Crise de Alimentos e América Latina

A CRISE DE ALIMENTOS E A AMÉRICA LATINA
Uma crise real ou uma conspiração?

de Eduardo Dimas

15 de maio de 2008

“Controle o petróleo e você controlará as nações; controle a comida e você controlará as pessoas” — Henry Kissinger (1970)

Tenho conhecido esta frase de Kissinger por muitos bons anos. Confesso que até agora não tinha dado a ela muita importância. Mas ela é uma verdade absoluta, quase que um axioma, que pode se tornar uma terrível realidade.

A crise alimentar é real. O preço dos alientos sobre cada vez mais. As reservas caem. O mesmo acontece com o petróleo, o que coloca muitas nações e povos que não produzem comida ou petróleo em uma situação desesperadora. Este é o resutado de um conjunto de eventos aleatórios que coincidem em tempo, ou isto é o efeito de uma plano para o domínio mundial?

Se nos guiarmos pelas palavras de Kissinger, nos parece muito mais ser este último. E isto nos leva a nos perguntar outras coisas. Foi a idéia de aumentar a produção de etanol [lançada por George W. Bush em março de 2007] pela utilização de grãos básicos para a alimentação de humanos e de animais também uma coincidência?

É bem conhecido que para se produzir um litro de álcool para os motores ds carros, 1.2 litros de óleo combustível devem ser sacrificados. Em outras palavras, mais combustível do que o combustível produzido. Além do fato de que o etanol tem se tornado um bom negócio para a família Bush e os acólitos de Bush, e as oligarquias de vários países, este não é um meio de provocar uma maior falta de alimentos?

Será por acaso que as grandes corporações que comerciam alimentos e muitos investidores estejam especulando com o preço dos grãos, sabendo que esta especulação pode levar a morte de milhões de seres humanos? Segundo a ONU, a cada cinco segundos uma criança morre de fome ou de doenças relacionadas à fome.

Foi uma pura coincidência que o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial de Comércio promoveram no chamado Terceiro Mundo a produção de comida para exportação, ao invés de garantir a produção de plantações que possam garantir comida às pessoas que as desenvolvem? De qualquer modo, eles deixam as nações mais pobres à mercê dos preços do mercado mundial.

No presente, 78 nações na Ásia, África, América Latina e Caribe tem um déficit em suas cestas básicas de alimentos, como resultado do alto preço dos alimentos e do abandono das plantações tradicionais. Em 37 destas nações a situação é particularmente difícil. Já tem havido manifestações e saques em lojas de alimentos e supermercados. Também repressão e morte. Você não pode nunca esquecer que a fome é o pior conselheiro.

Alguns países tem racionado o arroz, outros o milho e o trigo. Os grandes produtores asiáticos de arroz, tais como a Tailândia e o Vietnã, tem reduzido suas exportações para garantir o consumo doméstico. Aproximadamente 43% da produção de milho é usada para a alimentação de animais. Os especialistas dizem que aproximadamente 20% da colheita mundial de milho será usada para a produção de etanol. O que irá sobrar para os seres humanos?

Isto tudo é apenas um caso fortuito ou faz parte de um plano para o domínio mundial por meio da fome? O arroz é o alimento básico de três bilhões de pessoas. O trigo o é para centenas de milhões. No Peru, o Exército está fazendo pão de batata para tentar reduzir a demanda pelo trigo entre a população. No Haiti, uma mistura de lodo, sal e óleo vegetal é o alimento básico de centenas de milhares de pessoas. O lodo não é grátis. Ela custa 5 centavos um biscoito e causa dor abdominal e contém parasitas e outras doenças. O Haiti, um dos países mais pobres do mundo, produzia quase todo arroz que ele precisa antes das regras neoliberais do FMI e do Banco Mundial que lhe foram impostas. A cada ano, ele precisa de 400 mil toneladas e produz por volta de apenas 40 mil; o resto tem que ser importado. Aos preços atuais, não é surpresa que as pessoas tenham que comer biscoitos de lodo.

