Sangue Sagrado, Santo Gral
de Michael Baigent, Richard Leigh and Henry Lincoln
- Introdução
Em 1969, em rota para um feriado de verão em Cevenes, fiz a compra casual de uma brochura. “O Tesouro Maldito” de Gerard de Sede era uma história de mistério leve, uma mistura entretetenedora de um fato histórico, mistério genuíno e conjecturas. Ele poderia ter permanecido consignado ao esquecimento pós feriado de tudo de tal leitura se eu não tivesse tropeçado em uma curiosa e evidente omissão em suas páginas. O “tesouro maldito’ do título tinha aparentemente sido encontrado na década de 1890 por um sacerdote de vila pela decifração de certos documentos crípticos desenterrados em sua igreja. Embora os propostos textos de dois desses documentos fossem reproduzidos, as “mensagens secretas’ ditas estarem codificadas dentro dele não estavam lá. A implicação era que as mensagens decifradas novamente haviam sido perdidas. E ainda que, como descobri, uma história cursória dos documentos reproduzidos no livro revele ao menos uma mensagem escondida. Certamente o autor a havia encontrado. Ao trabalhar em seu livro ele deve ter dado aos documentos muito mais que uma atenção superficial. Ele estava ligado portanto a ter encontrado o que eu havia encontrado. Sobretudo, a mensagem era exatamente o tipo de fragmento titilante de prova que ajuda a vender uma brochura popular. Porque Sede não havia publicado isso? Durante os meses seguintes a estranheza da história e a possibilidade de descobertas posteriores me dirigiu de volta a isso de tempos em tempos. O apelo era aquele de muito mais do que um enigma de palavras cruzadas geralmente intrigante que acrescentou curiosidade ao silêncio de Sede. Como eu me peguei tantalizando novas olhadas das camadas de significado enterrado dentro do texto dos documentos, comecei a desejar que eu pudesse devotar mais ao mistério de Rennes-Le-Chateaux do que meros momentos roubados de minha vida de trabalho como escritor para televisão. E então, no outono de 1970, eu apresentei a história como um possível assunto para documentário ao falecido Paul Johnstone, produtor executivo da série arqueológica e histórica da BBC chamada ‘Chronicle’.
Paul viu as possiblidade e eu fui despachado para França para falar com Sede e explorar as perspectivas de um filme curto. Durante a semana de natal de 1970 encontrei-me com Sede em Paris. Naquele primeiro encontro, fiz a pergunta que havia me intrigado por mais de um ano: “Porque você não publicou a mensagem oculta nos pergaminhos?’ Sua resposta me deixou perplexo: “Que Mensagem?”
Me pareceu inconcebível que ele estivesse inconsciente desta mensagem elementar. Porque ele estava se evadindo de mim? Repentinamente me descobri relutante em revelar exatamente o que eu havia encontrado. Continuamos em um elíptico esgrima verbal por uns poucos minutos. Então tornou-se aparente que ambos estávamos cientes da mensagem. Repeti minha pergunta: “Porque você não publicou isso?” Desta vez a resposta de Sede foi calculada. ‘Porque pensamos ser de interesse que alguém como você o descobrisse por si só”. Esta resposta, tão críptica quanto os misteriosos documentos do sacerdote, foi a primeira pista clara que o mistério de Rennes-Le-Chateaux viria a se provar muito mais do que uma simples história de um tesouro perdido. Com meu diretor, Andrew Maxwell-Hyslop, comecei a preparar o filme de Chronicle na primavera de 1971. Ele foi planejado como um simples item de vinte minutos para um programa de revista. Mas na medida em que trabalhávamos, de Sede começou a nos alimentar com posteriores fragmentos de informação. Primeiro veio o texto completo de uma maior mensagem codificada, que falava dos Pintores Poussin e Teniers. Isto era fascinante. A cifra era inacreditavelmente complexa. Nos foi dito que ela havia sido quebrada por especialistas do Departamento de Códigos do Exército Francês, usando computadores. Como eu estudei as convoluções do código, eu me tornei convencido que esta explicação era, para dizer o mínimo, suspeita. Conferi com especialistas em códigos da Inteligência Britânica. Eles concordaram comigo. A cifra não apresenta um problema válido para o computador. O código era inquebrável. Alguém, em algum lugar, deve ter a chave. E então de Sede deixou cair sua segunda bomba. Uma tumba se assemelhando aquela da famosa pintura de Poussin, ‘Os Pastores da Arcadia”, tinha sido encontrada. Ele enviaria detalhes tão logo ele os tivesse. Alguns dias depois as fotografias chegaram, e estava claro que o nosso filme curto sobre um pequeno mistério local tinha começado a assumir inesperadas dimensões. Paul decidiu abandonar isso e nos envolveu em um filme completo e longo para Chronicle.
Agora haveria mais tempo para explorar a história. E a transmissão foi adiada para a primavera do ano seguinte. “o Tesouro Perdido de Jerusalém?” foi ao ar em fevereiro de 1972 e provocou uma reação muito forte. Eu sabia que havia encontrado um assunto de grande interesse não meramente para mim, mas para um grande público espectador. A pesquisa posterior não seria para auto-indulgência. Por abril de 1974 eu tinha uma massa de novo material e Paul designou Roy Davies para produzir meu segundo filme para Chronicle, ‘O Sacerdote, o Pintor e o Diabo”. Novamente a reação do público provou o quanto a história tinha tomado a imaginação pública. Mas por agora ela havia crescido tão complexa, tão longe alcançando suas ramificações, havia caminhos demais diferentes a seguir em suas ramificações, que eu sabia que a pesquisa detalhada estava rapidamente excedendo as capacidadades de uma só pessoa. Quanto mais eu seguia uma linha de investigação, mas eu me tornava consciente da massa de material que estava sendo negligenciada. Esta era uma conjuntura amedrontadora que o acaso, que primeiramente havia lançado a história tão casualmente em meu colo, agora fazia certo que o trabalho não se tornaria atrasado.
