjamitas e as outras onze tribos remanescentes. No curso das hostilidades uma praga é pronunciada pelos últimos sobre qualquer homem que der sua filha a um Benjamita. Quando a guerra acabou, contudo, os Benjamitas estão virtualmente exterminados e os israelitas vitoriosos se arrependem de sua maldição que, contudo, não pode ser retirada; Agora os homens de Israel tinham jurado em Mizpeh, dizendo, Nenhum de nós dará sua filha por esposa a um Benjamita. E o povo veio a casa de Deus, e morou lá até mesmo diante de Deus, e elevou sua voz, e lamentou tristemente; e disse, Oh Senhor Deus de Israel, porque tem vido a acontecer a Israel que hoje deva haver uma tribo faltando em Israel: [Juízes 21:1-3]. Uns poucos versos depois, o lamento é repetido: e os filhos de Israel se arrependem por Benjamim seu irmão, e dizem, há uma tribo cortada de Israel neste dia. O que devemos fazer com as esposas deles que permanecem, vendo que temos jurado ao Senhor que não daremos a eles nossas filhas por esposas? [Juizes 21:6-7] . E ainda novamente: E o povo se arrependeu por Benjamim, porque o Senhor tinha feito uma brecha nas tribos de Israel. Então os anciãos da congregação disseram, Como devemos fazer para as esposas deles que restaram, vendo que as mulheres são destruídas fora de Benjamim? E eles disseram, deve haver uma herança para elas que escapem de Benjamim, que a tribo não seja destruida de Israel. Porque não podemos dar a eles nosas filhas por esposas porque os filhos de Israel tem jurado, dizendo, Amaldiçoado seja aquele que der uma esposa a Benjamim [Juízes 21:15-18]. Confrontados pela extinção da tribo inteira os anciãos rapidamente divisaram uma solução. Em Shiloh, em Bethel, brevemente há um festival; e as mulheres de Shiloh, cujos homens tem permanecido neutros na guerra estão para serem considerados um jogo justo. Os Benjamitas sobreviventes são instruídos a irem para Shiloh e esperar em emboscada nos vinhedos. Quando as mulheres da cidade se congregaram para dançar no festival, os Benjamitas as tomaram e levaram como esposas.

Não está claro porque os Dossiês Secretos insistem em chamar atenção para esta passagem. Mas seja qual for a razão, os Benjamitas, até onde diga respeito a história bíblica, são claramente importantes. A despeito da devastação da guerra,  rapidamente se recuperaram em prestígio, se não em números.  De fato eles se recuperaram tão bem que em Samuel eles fornecem a Israel seu primeiro Rei, Saul. Seja qual a recuperação que os Benjamitas possam ter feito, contudo, os Dossiês secretos implicam que a guerra sobre os seguidores de Belial era um ponto de virada crucial. Pareceria que no despertar deste conflito muitos, se não a maioria, dos Benjamitas foram para o exílio. Então há uma nota portentosa nos Dossiês Secretos, em letras capitais: UM DIA OS DESCENDENTES DE BENJAMIM DEIXARAM SEU PAíS; ALGUNS PERMANECERAM; 2.000 ANOS DEPOIS GODFROI VI [DE BOUILLON] SE TORNOU REI DE JERUSALÉM E FUNDOU A ORDEM DE SIÃO. De início, pareceu não haver relação entre estes aparentes non sequiturs. Quando reunimos as diversas e fragmentárias referências nos Dossiês Secretos, contudo, uma história coerente começou a emergir. Segundo esta narrativa a maioria dos Benjamitas não foram para o exílio. Seu exílio supostamente os levou a Grécia, para o Peloponeso Central e para a Arcadia, em resumo, onde supostamente eles se tornaram alinhados com a linhagem real arcadiana. Na direção do advento da era cristã, é dito então que eles tenham migrado Danúbio e Reno acima, se entrecasando com certas tribos teutônicas e eventualmente engendrando os Francos Sicambrianos, os antecessores imediatos dos Merovíngios. Segundo os documentos do Priorado, então, os Merovíngios eram descendentes, por meio da Arcadia, da Tribo de Benjamim. Em outras palavras, os Merovíngios, bem como seus subsequentes descendentes das linhagens sanguineas de Plantard e Lorraine, por exemlo, eram ultimamente de origem semítica ou israelita.

E se Jerusalém era de fato o direito hereditário por nascimento dos Benjamitas, Godfroi de Bouillon, ao marchar sobre a cidade Santa, teria de fato estado reclamando sua herança por direito e antiga. Novamente é significativo que Godfroi, sozinho entre os augusto príncipes ocidentais que embarcaram na Primeira Cruzada, dispusesse toda sua propriedade antes de sua partida – implicando portanto que ele não pretendia voltar a Europa. É desnecessário dizer, não tivemos meios de avaliar se os Merovíngios eram ou não de origem Benjamita. A informação nos Documentos do Priorado, tal como isso era, relatado era remota demais; obscura demais de um passado para o qual não há confirmação, nenhum registro de qualquer tipo que possa ser obtido. Mas as avaliações não são nem particularmente únicas e nem novas. Ao contrário, eles tem estado por aí, na forma de vagos rumores e nebulosas tradições, por um longo tempo. Para citar apenas uma vez, Proust retira delas em seu opus; e mais recentemente, o novelista Jean  d’Ormesson sugere a origem judaica de certas famílias nobres francesas. E em 1965 Roger Peyrefitte, que vê como escandalizar seus compatriotas, o fez assim com ressonante elã em uma novela afirmando que todos os franceses e a maioria da nobreza européia é ultimamente judaica. De fato o argumento, embora improvável, não é de todo implausível, nem são os exílios e migrações restritas a Tribo de Benjamim nos Documentos do Priorado. A Tribo de Benjamim tomou armas em benefício dos seguidores de Belial, uma forma de Deusa Mãe frequentemente associada a imagens de um touro ou bezerro. Há razões para acreditar que os próprios Benjamitas reverenciavam esta deidade. De fato, é possível que a veneração do Bezerro de Ouro no Exodus o assunto, bastante significativo, de uma das mais famosas pinturas de Poussin pode ter sido especificamenet um ritual Benjamita. Seguindo sua guerra contra as outras onze tribos de Israel, os Benjamitas fugindo para o exílio, por necessidade, teriam tido que fugir na direção oeste, em direção da costa fenícia. Os fenícios possuiam barcos capazes de transportar grandes números de refugiados. E eles teriam sido aliados óbvios para os Benjamitas fugitivos porque, eles também, veneravam a Deusa Mãe na forma de Astarte, a Rainha do Céu.

Se realmente houve um exodus dos Benjamitas da Palestina pode-se esperar encontrar algum resistro vestigial disso. No mito grego se encontra. Há a história do filho do Rei Belus, Danaus, que chega na Grécia com suas filhas, por barco. Suas filhas são ditas terem introduzido o culto da Deusa Mãe que se tornou o culto estabelecido dos Arcadianos. Segundo Robert Graves, o mito de Danaus registra a chegada no Peloponeso de colonos da Palestina. Graves afirma que de fato o Rei Belus é Baal, ou Bel, ou talvez Belial do Velho Testamento. Também é válido notar que um dos clãs da Tribo de Benjamim era o clã de Bela. Na Arcadia o culto da Deusa Mãe não apenas prosperou mas sobreviveu muito mais que em outras partes da Grécia. Ele se tornou associado com a deusa Demeter, então Diana ou Artemis. Conhecida regionalmente como Arduina, Artemis se tornou a deidade tutelar das Ardenas; e foi das Ardenas que os francos sicambrianos primeiro sairam para o que agora é a França. O totem de Artemis era a ursa Kallisto, cujo filho era Arkas, o urso infante e patrono da Arcadia. E Kallisto, transportada aos céus por Artemis, se tornou a constelação da Ursa Maior, a Grande Ursa. Pode ser então ser algo mais do que coincidência no apelo ‘Ursus’ aplicado repetidamente a linhagem sanguinea Merovíngia. Em qualquer caso há outra evidência, fora da mitologia, sugerindo uma migração judaica para a Arcadia. Nos tempos clássicos a região conhecida como Arcadia era governada pelo poderoso estado militarista de Esparta. Os espartanos absorveram muito da mais velha cultura acadiana, e de fato, o legendário arcadiano Lycaeus pode ser identificado com Lycurgus, que codificou a lei espartana. Ao alcançar a idade adulta, os espartanos, como os Merovingios, atribuiam um especial significado mágico ao seu cabelo que, como os Merovíngios, eram usados longos. Segundo uma autoridade ‘o cumprimento do cabelo denotava o vigor físico deles e se tornou um símbolo sagrado’. O que há mais, ambos os livros dos Macabeus nos Apócrifos ressaltam a ligação entre os espartanos e os judeus. Macebeus fala de certos judeus terem embarcado para ir aos Lacedonianos, na esperança de encontrar proteção lá por causa de sua realeza. E Macabeus afirma explicitamente: ‘tem sido encontrado na escrita concernente aos espartanos e aos judeus que eles eram irmãos e são da família de Abraão’. Podemos então reconhecer ao menos a possibilidade de uma migração judaica para a Arcadia assim como os Documentos do Priorado, se eles não podem ser provados corretos, também não podem ser descartados. Quanto a influência semítica na cultura franca, há sólida evidência arqueológica. As rotas de comércio semíticas e fenícias atravessavam todo o sul da França, de Bordeaux a Marselha e Narbonne. Eles também se estendiam Reno acima. Já em 700-600 BC havia assentamentos fenícios não apenas ao longo da costa francesa mas terra a dentro também, em tais sítios como Carcassone e Toulouse. Entre os artefatos encontrados nestes sítios estão muitos de origem semíta. Isto dificilmente seja surpreendente. No século IX BC os reis fenícios de Tiro tinham se entrecasado com os reis de Israel e Judá assim estabelecendo uma aliança dinástica  que teria engendrado um contacto íntimo entre seus povos respectivos.

O saque de Jerusalém no ano 70 de nossa era e a destruição do Templo, desencadearam um exodus maciço dos judeus da Terra Santa. Então a cidade de Pompéia, enterrada pela erupção do Vesúvio em 79, incluia uma comunidade judaica. Certas cidades no sul da França – Arles, por exemplo – Lunel e Narbonne forneceram um paraíso para os refugiados judeus ao redor do mesmo tempo. E ainda que o influxo de povos judaicos na Europa e especialmente na França, fossem anteriores a queda de Jerusalém no primeiro século. De fato isso tinha estado em progresso de antes da era cristã. Entre 106 e 48 BC uma colonia judaica foi estabelecida em Roma. Não muito depois uma outra de tais colonias foi estabelecida no Reno, em Colonia. Certas legiões romanas incluiam contingentes de escravos judeus, que acompanhvam seus senhores por toda Europa. Muitos destes escravos eventualmente venceram, comprando ou de outro modo obtendo sua liberdade e formaram comunidades. Em consequência há muitos nomes de lugares especificamente semíticos espalhados pela França. Alguns deles estão situados quadradamente na velha terra natal merovíngia. A uns poucos quilometros de Stenay, por exemplo, nas bordas da Floresta de Woevres onde Dagoberto foi assassinado, há uma vila chamada Baalon. Entre Stenay e Orval  há uma cidade chamada Avioth. E a Montanha de Sião em Lorraine – ‘a colina inspirada’ era originalmente ‘Monte Semita’. Novamente então, não podemos provar as afirmações do Priorado de Sião mas também não podemos descarta-las. Certamente há evidência suficiente que as torna ao menos plausíveis. Fomos compelidos a reconhecer que os Documentos do Priorado podem estar corretos que os Merovíngios, e várias famílias nobres que são descendentes deles, podem ter derivado de fontes semíticas. Mas isto pode, imaginamos, ser tudo o que havia da história? Pode este ser o portentoso segredo que tem engendrado tanta confusão e intriga, tanta maquinação e mistério, tanta controvérsia e conflito por séculos? Meramente uma outra história de uma tribo perdida? E até mesmo se não fosse lenda mas verdade, isso realmente poderia explicar a motivação do Priorado de Sião e a afirmação da dinastia Merovíngia? Isto poderia explicar a adesão de homens como Leonardo da Vinci e Issac Newton ou as atividades das casas de Guise e Lorraine, os comportamento encobertos da Companhia do Santo Sacramento, os segredos fugidios da Maçonaria Livre de Rito Escocês? Obviamente não. Porque deveria a descendência da Tribo de Benjamim constituir um segredo tão explosivo? E, talvez mais crucialmente, porque a descendência da Tribo de Benjamim teria importância hoje? Como isso pode possivelmente esclarecer as atividades e objetivos do Priorado de Sião nos presentes dias? Se nossa pesquisa envolveu vestidos interesses que eram especificamente semíticos ou judaicos, sobretudo, porque isto envolveu tantos componentes de um caráter especifica e fervorosamente cristão? O pacto entre Clovis e a Igreja Romana, por exemplo: a manifesta cristandade de Godfroi de Bouillon e a conquista de Jerusalém; o pensamento herético, talvez, mas não menos cristão dos cátaros e dos Cavaleiros Templários; as pias instituições como a Companhia do Santo Sacramento; a Livre Maçonaria que era hermética, aristocrática e cristã e a implicação de tantos eclesiásticos cristãos dos príncipes do alto escalão da Igreja até os curas das vilas locais como Boudet e Sauneire? Pode ser que os Merovíngios realmente fossem de origem judaica, mas se assim o era nos pareceu essencialmente incidental. Seja qual for o segredo real que subjaz na nossa investigação ele parecer estar inextrincavelmente associado não ao judaismo do Velho Testamento, mas com o cristianismo. Em resumo, a Tribo de Benjamim por um momento, ao menos – parece ser uma isca falsa. Contudo tão importante quanto possa ser, havia algo até mesmo maior em importância envolvido. Ainda estamos negligenciando algo.

Três – A Linhagem Sanguínea

O Santo Gral

O que poderiamos estar negligenciando? Ou, alternativamente, o que nós tinhamos buscado no lugar errado? Talvez houvesse algum fragmento que tinha estado bem diante de nossos olhos por todo tempo que, por uma razão ou outra, deixamos de perceber? Até onde pudemos determinar, não haviamos negligenciado um só item, nenhum dado da aceita erudição. Mas pode haver algo mais – algo que já – ‘além do pálido’ – da história documentada, os fatos concretos a que temos nos determinado a nos confinar? Certamente havia um motivo, admitidamente fabuloso, que havia se tecido por nossa investigação, recorrendo repetidamente, com uma consistência insistente e intrigante. Este era o misterioso objeto conhecido como o Santo Gral. Para seus contemporaneos, por exemplo, os cátaros eram acreditados terem a posse do Gral. Os Templários, também, eram frequentemente vistos como os guardiões do Gral e os romances do Gral tinham originalmente saído da corte do Conde de Champagne, que estava intimamente associado com a fundação dos Cavaleiros Templários. Quando os Templários foram suprimidos, sobretudo, as bizarras cabeças que eles supostamente veneravam desfrutaram, segundo os relatos oficiais da Inquisição, muitos dos atributos tradicionalmente atribuidos ao Gral – fornecendo sustento, por exemplo, e imbuindo a terra de fertilidade. No curso de nossa investigação tinhamos atravessado pelo Gral em inúmeros outros contextos também. Alguns tem sido relativamente recentes, tais como os círculos ocultos de Josephin Peladan e Claude Debussy no fim do século XIX. Outros eram consideravelmente mais velhos. Godfroi de Bouillon, por exemplo, era descendente segundo a história medieval e o folclore de Lohengrin, o Cavaleiro do Cisne; e Lohengrin, nos romances, era o filho de Perceval ou Parzival, protagonista de todas as histórias do Gral. Guillem de Gellone, sobretudo, governante da principalidade medieval no sul da França durante o reinado de Carlos Magno, era o herói de um poema de Wolfram von Eschenbach, o mais importante dos cronistas do Gral. De fato, o poema de Guillem in Wolfram foi dito ter sido associado de algum modo com a misteriosa família do Gral. Eram estas intrusões do Gral em nossa investigação, e outras como elas, meramente aleatórias e coincidentais? Ou havia uma continuidade subjacente e conectando com, de algum modo inimaginável, a seja o que for que possa ser o Gral? A este ponto, estavamos confrontados por uma pergunta incrível. O Gral poderia ser algo mais do que pura fantasia? De algum modo ele poderia ter existido? Poderia de fato haver uma coisa tal como o Santo Gral? Ou algo concreto, a qualquer nível, para o qual o Gral tenha sido empregado como um símbolo? A questão certamente era excitante e provocante – para dizer o mínimo. Ao mesmo tempo isto ameaçava nos tomar para muito longe demais, para esferas de espúrias especulações.  Isto de fato serviu para dirigir nossa atenção aos próprios romances do Gral. E neles os romances do Gral ofereceram um número de enigmas perplexantes e distintamente relevantes. É geralmente asumido que o Gral se relaciona de algum modo a Jesus. Segundo algumas tradições, era a taça na qual Jesus e seus discípulos beberam na Última Ceia. Segundo outras tradições, era a taça onde José de Arimatéia pegou o sangue de Jesus enquanto ele estava na cruz. Mas se o Gral é tão intimamente associado a Jesus ou se ele de fato existiu, porque não havia referência a ele seja onde for por mais de mil anos? Onde ele esteve durante todo este tempo? Porque ele não figurou na literatura anterior, no folclore ou na tradição? Porque deveria algo de tão imensa relevância e urgência para a cristandade permanecer enterrado por tanto tempo quanto ele aparentemente o fez? Ainda mais provocadoramente, porque deveria o Gral finalmente emergir precisamente quando ele estava no próprio auge das Cruzadas? Foi coincidência que este objeto enigmático, ostensivamente não existente por séculos, devesse assumir o status que ele assumiu quando o reino franco de Jerusalém estava em toda sua glória, quando os Templários estavam no auge de seu poder, quando a heresia cátara estava ganhando momentum que ameaçava deslocar o credo de Roma? Esta convergência de circunstâncias foi verdadeiramente coincidental? Ou havia alguma ligação entre elas? Inundados e de certo modo assaltados por perguntas deste tipo, voltamos nossa atenção aos romances do Gral. Somente ao examinar estreitamente estas ‘fantasias’ poderiamos esperar determinar se a sua recorrência em nossa pesquisa era de fato coincidental, ou a manifestação de um padrão que pode, de algum modo, se provar importante.

A História do Santo Gral

A maioria da erudição do século XX concorre na crença que os romances do Gral repousam maximamente em uma fundação pagã de um ritual ligado ao ciclo das estações, a morte e renascimento do ano. Em suas origens mais primordiais ela pareceria envolver um culto a vegetação, estreitamente relacionado na forma a, se não diretamente derivado daqueles de Tammuz, Attis, Adonis e Osiris no Oriente Médio. Assim, em ambas mitologias irlandesa e gaulesa, há repetidas referências a morte, renascimento e renovação bem como a um similar processo regenerativo na terra de esterilidade e fertilidade. O tema é central ao anônimo poema inglês do século XIV, Sir Gawain e o Cavaleiro Verde. E em  Mabinogion, uma compilação das histórias gaulesas grosseiramente contemporaneas aos romances do Gral embora obviamente derivadas de material anterior, há um misterioso ‘caldeirão de renascimento’ no qual os guerreiros mortos, atirados ao cair da noite, são ressuscitados na manhã seguinte. Este caldeirão é frequentemente associado a um herói gigante chamado Bran. Bran também possuia um prato e ‘seja qual for a comida que se desejasse, ela era instantaneamenet obtida’ – uma propriedade também algumas vezes atribuida ao Gral. No fim de sua vida, sobretudo, Bran foi supostamente decapitado e sua cabeça colocada, como um tipo de talismã, em Londres.

Aqui é dito realizar um número de funções mágicas não apenas assegurando a fertilidade  da terra mas também, por algum poder oculto, repelindo os invasores. Muitos destes motivos foram subsequentemente incorporados nos romances do Gral. Não há dúvida que Bran, com seu caldeirão e prato, contribuiu com algo para as concepções posteriores do Gral. E a cabeça de Bran partilha os atributos não apenas com o Gral, mas também com as cabeças alegadamente veneradas pelos Cavaleiros Templários. A fundação pagã dos romances do Gral tem sido exaustivamente exploradas pelos eruditos, de Sir James Frazer em The Golden Bough até o presente. Mas durante meados do século XII a fundação originalmente pagã dos romances do Gral passou por uma transformação curiosa e extremamente importante. De algum modo obscuro que tem fugido à investigação dos pesquisadores, o Gral tornou-se muito unicamente e especificamente associado ao cristianismo e com uma forma mais do que não ortodoxa de cristianismo. Com base em alguma fugidia amalgamação, o Gral se tornou inseparavelmente ligado a Jesus. E parece haver algo mais envolvido do que uma fácil associação de tradições pagãs e cristãs. Como um relíquia misticamente ligada a Jesus, o Gral engendrou uma volumosa quantidade de romances, ou poemas longos de narrativas, que, até mesmo hoje, aguçam a imaginação. A despeito da desaprovação clerical, estes romances floresceram por quase um século, se tornando um culto completamete maduro seu próprio em seu período de vida, muito interessantemente, estreitamente paralelizado com a Ordem do Templo depois de sua separação do Priorado de Sião em 1188. Com a queda da Terra Santa em 1291, e a dissolução dos Templários entre 1307 e 1314, os romances do Gral também desapareceram do estágio da história, por aproximadamente uns outros dois séculos, a qualquer nível. Então, em 1470, o tema novamente foi tomado por Sir Thomas Malory em seu famoso Le Morte d’Arthur; e tem permanecido mais ou menos proeminente na cultura ocidental desde então. Nem o seu contexto tem sido sempre inteiramente literário. Parece haver abundante evidência documental que certos membros da hierarquia Nacional Socialista na Alemanha realmente acreditavam na existência física do Gral e foram realmente realizadas escavações com este objetivo durante a guerra no Sul da França.

Ao tepo de Malory o misterioso objeto conhecido como Gral tem assumido mais ou menos a identidade distinta atribuida a ele hoje. Foi alegado ser a taça da última Ceia, na qual José de Arimatéia mais tarde colheu o sangue de Jesus na cruz. Segundo certas narrativas, o Gral foi levado por José de Arimatéia a Inglaterra e, mais especificamente, a Glastonbury. Segundo outras narrativas ele foi levado por Maria Madalena pars o sul da França. Já no século IV as histórias atribuem a Maria Madalena fugir da Terra Santa e chegando ao litoral de Marselha onde, por algum motivo, suas supostas reliquias ainda são veneradas. Segundo as histórias medievais, ele levou com ela para Marselha o Santo Gral. Pelo século XV esta tradição asume uma imensa importância para tais indivíduos como o Rei Rene d’Anjou, que colecionou ‘taças do Gral’. Mas as história iniciais contam que Madalena trouxe o Gral para a França, não uma taça. Em outras palavras, a associação do Gral com a taça são desenvolvimentos posteriores. Malory perpetuou esta fácil associação e isso tem sido um truismo desde então. Mas Malory, de fato, tomou consideráveis liberdades com suas fontes originais. Nestas fontes orginais, o Gral é algo mais do que uma taça. E os aspectos místicos do Gral são muito mais importantes do que a cavalaria que Malory exalta. Na opinião da maioria dos eruditos o primeiro romance genuino do Gral data do final do século XII, por volta de 1188, que é o ano crucial que testemunhou a queda de Jerusalém e a alegada rutura entre a Ordem do Templo e o Priorado de Sião. O romance em questão é intitulado O Romance de Percival ou O Conde do Gral. Foi composto por um tal de Chretien de Troyes, que parece ter sido ligado, em alguma capacidade não determinada, a corte do Conde de Champagne. Pouco é conhecido da biografia de Chretien. Sua associação ao Conde de Champagne é aparente de inúmeros trabalhos compostos antes de seus romances do Gral dedicados a Marie, a Condesa de Champagne. Embora este corpo de romances cortesãos incluisse um que lidava com Lancelot, que não faz menção a nada que se asemelhe ao Gral. Chretien pelos anos de 1180 tinha estabelido uma imponente reputação para ele próprio. E dado seu trabalho anterior, pode-se ter esperado que ele continuasse em um veio similar.

No fim de sua vida, contudo, Chretien voltou sua atenção para um novo tema até aqui não articulado; e o Santo Gral, como ele tem chegado a nós hoje, fez sua entrada oficial na cultura ocidental e consciência. O romance do Gral de Chretien não foi dedicado a Marie de Champagne, mas a Felipe da Alsácia, o Conde de Flandres. No início de seu poema Chretien declara que seu trabalho foi composto especificamente por solicitação de Felipe, que tinha em primeiro lugar ouvido a história. O próprio trabalho fornece um padrão geral, e constitui um protótipo, para as subsequentes narrativas do Gral. Seu protagonista é chamado Percival que é descrito como o Filho da Dama Viúva. Esta apelação é, ela própria, importante e intrigante. Isto a muito tem sido empregado por certas heresias dualistas e gnósticas – algumas vezes por seus próprios profetas, algumas vezes pelo próprio Jesus. Subsequentemente isto se tornou uma querida designação na Livre Maçonaria. Deixando sua mãe viúva, Percival navega para ganhar seu cavalheirismo [nobreza]. Durante suas viagens, ele encontra um enigmático pescador, o famoso Rei Pescador, em cujo castelo ele recebe refúgio para a noite. No entardecer o Gral aparece. Nem neste ponto do poema e nem em qualquer outro ponto ele é ligado a Jesus. De fato, o leitor sabe muito pouco sobre ele. Nem mesmo é dito o que seja ele. Mas seja o que for, ele é carregado por uma donzela, e de ouro e cravado de pedras preciosas. Percival não sabe que ele é esperado fazer uma pergunta deste maravilhoso objeto- isto é, – ‘para que serve isto?’ A questão é obviamente ambígua. Se o Gral é um vaso ou prato de algum tipo, a questão poderia significar ‘quem é pretendido comer dele’. Alternativamente a pergunta pode ser refraseada: ‘A quem se serve [no sentido cavalheiresco] pela virtude de servir o Gral?’ Seja qual for o significado da pergunta, Percival deixa de a fazer; e na manhã seguinte quando ele acorda o castelo está vazio. Sua omissão, ele aprende subsequentemente, causa uma desastrosa deterioração sobre a terra. Mais tarde ele ainda aprende que ele próprio é da ‘família do Gral’ e que o misterioso Rei Pescador que era sustentado pelo Gral, era de fato seu próprio tio. A este ponto Percival faz uma curiosa confissão. Desde sua infeliz experiência com o Gral, ele declara, ele tem deixado de amar ou acreditar em Deus.

O poema de Chretien ainda se torna mais perplexante pelo fato de que ele é inacabado. O prório Chretien morreu por volta de 1188, muito possivelmente antes que pudesse completar o trabalho; e até mesmo se ele o fez, nenhuma cópia sobreviveu. Se uma tal cópia existisse, ele bem pode ter sido destruida pelo fogo em Troyes em 1188. O ponto não precisa ser trabalhado, mas certos eruditos tem descoberto que este fogo, coicidindo com a morte do poeta, é vagamente suspeito. Em qualquer caso a versão de Chretien é menos importante por si só do que o papel de seu precursor. Durante a seguinte metade do século o motivo que ele tinha introduzido na corte de Troyes foi disseminado pela Europa ocidental como um incêndio em uma floresta. Ao mesmo tempo, contudo, os especialistas modernos sobre o assunto concordam que as histórias posteriores do Gral não parecem ter derivado inteiramente de Chretien, mas parecem terem sido retiradas de ao menos uma outra fonte – bem como de uma fonte, que, com toda probabilidade, antecedeu Chretien. E esta também tornou-se ligada a Jesus. Dos numerosos romances do Gral que seguiram a versão de Chretien, há três que se provaram de especial interesse e relevância para nós. Uma destas, a ‘Roman de I’Estoire dou Saint Graal’, foi composta por Robert de Boron, em algum tempo entre 1190 e 1199. Justificavelmente ou não, Robert é frequentemente creditado em tornar o Gral um símbolo especificamente cristão. O próprio Robert afirma que ele está retirando de uma fonte anterior e uma bem diferente de Chretien. Ao falar do poema dele, e particularmente do caráter cristão do Gral, ele alude a um ‘grande livro’, os segredos do qual tem sido revelados a ele. È portanto incerto se o próprio Robert cristianizou o Gral, ou se alguém mais o fez antes dele. A maioria das autoridades hoje se inclinam na direção da segunda destas possibilidades. Contudo, não há dúvida que a narrativa de Robert de Boron é a primeira a fornecer a história do Gral. O Gral, ele explica foi a taça da última Ceia. Ele então passou para as mãos de José de Arimatéia que, quando Jesus foi removido da cruz, a encheu com o sangue do Salvador e é o seu sangue sagrado que confere a qualidade mágica do Gral. Depois da Ceucificação, Robert continua, a família de José tornou-se a guardiã do Gral. E para Robert os romances do Gral envolvem as aventuras e vicissitudes desta específica família. Então é dito que Galahad é o filho de Arimatéia. E o próprio Gral passa para o cunhado de José, Brons, que o leva para a Inglaterra e se torna o Rei Pescador. Como no poema de Chretien, Percival é o Filho da Dama Viúva, mas ele também é o neto do Rei Pescador. A versão de Robert da história do Gral então desvia um número de importantes aspectos daquela de Chretien. Em ambas as versões Percival é o Filho da Dama Viúva mas na versão de Robert ele é neto, não sobrinho, do Rei Pescador e então assim até mesmo mais diretamente relacionado a família do Gral. E conquanto a narrativa de Chretien seja vaga em sua cronologia, estabelecida em algum tempo da idade arturiana, a de Robert é bem precisa. Para Robert, a história do Gral é passada na Inglaterra, e não é contemporanea de Arthur, mas sim de José de Arimatéia. Há um outro romance do Gral que tem muito em comum com o de Robert. De fato, ele pareceria ter sido retirado das mesmas fontes, mas sua utilização desta fonte é muito diferente e decididamente mais interessante. O romance em questão é conhecido como Perlesvaus. foi composto ao redor do mesmo tempo do poema de Robert, entre 1190 e 1212 por um autor que, ao contrário das convenções daquele tempo, preferiu permanecer anônimo. É estranho que ele o tenha feito assim, dado ao status exaltado conferido aos poetas, a menos que ele estivesse envolvido em algo chamado de ordem monástica ou militar, por exemplo o que teria tornado a composição de tais romances improvável ou inapropriada. E, de fato, o peso da evidência textual a respeito de Perlesvaus sugere ser este o caso. Segundo ao menos um especialista moderno, o Perlesvaus pode realmente ter sido escrito por um Templário. E há certa evidência a apoiar tal conjectura. É sabido, por exemplo, que os Cavaleiros Teutônicos encorajaram e patrocinaram poetas anônimos em suas fileiras, e um tal precedente pode bem ter sido estabelecido pelos Templários. É o que é mais, o autor de Perlesvaus revela, no curso do poema, um conhecimento detalhado quase que extraordinário das realidades de combate de armadura e equipamento, estratégia e táticas, e armamento e seus efeitos na carne humana.

A descrição gráfica dos ferimentos, por exemplo, pareceriam atestar uma experiência em primeira mão de um um campo de batalha; uma experiência realista e não romantizada não carateristica de qualquer outro romance do Gral. Se Perlesvaus não foi realmente composto por um Templário, ele não obstante fornece uma base sólida para a ligação dos Templários com o Gral. Embora a Ordem não seja mencionada por seu nome, seu aparecimento no poema pareceria inconfundível. Então Percival, em suas andanças, acontece em um castelo. Este castelo não abriga o Gral mas abriga um conclave de ‘iniciados’ que obviamante estão familiarizzados com o Gral. Percival é recebido aqui por dois ‘mestres’ que apertam suas mãos e se unem a mais trinta e três outros homens. Eles estão vestidos em roupas brancas e nenhum deles tem nada além de uma cruz vermelha em seu peito e todos parecem ter uma idade. Um destes mestres misteriosos afirma que ele pessoalmente vê no Gral uma experiência concedida apenas a uns poucos. E ele também afirma  que ele está familiarizado com a linhagem de Percival. Como os poemas de Chretien e Robert, o Perlesvaus dá uma grande relevância a linhagem. Em inúmeros pontos Percival é descrito como principalmente sagrado. Em ouro lugar é declarado explicitamente que Percival era da linhagem de José de Arimatéia e que este José era tio da mãe de Percival, que tinha sido por sete anos um soldado de Pilatos. Não obstante, o Perlesvaus não se passa no período de vida de José. Ao contrário, ele acontece, como a versão de Chretien, durante a era de Arthur.  A cronologia é posteriortmente misturada pelo fato de que a Terra Santa já está nas mãos dos ‘infiéis’, o que não aconteceu senão dois séculos depois de Arthur. E pelo fato de que a Terra Santa seja aparentemente identificada com Camelot. Em um grau maior que os poemas de Chretien e Robert o Perlesvaus é mágico em sua natureza. Além do seu conhecimento do campo de batalha, o autor revela um conhecimento, muito surpreendente naquele tempo, de conjuração e evocação. Há também inúmeras referências alquímicas aos dois homens, por exemplo, ‘feito de cobre pela arte da necromancia’. E algumas das referências mágicas e alquímicas ressoam comos ecos do mistério que cerca os Templários.

Então um dos mestres da companhia que veste branco como os Templários diz a Percival: ‘Há as cabeças lacradas em prata, e as cabeças lacradas em chumbo, e os corpos aos quais estas cabeças pertenceram, digo que você deve vir a fazer vir para ali a cabeça do Rei e da Rainha’. E se em Perlesvaus abundam as alusões mágicas, elas também abundam em outras alusões que são ambos heréticas e/ou pagãs. Novamente Percival é designado pela apelação dualista, ‘O Filho da Dama Viúva’. Há referências a um ritual sancionado do sacrifício do Rei, que é o mais incongruente em um poema supostamente cristão. Há referências a assar e devorar crianças, um crime do qual os Templários foram popularmente acusados. E a um ponto há um rito singular, que novamente evoca as memórias dos julgamentos dos Templários. Em um cruz vermelha erigida em uma floresta, uma bela besta branca de natureza indeterminada é despedaçada pelos cães de caça. Enquando Percival assiste, um cavaleiro e uma donzela aparecem com vasos dourados, coletam os fragmentos da carne mutilada e, tendo beijado a cruz, desaparecem nas árvores. O próprio Percival então se ajoelha e beija a cruz; e então chega até ele um odor tão doce da cruz e do lugar, a que nenhuma doçura possa ser comparada anteriormente. Ele olha e vê vindo da floresta dois sacerdotes a pé; e o primeiro gritou para ele: “Senhor Cavaleiro, retire-se para longe da cruz porque você não tem o direito de estar perto dela’. Percival recua e a sacerdote se ajoelha diante da cruz e a adora e se curva e a beija várias vezes e manifesta a maior alegria do mundo. E o outro sacerdote vem depois, e traz um grande bastão e se senta ao lado do primeiro sacerdote a força e bate na cruz com um bastão em todas as partes, e gritou direto se sentindo ferido. Percival o observou exatamente com o maior espanto e disse a ele: ‘Senhor, parece não ser um sacerdote! Como você faz tal grande vergonha? Senhor, com o sacerdote, ‘isto não lhe diz respeito seja o que for que façamos, nem deve você saber isso de nós!’ Não tivesse ele sido um sacerdote, Percival teria ficado muito irado com ele, mas ele não teve vontade de lhe causar qualquer dano.

Um tal abuso da cruz evoca ecos distintos das acusações levantadas contra os Templários. Mas não apenas contra os Templários. Isto também pode refletir uma meada de pensamentos dualistas ou gnósticos; o pensamento dos cátaros, por exemplo, que também repudiavam a cruz. No Perlesvaus esta meada de pensamento dualista ou gnostico se estende, em algum sentido, ao próprio Gral. Para Chretien o Gral era algo não especificado, feito de ouro e incrustado de pedras preciosas. Para Robert du Baron ele foi identificado com a taça usada na última ceia e onde subsequentemente foi coletado o sangue de Jesus. Em Perlesvaus, contudo, o Gral assume uma dimensão mais curiosa e importante. Em um ponto, Sir Gawain é advertido pelo sacerdote, ‘porque não é conveniente descobrir os segredos do Salvador e deles também a quem eles são comprometidos é conveniente mante-los cobertamente’. O Gral, então, envolve um segredo de algum modo relacionado a Jesus; e a natureza deste segredo é confiada a uma companhia seleta. Quando Gawain eventualmente vê o Gral, isto ‘parece a ele que no meio do Gral ele vê a figura de uma criança… e ele olha para cima e o Gral lhe parece ser todo carne, e ele olha acima, na medida em que ele pensa, um Rei coroado, pregado em um bastão’ E algum tempo depois o Gral aparece na missa sagrada de cinco modos diferentes que ninguém pode dizer, porque as coisas secretas do sacramento ninguém pode dizer abertamente, mas ele estava entre aqueles a quem Deus tinha dado isso. O Rei Arthur observa todas as mudanças, a última sendo a mudança em um cálice. Em resumo o Gral, no Perlesvaus, consiste em uma sequência mutante de imagens ou visões. A primeira delas é um rei coroado, crucificado. A segunda é uma criança. A terceira é a de um homem usando uma coroa de espinhos, sangrando de sua testa, seus pés, suas palmas e de seu quadril. A quarta manifestação não é especificada. A quinta é um cálice. Em cada ocasião a manifestação é acompanhada por uma fragrância e uma grande luz. Desta narrativa o Gral, em Perlesvaus, pareceria ser várias coisas simultaneamente ou algo que pode ser interpretrado a níveis diferentes. A nível mundano, ele seria algum tipo de objeto – como uma taça, tijela ou cálice. Ele também seria, em algum sentido metafórico, parecer ser uma linhagem ou certos indivíduos que compreendem esta linhagem. E muito obviamente o Gral também pareceria ser uma experiência de algum tipo bem similar a uma iluminação gnóstica tal como era exaltada pelos cátaros e outras seitas dualistas do período.

A história de Wolfram von Eschenbach

De todos os romances do Gral o mais famoso, e o mais importate artisticamente, é Parzival, composto em algum tempo entre 1195 e 1216. Seu autor Wolfram von Eschenbach, um  cavaleiro do origem bavara. De início pensamos que isto pudesse distancia-lo de seu assunto, tornando sua narrativa menos confiável do que a de vários outros. Antes de muito tempo, contudo, concluimos que se alguém poderia falar com autoridade sobre o Gral este era Wolfram. No inicio de Parzival, Wolfram nitidamente avalia que a versão de Chretien da história do Gral está errada, enquanto a sua própria é acuradamente baseada em sua informação privilegiada. Este informação, ele explica mais tarde, ele obteve de um  Kyot de Provença que por sua vez a recebeu supostamente de um Flegetanis. Vale citar por completo as palavras de Wolfram: ‘Alguém que antes me perguntasse pelo Gral e me levasse a tarefa de não dizer a ele que ele estava muito em erro. Kyot me pediu para não revelar isso, porque a Aventura exigiu dele a não dar a isso um pensamento até que ela própria, a Aventura, deve convidar ao dizer, e então podemos falar sobre isso, com certeza. Kyot, o mestre bem conhecido, encontrado em Toledo, dispensado, estabeleceu em um escrito gentio, a primeira fonte desta aventura. Ele primeiro tinha que aprender o ‘abc’, mas sem a arte da magia negra…. um bárbaro, Flegetanis, tinha alcançado alto renome pelo seu ensinamento. Este erudito da natureza era descendente de Salomão e nasceu de uma família que a muito tinha sido israelita até que o batismo se tornou o nosso escudo contra o fogo do inferno. Ele escreveu a aventura do Gral. Pelo lado de seu pai, Flegetanis era um gentio que adorava um bezerro… O bárbaro Flegetanis pode nos contar como todas as estrelas nascem e se põem novamente. O curso circular da estrelas dos assuntos humanos e o destino estão ligados. Flegetanis o gentio viu isto com seus próprios olhos nas constelações; coisas que ele era tímido de falar sobre elas, mistérios ocultos. Ele disse que havia uma coisa chamada Gral, cujo nome ele já tinha lido claramente nas constelações. Uma hoste de anjos deixou isso na Terra. Desde então, homens batizados tem tido a tarefa de guardar isso, e com tal casta disciplina que aqueles que são chamados ao serviço do Gral são sempre homens nobres. Assim escreveu Flegetanis sobre estas coisas. Kyot, o sábio mestre, resolveu traçar esta história nos livros latinos, para ver onde sempre tinham estado estas pessoas, dedicadas a pureza e dignas de cuidarem do Gral. Ele leu as cronicas da terra,  na Bretanha e outros lugares, na França e na Irlanda, e em Anjou encontrou a história. Lá ele leu a verdadeira história de Mazadan, e o registro exato de toda sua família estava escrito lá’.