Os grandes produtores de alimentos, tais como os Estados Unidos e a União Européia, juntamente com o Brasil de Lula, dizem que a falta de grãos é causada por um aumento no consumo na China, Índia e outros países asiáticos. Sem dúvida, isto causa um ligeiro aumento dos preços. Se então assim o é, porque utilizar grãos para produzir etanol? Eles são alimentos que estão sendo negados a milhões de pessoas.

É verdade que os preços do petróleo cru também afetam o custo da produção e do transportte dos alimentos. Mas a quem culpar pelo fato que a instabilidade dos mercados – derivada da situação no Iraque, as ameaças a Venezuela e um possível ataque ao Irã – levam a especulação? Que país com menos de 5% da população mundial consume diariamente 25% do petróleo cru produzido no mundo?

Se o Irã for atacado o preço do petróleo cru poderia subir a 200 dólares o barril, um preço insustentável até mesmo para as economias mais desenvolvidas; uma verdadeira tragédia para as economias mais pobres. Alguns países, tal como a República Dominicana, Nicarágua, Honruras e El Salvador já estão vivenciando sérias dificuldades com combustível e alimentos, a despeito da ajuda altruísta fornecida pelo governo da Venezuela.

O recente “Encontro Alimentar” realizado em Manágua, reuniu governos da “Alternativa Bolivariana para as Américas ” [ALBA] e teve a presença de representantes de doze países, incluindo alguns presidentes, e foi destinada a unir os esforços para enfrentar a crise alimentar que cerca a humanidade.

Para a maioria dos participantes, a essência da crise alimentar reside na distribuição desigual da riqueza mundial e, acima de tudo, no modelo econômico neoliberal imposto por alguns países desenvolvidos ao resto do mundo nos últimos vinte anos. Com certeza, nem todo mundo concordou. O Presidente Oscar Arias da Costa Rica se distanciou do documento porque ele é um devoto do “livre comércio”. México e El Salvador também se distanciaram de um conjunto de propostas feitas pela delegação venezuelana que terminou em um adendo à Declaração Final.

Entre as propostas venezuelanas estava a a idéia de criar um banco de produtos agrícolas o que reduziria os custos dos pequenos e médios produtores e destinar 100 milhões de dólares através do Banco de ALBA para financiar projetos agricolas. Também, criar um plano dentro da PetroCaribe para financiar a produção de alimentos.

Até agora, a consciência tem sido despertada sobre a gravidade da situação alimentar e as medidas urgentes que precisam serem tomadas para impedir que os alimentos se tornem uma arma de guerra, ao menos na América Latina. De fato, a comida já é uma arma em muitas partes do mundo.

Em qualquer caso, preste atenção nas grandes corporações que produzem e comerciam alimentos. Preste atenção nas corporações que produzem sementes transgênicas, que estão impondo seus produtos pelo mundo, em detrimento das variedades naturais. Eles já estão presentes em muitos países na América Latina e no Caribe.

As sementes transgênicas fazem o fazendeiro totalmente dependente da corporação transnacional que as produzem, ele deve comprar as sementes, os fertilizantes e os inseticidas. Na Índia, 150.000 fazendeiros de algodão tem cometido suicído porque não puderam pagar suas dívidas com estas transnacionais.

As transnacionais estão no comando da dominar o suprimento de alimentos e, por extensão,como propôs Henry Kissinger, o domínio das pessoas. Em um documento secreto chamado Estudo de Segurança Nacional Memorando 200 (NSSM 200), Kissinger criou um plano de ação para a população mundial, destinado a controla-la e a reduzi-la em centenas de milhões de pessoas usando uma política de alimentos.

Kissinger queria reorganizar o mercado mundial de alimentos, destruir a agricultura familiar e substitui-la por grandes fazendas e fábricas dirigidas por transnacionais do agronegócio. Algo assim vem acontecendo desde o início da década de 1990 no México e outros países da América Latina. Você não pensa que é tempo de parar com isso? Deixo a resposta para você.

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Published in: on setembro 8, 2009 at 4:21 pm  Comments (5)  
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