Em 1975, em uma escola de verão onde ambos palestrávamos sobre aspectos da literatura, eu tive a boa sorte de me encontrar com Richard Leigh. Richard é um novelista e escritor de histórias curtas graduado e com pós graduação em Literatura Comparativa e um profundo conhecimento de história, filosofia, psicologia e esotérico. Ele tinha estado trabalhando por alguns anos como palestrante na universidade nos Estados Unidos, Canadá e Bretanha. Entre nossas conversas na escola de verão passamos muitas horas discutindo assuntos de interesse mútuo. Mencionei os Cavaleiros Templários, que assumiram um importante papel no fundo do mistério de Rennes-Le-Chateau. Para minha delícia, descobri que esta Ordem sombria de monges medievais guerreiros já havia despertado o profundo interesse de Richard e ele havia feito uma pesquisa considerável da história deles. Em uma tacada, meses de trabalho que eu tinha visto estendendo-se adiante de mim se tornaram desnecessários. Richard podia responder a maioria das minhas questões, e estava tão intrigado quanto eu por algumas anomalias aparentes que eu havia desenterrado. Mais importantemente, ele também sentiu a importância do inteiro projeto de pesquisa no qual eu havia embarcado. Ele se ofereceu para me ajudar com o aspecto envolvendo os Templários. E ele trouxe Michael Baigent, um graduado em psicologia que recentemente havia abandonado uma carreira bem sucedida em foto-jornalismo para devotar seu tempo a pesquisar os Templários para um projeto de filme que ele tinha em mente. Tivesse eu buscado por eles, não poderia ter encontrado dois parceiros mais qualificados e mais análogos com os quais formar uma equipe. Depois de anos de trabalho solitário, o impeto trazido ao projeto por dois cérebros frescos era revigorante. O primeiro resultado tangível de nossa colaboração foi o terceiro filme de Chronicle sobre Rennes-Le-Chateau, ‘A Sombra dos Templários” que foi produzido por Roy Davies em 1979. O trabalho que fizemos sobre aquele filme por último nos deixou face a face com as fundações subjacentes sob as quais o inteiro mistério de Rennes-Le-Chateau tinha sido construido. Mas o filme podia apenas dar pistas para o que estávamos começando a discernir. Sob a superfície estava algo mais surpreendente, mais importante e mais imediatamente relevante do que nós podiamos acreditar possível quando começamos nosso trabalho sobre o ‘intrigante pequeno mistério” de o que um sacerdote francês pode ter encontrado em uma vila da montanha. Em 1972 eu encerrei meu primeiro filme com as palavras “Algo extraordinário está esperando para ser encontrado… e em um futuro não distante demais, ele será”. Este livro explica o que este algo é e o quão extraordinária a descoberta tem sido.
Um o Mistério – A Vila de Mistério
No início de nossa pesquisa não sabiamos precisamente o que estávamos procurando ou, por esta matéria, para o que estávamos olhando. Não tinhamos teorias e nem hipóteses e não haviamos estabelecido provar nada. Ao contrário, estavamos simplesmente tentando encontrar uma explicação para um curioso enigma do século XIX. As conclusões a que eventualmente chegamos não foram postuladas previamente. Fomos levados a elas, passo a passo, como se a evidência que nós acumulávamos tivesse uma mente própria, e estivesse nos dirigindo por seu próprio acordo. Acreditávamos no início de nossa pesquisa que estávamos lidando com um mistério estritamente local, um intrigante mistério certamente, mas um mistério essencialmente de menor importância, confinado a uma vila no sul da França. Acreditávamos de início que o mistério, embora ele envolvesse muitas trilhas históricas fascinantes, era primariamente de interesse academico. Acreditávamos que a nossa investigação pudesse ajudar a iluminar certos aspectos da história ocidental, mas nunca sonhamos que isso pudesse deixar como herança reescreve-la. Ainda menos sonhamos que seja o que for que descobríssemos pudesse ser de real importância contemporânea em si. Nossa busca começou – porque ela foi de fato uma busca, com uma história mais ou menos direta. Ao primeiro olhar esta história não era marcantemente diferente de inúmeras outras “histórias de tesouro” ou “mistérios não resolvidos” que abundam na história e no folclore de quase toda região rural. Uma versão disso havia sido publicada na França, onde ela atraiu considerável interesse mas não foi ao nosso conhecimento naquele tempo concordado qualquer consequência exagerada. Como aprendemos subsequentemente, havia um número de erros nesta versão. Pelo momento, contudo, devemos recontar a história como ela foi publicada durante a década de 1960, e como primeiramente viemos a conhece-la.
Rennes-le-Chateau e Berenger Sauniere
Em 1o. de julho de 1885 a pequenina vila francesa de Rennes-le-Chateau recebeu um novo sacerdote paroquial. O nome do cura era Berenger Sauniere. Ele era um homem robusto, de feições agradáveis, enérgico e, como pareceria, altamente inteligente de 33 anos. Em uma escola de seminário não muito antes ele parecia destinado a uma promissora carreira clerical. Certamente ele parecia destinado a algo mais importante do que uma vila remota na região montanhosa oriental dos Pirineus. Ainda que em algum ponto ele pareça haver incorrido no desprazer de seus superiores. O que precisamente ele fez, se algo, permanece não esclarecido, mas logo isto reduziu todas as perspectivas de avanço. E era talvez para se livrarem dele que os seus superiores o enviaram a paróquia de Rennes-le-Chateau. Naquele tempo Rennes-le-Chateau abrigava apenas duzentas pessoas. Era um pequenino vilarejo encrustado em um escarpado topo de montanha, aproximadamente a 25 milhas de Carcassonne. Para um outro homem, o lugar poderia ter constituido um exílio e uma sentença perpétua em um remoto local atrasado provinciano, muito longe das amenidades civilizadas da idade, longe de qualquer estímulo para uma mente ávida e inquisitiva. Sem dúvida esta foi a explosão da ambição de Sauniere. Não obstante, havia certas compensações. Sauniere era um nativo da região, tendo nascido e crescido a apenas umas poucas milhas de distância, na vila de Montazels. Fossem quais fossem suas deficiências, portanto, Rennes-le-Chateau pode ter sido muito como um lar, com todos os confortos da familiriadade da infância. Entre 1885 e 1891 a renda média de Saunier, em francos, era o equivalente a seis libras esterlinas por ano – dificilmente seria a opulência, mas muito mais do que seria de se esperar de um cura rural na França do século XIX. Junto com as gratuidades fornecidas pelos seus paroquianos, isto parece ter sido suficiente para sobrevivência, se não para qualquer extravagância. Durante estes seis anos Sauniere parecia ter levado uma vida bastante agradável e plácida. Ele caçava e pescava nas montanhas e riachos de sua infância. Ele lia vorazmente, aperfeiçoou seu latim, aprendeu grego, embarcou no estudo do hebraico. Ele empregou uma governanta e servente, uma camponesa de 18 anos chamada Marie Denarnaud, que foi sua companheira e confidente por toda vida.