Dos numerosos itens que exigem que se comente esta passagem, é importante notar ao menos quatro. Um é que a história do Gral parece envolver a família de um chamado Mazadan. Um segundo item é que a casa de Anjou de algum modo é uma capital consequência. Um terceiro item é que a versão original da história parece ter sido filtrada na Europa ocidental pelos Pirineus, da Espanha muçulmana uma avaliação perfeitamente plausível, dado o  status que Toledo desfrutava como um centro de estudos esotéricos, tanto judaicos quanto muçulmanos. Mas o elemento mais surpreendente na pasagem citada é que a história do Gral, como explica Wolfram em sua derivação, seria maximamente de origem judaica. Se o Gral é tão espantoso cono um mistério cristão, porque deveria este segredo ser transmitido por iniciados judaicos? Quanto a isso, porque deveriam escritores judaicos terem tido acesso a material especificamente cristão do qual a própria cristandade não tinha ciência?

Eruditos tem gasto um tempo e energia consideráveis debatendo se Kyot e Flagetanis são reais ou fictícios. De fato a identidade de Kyot, como aprendemos de nosso estudo dos Templários, pode ser muito solidamente estabelecida. Kyot de Provença pareceria, quese que certamente, ter sido Guiot de Provins – um trovador, monge e portavoz para os Templários que viveu na Provença escreveu canções de amor, ataques a Igreja, cantos de glória em louvor do Templo e versos satíricos. Guiot é sabido ter visitado Mayence, na Alemanha, em 1184. A ocasião foi um festival cavaleiresco de Pentecostes, no qual o Sagrado Imperador Romano, Frederico Barbarossa, conferiu o título de cavaleiro a seus filhos. Como assunto do curso a cerimonia teve a frequencia de poetas e trovadores de toda a cristandade. Como um cavaleiro do Sagrado Império Romano, Wolfram quase certamente estaria presente; e certamente é razoável supor que ele tenha se encontrado com Guiot. Homens cultos não eram tão comuns naquele tempo. Inevitavelmente eles teriam se agrupado para fazer conhecimento um com o outro. E Guiot pode muito bem ter encontrado em Wolfram um espírito similar a quem talvez ele tenha confiado certa informação, até mesmo se apenas de forma simbólica. E se Guiot permite que Kyot seja aceito como genuíno, é ao menos plausível assumir que Flagetanis era genuino também. Se ele não fosse, Wolfram e/ou Guiot devem ter tido algum propósito especial em cria-lo. E dar ele a base distinta e o pedigree que é dito que ele teve. Além  da história do Gral, Wolfram deve ter obtido de Guiot um importante interesse nos Templários. Em qualquer caso é sabido que Wolfram possuia um tal interesse. Como Giot ele até mesmo fez uma peregrinação à Terra Santa onde ele pôde observar os Templários em ação, em primeira mão. E em Parzival ele enfatiza que os guardiões do Gral e da família do Gral são os Templários. Isto pode, com certeza, ser a cronologia medíocre e o anacronismo cavaleiresco da licença poética tal como discernida em alguns outros romances do Gral. Mas Wolfram é muito mais cuidadoso sobre estas coisas do que outros escritores de seu tempo. Sobretudo há patentes alusões ao Templo em Perlesvaus. Wolfram e o autor de Perlesvaus seriam culpados do mesmo claro anacronismo?  Possivelmente. Mas também é possível que algo estava sendo implicado por estas ostentosas conexões dos Templários com o Gral. Porque se de fato os Templários são os guardiões do Gral há uma flagrante implicação que o Gral existisse não apenas nos tempos arthurianos mas também durante as Cruzadas, quando os romances sobre ele foram compostos. Ao introduzir os Templários, Wolfram e o autor de Perlesvaus podem estar sugerindo que o Gral não era apenas algo do passado, mas algo que, para eles, possuia relevância contemporanea. A base do poema de Wolfram é então tão importante, de algum modo obscuro, quanto o próprio texto do poema. De fato o papel dos Templários, como a identidade de Kyot e Flagetanis, pareceriam ser cruciais; e estes fatores bem pode possuir a chave para o inteiro mistério que cerca a história do Gral.

Infelizmente, o texto de Parzival faz muito pouco para resolver este mistério, enquanto oferece bem muitos outros. Em primeiro lugar Wolfram não apenas sustenta  que sua versão da história do Gral, em contraste com a da Chretien, é a correta. Ele também sustenta que a narrativa de Chretien é meramente uma fábula fantástica, onde ele é de fato um tipo de documento iniciático. Em outras palavras, como afirma muito inequivocamente Wolfram, há muito mais no mistério da história do Gral do que o olho encontra.  E ele deixa isso claro, com inúmeras referências pelo seu poema, que ‘o Gral não é meramente um objeto de gratuita mistificação e fantasia, mas um meio de ocultar algo de imensa consequência’. Novamente, ele dá pistas a sua audiência para que leia entre as linhas, deixando cair aqui e ali pistas sugestivas. Ao mesmo tempo ele constantemente reitera a urgência do segredo, ‘porque nenhum homem pode até mesmo vencer o Gral a menos que ele seja conhecido no céu e ele seja chamado pelo nome para o Gral’. E ‘o Gral é desconhecido poupar aqueles que tem chamado pelo nome… a companhia do Gral’. Wolfram é ao mesmo tempo preciso e fugidio em identificar o Gral. Quando ele primeiro aparece, na estada temporária de Parzival no castelo do Rei Pescador, não há real indicação do que ele seja. Pareceria, contudo, ter algo em comum com a vaga descrição de Chretien dele: Ela [a rainha da família do Gral] estava vestida em uma roupa de seda árabe. Sobre um ‘achmardi’ profundamente verde ela sustenta a Perfeição do Paraíso, tanto raíz quanto ramo. Esta era uma coisa chamada Gral, que ultrapassa toda a perfeição terrena. Repanse de Schoye era o nome dela a quem o Gral permitiu ser sua sustentadora. Tal era a natureza do Gral que ela que cuidava dele para preservar a pureza dela e renunciar a toda fantasia. Entre outras coisas, o Gral, a este ponto, pareceria ser um tipo de cornucópia mágica ou chifre em plenitude; uma centena de escudeiros, assim ordenados, reverentemente tomaram o pão em guardanapos brancos de diante do Gral, recuando em grupo e, se separando, passando o pão a todas as mesas. Foi-me dito, e também lhes digo, mas sobre o seu juramento, não o meu se eu enganasse vocês, somos todos mentirosos que seja o que for alcançasse sua mão para, ele a encontrava pronta, em frente do Gral, comida quente e comida fria, pratos novos ou velhos, carne de animais domésticos ou caça. Nunca houve nada como isso, muitos dirão. Mas eles estarão errados em seu protesto zangado, porque o Gral era o fruto da bem-aventurança, tal abundância de doçura do mundo que suas delícias eram muito mais a serem ditas do reino do céu. Tudo isso é mais do que mundano em seu modo, até mesmo pedestre, e o Gral pareceria ser um caso bastante inócuo. Mas mais tarde, quando o tio eremita de Parzival expõe sobre o Gral, ele se torna decididamente mais poderoso. Depois de uma longa  dissertação que inclui correntes de pensamentos claramente gnósticos, o eremita descreve o Gral assim: Bem sei que muitos bravos cavaleiros habitam com o Gral em Munsalvaesche. Sempre quando eles correm a cavalo, como frequentemente o fazem, é para buscar aventura. Eles fazem isto por seus pecados, estes templários, seja a recompensa deles a derota ou a vitória. Uma valorosa hoste vive lá, e eu lhes direi como eles são mantidos. Eles vivem de uma pedra do tipo mais puro. Se você não sabe isso, devo aqui nomear isso para vocês. Ela é chamada Lapsit exillis. Pelo poder desta pedra a fênix queima até as cinzas, mas as cinzas dão vida novamente a ele. Então a fênix perde as penas e muda sua plumagem que depois disso é mais brilhante e luminosa e mais amorável do que antes. Nunca um humano esteve tão doente que, se um dia visse esta pedra, ele não pudesse morrer dentro da semana seguinte. E parece que ele não desaparecerá. Sua aparência ficará a mesma, seja ele uma donzela ou um homem, como no dia em que viu a pedra, o mesmo que quando começaram os melhores anos de sua vida, e embora ele deva ver a pedra por duzentos anos, isso nunca mudará, salvo seu cabelo que talvez se torne grisalho. Um tal poder a pedra dá a um homem que carne e ossos ficam novamente jovens. A pedra também é chamada de Gral.

Segundo Wolfram, então, o Gral é uma pedra de algum tipo. Mas tal definição do Gral é muito mais provocante do que satisfatória. Os eruditos tem um número de interpretações da frase ‘lap sit exillis’, todas as quais são mais ou menos plausíveis. ‘Lapsit exillis’ pode ser uma corrupção de ‘lapis ex caelis’ – ‘pedra do céu’. Também pode ser uma corrupção de ‘lap sit ex caelis’ – ‘isto que caiu dos céus’ ou de ‘lapis lapsus ex caelus’ – ‘uma pedra que caiu do céu’ ou finalmente, ‘lapis elixir’ a fabulosa Pedra FIlosofal da alquimia. Certamente a passagem citada, como o inteiro poema de Wolfram sobre este assunto, é cheio de simbolismo alquimico. A fênix, por exemplo, é estabelecida de antemão alquimicamente para ressurreição ou renascimento e também, na iconografia medieval, é um emblema de Jesus morto e ressurrecto. Se a fênix de algum  modo é representante de Jesus, Wolfram implicitamente o está associando a uma pedra. Uma tal asociação é, com certeza, dificilmente única. Há Pedro [pedra] ou rocha na qual Jesus estabeleceu sua Igreja. E, como temos descoberto, Jesus, no Novo Testamento , explicitamente se iguala com a ‘pedra fudamental’ negligenciada pelos construtores, a pedra fundamental do Templo, a Rocha de Sião. Borque isto foi ‘fundado’ sobre esta rocha, houve supostamente uma tradição real que descendeu de Godfroi de Bouillon que era igual as dinastias reinantes na Europa.  Wolfram liga isto imediatamente seguindo a um citado, embora simbolicamente com a Crucificação – Este mesmo dia lá vem com Madalena; onde reside seu maior poder o Gral, a mensagem e eles esperam uma pomba, é a sexta-feira santa, Céu. Ela traz um pequeno branco a pedra. Então, branco brilhante, vai novamente para o céu. Sempre em uma sexta-feira santa isto se levanta da pedra que lhes falei, e desta pedra deriva seja o que for das boas fragrâncias das bebidas e comidas que existem na terra, como a perfeição do paraíso. Quero dizer todas as coisas que a terra possa sustentar. E posteriormente a pedra fornece seja qual for a caça viva sob os céus, quer seja que ela voe, corra ou nade. Então, a fraternidade cavaleiresca tem sua sustança do poder conferido pelo Gral. Além disso os outros atributos extraordinários do Gral, no poema de Wolfram, quase parecem possuir um certo silêncio apropriado. Ela tem a capacidade de chamar os indivíduos para o seu serviço e chama-los, isto é, em um sentido ativo: Ouça agora como estes chamados ao Gral se tornam conhecidos. Sobre a pedra, ao redor da borda, aparecem letras inscritas, dando o nome a linhagem de cada um, donzela ou jovem, que é tomado para esta jornada abençoada. Ninguém precisa esfregar a inscrição, porque uma vez ele tenha lido seu nome, ela desaparece diante de seus olhos. Todos aqueles que agora crescem na maturidade lá vieram como crianças. Abençoada a mãe que tem um filho destinado a servir lá. Pobres e ricos igualmente se alegram se seus filhos são chamados para se reunirem a companhia. Eles são trazidos até lá de muitas terras. Da vergonha pecaminosa eles são mais protegidos do que os outros e recebem boas recompensas nos céus. Quando a vida aqui morre para eles, eles recebem a perfeição eterna lá. Se os guardiões do Gral são os Templários, seus atuais guardiões pareceriam ser membros de uma família específica. Esta família parece possuir numerosos ramos colaterais, alguns dos quais sua identidade frequentemente é desconhecida até mesmo para eles e estão espalhados pelo mundo. Mas outros membros da família habitam o Gral de Munsalvaesche muito obviamente ligado ao legendário castelo cátaro que o escritor tem identificado como Montsegur.

Como no romance do Gral de Chretien, Anfortas, para Wilfram, é tio de Parzival. E quando, no fim do poema, a maldição é levantada e Anfortas pode afinal morrer, Parzival se torna o herdeiro do castelo do Gral. O Gral, os da família do Gral, chama certos indivíduos para seu serviço do mundo externo; indivíduos que devem ser iniciados em algum tipo de mistério. Ao mesmo tempo ele envia seus servidores treinados para fora no mundo para realizarem ações em seu benefício e algumas vezes ocupar um trono. Porque aparentemente o Gral possui o poder de fazer reis: donzelas são indicadas para cuidar do Gral… O que foi um decreto de Deus, e estas donzelas realizaram seu serviço diante disso. O Gral seleciona apenas companhia nobre. Cavaleiros, devotos e bons, são escolhidos para guardar o Gral. A vinda das altas estrelas traz a este povo grande pesar, para jovens e velhos igualmente. A raiva de Deus para com eles tem durado um longo tempo. Quando eles devem sempre dizer sim a alegria? … direi a vocês algo mais, cuja verdade vocês bem podem acreditar. Uma chance dupla é frequentemente deles; eles dão e recebem lucro. Eles recebem jovens crianças lá, de nobre linhagem e belas. E se algum lugar a terra perde seu senhor, se as pessoas lá reconhecem a Mão de Deus, a elas é garantida um da companhia do Gral. Eles devem trata-lo com cortesia, porque a benção de Deus o protege. Da passagem acima, pareceria que em algum ponto do passado a família do Gral de algum modo incorreu na ira de Deus. A alusão a ‘raiva de Deus em relação a eles’ ecoa númerosas afirmações medievais sobre os judeus. Ela também ecoa o título do livro misterioso associado a Nicholas Flamel – O Sagrado Livro de Abraão o o Judeu, Príncipe, Sacerdote, Levita, Astrólogo e Filósofo daquele tribo de judeus que pela ira de Deus foi dispersada entre os Gauls. E Flegetanis, que Wolfram diz escreveu a narrativa original do Gral, é dito ser descendente de Salomão. Pode a família do Gral possivelmente ser de origem judaica? Seja qual for a maldição anteriormente levantada sobre a familia do Gral, ela inquestionavelmente veio, pelo tempo de Parzival, desfrutar do favor divino e uma grande quantidade de poder também.

E ainda que isto seja rigorosamente desfrutado, ao menos em certos aspectos para manter em sigilo sua identidade. Deus enviou os homens da família do Gral secretamente; as donzelas saem abertamente… Assim as donzelas são enviadas abertamente do Gral, e os homens em segredo, para que eles possam ter filhos que algum dia voltarão a entrar no serviço do Gral, e servindo, aperfeiçoar sua companhia. Deus pode ensinar a eles como fazer isso. As mulheres da famíla do Gral então, quanto elas se entrecasam com o mundo externo, podem revelar seu pedigree e identidade. Os homens, contudo, devem manter esta informação escupulosamente escondida tanto que, de fato, que eles não possam nem mesmo permitir perguntas sobre sua origem. Este ponto, aparentemente, é crucial, porque Wolfram volta a ele mais enfaticamente no próprio fim do poema. Sobre o Gral foi agora encontrado escrito que qualquer templário a quem a mão de Deus indicou mestre sobre um povo estrangeiro deve ser proibido de perguntar seu nome ou raça, e ele deve ajuda-los em seus direitos. Se a pergunta é feita sobre ele, eles não devem nunca mais esperar a ajuda dele. Disto isto, com certeza, deriva o dilema de Lohengrin, o filho de Parzival, que então perguntou sobre a origem dele, deve abandonar sua esposa e seus filhos e se retirar em reclusão de onde ele veio. Mas porque seria necessário um segredo tão restritivo? Que ‘esqueleto no  ármario’, por assim dizer, pode concebivelmente ter ditado isso? Se a família do Gral, fosse, de fato, de origem judaica, para a era na qual Wofram escreveu esta possívelmente fosse a explicação possível. E uma tal explicação ganha ao menos alguma credencial da história de Lohengrin. Porque há muitas variantes da história de Lohengrin, e ele nem sempre é identificado pelo mesmo nome.  Em algumas versões ele é chamado Helios, implicando o sol. Em outras versões ele é chamado Elie ou Eli, um nome inconfundívelmente judaico. No romance de Robert de Boron e no Perlesvaus, Perceval é da linhagem judaica, a linhagem sagrada de José de Arimatéia. No poema de Wolfram, este status, no que diga respeito a Parzival, pareceria ser incidental. Na verdade, Parzival é o sobrinho do ferido Rei Pescador e assim relacionado pelo sangue à família do Gral.

E embora ele não se case na família do Gral,- de fato, ele já é casado – e ainda assim herda o castelo do Gral e se torna seu novo senhor. Mas para Wolfram o pedigree do protagonista pareceria menos importante do que os meios pelos quais ele se prova digno dele. Ele deve, em resumo, preencher certos critérios ditados pelo sangue que ele carrega em suas veias. E esta ênfase claramente pareceria indicar a importância que Wolfram atribui aquele sangue. Não há dúvida que Wolfram atribui imensa importância a esta particular linhagem sanguínea. Se há um único tema dominante invadindo não apenas Parzival, mas seus outros trabalhos também, não é tanto o Gral quanto a família do Gral. De fato a família do Gral parece dominar a mente de Wolfram em um grau quase obsessivo, e ele devota muito mais atenção a eles e sua genealogia do que ao misterioso objeto do qual eles são os guardiões. A genealogia da família do Gral pode ser reconstituida de uma estreita leitura de Parzival. O próprio Parzival é sobrinho de Anfortas, o aleijado Rei Pescador e senhor do castelo do Gral. Anfortas, por sua vez, é o filho de Frimutel, e Frimutel é o filho de Titurel. A este ponto a linhagem se torna enovelada. Eventualmente, contudo, ela leva de volta a um certo Laziliez que pode ser uma derivação de Lázaro, o irmão, no Novo Testamento, de Maria e Marta. E os pais de  Laziliez, os originais progenitores da família do Gral, são chamados Mazadan e Terdelaschoye. Esta última, obviamente é a versão germanica da frase ‘Terra da Cruz’ – Terra Escolhida. Mazadan é muito mais obscuro. Pode concebivelmente derivar do zoroastriano Ahura Mazda, o princípio dualista da Luz. Ao mesmo tempo, também, senão apenas foneticamente sugere Masada – um maior bastião da revolta judaica contra a ocupação romana em 68. Os nomes que Wolfram atribui aos membros da família do Gral são então frequentemente provocantes e sugestivos. Ao mesmo tempo, contudo, eles nada nos diz que fosse históricamente útil. Se esperamos encontrar um real protótipo histórico para a família do Gral, temos que procurar em outros lugares. As apostas contudo são bastante medíocres. Soubemos, por exemplo, que a família do Gral supostamente culminou em      Godfroi de Bouillon; mas isto não lança muita luz sobre os místicos antecedentes de Godfroi exceto, com certeza, que [como os reais antecendentes] eles mantiveram sua identidade escrupulosamente secreta. Mas segundo Wolfram, Kyot encontrou uma narrativa da história do Gral nos anais da casa de Anjou, e o próprio Parzival  é dito ser de sangue Angevin. Ao menos isto era extremamente interessante porque a casa de Anjou estava estreitamente associada ao Templários e a Terra Santa.

De fato Fulques, Conde de Anjou, ele próprio se tornou, por assim dizer, um honorário ou Templário em tempo parcial. Em 1131, sobretudo, ele se casou com a sobrinha de Godfroi de Bouillon, a legendária Melusine, e se tornou Rei de Jerusalém.  Segundo os Documentos do Priorado, os senhores de Anjou, a família Plantageneta era então aliada a linhagem sanguínea Merovíngia. E o nome de Plantageneta pode até mesmo ter sido intencionado ecoar ‘Plant-Ard’ ou Plantard. Tais conexões eram incompletas e tenues. Mas apostas adicionais nos foram fornecidas pela localização geográfica do poema de Wolfram. Para a maior parte sua localização é na França. Em contraste as posteriores nararrativas dos cronistas Wolfram até mesmo manteve a corte de Arthur, Camelot, como situada na França e muito especificamente em Nantes. Nantes agora é na Bretanha, que era a fronteira mais a o oeste  do velho reino Merovíngio no auge de seu poder. Em uma manuscrito da versão de Chretien da história do Gral, Percival declara que ele nasceu em Saudone, ou Sinadon, ou algum lugar tal que aparece em um número de variantes ortográficas e a região é descrita como montanhosa. Segundo Wolfram, Perzival veio de Waleies. A maioria dos eruditos tem tomado que Waleies seja Wales e Sinadon, em suas várias soletrações como Snowdon ou Sowndonia. Se assim o é, contudo, certos problemas insuperáveis se levantam e, como ressalta outro comentador moderno, o ‘mapa nos falha’. Porque os personagens se movem constantemente entre Waleieis e a corte de Arthur em Nantes, bem como em outras localizações francesas, sem atravessar qualquer água! Eles se movem sobre a terra, em resumo, e pelas regiões cujos habitantes falam francês. Wolfram estava simplesmente medíocre em geografia? Pode possivelmente isto ter sido um descuido? Ou Waleis nao era de todo Waleieis afinal? Dois eruditos tem sugerido que isto fosse Valois, a região da França a nordeste de Paris mas como não há montanhas em Valois, nem o resto do panorama se conforma de qualquer modo a descrição de Wolfram.  Ao mesmo tempo, contudo, há uma outra localização possível para Waleis, uma localização que é montanhosa, que se conforma precisamente a de Wolfram e a outras descições topográficas e cujos habitantes falam francês. Esta localização é Valais na Suiça, nas margens do Lago Leman a leste de Genebra. Pareceria, em resumo, que a terra natal de Parzival nem é Waleis nem Valiois, mas Valais. E seu real lugar natal de Sinadon ou Snowdonia, mas  Sidonensis, a capital de Valais, E o nome moderno de Sidonensis, capital é Sião. Wolfram fornece uma resposta em seu mais ambicioso trabalho, deixada inacabado por sua morte e intulado  Der Junge Titurel. Neste fragmento evocativo Wolfram se dirige a vida de Titurel, pai de Anfortas, e o construtor original do castelo do Gral. Der ]unge Titurel é muito específico não apenas sobre os detalhes geológicos mas também sobre as dimensões, os componentes, os materiais. A configuração do castelo do Gral é o de capela circular, por exemplo, como aquelas dos Templários. E o próprio castelo está situado nos Pirineus. Além de Der Junge Titurel, Wolfram deixou um outro trabalho não terminado por sua morte; o poema conhecido como Willehalm, cujo protagonista é Guillem de Gellone, o regente Merovíngio da principalidade do século IX situada nos Pirineus. É dito que Guilhem é associado a família do Gral. Ele então pareceria a única figura nos trabalhos de Wolfram cuja identidade histórica pode realmente ser determinada. Ainda que até mesmo em seu tratamento das figuras não identificáveis a meticulosa precisão de Wolfram seja surpreendente. Quando mais nós o estudamos, nais provável parece que ele estava se referindo a um grupo de pessoas reais e não a uma família mítica ou ficcionalizada, mas uma que existiu historicamente, e bem pode ter incluido Guillem de Gellone. Esta conclusão vem toda mais plausível quando Wolfram admite que ele está escondendo algo que Parzival e seus outros trabalhos não são meramente romances, mas também documentos de iniciação, depositórios de segredos.

O Gral e o cabalismo como sugere Perlesvaus, o Gral, ao menos em parte, pareceria ser uma experiência de algum tipo. Em suas exposições sobre as propriedades curativas do Gral e o pode de assegurar a longevidade, Wolfram também pareceria estar implicando algo experimental bem como simbólico , um estado de mente e um estado de ser. Parece haver pouca dúvida de que a um nível o Gral seja uma experiência iniciática na qual a terminologia moderna seria descrita como uma ‘transformação’ ou ‘estado alterado de consciência’. Alternativamente, ele pode ser descrito omo uma ‘experiência gnóstica’, ‘iluminação’ ou ‘união com Deus’. É possível ser até mesmo mais preciso e colocar o aspecto experiencial do Gral em um contexto muito preciso. Este contexto é a Cabala ou o pensamento cabalístico. Certamente tal pensamento estava muito ‘no ar’ nos tempos em que foram compostos os romances do Gral. Havia uma famosa escola cabalística em Toledo, por exemplo, onde Kyot é dito ter aprendido sobre o Gral. Haviam outras escolas em Gerina, Montpellier e outros lugares no sul da França. E dificilmente seria coincidental que houvesse uma tal escola em Troyes. Ela datava de 1070 – o tempo de  Godfroi de Bouillon e era dirigida por um tal de Kashi, talvez o mais famoso dos cabalistas medievais. Aqui é impossível, com certeza, fazer justiça a cabala ou ao pensamento cabalistico.  Não obstante certos pontos devem ser feitos para estabelecer uma conexão ente o cabalismo e os romances do Gral. Muito brevemente então, o cabalismo pode ser descrito como ‘judaismo esotérico’ – uma prática metodologia psicológica de origem unicamente judaica destinada a induzir a uma transformação dramática da consciência. A este respeito pode ser visto como um equivalennte judaico de metodologias similares ou disciplinas na tradição hindu, budista e taoista e certas formas de yoga por exemplo, ou Zen. Como seus equivalentes orientais, o treinamento cabalista compreende uma série de rituais, uma sequência estruturada de experiências iniciáticas que levam o preaticante a cada vez maiores e mais radicais transformações da consciência e da cognição. E embora o significado e a importância de tais modificações seja assunto para a interpretação, sua realidade, como fenômeno psicológico, está além da discussão. Dos estágios das sucessivas experiências iniciáticas um dos mais importantes é o estágio conhecido como Tiferet. Em Tiferet a experiência do indivíduo é dito ir além do mundo da forma para o sem forma ou, em termos contemporaneos, ‘transcender seu ego’. Simbolicamente falando, isto consiste de um tipo de morte sacrificial – a morte do ego – o sentimento de individualidade e o isolamento de tal individualidade compreende, e, com certeza, um renascimento, ou ressurreição em uma outra dimensão de uma toda abrangente unidade e harmonia. Nas adaptações cristãs do cabalismo Tiferet foi portanto associada a Jesus. Para os cabalistas medievais a iniciação em Tiferet era portanto associada com certos símbolos específicos. Estes incluiam um eremita ou guia ou velho jomem sábio, um rei majestoso, uma criança, um rei sacrificado. Em tempo outros símbolos foram acrescentados bem como uma pirâmide truncada, por exemplo, um cubo, e uma rosacruz. A relação destes símbolos nos romances do Gral é suficientemente aparente. Em todas as narrativas do Gral há um velho e sábio eremita tio de Percival ou Parzival que frequentemente age como guia espiritual. No poema de Wolfram o Gral é uma pedra que possivelmente possa ser um cubo. E em Perlesvaus as várias manifestações do Gral correspondem quase precisamente aos símbolos de Tiferet. De fato, o próprio Perlesvaus estabelece um link crucial entre a experiência de Tiferet e o Gral.

O Jogo de Palavras

Então podemos identificar o aspecto experiencial do Gral e o ligar precisamente com as adaptações cristãs da cabala e do cabalismo de Tiferet que portanto foi associado a Jesus. Para os cabalistas medievais a iniciação em Tiferet estava associada a um certo especifismo. Isto partilhava um outro elemento judaico aparentemente incongruente ao caráter supostamente cristão do Gral. Mas seja o que for os aspectos experienciais do Gral, havia outros aspectos bem como aspectos que não podemos ignorar e que eram de superma importância em nossa história. Estes aspectos eram históricos e genealógicos. Novamente mais uma vez, os romances do Gral nos tinham confrontado com um padrão de uma natureza distintamente mundana e mística. Mais uma vez havia um imaturo cavaleiro que, por meio de certos testes que o provavam ‘digno’, era iniciado em algum monumental segredo. Novamente, este segredo era estreitamente guardado por uma ordem de algum tipo, aparentemente cavaleiresca em sua composição. E novamente, o segredo era associado a uma família específica. E novamente, o protagonista pelo intercasamento com esta família, por sua própria linhagem e ambos se torna o senhor do Gral e de tudo ligado a ele. A este nível, ao menos, parecemos estar lidando com algo de um concreto personagem histórico. Um que pode se tornar senhor de um castelo ou um grupo de pessoas. Um que pode se tornar herdeiro de certas terras e até mesmo de certa herança. Mas alguém que não pode se tornar senhor ou herdeiro de uma experiência. Era isso relevante, imaginamos, que os romances do Gral, quando submetidos a um exame estreito, repousassem crucialmente sobre assuntos de linhagem e de genealogia, pedigree, herança e herdeiros? Era relevante que a linhagem em questão devesse se entrelaçar em certos pontos chave com aquelas que figuravam tão salientemente em nossa pesquisa sobre a casa de Anjou, por exemplo, Guillem de Gellone e Godfroi de Bouillon? Pode o mistério ligado a Rennes-le-Chateau e ao Priorado se relacionar, de algum modo ainda que obscuro, a este objeto misterioso chamado Santo Gral? Temos, de fato, estando a seguir as pegadas de Parzival e realizando nossa própria busca moderna do Gral? A evidência sugere que esta seja uma possibilidade muito real. E de fato havia uma mais crucial peça de evidência que inclinou o equlíbrio decisavamente a favor de uma tal conclusão. Em muitos dos mais iniciais manuscritos, o Gral é chamado ‘Sangraal’; e até mesmo na versão mais posterior de Malory, ele é chamado Sagraal. É provável que uma tal forma de Sangraal ou Sagreal fosse de fato a original. É também provável que esta uma só palavra fosse subsequentemente quebrada no lugar errado. Em outras palavras, Sangraal ou Sangreal pode não ter sido pretendido ser divido em Santo Gral mas em Sangue Real ou Sang Real. Ou, para empregar a soletração moderna, Sangue Real. Sangue Real. Por sí só, tal jogo de palavras pode ser provocante mas dificilmente seja conclusivo. Tomado em conjunto com a ênfase em genealogia e linhagem, contudo, não há espaço para dúvida. E para este assunto, as associações tradicionais com uma taça que contém  o sangue de Jesus, por exemplo, pareceriam reforçar esta suposição . Muito claramente, o Gral pareceria pertencer de algum modo a um sanngue ou linhagem sanguínea. Isto levanta, com certeza, certas questões óbvias. Que sangue e que linhagem sanguínea?

Os Reis Perdidos e o Gral

Os romnces do Gral não são apenas poemas de seu tipo para encontrar uma audiência receptiva no fim do século XII e início do século XIII. Há muitos outros. Tristão e Isolda, por exemplo, e Eric e Enide compostos em alguns casos pelo próprio Chretien, em alguns casos por contemporaneos e compatriotas de Wolfram, tais como  Hartmann von Au e Gottfried von Strassburg. Este romances não fazem qualquer menção ao Gral. Mas eles claramente são estabelecidos no mesmo período mítico-histórico dos romances do Gral, porque eles dependem mais ou menos pesadamente de Arthur. Até onde ele possa ser datado, Arthur parece ter vivido no V ou VI século. Em outras palavras, Arthur viveu no auge da ascendência Merovíngia no Gaul, e era, de fato, contemporaneo de Clovis. Se o termo ‘Ursus’ era aplicado a linhagem real merovíngia, o nome Arthur que também significa urso pode ter sido uma tentativa de conferir  uma dignidade comparável a um chefe britânico. Para os escritores dos tempos das Cruzadas, a era Merovíngia parece ter tido uma crucial importância tanto que, de fato, foi fornecido o pano de fundo para os romances que nada tinham a ver com Arthur ou o Gral. Um deles é o épico nacional da Alemanha, a Canção dos Nibelungos, da qual, no século XIX, Wagner retirou tão pesadamente para sua monumental sequência de ópera, O Anel. Este opus musical, e o poema do qual ele deriva, são geralmente descartados como pura fantasia. Ainda que os Nibelungos fssem um povo real, uma tribo germânica que viveu no final dos tempos Merovíngios. Sobretudo, muitos dos nomes no Nibelungenlied Siegmund, por exemplo, Siegfried, Sieglinde, Brunhilde e Kriemhild são patentemente nomes Merovíngios. Muitos episódios no poema estreitamente paralelizam  e podem até mesmo se referir a eventos específicos nos tempos Merovíngios. Embora nada tenha a ver com Arthur e o Gral, o  Nibelungenlied é a evidência posterior que a época Merovingia exerceu um poderoso apelo sobre as imaginações dos poetas dos séculos XII e XIII que os escritores e poetas posteriores não tiveram. Em qualquer caso, eruditos modernos concorrem que os romances do Gral, como o Nibelungenlied, se referm a era Merovíngia. Em parte, com certeza, esta conclusão pareceria auto-evidente, dado a proeminencia de Arthur. Mas ela também repousa nas indicações específicas fornecidas pelos próprios romances do Gral. O  Zueste del Saint Graal, por exemplo, composto entre 1215 e 1230, declara explicitamente que as histórias do Gral ocorreram precisamente 454 anos depois da ressurreição de Jesus. Assumindo que Jesus morreu em 33, a saga do Gral então teria se encenado em 487 durante o primeiro fluxo do poder Merovíngio e meros nove anos antes do batismo de Clovis. Nada houve de revolucionário ou de controvertido, portanto, em ligar os romances do Gral com a era Merovíngia. Nem é menos questão de ênfase, que, por causa de Arthur, tenha sido localizado primariamente na Bretanha. Como resultado desta ênfase distintamente britânica, não temos associado automaticamente o Gral à Dinastia Merovíngia. E ainda que Wofram insista que a Côrte de Arthur seja em Nantes e que este poema se passe na França. A mesma avaliação é feita para outros romances do Gral; a Queste del Saint Graal, por exemplo. E há tradições medievais que mantém que o Gral não foi levado para a Inglaterra por José de Arimatéia, mas para a França por Madalena. Agora começamos a imaginar se a proeminência atribuída a Bretanha pelos comentadores sobre os romances do Gral não tenha sido mal localizada e se os romances de fato se referiam primariamente a eventos no continente, e mais particularmente, a eventos na França. E começamos a suspeitar que o próprio Gral, a linhagem real, realmente se referiu ao sangue real da dinastia merovíngia; um sangue a ser considerado sagrado e investido de tais propriedades mágicas e miraculosas. Talvez os romances do Gral constituissem , ao menos em parte, uma narrativa simbólica ou alegórica de certos eventos da época merovíngia. E talvez já tivéssemos encontrado alguns destes eventos no curso de nossa investigação.

Um casamento com alguma família especial, por exemplo, a qual, envolta pelo tempo, engendrou as lendas relativas a paternidade dual de Merovee. Ou talvez, na família do Gral, uma representação da perpetuação clandestina da linhagem sanguínea merovíngia – os reis perdidos – nas montanhas e cavernas de Razes. Ou talvez o exílio desta linhagem sanguinea na Inglaterra durante o final do século IX e início do século X. E a secreta mas augusta aliança onde a vinha Merovíngia, como aquela da família do Gral, eventualmente dá frutos em Godfroi de Bouillon e na casa de Lorraine. Talvez o próprio Arthur – o urso – fosse apenas incidentalmente relacionado ao chefe celtico ou galo-romano. Talvez o Arthur nos romances do Gral fosse realmente Ursus. Talvez o Arthur legendário nas crônicas de Geoffrey of Monmouth tenha sido apropriado pelos escritores sobre o Gral e deliberadamente transformado em um veículo para uma tradição secreta bem diferente. Se assim o foi, isto explicaria porque os Templários, – estabelecidos pelo Priorado de Sião como os guardiões da linhagem Merovíngia fossem declarados serem os guardiões do Gral e da família do Gral. Se a família do Gral e a linhagem Merovíngia eram uma só coisa e a mesma, os Templários de fato teriam sido os guardiões naquele tempo, mais ou menos, que os romances do Gral eram compostos. Seus romances do Gral, não seriam, portanto, anacrônicos. A hipótese era intrigante mas ela levantava uma questão crucial. Os romances podem ter sido estabelecidos nos tempos Merovíngios, mas eles ligam o Gral muito explicitamente aos origens do cristianismo e a Jesus, a Jose de Arimatéia ou Madalena. Alguns deles, de fato, vão até mermo adiante.  No poema de Robert de Boron, Galahad é dito ser filho de José de Arimatéia embora a identidade da mãe do cavaleiro não seja esclarecida. E o Zueste del Saint Graal chama Galahad, como Jesus, um descendente da Casa de David, e identifica Galahad com o próprio Jesus. De fato, o próprio nome Galahad, segundo eruditos modernos, deriva do nome Gilead, que era considerado uma designação mística para Jesus.

Se o Gral pode ser identificado com a linhagem sanguínea Merovíngia, esta estava em conexão com Jesus? Porque deveria algo tão intimamente associado a Jesus ser também associado à época Merovíngia? Como podemos reconciliar a discrepância cronológica da relação de algo tão pertinente a Jesus e os eventos que ocorreram ao menos quatro séculos depois? Como por um lado o Gral pode ser referir a época Mrovíngia e por outro, a algo trazido por José de Arimatéia para a Inglaterra ou por Madalena para a França?. Até mesmo em um nível simbólico tais questões se avaliam. O Gral, por exemplo, se realaciona de algum modo ao sangue, Até mesmo sem a quebra de ‘Sangraal’ em ‘Sang raal’, o Gral é dito ter sido um receptáculo para o sangue de Jesus. Como isto pode estar relacionado aos Merovíngios? E porque isso deve precisamente estar relacionado ao tempo que foi durante as Cruzadas, quando as cabeças merovíngias usaram a coroa do reino de Jerusalém, protegidas pela Ordem do Templo e o Priorado de Sião? Os romances do Gral ressaltam a importância do sangue do Jesus. Eles também ressaltam uma linhagem de algum tipo. E dado tais fatores como a culminação da família do Gral em Godfroi de Bouillon, eles pareceriam pertencer a linhagem Merovíngia. Pode aparentemente haver alguma ligação entre estes dois elementos discordantes?  Pode o sangue de Jesus de algum modo estar relacionado ao sangue da linhagem real dos Merovíngios? Pode a linhagem ligada ao Gral, ter sido trazida à Europa Ocidental pouco depois da Crucificação , e ser interligada com a linhagem dos Merovíngios?

A Necessidade de Síntese

A este ponto, fizemos uma pausa para rever a evidência a nossa disposição. Isto estava nos levando a uma direção surpreendente e inconfundível. Mas porque, imaginamos, esta evidência nunca tinha sido intimada pelos eruditos antes? Ela certamente esteve prontamente disponível por séculos. Porque ninguém, a nosso conhecimento, até mesmo sintetizou isso e concluiu o que tem sido conclusões bem óbvias, ainda que especulativas. Garantidamente, tais conclusões a uns poucos séculos atrás teriam sido rigorosamente tabu e, se publicadas, severamente punidas. Mas não tem havido um tal perigo nos últimos duzentos anos. Porque, então, tinham os fragmentos do quebra-cabeças não sido reunidos em um todo coerente? As respostas a estas questões, entendemos, residem em nossa era e nos modos ou hábitos de pensamento que a caraterizam. Desde a chamada Iluminação do século XVIII a orientação da cutura e da consciência ocidental tem sido na direção da análise, muito mais do que na síntese. Como resultado, nossa idade é uma da mais crescente especialização. De acordo com esta tendência, a erudição moderna coloca uma ênfase não ordenada na especialização, a qual, como o atesta a universidade moderna, implica e compreende a segregação do conhecimento em disciplinas distintas. Em consequência, nas diversas esferas cobertas por nossa pesquisa tem tradicionalmente sido segmentado em compartimentos muito diferentes. Em cada compartimento o material relevante tem sido obedientemente explorado e avaliado por especialistas, no campo. Mas poucos, se alguns, destes especialistas tem se comportamentado em estabelecer uma conexão entre seus campos em particular e outros que se entrelaçam a ele. De fato tais especialistas tendem geralmente a verem os campos outros do que os seus com consideravel suspeita na melhor das hipótese como espúrio, e na melhor, como irrelevante. Uma pesquisa eclética ou interdisciplinar é frequentemente ativamente desencorajada como sendo, entre outras coisas, especulativa demais. Tem havido numerosos tratados sobre os romances do Gral, seus origens e desenvolvimento, seu impacto cultural, sua qualidade literária. E tem havido numerosos estudos, válidos ou não, dos Templários e das Cruzadas. Mas poucos especialistas sobre os romances do Gral tem sido historiadores, conquanto ainda menos tem apresentado muito interesse na história complexa, fequentemente sórdida e não muito romantica por trás dos Templários e das Cruzadas. Similarmente os historiadores dos Templários e das Cruzadas tem, como todos os historiadores, aderido estreitamente aos registros factuais e documentos. Os romances do Gral tem sido descartados como meras ficções, nada mais do que um fenômeno cultural, uma especie de sub-produto gerado pela imaginação de uma idade. Sugerir a tais historiadores que os romances do Gral podem conter um canal de verdade histórica seria supremo para a heresia até mesmo embora Schliemann, mais do que Verdade, vários escritores ocultos, procedendo primariamente em base de pensamento desejoso, tem dado literal credencial as histórias, afirmando que, de algum modo místico, os Templários eram os guardiões do Gral, seja o que que o Gral possa ser.

Mas não há qualquer estudo histórico sério que se comporte para estabelecer qualquer real conexão. Os Templários são vistos como fato e o Gral como ficção e nenhuma associação entre os dois é reconhecidamente possível. E se os romances do Gral tem assim sido negligenciados pelos eruditos e historiadores do período em que eles foram escritos, dificilmente seja surpreendente que eles sejam negligenciados por especialistas em épocas anteriores. Muito simplesmente, não ocorreria a um especialista na idade Merovíngia suspeitar que os romances do Gral, possam de algum modo, lançar luz sobre o assunto do estudo deles, se, de fato, ele tenha qualquer conhecimento sobre os romances do Gral. Mas não é uma séria omissão que nenhum erudito merovíngio tenha até mesmo encontrado menção as histórias arthurianas que, falando cronologicamente, se referem a mesma época na qual ele afirma a sua especialização? Se os historiadores estão despreparados para fazer tais conexões, os eruditos biblicos estão menos preparados para assim o fazer. Durante as últimas poucas décadas uma riqueza de livros tem aparecido segundo os quais Jesus era um pacifista, um Essênio, um místico, um Budista, um feiticeiro, um revolucionário, um homossexual e até mesmo um cogumelo. Mas a despeito desta plétora de material sobre Jesus e o contexto histórico do Novo Testamento, nenhum autor, a nosso conhecimento, tem tocado a questão do Gral. Porque deveria ele? Porque deveria um especialista na história bíblica ter qualquer interesse em, ou conhecimento de, um conjunto de poemas fatásticos compostos na Europa ocidental mais do que mil anos depois? Seria inconcebível que os romances do Gral pudessem de algum modo elucidar os mistérios que cercam o Novo Testamento. Mas a realidade, história e conhecimento não podem ser segmentadas e compartimentalizadas segundo um arbitrário sistema de preenchimento do intelecto humano. E conquanto a evidência documental seja difícil de se chegar a ela, é auto-evidente que as tradições podem sobreviver por mil anos, então emergir em uma forma escrita que ilumina os eventos anteriores.

Certas sagas irlandesas, por exemplo, pode revelar uma grande parte da mudança da sociedade matriarcal em umas sociedade patriarcal na antiga Irlanda. Sem o trabalho de Homero, composto muito depois do fato, ninguém nunca até mesmo teria ouvido falar sobre o cerco de Tróia. E Guerra e Paz embora escrita mais de meio século depois pode nos dizer mais do que os livros de história, mais até mesmo do que os documentos oficiais, sobre a Rússia durante a era Napoleonica. Qualquer pesquisador responsável deve, como um detetive, buscar seja qual for a pista que tiver a mão, mesmo que aparentemente seja improvável. Não se deve descartar material a priori, de antemão, porque isso ameaça levar a um território não familiar ou improvável. Os eventos do escândalo de Watergate, por exemplo, foram reconstituídos inicialmente de uma multitude de fragmentos ostensivamente desparatados, cada um por si só sem sentido, e sem nenhuma ligação aparente entre eles. De fato, alguns dos truques infantis e sujos devem ter parecido, ao investigadores de seu tempo, tão divorciados dos assuntos mais amplos como os romances do Gral podem parecer ao Novo Testamento. E o escândalo de Watergate estava confinado a um único país e a um período de tempo de uns poucos anos. O assunto da nossa investigação abrange a inteira cultura ocidental, e o período de tempo de dois milenios. O que é necessário é uma abordagem interdisciplinar de um material escolhido – uma aborgagem móvel e flexível que nos permita mover livremente entre disciplinas separadas, através do espaço e tempo. Devemos ser capazes de ligar dados e fazer conexões entre pessoas, eventos e fenômenos amplamente divorciados um do outro. Devemos ser capazes de nos mover, quando a necessidade o ditar, do século III para o VII e o VIII, retirando de uma variedade de fontes inciais de textos eclesiásticos, dos romances do Gral, os registros Merovíngios e as crônicas, os escritos da Livre Maçonaria. Em resumo, deve-se sintetizar não apenas porque tal síntese possa discernir a subjacente continuidade, o tecido coerente e unificado, que reside no núcleo de qualquer problema histórico. Uma tal abordagem não é nem particularmente revolucionária, a princípio, nem particularmente controversa. È muito mais como tomar um princípio do contemporanio dogma da Igreja da Imaculada Conceição, por exemplo, ou do celibato obrigatório dos sacerdotes e usar isso para iluminar o cristianismo inicial. Muito do mesmo modo os romances do Gral podem ser usados  para lançar uma importante luz sobre o Novo Testamento sobre a carreira e identidade de Jesus. Finalmente não é suficiente se confinar exclusivamente aos fatos. Devemos também discirnir as repercussões e ramificações que se irradiam pelos séculos frequentemente na forma do mito e da lenda. Na verdade, os próprios fatos podem ser distorcidows no processo, como um eco reverberando nos penhascos. Mas se a própria voz não pode ser localizada, o eco, contudo distorcido, pode ainda apontar de um modo para ela. Os fatos, em resumo, são como pedras caindo na piscina da história. Elas desaparecem rapidamente, frequentemente sem deixar um traço. Mas elas geram ondas que, se a perspectiva de alguém for suficientemente ampla, a habilita a localizar onde a pedra caiu originalmente. Guiado pelas ondas, podemos então mergulhar ou escavar ou aditar seja qual for a abordagem que desejarmos . O ponto é que as ondas permitem que se localize o que de outra forma seria irreconhecível. Logo estava sendo aparente para nós que tudo que temos estudado durante a nossa investigação era apenas uma onda – que, monitorada corretamente, pode nos digir a única pedra atirada na pi
scina da história milhares de anos atrás.

A Nossa Hipótese.

A Madalena tem figurado proeminentemente por toda nossa pesquisa. Segundo certas histórias medievais, a Madalena trouce o Santo Gral ou Sangue Real para a França. O Gral é estreitamente associado a Jesus. E o Gral, ao menos em um nível, se relaciona de algum modo ao sangue – ou, mais especificamente, a uma linhagem sanguínea. Os romances do Gral eram em sua maior parte, contudo, passados em tempos Merovíngios. Mas eles não foram compostos até depois de Godfroi de Buillon o descendente ficticional da família do Gral e real descendente da família Merovíngia fosse instalado, em tudo apenas no nome, como Rei de Jerusalém. Se tivessemos estado lidando com qualquer outro se não Jesus, se estivessemos lidando com um personagem como Alexandre, por exemplo, ou Julius Caesar, estres fragmentos de evidência sozinhos teriam levado, quase inevitavelmente, a uma conclusão auto-evidente. Retiramos esta concusão, contudo quanto controversa e explosiva quanto possa ser. Começamos a testar ao menos como uma hipótese tentativa. Talvez Madalena esta mulher fugidia nos Evangelhos, fosse de fato a esposa de Jesus. Talvez a união deles tivesse produzido uma prole. Depois da Crucificação, talvez Madalena, com apenas um filho, fosse levada ao Gaul onde ainda já existiam comunidades judaicas estabelecidas e onde, em consequência, ela pode ter encontrado um refúgio. Talvez esta fosse, em resumo, uma linhagem sanguínea hereditária descendente diretamente de Jesus. Talvez esta linhagem sanguinea, este supremo sangue real, então se perpetuasse; intacto e incógnito, por alguns quatrocentos anos o que afinal não é um tempo muito longo para uma linhagem muito importante. Talvez tenha havido casamentos inter-dinásticos não apenas com famílias judias mas também com romanos e visigodos. E talvez no século V a linhagem de Jesus tornou-se aliada a linhagem real dos francos, assim engendrando a dinastia Merovíngia. Se esta hipótese não elaborada foi em algum sentido verdadeira, ela serviria para explicar muitos grandes elementos em nossa investigação. Ela explicaria o status extraordinário atribuido a Madalena, e a importância do culto que ela alcançou durante as Cruzadas. Explicaria também  o status sagrado atribuido aos Merovíngios. Explicaria o legandário nascimento de Merovee, filho de dois pais, um deles simbolicamente uma figura marinha de além do mar, que, como Jesus, pode ser igualado a um peixe místico. Isto explicaria o pacto entre a Igrea Romana e a linhagem sanguínea de Clovis porque um pacto com a descendência linear de Jesus seria uma pacto óbvio para uma igreja fundada em seu nome? Isto explicaria o ressalte incomensurado posto no assassinato de Dagoberto II pela Igreja, por ser parte daquele assassinato, teria sido culpada não apenas de regicídio mas, segundo seus princípios, de uma forma de deicídio também. Isto explicaria a tentativa de erradicar Dagoberto II da história. Isto explicaria a obsessão dos Carolíngios em se legitimarem, como Sagrados Imperadores Romanos, ao declararem um pedigree Merovíngio.  Uma linhagem sanguínea descendente de Jesus através de Dagoberto II também explicaria a família do Gral nos romances sobre os segredos que a cercam, seu status exaltado, o impotente Rei Pescador incapaz de reinar, o processo pelo qual Parzival ou Percival se torna o herdeiro do Castelo do Gral. Finalmente, isto explicaria o pedigree místico de Godfroi de Bouillon, filho ou neto de Lohengrin, neto ou bisneto de Parzival, descendente da família do Gral. E se Godfroi fosse descendente de Jesus, sua captura triunfante de Jerusalém em 1099 teria comprendido muito mais do que simplesmente resgatar o Santo Sepulcro dos infiéis. Godfroi estaria reclamando sua herança por direito. Já temos suposto que as referências a vinicultura por nossa investigação simbolizasse alianças dinásticas. Com base em nossa hipótese, a vinicultura agora pareceu simbolizar o proceso pelo qual o próprio Jesus se identifica repetidamente com a vinha perpetuada em sua linhagem. Como se em confirmação, descobrimos uma porta gravada apresentando Jesus como um cacho de uvas. Esta porta estava em Sião, Suíça. Nosso cenário hipotético era tanto logicamente consistente quanto intrigante. Ainda que, contudo, fosse também absurdo. Tão atraente quanto possa ser, isto era, ainda que, geral demais e repousado muito longe como uma frágil fundação. Embora isso explicasse muitas coisas, ele por si só ainda não podia ser sustentado. Havvia ainda muito buracos nisto, inconsistências demais e anomalias, muitas pontas soltas. Antes que pudéssemos seriamente considerar ou entreter isso, teriamos que determinar se havia qualquer evidência real que o sustentasse.  Em uma tentativa de encontrar tal evidência começamos a explorar os Evangelhos, o contexto hisórico do Novo testamento, e os escritos dos Pais iniciais da Igreja.

O Rei Sacerdote que Nunca Reinou

A maioria das pessoas hoja fala do cristianismo como se ele fosse uma única coias específica, uma entidade coerente, homogenea e unificada. É desnecessário dizer, o cristianismo não é algo deste tipo. Como todo mundo sabe, há inúmeras formas de cristianismo: o Catolicismo Romano, por exemplo, ou a Igreja da Inglaterra iniciada por Henrique VIII. Há várias outras denominações de protestantismo do original Luteranismo a Calvismo do século XVI a tais desenvolvimentos recentes como o Unitaritanismo. Há multitudes de congregações marginais ou ‘evangélicas’ tais como os Adventistas do Sétimo Dia e as Testemunhas de Jeová. E há uma variedade de seitas contempoeraneas e cultos, como os Filhos de Deus e a Igreja da Unificação do Reverendo Moon. Se alguém observa este surpreendente espectro de crenças desde a rigidamente dogmática e conservadora até a radical e extásica é difícil determinar o que exatamente constitui o ‘cristianismo’. Se há um único fator que permite que se fale de ‘cristianismo’, um único fator que de algum modo ligue os credos que de ourta forma são tão contrários e divergentes, este é o Novo Testamento, e mais particularmente o status único atribuido pelo Novo Testamento a Jesus, sua crucificação e ressurreição. Até mesmo se não se subscreve a verdade literal ou histórica destes eventos, a aceitação de sua importância simbólica geralmente é suficiente para que alguém seja considerado cristão. Se há qualquer unidade, então, o fenômeno difuso chamado cristandade, reside no Novo Testamento e mais especificamente, nas narrativas de Jesus conhecidas como os Quatro Evangelhos. Estas narrativas são popularmente consideradas como as mais autoritárias registradas: e para muitos cristãos elas são assumidas como sendo coerentes e inexplugnáveis.

Desde a infância somos levados a acreditar que a história de Jesus, como preservada nos Quatro Evangelhos, é, senão inspirad por Deus, ao menos definitiva. Os quatro evangelistas, os supostos autores dos Evangelhos, são considerados serem testemunhas impecáveis que reforçam e confirmam o testemunho um dos outros. Mas as vezes, eles discordam violentamente. Tanto quanto diga respeito a tradição popular, a origem e nascimento de Jesus são bem conhecidos. Mas na realidade os Evangelhos, no que é baseado a tradição, são coinsideravelmente mais vagos sobre este assunto.  Somente dos Evangelhos – Mateus e Lucas – afinal dizem algo sobre as origens e nascimento de Jesus; e eles flagrantemente estão em discordancia um com o outro. Segundo Mateus, por exemplo, Jesus era um aristocrata, se não um rei por direito e legítimo descedente de David via Salomão. Segundo Luycas, por outro lado, a família de Jesus, embora descendente da casa de David, era de algum modo de origemmenos exaltada; e é com base em Marcos que a história do pobre carpinteiro veio a existir. As duas genealogias, em resumo, são tão surpreendentemente discordantes  que elas bem podem estar se referindo a dois indivíduos diferentes.  As discrepâncias entre os Evangelhos não estão confinadas a questão da ancestralidade e genealogia de Jesus. Segundo Lucas, Jesus, em seu nascimento, foi visitado por pastores. Segundo Meteus, ele foi visitado por reis. Segundo Lucas, a família de Jesus vivia em Nazaré. Daqui é dito que eles viajaram para um censo que a história sugere nunca ter de fato ocorrido, em Belém, onde Jesus nasceu na pobreza de uma manjedoura. Mas segundo Mateus, a família de Jesus tinha sido bem sucedidos residentes de Belém por todo tempo, e o próprio Jesus nasceu em uma casa. Na versãoi de Mateus a perseguição dos inocentes movida por Herodes fez a família fugir para o Egito, e somente em seu retorno eles estaelecem residência em Nazaré. A informação em cada uma destas narrativas é muito específica a ssumir que o censo ocorreu é perfeitamente plausível. Ainda que a informação por si só não concorde. Esta contradição não pode ser racionalizada. Não há meios possiveis das duas narrativas conflitantes estarem ambas corretas, e não há meios de como elas possam ser reconciliadas.

Se alguém se importa em admitir ou não, o fato deve ser reconhecido que um ou ambos Evangelhos está errado. Diante de uma conclusão tão clara e inevitável, os Evangelhos não podem ser vistos como inexpugnáveis. Como eles podem ser inexpugnáveis se eles próprios impugnam uns aos outros? Quanto mais se estuda os evangelhos, mais contradições entre eles se tornam aparentes. De fato, eles nem mesmo concordam quanto ao dia da Crucificação. Segundo o Evangelho de João, a Crucificação ocorreu um dia antes da Páscoa judaica. Segundo os evangelhos de Marcos, Lucas e Mateus ela ocorreu um dia depois. Nem os evangelhos estão de acordo sobre o caráter e a personalidade de Jesus. Cada um aspresenta uma figura que está patentemente em estranheza com a figura apresentada pelos outros, um salvador manso como um cordeiro em Lucas, por exemplo, um soberano majestoso e poderoso em Mateus que ‘não vem trazer a paz, mas a espada’. E há um desacordo posterior sobre as últimas palavras de Jesus na cruz. Em Mateus e Marcos  estas palavras são: ‘Pai, em suas mãos entrego meu espírito’ e em João elas são simplesmente ‘Está acabado’. Dado estas discrepâncias os Evangelhos apenas podem ser aceitos como um autoridade altamente questionável, e certamente não uma autoridade definitiva. Eles não representam a palavra perfeita de qualquer Deus; ou, se eles o fazem, as palavras de Deus tem sido liberalmente censuradas, editadas, revisadas, glosadas e reescritas por mãos humanas. A Bíblia, deve ser lembrado, e isso se aplica tanto ao Velho quanto ao Novo Testamento, é apenas uma seleção de trabalhos, e, muitos aspectos, um trabalho de certa forma arbitrário. De fato, ela bem podia incluir muito mais outros livros  e scritos de que realmente o faz. Nem há qualquer dúvida de que os livros que faltam tenham sido ‘perdidos’. Ao contrário, eles foram deliberadamente excluídos. Em 367 o Bispo Atanasio de Alexandria compilou uma lista de trabalhos a serem incluidos no Novo Testamento. Esta lista foi retificada pelo Concílio da Igreja em Nippo em 393 e novamente no Concílio de Cartago quatro anos depois. Nestes concílios foi concordada uma seleção. Certos trabalhos foram reunidos para formar o Novo Testamento como o conhecemos hoje, e outros foram cavalheirescamente ignorados. Como pode um tal processo de seleção ser visto como definitivo? Como pode um conclave de clérigos decidir infalivelmente que certos livros pertenciam a Bíblia enquanto outros não? Especialmente quando alguns dos livros excluídos tem uma declaração perfeitamente válida de veracidade histórica?

Como ela existe hoje, contudo, a Bíblia não é apenas o produto de um processo seletivo mais ou menos arbitrário. Ela também tem sido submetida a algumas bem drásticas edições, censura e revisão. Em 1958, por exemplo, o Professor Morton Smith da Universidade de Columbia descobriu, em um monastério perto de Jerusalém, uma carta a qual continha um fragmento perdido do Evangelho de Marcos. O fragmento de Marcos não tinha sido perdido. Ao contrário, ele tiha sido aparentemente deliberadamente suprimido por instigação, se não por ordem expressa, do Bispo Clemente de Alexandria, um dos mais venerados Pais iniciais da Igreja. Clemente parece ter recebido uma carta de um tal Teodoro, que se queixava de uma seita gnóstica, os Carpocratianos. Os Carpocratianos parecem terem estado interpretando certas passagens do Evangeho de Marcos segundo seus prórios princípios que não concorriam com a posição de Clemente e de Teodoro. Em consequencia, aparentemente Teodoro os atacou, e relatou sua ação a Clemente. Na carta encontrada pelo Profesor Smith, Clemente responde a este discípulo como se segue: “Você fez bem em silenciar os ensinamentos impronunciáveis dos Carpocratianos. Porque eles são ‘estrelas andarilhas’ referidas na profecia, que vagam pela estrada estreita dos mandamentos em um abismo sem margens de pecados carnais e corporais. Porque, para se orgulharem de seu conhecimentto, como eles dizem ‘das coisas profundas de Satã’ eles não sabem que estão se atirando ‘no mundo da escuridão’ da falsidade, e bravateando que são livres, eles tem se tornado escravos dos desejos servis. Taia homens são para serem opostos por todos os meios e todos juntos. Porque, até mesmo se eles devam dizer algo verdadeiro, aquele que ama a verdade não deve, até mesmo assim, concordar com eles. Porque nem todas as coisas são a verdade, nem devem estas verdade que [meramente] parecem verdade segundo as opiniões humanas serem preferidas à verdade verdadeira, que segundo a fé é a verdade.” Esta é uma declaração extraordinária para um Pai da Igreja. De fato Clemente estava dizendo nada menos que ‘se acontece de seu oponente dizer a verdade, você deve nega-la e mentir para refuta-lo’. Mas isto não é tudo. Na passagem seguinte, a carta de Clemente continua para discutir o Evangelho de Marcos e o seu ‘mal uso’, aos olhos dele, pelos Carpocratianos: Quanto a Marcos, então, durante a estada de Pedro em Roma, ele escreveu uma narrativa dos afazeres do Senhor; não, contudo, declarando todos eles nem ainda que apontando os sevretos, mas selecionando aqueles que ele pensou serem mais úteis para o aumento da fé daqueles que estavam sendo instruídos. Mas quando Pedro morreu como um mártir, Marcos veio a Alexandria, trazendo com ele suas próprias anotações e as de Pedro, as quais ele transferiu de seu livro anterior as coisas apropriadas para seja o que for que faça o progresso através do conhecimento [gnose]. Então ele compôs um Evangelho mais espiritual para uso daqueles que estavam sendo aperfeiçoados. Não obstante, ele ainda não divulgou as coisas que não devem ser murmuradas, nem ele escreveu o ensinamento hierofântico do Senhor, mas às historias já escritas ele acrescentou ainda outras e, sobretudo, trouxe em certos dizeres dos quais ele sabia a interpretação, como uma pessoa que incitava os neófitos [mistagogo], que levaria os ouvintes a um santurário mais interno daquela verdade escondida por sete véus. Assim, em resumo, ele pré-arranjou os assuntos, nem rancorosamente e nem incautamente, na minha opinião, e ao morrer, ele deixou sua composição para a igreja em Alexandria, onde ele está ainda mais que cautelosamente guardada, sendo lida apenas por aqueles que estão sendo iniciados nos grandes mistérios. Mas desde que os feios demônios estão sempre divisando a destruição da raça ds homens, Carpocrates, instruido por eles e usando artes enganosas, tão escravizou a um certo presbítero de uma igrejana Alexandria que obteve dele uma cópia do Evangelho secreto, que ele interpretou segundo sua doutrina blasfema e carnal e, sobretudo, poluiu, misturando as palavras imaculadas e sagradas com as máximas mentiras vergonhosas. Clemente então reconhece que de fato existe um Evangelho secreto de Marcos e ele então instrui Teodoro a negar isso:

Para eles [os Carpocratianos], portanto, como disse acima, nunca se deve se desistir, nem, quanto eles levam adiante suas falsificações, deve-se conceder que o Evangelho secreto de Marcos, mas deve até mesmo negar isso por juramento, ‘porque nem todas as coisas verdadeiras devem ser ditas a todos os homens. O que é este evangelho secreto que Clemente ordenou ao seu discípulo repudiar e que os carpocratianos estavam interpretando mal? Clemente responde a esta pergunta ao incluir uma transcrição palavra por palavra em sua carta: ‘Para você, entretanto, não devo hesitar em responder as questões que você tem perguntado, refutando as falsificações com as próprias palavras do evangelho. Por exemplo, depois ‘E eles estavam a estrada indo a Jerusalém’, e o que se segue , até ‘depois de três dias ele deve se elevar’, [o evangelho secreto] traz o seguinte [material] palavra por palavra: E ees vieram a Betania e uma certa mulher, cujo irmão tinha morrido, estava lá. E vindo, ela se prostrou diante de Jesus e disse a ele, ‘Filho de David tenha misericórdia de mim’. Mas os discípulos a repreenderam. E Jesus, ficando zangado, foi com ela para o jardim onde estava a tumba, e diratamente um grande grito foi ouvido da tumba. E chegando perto, Jesus rolou para fora a pedra da porta da tumba. E diretamente, indo onde o jovem estava, eles puxou sua mão e o levantou, pegando sua mão. Mas o jovem, olhando para ele, o amou e começou a suplicar a ele que ele devia estar com ele. E saindo da tumba eles foram a casa do jovem porque ele era rico. E depois de seis dias, Jesus disse a ele o que devia fazer e naquele entardecer o jovem veio até ele, vestindo uma roupa de linho sobre seu corpo nu. E ele permeneceu com ele naquela noite e Jesus ensinou a ele o mistério do Reino do Céu. E assim se elevando, ele voltou ao outro lado do Jordão. Este episódio não aparece em qualquer versão existente do Evangelho de Marcos. Em suas linhas gerais, contudo, é suficientemente familiar. é, com certeza, a ressurreição de Lázaro, descrita no Quarto Evangelho, atribuido a João. Na versão citada, contudo, há algumas variações importantes.

Em primeiro lugar há ‘um grande grito’ vindo da tumba antes que Jesus rolasse a pedra ou instruisse o ocupante a vir par fora. Isto fortemente sugere que o ocupante não estava morto e portanto, em um único golpe, contraria qualquer elemento do miraculoso. Em segundo lugar pareceria claramente estar algo mais envolvido do que é aceito nas narrativas do episódio de Lázaro que nos levam a acreditar. Certamente a passagem citada atesta alguma relação especial entre o homem na tumba e o homem que o ressurecta. Um leitor moderno talvez fosse tentado a ver uma pista de homossexualidade. E é possível que os carpocratianos – uma seita que aspirava a transcedência dos sentidos por meio da satisfação dos sentidos precisamete discernisse tal pista. Mas, como argumenta o Professor Smith, isto de fato é mais provável que o inteiro episodio se refira a uma iniciação de uma típica escola de mistério; uma morte ritualizada e simbólica e o renascimento do tipo tão prevalente no Oriente Médio daquele tempo. Em qualquer caso o ponto é que este episódio, e a passagem citada acima, não aparecem em qualquer versão moderna e aceita de Marcos. De fato, apenas referências a uma figura de Lázaro no Novo Testamento estão nos Evangelhos atribuídos a João. Então está claro que o conselho de Clemente foi aceito  não apenas por Teodoro, mas também pelas subsequentes autoridades. Muito simplesmente, o inteiro incidente de Lázaro foi completamente excluído dos Evangelhos de Marcos. Se o Evangelho de Marcos foi tão drasticamente expurgado ele também foi carregado com adições espúrias. Em sua versão original ele termina com a Crucificação, o enterro e a tumba vazia.  Não há cena de ressurreição, não há reunião com os discípulos. Garatidamente, há certas bíblias modernas que contêm um fim mais convencional do Evangelho de Marcos; um fim que inclui a Ressurreição. Mas virtualmente todos os modernos eruditos bíblicos concordam que este fim expandido é uma adição posterior, datando do final do segundo século, e apensada ao documento original. O Evangelho de Marcos assim fornece dois casos de um documento sagrado supostamente inspirado por Deus ter sido manipulado, editado, censurado, revisado por mãos humanas. Nem são estes dois casos especulativos. Ao contrário, eles agora são aceitos pelos eruditos como demonstrados e comprovados.

Pode-se então supor que o Evangelho de Marcos foi o único a sofrer tal alteração? Claramente se o Evangelho de Marcos foi tão pontamente doutorado, é razoável assumir que os outros evangelhos tenham sido similarmente tratados. Para os propósitos da nossa investigação, então, não podemos aceitar os evangelhos como autoridade definitiva e inexpugnável, mas, ao mesmo tempo, não podemos descarta-los. Eles certamente não foram inteiramente fabricados, e então fornecem algumas das poucas pistas disponíveis para o que realmente aconteceu na Terra Santa a dois mil anos atrás. Portanto tomamos a tarefa de examinar mais estreitamente, de peneirar por eles, separar os fatos das fábulas, separar a verdade que eles contém da matriz espúria na qual a verdade frequentemente está embebida. E para fazer isso efetivamente, fomos primeiro obrigados a nos elevar com a realidade histórica e circunstãncias da Terra Santa no advento da era cristã. Porque os Evangelhos não são entidades autonomas, conjuradas do vazio e flutuantes, eternas e universais, por todos os séculos. Eles são documentos históricos, como qualquer outro como os Pergaminhos do Mar Morto, os épicos de Homero e e Virgilio, os romances do Gral. Eles são produtos de um lugar muito específico, de um tempo muito específico, de um povo muito específico, e de fatores históricos muito específicos.

A Palestina ao Tempo dos Romances do Gral

A Palestina ao Tempo de Jesus. A Palestina no século I  era um canto muito conturbado do globo. Por algum tempo a Terra Santa tinha estado repleta de disputas dinásticas, lutas internas e, em uma ocasião, guerra em plena escala. Durante o século II AC um reino judaico mais ou menos unificado foi transitoriamente estabelecido como cronificado pelos dois Livros Apócrifos dos Macabeus. Por 63 AC contudo, a terra estava em rebelião novamente e madura para a conquista. Mais de meio século antes do nascimento de Jesus, a Palestina caiu sob os Exércitos de Pompeu, o o governo romano foi imposto. Mas Roma naquele tempo estava super estendendo-se, e preocupada demais com seus próprios assuntos, para instalar o aparato administrativo necessário para um governo direto. Ela portanto criou uma linhagem de reis fantoches para governarem sob sua égide. Esta linhagem era aquele de Herodes, que não era um judeu, mas árabe. O primeiro desta linhagem foi Antipater, que assumiu o trono da Palestina em 63 AC. Em sua morte em 37 AC ele foi sucedido por seu filho, Herodes o Grande, que governou até 4 AC. Deve-se visualizar, então, uma situação análoga aquela da França sob o governo de Vichy entre 1940 e 1944. Deve-se visualizar um povo e uma terra conquistados, governados por um regime fantoche que era mantido no poder pela força militar. As pessoas no país tinham a permissão de manter suas próprias religiões e costumes. Mas a autoridade final era Roma. Esta autoridade foi implementada segundo os romanos.

Após o nascimento de Cristo a situação se tornou mais crítica. Neste ano o país foi dividido administrativamente em duas provincias, Judéia e Galiléia. Herodes Antipas tornou-se o rei da Galiléia. Mas a Judéia era a capital espiritual e secular – foi submetida ao direto governo romano, administrada por um Procurador romano baseado em Cesaréia. O regime romano era brutal e autocrático. Qunado ele assumiu o controle direto da Judéia mais de três mil rebeldes foram sumariamente crucificados. O Templo foi saqueado e esvaziado. Pesados impostos foram impostos. A tortura era frequentemente empregada e muitos da populaça cometeram suicídio. Este estado de coisas não foi melhorado por Poncio Pilatos, que presidiu como Procurador da Judéia de 26 a 36 de nossa era. Em contraste com os retratos bíblicos dele, exigem registros que indicam que Pilatos era um homem cruel e corrupto, que não apenas perpetuou, mas intensificou, os abusos de seu predecessor. Tudo isso então é mais surpreendente, ao menos a primeira vista, que não deva haver algum criticismo a Roma nos Evangelhos, nem até menção ao fardo sob o domínio de Roma. De fato, os Evangelhos sugerem que os habitantes da Judéia estavam plácidos e contentes com seu destino. Uma questão de fato é que muitos poucos estavam contentes, e muitos estavam muito mais do que plácidos. Os judeus na Terra Santa naquele tempo podiam estar frouxamente divididos em várias seitas e sub seitas. Havia, por exemplo, os saduceus – – uma pequena mas rica classe de proprietários de terra que, pela raiva de seus compatriotas, colaboravam, de um modo traidor, com os romanos. Havia os fariseus – um grupo progressista que introduziu muita reforma no judaismo e que, a despeio do retrato deles nos Evangelhos, se colocavam em clara oposição, embora passiva, a Roma. Havia os Essênios, uma seita austera e de orientação mística, cujos ensinamentos eram mais prevalentes e influentes do que geralmente é reconhecido ou suposto. Entre as seitas e sub-seitas menores, havia muitas cujo caráter preciso há muito tem se perdido na história, e são difíceis de definir. Vale citar os Nazaritas, contudo, dos quais Sansão, séculos antes, tinha sido um membro, e que ainda existiam durante os tempos de Jesus. Vale citar os Nazarenos, um termo que parece ter sido aplicado a Jesus e a seus seguidores. De fato a original versão grega do Novo Testamento se refere a Jesus como Jesus o Nazareno, o que é mal traduzido como Jesus de Nazaré. Nazareno, em resumo, é uma palavra especificamente sectária e não tem qualquer ligação com Nazaré. Há numerosos outros grupos e seitas também, uma dos quais é provado ser de particular relevância para nossa pesquisa. No ano 6 de nossa era quando Roma asumiu o controle direto da Judéia, um rabino fariseu conhecido como Judas da Galiléia tinha criado um grupo revolucionário altamente militante composto, assim pareceria, de fariseus e essênios. Este grupo a seguir tornou-se conhecido como os Zelotes. Os Zelotes, não eram, falando estritamete, uma seita. Eles eram umm movimento cuja afiliação era originária de um número de seitas. Pelo tempo da missão de Jesus, os Zelotes tinham assumido um papel crescentemente proeminente os assuntos da Terra Santa. Suas atividades formavam talvez o mais importante pano de fundo político contra o drama que o próprio Jesus encenou. Muito depois da Crucificação, a atividade dos Zelotes continuava não derrotada. Pelo ano 44 de nossa era esta atividade tanto havia se intensificado que algum tipo de luta armada parecia inevitável. Em 66 a luta irrompeu, a inteira Judéia se levantando em uma revolta organizada contra Roma. Foi o máximo conflito desesperado e fútil, reminescente em certos aspectos de, vamos dizer, a Hungria em 1956. Apenas na Casaréia 20.000 judeus foram massacrados pelos romanos. Dentro do quatro anos as legiões romanas já haviam ocupado Jerusalém, saqueado o Templo. Não obstante a fortaleza montanhosa de Masada se susteve por ainda outros três anos, comandada por um descendente linear de Judas o Galileu.

O porvir da revolta na Judéia testemunhou um exodus maciço dos judeus da Terra Santa. Não obstante, suficientes permaneceram para fomentar outra rebelião alguns anos mais tarde em 132. Ao menos em 135 o Imperador Adriano decretou que todos os judeus fossem expulsos por lei da Judéia, e Jerusalém tornou-se uma cidade esencialmente romana. Ela foi renomeada Aelia Capitolina. O perído de vida de Jesus compreendeu os primeiros 35 anos do turbilhão que se estendeu por mais de 140 anos. O turbulhão não cessou com a morte dele, mas continuou por um outro século. E isso engendrou componentes psicológicos e culturais que inevitalmente compareciam a qualquer de tal desafio sustentado de um opressor. Um destes componentes era a esperança e desejo de um Messias que livraria seu povo do domínio do tirano. Foi apenas em virtude deste acidente histórico e semântico que este termo veio a ser aplicado especificamente e exclusivamente a Jesus. Para os contemporaneos de Jesus nenhum Messias tinha sido visto como divino. De fato, a própria idéia de um Messias divino teria sido absurda se não o fosse impensável. A palavra grega para Messias é Christos ou Christ. O termo, quer seja em grego ou hebraico, significava simplesmente ‘o ungido’ e geralmente se refere a um rei. Assim David, quando ele foi ungido rei no Velho Testamento,  se tornou, muito explicitamente, um Messias, ou Cristo. E cada subsequente rei judeu da casa de David  era conhecido pela mesma apelação. Até mesmo durante a ocupação romana da Judéia, o alto sacerdote indicado pelos romanos era conhecido como ‘o Sacerdote Messias’ ou ‘Sacerdote Cristo’. Para os Zelotes, contudo, e para outros oponentes de Roma, este sacerdote fantoche era, por necessidade, ‘um falso Messias’. Para eles ‘o verdadeiro Messias’ implicava em algo muito diferente, o legítimo rei perdido, o descendente desconhecido da casa de David que livraria seu povo da tirania romana. Durante o período de vida de Jesus a antecipação de um tal messias atingiu um tipo de histeria em massa. E esta antecipação continuou depois da morte de Jesus. De fato a revolta de 66 foi desencadeada em grande parte  pela agitação Zelote e propaganda em benefício de um Messias cujo advento  era dito ser iminente. O termo Mesias portanto de modo algum implicava em divindade. Ele significava nada mais do que um rei ungido; e na mente popular ele veio a significar um rei ungido que também seria um libertador. Em outras palavras, este era um termo com conotações especificamente políticas; algo muito diferente da posterior idéia cristã de um Filho de Deus. Este era um termo politico mundano que foi aplicado a Jesus. Ele foi chamado Jesus o Messias ou Jesus o Cristo. Somente mais tarde este denominação foi contraida para Jesus Cristo e um título puramente funcional foi distorcido em um nome próprio.

A História dos Evangelhos

Os Evangelhos sairam de uma realidade histórica concreta e reconhecível. Era uma realidade de opressão, de descontentamento cívico e social, de sublevação política, de incessante perseguição e intermitente rebelião. Era também uma realidade banhada em promessas perpétuas e tantalizantes, esperanças e sonhos que um rei justo apareceria, um líder espiritual e secular que livraria seu povo dando-lhe a liberdade. Tanto quando diga respeito a liberdade politica, tais aspirações foram brutalmente extintas pela guerra devastadora entre 66 e 74 de nossa era. Transposta em uma forma inteiramente religiosa, contudo, as aspirações não foram apenas perpetuadas nos Evangelhos, mas receberam um poderoso novo ímpeto. Eruditos modernos são unanimes em concorrerem que os Evangelhos não datam do perido de vida de Jesus. Em sua maior parte eles datam de período entre as duas maiores revoltas na Judéia  – 66 a 74 e 132 a 135 embora eles sejam quase certamente baseados em narrativas anteriores. Estas narrativas anteriores podem ter incluido documentos  escritos desde então perdidos porque havia uma destruição por atacado dos registros no despertar da primeira rebelião. É considerado que o Evangelho mais antigo seja o de Marcos, composto em algum tempo durante a revolta de 66-74 ou pouco depois, exceto pelo seu tratamento da Ressurreição, que é uma adição posterior e espúria. Embora ele próprio não tenha sido um dos discípulos originais de Jesus, companheiro de São Paulo, e seu evangelho apresente um selo inconfundível do pensamento paulino. Mas se Marcos era um nativo de Jerusalém, seu Evangelho como afirma Clemente de Alexandria foi composto em Roma, e dirigido a uma audiência greco-romana. Isto, por si só, explica muita coisa. Ao tempo em que foi composto o Evangelho de Marcos, a Judéia estava, ou tinha estado recentemente, em uma aberta revolta, e milhares de judeus estavam sendo crucificados por rebelião contra o regime romano. Se Marcos desejasse que seu evangelho sobrevivesse e impressionasse uma audiência romana, ele não podia possivelmente apresentar Jesus como anti-romano. De fato, ele não podia possivelmente apresentar Jesus como politicamente orientado, sequer. Para assegurar a sobrevivência de sua mensagem, ele teria sido obrigado a exonerar os romanos de toda culpa pela morte de Jesus para limpar o existente e entrincheirado regime e culpar pela morte do Messias aos judeus. Este subterfúgio foi adotado não apenas pelos autores dos outros Evangelhos, mas também pela inicial Igreja Cristã. Sem um tal subterfúgio nem os Evangelhoe e nem a Igreja teriam sobrevivido.