Ele fazia visitas frequentes a seu amigo, o Abade Henri Boudet, o cura da vila vizinha de Rennes-le-Bains. E sob a tutela de Boudet ele imergiu na turbulenta história da região, uma história cujos residuos estavam constantemente ao redor dele. A umas poucas milhas a sudeste de Rennes-le-Chateau, por exemplo, corre um outro pico, chamado Bezu, coberto pelas ruínas de um forte medieval, que uma vez foi o preceptório dos Cavaleiros Templários. Em um terceiro pico, a aproximadamente uma milha a leste de Rennes-le-Chateau, ficam as ruínas do castelo de Blanchefort, casa ancestral de Bertrand de Blanchefort, quarto grão mestre dos Cavaleiros Templários, que presidiu sobre a famosa ordem em meados do século XII. Rennes-le-Chateau e seus ambientes tem estado na antiga rota de romaria, que corria do Norte da Europa para Santiago de Compostela na Espanha. E a inteira região era impregnada de histórias evocativas, em eco de um passado rico, dramático e banhado em sangue. Por algum tempo Sauniere havia querido restaurar a igreja da vila de Rennes-le-Chateau. Consagrada a Madalena em 1059, este edifício dilapidado permanecia em pé sobre as fundações de uma imóvel estrutura visigoda mais antiga datando do século VI. Mas pelo final do século XIX, ela estava, não surpreendentemente, em um estado quase que de desespero absoluto. Em 1891, encorajado por seu amigo Boudet, Sauniere embarcou em uma modesta restauração, tomando emprestado uma pequena soma dos fundos da vila. No curso de suas atitudes ele removeu a pedra do altar, que repousava sobre duas arcaicas colunas visigodas. Uma destas colunas provou-se ser oca. Dentro dela, o cura encontrou quatro pergaminhos preservados em lacrados tubos de madeira. Dois destes pergaminhos são ditos terem compreendido genealogias, um datando de 1244 e o outro de 1644. Os dois documentos remasnescentes tinham aparentemente sido compostos nos anos de 1780 por um dos predecessores de Sauniere como cura de Rennes-le-Chateau, o Abade Antoine Bigou. Bigou tabém havia sido o capelão da nobre família Blanchefort que, na véspera da Revolução Francesa, ainda estava entre os proeminentes proprietários locais de terra. Os dois pergaminhos do tempo de Bigou pareceriam ser pios textos em latim, trechos do Novo Testamento. Ao menos ostensivamente. Mas em um dos pergaminhos as palavras correm incorretamente juntas, sem espaço entre elas, e um numero de letras completamente supérfluas tem sido inseridas. E no segundo pergaminho as linhas são indiscriminadamente truncadas de forma irregular, algumas vezes no meio de uma palavra enquanto certas letras estão conspicuamente elevadas acima de outras. Na realidade estes pergaminhos compreendem uma sequencia engenhosa de cifras ou códigos. Algumas delas são fantasticamente complexas e imprevisiveis, desafiando até mesmo o computador, e insolúveis sem a chave necessária.
A seguinte decifração tem aparecido nos trabalhos franceses devotados a Rennes-le-Chateau e em dois de nossos filmes sobre o assunto feitos pela BBC.
BERG ERE PAS DE TENTATION QUE POUSSIN TENIERS GAR DENT LA CLEF PAX DCLXXXI PAR LA CROIX ET CE CHEVAL DE DIEU J’ACHEVE CE DAEMON DE GARDIEN A MIDI POM MES BLEUES
(Pastores, sem tentação, que Poussin e Teniers tem a chave; paz 681. Pela cruz e este cavalo de Deus, completo ou destruo este demônio do guardião ao meio dia. Maçãs azuis)
Mas se algumas das cifras são amedrontadoras em sua complexidade, outras são patentemente, até mesmo flagrantemente, óbvias. No segundo pergaminho, por exemplo, as letras elevadas, tomadas em sequência, soletram uma mensagem coerente.
A DAGO BERT II ROI ET A SION EST CE TRES OR ET IL EST LA MORT.