O Evangelho de Lucas é datado pelos eruditos por volta do ano 80. O próprio Lucas parece ter sido um médico grego, que compôs seu trabalho para um oficial romano de alto escalão na Cesaréia, a capital romana da Palestina. Para Lucas, também, portanto, teria sido necessário aplacar e apaziguar os romanos e transferir a culpa para outro lugar. Pelo tempo em que o Evangelho de Mateus foi composto, aproximadamente em 85, uma tal transferência parece ter sido aceita como um fato estabelecido e continuou não questionado. Mais da metade do Evangelho de Mateus, de fato, é derivado diretamente de Marcos embora ele tenha sido composto originalmente em grego e reflita especificamente características gregas. O autor parece ter sido um judeu, muito possivelmente um refugiado da Palestina. Ele não é para ser confundido com o discípulo chamado Mateus, que teria vido muito antes e provavelmente apenas saberia o aramaico. Os Evangelhos de Marcos, Lucas e Mateus são conhecidos coletivamente como Evangelhos Sinóticos, implicando que eles vejam ‘olho a olho’ ou ‘com um olho’, o que de fato eles não fazem. Isto os distingue do Evangelho de João, que trai significativamente origens diferentes. Nada, seja o que for, é conhecido sobre o autor do quarto evangelho. De fato não há razão para assumir que seu nome fosse João. Exceto por João Batista, o nome de João não é mencionado em qualquer ponto no próprio evangelho e sua atribuição a um homem chamado João é geralmente aceita como um tradição posterior. O Quarto Evangelho é o último destes no Novo Testamento composto por volta do ano 100 na vizinhança da cidade grega de Efeso. Ele apresenta um número de caraterísticas bem distintas. Não há cena da natividade, por exemplo, nem descrição seja qual for do nascimento de Jesus, e a abertura é quase que de caráter gnóstico. O texto é decididamente de uma natureza mais mística do que a dos outros Evangelhos, e o contexto também difere. Os outros Evangelhos, por exemplo, se concentram primariamente nas atividades de Jesus na província norte da Galiléia e refletem o que parece ser um conhecimento em segunda ou terceira mão dos eventos aos sul, na Judéia e em Jerusalém incluindo a Crucificação. O Quarto Evangelho, em contraste, diz relativamente pouco sobre a Galiléia. Ele reside exaustivamente nos eventos na Judéia e em Jerusalém que concluiram a carreira de Jesus, e sua narrativa da Crucificação pode muito bem repousar no testemunho ocular. Ele também contém um número de episódios e incidentes que não figuram nos outros evangelhos como o casamento em Canaã, os papéis de Nicodemus e de José de Arimatéia e a ressurreição de Lázaro [embora esta última estivesse incluída no Evangelho de Marcos]. Com base em tais fatores os  eruditos modernos tem sugerido que o o Evangelho de João, a despeito de sua posterior composição, pode bem ser o mais confiável e historicamente acurado dos quatro. Mais do que os outros Evangelhos, ele parece retirar das tradições correntes entre os contemporaneos de Jesus, bem como de outros materiais indisponíveis para Marcos, Mateus e Lucas. Um pesquisador moderno ressalta que ele reflete uma narrativa em primeira mão do conhecimento topográfico de Jerusalém antes da revolta de 66. O mesmo autor conclui, ‘Por trás do Quarto Evangelho está uma antiga tradição independente dos outros evangelhos’. Esta não é uma opinião isolada. De fato, é a mais prevalente na erudição moderna.

Segundo um outro escritor, ‘O Evangelho de João embora não aderindo a estrutura cronológica de Marcos e sendo muito posterior em sua data, parece conhecer uma tradição a respeito de Jesus que era primitiva e autêntica’. Com base em nossa própria pesquisa, também, concluimos que o Quarto Evangelho era o mais confiável dos livros no Novo Testamento ate mesmo embora ele, como os outros, tenha sido submetido ao exame, edição, expurgação e revisão. Em nossa pesquisa tivemos oportunidade de retirar de todos os quatro evangelhos, e de muito material colateral também.

O Status Marital de Jesus

Não era nossa intenção desacreditar os evangelhos. Desejamos apenas peneirar deles para localizar certos fragmentos de verdade possível ou provável e extrai-las da matriz de bordadura que as cercam. Estavamos buscando fragmentos, sobretudo, de um caráter muito preciso; fragmentos que pudessem atestar um casamento entre Jesus e a mulher que conhecemos como Madalena. Tais atestações, é desnecessário dizer, não seriam explícitas. Para encontra-las, entendemos, seriamos obrigados a ler entre as linhas, preencher certas brechas, responder por certas pausas e elipses. Teriamos que lidar com omissões, com insinuações, com referências que eram, na melhor das hipóteses, oblíquas. E não teríamos apenas que procurar a evidência das circunstâncias que podem ter sido condutivas para um casamento. Nossa pesquisa então deveria abranger um número de questões distintas mas estreitamente relacionadas. Começamos com as mais óbvias delas: [ 1] – Há qualquer evidência nos Evangelhos – direta ou indireta -, a sugerir que de fato Jesus fosse casado? Há, com certeza, nenhuma declaração explícita para garantir que ele o fosse. Por outro lado, não há qualquer declaração explicita que ele não o fosse e isto é mais curioso e importante do que a primeira vista parece. Como resalta o Dr.  Geza Vermes da Universidade de Oxford: ‘Há um completo silêncio nos Evangelhos a respeito do status marital de Jesus… Um tal estado de coisa é suficientemente não usual no antigo judaismo a ponto de desencadear um exame posterior.’ Oa Evangelhos afirmam que muitos de seus discípulos, como por exemplo Pedro, eram casados. E em ponto algum o próprio Jesus advogou o celibato. Ao contrario, no Evangelho de Mateus ele declara: ‘Vocês não tem lido que ele no início os fez macho e femea… Por isso o homem deve deixar a pai e mãe e deve ser fiel a sua esposa: e eles juntos não serão uma só  carne?’ (19:4-5J] Uma tal declaração dificilmente pode ser reconciliada com a injunção do celibato. E se Jesus não pregava o celibato, nao há também razão para supor que ele o praticasse. Segundo o costume judaico daquele tempo não era apenas usual, mas era também mandatório, que um homem fosse casado. Exceto entre certos Essênios e em certas comunidades, o celibato era vigoramente condenado. Durante o final do século primeiro, um escritor judeu até mesmo comparou o celibato ao assassinato, e ele não parece ter estado sozinho nesta atitude. Era como que obrigatório para um pai judeu encontrar uma esposa para seu filho, e para isso ele asegurava que ele fosse circuncisado. Se Jesus não fosse casado, este fato em sua época teria parecido claramente absurdo. Teria chamado atenção por si só e teria sido usado para carateriza-lo e identifica-lo. Teria colocado-o a parte, em algum sentido significativo, de seus contemporaneos. Se este fosse o caso, certamente ao menos uma das narrativas dos Evangelhos teria feito alguma menção de um tão marcante desvio do costume. Se Jesus fosse de fato celibatário como as tradições posteriores atestam, é extraordinário que não haja referências a um tal celibato. A ausência de uma referência sugere fortemente que Jesus, no que diga respeito as convenções de seu tempo e cultura – em resumo, fosse casado. Isto sozinho satisfatoriamente explicaria o silêncio dos Evagelhos sobre este assunto. O argumento é resumido por um respeitado teólogo contemporaneo: ‘Garantida base cultural como testemunha…  é altamente improvável que Jesus não fosse casado bem antes do início de seu ministério público. Se ele insistisse no celibato, ele teria criado uma agitação, uma reação que teria deixado algum traço. Então, a falta de menção ao casamento de Jesus nos Evangelhos é um forte argumento não contra, mas a favor da hipótese do casamento, porque qualquer prática ou advocacia do celibato voluntário no contexto judaicio daquele tempo teria sido tão não usual que teria atraído muita atenção e comentário’.

A hipótese do casamento se torna de todo mais confiável em virtude do título de ‘Rabbi’, que frequentemente é aplicado a Jesus nos Evangelhos. É possível, com certeza, que este termo tenha sido empregado em um sentido mais amplo, significando apenas um professor auto-indicado. Mas a cultura de Jesus obtida de sua demonstração no Templo durante as discussões com os idosos, por exemplo, sugere fortemente que ele se submeteu a algum tipo de treinamento formal rabínico e era oficialmente reconhecido como um rabino. Isto se conformaria com as tradições, que apresentam Jesus como um Rabbi no senso estrito da palavra. Mas se Jesus era um Rabbi no senso estrito da palavra o casamento não teria sido apenas provável, mas virtualmente certo. A Lei Judaica Mishnaica é muito explícita sobre este assunto: ‘um homem não casado não pode ser um professor’. No Quarto Evangelho há um episódio relacionado a um casamento que pode, de fato, ter sido o do próprio Jesus. Ete episodio, com certeeza, é o do Casamento em Canaã – uma história bastante familiar. Mas por toda sua familiaridade, há certas perguntas salientes que garantem consideração. Da narrativa do Quarto Evangelho, o casamento em Canaã pareceria uma cerimonia modesta , um típico casamento em uma vila, cujo noivo e noiva permanecem anônimos. Para este casamento Jesus é especificamente ‘chamado’, o que por si só é curioso porque ele ainda não havia começado seu ministério. Mais curioso ainda, é o fato de que sua mãe ‘apenas acontece’ de estar lá. E a presença dela pareceria ser tomada como garantida. E o que é mais, Maria não apenas sugere ao seu filho, mas de fato ordena, que ele reabasteça o vinho. Ele se comporta como se ele fosse a anfitriã: ‘    e quando eles queriam vinho, a mãe de Jesus esteve com ele, “Eles não tem vinho’. Jesus disse a ela, “Mulher, o que tenho que fazer contigo, a minha hora ainda não chegou’ (João 2:3-4) Mas Maria, completamente perturbada, ignora o protesto de seu filho: ‘Sua mãe disse aos serventes, Seja o que for que ele diga a vocês, façam isso’. E os serventes prontamente obedeceram porque estavam acostumados a receberem ordens de Maria e de Jesus. A despeito da ostensiva tentativa  de Jesus de desautoriza-la, Maria prevalece; e Jesus imediatamente realiza seu primeiro milagre, a transmutação da água em vinho. Até onde diga respeito aos Evangelhos, ele até então não havia mostrado seus poderes; e não havia razão para Maria assumir que ele até mesmo os possuisse. Mas até mesmo se assim o fosse, porque deveriam tais dons únicos e sagrados serem empregados para um propósito tão banal? Porque Maria faria um tal pedido ao filho dela? Mais importante ainda, porque deveriam dois ‘convidados’ de um casamento tomar para eles mesmos a responsabilidade que por costume estava reservada ao anfitrião? A menos, com certeza, que o casamento em Canaã fosse o próprio casamento de Jesus. Immediatamente depois que o milagre foi realizado, o ‘governador da festa’ – um tipo de mordomo-mor ou mestre de cerimonias – provou o vinho recém produzido. O governador da festa chamou o noivo e disse a ele ‘todo homem no início deve servir o bom vinho, e quando todos os homens estiverem bem bebados, então servir aquele que é pior; mas você manteve guardado o bom vinho até agora’ (Joãon 2:9-10). Estas palavras claramente parecem terem sido dirigidas a Jesus. Segundo o evangelho, contudo, elas foram dirigidas ao noivo, que era um só e o mesmo.

A Esposa de Jesus

2) Se Jesus foi casado, há nos Evangelhos qualquer indicação da identidade de sua esposa? Nossas primeiras considerações pareceriam haver duas possíveis candidatas; duas mulhers que além de sua mãe são repetidamente mencionadas em sua entourage. A primeira delas é Madalena, ou precisamente, a Maria da vila de Migdal, ou Magdala, na Galiléia. Em todos os quatro evangelhos o papel desta mulher é singularmente ambíguo e parece ter sido deliberadmente obscurecido. Nas narrativas de Marcos e Mateus ela não é mencionada pelo nome até bem tarde. Quando ela aparece é na Judéia, ao tempo da Crucificação, e ela é numerado entre os seguidores de Jesus. No Evangelho de Lucas, contudo, ela aparece relativamente cedo no ministério de Jesus enquanto ele estava pregando na Galiléia. Então parece que ela acompanhou Jesus da Galiléia a Judéia ou, se não, que ela ao menos se movimentou entre as províncias tão prontamente quanto ele o faz. Isto por si só sugere fortemente que ela fosse casada com alguém. Na Palestina do tempo de Jesus teria sido impensável uma mulher não casada – e até mesmo mais então – viajar desacompanhada com um mestre religioso e sua entourage. Um número de tradições parece ter tomado conhecimento deste fato potencialmente embaraçoso. Então algumas vezes é dito que Madalena fosse casada com um dos discípulos de Jesus. Se este fosse o caso, então o relacionamento especial dela com Jesus tornaria os dois suspeitos, senão objeto de acusação, de adultério. A tradição popular apesar disso, a Madalena não é, a qualquer ponto ou em qualquer dos evangelhos, dito ser uma prostituta. Quando ela é primeiramente mencionada, ela é descrita como uma mulher ‘de quem ele retirou sete demonios’. Geralmente é assumido que esta frase se refere a uma espécie de exorcismo da parte de Jesus, implicando que Madalena estava ‘possuida’. Mas a frase pode igualmente se referir a algum tipo de conversão e/ou iniciação ritual. O culto de Isthar ou Astarte, a Deusa Mãe, a Rainha do Céu, envolvia, por exemplo, uma iniciação em sete estágios. Antes de sua afiliação com Jesus a Madalena bem pode ter sido associada a este culto. Migdal, ou Magdala, era a Vila das Pombas, e havia alguma evidência que pombas sacrificiais fossem de fato criadas lá. E a pomba era um símbolo sagrado de Astarte. Um capítulo antes que ele fale de Madalena, Lucas alude a uma mulher que ungiu Jesus. No Evangelho de Marcos há uma unção similar por uma mulher não nomeada. Nem Marcos e nem Lucas explicitamente identificam a mulher como Madalena. Mas Lucas relata que ela era uma ‘mulher caída’, uma ‘pecadora’. Subsequentes comentadores tem assumido que Madalena, já que ela teve sete demonios expulsos dela, deve ter sido uma pecadora. Com esta base a mulher que unge Jesus e a Madalena passam a ser vistas como a mesma pessoa. De fato elas bem podem ter sido. Se Madalena era associada a um culto pagão, certamente ela teria sido vista como uma pecadora, aos olhos não apenas de Lucas, mas dos escritores posteriores também. Se Madalena era uma ‘pecadora’ ela também era, muito claramente, algo mais do que a ‘prostituta comum ‘ da tradição popular. Se este fosse o caso, contudo, seu relacionamento especial com Jesus e sua proximidade dele teria deixado ambos sujeitos a suspeitas, sa não a acusações de adultério. Por exemplo, os amigos dela incluiam a esposa de um alto dignatário da Côrte de Herodes e ambas mulheres, juntamente com várias outras, apoiavam Jesus e seus discípulos com seus recursos financeiros. A mulher que ungiu Jesus era também uma mulher de posses. No Evangelho de Marcos há uma grande ênfase ao alto preço do óleo de nardo com o qual o ritual foi realizado. O inteiro episódio da unção de Jesus pareceria ser um caso de considerável consequência. Porque isto deveria ser enfatizado no evangelho na extensão em que foi? Dado sua proeminência, parece haver algo mais do que um impulsivo gesto espontaneo. Parece ser claramente um rito cuidadosamente premeditado. Disto segue-se que Jesus se tornou um autêntico Messias em virtude de sua unção. E a mulher que o ungiu. Deve-se lembrar que a unção era prerrogativa tradicional dos reis e do Justiceiro Messias, que significava ‘o ungido’. E a mulher que o consagrou neste augusto papel deficilmente pode ser sem importância.  Em qualquer caso, está claro que Madalena pelo fim do ministério de Jesus tem se tornado uma figura de imensa importância. Nos três evangelhos sinóticos seu nome consistentamente encabeça a lista das mulheres que seguiram Jesus, exatamente como Simão Pedro encabeça a lista de seus discípulos homens. E com certeza ela foi a primeira testemunha da tumba vazia depois da Crucificação. Entre todos os seus devotos, foi a Madalena que Jesus primeiro escolheu para revelar sua ressurreição.

Pelos evangelhos Jesus trata Madalena de uma maneira única  e preferencial. Tal tratamento pode muito bem ser induzido o ciúme em outros discípulos. Parece bem óbvio que a tradição posterior se comportou para escurecer o fundo de Madalena. O retrato dela como uma prostituta bem pode ser uma supercompensação de um acompanhamento vingativo, um intento de inpugnar a reputação de uma mulher cuja associação com Jesus era mais próxima do que as deles e assim inpirava uma inveja bem humana. Se outros cristãos, até mesmo durante a vida de Jesus ou depois, invejaram Madalena por seu laço único com o líder espiritual deles, pode muito bem ter sido uma tentativa de diminui-la aos olhos da posteridade. Não há dúvida de que ela foi assim diminuida. Até mesmo hoje, pensa-se nela como uma prostituta, e durante a Idade Média as casas para as prostitutas reformadas eram chamadas Madalenas. Mas os próprios evangelhos mantém o testemunho que a mulher que partilhou seu nome com estas instituições não mereceu ser assim tão estigmatizada. Seja qual for o status de Madalena nos Evangelhos, ela não é a única possível candidata a esposa de Jesus.

Há uma outra, que figura mais proeminentemente no Quarto Evangelho, e que pode ser identifificada como Maria de Betania, a irmã de Marta e de Lázaro. Ela e a família dela eram muito familiares com Jesus. Eles também eram ricos, matendo uma casa em um suburbio em moda de Jerusalém grande o bastante para acomodar Jesus e toda sua entourage. E o que é mais, o episódio de Lázaro revela que a casa continha uma tumba particular; um luxo de certo modo execentrico nos tempos de Jesus, não apenas um sinal de riqueza  mas também um sinal de status atestando conexões aristocráticas. Na Bíblica Jerusalém, como em qualquer cidade moderna, a terra era um premio; e somente poucos podiam sustentar a auto-indulgencia de um sítio funerário particular. Quando, no Quarto Evangelho, Lázaro cai doente, Jesus tinha deixado Betania por uns poucos dias e ficado com seus discípulos no Jordão. Ouvindo o que havia acontecido, ele não obstante se atrasa por dois dias, uma reação muito curiosa e então volta a Betania, onde Lázaro jaz em sua tumba. Na medida em que ele se aproxima, Marta corre e grita ‘Senhor, se você estivesse aqui meu irmão não teria morrido’. (João 11:21) Esta é uma avaliação perplexante, porque deveria a presença física de Jesus necessariamente ter evitado a morte do homem? Mas o incidente é significativo porque Marta, quando sauda Jesus, está sozinha. Esperariamos que a irmã dela, Maria, estivesse com ela. Maria, contudo, está sentada dentro de casa e não sai até que Jesus explicitamente mande que ela saia. O ponto se torna mais claro no evangelho ‘secreto’ de Marcos, descoberto pelo Professor Morton Smith e citado anteriormente neste capítulo. Na narrativa suprimida de Marcos, pareceria que Maria não sai de casa antes que Jesus a instrui para o fazer. E ela é prontamente e zangadamente criticada pelos discípulos, que Jesus ordena que se calem. Seria bastante plausível que Maria estivesse dentro de casa quando Jesus chega em Betania. De acordo com o costume judeu, ele estaria ‘estabelecendo o Shiveh’ sentada em lamentação. Mas porque ela não se une a Marta e encontra Jesus em seu retorno? Há uma outra explicação óbvia. Pelos princípios da lei judaica daquele tempo, uma mulher ‘estabelecendo o Shiveh’ teria sido expressamente proibida de sair da casa exceto pela determinação expressa de seu marido. Neste incidente o comportamento de Jesus e Maria de Betania correspondem perfeitamente  ao tradicional comportamento  de um marido e mulher judeus. Há uma evidência adicional de um possível casamento entre Jesus e Maria de Betania. Ele ocorre, mais ou menos como um non sequitur, no Evangelho de Lucas: Agora que isso veio a passar, na medida em que eles foram, que ele entrou em uma certa vila: e uma certa mulher chamada Marta o recebeu na casa dela. E ela tinha uma irmã chamada Maria, que também sentou-se aos pés de Jesus, e ouviu sua palavra. Mas Marta estava cansada de tanto servir e veio a ele e disse, Senhor, não se importa que minha irmã tenha me deixado servir sozinha? peça a ela que me ajude. E Jesus respondeu e disse a ela, Marta, Marta, você está cuidadosa e perturbada sobre muitas coisas, mas uma coisa é necessária: e Maria foi escolhida para a boa parte, que não deve ser tirada dela. [Lucas 10:38-42]. Do apelo de Marta pareceria aparente que Jesus exerce algum tipo de autoridade sobre Maria. Mais importante ainda, contudo, é a resposta de Jesus. Em um outro contexto não se hesitaria em interpretar esta resposta como uma alusão a um casamento. Em qualquer caso, isso sugere que Maria de Betania era uma discípula tão ávida quanto Maria Madalena.

Há uma razão substancial para ver Madalena e a mulher que unge Jesus como uma só pessoa. Pode esta pessoa, também ser, supomos, a Maria de Betania irmã de Lázaro e de Marta? A Igreja medieval certamente as via como tal, e assim o fez a tradição popular. Muitos eruditos bíblicos hoje concordam. Há abundante evidência que apoie uma tal conclusão. Os Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas citam Maria Madalena como estando presente na Crucificação. Nenhum deles cita Maria de Betania. Mas se Maria de Betania era uma devota discípula como parece ser, sua ausência pareceria ser, ao menos, negligente. É crível que ela, sem mencionar o irmão dela, Lazaro, deixaria de testemunhar este momento crucial da vida de Jesus? Uma tal omissão seria inexplicável e repreensível, a menos, com certeza, que ela estivesse presente e citada pelo outro nome de Maria Madalena. Se Maria de Betania e Maria Madalena são uma só pessoa, não há questão de Maria de Betania ter estado ausente da crucificação. A Madalena pode ser identificada com Maria de Betania. De fato, o autor do Quarto Evangelho é bem explícito sobre este assunto: Agora um certo homem estava doente, chamado Lázaro, de Betania, a cidade e Maria e de sua irmã Marta. [Foi Maria que ungiu o Senhor com o óleo de nardo, e secou seus pés com seus cabelos, cujo irmão Lázaro estava doente]. [João 11:12]. E novamente, um capitulo depois, Então Jesus seis dias antes da páscoa veio a Betania, onde Lázaro tinha estado morto e o levantou dos mortos. Eles fizeram para ele uma ceia e Marta serviu. Mas Lázaro era um deles que se sentou a mesa com ele. Então Maria tomou uma libra de óleo de nardo, um óleo muito caro, e ungiu os pés de Jesus e secou os pés dele com seus cabelos e a casa ficou cheia com o odor da unção [João 12:1-3] Então está claro que Maria de Betania e a mulher que ungiu os pés de Jesus são a mesma mulher. Se não igualmente claro, é certamente provável que esta mulher era também Madalena. Se Jesus de fato foi casado, pareceria ser a única candidata a esposa; uma mulher que aparece repetidamente nos Evangelhos sob nomes diferentes e em diferentes papéis.

O Discípulo Amado

3) Se Madalena e Maria de Betania são a mesma mulher, e se esta mulher era a esposa de Jesus, Lázaro teria sido o cunhado de Jesus. Há alguma evidência nos Evangelhos que sugira que de fato Lázaro desfrutou deste status?

Lázaro não figura pelo nome nos Evangelhos de Lucas, Mateus e Marcos embora sua ‘ressurreição dos mortos’ era originalmente contida em Marcos e então foi retirada. Como resultado, Lázaro apenas é conhecido pela posteridade por meio do Quarto Evangelho – o Evangelho de João. Mas aqui está claro que ele desfruta de algum tipo de tratamento preferencial que não está confinado a ser ‘levantado dos mortos’. Neste e em um número de outros aspectos ele pareceria estar mais perto de Jesus do que os próprios discípulos. E ainda que, muito curiosamente, os evangelhos não o enumerem entre os discípulos. Diferente dos outros discípulos, Lázaro realmente é ameaçado. Segundo o Quarto Evangelho, os sacerdotes chefes, ao resolverem despachar Jesus decidiram matar Lázaro também (João 12:10). Lázaro pareceria ter sido ativo de algum modo em benefício de Jesus, o que é mais do que é dito de alguns dos discípulos. Em teoria isto deveria te-lo qualificado a ser ele proprio um discípulo ainda que ele não seja citado como tal. Nem é dito que ele esteve presente à Crucificação, aparentemente uma amostra desavergonhada de ingratidão em um homem que, muito literalmente, devia a Jesus sua vida. Garantidamente, ele pode ter ido se esconder, dada a ameaça que foi dirigida a ele. Mas é extremamente curioso que não haja nos Evangelhos uma referência posterior a ele. Ele parece ter desaparecido completamente, e nunca é mencionado novamente. Ou ele é? Tentamos examinar este assunto mais profundamente. Depois de ficar na Betania por três meses, Jesus se retira com os seus discípulos para as margens do Jordão, que não fica a muito mais que um dia de distância. Aqui um mensageiro se apressa atrás dele com a notícia de que Lázaro está doente. Mas o mensageiro não se refere a Lázaro pelo nome. Ao contrário, ele trata a pessoa doente como alguém de muito importância especial. ‘Senhor, atente, aquele que vós amais está doente’ [João 11:3]. A reação de Jesus a esta notícia é distintamente estranha. Ao invés de retornar com pressa em socorro do homem que ele supostamente ama, ele alegremente descarta o assunto: ‘Quando Jesus ouviu isto ele disse, esta doença não é para a morte, mas para a glória de deus, que portanto o Filho de Deus possa ser glorificado’. [11:4] E se estas palavras são perplexantes, suas ações ainda são mais: quando ele ouviu que ele estava doente, ele ainda ficou dois dias no mesmo lugar em que estava [11:6]. Em resumo, Jesus continuou no Jordão por mais dois dias a despeito das notícias que recebeu. No final ele resolve retornar a Betania. E então ele flagrantemente contradiz sua declaração anterior ao dizer aos discípulos que Lázaro está morto. Contudo ele ainda não está perturbado. De fato, ele afirma claramente que a morte de Lázaro tinha servido a algum propósito e é para ser levada em consideração: ‘Nosso amigo Lázaro dorme; mas vou, que devo desperta-lo do sono [11;11] E quatro versos mais tarde ele virtualmente admite que o caso inteiro tinha sido cuidadosamente planejado e arranjado em antecipação: ‘E estou feliz por causa de vocês de não estarem lá, para o intento de que vocês possam acreditar, não obstante, vamos com ele’ [11:15]. Se tal comportamento é surpreendente, a reação dos discípulos não o é menos: ‘Então disse Tomás, que é chamado Dídimo, para seus colegas discípulos, vamos também ir que devemos morrer com ele [11:16]. O que isto significa? Se Lázaro está literalmente morto, certamente os discípulos não tem qualquer intenção de se juntar a ele em um suicídio coletivo! E como é que alguém pode responsabilizar pelo descuido de Jesus até a indiferença com que ele ouve sobre a doença de Lázaro e ainda demora em voltar a Betania? As explicações sobre este assunto pareceriam uma mentira, como sugere o Professor Morton Smith, em uma iniciação mais ou menos padrão de uma escola de mistério. Como demonstra o Professor Smith, tais iniciações e seus acompanhantes rituais eram bastante comuns na Palestina ao tempo de Jesus. Elas frequentemente compreendiam uma morte simbólica e um renascimento, que era chamado por estes nomes; o sequestro em uma tumba, que se torna o útero para o renascimento do acólito; um rito, que agora é chamado de batismo e é uma imensão simbólica na água; e uma taça de vinho que foi identificada com o sangue do profeta ou mágico presidindo a cerimonia. Ao beber de uma tal taça, o discipulo consumava uma união simbólica com seu mestre, o discípulo tornando-se misticamente ‘um’ com o mestre. Bastante significativamente, é precisamente nestes termos que São Paulo explica o propósito do batismo. E o próprio Jesus usa os mesmos termos na última ceia. Como ressalta o Professor Smith, a carreira de Jesus é muito similar aquelas de outros mágicos, curadores, fazedores de maravilhas e fazedores do milagres do período. Pelo Quarto Evangelho, por exemplo, ele consistentemente se encontra com pessoas que ele está para curar, ou fala discretamente com elas sozinhas. Depois, ele frequentemente pede que elas não divulguem o que transpirou. E até onde diga respeito ao público em geral, ele fala habitualmente em alegorias e parábolas. Pareceria, então, que Lázaro, durante a estada temporária de Jesus no Jordão, tinha embarcado em um típico rito de iniciação, já que tais ritos tradicionalmente compreendiam uma ressurreição simbólica e um renascimento. A esta luz está o porque os discípulos desejaram ‘morrer com ele’ e isso se torna perfeitamente compreensível para a complacência de Jesus que de outro modo não teria sido compreensível sobre o caso inteiro. Garantidamente, Marta e Maria pareceriam estar em genuino desgosto como um número de outras pessoas. Msa elas podem muito bem ter entendido mal ou mal construído o ponto do exercício. Ou talvez algo parecesse ter saído errado com a iniciação e uma ocorrencia não comum. Ou talvez o caso todo foi uma peça talentosamente concebida de encenação, cuja verdadeira natureza e propósito era cohecida por apenas uns poucos.

Se o incidente de Lázaro reflete uma iniciação ritual, ele claramente está recebendo um tratamento muito preferencial. Entre outras coisas, ele está aparentemente sendo iniciado antes de qualquer discípulo que, de fato, pareceram decididamente invejosos de seu privilégio. Mas porque este homem desconhecido da Betania deveria ser isolado? Porque ele deveria passar por uma experiência a que os discípulos estavam tão ávidos de se unirem a ele? Porque deveria mais tarde, heréticos misticamente orientados como os carpocratianos ter dado tanta importância a este assunto? E porque deveria o inteiro episódio ter sido expurgado do Evangelho de Marcos? talvez porque Lázaro fosse ‘aquele que Jesus amava’ mais do que os outros discípulos. Talvez porque Lázaro tivesse alguma ligação especial com Jesus – como aquela de cunhado – talvez ambos. É possível que Jesus tenha vindo a conhecer e amar Lázaro precisamente porque Lázaro fosse seu cunhado. Em qualquer caso o amor é repetidamente ressaltado. Quando Jesus volta da Betania e chora, ou finge chorar, a morte de Lázaro, os presentes ecoam as palavras do mensageiro: ‘Atente para como ele o amou!'(João 11:36). O autor do Evangelho de João, o evangelho no qual figura a história de Lázaro, em nenhum ponto o identifica [o autor] como João. De fato, ele não dá afinal seu nome. Ele contudo, se refere a ele próprio por uma apelação mais distintiva. Ele constantemente chama a si próprio de ‘o discípulo amado’, ‘aquele que Jesus amou’, e claramente implica que desfruta de um status único e preferido sobre seus camaradas. Na última Ceia, por exemplo, ele flagrantemente apresenta sua proximidade pessoal de Jesus, e é apenas a ele que Jesus confia os meios pelos quais ocorrerá a traição: Agora estava inclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, que Jesus amou. Simão Pedro entretanto o chamou, que ele devia perguntar quem devia ser aquele do qual ele falou. Ele então repousando no peito de Jesus disse a ele, Senhor, quem é este? E Jesus respondeu, Ele é este, a quem eu devo dar um pão [ou pão molhado na sopa] quando eu o tiver mergulhado. E quando ele mergulhou o pão, ele o deu a Judas Iscariotes, o filho de Simão [João 13:23-6]. Quem é este discípulo amado sobre cujo testemunho o Quarto Evangelho é baseado? Toda a evidência sugere que ele de fato fosse Lázaro, ‘aquele que Jesus amou’. Pareceria então que Lázaro e o discipulo amado eram a mesma pessoa e que Lázaro seja a identidade real de ‘João’. Este conclusão pareceria ser quase inevitável. Nem estamos sós em alcança-la.

Segundo o  Professor William Brownlee, um principal erudito bíblico e um dos mais importantes especialistas nos Pergaminhos do Mar Morto: ‘Da evidência interna do Quarto Evangelho… a conclusão é que o discípulo amado é Lázaro de Betania.’ Se Lázaro e o discípulo amado são a mesma pessoa isto explicaria um número de anomalias. Explicaria o desaparecimento misterioso de Lázaro das narrativas escriturais, e sua aparente ausência durante a Crucificação.  Então se Lázaro e o discipulo amado são a mesma pessoa Lázaro teria estado presente na Crucificação. E teria sido a Lázaro que Jesus confiou o cuidado de sua mãe. As palavras com as quais ele fez isso podem bem ser as palavras de um homem se referindo a seu cunhado: Quando Jesus portanto viu sua mãe, e o discípulo de pé, que ele amou, ele disse a sua mãe, Mulher, atenta a teu filho! Então ele disse ao discípulo: Atenta a tua mãe! E a partir daquela hora este discípulo a tomou em sua  própria casa. [João 19:26-7]. A última palavra desta citação é particularmente reveladora. Porque os outros discípulos deixaram suas casas na Galiléia e, para todos os intentos e propósitos, estão sem casa. Lázaro, contudo, tem uma casa que é uma casa crucial na Betania, onde o próprio Jesus costumava ficar. Depois que é dito que os sacerdotes decidiram sobre a morte dele, Lázaro não é novamente mencionado pelo nome. Ele pareceria desaparecer completamente. Mas se ele de fato foi o discípulo amado, ele não desapareceu, e seus movimentos e atividades podem ser traçados no Quarto Evangelho. E aqui, também, há um curioso episódio que exige exame. No fim do Quarto Evangelho Jesus prevê a morte de Pedro e instrui Pedro a ‘segui-lo’: Então Pedro, se virando, vê o discípulo que Jesus amou seguindo: que também está inclinado em seu peito na ceia, e disse, quem é ele que o trai? Pedro vendo-o disse a Jesus, e o deve este homem fazer? Jesus disse para ele, Se eu disser que ele tarde até que eu venha, o que é que eu lhe digo? você me siga. Então foi dizendo no exterior entre os gentios, que este discípulo não deve morrer ainda que Jesus não o diga a ele, ele não deve morrer,  mas, se eu o demoro ainda que eu venha, o que é isto para você? Este é o discípulo que testemunhou estas coisas; e sabemos que seu testemunho é verdadeiro [João 21:20-4]. A despeito de sua fraseologia ambígua, a importância desta passagem pareceria ser clara. O discipulo amado tinha sido instruído expicitamente a aguradar o retorno de Jesus. E o próprio texto é bem enfático em ressaltar que este retorno não seria entendido simbolicamente em um sentido de uma segunda vinda. Ao contrário, isto implica em algo muito mais mundano. Isto implica que Jesus depois de despachar seus seguidores pelo mundo, deve logo retornar com algums comissão especial para o discípulo amado. Isto é quase como se eles tivessem arranjos específicos, concretos para concluir e planos a fazer. Se o discípulo amado é Lázaro, tal conluio, desconhecido dos outros discípulos, pareceria ter um certo precedente. Na semana antes da Crucificação Jesus providencia para fazer sua entrada triunfal em Jerusalém; e para o fazer de acordo com as profecias sobre um Messias do Velho Testamento, ele deve estar montado em um asno [Zacarias 9:9-10]. Portanto um asno deve ser procurado. No Evangelho de Lucas Jesus despacha dois discípulos a Betania, onde, ele diz a eles, eles encontrarão um asno aguardando-os. Eles são instruidos a dizerem ao proprietário do animal que ‘O Mestre precisa dele’. Quando tudo ocorre exatamente como Jesus previu, isto é visto como um tipo de milagre. Mas realmente há algo de extraordinário quanto a isso? Isto meramente não atesta planos cuidadosamente feitos? E o homem da Betania que fornece o asno no tempo indicado não seria Lázaro?  Esta certamente é a conclusão do Doutor Hugh Schonfield.

Ele argumenta convincentemente que o arranjo para a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém foi confiado a Lázaro, e que os outros discípulos não tinham conhecimento disso. Se este de fato foi o caso, isto atesta que existia um círculo interno de seguidores de Jesus, um núcleo de colaboradores, co-conspiradores ou membros da família que, sozihos, eram admitidos na confiança de seu mestre. O Doutor Schonfield acredita que Lázaro é parte exatamente de um tal círculo. E sua crença concorre com a insistência do Professor Smith sobre o tratamento preferencial que Lázaro recebe em virtude de sua iniciação, ou morte simbólica, em Betania. É possível que Betania fosse um centro de culto, um lugar reservado para os rituais únicos que Jesus presidiu. Se assim o foi, isto pode explicar a ocorrência enigmática de Betania em outros lugares em nossa investigação. O Priorado de Sião tem chamado seu ‘arco’ em Rennes-le-Chateau de Betania. E Sauniere, aparentemente por solicitação do Priorado de Sião, tinha batizado sua vila de Vila Betania. Em qualquer caso, o conluio que parece entregar um asno do homem da Betania pode bem estar se apresentando novamente no fim misterioso do Quarto Evangelho quando Jesus ordena ao discípulo amado que se retarde até que ele volte. Pareceria que ele e o discípulo amado tem planos a fazer. E não é não razoável assumir que estes planos incluissem o cuidado da família de Jesus. Na Crucificação ele já havia confiado sua mãe a custória do discípulo amado. Se ele tivesse uma esposa e filhos, eles, presumivelmente, teriam sido confiados ao discípulo amado também. Isto, com certeza, seria de todo mais plausível se o discípulo amado fosse de fato seu cunhado. Segundo uma tradição muito posterior, a mãe de Jesus eventualmente morreu o exílio em Éfeso de onde é dito que subsequentemente saiu o Quarto Evangelho. Não há indicação, contudo, que o discípulo amado assistiu a mãe de Jesus por toda a vida dela. Segundo o Doutor Schonfield, o Quarto Evangelho provavelmente não foi composto em Efeso, somente retrabalhado, revisado e editado por um ancião grego lá que fez com que ele se conformasse ás suas próprias idéias. Se o discípulo amado não foi para Efeso o que aconteceu com ele? Se ele e Lázaro são a mesma pessoa a questão pode ser respondida, porque a tradição é muito explícita sobre o que aconteceu com Lázaro. Segundo a tradição, e certos escritores iniciais da Igreja, Lázaro, Madalena, Marta e José de Arimatéia e uns poucos outros foram transportados por barco para Marselha. Aqui José de Arimatéiws supostamente foi consagrado por São Felipe e enviado para a Inglaterra, onde ele estabeleceu uma igreja em Glastonbury. Lázaro e Madalena, contudo, são ditos terem permanecido no Gaul. A tradição mantém que Madalena morreu em Aix-en-Provence ou Saint Baume, e Lázaro em Marselha depois de fundar o primeiro bispado lá. Um de seus companheiros, Saint Maximin, é dito ter fundado o primeiro bispado em Narbonne. Se Lázaro e o discípulo amado são a mesma pessoa então haveria uma explicação para o desaparecimento conjunto. Lázaro, o verdadeiro discípulo amado, pareceria ter sido levado para o exterior a Marselha, juntamente com sua irmã que, como sustenta a tradição, estava levando com ela o Santo Gral, o ‘sangue real’. E os arranjos desta escapada e do exílio parecem terem sido feitos pelo próprio Jesus, juntamente com seu discípulo amado, no fim do Quarto Evangelho.