(A Dagoberto II rei e ao Sião pertencem este tesouro e ele está lá morto)
Embora esta mensagem em particular deva ter sido discernível a Sauniere, é duvidoso que ele possa ter decifrado os códigos mais intrincados. Não obstante, ele entendeu que ele tinha tropeçado em algo de consequência e, com o consentimento do prefeito da vila, levou sua descoberta ao seu superior, o Bispo de Carcassone. Quanto o Bispo entendeu não está claro, mas Sauniere foi imediatamente despachado para Paris às expensas do bispo com instruções para se apresentar e aos pergaminhos a certas autoridades eclesiásticas importantes. Principal entre elas estava o Abade Biel, Diretor Geral do Seminário de São Suspílcio, e ao sobrinho de Biel, Emile Hoffet. Naquele tempo Hoffet estava em treinamento para o sacerdócio. Embora ainda no início dos vinte e poucos anos ela já havia estabelecido uma importante reputação pela erudição, especialmente em linguística, criptografia e paleografia. A despeito de sua vocação pastoral, ele era conhecido por estar imerso no pensamento esotérico, e mantinha relações cordiais com vários grupos de orientação oculta, seitas e sociedades secretas que abundavam na capital francesa. Isto o havia posto em contacto com um ilustre círculo cultural, que incluia tais figuras literárias como Stephane Mallarme e Maurice Maeterlinck, bem como o compositor Claude Debussy. Ele também conhecia Emma Calve, que, ao tempo do aparecimento de Sauniere, tinha acabado de voltar de suas performances triunfais em Londres e Windsor. Como uma diva, Emma Calve era a Maria Callas do tempo dela. Ao mesmo tempo, ela era uma alta sacerdotisa da sub-cultura esotérica parisiense e mantinha inúmeras relações amorosas com um número de ocultistas influentes.
Tendo se apresentado a Biel e Hoffet, Sauniere passou três semanas em Paris. O que transpirou durante seus encontros com os eclesiásticos é desconhecido. O que é sabido é que o sacerdote provinciano do interior foi prontamente e calorosamente benvindo no círculo distinto de Hoffet. Tem sido até mesmo avaliado que ele tenha se tornado amante de Emma Calve. Fofocas contemporaneas falam de um caso entre eles, e um conhecido da cantora a descreveu como estando obsecada pelo cura. Em qualquer caso não há dúvida de que eles desfrutaram de uma íntima amizade duradoura. Nos anos que se seguiram ela o visitou frequentemente nas vizinhanças de Rennes-le-Chateau, onde, até recentemente, pode-se ainda encontrar corações românticos gravados nas rochas de dentro da montanha, tendo as iniciais deles. Durante sua estada em Paris, Sauniere também passou algum tempo no Louvre. Isto bem pode estar ligado ao fato de que, antes de sua partida, ele comprou reproduções de três pinturas. Uma parece ter sido um retrato, de um artista não identificado, do Papa Celestino V, que reinou brevemente no fim do século XIII. Uma era um trabalho de David Teniers, embora não esteja claro se do pai ou do filho. O terceiro foi talvez a mais famosa pintura de Nicolas Poussin, “Les Bergers d’Arcadie’ – “Os Pastores da Arcadia”. Em sua volta a Rennes-le-Chateuax, Sauniere reassumiu a restauração da igreja da vila. No processo ele exumou um curioso ladrilho encravado, datando do século VII ou VIII, que pode ter tido uma cripta sob ele, uma câmara funerária na qual esqueletos são ditos terem sido encontrados. Sauniere também embarcou em projetos de uma natureza muito mais singular. No pátio da igreja, por exemplo, ficava a sepultura de Marie, Marquesa de d’Hautpoul de Blanchefort. A pedra capital e a placa marcando a tumba dela havia sido desenhada e instalada pelo Abade Antoine Bigou – o predecessor de Sauniere cem anos antes, que aparentemente compôs os dois pergamihos misteriosos. E a inscrição da pedra capital que incluiu um número deliberado de erros no espaçamento e na soletração era um anagrama perfeito para a mensagem oculta nos pergaminhos que se referiam a Poussin e Teniers.
Se alguém rearranja as letras, elas formarão a declaração críptica citada acima aludindo a Poussin e a Sião e os erros parecem ter sido destinados precisamente a fazer isso. Sem saber que as inscrições da tumba da marquesa já haviam sido copiadas, Sauniere as obliterou. Nem foi esta profanação o único comportamento curioso que ele exibiu. Acompanhado por sua fiel governanta, ele começou a fazer longas jornadas a pé no interior, coletando rochas de nenhum valor ou interesse aparente. Ele também embarcou em uma volumosa troca de cartas com correspondentes desconhecidos pela França, bem como na Alemanha, Suíça, Itália, Áustria e Espanha. Ele passou a colecionar montes de selos postais absolutamente inúteis. E ele abriu certas transações sombrias com vários bancos. Um deles até mesmo dispachou um representante de Paris, que viajou todo caminho até Rennes-Le-Chateau com um único propósito de administrar o negócio de Sauniere. Apenas em postagem Sauniere já estava gastando uma soma substancial; mais do que sua renda anual anterior poderia manter. Então, em 1896 ele passou a gastar a vontade, em uma escala surpreendente e sem precedentes. Pelo fim de sua vida em 1917 seu gasto somaria o equivalente a vários milhões de libras ao menos. Alguma desta riqueza inexplicável era devotada a louváveis trabalhos públicos e uma estrada moderna foi construida levando a vila, por exemplo, e instalações para água corrente foram fornecidas. Outros gastos foram mais quixotescos. Uma torre foi construida, a Tour Magdala, tendo a vista panorâmica da chamada Villa Bethania, que o próprio Sauniere nunca ocupou.