A Dinastia de Jesus

4) Se Jesus de fato foi casado com Madalena, pode tal casamento ter servido a algum propósito especifico? Em outras palavras, pode isso ter sido algo mais do que um casamento convencional? Pode isto ter sido uma aliança dinástica de algum tipo, com repercussões e implicações políticas? Pode uma linhagem sanguínea resultante de tal casamento, em resumo, ter completamente garantido a apelação de linhagem real? O Evangelho de Mateus afirma explicitamente que Jesus era do sangue real de um rei genuíno, um descendente linear de Salomão e David. Se isto é verdade, ele teria desfrutado de uma legítima pretensão ao trono de uma Palestina unida e talvez até mesmo uma declaração legítima. E a inscrição afixada na cruz teria sido muito mais do que uma mera zombaria sádica porque de fato Jesus seria “Rei dos Judeus’. Sua posição, em muitos aspectos, teria sido análoga aquele de, vamos dizer, Bonnie Prince Charlie em 1745. E então ele teria engendrado a oposição que ele precisamente fez em virtude de seu papel de um rei sacerdote que possivelmente pudesse unificar seu país e o povo judeu, então oferecendo uma seria ameaça tanto a Herodes quanto a Roma. Certos eruditos modernos bíblicos tem argumentado que o famoso ‘massacre dos inocentes’ de Herodes nunca de fato ocorreu. Até mesmo se ele ocorreu, não foi provavelmente das proporções assustadoras atribuidas a ele pelos evangelhos e subsequente tradição. E ainda que a própria perpetuação da história pareceria atestar a algo de genuino alarme da parte de Herodes, alguma ansiedade muito real sobre ser deposto. Garantidamente, Herodes era um governante extremamente inseguro, odiado por seus súditos escravizados e mantido no poder apenas pelas coortes romanas. Mas tão precária quanto possa ter sido sua posição, ela não pode, falando-se realisticamente, ter sido seriamente ameaçada por rumores de um salvador místico ou espiritual do tipo que naquele tempo de qualquer modo abundava na Terra Santa. Se Herodes de fato estivesse preocupado, somente pode ter sido por uma ameaça política muito concreta e real; uma ameaça que oferecesse uma petição mais legítima ao trono do que a sua própria, e que deveria reunir um substancial apoio popular. O Massacre dos Inocentes pode mesmo nunca ter ocorrido, mas as tradições relacionadas a isso refletem alguma preocupação da parte de Herodes sobre a declaração de um rival, e, muito possivelmente, alguma ação intentada para deter ou evitar isso. Uma tal declaração certamente teria que ser de natureza política. E ele devia ser garantida sendo levada seriamente. Sugerir que Jesus desfrutava de uma tal declaração é, com certeza, desafiar a imagem popular do ‘pobre carpinteiro de Nazaré’. Mas há razões persuasivas para assim o fazer. Em primeiro lugar, não está absolutamente certo que Jesus fosse de Nazaré. Jesus de Nazaré de fato é uma corrupção, ou uma má tradução, de Jesus o Nazarita ou Jesus o Nazareno ou talvez Jesus de Genesaré. Em segundo lugar, há uma dúvida considerável se a cidade de Nazaré de fato existia no tempo de Jesus. Ela não aperece nos mapas romanos, documentos ou registros. Ela não é mencionada no Talmud. Ele não é mencionada, ainda menos associada a Jesus, em qualquer dos escritos de São Paulo – que foram, afinal, compostos antes dos evangelhos. E Flavius Josephus, o mais importante cronista do período, que comandou tropas na Galiléia e listou as cidades da província também não faz menção a Nazaré. Pareceria, em resumo, que Nazaré não aparece como uma cidade até algum tempo depois da revolta de 68-74 e que o nome de Jesus tornou-se associado a ela em virtude da confusão semantica acidental ou deliberada que caracteriza tanto do Novo Testamento. Se Jesus era ou não de Nazaré não há qualquer indicação, bem como não há também indicação que ele fosse um pobre carpinteiro. Certamente nenhum dos evangelhos o retrata como tal. De fato, a evidência deles sugere muito ao contrário. Ele, por exemplo, parece ser bem educado. Ele parece ter recebido treinamento para ser rabino, e ter se ligado muito frequentemente a pessoas ricas e influentes como o nobre José de Arimatéia e Nicodemos. E o casamento de Canaã pareceria ter o testemunho posterior do status e posição social de Jesus. Esta casmento não parece ter sido um festival humilde e modesto realizado por pessoas comuns. Ao contrario, ele tem todas as marcas de uma extravagante união aristocrática, um assunto da alta sociedade, tendo comparecido várias centenas de convidados. Há abundantes serventes, por exemplo, que se apressam em atender as solicitações de Maria e de Jesus. Há um ‘mestre da festa’ ou ‘mestre de cerimonias’ que, no contexto, teria sido um tipo de mordomo chefe ou talvez até mesmo ele próprio um aristocrata. Mais positivamente ainda há uma quantidade enorme de vinho. Quando Jesus ‘transmuta’ a água em vinho ele produz, segunda a Bíblia das Boas Novas, não menos que seis litros o que é mais do que 800 garrafas! E isto em adição ao que já havia sido consumido. Todas as coisas consideradas, o casamento em Canaã pareceria ter sido uma cerimonia suntuosa de nobres ou da aristocracia. Até mesmo se este casamento não fosse o do próprio Jesus, sua presença nele, e a de sua mãe, sugeriria que eles eram membros da mesma casta. Isto por si só explicaria a obediência dos serventes a eles. Se Jesus era um aristocrata, e se ele era casado com Madalena, é provável que ela tivesse uma posição social comparável. E de fato, ela pareceria assim o ser.  Como temos visto, ela tinha entre seus amigos a esposa de um importante oficial da côrte de Herodes.

Como temos descoberto ao traçar as referências nos Documentos do Priorado, Jerusalém, a Cidade Santa, capital da Judéia tinha originalmente sido propriedade da Tribo de Benjamim. Subsequentemente os benjamitas foram dizimados em sua guerra com outras tribos de Israel, e muitos deles foram para o exílio, embora como o sustentam os Documentos do Priorado, certos deles permaneceram. Um descendente destes remanescentes era São Paulo, que afirma explicitamente ser um benjamita. [Romanos 11:1] A despeito do conflito deles com as outras tribos de Israel, a Tribo de Benjamim parece ter desfrutado de algum status especial. Entre outras coisas, ela forneceu a Israel seu primeiro rei, Saul, ungido pelo profeta Samuel e com sua primeira casa real. Mas Saul eventualmente foi deposto por David, da tribo de Judá. E David não apenas privou os benjamitas de sua petição do trono. Ao estabelecer a sua capital em Jeeusalém ele também os privou de sua herança por direito.  Segundo todas as narrativas do Novo Testamento, Jesus era da linhagem de David e também era um membro da tribo de Judá. Aos olhos dos benjamitas isto deve te-lo tornado, ao menos em algum sentido, um usurpador. Ua tal objeção contudo seria superada se ele se casasse com uma mulher benjamita. Um tal casamento teria constituido uma importante aliança dinástica e uma cheia de consequência política. Não apenas teria fornecido a Israel um poderoso rei-sacerdote. Ele teria servido para encorajar a unidade e o apoio popular, e consolidado fossem quais fossem as declarações ao trono que Jesus pudesse ter possuido. Ela também teria realizado a função simbólica de devolver Jerusalém aos seus proprietários por direito. No Novo Testamento não há indicação da afiliação tribal de Madalena. Nas histórias subsequentes contudo, ela é dita ter sido de linhagem real. E há outras tradições que afirmam explicitamente que ela era da Tribo de Benjamim. A este ponto, os contornos de um cenário histórico coerente começam a ser discerníveis. E até onde podemos ver, pode fazer um real sentido político. Jesus seria um rei-sacerdote da linhagem de David que possuia uma declaração legítima ao trono. Ele teria consolidado sua posição por um simbolicamente importante casamento dinástico. Ele então teria sido colocado na posição de unificar seu país, mobilizar a populaça por trás dele, expulsar os opressores, depor a marionete abjeta.

A Crucificação

5) Como as realizações de Gandhi dão testemunho, um líder espiritual, dado o suficiente apoio popular, pode oferecer uma ameaça a um regime existente. Mas um homem casado, com uma justa declaração ao trono e filhos que pudesem estabelecer uma dinastia, é uma ameaça de natureza decidamente mais séria. Há qualquer evidência nos evangelhos que Jesus era de fato visto pelos romanos como uma tal ameaça? Durante sua entrevista com Pilatos, Jesus é repetidamente chamado de Rei dos Judeus. De acordo com as instruções de Pilatos , uma inscrição de seu titulo é afixada na cruz. Como argumenta o Professor S. G. F. Brandon da Universidade de Manchester, a inscrição afixada na cruz deve ser vista como genuina, tanto quanto algo no Novo Testamento. Em primeiro lugar ela figura, virtualmente sem variação, em todos os quatro evangelhos. Em segundo lugar, este é um episódio tão comprometedor e embaraçoso para que os editores subsequentes o tenham inventado. No Evangelho de Marcos, Pilatos, depois de interrogar Jesus, pergunta aos dignatários reunidos, ‘O que vocês então pensam que devo fazer a aquele que vocês chamam de Rei dos Judeus’ [Marcos 15:12]. Isto parece indicar que ao menos alguns judeus realmente se referiam a Jesus como rei deles. Ao mesmo tempo, contudo, em todos os quatro evangelhos Pilatos também atribui a Jesus este título. Não há razão para supor que ele o fizesse ironicamente ou com zombaria. No Quatro Evangelho ele insiste nisso muito claramente e seriamente, a despeito de um coro de protestos. Nos três evangelhos sinóticos, sobretudo, o próprio Jesus reconheceu sua declaração quanto ao título: E Pilatos perguntou a ele: Você é o rei dos judeus? E ele respondeu, ‘Tu o disseste’ [Marcos 15:2]. Em inglês a tradução desta resposta pode soar ambivalente, talvez deliberadamente. No grego original, contudo, sua importância é bem inequívoca. Ela só pode ser interpretada corretamente como “Você o disse corretamente’. E então a frase é interpretada seja onde for que ela apareça na Bíblia. Os Evangelhos foram compostos durante e depois da revolta de 68-74 quando o judaísmo tinha efetivamente cessado de existir como uma força social, politica e militar organizada. E o que é mais, os evangelhos foram compostos para uma audiência greco-romana para quem eles tinham, por necessidade, que serem aceitáveis. Roma tinha acabado de lutar uma guera custosa e amarga contra os judeus. Em consequência, era perfeitamente natural colocar os judeus no papel de vilões. No despertar da revolta judaica, sobretudo, Jesus não podia posivelmente ser retratado como uma figura política e uma figura que de algum modo estivesse ligada a agitação que culminou na guerra. Finalmente o papel dos romanos no julgamento de Jesus e a execução toinham que ser ‘limpos’ e apresentados o mais simpaticamente possível. Então Pilatos é apresentado nos evangelhos como um homem decente, responsável e tolerante que consente apenas relutantemente com a Crucificação. Mas a despeito destas liberdades tomadas com a história, a verdadeira posição de Roma neste caso pode ser discernida. Segundo os evangelhos, Jesus é inicialmente condenado pelo sinédrio, o Conselho dos anciões judeus que então o levam a Pilatos e pedem ao Procurador para se pronunciar contra ele. Historicamente isto não faz qualquer sentido. Nos três evangelhos sinóticos Jesus é preso e condenado pelo sinédrio na noite de Páscoa judaica. Mas pela lei judaica o sinédrio é proibido de se reunir durante a Páscoa judaica. Pela lei judaica o sinédrio era proibido de se reunir a noite em casas particulares ou em qualquer ugar fora dos precintos do Templo. Nos evangelhos o sinédrio aparentemente não está autorizado a dar uma sentença de morte e isto ostensivamente seria a razão para levarem Jesus a Pilatos. Contudo, o sinédrio tinha autorização para dar sentenças de morte por apedrejamento, se não por crucificação. Se o sinédrio tivesse querido dispor de Jesus, portanto, ele poderia te-lo sentenciado a morte por apedrejamento por sua própria autoridade. Não haveria qualquer necessidade de ir a Pilatos. Há numerosas outras tentativas pelos autores dos evangelhos de retirar a culpa e a responsabilidade de Roma. Uma delas é a aparente oferta de Pilatos de uma dispensa por meio de libertar um prisioneiro da escolha da multidão. Segundo Mateus e Marcos este era um costume do festival da Páscoa. De fato, não existiu tal coisa. As autoridades modernas concordam qe tal política nunca existiu da parte dos romanos e que a oferta de libertar Jesus ou Barrabás é completa ficção. A relutância de Pilatos em condenar Jesus, e sua pavorosa submissão a pressão efevescente da multidão e na realidade impensável para um Procurador Romano e especialmente um Procurador tão rude quanto Pilatos, para que ele securvasse a multidão. Novamente, o propósito de tal ficcionalização é exoneraros romanos e transferir a culpa aos judeus e asim tornar Jesus aceitável para uma audiência romana. É possivel, com certeza, que nem todos os judeus fossem inteiramente inocentes. Até mesmo se administração romana temesse um rei-sacerdote com uma declaração ao trono, ela não embarcaria abertamente em atos de provocação que poderiam precipitar uma rebelião em escala completa. Certamente teria sido mais expediente para Roma se o rei-sacerdote fosse ostensivamente traído pelo seu próprio povo. Então é concebível que os romanos empregasem certos saduceus, vamos dizer, como agentes provocadores. Mas até mesmo se este foi o caso, permanece o fato inescapável que Jesus foi uma vítima da administração romana, uma côrte romana, uma sentença romana, e uma execução romana que, em forma, era reservada exclusivamente para os inimigos de Roma. Ela não era usada para crimes contra o judaismo e não foi por eles que Jesus foi crucificado, mas por crimes contra o império.

Quem era Barrabás?

6) Há alguma evidência nos evangelhos de que Jesus realmente teve filhos? Nada existe de explícito. Mas os rabinos são esperados, como matéria de fato, terem filhos; e se Jesus era um rabino, teria sido mais do que não usual para ele permanecer sem filhos. De fato, teria sido mais do que não usual ele permanecer sem filhos, sendo um rabino ou não. Garatidamente, estes argumentos, por eles próprios, não constituem evidência. Mas há uma evidência mais concreta e de um tipo mais específico. Consiste neste indivíduo fugidio que figura nos evangelhos como Barrabás, ou, mais precisamente, como Jesus Barrabás porque é por este nome que ele é identificado no Evangelho de Mateus. Se nada mais, a coincidência é surpreendente. Os eruditos modernos estão incertos sobre a derivação e significado de ‘Barrabás’. Jesus Barrabás pode ser uma corrupção de Jesus Berabbi. Berabbi era um título reservado aos mais altos e estimados rabinos e era colocado depois do nome do rabino. Jesus Berabbi pode originalmente ter sido Jesus bar Rabbi – Jesus o filho do rabino –     Não há registro em algum lugar do próprio pai de Jesus ter sido um rabino. Mas se Jesus tivesse um filho com o seu nome, este filho seria de fato sido chamado Jesus bar Rabbi. Há uma outra possibilidade também. Jesus Barrabás pode derivar de Jesus bar Abba e já que Abba quer dizer pai em hebraico, Brrabás então significaria filho do pai – uma designação muito vaga a menos que o ‘pai’ seja de algum modo especial. Se o pai era de fato o ‘pai celestial’ então Barrabás pode se referir ao próprio Jesus. Por outro lado, se o próprio Jesus é o pai Barrabás se referiria ao filho dele. Seja qual for o significado e a derivação do nome, a figura de Barrabás é extremamente curiosa. E mais que seconsidere o incidente que o envolve, mais aparente se torna que algo irregular estava acontecendo e alguémestava tentando esconder algo. Em primeiro lugar o nome de Barrabás, como o de Madalena, parece ter sido submetido a um sistemático e deliberado obscurecimento. Exatamente como a tradição popular apresenta Madalena como uma prostituta, ela apresenta Barrabás como um ‘ladrão’. Mas se Barrabás fose qualquer coisa que seu nome sugere, ele dificilmente teria sido um ladrão comum. Porque então obscurecer seu nome? A menos que ele fosse algo mais na realidade, algo que os editores do novo testamento não queriam que a posteridade soubesse. Falando estritamente, os próprios evangelhos não descrevem Barrabás como um ladrão. Segundo Marcos e Mateus ele é um prisioneiro político, um rebelde acusado de assassinato e inssurreição. No Evangelho de Mateus, contudo, Barrabás é descrito como ‘um prisioneiro notável’. E no Quarto Evangelho Barrabás é dito ser, em grego um ‘les tai’ [João 18:40]. Isto pode ser traduzido como um ‘assaltante ou bandido’. Neste contexto histórico, contudo, isto significava algo bem diferente. Lestes era de fato um termo habitualmente aplicado pelos romanos aos Zelotes – militantes revolucionários nacionalistas que de tempos em tempos haviam fomentado o levante social. Já que Lucas e Marcos concordam que Barrabás é culpado de inssurreição, e que Mateus não contradiz esta avaliação, é seguro concluir que Barrabás era um Zelote. Mas esta não é a única informação disponível sobre Barrabás. Segundo Lucas, ele tinha recentemente estado envolvido em um distúrbio ou sedição na cidade. A história não faz menção a qualquer turbilhão em Jerusalém naquele tempo. Os evangelhos, contudo, fazem. Segundo os evangelhos, tinha havido um  distúrbio cívico em Jerusalém, somente uns poucos dias antes de Jesus e seus seguidores virarem as mesas dos emprestadores de dinheiro no Templo. Foi este o distúrbio no qual Barrabás esteve envolvido e por causa disso ele foi preso? Certamente parece provável. E neste caso há uma conclusão óbvia de que Barrabás era um da entourage de Jesus. Segundo os eruditos modernos, o costume de libertar um prisioneiro na páscoa judaica não existiu. Mas até mesmo se tivesse existido, a escolha de Barrabás contra Jesus não faz sentido. Se Barrabás era de fato um criminoso comum, culpado de assassinato, porque as pessoas escolheriam que a sua vida fosse poupada? E se ele fosse de fato um revolucionário ou Zelote, dificilmente seria provável que Pilatos  tivesse libertado um personagem tão potencialmente perigoso, muito mais do que um inofensivo visionário que estava bem preparado, ostensivamente, ‘a dar a Cesar o que é de Cesar’. De todas as discrepâncias, inconsistências e improbabilidades nos evangelhos, a escolha de Barrabás é a mais surpreendente e inexplicável. Algo claremente pareceria estar por trás de uma fabricação tão tortuosa e confusa. Um erudito moderno tem proposto uma explicação intrigante e plausível. Ele sugere que Barrabás era o filho de Jesus e Jesus um rei legítimo. Se este fosse o caso, a escolha de Barrabás subitamente faria sentido. Deve-se imaginar uma populaça oprimida confrontada com o iminente extermínio de seu governante espiritual e político, o Messias, cujo advento tinha anteriormente tanto sido prometido. Em tais circunstâncias, não seria a dinastia mais importante do que o indivíduo? Não seria a preservação da linhagem real ser de capital importancia e tomar precedência sobre tudo mais?

O povo, confrontado com tal escolha pavorosa não preferiria ver seu rei sacrificado para que sua prole e sua linhagem pudesse sobreviver? Se a linhagem sobrevivese, ao menos restaria uma esperança para o futuro. Certamente não é impossível que Barrabás fosse o filho de Jesus. Jesus geralmente é acreditado ter nascido por volta do ano 6 AC. A crucificação ocorreu não mais tarde que o ano de 36, o que faz de Jesus no máximo, ter 42 anos de idade. Mas se ele morreu aos 33 anos ele ainda pode ter tido um filho. De acordo com os costums daquele tempo, ele deveria ter se casado tão cedo quanto aos 16 ou 17 anos. Mas ainda que ele não tenha se casado até os 20 anos ele pode ter tido um filho que então estivesse com 13 anos, que, segundo o costume judaico, teria sido cosiderado um homem. E, com certeza, bem pode ter havido outros filhos também. Tais filhos podem ter sido concebidos em qualquer ponto, até mesmo a aproximadamente um dia da crucificação.

A Crucificação em Detalhe

7) Jesus pode bem ter tido un número de filhos antes da crucificação. Se ele sobreviveu a crucificação, contudo, a probabilidade de prole seria ainda posteriormente aumentada. Se há qualquer evidência que Jesus de fato sobreviveu à crucificação ou que ela foi de algum modo uma fraude? Dado o retrato dele nos evangelhos, é inexplicável afinal que Jesus fosse crucificado. Segundo os evangelhos, seus inimigos eram os intereses judeus estabelecidos em Jerusalém. Mas tais inimigos, se eles de fato existiram, poderiam te-lo apedrejado até a morte por sua própria conta sem envolver Roma neste assunto. Segundo os evangelhos, Jesus não tinha uma briga particular com Roma e não violou a lei romana. Ainda que ele fosse punido pelos romanos de acordo com as leis romanas e os procedimentos romanos. E ele foi punido com a crucificação, que era uma penalidade exclusivamente reservada para aqueles culpados de crimes contra o império. Se Jesus foi de fato crucificado, ele não pode ter sido tão apolítico quanto os evangelhos o apresentam. Ao contrário, ele deve, por necessidade, ter feito algo para provocar Roma em oposição à ira judaica. Seja o que for que trespasse do porque Jesus foi crucificado, sua morte aparente na cruz é repleta de inconsistências. Há, muito simplesmente, nenhuma razão porque sua crucificação, como os evangelhos a apresentam, deva ter sido fatal. A afirmação que assim o foi merece um exame mais estreito. A prática romana da crucificação seguia procedimentos muito precisos. Depois da sentença a vítima seria flagelada [chicoteada] e consequentemente enfraquecida pela perda de sangue. Seus braços esticados então são fixados por tiras de couro mas algumas vezes por pregos a um pesado raio de madeira colocado horizontalmente através de seu pescoço e ombros; Sustentado por este raio ele seria então levado ao lugar da execução. Aqui, com a vítima assim pendurada, o raio seria levantado e anexado a um posto ou estaca vertical. Assim pendurado pelas mãos, seria impossível para a vítima respirar a menos que seus pés também fossem fixados na cruz, assim habilitando-os a pressiona-los para baixo e aliviar a pressão no peito. Mas, a despeito da agonia, um homem suspenso com seus pés fixados e especialmente um homem bem proporcionado e saudável geralmente sobrevivia ao menos por um dia ou dois. De fato, frequentemente demorava tanto quanto uma semana para que a vítima morresse de exaustão, de sede ou, se os pregos eram usados, de envenenamento do sangue. A agonia atenuada podia terminar mais rapidamente ao quebrar as pernas ou joelhos da vítima o que, nos evangelhos os executores de Jesus estavam para fazer antes que fossem detidos. Quebrar as pernas ou joelhos não era um tormento sádico adicional. Ao contrário, era um ato de misericórdia, um golpe de graça, que causava uma morte muito rápida. Sem nada a sustenta-lo, a pressão no peito da vítima seria intolerável e ele rapidamente se asfixiaria. Há um consenso entre os eruditos modernos que o Quarto Evangelho repousa na narrativa do testemunho ocular da crucificação. Segundo o quarto evangelho, os pés de Jesus foram afixados na cruz, assim aliviando a pressão sobre os músculos de seu peito e suas pernas não foram quebradas. Ele deve portanto, ao menos em teoria, ter sobrevivido por uns bons dois ou três dias. Ainda que ele estivesse na cruz apenas por umas poucas horas antes de ser declarado morto. No evangelho de Marcos até mesmo Pilatos fica atonito pela rapidez com que a morte ocorreu. [Marcos 15:44]. Qual deve ter sido a causa da morte? Não a lança em seu quadril, porque o quarto evangelho mantém que Jesus já estava morto quando este ferimento foi inflingido a ele. Há apenas uma combinação de exaustão, fadiga, debilitação geral e o trauma do espancamento. Mas até mesmo estes fatores não teriam se mostrado fatais tão cedo. É possível, com certeza, que eles desprezaram as leis da fisiologia, um homem algumas vezes morre de uma única coisa relativamente inócua. Mas ainda assim haveria algo suspeito sobre o caso. Segundo o quarto evangelho, os executores de Jesus estavam para quebrar as pernas dele, assim acelerando sua morte. Porque esta preocupação se ele já estava moribundo? Em resumo, não haveria qualquer motivo para quebrar as pernas de Jesus a menos que de fato a morte não tivesse iminente. Nos evangelhos a morte de Jesus ocorre em um momento que é conveniente demais, uma oportunidade feliz demais. Ela ocorre exatamente no momento que evita que seus executores quebrem suas pernas. E fazendo assim, ela permite que se cumpra uma profecia do Velho Testamento.

As autoridades modernas concordam que Jesus, bem desavergonhadamente, modelou e talvez viveu sua vida de acordo com tais profecias, que anunciavam a vinda do Messias. Foi por esta razão que um asno foi procurado da Betania para que ele pudesse fazer sua entrada triunfal em Jerusalém. E os detalhes da crucificação parecem similarmente engendrados para encenar as profecias do Velho Testamento. Em resumo a aparente e oportuna morte de Jesus, que em um tempo mínimo, o salva de certa morte e o possibilita de cumprir uma profecia é, para dizer o mínimo, suspeita. Ela é perfeita e precisa demais para ser coincidência. Ela deve ser uma interpolação posterior ao fato ou, parte de plano cuidadosamente concebido. Há muita evidência adicional que sugere tratar-se deste último. No quarto evangelho Jesus, pendurado na cruz, declara ter sede. Em resposta a sua queixa é oferecido a ele uma esponja alegadamente embeida em vinagre; um incidente que também ocorre nos outros evangelhos. Esta esponja é interpretada como um outro ato de zombaria sádica. Mas era isso realmente? O vinagre ou vinho estragado é um estimulante temporário, com efeitos não diferentes dos sais de cheiro. Ele era frequentemente usado naquele tempo para ressuscitar escravos flagelados nas galés. Para um homem ferido e exausto, o cheiro ou ou gosto do vinagre induziria um efeito restaurador, um aumento momentaneo de energia. Ainda que no caso de Jesus seja exatamente o contrário. Tão logo ele inala ou prova da esponja ele pronuncia suas palavras finais e ‘entrega seu espírito’. Uma tal reação ao vinagre é fisiologiamente inexplicável. Por outro lado esta seria uma reação totalmente compatível a uma esponja embebida não em vinagre mas em algum tipo de droga suporífera, um composto de ópio ou de beladona, por exemplo, geralmente empregado no Oriente Médio naquele tempo. Mas porque usar uma droga suporífica? A menos que o ato de o assim fazer, juntamente com todos os outros componentes da crucificação, fossem elementos de um estratagema complexo e engenhoso para produzir uma semelhança de morte quando a vítima, de fato, ainda estava viva. Um tal estratagema não teria apenas salvo a vida de Jesus, mas também realizado as profecias do Velho Testamento de um Messias. Há outros aspectos anomalos da crucificação que apontam precisamente para um tal estratagema. Segundo os evangelhows Jesus foi crucificado em um lugar chamado Gólgota – o lugar do cranio – Adições posteriores tentam identificar o Gólgota com uma montanha árida mais ou menos em forma de cranio a noroeste de Jerusalém. Ainda que os próprios evangelhos deixem claro que o local da crucificação é muito diferente de uma montanha árida em forma de cranio. O Quarto Evangelho é mais explícito sobre o assunto: ‘Agora no lugar onde ele foi crucificado havia um jardim; e no jardim um novo sepulcro, onde nunca um homem havia sido colocado [João 19:41].  Segundo Mateus [27:60] esta tumba e jardim eram da propriedade pessoal de José de Arimatéia que, segundo os quatro evangelhos, era um homem rico e discípulo secreto de Jesus. A tradição popular apresenta a crucificação como um  assunto público em grande escala, acessível a uma multidão e presenciada por milhares. Ainda que os próprios evangelhos sugiram circunstâncias muito diferentes. Segundo Mateus, Marcos e Lucas a crucificação é testemunhada pela maioria das pessoas, incluindo as mulheres,  de ‘longe’ (Lucas 23:49). Então assim pareceria claro que a morte de Jesus não foi um assunto público, mas um evento privado, uma crucificação realizada em uma propriedade particular. Um número de eruditos modernos argumentou que o local real fosse provavelmente o Jardim de Getsemane. Se Getsemane de fato era uma terra particular de um dos discípulos secretos de Jesus, isto explicaria porque Jesus, antes da crucificação, pôde fazer tal uso livre do lugar. É desnecessário dizer que uma crucificação particular e em uma propriedade particular deixa um espaço considerável para uma farsa ou uma falsificação de crucificação, um ritual talentosamente preparado. Haveria apenas umas poucas testemunhas oculares imediatamente presentes. Para a populaça geral, o drama apenas teria sido visível, como o confirmam os evangelhos sinóticos, de alguma distância. E de uma tal distância, não teria sido aparente quem de fato estaria sendo crucificado. Ou se ele estava realmente morto. Uma tal charada, com certeza, teria necessitado de alguma conivência e conluio da parte de Poncio Pilatos ou de alguém influente na administração romana. E de fato tal conivência e conluio é altamente provável. Garantidamente, Pilatos era um homem cruel e tiranico. Mas ele também era corrupto e suscetível a subornos. O Pilatos histórico, em oposto aquele apresentado nos evangelhos, não teria sido incapaz de poupar a vida de Jesus em troca de uma considerável soma de dinheiro e talvez a garantia de nenhuma posterior agitação política. Seja qual for a motivação dele, há, em qualquer caso, nenhuma dúvida de que Pilatos estivesse de algum modo intimamente envolvido no caso. Ele reconhece a declaração de Jesus como ‘Rei dos Judeus’. Ele também expressa surpresa que a morte de Jesus ocorra tão rapidamente quanto aparentemente ela ocorreu. E, talvez a coisa mais importante, ele garante a José de Arimatéia o corpo de Jesus. Segundo a lei romana daquele tempo, a um homem crucificado era negado qualquer funeral. E de fato guardas eram costumeiramente postados para evitar que parentes ou amigos removessem os corpos dos mortos. A vítima simplesmente seria deixada na cruz a mercê dos elementos e aves carniceiras. Ainda que Pilatos, em uma flagrante quebra dos procedimentos, prontamente garantisse o corpo de Jesus a José de Arimatéia. Isto simplesmente atesta alguma cumplicidade da parte de Pilatos. E pode atestar outras coisas também.

Na tradução inglesa do evangelho de Marcos, José pede a Pilatos o corpo de Jesus. Pilatos expressa surpresa que Jesus esteja morto, examina com um centurião, e então, satisfeito, consente a solicitação de José. Isto pareceria bastante sincero a primeira vista; mas na versão grega original do evangelho de Marcos, o assunto se torna ainda mais complicado. Na versão grega quando José pede o corpo de Jesus ele usa a palavra soma que é aplicada a um corpo vivo. Pilatos, concordando com o pedido, emprega a palavra ptoma, que significa cadáver. Segundo o grego, então, José explicitamente pede um corpo vivo e Pilatos lhe garante a ele o que ele pensa, ou finge que pensa, ser um corpo morto. Dado a proibição de um funeral de um homem crucificado, é também extraordinário que José receba afinal qualquer corpo. Mas em que bases ele o recebe? Que afirmação ele tem sobre o corpo de Jesus?  Se ele fosse um discípulo secreto ele dificilmente poderia apresentar qualquer pedido sem revelar seu discipulado secreto a menos que Pilatos já tivesse ciente disso, ou a menos que outros fatores envolvidos militassem a favor de José. Há pouca informação sobre José de Arimatéia. Os evangelhos relatam apenas que ele era um discípulo secreto de Jesus e que possuia uma grande riqueza e pertencia ao sinédrio, o Conselho dos Anciões que governava a comunidade judaica de Jerusalém sob os auspícios romanos. Então parece aparente que José de Arimatéia era um homem influente. E esta conclusão recebe confirmação por suas negociações com Pilatos, e do fato que ele possuia um trato de terra com uma tumba particular. A tradição medieval retrata José de Arimatéia como um guardião do Santo Gral; e Perceval é dito ser de sua linhagem. Segundo outras tradições posteriores, ele de algum modo é relacionado ao sangue de Jesus e a familia de Jesus. Se este fosse de fato o caso, no mínimo, isto teria fornecido a ele alguma declaração plausível pelo corpo de Jesus – porque conquanto Pilatos dificilmente garantisse o cadáver de um criminoso executado  a uma estranho aleatório, ele bem pode te-lo feito, com o incentivo de um suborno, a um parente do homem morto. Se José de Arimatéia – um membro rico e influente do sinédrio era de fato parente de Jesus, ele mantinha o testemunho posterior do pedigree aristocrático de Jesus. E se ele era de fato parente de Jesus, sua associação com o Santo Gral, o sangue real, teria sido de todo mais explicável.

O Cenário

Nós já tinhamos rascunhado uma hipótese tentativa que propunha uma linhagem sanguínea descendente de Jesus. Agora começamos a alargar esta hipótese e embora ainda provisoriamente preencher um número de detalhes cruciais. Na medida em que assim o fizemos, a figura completa começou a ganhar coerência e pausibilidade. Pareceu crescentemente claro que Jesus era um rei-sacerdote, um aristocrata e um pretendente legítimo ao trono – embarcando em uma tentativa de reconquistar sua herança por direito. Ele próprio teria sido um nativo da Galiléia, um tradicional leito quente de oposição ao regime romano. Ao mesmo tempo, ele teria tido inúmeros apoiadores nobres, ricos e influentes pela Palestina, inclusive na cidade capital de Jerusalém; e um destes apoiadores, um poderoso membro do sinédrio, pode também ter sido ser parente. No subúsbio da Betania, em Jerusalém, sobretudo, estava a casa de sua esposa ou da família de sua esposa; e aqui, na véspera de sua entrada triunfal na capital, o aspirante rei-sacerdote residiu. Aqui ele estabeleceu o centro de seu culto de mistério. Aqui ele aumentou seu seguimento ao realizar iniciações rituais, incluindo aquela de seu cunhado. Um tal rei-sacerdote aspirante teria gerado uma poderosa oposição em certos lugares inevitavelmente entre a administração romana e talvez nos mais entrincheirados interesses judaicos representados pelos saduceus. Um ou ambos destes interesses aparentemente buscaram deter sua declaração ao trono. Mas em sua tentativa de extermina-lo eles não foram tão bem sucedidos quanto esperavam ser. Porque o rei-sacerdote parecia ter amigos nos altos lugares; e estes amigos, trabalhando em conluio com um Procurador romano corrupto e facilmente subornado parecem ter engendrado uma falsa crucificação em solo particular, inacessível a todos mas selecionada a uns poucos. Com a populaça geral mantida a uma distância razoável, uma execução foi encenada na qual um substituto tomou o lugar do rei-sacerdote na cruz, ou na qual ele próprio não morreu. O crepúsculo que posteriormente impedia a visibilidade do corpo que foi removido para uma tumba vazia oportunamente adjacente, da qual, um ou dois dias depois ele miraculosamente desapareceu. Se nosso cenário estava acurado, para onde então foi Jesus? Até onde diga respeito a nossa hipótese de uma linhagem sanguínea, a resposta a esta pergunta particularmente não importa. Segundo certas histórias islâmicas e indianas, ele eventualmente morreu em uma velha idade, em algum lugar a Leste na Cachemira, o que é mais frequentemente declarado. Por outro lado, um jornalista australiano tem levado adiante um argumento persuasivo e intrigante que Jesus morreu em Masada quando a fortaleza caiu aos romanos em 74; um tempo em que ele estaria se aproximando dos seus oitenta anos. Segundo a carta que recebemos, os documentos encontrados por Berenger Sauniere em Rennes-le-Chateau continham ‘a prova irrefutável’ que Jesus estava vivo em 45, mas não há indicação de onde. Uma possibilidade provável seria o Egito, e especificamente Alexandria – onde, aproximadamente ao mesmo tempo, o sábio Ormus é dito ter criado a RosaCruz pela reunião do cristianismo com os mistérios pré cristãos muito anteriores. Tem sido indicado que o corpo mumificado de Jesus pode estar escondido em algum lugar nas cercanias de Rennes-le-Chateau – o que expilcaria a mensagem cifrada nos pergaminhos de Sauniere ‘IL EST LA MORT’ (‘Ele está lá morto’).

Não estamos preparados para avaliar que ele acompanhou sua familia a Marselha. De fato, as circunstâncias argumentam contra isto. Ele pode não ter estado em qualquer condição de viajar, e sua presença teria constituido uma ameaça a segurança de sua família. Ele deve ter considerado ser mais importante permanecer na Terra Santa como seu irmão Tiago, para buscar seus objetivos lá. Em resumo, não podemos oferecer qualquer sugerstão real sobre o que veio a ser dele mais do que os próprios evangelhos o fazem. Para o propósito de nossa hipótese, contudo, o que acontecedu a Jesus é de menor importância do que aconteceu à sagrada família e especialmente a seu cunhado, sua esposa e seus filhos. Se o nosso cenário estava correto, eles, juntamente com José de Arimatéia e certos outros, sairam de barco da Terra Santa. E quando eles estavam em Marselha, a Madalena de fato teria trazido o Sagraal – o sangue real -, a descendência da casa de David para a França.

O Segredo que a Igreja Proibiu

Estamos bem cientes, com certeza, que o nosso cenário não concorda com os ensinamentos da Igreja estabelecida. Mas quanto mais nós pesquisamos, mais aparente se torna que estes ensinamentos, como eles tem sido transmitidos por séculos, representam apenas uma compilação seletiva de fargmentos, sujeitos a um restritivo expurgo e revisão. O Novo Testamento, em outras palavras, oferece um retrato de Jesus e sua era que se conforma às necessidades de certos interesses vestidos de certos grupos e indivíduos que tinham, e que  um importante grau ainda tem, uma importante aposta neste assunto. E qualquer coisa que possa comprometer ou embaraçar estes interesses como por exemplo o evangelho secreto de Marcos, tem sido devidamente retirado. Tanto tem sido retirado, como matéria de fato, que um tipo de vácuo tem sido criado. Neste vácuo a especulação se torna justificada e necessária. Se Jesus era um legítimo pretendente ao trono, é provável que ele foi apoiado, ao menos inicialmente, por uma percentagem relativamente pequena da populaça, por sua família imediata na Galiléia, certos outros membros de sua própria classe aristocrática social, e uns poucos representantes estrategicamente colocados na Judeia e na cidade capital de Jerusalém. Um tal seguimento, embora distinguido, dificilmente teria sido suficiente para assegurar a realização de seus objetivos e o sucesso de sua reclamação do trono. Em consequencia, ele teria sido obrigado a recrutar um seguimento mais substancial de outras classes, do mesmo modo que   Bonnie Prince Charlie, para buscar uma analogia, o fez em 1745. Como se recruta um seguimento considerável? Obviamente ao promulgar uma mensagem calculada para alistar fidelidade e apoio. Uma tal mensagem não precisaria necessariamente ter sido tão cínica quanto aquela associada aos politicos modernos. Ao contrário, ela deve ter sido primulgada em perfeita boa fé, com um completo idealismo nobre e ardente. Mas a despeito de sua orientação distintamente religiosa, seu objetivo primário teria sido o mesmo dos politicos modernos, a adesão da populaça. Jesus promulgou uma mensagem que tentava fazer exatamente isso ao oferecer esperança aos despossuidos, aos aflitos, aos enfraquecidos, aos oprimidos. Em resumo, era uma mensagem com uma promessa. Se o leitor moderno supera seus preconceitos e pré-concepções sobre o assunto, ele discernrá um mecanismo extraordinariamente similar aquele visivel em todos os lugares no mundo hoje, um mecanismo onde as pessoas são, e sempre tem sido, unidas em nome de uma causa comum e fundidas em um instrumento para derrubar um governo despótico. O ponto é que a mensagem de Jesus era tanto ética quanto politica. Ela era dirigida a um segmento particular da populaça de acordo com considerações políticas. Porque teria sido apenas entre os oprimidos, derrubados, enfraquecidos e aflitos que ele poderia ter esperado recrutar um seguimento considerável. Os saduceus, que tinham chegado a termos com a ocupação romana, teriam sido tão contrários como todos os saduceus pela história em partilharem aquilo que possuiam, ou arriscarem a segurança e estabilidade deles. A mensagem de Jesus, como ela aparece nos evangelhos, não é inteiramente nova e nem única. É provável que ele próprio fosse um fariseu, e seus ensinamentos contém um número de elementos das doutrinas farisaicas. Como atestam os Pergaminhos do Mar Morto, elas também contém um número de importantes aspectos do pensamento essênio. Mas se a mensagem, como tal, não era inteiramente original, os meios de transmiti-la provavelmente o fossem. O próprio Jesus indubitavelmente era um indivíduo imensamente carismático. Ele bem pode ter tido uma aptidão para a cura e outros tais milagres. Ele certamente possuia um dom de comunicação para suas idéias por meios de parábolas vividas e evocativas que não exigiam qualquer treinamento sofisticado de sua audiência, mas eram acessiveis, em algum sentido, a populaça em geral. Sobretudo, diferente de seus precursores essênios, Jesus não era obrigado a se confinar a prever o advento do Messias. Ele podia declarar ser o Messias. E isto, muito naturalmente, teria conferido uma autoridade muito maior e credibilidade a suas palavras.

Está claro que pelo tempo de sua entrada triunfal em Jerusalém Jesus havia recrutado um seguimento. Mas este seguimento teria sido composto de dois elementos muito diferentes e cujos interesses não eram precisamente os mesmos. Por um lado teria havido um pequeno núcleo de iniciados – a famíla imediata, outros membros da nobreza, apoiadores ricos e influentes, cujo objetivo primário era ver o candidato deles instalado no trono. Por outro lado teria que haver um séquito muito mais de pessoas comums do movimento cujo objetivo primário era ver a mensagem e a promessa cumpridas. É importante reconhecer a distinção entre estas duas facções. Seu objetivo político de estbelecer Jesus no trono teria sido o mesmo. Mas suas motivações teriam sido essencialmente diferentes. Quando o empreendimento fracassou, como ele obviamente o fez, esta desconfortável aliança entre as duas facções [os aderentes da mensagem e os aderentes da familia] desmoronou. Confrontados com o debacle e a ameaça da aniquilação iminente, a família teria estabelecido a prioridade sobre um único fator, o qual, desde tempos imemoriais, tem sido de suprema importância para as famílias nobres e reais: a preservação da linhagem real a todos os custos e, se necessário, o exílio. Para os aderentes da mensagem, contudo o futuro da família teria sido irrelevante. Para eles a sobrevivência da linhagem real teria sido de consequência secundária. O objetivo primário deles teria sido a perpetuação e disseminação da mensagem. O cristianismo, como ele evolui pelos séculos iniciais e eventualmente nos chega hoje, é um produto dos aderentes da mensagem. O curso de seu desenvolvimento e disseminação tem sido tão amplamente mapeado por outros eruditos e estudiosos para necessitar de muita atenção aqui. É suficiente dizer que com São Paulo, ‘a mensagem já havia começado a assumir uma forma cristalizada e definitiva; e esta forma tornou-se a base na qual o inteiro edificio teológico da cristandade foi erigido’. Pelo tempo em que os evangelhos foram compostos, os princípios básicos da nova religião estavam virtualmente completos. A nova religião foi orientada primariamente para uma audiência romana ou romanizada.