E a Igreja não foi apenas redecorada, mas redecorada de um modo mais bizarro. Uma inscrição em latim foi gravada no portal acima da entrada: TERRIBILIS EST LOCUS ISTE (Este lugar é terrível). Imediatamente dentro da entrada uma abominável estátua foi erigida, uma representação inquietante do demônio Asmodeus - guarda de segredos, guardião dos tesouros ocultos e, segundo a antiga história judaica, construtor do Templo de Salomão. Nas paredes da igreja, placas pintadas lúridas e gritantes foram instaladas apresentando as Estações da Cruz e cada uma foi caracterizada por alguma estranha inconsistência, algum detalhe acrescentado inexplicável, algum desvio flagrante e sutil da aceita narrativa escritural. Na Estação VIII, por exemplo, há uma criança envolvida em xadrez escocês. Na Estação XIV, que apresenta o corpo de Jesus sendo carregado para dentro da tumba, há um fundo de um escuro céu noturno dominado por uma lua cheia. É quase como se Sauniere estivesse tentando revelar algo. Mas o que? O enterro de Jesus ocorreu depois do cair da noite, várias horas mais tarde do que a Bíblia nos conta? Ou que o corpo estava sendo carregado para fora da tumba, não para dentro dela? Enquanto engajado neste curioso adorno, Sauniere continuou a gastar extravagantemente. Ele colecionou porcelana rara, tecidos preciosos, mármores antigos. Ele criou um laranjal e um jardim zoológico. Ele reuniu uma magnífica biblioteca. Pouco antes de sua morte, ele estava planejando construir uma estrutura maciça como Torre de Babel alinhada com livros, da qual ele pretendia pregar. Nem foram seus paroquianos negligenciados. Sauniere os regalou com suntuosos banquetes e outras formas de fartura, mantendo um estilo de vida de um potentado medieval presidindo sobre um inexpugnável domínio na montanha. Neste retiro remoto e bem inacessível ele recebeu um número de hóspedes notáveis. Um, com certeza, foi Emma Calve. Outro foi o Secretário de Estado francês para a Cultura. Mas talvez o mais augusto e importante visitante deste sacerdote paroquial desconhecido tenha sido o Arquiduque Johann von Habsburg, um primo de Franz-Josef, Imperador da Áustria. Declarações bancárias subsequentemente revelaram que Sauniere e o arquiduque tinham aberto contas consecutivas no mesmo dia e mais tarde o arquiduque fez um depósito substancial para o primeiro.
As autoridades eclesiásticas de inicio fizeram vista grossa. Quanto o antigo superior de Sauniere em Carcassone morreu, contudo, o novo bispo tentou chamar o sacerdote a prestar contas. Sauniere respondeu com um desafio surpreendente e acalorado. Ele se recusou a explicar sua riqueza. Ele se recusou a aceitar a transferência que o bispo ordenou. Faltando uma acusação mais substancial, o bispo o acusou de simonia [venda ilegal de missas] e um tribunal local o suspendeu. Sauniere apelou ao Vaticano que o reinstalou. Em 17 de janeiro de 1917, Sauniere, então com 65 anos, sofreu um súbito ataque cardíaco. A data de 17 de janeiro talvez seja suspeita. A mesma data aparece na tumba da Marquesa de d’Hautpoul de Blanchefort – a pedra tumular que Sauniere havia erradicado. E 17 de janeiro também é a festa de São Suspilcio, quem, como fomos descobrir, figurou em nossa história. Foi no Seminário de São Suspílcio que ele confiou seus pergaminhos ao Abade Biel e a Emile Hoffet. Mas o que torna o ataque cardíaco de Sauniere mais suspeito em 17 de janeiro é o fato de que cinco dias antes, em 12 de janeiro, seus paroquianos declararam que ele parecia estar em um saúde invejável para um homem de sua idade. Ainda que em 12 de janeiro, segundo um recibo em nossa posse, Marie Denarnaud tivesse encomendado um caixão para seu senhor. Com Sauniere deitado em seu leito de morte, um sacerdote foi chamado da paróquia vizinha para ouvir sua confissão final e administrar os últimos sacramentos. O sacerdote devidadmente chegou e se retirou para o quarto do doente. Segundo o testemunho de testemunha ocular, ele saiu logo depois visivelmente abalado. Nas palavras da narrativa de uma pessoa, ‘ele nunca sorriu novamente”. Nas palavras de outra pessoa, ele entrou em uma profunda depressão aguda que durou por vários meses. Se estas narrativs são ou não exageradas, o sacerdote, presumidamente com base na confissão de Sauniere, se recusou a dar a extrema unção. Em 22 de janeiro Sauniere morreu. Na manhã seguinte seu corpo foi sentado ereto em uma poltrona no terraço da Tour Magdala vestido um robe ornado adornado com franjas escarlate. Um a um, certos lamentadores não identificados passaram, muitos deles tocando as franjas da vestimenta do homem morto. Nunca houve uma explicação para esta cerimonia. Os residentes atuais de Rennes-le-Chateaux estão surpresos como todo mundo mais.
A leitura do testamento de Sauniere foi aguardada com grande expectativa. Para surpresa e desgosto de todo mundo, contudo, ele foi declarado sem um só tostão. Em algum ponto antes de sua morte ele tinha aparentemente transferido toda sua riqueza a Marie Denarnaud, que partilhou de sua vida e segredos por 32 anos. Depois da morte dele, Marie continuou a viver uma vida confortável em Villa Bethania até 1946. Depois da segunda guerra mundial, contudo, o novo governo francês instalado emitiu uma nova moeda. Como meio de apreender os evasores de impostos e os lucradores colaboradores do tempo de guerra, os cidadãos franceses quando trocavam os velhos francos por novos, eram obrigados a responder por seus rendimentos.
Confrontada pela perspectiva de uma explicação, Marie escolheu a pobreza. Ela foi vista no jardim da Villa, enterrando grandes maços de velhas notas de francos. Por sete anos Marie viveu austeramente, se sustentando do dinheiro obtido da venda de Villa Bethania. Ela prometeu ao comprador, Monsieur Noel Corbu, que ela confiaria a ele, antes da morte dela, um segredo que o faria não apenas rico mas também poderoso. Em 29 de janeiro de 1953, contudo, Marie, como seu senhor antes dela, sofreu um súbito e inesperado derrame que a deixou prostrada em seu leito de morte, incapaz de falar. Para intensa frustração de Corbu, ela morreu pouco depois, levando com ela o segredo. ‘Os possíveis Segredos disso” , em suas linhas gerais, foi a história publicada na França nos anos de 1960. Esta foi a forma na qual nós a primeiro a conhecemos. E foram as perguntas levantadas pela história nesta forma que nós, como outros pesquisadores do assunto, nos dirigimos.