Assim o papel de Roma na morte de Jesus foi, por necessidade, ‘limpo’, e a culpa transferida aos judeus. Mas esta não foi a única liberdade tomada com os eventos para torna-los palatáveis ao mundo romano. Porque o mundo romano estava acostumado a deificar seus governantes e Caesar já havia sido oficialmente declarado um deus. Para competir, Jesus que ninguém tinha anteriormente considerado divino também tinha que ser deificado. Nas mãos de Paulo ele foi. Antes que isto pudesse ser com sucesso disseminado da Palestina para a Síria, a Ásia Menor, a Grécia, Egito, Roma e Europa Ocidental a nova religião tinha que ser tornada aceitável para as pessoas destas regiões. E ela tinha que ser capaz de se auto sustentar contra os credos já estabelecidos. O novo deus, em resumo, tinha que ser comparável em poder, em majestade, no repertório de milagres, a aqueles deuses que ele pretendia substituir. Se Jesus era para conquistar um pé no mundo romanizado de seu tempo, ele tinha que forçosamente se tornar um deus completamente novo. Não um Messias no velho sentido do termo, não um rei-sacerdote, mas Deus encarnado que, como suas clássicas contrapartes síria, fenícia, egípcia passavam ao submundo e chegavam ao inferno e emergiam, rejuvenecidos, na primavera. Foi a este ponto que a idéia da ressurreição pela primeira vez assumiu tal importância crucial, e muito bem a razão óbvia de colocar Jesus em igualdade a Tammuz, Adonis, Attis, Osiris e todos os outros deuses que morrem e ressuscitam que populavam o mundo e a consciência do tempo deles. Por precisamente a mesma razão a doutrina do nascimento virgem foi promulgada. E o festival da Páscoa – o festival da morte e ressureição – foi feita coincidir com a primavera. Dado a necessidade de disseminar um bom mito, a real familia corpórea do ‘deus’ e os elementos politicos e dinásticos em sua história, teriam se tornado superfluos. Enraizados como eles estavam a um tempo e lugar específicos, eles teriam detratado a sua declaração de universalidade. Assim, para avançar esta afirmação de universalidade, todos os elementos políticos e dinásticos foram vigoramente retirados da biografia de Jesus. E então todas as referências aos zelotes, por exemplo, e aos essênios, teriam sido, no mínimo, embaraçosas. Não teria parecido apropriado a um deus estar envolvido em uma conspiração efemera política e dinástica e especialmente uma que fracassou.

No fim nada foi deixado além do que era contido nos evangelhos; uma narrativa de simplicidade austera e mítica, apenas incidentalmente tendo ocorrido na Palestina ocupada pels romanos. Enquanto a mensagem era desenvolvida deste modo, a família e seus apoiadores não parecem ter estado preguiçosos. Julius Africanus, escrevendo no primeiro século, relata que os parentes sobreviventes de Jesus amargamente acusaram os governantes Herodianos de destruir as genealogias das familias judias nobres e asim removendo toda a evidência que possa como um desafio representar sua declaração ao trono. E estes alguns parentes são ditos terem migrado ‘pelo mundo’, levando com eles certas genealogias que escaparam da destruição de documentos durante a revolta entre 66 e 74. Para os propagadores do novo mito, a existência desta família rapidamente teria se tornado muito mais do que uma irrelevância. Ela teria se torna um potencial embaraço de assustadoras proporções. Porque a família que pode manter o testemunho em primeira mão do que era e historicamente aconteceu teria constituido uma perigosa ameaça ao mito. De fato, com base no conhecimento de primeira mão, a família poderia explodir completamente o mito. Então nos dias iniciais do cristianismo toda menção a uma família nobre ou real, a uma linhagem sanguinea, a ambições políticas e dinásticas teriam que ser suprimidas. E já que estas cínicas realidades da situação deveriam ser reconhecidas pela própria família, que podia trair a nova religião, ela deveria, por todos os meios possíveis, ser exterminada. Dai a necessidade do maior segredo por parte da família. Dai a intolerância dos Pais iniciais da Igreja a qualquer desvio da ortodoxia que ele decidiram impor; e dai também, talvez, uma das origens do anti-semitismo. De fato os aderentes da mensagem e os propagadores do mito teriam cumprido o propósito duplo de culpar os judeus e exonerar os romanos. Eles não teriam apenas tornado o mito e a mensagem palatável a uma audiência romana. Eles teriam também, já que a família era judia, ter impugando a credibilidade da família. E o sentimento anti-judeu que eles engendraram teria avançado seus objetivos ainda mais.

Se a família tivesse encontrado refúgio dentro de uma comunidade judaica em algum lugar dentro do império, a perseguição popular poderia, neste momento, convenientemente silenciar as testemunhas perigosas. Ao assegurar uma audiência romana, deificando Jesus e colocando os judeus como bodes espiatórios, a disseminação do que subsequentemente se tornou a ortodoxia romana foi assegurada com sucesso. A posição desta ortodoxia começou a se consolidar definitivamente no segundo século, principalmente por meio de Irenaeus, Bispo de Lyons por volta de 180. Provavelmente mais do que qualquer outro Pai inicial da Igreja, Irenaeus conseguir atribuir a teologia cristã uma forma estável e coerente. Ele realizou isto primariamente por meio de um volumoso trabalho, Libros Quinque Adversus Haereses (‘Cinco Livros Contra Heresias’). Em sua obra exaustiva Irenaeus catalogou todos os desvios da colalescente ortodoxia, e os condenou. Deplorando a diversidade, ele manteve que deveria haver apenas uma igreja válida, fora da qual não havia salvação. Seja quem fosse que desafiasse esta avaliação, Irenaeus declarou ser um herético a ser expulso e, se possível, destruído. Entre as numerosas formas diversas do cristianismo inicial, foi o gnosticismo que incorreu na mais vituperante ira de Iraneaus. O Gnosticismo repousava na experiência pessoal, na união pessoal com o divino. Para Irenaeus isto naturalmente indeterminava a autoridade dos sacerdotes e dos bispos, e portanto impedia uma tentativa de uniformidade. Como resultado, ele devotou suas energias a suprimir o gnosticimo. Para este fim era necessario desencorajar a especulação individual, e encorajar a fé inquestionável no dogma estabelecido. Um sistema teológico era necessário, uma estrutura de principios codificados que não permitiam a interpretação pessoal. Em oposição a experiência pessoal e a gnose, Irenaeus isistiu em uma unica igreja católica [que é universal] repousando na fundação apostólica e na sucessão. E para implementar a criação de uma tal igreja, Iraneaus reconheceu a necessidade de um canon definitivo, uma lista autoritária de escritos. Segundo isso ele compilou um canon, pesquisando nos trabalhos disponíveis. incluindo alguns e excluindo outros. Irenaeus é o primeiro escritor cujo canon do Novo Testamento se conforma esencialmente neste atual.

Tais medidas, com certeza, não evitaram a diseminação das heresias iniciais. Ao contrário, elas continuaram a florescer. Mas com Irenaeus, a ortodoxia do tipo de cristianismo promulgado pelos aderentes da mensagem assumiu uma forma coerente que assegurou sua sobreviência e triunfo eventual. Não é irrazoável afirmar que Irenaeus pavimentou o caminho para o que ocorreu durante e imediatamente depois do reinado de Constantino sob cujos auspícios o Império Roimao se tornou, em algum sentido, um império cristão. O papel de Constantino na historia e no desenvolvimento do cristianismo tem sido falsificado, mal representado e mal compreendido. O documento espúrio da Doação de Constantino discutido no capítulo 9, tem servido para confundir assuntos até mesmo posteriormente aos olhos dos escritores subsequentes. Não obstante, Constantino é frequentemente creditado com a vitória decisiva dos aderentes da mensagem e não inteiramente sem justificação. Portanto fomos obrigados a considera-lo mais estreitamente  e para poder fazer isso tivemos que desfazer certas realizações mais fantasiosas e ilusórias atribuidas a ele. Segundo a tradição da Igreja, Constantino tinha herdado de seu pai uma predisposição simpática ao cristianismo. De fato esta predisposição parece ter sido de fato uma questão de conveniência, porque então os cristãos eram numerosos e Contantino precisava de toda ajuda que pudesse obter para ir contra Maxentius, seu rival para o trono imperial. Em 213 Maxentius estava na Batalha de Milvian Bridge, assim deixando a afirmação de Constantino não desafiada. Imediatamente antes deste crucial engajamento é dito que Constantino teve uma visão mais tarde reforçada por um sonho profetico de uma cruz luminosa pendurada no céu. Supostamente na cruz estava escrita uma frase  ‘In Hoc Signo Vinces (Por este sinal vencerás’, você conquistará) A tradição conta que Constantino, obedecendo a este portento celestial, ordenou que os escudos de seus soldados fossem embrazonados com o monograma cristão a letra grega Chi Rho, as duas primeiras letras da palavra Christos. Como resultado a vitória de Constantino sobre Maxentius na Batalha de Milvian Bridge veio a representar um triunfo miraculoso do cristianismo sobre o paganismo. Isto, então, é a popular tradição da Igreja, sobre a base de que Constantino é frequentemente pensado ter  convertido o Império Romano ao cristianismo. Mas o fato real é que Constantino não fez tal coisa. Mas para decidir precisamente o que ele fez devemos examinar mais estreitamente a evidência. Em primeiro lugar a conversão de Constantino, se esta é a palavra apropriada, não parece ter sido cristã de todo, mas desavergonhadamente pagã. Ele parece ter tido algum tipo de visão, ou experiência luminosa, nos precintos de um templo pagão ao gálico Apolo, ou em Vosges ou perto de Autun. Segundo uma testemuha que acompanhava o exército de Constantino naquele tempo, a visão era do deus sol, a deidade venerada em certos cultos sob o nome de ‘Sol Invictus’ ou Sol Invencível. Há evidência que Constantino, exatamente antes desta visão, tinha sido iniciado em um culto do Sol Invictus. Em qualquer caso o Senado romano, depois da Batalha de Milvian Bridge, eregiu um arco triunfal no Coliseu. Segundo a inscrição neste arco, a vitória de Constantino foi conquistada ‘pela intervenção da Deidade’. Mas a deidade em questão não é Jesus. Era o Sol Invictus, o deus sol pagão. Ao contrário da tradição, Constantino não tornou o cristianismo a religião oficial de Roma. A religião de Estado de Roma sob Constantino era de fato a veneração pagã ao sol. E Constantino, por toda sua vida, agiu como seu principal sacerdote. De fato seu reinado foi chamado ‘imperador do sol’ e o Sol Invictus figurava em todos os lugares, inclusive nas bandeira e moedas do reino. A imagem de Constantino como um fervoroso convertido ao cristianismo está claramente errada. Ele próprio não foi batizado até 337 quando estava em seu leito de morte e aparentemente tão enfraquecido e apático para protestar. Nem pode ser creditado a ele o monograma Chi Rho. Uma inscição tendo este monograma foi encontrada em uma tumba em Pompeia, datando de dois séculos e meio antes. O culto do Sol Invictus era de origem siria e imposto pelos imperadores romanos aos seus súditos um século antes de Constantino. Embora ele contivesse elementos da veneração a Baal e Astarte, ele era esencialmente monoteista. De fato, ele apresentava o deus sol como a soma de todos os atributos dos outros deuses, e então pacificamente submetia seus potenciais rivais. Sobretudo, ele era convenientemente harmonizado com o culto de Mitras que também era prevalente em Roma e no império naquele tempo, e que também envolvia a veneração solar.

Para Constantino o culto do Sol Invictus era, muito simplesmente, conveniente. Seu objeto primário, de fato um objetivo obsessivo, era a unidade em politica, religião e território. Um culto, ou uma religião de Estado, que incluia todos os outros cultos dentro dele e obviamente cooperou com este objetivo. E foi sob os auspícios do culto do Sol Invictus que o cristianismo consolidou sua posição. A ortodoxia cristã tinha muito em comum com o culto do Sol Invictus; e então ela foi capaz de florescer sem ser molestada sob a proteção de tolerância da mais alta. O culto do Sol Invictus, sendo essencialmente monoteísta, pavimentou o caminho para o monoteismo do cristianismo. E o culto do Sol, Invictus foi conveniente em outros aspectos também – aspectos que modificaram e facilitaram a disseminação do cristianismo. Por um édito promulgado em 321, por exemplo, Constantino ordenou que as côrtes de lei fechassem no ‘venerável dia do sol’ e decretou que este dia seja um dia de descanso. O cristianismo até então havia mantido o Sabbah judaico [sábado] como o dia de descanso, o dia sagrado. Agora, de acordo com o édito de Constantino, ele foi transferido para o domingo. Isto não apenas trouxe a harmonia com o regime existente, mas também que ele posteriormente se dissociasse de suas origens judaicas. Até o século IV, sobretudo, o dia crucial do ano era 6 dejaneiro, dito ser o do nascimento de Jesus. Mas para o culto do Sol Invictus, o dia crucial do ano era 25 de dezembro, o festival do Natalis Invictus, o nascimento [ou renascimento] do sol, quando os dias começam a ficar maiores. A este respeito também, o cristianismo se alinhou com o regime e a estabelecida religião do Estado. O  culto do Sol Invictus misturou-se alegremente com aquele de Mitras tanto que, de fato, os dois eram frequentemente confundidos. Ambos enfatizqavam o status do sol. Ambos tinham o sol como sagrado. Ambos celebravam seu maior festival de nascimento em 25 de dezembro. Como um resultado o cristianismo também podia encontrar pontos de convergência com o Mitraismo, mais ou menos como a ressaltada imortalidade da alma no Mitraismo, um futuro julgamento e ressurreição dos mortos. No interesse da unidade Constantino deliberadamente escolheu esmaecer a distinção entre cristianimo, mitraismo e Sol Invictus e deleberadamente escolheu não haver qualquer contradição entre eles. Então ele tolerou Jesus deificado como a manifestação terrena do Sol Invictus.

Assim ele construiria uma igreja cristã e ao mesmo tempo estátuas da deusa mãe Cibele e do Sol Invictus, o deus sol mais tarde sendo a imagem dele próprio, tendo suas feições. Em tais gestos ecléticos e ecumenicos a ênfase na unidade pode ser vista novamente. A Fé, em resumo, era para Constantino um assunto político; e qualquer fé que conduzisse a unidade era tratada com tolerância. Conquanto Constantino não fosse o ‘bom cristão’ que a tradição posterior apresenta, ele consolidou, em nome da unidade, o status da ortodoxia cristã. Em 325 por exemplo, ele reuniu o Concílio de Nicéa. Neste Concílio a data da Páscoa foi estabelecida. As regras eram estruturadas que definiram a autoridade dos bispos, assim pavimentando o caminho para uma concentração de poder em mãos eclesiásticas. E o mais importante de tudo, o Concilio de Nicea decidiu, por votos, que Jesus era um deus, não um profeta mortal. Novamente, contudo, deve ser enfatizado que a suprema consideração de Constantino não era a piedade mas a unidade e a conveniência. Como um deus, Jesus pode ser associado ao Sol Invictus. Como um profeta mortal ele teria dificuldade em se acomodar. Em resumo, a ortodoxia cristã, emprestou- se a uma fusão politicamente desejavel com a religião oficial do Estado; e tanto quanto ele o fez, Constantino conferiu seu apoio a ortodoxia cristã. Assim, um ano depois do Concílio de Nicea ele sancionou o confisco e a destruição de todos os trabalhos que desafiavam os ensinamentos ortodoxos; trabalhos de autores pagãos que se referiam a Jesus bem como os trabalhos dos cristãos heréticos. Ele também arranjou uma renda fixa a ser alocada a igreja e instalou o Bispo de Roma no Palácio Laterano. Então, em 331 ele comissionou e financiou novas cópias da Biblia. Este constituiu um dos fatores mais decisivos na inteira história do cristianismo, e forneceu a ortodoxia cristã e aos aderentes da mensagem uma oportunidade sem paralelos. Em 303, um quarto de século antes, o imperador pagão Diocleciano tinha tomado a tarefa de destruir todos os escritos cristãos que pudessem ser encontrados. Como resultado os documentos cristãos, especialmente em Roma, desapareceram. Quando Constantino comissionou as novas versões dos documentos, isto habilitou os guardiões da ortodoxia a revisarem, editarem e reescreverem o material como ele iam se adequar, de acordo com seus princípios. Foi a este ponto que as mais importantes alterações no Novo Testamento provavelmente foram feitas, e Jesus assumiu seu status único que tem desfrutado desde então. A importância da comissão de Constantino não deve ser subestimada. De cinco mil versões manuscritas iniciais do Novo Testamento, nenhuma é anterior ao século IV. O Novo Testamento, como ele existe hoje é essencialmente um produto dos editores e escritores guardiões da ortodoxia do século IV, aderentes da mensagem, com vestidos interesses a proteger.

Os Zelotes

Depois de Constantino o curso da ortodoxia cristã é muito familiar e bem documentado. É desnecessário dizer que isso culminou no triunfo final dos aderentes da mensagem. Mas se a própria mensagem se estabeleceu como guia e princípio governante da civilização ocidental, ela não permanece inteiramente não desafiada. Até mesmo de seu incógnito exílio, as declarações e a própria existência da família pareceriam ter exercido um poderoso apelo que, mais frequentemente do que era confortável, ofereceu uma ameaça a ortodoxia de Roma. A ortodoxia de Roma repousa essencialmente nos livros do Novo Testamento. Mas o próprio Novo Testamento é apenas uma seleção de documentos iniciais cristãos datando do século IV. Há muitos outros trabalhos que antecedem o Novo Testamento em sua presente forma, alguns dos quais lançam uma nova luz importante e controversa sobre as narrativas aceitas. Há, por exemplo, diversos livros excluídos da Bíblia, que compreendem a compilação agora conhecida como Apócrifa. Alguns trabalhos no Apócrifo são admitidamente mais posteriores, datando do século VI. Outros trabalhos, contudo, já estavam em circulação tão cedo quanto no século segundo, e bem pode ter uma tão grande afirmação da veracidade como os próprios evangelhos.

Um de tais trabalhos é o Evangelho de Pedro, uma cópia do qual foi primeiramente localizada no vale do Nilo superior em 1886, embora ele seja mencionado pelo Bispo da Antióquia em 180. Segundo este evangelho apócrifo, José de Arimatéia era um amigo íntimo de Poncio Pilatos que, se verdade, aumentaria a probabilidade de uma crucificação fraudulenta. O Evangelho de Pedro também relata que a tumba em que Jesus foi enterrado estava em um lugar chamado ‘jardim de José’. E as últimas palavras de Jesus na cruz são particularmente surpreendentes: “Meu poder, meu poder, porque você me abandonou?’. Um outro trabalho apócrifo de interesse é o Evangelho da Infância de Jesus Cristo, que data de não mais tarde do que o segundo século e possivelmente de antes. Neste livro Jesus é retratado como uma criança brilhante mas eminentemente humana. Tão humana talvez que ele é violento e incontrolável, inclinado a apresentações chocantes de temperamento e um exercício muito mais do que irresponsável de seus poderes. De fato, ele uma vez  ataca seriamente uma outra criança que o ofende. Um destino similar é relacionado a um mentor autocrático. Tais incidentes indubitavelmente são espúrios, mas eles atestam que, naquele tempo, Jesus tinha que ser descrito se ele fosse para atingir um status divino entre seus seguidores. Além deste comportamento mais do que escandaloso de Jesus como criança, há um fragmento curioso e talvez importante no Evangelho da Infância. Quando Jesus foi circuncisado, seu prepúcio é dito ter sido apropriado por uma velha mulher não nomeada que o preservou um um vaso de alabastro contendo óleo de nardo. E foi este jarro de alabastro que Maria a pecadora procurou e pingou para a unção da cabeça e pés de Jesus Cristo. Aqui, então, como nos evangelhos aceitos, há uma unção que é previamente mais do que parece indicar um ritual de unção de algum ritual importante. Neste caso, contudo, parece que a unção tinha sido prevista e preparada muito antes. E o inteiro incidente implica uma conexão embora obscura e tortuosa entre a Madalena e a família de Jesus muito antes que Jesus embarcasse em sua missão aos trinta anos. É razoável assumir que os pais de Jesus não teriam entregue o prepúcio do filho a primeira mulher idosa que o solicitasse, até mesmo se nada houvesse de não usual em um pedido aparentemente tão estranho.

A velha senhora deve portanto ser alguém de importância e/ou alguém do círculo íntimo dos pais de Jesus. E a posse subsequente de Madalena da bizarra relíquia – ou, a qualquer nível, daquilo que a continha, sugere uma conexão entre ela e a velha senhora. Novamente parecemos estar confrontados pelos vestígios sombrios de algo que era mais importante do que agora é geralmente acreditado. Certas passagens nos livros do Apócrifo, por exemplo, os flagrantes excessos da infância de Jesus, eram indubitavelmente embaraçosos para a ortodoxia posterior. E elas certamente também o seriam para a cristandade de hoje. Mas deve ser lembrado que os Apócrifos, como os livros aceitos do Novo Testamento, foram compostos pelos aderentes da mensagem, tentando deificar Jesus. Portanto não pode ser esperado que se encontre nos Apocrifos algo que possa seriamente comprometer a ‘mensagem’ como qualquer menção a atividade política de Jesus, ainda mais suas possíveis ambições dinásticas. Para evidência de tais assuntos controversos como estes, somos obrigados a procurar em outros lugares. A Terra Santa no tempo de Jesus continha um número surpreendente de diversos grupos judaicos, facções, seitas e sub-seitas. Nos Evangelhos, somente duas destas, a dos Fariseus e a dos Saduceus, são citadas, e ambas estão no papel de vilões. Contudo, o papel de vilão apenas seria apropriado aos Saduceus que de fato colaboraram com a administração romana. Os Fariseus mantinham uma arraigada oposição a Roma, e o próprio Jesus, se não realmente um Fariseu, agia essencialmente dentro da tradição dos Fariseus. Para apelar para uma audiência romana, os evangelhos eram obrigados de exonerar Roma de toda culpa e atacar os judeus. Isto explica o porque os Fariseus tinham que ser mal representados e deliberadamente estigmatizados juntamente com seus compatriotas genuinamente culpáveis, os Saduceus. Mas porque não há menção nos evangelhos aos Zelotes, os militantes nacionalistas ou lutadores da liberdade e revolucionários que, se algo, uma audiência romana apenas poderia ver sagazmente como vilões? Pareceria não haver explicação para a aparente omissão deles dos evangelhos a menos que Jesus fosse estreitamente associado a eles e que esta associação não pudesse ser desfeita, apenas obscurecida, e portanto oculta. Como argumenta o Professor Brandon: ‘os Evangelhos silenciam sobre os Zelotes… deve certamente ser um indicativo de um relacionamento entre Jesus e estes benfeitores que os evangelistas preferem não revelar’. Seja qual for a posível associação de Jesus com os Zelotes, não há dúvida que ele tenha sido crucificado como um. De fato dois homens alegadamente crucificados com ele são explicitamente descritos como ‘les tai’, o nome pelo qual os Zelotes eram conhecidos entre os Romanos. É duvidoso se o próprio Jesus era um Zelote. Não obstante, ele apresenta, em estranhos momentos dos evangelhos, um militarismo agressivo bem comparável ao deles. Em uma passagem desastradamente sem jeito e famosa, ele anuncia que ele ‘não era um que veio trazer a paz, mas a espada’. No Evangelho de Lucas, ele instrui aqueles seus seguidores que não possuiam uma espada que comprassem uma,  e ele próprio então examina e aprova que eles estejam armados depois da refeição da Pascoa Judaica [Lucas 22:38]. No Quarto Evangelho Simão Pedro está realmente levando uma espada quando Jesus é preso. É dificil reconciliar tais referências com a imagem convencional de um suave pacifista salvador. Um tal salvador teria sancionado a posse de armas particularmente a um de seus discípulos favoritos a quem ele supostamente confiou a fundação de sua igreja? Se Jesus não era ele próprio um Zelote, os Evangelhos – aparentemente a despeito, eles próprios trairam e estabeleceram esta conexão com aquela facção militante. Há uma evidência persuasiva a associar Barrabas com Jesus; e Barrabas também é descrito como ‘les tai’. Tiago, João e Simão Pedro todos tem apelações que podem indicar obliquamente simpatias Zelotes, se não envolvimento Zelote. Segundo as autoridades modernas, Judas Iscariotes, deriva de Judas o Sicário que era ainda um outro termo para Zelote, intercambiavel com ‘les tai’. De fato os Sicários parecem ter sido uma elite dentro das fileiras Zelotes, um grupo de assassinos profissionais. Finalmente há um discípulo conhecido como Simão. Na versão grega de Marcos, Simão é chamado Kananaios – uma transliteração grega da palavra aramaica para Zelote. Na Bíblia do Rei James, a palavra grega é mal traduzida e Simão aparece como Simão o Canaanita. Msa o evangelho de Lucas não deixa espaço para a dúvida. Simão é claramente identificado como um Zelote, e até mesmo a Bíblia do Rei James  o apresenta como Simão Zelote. Seria portanto claramente incontestável que Jesus tinha ao menos um Zelote entre seus seguidores.

Se a ausência, ou melhor, a aparente ausência dos Zelotes nos evangelhos é surpreendente, assim também é aquela dos essênios. Na Terra Santa do tempo de Jesus os essênios constituiam uma seita tão importante quanto a dos Fariseus e a dos Saduceus e é concebível que Jesus tenha entrado em contacto com eles. De fato, de uma narrativa dada dele, Jião Batista parece ter sido um essênio. A omissão de qualquer referência aos essênios parece ter sido ditada pelas mesmas considerações de virtualmente todas as referências aos Zelotes. Em resumo as ligações de Jesus com os Essênios, como suas ligações com os Zelotes, eram provavelmente estreitas demais e tão bem conhecidas para serem negadas. Elas podiam então ser omitidas e ocultadas. Para os historiadores e cronistas daquele tempo, é sabido que os Essênios mantinham comunidades pela Terra Santa e, muito possivelmente, em outros lugares também. Eles começaram a aparecer por volta de 150 AC e eles usavam o Velho Testamento, mas o interpretavam mais como uma alegoria do que como uma verdade literal histórica. Eles repudiavam o judaismo convencional a favor de uma forma de dualismo gnóstico que parece ter incorporado os seguidores a veneração do sol e do pensamento pitagoriano. Eles praticavam a cura e eram estimados por seu talento nas técnicas terapeuticas. Finalmente, eles eram rigorosamente ascéticos, e prontamente distinguidos pela suas simples vestes brancas. A maioria das modernas sobre o assunto acredita que os Pergaminhos do Mar Morto encontrados em Qumran sejam essencialmente documentos Essênios. E não há dúvidas de que uma seita de ascéticos vivia em Qumran tendo muito em comum com o pensamento Essênio. Como o pensamento Essênio, os Manuscritos do Mar Morto refletem uma teologia dualista. Ao mesmo tempo ele colocam uma grande ênfase na vinda de um Messias, ‘um ungido’, descendente da linhagem de David. Eles também aderem a um calendário especial, segundo o qual o serviço da Páscoa não era celebrado na sexta feira, mas na quarta-feira o que concorda com o serviço da Pascoa no Quarto Evangelho. E em um número de aspectos importantes eles coincidem, quase palavra por palavra, com alguns ensinamentos de Jesus. Ao menos pareceria que Jesus estava ciente da comunidade de Qumran e, em alguma extensão e algum nível, trouxe seus próprios ensinamentos de acordo com os deles.

Um especialista moderno nos Pergaminhos do Mar Morto acredita que eles ‘dão base a crença que muitos incidentes do Novo Testamento são meras projeções da própria história de Jesus do que era esperado do Messias. Se a seita de Qumran era tecnicamente Essênia ou não, parece claro que Jesus até mesmo se ele passou por um treinamento formal essênio era também versado no pensamento Essênio. De fato, muitos de seus ensinamentos ecoam aqueles atribuidos aos Essênios. E sua aptidão para a cura igualmente sugere alguma influência essênia. Mas um exame mais íntimo dos evangelhos revela que os Essênos podem ter figurado até mesmo mais significativamente na carreira de Jesus.  Os Essênios eram prontamente identificáveis por suas vestes brancas que, não obstante as pinturas e o cinema, eram menos comuns na Terra Santa naquele tempo do que geralmente é acreditado. No suprimido Evangelho Secreto de Marcos, um robe de linho branco tem um importante papel ritual – e isto ocorre até mesmo na versão autorizada. Se Jesus estava realizando iniciações de escola de mistério na Betania ou outros lugares, o robe de linho de branco sugere que estas iniciações bem podem ser essênias em caráter. E o que é mais, o motivo do robe de linho branco recorre mais tarde nos quatro evangelhos. Depois da Crucificação o corpo de Jesus ‘miraculosamente’ desaparece da tumba que é descoberta estar ocupada por ao menos uma figura vestida de branco. Em Mateus é um anjo em ‘uma roupa branca como a neve’ [28:3]. Em Marcos é ‘um jovem homem em uma longa veste branca’ [16:5]. Lucas relata que ‘dois homens…. em roupas brilhantes’ [24:4] enquanto o Quarto Evangelho fala de ‘dois anjos de branco’ [29:12]. Em duas destas narrativas a figura ou figuras na tumba nem mesmo recebem um status sobrenatural. Presumidamente, estas figuras eram completamente mortais ainda que, pareceria, desconhecidas dos discípulos. É certamente razoável supor que eles são Essênios. E dado a aptidão dos Essênios para a cura, uma tal suposição se torna até mesmo mais sustentável. Se Jesus, ao ser removido da cruz, de fato ainda estava vivo, os serviços de um curador teriam sido necessários. Até mesmo se ele estivesse morto, um curador é provável ter estado presente, se não como apenas uma garantia de esperança.

E não havia curadores mais respeitados na Terra Santa daquele tempo o que os Essênios. Segundo o nosso cenário de uma falsa crucificação em solo privado sendo arranjada, com o conluio de Pilatos por certos apioadores de Jesus.  Mais especificamente isto teria sido arranjado não primariamente pelos ‘aderentes da mensagem’ mas pelos aderentes da linhagem sanguínea, a família imediata; ou, em outras palavras, e/ou outros aristocratas e/ou membros de um círculo interno. Este indivíduos bem podem ter tido ligações Essênias ou eles próprios fossem Essênios. Para os ‘aderentes da mensagem’, contudo as fileiras do seguimento de Jesus lideradas por Simão Pedro, o estratagema não teria sido divulgado. Ao ser levado para a tumba de José de Arimatéia Jesus teria necessitado de atenção médica e por isso um curador Essênio estaria presente. E depois, quando a tumba foi descoberta estar vazia, um emissário novamente seria necessário, um emissário desconecido pelas fileiras dos discípulos. Este emissário teria tido que reassegurar aos insuspeitos ‘aderentes da mensagem’ para agir como intermediário entre Jesus e seu seguimento e de ter as acusações de roubo de tumba ou violação de tumba contra os Romanos, o que poderia ter provocado graves distúrbios cívicos. Se este cenário foi acurado ou não, nos parece muito claro que Jesus era estreitamente associado aos Essênios e aos Zelotes. De inicio isto pode parecer de certa forma estranho, porque os Zelotes e os Essênios são frequentemente imaginados como incompatíveis. Os Zelotes eram agressivos, violentos, militaristas, não avessos ao assassinato e ao terrorismo. Os Essênios, em contraste, são frequentemente apresentados como divorciados dos assuntos políticos, discretos, pacifistas e gentis. Como fato real, contudo, os Zelotes incluiam numerosos Essênios em suas fileiras porque os Zelotes não eram uma seita, mas uma facção política. Como uma facção política eles obtinham apoio não apenas dos Fariseus anti-romanos, mas dos Essênios que também podiam ser agressivamente nacionalistas como todo mundo mais. A associação dos Zelotes e os Essênios é especialmente evidente nos escritos de Josephus, de quem muito da informação disponível da Paslestina daquele tempo deriva. Joseph ben Mathias nasceu na nobreza judaica em 37 de nossa era. Na erupção da revolta de 66 ele foi indicado governador da Galiléia onde ele assumiu o comando das forças alinhadas contra os romanos. Como um comandante militar ele parece ter se provado claramente inepto e foi prontamente capturado pelo Imperador Romano Vespasiano. Logo ele se mostrou um traidor. Tomando o nome romanizado de Flavius Josephus ele se tornou um cidadão romano, divorciou-se de sua esposa e se casou com uma herdeira romana, e aceitou dádivas generosas do imperador romano – o que incluiu um apartamento particular no palácio imperial bem como terra confiscada dos judeus na Terra Santa. Por volta do tempo de sua morte no ano 100, começaram a aparecer copiosas cronicas do período.

Em ‘The Jewish War’ Josephus oferece uma narrativa detalhada da revolta entre 66 e 74. De fato, foi através de Josephus que os historiadores subsequentes aprenderam a maior parte sobre a insurreição desastrosa, o saque de Jerusalém e a destruição completa do Templo. E o trabalho de Josephus também contém a única narrativa da queda, em 74, da fortaleza de Masada, situada o canto sudoeste do Mar Morto. Como Montsegur alguns 1200 anos depois, Masada tinha vindo a simbolizar a tenacidade, o heroísmo e o martírio em defesa de uma causa perdida. Como Montsegur ela continuou a resistir ao invasor muito depois de virtualmente toda outra resistência organizada ter cessado. Enquanto o resto da Palestina desabava diante da matança romana, Masada continuava a ser inexpugnável. No final, em 74, a posição da fortaleza tornou-se insustentável. Depis do continuado bombardeio com a pesada maquinaria de cerco, os romanos instalaram uma rampa que os colocou em posição de romper as cercas. Na noite de 15 de abril eles se  prepararam para um assalto geral. Na mesma noite 960 homens, mulheres e crianças dentro da fortaleza cometeram suicídio em massa. Quando os romanos irromperam pelo portão na manhã seguinte, eles apenas encontraram cadáveres entre as chamas. O próprio Josephus acompanhou as tropas romanas que entraram em Masada na manhã de 16 de abril. Ele afirma ter testemunhado a carnificina pessoalmente. E ele afirma ter entrevistado três sobreviventes do debacle: uma mulher e duas crianças que supostamente se esconderam nos condutos sob a fortaleza enquanto o resto da guarnição se matava. Destes sobreviventes Josephus relata ter obtido uma narrativa detalhada do que tinha transpirado na noite anterior. Segundo esta narrativa o comandante da guarnição era um homem chamado Eleazar, uma variante, muito interessantemente, de Lázaro. E parece ter sido Eleazar que, por sua eloquência persuasiva e carismática, liderou os defensores desta horrenda guarnição. Em sua crônica Josephus repete as palavras de Eleazar, como ele afirma te-las ouvido dos sobreviventes. E estas falas são extremamente interessantes. A história relata que Masada foi defendida por Zelotes militantes. O próprio Josephus usa as palavras Zelotes e Sicarii intercambiavelmente. E ainda que as palavras de Eleasar não sejam até mesmo convencionalmente judaicas. Ao contrário, elas são inconfundivelmente Essênias, gnósticas e dualistas: ‘Até mesmo desde o homem primitivo começar a pensar, as palavras de nossos ancestrais e dos deuses, apoiadas pelas ações e espíritos de nossos antepassados, tem contantemente imprimido em nós que a vida é a calamidade para o homem, não a morte. A morte dá liberdade a nossas almas e as deixa partir para sua própria casa pura onde elas nada saberão de calamidade; mas enquanto elas estiverem confinadas dentro de um corpo mortal e partilhar seus mistérios, na verdade estrita elas estão mortas. Porque a associação do divino com o mortal é imprópria. Certamente a alma pode fazer muitas coisas até mesmo quando aprisionada no corpo; ela faz do corpo seu órgão de sentido, o movimentando invisivelmente e o impelindo a ação além do que a natureza mortal pode alcançar. Mas quando, livre do peso que a arrasta para baixo e é aderida a ele, a alma retorna ao seu próprio lugar, então a verdade que ela partilha de um poder abençoado e uma máxima força libertada, permanecendo tão invisível aos olhos humanos quanto o próprio Deus. Nem até mesmo enquanto ela está no corpo isso pode ser visto; ela entra não detectada e parte invisível, tendo ela própria uma natureza não perecível, mas causando uma mudança no corpo; porque seja o que for que a alma toque vive e floresce, seja o que for que ela abandone  resseca e morre; tal uma superabundancia que ela tem de imortalidade’. E novamente, ‘Eles são homens de verdadeira coragem, que, vendo esta vida como um tipo de serviço que devemos prestar a natureza, se submetem a isto com relutância e se apressam a liberar suas almas de seus corpos; e embora nenhum infortúnio pressione ou os afaste, o desejo da vida imortal os impele a informar seus amigos que eles estão indo partir’.

É extraordinário que nenhum erudito, a nosso conhecimento, tenha até mesmo comentado estas falas antes, porque elas levantam uma multitude de questões provocantes. Em ponto algum , por exemplo, o judaismo ortodoxo até mesmo falou em uma ‘alma’ ainda menos de sua natureza ‘imortal ou imperecível’. De fato, o próprio conceito de uma alma e da imortalidade é estranho a corrente principal do pensamento e tradição judaicas. Assim, também, é a supremacia do espírito sobre a matéria, a união com Deus na morte, e a condenação da vida como má. Estas atitudes derivam, muito inequivocamente, de um tradição de mistério. Elas são patentemente gnósticas e dualistas e, no contexto de Masada, são carateristicamente Essênias. Certas destas atitudes, com certeza, podem também serem atribuidas em algum sentido aos cristãos. Não necessariamente como a palavra subsequentemente veio a ser definida, mas como ela deve ter sido aplicada aos seguidores originais de Jesus; aqueles, por exemplo, que desejaram se unir a Lázaro na morte no Quarto Evangelho. É possível que os defensores de Masada incluissem alguns aderentes da linhagem sanguínea de Jesus. Durante a revolta de 66 a 74 havia numerosos cristãos que lutavam contra Roma tão vigorosamente como o faziam os judeus. Muitos Zelotes, de fato, eram o que agora seria chamado de cristãos iniciais e é bem provável que existissem alguns deles em Masada. Josephus, com certeza, nada sugere deste tipo – embora se ele até mesmo uma vez o fizesse, isto teria sido retirado pelos subsequentes editores. Ao mesmo tempo, poderiamos esperar que Josephus, escrevendo a história da Palestina do primeiro século, fizesse alguma menção a Jesus. Garatidamente, muitas edições posteriores do trabalho de Josephus contém tais referências; mas estas referências se conformam a estabelecida ortodoxia e o maioria dos euditos modernos as  descartam  como interpolações espurias datando do tempo de Constantino. No século XIX, contudo, uma edição de Josephus foi descoberta na Rússia que diferia de todas as outras. O próprio texto, traduzido para o velho russo, datava de aproximadamente 1261. O homem que o transcreveu não era um judeu ortodoxo, porque ele manteve muitas alusões pró cristãs. E ainda que Jesus, nesta versão de Josephus, é descrito como um humano, como um revolucionário político e um rei que não governa. Ele também é dito ter tido uma linha no meio de sua cabeça na maneira dos Nazarenos. Os eruditos tem dispendido muito papel e energia discutindo a possível autenticidade do que agora é chamado de Josephus Eslavo. Todas as coisas consideradas, estivemos inclinados a ver isto mais ou menos como uma transcrição genuina de uma cópia ou cópias de Josephus que sobreviveram a destruição de documentos cristãos por Diocleciano  e escaparam do zelo editorial da reinstalada ortodoxia sob Constantino. Há um número de razões compativeis a nossa conclusão. Se o Josephus Eslavo fosse uma fraude, por exemplo, a que interesses ela teria servido? Sua descrição de Jesus como um rei dificilmente teria sido aceitável para uma audiência judaica do século XIII. E sua apresentação de Jesus como um homem dificilmente teria agraddo a cristandade da mesma época. E o que é mais, Origenes, um Pai da Igreja escrevendo no início do terceiro século, alude a uma versão de Josephus que nega o Messianismo de Jesus: Esta versão que pode uma vez ter sido a original, autêntica e padrão pode muito bem ter fornecido o texto para o Josephus Eslavo.

Os Escritos Gnósticos

A revolta de 66-74 foi seguida por uma segunda maior inssurreição alguns sessenta anos depois, entre 132 e 135. Como um resultado deste novo distúrbio todos os judeus foram oficialmente expulsos de Jerusalém, que se tornou uma cidade romana. Mas até mesmo tão cedo quanto a primeira revolta a história havia começado a colocar um véu sobre os eventos na Terra Santa, e virtualmente não houve outros registros por outros dois séculos. De fato o período não é muito diferente daquele de algumas partes da Europa na chamada Idade das Trevas [a Idade Média]. Não obstante é sabido que muitos judeus permaneceram no país embora fora de Jerusalém. Assim também o fizeram alguns cristãos. E havia até mesmo uma seita de judeus, chamada os Ebionitas, que quanto aderindo geralmente a fé deles, ao mesmo tempo reverenciavam Jesus como um profeta – embora um profeta mortal. Não obstante o espírito real do judaismo e do cristianismo se afastaram da Terra Santa. A maioria da população judaica da Palestina se dispersou em uma diáspora como aquela que ocorreu setecentos anos antes, quando Jerusalém caiu para os Babilonios. E o cristianismo, de um modo similar, começou a migrar através do globo para a Ásia Menor, para Grécia, para Roma, para o Gales, para Bretanha, para o Norte da África. Não surpreendentemente narrativas conflitantes do que tinha acontecido em e por volta de 33 começaram a se levantar por todo mundo civilizado. E a despeito dos esforços de Clemente de Alexandria, Irenaeus e sus similares, estas narrativas oficialmente rotuladas como ‘heresias’ continuaram a florescer. Algumas delas indubitavelmente derivaram de algum tipo de conhecimento em primeira mão, preservados tanto por judeus devotos quanto por grupos como os Ebionitas, convertidos judeus de uma forma ou outra ao cristianismo. Outras narrativas eram patentenmente baseadas em lendas, ou rumores, sobre uma amalgamação de crenças correntes como as escolas de mistério egípcias, helenistas e mitraicas. Fossem quais fossem suas fontes específicas, elas causaram muita inquietação entre os ‘aderentes da mensagem’, a ortodoxia coalescente que buscava consolidar sua posição. A informação sobre as heresias iniciais é medíocre. O conhecimento moderno sobre elas deriva grandemente dos ataques de seus oponentes, que naturalmente fazem uma imagem distorcida que pode emergir como por exemplo, da resistência francesa, dos documentos da Gestapo. Como um todo, contudo, Jesus parece ter sido visto pelos heréticos iniciais de um ou dois modos. Para alguns ele era um pleno deus novato, com poucos, se alguns, atributos humanos. Para outros ele era um profeta mortal, não diferente de, digamos, Buda, ou, meio milenio depois, Maomé. Entre os mais importantes hereges iniciais estava Valentinus, um nativo de Alexandria que passou a última parte de sua vida [136-65] em Roma. Em seu tempo Valentinus era extremamente influente, numerando homens como Ptolomeu entre seus seguidores. Afirmando possuir um corpo de ensinamentos secretos de Jesus, ele se recusou a se submeter à autoridade romana, avaliando que a gnose pessoal tinha precedência sobre uma hierarquia externa. Muito previsivelmente Valentinus e seus seguidores estavam entre os mais trabalhosos alvos da ira de Irenaeus. Um outro de tal alvo era Marcion, um rico magnata de barcos e bispo que chegou em Roma por volta de 140 e foi excomungado quatro anos depois.  Marcion fazia uma distinção especial entre a lei e o amor, que ele associava, respectivamente, ao Velho e Novo Testamentos. Certas destas idéias Marcionitas emergiram mil anos mais tarde em trabalhos como Perlesvaus. Marcion foi o primeiro escritor a compilar uma lista canonica de livros Bíblicos  que, no caso dele, excluiu o inteiro Velho Testamento. Foi em resposta direta a Marcion que Irenaeus compilou sua lista canonica, que forneceu a base para a Bíblia como hoje a conhecemos. O terceiro maior herege do período e de muitos modos o mais intrigante foi Basilides, um erudito de Alexandria escrevendo entre 120 e 130. Basilides era familiar com as escrituras hebraicas e os evangelhos cristãos. Ele também conhecia o pensamento egípcio e helenista. Ele é suposto ter escrito não menos do que 24 comentários sobre os evangelhos. Segundo Irenaeus, ele de fato promulgou a mais odiosa heresia. Bsilides declarou que a Crucificação era uma fraude, que Jesus não morreu na cruz e que um substituto, Simão de Cirene tomou o seu lugar. Uma tal avaliação pareceria bizarra. E ainda que isto tenha se provado ser extraordinariamente persistente e tenaz. Como mais tarde no século VII o Alcorão apresentou o mesmo argumento que um substituto, tradicionalmente Simão de Cirene, tomou o lugar de Jesus na cruz. E o mesmo argumento foi mantido por um sacerdote de quem recebemos a carta misteriosa discutida no capítulo I que aludiu a uma prova ‘incontroversa’ de uma substituição. Se houve uma região onde as heresias mais se entrincheiraram, esta foi o Egito, e mais especificamente em Alexandria que era a cidade mais cosmopolitana e mais culta do mundo naquele tempo, a segunda maior cidade do Império Romano, e um repositório de uma surpreendente variedade de fés, ensinamentos e tradições.

No Evangelho de Felipe as razões para esta rixa parecem suficientemente óbvias. Há, por exemplo, uma ênfase recorrente na imagem da câmara nupcial. Segundo o Evangelho de Felipe, ‘ O Senhor fez tudo em um mistério, um batismo e uma crisma e a a eucarista e a redenção e a camara nupcial. ‘ Grantidamente, a camara nupcial, a primeira vista, pderia ser simbólica e alegórica. Mas o Evangelho de Felipe é mais explicito: ‘Haviam três que sempre andavam com o Senhor, Maria sua Mãe e a irmã dela e Madalena, aquela que ele chamava de sua companheira.’  Segundo um erudito, a palavra ‘companheira’ é para ser traduzida como esposa. Há certa base para assim o fazer, porque o Evangelho de Felipe se torna ainda mais explícito: ‘E a companheira do Salvador é Maria Madalena. Mas Cristo costumava ama-la mais do que aos outros discípulos e frequentemente a beijava na boca’. O resto dos discípulos ficavam ofendidos por isso e expressavam desaprovação. Eles dissream a ela, ‘´porque você a ama mais do que a nós? E o Salvador respondeu ‘porque eu não amaria voces como a ela?’ O evangelho de Felipe elabora sobre o assunto: ‘Não tenha medo da carne nem a ame. De você a teme ela o dominará, Se você a amar ela o engolirá e paralisará.’ Em um outro ponto esta elaboração é traduzida em termos concretos: “Grande é o misterio do casamento! Porque sem ele o mundo não teria existido. Agora a existência do mundo depende do homem, e a existência do homem do casamento’. E na direção do fim do Evangelho de Felipe há a seguinte declaração: Há o filho do homem e o filho do filho do homem. O Senhor é o Filho do homem, e o filho do Filho é ele que é criado pelo Filho do homem’.

A Dinastia do Gral

Com base apenas nos Pergaminhos de Nag Hammadi, a possibilidade de uma linhagem sanguínea descendendo diretamente de Jesus ganhou considerável plausibilidade para nós. Certos dos chamados ‘Evangelhos Gnósticos’ desfrutaram uma grande declaração de veracidade como os livros do Novo Testamento. Como resultado as coisas que eles explicita ou implicitamente guardam o testemunho tal como um substituto na cruz, uma disputa continuada entre Pedro e Madalena, um casamento entre Madalena e Jesus, o nascimento de um ‘filho do Filho do homem’ não podem ser descartados de antemão, tão controversos quanto possam ser. Estamos lidando com história, não com teologia. E a história, no tempo de Jesus, não era menos complexa, multifacetada e orientada na direção das praticalidades do que é hoje. A rixa entre Pedro e Maria Madalena, nos Pergaminhos de Nagg Hammadi, aparentemente testemunhou precisamente o conflito que haviamos hipotetisado; o conflito entre os ‘aderentes da mensagem’ e os aderentes da linhagem sanguínea. Mas foram os aderentes da mensagem que eventualmente emergiram triunfantes pra formarem o curso da civilização ocidental. Dado seu crescente monopólio do aprendizado, comunicação e documentação há remanescente pouca evidência a sugerir que a familía de Jesus até mesmo existiu. E havia ainda menos para estabelecer uma ligação entre a família e a Dinastia Merovíngia. Não que os ‘aderentes da mensagem’ tivessem as coisas inteiramente em seu próprio caminho. Se os primeiros dois séculos de história cristã estavam pragueados por heresias incontáveis, os séculos que se seguiram estavam até mesmo mais assim. Enquanto a ortodoxia se consolidava teologicamente sob Irenaeus, politicamente sob Constatino, as heresias continuavam a proliferar em uma escala sem precedentes. Conquanto elas diferissem muito em detalhes teológicos, a maioria das maiores heresias partilhaam de certos fatores cruciais. A maioria deles era gnóstico ou gnostico-influenciado, repudiando a estrutura hierárquica de Roma e exaltando a supremacia da iluminação pessoal sobre a fé cega. A maioria delas era também, em um sentido ou outro, dualista, vendo o bem e o mal menos como mundanos problemas éticos do que como matérias de áxima importância cósmica. Finalmente a maioria delas incorria em ver Jesus como mortal, nascido pelo processo natural de concepção, um profeta divinamente inspirado mas não intrinsecamwente divino, que morreu definitivamente na cruz ou que nunca morreu na cruz. Em sua ênfase na humanidade de Jesus, muitas das heresias se referiam de volta a autoridade augusta de São Paulo, que tinha falado de ‘Jesus Cristo Nosso Senhor que tem feito da semente de David segundo a carne’ [Romanos 1:3]. Talvez a mais famosa e profundamente radical das heresias era o Maniqueismo, essencialmente uma fusão da cristandade gnóstica com meadas de anteriores tradições zoroastrianas e mitraicas. Ela foi fundada por um indivíduo chamado Mani, que nasceu perto de Bagdá em 210 em uma família relacionada a casa real persa. Já na juventude Mani foi introduzido por seu pai em uma seita mística não especificada provavelmente gnostica que enfatizava o ascetismo e o celibato, praticava o batismo e vestia robes brancos. Por volta de 240 Mani começou a propagar seus próprios ensinamentos e, como Jesus, era renomado por sua cura espiritual e exorcismos. Seus seguidores o proclamavam o ‘novo Jesus’ e até mesmo atribuiam a ele um nascimento virgem, um pré requisito para as deidades daquele tempo. Ele também era conhecido como ‘Salvador’, ‘Apóstolo’, ‘Iluminador’, ‘Senhor’, ‘Elevador dos Mortos’, ‘Piloto’ e ‘Timoneiro’. As últimas duas designações são especialmente sugestivas porque elas são intercambiáveis com “Nautonnier’, o título oficial assumido pelo Grão Mestre do Priorado de Sião. Segundo posteriores historiadores árabes Mani produziu muitos livros nos quais ele afirmava revelar os segredos que Jesus tinha mencionado apenas obscura e obliquamente. Ele via Zaratustra, Buda e Jesus como seus precursores e declarou que ele, como eles, tinha recebido essencialmente a mesma iluminação da mesma fonte. Seus ensinamentos consistiam em um dualismo gnóstico casado com uma escuridão cosmológica imposta e elaborada; e o mais importante campo de batalha para estes dois princípios oponentes era a alma humana. Como mais tarde os cátaros, Mani esposava a doutrina da reencarnação. Como os cátaros, também, ele insistia em uma clase iniciada, uma iluminada eleita. Ele se referia Jesus como o Filho da Viúva – uma frase subsequentemente apropriada pela Livre Maçonaria. Ao mesmo tempo ele declarou que Jesus era mortal, ou, se divino, apenas divino em um sentido simbólico ou metafórico em virtude da iluminação. E Mani, como Basilides, mantinha que Jesus não morreu na cruz mas foi substituido por outro homem. Em 276, por ordem do rei, Mani foi aprisionado, esfolado até a morte, sua pele retirada e foi decapitado. E, talvez para evitar uma resurreição, seu corpo foi mutilado e colocado para apresentação pública. Seus ensinamentos, contudo, ganharam ímpeto de seu martírio e entre seus aderentes posteriores, ao menos por um tempo, estava Santo Agostinho. Com extraordinária rapidez o Maniqueismo se espalhou pelo mundo cristão. A despeito das atitudes ferozes para suprimir isso, ele conseguiu sobreviver, para influenciar pensadores posteriores e persistir, até o presente dia. Na Espanha e no Sul da França as escolas Maniqueanas eram partcularmente ativas. Pelo tempo das Cruzadas estas escolas tinham fabricado ligações com outras seitas Maniqueanas na Itália e na Bulgária. Agora parece improvável que os cátaros fossem um ramo dos Bogomils búlgaros. Ao contrário, a mais recente pesquisa sugere que os cátaros se elevaram das escolas maniqueanas a muito estabelecidas na França. Em qualquer caso a Cruzada Albigense foi essencialmente uma cruzada contra o Maniqueanismo; e a despeito dos mais assíduos esforços de Roma, a palavra Maniqueano tem sobrevivido para se tornar uma parte aceita de nossa linguagem e vocabulário. Além do Maniqueanismo, com certeza, houveram inúmeras outras heresias. Delas todas, foi a heresia de Arius que ofereceu a mais perigosa ameaça a doutrina ortodoxa cristã durante os primeiros mil anos de sua história. Arius era um presbítero em Alexandria por volta de 318, e morreu em 335. Sua disputa com a ortodoxia era bem simples e repousava na única premissa que Jesus era inteiramente mortal, não era em sentido algum divino, e em nenhum sentido outro do que um mestre inspirado. Ao propor um único deus omipotente e supremo que não se encarnou na carne, e não sofreu a humilhação e a morte nas mãos de sua criação, Arius efetivamente colocou o cristianismo em uma estrutura essencialmente judaica. E ele bem pode, como um residente em Alexandria, ter sido influenciado pelos ensinamentos dos Ebionitas, por exemplo. Ao mesmo tempo, o deus supremo do Arianismo desfrutou de um imenso apelo ao ocidente.

Na medida em que o cristianismo vinha a adquirir crescentemente o poder secular, um tal Deus tornava-se crescentemente atraente. Reis e potentados podiam se identificar com um tal deus mais prontamente do que o podiam fazer com uma deidade suave e passiva que se submetia sem resistência ao martírio e evitava o contacto com o mundo. Embora o Arianismo fosse condenado no Concílio de Nicea em 325, Constantino tinha sempre sido simpático em relação a ele, e se tornou ainda mais no fim de sua vida. Em sua morte, seu filho e sucessor, Constantius, se tornou desavergonhadamente Ariano; e sob seus auspícios concílios foram reunidos que levaram os líderes ortodoxos da Igreja ao exílio. Por 360 o Arianismo tinha deslocado de todo o cristianismo romano. E embora ele fosse novamente condenado em 381, ele continuou a florescer e a ganhar aderentes. Quando os Merovíngios subiram ao poder durante o século V virtualmente cada bispado na cristandade ou era Ariano ou estava vago. Entre os mais fervorosos aderentes do Adrianismo estavam os Godos, que tinham sido convertidos a ele do paganismo no século IV. Os Suevos, Lombardos, Alanos, Vândalos, Burgundianos e os Ostrogodos também eram Arianos. E assim o eram os Visigodos que, quando eles saquearam Roma em 480, pouparam as igrejas cristãs. Se os Merovíngios iniciais, antes de Clovis, eram de todo receptivos ao cristianismo, teria sido à cristandade ariana de seus vizinhos imediatos, os Visigodos e Burgundianos. Sob os auspícios visigodos o Arianismo se tornou a forma dominante de cristianismo na Espanha, nos Pirineus e no que é agora conhecido como o sul da França. Se a família de Jesus de fato encontrou refúgio no Gaul, seus senhores, pelos século V, teriam sido os Visigodos arianos. Sob o regime Ariano, a família não é provável de ter sido perseguida. Ela provavelmente teria sido altamente estimada e pode muito bem ter se entrecasado com a nobreza Visigoda antes de seu subsequente intercasamento com os Francos para produzir os Merovíngios. E com o patrocínio e a proteção ds Visigodos ela teria estado segura contra todas as ameaças de Roma. Assim não é então particularmente surpreendente que nomes inconfundivelmente semíticos como Bera, por exemplo, ocorram entre a realeza e aristocracia visigoda.

Dagoberto II casou-se com uma princesa visigoda cujo pai chamava-se Bera. O nome Bera recorre repetidamente na árvore da família visigoda Merovíngia descendente de Dagoberto II e Sigisberto IV. A Igreja Romana é dita ter declarado que o filho de Dagoberto tinha se convertido ao Arianismo e não teria sido muito extraordinário se ele assim o tivesse feito. A despeito do pacto entre a Igreja e Clovis, os Merovíngios sempre tinham sido simpáticos ao Arianismo. Um dos netos de Clovis, Chilperic, não fazia segredos de suas atividades pró Arianas. Se o Arianismo não era inimigo do Judaísmo, nem o era do Islã, que se elevou tão meteoricamente no século VII. A visão de Jesus do Arianismo estava bem de acordo com aquela do Alcorão. No Alcorão Jesus é mencionado não menos do que 35 vezes, sob um número de impressivas apelações incluindo ‘Mensageiro de Deus’ e Messias. Em nenhum ponto, contudo, ele é visto como algo diferente de um profeta mortal, um precursor de Maomé, e um portavoz de um Deus único e supremo. E como Basilides e Mani o Alcorão mantém que Jesus não morreu na cruz, ‘eles não o mataram e nem o crucificaram, embora pensassem que o fizeram’. O próprio Alcorão não elabora  esta declaração ambígua, mas os comentadores islâmicos o fazem. Segundo a maioria deles, houve um substituto geralmente, embora nem sempre, suposto ter sido Simão de Cirene. Certos escritores muçulmanos falam de Jesus se escondendo em um nicho de uma parede e observando a crucificação de um sub-rogado, o que concorre com o fragmento já citado dos Pergaminhos de Nagg Hammadi.

O Judaísmo e os Merovíngios.

Vale notar a tenacidade, até mesmo diante da mais vigorosa perseguição, com a qual a maioria das heresias e especialmente o Arianismo insistiu na mortalidade e humanidade de Jesus. Mas não encontramos indicação que qualquer uma delas necessariamente possuisse qualquer conhecimento de primeira mão da premissa a qual elas tão consistentemente aderiram. Ainda menos havia qualquer evidência, fora os Pergaminhos de Nagg Hammadi, a sugerir a consciência deles de uma possível linhagem sanguínea. A suprema virulência da perseguição romana pode bem sugerir um medo de tal evidência e um desejo de assegurar que isto nunca veja a luz. Mas se este fosse o caso, Roma parece ter tido sucesso. As heresias, então, não nos fornecem uma confirmação decisiva de uma ligação entre a família de Jesus e os Merovíngios, que apareceram no mundo alguns quatro séculos depois. Para tal confirmação éramos obrigados a procurar em outros lugares de volta aos próprios Merovíngios. A primeira vista a evidência, tal como ela era, parecia ser medíocre. Nós já haviamos considerado o nascimento legendário de Merovee, por exemplo, filho de dois pais, um dos quais era uma misteriosa criatura aquática de além do mar – e suposto que esta fábula curiosa pode ter sido intencionada simultaneamente para refletir e esconder uma aliança dinástica ou entrecasamento. Mas, conquanto o simbolismo do peixe seja sugestivo, ele dificilmente era conclusivo. Similarmente o pacto subsequente entre Clovis e a Igreja Romana fez consideravelmente mais sentido a luz de nosso cenário; mas o próprio pacto não constitui uma evidência concreta. E conquanto o sangue real Merovíngio fosse creditado como sagrado, de natureza miraculosa e divina, não foi explicitamente afirmado em qualquer lugar que este sangue de fato era o de Jesus. Na ausência de qualquer testemunho decisivo ou conclusivo, tivemos que proceder cautelosamente. Tinhamos que avaliar fragmentos de evidência circunstancial, e tentar reunir estes fragmentos em uma imagem coerente. E tinhamos que primeiro determinar se havia qualquer influência unicamente judaica nos Merovingios. Certamente os reis Merovíngios não parecem er sido anti-semiticos. Ao contrário, eles parecem serem não apenas tolerantes mas claramente simpáticos aos judeus em seus domínios e isto a despeito dos assiduos protestos da Igreja Romana.  Casamentos mistos eram uma ocorrência frequente. Muitos judeus, especialmente no sul, possuiam grandes propriedades de terra. Muitos deles possuiam serventes e escravos cristãos. E muitos deles atuavam como magistrados e administradores de alto escalão para seus senhores Merovíngios. No todo, a atitude dos Merovígios quanto aos seus súditos judeus parece ter sido sem paralelo na história ocidental antes da Reforma Luterana. Os próprios Merovíngios acreditavam que seus poderes miraculosos eram devidos, em parte, ao cabelo deles, que eles eram proibidos de cortar. A posição deles sobre este assunto era idêntica aquela dos Nazaritas no Velho Testamento, de quem Sansão era um membro.  Há muita evidência a sugerir que Jesus era também um Nazarita. Segundo escritores iniciais da Igreja e eruditos modernos seu irmão, São Tiago, indiscutivelmente era. Na casa real Merovíngia, e nas famílias ligadas a ela, havia um número surpreendente de nomes judaicos. Assim, em 577, um irmão do Rei Clotaire II foi chamado Sansão. Subsequentemente um Miron o Levita foi Conde de Besalou e bispo de Gerona. Um Conde de Roussillon era chamado Salomão, e um outro Salomão tornou-se rei da Bretanha. Havia um Abade Elisacar, uma variante de Eleazaer e Lázaro. E o próprio nome Merovee pareceria ser de derivação do Oriente Médio. Os nomes judaicos ficaram crescentemente proeminentes pelos casamentos dinásticos entre os Merovíngios e os Visigodos. Tais nomes figuram na nobreza e realeza visigoda; e é possível que muitas das chamadas famílias visigodas fossem de fato judaicas. Esta possibilidade ganha credencial posterior pelo fato de que os cronistas frequentemente usam as palavras “godo” e “judeu” intercambiavelmente. O sul da França e os pântanos espanhois da região conhecida como Septimania nos tempos Merovíngios e Carolíngios continham uma população judaica extremamente grande. Esta região foi também conhecida como “Gótica’ e seus habitantes judeus eram então frequentemente chamados “godos”, um erro que pode, na ocasião, ter sido deliberado. Em razão deste erro, os judeus não podem ser identifivcados como tal, salvo talvez por específicos nomes de família. Asim o sogro de Dagoberto era chamado Bera, um nome semita. E a irmã de Bera  era casada com um membro de uma família chamada Levi. Garantidamente, nomes e uma atitude mística em relação ao próprio cabelo  não eram necessariamente uma base sólida na qual estabelecer uma conexão entre os Merovíngios e o Judaismo. Mas há um outro fragmento de evidência que de certa forma é mais persuasivo. Os Merovíngios eram a dinastia real dos Francos, uma tribo teutônica que aderiu a lei tribal teutônica. No final do século V esta lei, codificada e adaptada a estrutura romana, se tornou conhecida como Lei Salica. Em suas origens, contudo, a Lei Salica era anterior o cristianismo romano na Europa ocidental e era claramente uma lei teutônica tribal. Durante séculos que se seguiram ela continuou a permanecer em oposição a lei eclesiástica promulgada por Roma. Pela Idade Média ela foi a oficial lei secular do Sagrado Império Romano.

Tão tarde quanto a Reforma Luterana os camponeses e os cavaleiros alemães incluiram, entre suas maiores acusações a Igreja, o desrespeito desta última pela tradiocional Lei Sálica. Há uma inteira seção da Lei Sálica, o Titulo 45, ‘De Migrantibus’ que tem consistentemente intrigado os eruditos e comentadores, e tem sido a fonte de incessate debate legal. Esta é uma complicada seção de estipulações e cláusulas relativas as circunstâncias pelas quais os itinerantes podem estabelecer residência e obter cidadania. O que é cuioso sobre isso não é que ele seja teutônico em origem, e os escritores tenham sido dirigidos a postularem hipóteses bizarras para responder por sua inclusão no Codigo Salico. Somente recentemente, contudo, tem sido descoberto que esta seção do Código Sálico deriva diretamente de Leis judaicas. Mais especificamente, ele pode ser traçado de volta a uma seção do Talmud. Pode então ser dito que a Lei Sálica, ao menos em parte, deriva diretamente da lei judaica. E isto por sua vez sugere que os Merovíngios sob cujos auspícios a Lei Sálica foi codificada, não apenas eram versados na lei judaica, mas tinham acesso a textos judaicos.

A Principalidade na Septimania

Tais fragmentos são provocantes, mas eles forneceram apenas um tênue apoio pata nossa hipótese que uma linhagem sanguínea descendente de Jesus existiu no sul da França, que esta linhagem sanguinea se entrecasou com os Merovíngios e que em consequência os Merovíngios eram parcialmente judeus. Mas conquanto a época dos Merovíngios falhou em nos fornecer qualquer evidência conclusiva para nossa hipótese, a época que imediatamete se seguiu o fez. Por meio desta ‘evidência retroativa’ nossa hipótese repentinamente tornou-se sustentável. Nós já haviamos explorado a possibilidade da linhagem Merovíngia ter sobrevivido depois de ser deposta do trono pelos Carolíngios. Neste processo tinhamos encontrado  uma principalidade autônoma que existiu no sul da França; por um século e meio a principalidade cujo mais famoso governante era Guillem de Gellone. Guillem era um dos heróis mais reverenciados de sua época. Ele também era o protagonista de Willehalm de Wolfram von Eschenbach, e dito ter sido associado com a família do Gral. Foi em Guillem e em sua base que encontramos alguma de nossa evidência mais surpreendente e excitante. No auge de seu poder Guillem de Gellone incluiu entre seus domínios o nordeste da Espanha, os Pirineus e a região ao sul da França conhecida como Septimania. Este área a muito tinha contido uma grande população judia. Durante os séculos VI e VII esta população desfrutou de relações extremamente cordiais com seus senhores visigodos, que esposavam um cristianismo Ariano tanto que, de fato, estes casamentos mistos eram comuns, e as palavras ‘godo’ e ‘judeu’ eram frequentemente usadas intercambiavelmente. Por 711 contudo, a situação dos judeus na Septimania e no nordeste da Espanha tinha tristemente se deteriorado. Por aquele tempo Dagoberto II tinha sido assassinado e sua linhagem levada a se esconder em Razes, a região incluindo e cercando Rennes-le-Chateau. E conquanto ramos colaterais da linhagem sanguínea Merovíngia ainda nominalmente ocupassem o trono ao norte, o único poder real residia nas mãos dos chamados Prefeitos do Palácio; os usurpadores Carolíngios que, com a sanção e o apoio de Roma, estabeleceu sua própria dinastia. Por aquele tempo, também, os visigodos tinham eles próprios se convertido ao cristianismo romano, e começaram a perseguir os judeus em seus domínios. Então, quando a Espanha visigoda foi dominada pelos mouros em 711, os judeus avidamente deram boas vindas aos invasores.

Sob governo muçulmano os judeus da Espanha desfrutaram de uma existência florescente. Os mouros eram graciosos a a eles, frequentemente os colocando no cargo administrativo das cidades capturadas como Córdoba, Granada e Toledo. O comércio judeu foi encorajado e obteve uma alta nova prosperidade. O pensamento judaico co-existia, lado a lado, com aquele do Islã, e os se fertilizavam cruzadamente um ao outro. E muitas cidades, incluindo Cordoba, a capital moura da Espanha, eram predominantemente judias em população. No início do século VIII os mouros atravessaram os Pirineus para Septimania. E de 720 até 759 enquanto o neto e bisneto de Dagoberto continuavam sua existência clandestina em Razes-Septimania estava em mãos islâmicas. A Septimania se tornou uma principalidade autônoma moura, com sua própria capital e Narbonne e possuindo apenas uma fidelidade nominal ao emir de Cordoba. E de Narbonne os mouros da Septimania começaram a atacar na direção norte, capturando cidades tão profundamente em território franco quanto Lyons. O avanço mouro foi examinado por Charles Martel, Prefeito do Palácio e avô de Carlos Magno. Por 738, Charles tinha dirigido os mouros a Narbonne, que ele havia cercado. Narbonne, contudo, se defendida pelos mouros e os judeus se provou inexpugnável, e Charles expressou sua frustração ao devastar o interior adjacente do local. Por 752, o filho de Charles, Pepino, tinha formado alianças com aristocratas locais assim colocando a Septimania sob seu completo controle. Narbonne, contudo, continuava a resistir, apesar de um logo cerco de sete anos pelas forças de Pepino. A cidade era um espinho doloroso no quadril de Pepino, em um tempo quando a sua necessidade mais urgente era consolidar sua posição. Ele e seus sucessores eram agudamente sensíveis às acusações de terem usurpado o trono Merovíngio. Para estabelecer a declaração de sua legitimidade, ele constituiu alianças dinásticas com as famílias sobreviventes do sangue real Merovingio. Para posteriormente validar seus status ele arranjou para sua coroação ser distinguida pelo rito bíblico da unção – de onde a Igrejqa assumiu a prerrogativa de criar reis. Msa houve um outro aspecto do ritual da unção também. Segundo os eruditos, a unção foi uma tentativa deliberada para sugerir que a monarquia franca era uma réplica, se não realmente uma continuação, da monarquia judaica do Velho Testamento. Isto, por si só, é extremamente interessante. Porque Pepino o usurpador queria se legitimar por meios de um protótipo bíblico? A menos que a dinastia Merovíngia que ele tinha deposto tinha se legitimizado por precisamente os mesmos meios. Em qualquer caso, Pepino foi confrontado por dois problemas: a feroz resistência de Narbonne, e o assunto de estabelecer sua própria declaração legítima ao trono ao se referir ao precedente bíblico. Como tem demonstrado o  Professor Arthur Zuckerman da Universidade de Columbia, ele resolveu ambos problemas por meio de um pacto em 759 com a população judaica de Narbonne. Segundo este pacto, Pepino o endosso judeu a sua declaração a uma sucessão bíblica. Ele também receberia a ajuda judaica contra os mouros. Em troca ele garantiria aos judeus da Septimania uma principalidade, e um rei, deles próprios. Em 759 a população judaica de Narbonne repentinamente voltou-se contra os defensores muçulmanos da cidade, os matou e abriu os portões da fortaleza aos francos que a cercavam. Pouco depois, os judeus reconheceram Pepino como seu senhor nominal e validaram sua declaração a uma legítima sucessão bíblica. Pepino, enquanto issso, mantinha sua parte na barganha. Em 768 uma principalidade foi criada na Septimania – uma principalidade judaica que prestava lealdade nominal a Pepino mas era essecialmente independente. Um governante foi oficialmente instalado como rei dos judeus. Nos romances ele é chamado Aymery. Segundo os registros existentes, contudo, ele parece, apenas tendo sido recebido nas fileiras da nobreza franca, ter tomado o nome de Teodorico ou Thierry. Teodorico ou Thierry era o pai de Guillem de Gellone. E ele foi reconhecido por Pepino e pelo Califa de Bagdá, como ‘a semente real da casa de David’. Como já haviamos descoberto, os eruditos modernos estavam incertos sobre as origens e base de Teodorico. Segundo a maioria dos pesquisadores ele era de descendência Merovíngia. Segundo Arthur Zuckerman ele é dito ter sido um nativo de Bagdá e um ‘exffarch’, descendente de judeus que tinham vivido na Babilônia desde o cativeiro babilonio. È também possível, contudo, que o ‘exilarch’ de Badgá não fosse Teodorico. È possível que o ‘exilarch’ veio de Bagdá para consagrar Teodorico e, os registros subsequentes tenham confundido os dois.

O Professor Zuckerman menciona uma curiosa avaliação que os ‘exilarcas odidentais’ do que naqueles do Oriente “Quem eram os ‘exilarcas ocidentais”, se não os Merovíngios? Porque um indivíduo de descendência merovíngia seria reconhecido como Rei dos Judeus, governante de uma principalidade judaica e ‘semente para a casa real de David” a menos que os Merovíngios fossem de fato parcialmente judeus? A seguir do conluio da Igreja no assassinato de Dagoberto e sua traição do pacto retificado com Clovis, os sobreviventes Merovíngios podem bem ter repudiado toda a fidelidade a Roma e retornado ao que era sua fé anterior. Seus laços com esta fé, em qualquer caso, teriam sido fortalecidos pelo casamento de Dagoberto com a filha de um príncipe ostensivamente Visigodo com o nome patentemente semítico de Bera. Teodorico ou Tierry, posteriormente consolidou sua posição, e a de Pepino também, por um casamento oportuno com a irmã do último Alda, a tia de Carlos Magno. Nos anos que se seguiram o reino judaico da Septimania desfrutou de uma existência próspera. Era ricamente dotada de propriedades mentidos em liberdade dos monarcas Carolíngios. Foi até mesmo garantido consideráveis porções de terras da Igreja a despeito dos vigorosos protestos do Papa Stephen II e seus sucessores. O filho de Teodorico, rei dos judeus da Septimania, era Guillem de Gellone, cujos títulos incluiam Conde de Barcelona, de Toulouse, de Auvergne e de Razes. Como seu pai Guillem não era apenas merovíngio, mas também um judeu de sangue real. O sangue real reconhecido pelos Carolíngios, pelo califa e, embora rancorasamente, pelo papa ser aquele da casa de David. A despeito das tentativas subsequentes de ocultar isto, a erudição moderna e a pesquisa tem provado o judaismo de Guillem acima de qualquer dúvida. Até mesmo nos romances onde ele figura como Guilhaume, o Príncipe de Orange, ele é fluente em hebreu e em árabe. O instrumento em seu escudo é o mesmo daquele dos ‘exilarcas’ orientais – o Leão de Judá, a tribo a qual a casa de David, e subsequentemente Jesus, pertenceu. Ele é apelidado de ‘nariz em gancho’. E até mesmo no meio de suas campanhas, ele toma o cuidado de observar o Sabbath e a festa judaica dos Tabernáculos. Como ressalta Arthur Zuckerman:

– O cronista que escreveu o relato original do cerco e queda de Barcelona registrou eventos segundo o calendário judaico… O comandante da expedição, o Duque William de Narbonne e Toulouse realizou a ação com a observação estrita dos Sabbaths judaicos e dos dias sagrados. Em tudo isto, ele desfrutou do completo entendimento e cooperação do Rei Luis. Guillem de Gelone se tornou um dos chamados Pares de Carlos Magno, um autêntico herói histórico que, na mente popular e na tradição, equiparou-se a figuras legendárias como Rolando e Olivier. Quando o filho de Carlos Magno, Luis, foi investido como imperador, foi Guillem que colocou a coroa em sua cabeça. É relatado que Luis disse, “Senhor William… é sua linhagem que elevou a minha”. Esta é uma declaração extraordinária dado que ele se dirigia a um homem cuja linhagem, no que diga respeito aos historiadores, pareceria ser completamente obscura. Ao mesmo tempo Guillem era mais do que um guerreiro. Pouco antes de 792 ele estabeleceu uma academia em Gelone, importando eruditos e criando uma biblioteca renomada; e Gelone logo se tornou um centro considerado de estudos judaicos. É exatamente de uma tal academia que o Flegetanis gentio pode ter divulgado o erudito hebreu descendente de Salomão, que, segundo Wofram, confiou o segredo do Santo Gral a Kyot de Provença. Aqui, por volta de 806, ele morreu e a academia foi mais tarde convertida em um monastério, o famoso Saint-Guilhelm-le-Deseri. Até mesmo antes da morte de Guillem, contudo, Gelone havia se tornado um dos primeiros assentos na Europa para o culto de Madalena; o que, muito significativamente, floresceu lá concorrentemente com a academia judaica. Jesus era da Tribo de Judá e da casa real de David. A Madalena é dita ter levado o Gral – o Sangraal ou ‘sangue real’ para a França. E no oitavo século havia, no sul da França, um potentado da Tribo de Judá e da casa real de David, que era reconhecido como rei dos judeus. Ele não era apenas um judeu praticante, Merovíngio. E pelo poema de Wolfram von Eschenbach, ele e sua família são associados ao Santo Gral.

A Semente de David

Nos séculos posteriores tentativas assíduas parecem ter sido feitas para expurgar dos registros todos os traços do reino judaico da Septimania. A frequente confusão dos ‘godos’ e os ‘judeus’ parece indicativa desta censura. Mas a censura não pode esperar ser inteiramente bem sucedida. Já em 1143 Peter o Venerável de Cluny, em uma fala a Luis VII da França, condenou os judeus de Narbonne que afirmavam ter um rei residindo entre eles. Em Cambridge um monge, chamado Teobaldo, fala de ‘os chefes príncipes e Rabbis que moram na Espanha e se reunem em Narbonne onde reside a semente real’. E em 1165-6 Benjamim de Tudela, um famoso viajante e cronista, relata que em Narbonne há sábios, magnatas e príncipes na cabeça de quem está… um descendente da casa de David como afirmado em sua árvore genealógica. Mas qualquer semente de David residindo em Narbonne pelo século XII era de menor consequência já que certas outras sementes viviam em outros lugares. As árvores familiares se bifurcam, se espalham, se subdividem e produzem verdadeiras florestas. Se certos descendentes de Teodorico e de Guillem de Gelone permaneciam em atingidos mais domínios augustos. Pelo século XII estes domínios incluiam os mais ilustres na cristã Lorraine e no reno franco de Jerusalém. No século IX a linhagem sanguínea de Guillem de Gelone tinha culminado nos primeiros duques de Aquitania. Isto também tornou-se alinhado com a casa ducal da Bretanha. E no século X um certo Hugues de Plantard – apelidado ‘Nariz Longo’ e um descendente linear de Dagoberto e de Guillem de Gellone se tornou o pai de Eustáquio, o primeiro Conde de Boulogne. O neto de Eustáquio foi Godfroi de Bouillon, Duque de Lorraine e conquistador de Jerusalem. E de Godfroi lá derivou-se uma dinastia e uma ‘tradição real’ que, em virtude de ser fundada na ‘Rocha de Sião’ era igual aquela que presidia a França, a Inglaterra e a Alemanha. Se os Merovíngios de fato eram descendentes de Jesus, então a prole de Godfroi de sangue Merovíngio tinha, em sua conquista de Jerusalém, reconquistado sua herança por direito. Godfroi e a subsequente casa de Lorraine era, de fato, nominalmente católica. Para sobreviver em um mundo agora cristianizado, eles teriam que ser. Mas suas origens parecem ter sido conhecidas em certos lugares, ao menos. Tão tarde quanto no século XVI é relatado que Henri de Lorraine, Duque de Guise, ao entrar na cidade de Joinvile em Champagne, foi recebido por exuberantes multidões. Entre eles, certos indivíduos são registrados como tendo cantado ‘Hosannah filio David’ (“Hosannah ao Filho de David’). Não é talvez insignificante que este incidente seja recontado em uma história moderna de Lorraine, impressa em 1966. O trabalho contém uma introdução especial de Otto von Habsburg que hoje é o titular Duque de Lorraine e Rei de Jerusalém.