A primeira pergunta é muito óbvia. Qual foi a fonte do dinheiro de Sauniere? De onde veio sua fabulosa riqueza? A explicação podia ser banal? Ou havia algo muito mais excitante envolvido? A última possibilidade partilhou de uma quantidade tantalizante de mistério, e não pudemos resistir ao impulso de participarmos como detetives. Começamos a considerar as explicações fornecidas por outros pesquisadores. Segundo muitos deles, Sauniere de fato havia encontrado um tesouro de algum tipo. Esta era uma assunção bastante plausível, porque a história da vila e de suas cercanias inclue muitas possíveis fontes de ouro ou jóias ocultas. Em tempos pré-históricos, por exemplo, a área ao redor de Rennes-le-Chateau foi vista como um sitio sagrado para as tribos celtas que viveram lá; e a própria vila, uma vez chamada Rhedae, derivou seu nome de uma dessas tribos. Em tempos romanos, a área foi uma grande e florescente comunidade, importante por suas minas e águas quentes terapêuticas. E também para os romanos o sítio era visto como sagrado. Mais tarde pesquisadores tem encontrado traços de vários templos pagãos. Durante o século VI, a pequena vila no topo da montanha era supostamente um centro com 30.000 habitantes. A um ponto, parece ter sido a capital do norte do império governado pelos Visigodos, o povo teutônico que varreu a oeste da Europa Central, saqueou Roma, derrubou o Império Romano e estabeleceu seu próprio domínio espalhando-se nos Pirineus. Por outros quinhentos anos a cidade permaneceu o assento de um importante condado, para o Conde de Razes. Então, no início do século XIII, um exército de cavaleiros nortistas desceu sobre Languedoc para expulsar a heresia Cátara ou Albigense e reclamar os ricos espólios da região para eles próprios. Durante as atrocidades da chamada Cruzada Albigense, Rennes-le-Chateau foi capturada e transferida de mão em mão como um feudo. 125 anos depois, nos anos de 1360, a população local foi dizimada pela praga, e pouco depois Rennes-le-Chateau foi destruída por bandidos catalãos. Histórias de um tesouro fantástico estão interligadas com muitas destas vicissitudes históricas.
Os hereges Cátaros, por exemplo, eram reputados possuirem algo de valor fabuloso e até mesmo sagrado que, segundo um número de histórias, era o Santo Gral. Estas histórias relatadamente impulsionaram Richard Wagner a fazer uma romaria a Rennes-le-Chateau antes de compor sua última ópera, Parsifal; e durante a ocupação de 1940-45 pelas tropas alemãs, a seguir o despertar de Wagner, elas são ditas terem realizado um número de escavações infrutiferas nas vizinhanças. Havia também o tesouro desaparecido dos Cavaleiros Templários, cujo Grão Mestre, Bertrand de Blanchefort, comissionou certas escavações misteriosas nas vizinhanças. Segundo todas estas narrativas, estas escavações eram marcantemente de natureza clandestina, realizadas principalmente por um contingente especialmente importado de mineiros. Se algum tesouro dos Cavaleiros Templários esteve de fato oculto ao redor de Rennes-le-Chateau, isto pode explicar a referência a Sião nos pergaminhos descobertos por Sauniere. Havia também outros possíveis tesouros. Entre a quinta e sexta dinastia, que incluiu o Rei Dagoberto II, Rennes-le-Chateau, nos tempos de Dagoberto, era um bastião Visigodo e o próprio Dagoberto era casado com uma princesa Visigoda. O centro pode ter constituído um tipo de tesouro real; e há documentos que falam da grande riqueza reunida por Dagoberto por conquistas militares e escondida nas vizinhanças de Rennes-le-Chateau. Se Sauniere descobriu algum destes depósitos, isto explicaria a referência nos códigos a Dagoberto. Os Cátaros. Os Templários. Dagoberto II. E ainda que haja um outro possível tesouro do vasto botim acumulado pelos Visigodos durante seu avanço tempestuoso pela Europa. Isto pode ter incluido mais do que um botim tradicional, possivelmente itens de imensa relevancia tanto simbólica quanto literal para a tradição religiosa ocidental. Ele pode, em resumo, ter incluido o legendário tesouro do Templo de Jerusalém, que, até mesmo mais do que os Cavaleiros Templários, garantiria a referência ao Sião.
Em 66 a Palestina elevou-se em revolta contra o domínio romano. Quatro anos depois, em 70, Jerusalém foi arrasada por legiões do imperador, sob o comando se seu filho, Tito. O próprio templo foi saqueado e seus conteúdos do Santo dos Santos levados para Roma. Como eles são apresentados no arco triunfal de Tito, eles incluem o imenso candelabro de ouro de sete braços tão sagrado para o Judaismo, e possivelmente até mesmo a Arca da Aliança. 350 anos depois, em 410, Roma por sua vez foi saqueada pelos Visigodos invasores, sob Alarico o Grande, que pilhou virtualmente a inteira riqueza da Cidade Eterna. Como nos conta o historiador Procópio, Alarico tomou os tesouros de Salomão, o Rei dos Judeus, uma coisa digna de ser vista, a qual eles adornaram em sua maior parte com esmeraldas e que nos velhos tempos haviam sido tomados de Jerusalém pelos Romanos.