Conclusão e Portentos para o Futuro

Mas, se por exemplo, a declaração que Cristo se levantou dos mortos é para ser compreendida não literal mas simbolicamente, então ela é capaz de várias interpretações que não conflitam com o conhecimento e não prejudicam o significado da declaração. A objeção que o entendimento simbolicamente põe um fim na esperança cristã da imortalidade é inválida, porque muito antes da vinda do cristianismo a humanidade acreditava em uma vida depois da morte e portanto não há necessidade do evento da Páscoa como uma garantia de imortalidade. Porque o perigo que uma mitologia entendida tão literalmente, e como ensinado pela Igreja, repentinamente seja repudiada é hoje maior do que nunca. Não é este o tempo que a mitologia cristã, ao invés de ser dizimada, seja entendida simbolicamente de uma vez? Carl Jung, ‘The Undiscovered Self’, Collected Works, vol. 10 (1956) p. 266. Não tivemos, no início, estabelecido provar ou desaprovar algo, ao menos de toda a conclusão a que temos sido irrevogavelmente levados. Tivemos certamente não estabelecer alguns dos mais básicos princípios do cristianismo. Ao contrário, tivemos começado pela investigação de um mistério específico. Estávamos procurando por respostas para certas questões perplexantes, explicações para certos enigmas históricos. No processo estavamos mais ou menos tropeçando em algo muito maior do que inicialmente haviamos imaginado. Fomos levados a uma conclusão surpreendente, controvertida e aparentemente absurda. Esta conclusão nos compeliu a voltar nossa atenção para a vida de Jesus e as origens da religião fundada a partir dele. Quando assim o fizemos, nós ainda não estavamos tentando desafiar o cristianismo. Estavamos simplesmente nos comportando para avaliar se a nossa conclusão era ou não possível. Uma exaustiva consideração do material bíblico nos convenceu que era. De fato, nos tornamos convencidos que a nossa conclusão não era apenas possível, mas extremamente provável. Nós não podiamos e ainda não podemos provar a acurácia da nossa conclusão. Isto permanece, ao menos em alguma extensão, uma hipótese. Mas é uma hipótese plausível, que faz um sentido coerente. Isto explica muita coisa. E, até onde nos diga respeito, ela constitui uma narrativa histórica mais provável do que qualquer uma que temos encontrado dos eventos e personagens que, dois mil anos atrás, se imprimiram na consciência ocidental e, nos séculos que se seguiram, formaram a nossa cultura e civilização.

Se não podemos provar a nossa conclusão, contudo, temos recebido abundante evidência tanto de seus documentos quanto de seus representantes que o Priorado de Sião pode. Com base em suas pistas escritas e sua conversa pessoal conosco, estamos preparados para acreditar que o Sião possui algo que de algum modo constitui uma ‘prova incontroversa’ da hipótese que temos apresentado. Não sabemos precisamente qual possa ser esta prova. Podemos, contudo, levantar uma hipótese educada. Se nossa hipótese está correta, a esposa de Jesus e a sua prole [ele deve ter sido pai de um numero de crianças com a idade entre dezesseis ou dezesssete anos e a sua suposta morte], depois de fugir da Terra Santa, encontrando um refugio no sul da França, e em uma comunidade judaica que lá preservou sua linhagem. Durante o século V esta linhagem parece ter se entrecasado com a linhagem real dos francos, assim gerando a dinastia Merovíngia. Em 496 a Igreja fez um pacto com esta dinastia, jurando-se na perpetuidade da linhagem sanguínea Merovíngia presumidamente em pleno conhecimento da verdadeira identidade da linhagem sanguínea. Isto explicaria porque foi oferecido a Clovis o status de Sagrado Imperador Romano, de ‘novo Constantino’ e porque ele não foi criado rei, mas apenas reconhecido como tal. Quando a Igreja teve parcipação por conluio no assassinato de Dagoberto, e a subsequente traição da linhagem Merovíngia, ela se tornou culpada de um crime que não pode ser racionalizado nem expurgado. Ele apenas pode ser suprimido. Ele teria que ser suprimido porque uma revelação da real identidade dos Merovíngios dificilmente teria fortalecido a posição de Roma contra seus inimigos.

A despeito de todos os esforços para erradicar isto, a linhagem sanguínea de Jesus ou, a qualquer nivel, a linhagem Merovíngia sobreviveu. Ele sobreviveu em parte através dos Carolíngios, que claramente se sentiram mais culpados em sua usurpação do que o fez Roma, e buscaram se legitimar por alianças dinásticas com princesas merovíngias. Mas mais importantemente, ela sobreviveu através do filho de Dagoberto, Sigisberto, cujos descendentes incluiram Guillem de Gelone, governante do reino judeu da Septimania, e eventualmente Godfroi de Bouillon. Com a captura de Jerusalém por Godfroi em 1099, a linhagem de Jesus teria reconquistado sua herança por direito, que lhe foi conferida nos tempos do Velho Testamento. É duvidoso que o verdadeiro pedigreee de Godfroi durante o tempo das Cruzadas fosse tão segredo quanto Roma desejava que ele fosse. Dado a hegemonia da Igreja, não poderia haver, com certeza, uma revelação aberta. Mas é provável que rumores, tradições e histórias fossem comuns; e estas pareceriam ter encontrado sua expressão mais proeminente em tais histórias como aquela de  Lohengrin, por exemplo, o mítico ancestral de Godfroi e, naturalmente, o Santo Gral teria sido ao menos duas coisas simultaneamente. Por um lado ele teria sido a linhagem sanguínea de Jesus e de seus descendentes – o Sang Raal, o sangue real do qual os Templários, criados pelo Priorado de Sião, foram indicados como guardiões. Ao mesmo tempo o Santo Gral teria sido, muito literalmente, o receptáculo, ou vaso, que recebeu e conteve o sangue de Jesus. Em outras palavras, ele teria sido o útero de Madalena e, por extensão, a própria Madalena. Disto, o culto de Madalena, que foi promulgado na Idade Média, teria se elevado e sido confundido com o culto da Virgem. Pode ser provado, por exemplo, que muitas das famosas ‘Madonas Negras’ iniciais na era cristã eram templos não para a Virgem mas para Madalena e elas apresentavam uma mãe com uma criança. Também tem sido argumentado que as catedrais góticas, estas majestosas réplicas em pedra de um útero dedicadas a ‘Notre Dame’ eram também, como o declara a Serpente Vermelha, templos à consorte de Jesus, muito mais que a sua mãe. O Santo Gral, então, teria simbolizado a linhagem sanguínea de Jesus e Madalena, de quem esta linhagem sanguínea saiu. Mas tem algo mais também. No ano 70 de nossa era, durante a grande revolta da Judéia, as legiões romanas sob Tito saquearam o Templo de Jerusalém. O tesouro pilhado do Templo é dito ter encontrado seu caminho eventualmente para os Pirineus; e  M. Plantard, em sua conversa conosco, afirmou que este tesouro estava nas mãos do Priorado de Sião hoje.

Mas o Templo de Jerusalém pode ter contido mais do que o tesouro saqueado pelos centuriões de Tito. Na antiguidade a religião do judaismo e a política eram inseparáveis. O Messias era para ser um rei-sacerdote cuja autoridade abrangia igualmente os domínios secular e espiritual. É então provável, que o Templo abrigava os registros oficiais  pertencentes a linhagem real de Israel; o equivalente a certidões de nascimento, licenças de casamento e outros dados relevantes a respeito de qualquer moderna família real ou aristocrática.  Se Jesus era de fato ‘O Rei dos Judeus’ o Templo quase certamente teria contido copiosa informação relacionada a ele. Pode até mesmo ter contido seu corpo ou ao menos sua tumba, uma vez que seu corpo foi removido de uma tumba temporária nos Evangelhos. Não há indicação de que Tito, quando ele saqueou o Templo em 70, tenha obtido algo de qualquer modo relevante a Jesus. Tal material, se ele existiu, pode com certeza ter sido destruído. Por outro lado, ele também pode ter sido escondido; e os soldados de Tito, interessados apenas no botim, podem não ter se preocupado em procurar por isto. Para qualquer sacerdote no Templo naquele tempo, este teria sido um óbvio curso de ação. Vendo uma falange de centuriões avançando sobre ele, ele teria deixado para eles o ouro, as jóias, o tesouro material que eles esperavam encontrar. E ele teria escondido, talvez sob o Templo, os itens que eram de maior consequência relacionados aos rei por direito de Israel, o reconhecido Messias e a família real. Por 1100 os descendentes de Jesus teriam alcançado a promeminência na Europa e, através de Godfroi de Bouillon, na Palestina também. Eles próprios podem não ter sido capazes de provar sua identidade ao mundo como um todo, e tal prova pode bem ter sido considerada necessária para seus projetos subsequentes. Se fosse conhecido que tal prova existia, ou até mesmo possivelmente existisse, nos precintos do Templo, nenhum esforço teria sido poupado para encontra-la. Isto explicaria o papel dos Cavaleiros Templários que, sob o manto do segredo, realizaram escavações sob o Templo, nos chamados Estábulos de Salomão.

Com base na evidência que examinamos, então haveria pouca dúvida de que os Templários foram de fato enviados para a Terra Santa com o propósito expresso de encontrar ou obter algo. E com base na evidência que examinamos, eles teriam cumprido a missão deles. Eles parecem ter encontrado o que eles foram enviados para encontrar, e terem levado isto de volta a Europa. O que veio a ser isto permanece um mistério. Mas parece haver pouca dúvida que, sob os auspícios de Bertrand de Blanchefort, o quarto Grão Mestre da Ordem do Templo, algo foi escondido nas vizinhanças de Rennes-le-Chateau porque um contingente de mineiros alemães foi importado, sob a mais restrita segurança, para escavar e construir um lugar oculto. Pode-se apenas especular sobre o que lá foi escondido. Pode ter sido o corpo mumificado de Jesus. Pode ter sido o equivalente, por assim dizer, da licença de casamento de Jesus, e/ou certidões de nascimento de seus filhos. Pode ter sido algo de comparável importância explosiva. Qualquer um destes itens teria se referido ao Santo Gral. Qualquer um destes itens pode, por acidente ou desígnio, ter passado para os hereges cátaros e feito parte do misterioso tesouro de Montsegur. Através de Bauduino e de Godfroi de Bouillon, uma ‘tradição real’ é dita ter existido, a qual porque foi fundada sobre ‘a rocha de Sião’ se igualava em status as mais importantes dinastias da Europa. Se como o Novo Testamento e mais tarde a Livre Maçonaria mantém que a ‘Rocha de Sião’ é um sinônimo de Jesus, esta avaliação subitamente faz sentido. De fato, isto seria, se algo, uma meia verdade. Uma vez instalada no trono do reino de Jerusalém, a dinastia Merovíngia poderia sancionar e até mesmo encorajar as pistas sobre sua verdadeira ancestralidade. Isto explicaria porque os romances do Gral apareciam precisamente quando e onde eles o fizeram, e porque eles eram tão explicitamente associados aos Cavaleiros Templários. Em tempo, uma vez que sua posição na Palestina estava consolidada, a tradição real descendente de Godfroi e Bauduino provavelmente teria divulgado suas origens. O rei de Jerusalém então teria tomado precedência sobre todos os monarcas da Europa, e o patriarca de Jerusalém teria suplantado o Papa. Deslocando Roma, Jerusalém então teria se tornado a verdadeira capital do cristianismo, e talvez de muito mais do que do cristianismo. Porque se Jesus fosse reconhecido como um profeta mortal, como um rei-sacerdote e legítimo governante da linhagem de David, ele poderia muito bem se tornar aceitável para os muçulmanos e os judeus. Como rei de Jerusalém, sua descendência linear teria então estado em uma posição de implementar os princípios primários da politica Templária de reconciliação do cristianismo com o judaismo e o islã. As circunstâncias históricas, com certeza, nunca permitiram que s coisas chegassem a este ponto. O reino franco de Jerusalém nunca consolidou sua posição. Cercado por todos os lados pelos exércitos muçulmanos, instável em seu próprio governo e administração, ele nunca alcançou a força e a segurança interna que precisava para sobreviver e ainda menos para estabelecer sua supremacia sobre as coroas da Europa e a Igreja de Roma. O grandioso projeto fracassou e com a perda da Terra Santa em 1291 ele desmoronou completamente. Os Merovíngios mais uma vez estavam sem coroa. E os Cavaleiros Templários não eram apenas retundantes, mas dispensáveis. Nos séculos que se seguiram, os Merovíngios ajudados e/ou dirigidos e/ou protegidos pelo Priorado de Sião fizeram tentantivas repetidas de reconquistar sua herança, mas estas tentativas estavam confinadas a Europa. Eles parecem ter estado envolvidos ao menos em três programas essencialmente distintos mas interrelacionados. Um era a criação de uma atmosfera psicológica, uma tradição clandestina destinada a erodir o pensamento espiritual esotérico, nos manifestos rosacrucianos e escritos similares, em certos ritos da Livre Maçonaria e, com certeza, nos símbolos da Arcadia e corrente subterrânea. Um segundo programa compreendia uma maquinação política, intriga e, se possível, uma aberta tomada do poder – as técnicas empregadas pelas famílias de Guise e de Lorraine no século XVI e pelos arquitetos do Fronde no século XVII. Um terceiro programa pelo qual os Merovíngios buscavam reconquistar sua herança era o entrecasamento dinástico.

A primeira consideração pode parecer que tais procedimentos bizantinos teriam sido desnecessários; pode parecer que os Merovíngios se eles de fato eram os descendentes de Jesus não teriam tido problema em estabelecer sua supremacia. Eles precisariam apenas revelar e estabelecer a real identidade deles, e o mundo os reconheceria. De fato, contudo, as coisas não teriam sido tão simples. O próprio Jesus não foi reconhecido pelos romanos. Quando foi expediente assim o fazer, a Igreja não teve qualquer escrúpulo  em sancionar o assassinato de Dagoberto e derrubar sua linhagem sanguinea. Uma revelação prematura do pedigree deles não teria garantido o sucesso para os Merovíngios. Ao contrário, isto teria sido muito mais provavelmente ‘sair pela culatra’ e engendrar uma luta faccional, precipitar uma crise de fé, e provocar desafios para a Igreja e outros potentados seculares. A menos que eles estivessem bem enraizados em suas posições de poder, os Merovíngios não poderiam ter suportado tais repercussões e o segredo da identidade deles, sua carta trunfo, como era, teria sido jogada e perdida para sempre. Dado a realidade da história e da política, esta carta trunfo não pode ser usada como um degrau para o poder. Ela só pode ser jogada quando o doder já houver sido conquistado, em outras palavras, de uma posição de força. Para se restabelecerem, portanto, os Merovingios foram obrigados a recorrer aos procedimentos mais convencionais; os procedimentos aceitos em uma particular idade em questão. Por ao menos quatro ocasiões estes procedimentos estiveram frustrantemente perto do sucesso, e foram impedidos apenas por um mau cálculo, pela força da circunstância ou por totalmente não previstos. No século XVI, por exemplo, a casa de Guise quese gerenciou para tomar o poder do trono francês. No século XVII o Fronde quase teve sucesso em impedir Luis XIV do trono e suplanta-lo com um representante da casa de Lorraine. No final do século XIX projetos foram estabelecidos para uma espécie de revivida Liga Santa que teria unificado a Europa católica – Áustria, França, Itália e Espanha sob os Habsburgs. Estes planos foram impedidos pelo comportamento errático e agressivo da Alemanha e da Russia que provocaram uma constante mudança de alianças entre os maiores poderes e eventualmente precipitaram muma guerra que derrubou todas as dinastias continentais. Foi no século XVIII contudo que a linhagem sanguínea Merovíngia provavelmente esteve mais perto da realização de seus objetivos. Em virtude de seu intercasamento com os Hapsburgs a casa de Lorraine realmente havia adquirido o trono da Áustria, o Sagrado Império Romano. Quando Maria Antonieta, filha de François de Lorraine,  se tornou rainha da França, também, estava apenas a uma geração aproximadamente da distância. Não tivesse a Revolução Francesa intervindo, a casa de Habsburg-Lorraine podia bem, pelos anos de 1800, ter estado em seu caminho de estabelecer o domínio de toda Europa. Pareceria claro que a Revolução Francesa foi devastadora para as esperanças e aspirações Merovígias. Em um único cataclisma abalador, os projetos cuidadosamente implementados por um século e meio foram repentinamente reduzidos a poeira. Das referências nos Documentos do Priorado, sobretudo, pareceria que o Sião, durante o turbilhão da Revolução, perdeu muitos de seus mais preciosos registros e possivelmente outros itens também. Isto pode explicar a mudança no Grão Mestrado da Ordem – especificamente nas figuras culturais francesas que, como Nodier, tinham acesso a material de outro modo não obtíveis. Isto também pode explicar o papel de Sauniere. O predecessor de Sauniere, Aantoine Bigou, tinha escondido e possivelmente composto, os pergaminhos codificados nas vésperas da Revolução e então fugiu para a Espanha, onde, pouco depois, morreu. É então possível que o Sião, por um tempo a qualquer nível, não soubesse precisamente onde estavam estes pergaminhos. Mas até mesmo se ele soubesse que eles estava escondidos na igreja em  Rennes-leChateau, eles não podiam facilmente serem retirados sem a ajuda de um simpático sacerdote no local atendendo ao pedido de Sião, um homem que se refreasse de perguntas embaraçosas, mantivese o silêncio e não inerferisse com os interesses e atividades da Ordem. Se os pergaminhos, sobretudo, se referissem a algo mais escondido nas vizinhanças de  Rennes-leChateau, um tal homem teria sido muito mais essencial. Sauniere morreu sem divulgar seu segredo. E assim também o fez sua governanta, Marie Denarnaud.

Durante os anos que se seguiram tem havido muitas escavações nas vizinhanças de Rennes-le-Chateau, mas nenhuma delas produziu algo. Se, como assumimos, certos itens explosivos foram escondidos em suas cercanias, eles certamente teriam sido removidos quando a história de Sauniere começou a atrair a atenção e caçadores de tesouro a menos que estes itens fossem escondidos em algum depositório imune ao caçadores de tesouro, em uma cripta subterrânea, por exemplo, sob uma piscina particular artificial construída em propriedade privada. Uma tal cripta garantiria a segurança e seria a prova de qualquer escavação não autorizada. Nenhuma escavação teria sido possível a menos que a piscina fosse primeiro drenada e isto dificilmente poderia ser feito clandestinamente – especialmente por invasores de propriedade privada. De fato uma tal piscina artificial existe perto de Rennes-le-Chateau perto de um sítio chamado, muito apropriadamente, Lavaldieu (O Vale de Deus). Esta piscina pode bem ter sido construida sobre uma cripta subterrânea que, por sua vez, pode facilmente levar a uma passagem subterrânea para qualquer uma da miríade de cavernas nas montanhas adjacentes. Quanto aos pergaminhos encontrados por Sauniere – dois deles, ou, a qualquer nível, cópias de dois deles tem sido reproduzidos, publicados e amplamente circulados. Os outros dois, em contraste, tem sido mantidos escrupulosamente em segredo. Em sua conversa conosco  M. Plantard declarou que eles atualmente estão em um depósito seguro no banco Loyd em Londres. Posteriormente temos sido incapazes de rastrea-los. E o dinheiro de Sauniere? Sabemos que parte dele foi obtida por meio de uma transação financeira que envolveu o Arquiduque Johann von Habsburg.  Também sabemos que somas substanciais eram tornadas disponíveis não apenas a Sauniere mas também ao Bispo de Carcassone, para o Abade Henri Boudet, o cura de  Rennes-les-Bains. Há razão para concluir que o grosso das rendas de Sauniere foram pagas a ele por Boudet, através da intermediária Marie Denarnaud, a governanta de Sauniere. Onde Boudet, ele próprio um pobre sacerdote paroquial, obteve tais recursos, permanece, com certeza, um mistério. Ele claramente parece ter sido um representante do Priorado de Sião; mas se o dinnheiro saiu diretamente de Sião permanece uma questão não respondida. Pode muito bem ter sua origem no tesouro dos Hapsburgs. Ou pode ter tido origem no Vaticano, que pode ter sido submetido a uma chantagem política de alto nível, tanto pelo Sião quanto pelos Hapsburgs.

Em qualquer caso, a questão do dinheiro, ou de um tesouro que o criou, se tornou, para nós, crescentemente incidental, quando medido contra nossas subsequentes descobertas. Sua função principal, em retrospecto, tinha sido dirigir nossa atenção para o mistério. Depois do que, ele empalideceu de importância. Temos formulado uma hipótese de uma linhagem sanguínea, desdendente de Jesus, que tem continuado até os nossos dias. Não podemos, com certeza, estar certos de que nossa hipótese esteja correta  em cada detalhe. Mas até mesmo se os detalhes específicos aqui e lá sejam sujeitos a modificação, estamos convencidos de que os contornos essenciais de nossa hipótese são acurados. Podemos talvez ter construido mal o significado de, digamos, uma particular atividade de Grão Mestre; ou uma aliança nas lutas de poder e maquinações políticas da política do século XVIII. Mas as nossas pesquisas tem nos persuadido que o mistério de Rennes-le-Chateau envolve de fato uma séria tentativa, por pessoas influentes, de restabelecer a dinastia Merovíngia na França se não de fato na inteira Europa e que a declaração de legitimidade de uma tal monarquia repousa em uma descendência Merovíngia de Jesus. Visto desta perspectiva, um número de anomalias, enigmas e perguntas não respondidas que se elevaram de nossas pesquisas se tornam explicáveis. E assim o fazem muitos dos fragmentos aparentemente triviais mas igualmente perplexantes: o título do livro associado a Nicolas Flamel, por exemplo, ‘O Sagrado Livro de Abraaão o Judeu, Príncipe, Sacerdote, Levita, Astrólogo e Filósofo da Tribo de Judá que pela Ira de Deus foi disperso entre os Gauleses”, ou a símbólica taça do Gral de Rene d’Anjou, que assegurava, ao homem que a bebia em um único gole, uma visão de Deus e de Madalena; ou o Casamento Alquímico do Cristão RosaCruz de Andrea que fala de uma misteriosa menima filha de sangue real, que saiu navegando em um barco e cuja herança por direito tinha caído em mãos islâmicas; ou o segredo que foi confiado a Poussin bem como o ‘segredo’ que era dito ‘morar no coração’ da Companhia do Santo Sacramento. Durante o curso de nossa pesquisa tivemos encontrado um número de outros fragmentos também. Ao tempo, eles pareceram completamente sem significado e irrelevantes. Agora, contudo, eles também fazem sentido. Assim agora pareceria claro porque Luis XI via Madalena como uma fonte da linhagem real francesa; uma crença que, até mesmo no contexto do século XV, de início pareceria absurda. Também estaria aparente porque a coroa de Carlos Magno, uma réplica da qual agora é parte da regalia imperial dos Hapsburgs, é dito ter tido a insctição “Rex Salomon”. E seria aparente porque os Protocolos dos Sábios de Sião falam de um novo rei da ‘sagrada semente de David’.

Durante a Segunda Guerra Mundial, por razões que não tem sido satisfatoriamente explicadas, a Cruz de Lorraine se tornou o símbolo das forças da França Livre sob a liderança de Charles de Gaulle. Isto por si só é de certo modo curioso. Porque deveria a Cruz de Lorraine, o instrumento de Rene D’Anjou, ter sido igualado a França? Lorraine nunca foi coração da França. Pela maior parte de sua história, de fato, Lorraine era um ducado independente, um estado germanico compreendendo parte do velho Sagrado Império Romano. Em parte a Cruz de Lorraine pode ter sido adotada por causa do importante papel que o Priorado de Sião parece ter desempenhado na Resistência Francesa. Em parte isto pode ter sido por causa da associação do General De Gaulle com membros do Priorado de Sião tais como M. Plantard. Mas é interessante que, quase trinta anos antes, a Cruz de Lorraine figurou provocantemente em um poema de Charles Peguy. Não muito antes de sua morte na Batalha do Marne em 1914, Peguy – um amigo íntimo de Maurice Barres, autor de La Colline inspiradamente compôs as seguintes linhas: ‘Os braços de Jesus são a Cruz de Lorraine, o sangue em sua artéria e veia. A fonte da graça e da clara fonte; Os braços de Satã são a Cruz de Lorraine, e a mesma artéria e a mesma veia e o mesmo sangue e a fonte perturbada….”  No final do século XVII o Reverendo Padre Vincent, um historiador e antiquário em Nancy, escreveu uma história de Sião em Lorraine. Ele também escreveu um outro trabalho, intitulado ‘A Verdadeira História de São Sigisberto” que também contém uma narrativa da vida de Dagoberto. Na págima título deste último trabalho há um epígrafo, uma citação do Quarto Evangelho, ‘Ele está entre vocês e vocês não o conhecem”. Até mesmo antes de começarmos a nossa pesquisa, nós próprios éramos agnósticos, nem pró e nem anti cristãos. Em virtude de nossa base e estudo de religiões comparativas eramos simpático ao núcleo de validade inerente na maioria das maiores fés mundiais, e indiferentes ao dogma, a teologia, os equipamentos que constituem sua super estrutura. E conquanto pudessemos ter respeito a quase todo credo, não podiamos estar de acordo com eles como monopólio da verdade. Então, quando nossa pesquisa nos levou a Jesus, pudemos nos aproximar dele com o que esparavamos ser um sentimento de equilíbio e perspectiva. Não tinhamos preconceitos ou preconcepções de um modo ou outro, nem interesses vestidos de qualquer tipo, nada a ser ganho para provar ou desaprovar algo. Assim tanto quanto é possível a ‘objetividade’, estavamos capazes de abordarmos Jesus ‘objetivamente’,  como é esperado de um historiador ao abordar Alexandre, por exemplo, ou Caésar. E as conclusões se impuseram sobre nós, embora certamente surpreendentes, não eram abaladoras. Elas não necessitavam de uma reavaliação de nossas convicções pessoais ou abalavam as nossas pessoais hierarquias de valores. Mas e quanto a outras pessoas? E quanto aos milhões de pessoas pelo mundo para quem Jesus é o Filho de Deus, o Salvador, o Redentor? Em que extensão este Jesus histórico, o rei-sacerdote que emergiu de nossa pesquisa, ameaça a fé delas? Em que extensão violamos o que constitui para muitas pessoas seu mais acalentado entendimento do sagrado? Estamos bem conscientes, com certeza, que a nossa pesquisa nos leva a conclusões que, em muitos aspectos, são inimigas de certos princípios básicos das modernas conclusões cristãs que são heréticas, talvez até mesmo blasfemas.

Do ponto de vista de certos dogmas estabelecidos sem dúvido somos culpados de tais transgressões. Mas não acreditamos que tenhamos desconsagrado, ou até mesmo diminuido, Jesus aos olhos daqueles que genuinamente o reverenciam. E conquanto nos próprios não possamos subscrever a divindade de Jesus, as nossas conclusões não evitam que outros assim o façam. Muito simplesmente, não há razão pela qual Jesus não possa ter se casado e tido filhos e ainda assim ter mantido sua divindade. Não há razão porque sua divindade deva ser dependente de castidade sexual. Subjacente a maior parte da teologia cristã está a assunção que Jesus é Deus encarnado. Em outras palavras, Deus, tendo piedade de sua criação, assumiu a forma humana. Para assim o fazer Ele seria capaz de se familiarizar em primeira mão, por assim dizer, com a condição humana. Ele vivenciaria em primeira mão as vicissitudes da existência humana. Ele viria a entender, no mais profundo sentido, o que significa ser um homem para confrontar de um ponto de vista humano a solidão, a angústia, o desamparo, a trágica mortalidade que o status do homem compreende. Por causa de se tornar um homem Deus viria a conhecer o homem  de um modo que o Velho Testamento não permite. Renunciando a sua Altitude Olimpiana e longitude, Ele partilharia, diretamente, da parte do homem. Ao assim o fazer, ele redimiria a parte do homem e validaria e justificaria isto ao partilhar, sofrendo isto e eventualmente sendo sacrificado por isto. O significado símbólico de Jesus é que ele é Deus exposto ao espectro da experiência humana no conhecimento em primeira mão do que compreende ser um homem. Mas poderia Deus, encarnado como Jesus, verdadeiramente afirmar ser um homem, para abranger o espectro da experiência humana, sem vir a conhecer as duas mais elementares e básicas facetas da condição humana? Poderia Deus afirmar conhecer a totalidade da existência humana sem confrontar dois tais aspectos essenciais da humanidade como a sexualidade e a paternidade? Não pensamos assim. De fato não pensamos que a Encarnação verdadeiramente simbolize o que pretende simbolizar a menos que Jesus fosse casado e tivesse filhos.

O Jesus dos Evangelhos, e do cristianismo etabelecido, é no máximo um Deus incompleto cuja encarnação como homem é apenas parcial. O Jesus que emergiu de nossa pesquisa desfruta, em nossa opinião, uma afirmação muito mais válida do que seria o cristianismo. Como um todo, então, não pensamos ter comprometido ou menosprezado Jesus. Não pensamos que ele tenha sofrido das conclusões a que as nossas pesquisas nos levou. De nossa investigação emerge um Jesus vivo e plausível, um Jesus cuja vida é tanto significativa quanto compreesível para o homem moderno. Não podemos apontar para um homem e avaliar que ele seja um descendente linear de Jesus. As árvores familiares se bifurcam, subdividem-se e no curso de séculos multiplicam-se em verdadeiras florestas. Há ao menos doze famílias na Bretanha e na Europa de hoje com numerosos ramos colaterais que são da linhagem Merovíngia. Esta incuem a casa de  Habsburg-Lorraine (os presente duque titular de Lorraine e Rei de Jerusalém), Plantard, Luxembourg Montpezat, Montesquieu e vários outros. Segundo os Documentos do Priorado a família Sinclair na Bretanha é também aliada a linhagem sanguínea, como o são os vários ramos dos Stuarts. E a família Devonshire, entre outras, pareceria ter conhecimento do segredo. A maioria destas casas presumivelmente pode declarar um pedigree de Jesus; e se um homem, em algum ponto no futuro, será levado adiante como um novo rei-sacerdote, não sabeos quem ele é. Mas várias coisas, a qualquer nível, são claras. Até onde pessoalmente nos diga respeito, o descendente linear de Jesus não seria qualquer mais divino, qualquer mais intrinsecamente miraculoso, do que o resto de nós. Esta atitude indubitavelmente seria partilhada por um grande n´mero de pessoas hoje. Suspeito que isto seja partilhado também pelo Priorado de Sião. Sobretudo a revelação de um indivíduo, ou grupo de indivíduos, descendentes de Jesus não abalaria o mundo do modo que seria esperado a um ou dois séculos atrás. Até mesmo se houvesse uma ‘prova inexpugnável’ de uma tal linhagem, muitas pessoas simplesmente dariam os ombros e perguntariam; ‘E daí?” Como um resultado isto seria um pequeno ponto nos elaborados projetos do Priorado de Sião – a menos que estes projetos sejam de alum modo cruciais ligados a política. Sejam quais forem as repercussões teologicas de nossas conclusões, pareceria, muito claramente, serem as outras repercussões bem como as repercussões politicas com um potencial de impacto enorme, afetando o pensamento, os valores, as instituições do mundo contemporano em que vivemos. Certamente no passado, as várias famílias de descendência Merovíngia foram completamente impregnadas na politica, e seus objetivos incluem o poder político. Isto também pareceria ter sido verdadeiro para o Priorado de Sião e um número de seus Grãos Mestres. Não há razão para assumir que a política não deva ser igualmente importante para o Sião e a linhagem sanguínea hoje, De fato toda evidência sugere que o Sião pensa em termos de uma unidade entre o que costumou ser chamado de Igreja e Estado; uma unidade do secular com o espiritual, do sagrado com o profano, da política com a religião. Em muitos de seus documentos o Sião avalia que o novo rei de acordo com a tradição Merovíngia ‘regeria mas não governaria’ Em outras palavras, ele seria um rei-sacerdote que funciona primariamente em uma capacidade ritual e simbólica; e o atual negócio do governo seria entregue a alguém mais concebivelmente pelo Priorado de Sião.

Durante o século XIX o Priorado de Sião, trabalhando através da Livre Maçonaria e de Hieron du Val d’Or, tentou estabelecer – um revivido e atualizado Sagrado Império Romano, um tipo de teocrático Estados Unidos da Europa, governado simultaneamente pelos Hapsbugs e por uma Igreja radicalmente reformada. Este empreendimento foi impedido pela Primeira Guerra Mundial e a queda das dinastias reinantes européias. Mas é razoável supor que os atuais objetos do Sião sejam basicamente similares ao menos aqueles de   Hieron du Val d’Or. É desnecessário dizer, o nosso entendimento destes objetivos podem apenas serem especulativos. Mas eles pareceriam incluir um teocrático Estados Unidos da Europa , uma confereração trans oi pan européia reunida emum moderno império e regida por uma dinastia descendente de Jesus. Esta dinastia não ocuparia um trono de poder político ou secular, mas muito concebivelmente, o trono de São Pedro também. Sob esta suprema autoridade poderia então haver uma rede interligada de reinos ou principalidades, ligados por uma aliança dinástica e entrecasamento; um tipo de sistema feudal do século XX, mas sem os abusos geralmente associados a este termo. E o atual processo de governar presumivelmente residia com o Priorado de Sião que pode tomar a forma, digamos, de um Parlamento Europeu dotado de poderes legislativo e executivo. Uma Europa deste tipo constituiria uma nova e unificada força politica nos assuntos internacionais; uma entidade cujo status seria ultimamente comparável aquele da União Soviética, ou os Estados Unidos. De fato ele pode emergir mais forte do que um ou outro porque ele repousaria em fundações profundamente enraizadas espirituais e emocionais, muito mais do que fundações abstratas, teóricas ou ideologicas. Ele apelaria não apenas a cabeça do homem, mas ao seu coração também. Seria dirigido por sua força de acessar a psiquecoletiva da Europa Ocidental despertando o fundamental impulso religioso. Um tal programa muito bem pode parecer quixotesco. Mas a história por agora deve nos ter ensinado a não subestimar o potencial da psique coletiva, e poder a ser obtido por atingi-la. Uns poucos anos atrás teria parecido inconcebível que um zelote religioso sem um exército seu próprio, sem um partido político por trás dele, sem qualquer coisa a sua disposição salvo o seu carisma e a fome religiosa de um povo opdia derrubar o edifício moderno e sobrebamente equipado do regime do Xá no Irã. Ainda que isto foi precisamente o que o Ayatollah Khomeini grenciou fazer. Não estamos, com certeza, dando um aviso. Não estamos, implicita ou explicitamente, comparando o Priorado de Sião ao  Ayatollah.  Não temos razão para pensar neste Sião sinistro – como alguém pode do demagogo fo Irã. Mas o demagogo do Irã mantém o testemunho eloquente do caráter profundamente enraizado, a energia, o poder potencial do impulso religioso do homem e os meios pelos quais este impulso pode ser canalizado para fins políticos. Estes fins não precisam compreender um abuso de autoridade. Eles podem ser tão louváveis como aqueles de Churchill e de Gaulle foram durante a Segunda Guerra Mundial. O impulso religioso pode ser canalizado em qualquer uma das inumeráveis direções. Ele é uma fonte de imenso poder potencial. E ele é tabém frequentemente demais ignorado ou minimizado pelos modernos governantes basedos, e frequentemente revestidos, apenas na razão. O  impulso religioso redlete uma profunda necessidade psicologica e emocional. E as necessidades psicológicas e emocionais são em cada parte tão reais quanto a necessidade de pão, de abrigo, de segurança material.

Sabemos que o Priorado de Sião não é uma organização ‘marginal lunática’. Sabemos que ele é bem financiado e inclui, em qualquer raça, comanda a simpatia de homens na responsabilidade e posições influentes na política, economia, media, artes. Sabemos que desde 1956 ele tem aumentado sua afiliação mais do que quatro vezes, como se estivesse meramente mobilizando ou preparando para algo; e  M. Plantard pessoamente nos disse que ele e sua Ordem estavam trabalhando em uma escala de tempo mais ou menos precisa. Agora também sabemos que desde 1956 o Sião tem estado tornando disponivel discretamente certa informação, tantalizantemente, de modo fragmentado, em quantidades medidas apenas suficientes para fornecer algumas pistas sedutoras. Estas pistas provocaram este livro. Se o Priorado de Sião pretende ‘mostrar suas cartas’ o tempo está maduro para assim o fazer. Os sistemas políticos e ideologias que, nos dias iniciais de nosso século, pareceu prometer tanto ter virtualmente tudo deslocado um grau de bancarrota. Comunismo, socialismo, fascismo, capitalismo, democracia no estilo ocidental tem todas, em um século, de um modo ou outro, traido suas premissas, prejudicado seus aderentes e falhado em cumprir os sonhos que eles geraram. Por causa de sua mente pequena, a falta de perspectiva e o abuso do ofício, os políticos não mais inspiram confiança, somente desconfiança. No Ocidente hoje há um crescente cinismo, insatisfação e desilusão. Há um crescente stress psiquíco, ansiedade e desespero. Mas há também uma inntensificada busca por significado, para preenchimento emocional, para a dimensão espiritual de nossas vidas, para algo no que genuinamente acreditar. Há uma saudade [ nostalgia] por um renovado sentido do sagrado que sim, em plena escala, a reavivação religiosa exemplificada pela proliferação de seitas e de cultos, por exemplo, e a maré inchada do fundamentalismo nos Estados Unidos. Há também, crescentemente, um desejo por um verdadeiro líder , não um Fiihrer, mas uma espécie de figura sábia e benigna espiritual, um rei sacerdote no qual a humanidade possa seguramente depor sua confiança. A nossa civilização tem se estabelecido com o materialismo e no processo tornou-se ciente de uma fome mais profunda. Está agora começando a olhar em outros lugares, buscando o preenchimento das necessidades emocionais, psicologicas e espirituais. Uma tal atmosfera pareceria eminentemente condutiva para os objetivos do Priorado de Sião. Isto coloca Sião na posição de ser capaz de oferecer uma alternativa aos existentes sistemas social e político. Uma tal alternativa deficilmente seja provável de constituir uma Utopia ou a Nova Jerusalém. Mas na extensão em que isto satisfaz as necessidades que os existentes sistemas nem mesmo reconhecem, isto pode se provar imensamente atrativo. Há muitos devotos cristãos que não hesitarão em interpretar o Apocalipse como um holocausto nuclear. Como pode ser interpretado o advento da descendência linear de Jesus? Para uma audiência receptiva, isto seria um tipo de Segunda Vinda.

O FIM

Postscripto para e Edição Brochura

Desde a publicação de nosso livro , muito novo material tem aparecido. Alguns leitores, com nova informação extremamente importante, tem sido abertos e generosos em transmiti-la para nós. Outros tem preferido serem cripticos, enigmáticos, elípticos, falando misteriosamente do conhecinhecimento não especificado que eles possuem, ou pesquisa não especificada que tem feito que os tem levado a conclusões igualmente não especificadas de uma natureza definitiva/surpreendente/abaladora. Tais pistas podem de fato atestar um material novo e válido ou uma irrelevante necessidade espiritual e uma necessidade de mistificação espúria.  Em qualquer caso, temos recebido cartas de pessoas tão agressivamente super cautelosas e sigilosas que imaginamos porque elas se preocuparam em escrever para nós afinal. Seu manto de opacidade e obscuridade parece ser gerado por um medo [as vezes beirando a paranoia] que elas possam ser privadas, inescrupulosamente, dos frutos de seu trabalho, que devemos roubar os resultados de suas pesquisas, ou de suas decifrações, ou o tesouro que eles estão convencidos terem localizado, e os deixado desconhecidos ou reconhecidamente não recompensados. Em ‘ The Holy Blood and the Holy Grail’, temos apresentado nosso material abertamente. Também temos fornecido a informação sobre fontes relevantes, para que outros possam ser estimulados a eles próprios pesquisarem. O tempo para mistificação agora é passado. Esperamos que os leitores que tem o que eles consideram ser material digno se apresentem do mesmo modo que tentamos fazer. Urgimos a eles, se possível, publicarem eles próprios o que possuem. Alternativamente, solicitamos que eles tornem seu achados disponíveis para nós. Publicamente declaramos que nenhum de tal material será publicado, usado ou explorado por nós a menos antes de algum arranjo mutuamente aceitável tenha sido concluido com aqueles que o fornecem. Nós também publicamente afirmamos que tal material, se usado por nós de qualquer modo, seria devidamente reconhecido de um modo mutuamente aceitável. Também gostaríamos de afirmar que não temos qualquer interesse, além daquele historico e arqueológico, em qualquer ‘tesouro’ descoberto em ligação com Rennes-le-Chateau. Desejamos apenas observar e registrar tais descobertas e quando elas possam ser feitas. Qualquer recompensa em dinheiro derivada de tal ‘tesouro’ permaneceria com aqueles cuja informação leve a localização do sítio relevante.

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Published in: on maio 21, 2009 at 12:44 pm  Deixe um comentário  
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