O tesouro, então, bem pode ter sido a fonte da riqueza não explicada de Sauniere. O sacerdote pode ter descoberto vários tesouros, ou ele pode haver decoberto um único tesouro que repetidamente mudou de mãos através dos séculos e que talvez tenha passado do Templo de Jerusalém aos Romanos, aos Visigodos, eventualmente aos Cátaros e/ou Cavaleiros Templários. Se assim o foi, isto explicaria a questão do tesouro, pertencendo tanto a Dagoberto II quanto ao Sião. Então muito longe nossa história de assemelha a uma história de tesouro. E a história do tesouro até mesmo envolvendo o tesouro do Templo de Jerusalém é totalmente de relevância e importância limitada. As pessoas estão constantemente descobrindo tesouros de um tipo ou outro. Tais descobertas são frequentemente excitantes, dramáticas e misteriosas, e muitas delas lançam uma importante iluminação sobre o passado. Poucas delas, contudo, exercem qualquer influência direta, política ou outra, ou apresentam a menos, de fato, o tesouro em questão incluir um segredo de algum tipo, e possivelmente se trate de um segredo explosivo. Não descartamos o argumento que Sauniere descobriu um tesouro. Ao mesmo tempo nos parece claro que, seja o que for que ele tenha descoberto, ele também descobriu um segredo secreto e histórico de enorme importância para seu próprio tempo e talvez de nosso próprio também. Mero dinheiro, ouro ou jóias não explicariam, eles mesmos, um número de facetas na história dele. Eles não responderiam por sua apresentação no círculo de Hoffet, por exemplo, ou sua associação com Debussy e sua ligação com Emma Calve. Eles não explicariam o intenso interesse da Igreja no assunto, a impunidade com a qual Sauniere desafiou seu bispo ou sua subsequente recuperação pelo Vaticano, que pareceu ter apresentado uma urgente preocupação toda sua. Eles não explicariam a recusa do sacerdote em administrar os últimos sacramentos ao homem moribundo, ou a visita do arquiduque de Hapsburg a uma vila remota nos Pirineus.
O arquiduque Habsburg em questão tem desde então sido revelado como Johann Salvator von Habsburg, conhecido pelo pseudônimo de Jean Orth. Ele renunciou a todos os seus direitos e títulos em 1889 e dentro de dois meses havia sido banido de todos os territórios do Império. Foi pouco depois que ele primeiramente apareceu em Rennes le Chateau. Dito oficialmente ter morrido em 1890, mas de fato morreu na Argentina em 1910 ou 1911. Veja Les Maisons Souveraines de L’Autriche do Dr. Dugast ROulIIe, Paris, 1967, pagina 191. Nem dinheiro, ouro, jóias explicariam a poderosa aura de mistificação que cerca o caso inteiro, desde as elaboradas cifras até Marie Denarnaud enterrando sua herança em notas de dinheiro. E a própria Marie havia prometido divulgar o segredo que conferia não meramente a riqueza, mas o poder também. Nestas bases, ficamos crescentemente convencidos que a história de Sauniere envolvia mais do riquezas, e que ela envolvia um segredo de algum tipo, um que quase certamente era controvertido. Em outras palavras, nos pareceu que o mistério não estava confinado a remota vila de interior e ao sacerdote do século XIX. Seja o que for que isso fosse, parecia se irradiar de Rennes-le-Chateau e produzir ondas talvez até mesmo uma potencial onda de maré no mundo além. Poderia a riqueza de Sauniere ter vindo não de algo de valor financeiro intrínseco, mas do conhecimento de algum tipo? Se assim foi, poderia este conhecimento ter se transformado em uma conta fiscal? Poderia, por exemplo, ter sido usado para chantagear alguém? Seria a riqueza de Sauniere seu pagamento pelo silêncio? Sabemos que ele recebeu dinheiro de Johann von Habsburg. E ao mesmo tempo, contudo, seja qual for o segredo do sacerdote, parecia ser de natureza mais religiosa do que política. Sobretudo, suas relações com o arquiduque austríaco, segundo todas as narrativas, eram notavelmente cordiais. Mais tarde em sua carreira, parece ter estado distintamente com medo dele, e o ter tratado com as luvas de seda do Vaticano. Poderia Sauniere ter chantageado o Vaticano? Garantidamente uma tal chantagem seria uma tarefa presunçosa e perigosa para um homem, contudo exaustivo em suas precauções. Mas que tal se ele fosse ajudado e apoiado em seu empreendimento por outros, cuja eminência garantia que eles fossem invioláveis para a Igreja, como o Secretário de Estado para a Cultura francês, ou os Hapsburgs? Que tal se o arquiduque Johan fosse apenas o intermediário, e o dinheiro que ele doou a Sauniere realmente tivesse saído dos cofres de Roma?
A Intriga em fevereiro de 1972, “O Tesouro Perdido de Jerusalém?”, o primeiro de nossos três filmes sobre Sauniere e o mistério de Rennes-le-Chateau, foi mostrado. O filme não fez avaliações controvertidas, ele simplesmente contou a história básica como ela tem sido recontada nas páginas precendentes, nem houve qualquer especulação sobre um ‘segredo explosivo’ ou uma chantagem de alto nível. Também não é digno de mencionar que o filme não cita Emile Hoffet , o jovem clérigo erudito em Paris, a quem Sauniere confiou seus pergaminhos por seu nome. Talvez não surprendente, recebemos um verdadeiro dilúvio de correspondência. Alguma delas ofereciam intrigantes especulações sugestivas. Algumas eram complementares. Algumas eram fracas. De todas estas cartas, uma, que o escritor não quis que publicássemos, parecia merecer uma atenção especial. Ela veio de um sacerdote anglicano aposentado e parecia um non sequitur curioso e provocante. Nosso correspondente escreveu com certeza categória e autoridade. Ele fez suas avaliações clara e definitivamente, sem elaboração, e com aparente indiferença a se acreditavamos nele ou não. O “tesouro”, ele declarou claramente, não envolve ouro ou pedras preciosas. Ao contrário, ele consistia em uma ‘prova incontroversa” de que a Crucificação foi uma fraude e que Jesus estava vivo até 45. Esta afirmação soou flagrantemente absurda. O que, até mesmo para um ateu, pode possivelmente compreender uma “prova incontroversa” que Jesus sobreviveu a Crucificação? Eramos incapazes de imaginar algo que não pudesse ser desacreditado ou repudiado como prova, mas a prova que era verdadeiramente não controvertida. Ao mesmo tempo, a clara extravagância da avaliação exigia esclarecimento e elaboração. O escritor da carta havia fornecido um endereço de remetente. Na primeira oportunidade dirigimos para ve-lo e tentar entrevista-lo. Em pessoa ele era muito mais reticente do que tinha sido na carta, e parecia lamentar ter escrito para nós. Ele se recusou a expandir sobre a ‘prova incontroversa” e voluntariou apenas um fragmento adicional de informação. Esta “prova’, ele disse, ou sua existência a qualquer nível, tem sido divulgada a ele por um outro clérigo anglicano, Canon Alfred Leslie Liney.
Liney, que morreu em 1940, tinha publicado amplamente e não era desconhecido. Durante grande parte de sua vida ele tinha mantido contacto com o Movimento Católico Modernista, baseado principalmente em São Suspílcio em Paris. Em sua juventude Liney tinha trabalhado em Paris, e tinha sido conhecido de Emile Hoffet. A trilha havia percorrido um círculo completo. Dada uma ligação entre Liney e Hoffet, e as afirmações do sacerdote, contudo absurdas, não podem ser sumariamente descartada.
Uma evidência similar de um segredo monumental estava se apresentando quando começamos a pesquisar a vida de Nicolas Poussin, o grande pintor do século XVII cujo nome correu pela história de Sauniere. Em 1656, Poussin, que estava vivendo em Roma naquele tempo, tinha recebido uma visita do Abade Louis Fouquet, irmão de Nicolas Fouquet, Superintendente de Finanças de Luis XIV da França. De Roma, o Abade enviou uma carta ao seu irmão, descrevendo este encontro com Poussin. Parte desta carta é digna de ser citada. “Ele e eu discutimos certas coisas, que devo dizer com facilidade serem capazes de explicar a você em detalhe o que ninguém mais descobrirá nos séculos a seguir. E o que é mais, há coisas tão difíceis de descobrir que nada agora na Terra pode provar uma melhor fortuna nem ser seu igual?” Nem historiadores e nem biógrafos de Poussin ou Fouquet tem sido capazes de satisfatoriamente explicar esta carta, que alude claramente a ‘alguma matéria misteriosa de imensa importância”. Não muito depois de receber a carta, Nicolas Fouquet foi preso e aprisionado por toda sua vida. Segundo certas narrativas, ele foi mantido estritamente incomunicável e alguns historiadores o vêem como um provável candidato para o Homem Na Máscara de Ferro. Enquanto isso, toda a sua correspondência foi confiscada por Luis XIV, que a inspecionou pessoalmente. Nos anos segintes, o rei foi determinadamente em seu caminho para obter a pintura original de Poussin, “Os Pastores da Arcadia”. Quando finalmente ele teve sucesso, a pintura foi sequestrada em seus apartamentos particulares em Versalhes. Seja qual for sua grandeza artística, a pintura pareceria ser suficientemente inocente. No fundo três pastores e uma pastora estão reunidos perto de uma grande e antiga tumba, contemplando a inscrição na pedra: “ET IN ARCADIA EGO’.
No fundo aparece um panorama rugoso e montanhoso do tipo geralmente associado a Poussin. Segundo Anthony Blunt, bem como outros especialistas em Poussin, este panorama era completamente mítico, um produto da imaginação do pintor. Na década de 1970, contudo, uma tumba real foi localizada, idêntica aquela na pintura em localização, dimensões, proporções, forma, vegetação adjacente e até mesmo o afloramento circular de rocha na qual um dos pastores de Poussin repousa seu pé. Esta tumba real permanece nos arredores de uma vila chamada Arques – aproximadamente a seis milhas de Rennes-le-Chateau, e a três milhas do castelo de Blanchefort. Se alguém fica de pé diante do sepulcro a vista é virtualmente indistinguivel daquela da pintura. E então se torna aparente que um dos picos no fundo da pintura é Rennes-le-Chateau. Não há indicação da idade da tumba. Pode, de fato, ter sido eregida muito recentemente, mas como fizeram seus construtores até mesmo para localizar um lugar que combine tão precisamente com aquele da pintura? De fato ela parece ter sido erigida nos tempos de Poussin, e “Os Pastores da Arcadia” pareceria ser uma fiel reprodução do sítio atual. Segundo os camponeses na vizinhança, a tumba tem estado lá por tanto tempo quanto eles, seus pais e seus avós podem lembrar. E lá é dito haver uma menção específica disto em uma memória datando de 1709.
Segundo os registros na vila de Arques, a terra onde a tumba está começa a pertencer, até sua morte em 1950, a um americano, um Louis Lawrence de Boston, Massachusetts. Em 1920 Lawrence abriu o sepulcro e o encontrou vazio. Sua esposa e sogra foram mais tarde enterradas lá. Quando preparávamos o nosso primeiro filme para a BBC sobre Rennes-le-Chateau, passamos uma manhã fazendo uma filmagem da tumba. Paramos para o almoço e voltamos três horas depois. Durante a nossa ausência, uma tentativa violenta e crua foi feita para esmagar o sepulcro. Se houvesse uma inscrição na tumba atual, ela a muito tempo foi apagada. Quanto a inscrição na pintura de Poussin, pareceria ser convencionalmente triste com a Morte anunciando sua sombria presença até mesmo na Arcadia, o idílico paraiso pastoral do mito clássico. Ainda que a inscrição seja curiosa porque falta nela um verbo. Traduzida literalmente: “Na Arcadia Eu…” Porque estaria faltando o verbo? Talvez por uma razão filosófica para evitar toda tensão, toda indicação do passado, presente ou futuro e portanto implicar em algo eterno? Ou talvez por uma razão de natureza mais prática. Os códigos nos pergaminhos encontrados por Sauniere tem repousado pesadamente em anagramas, sobre a transposição e o rearranjo das letras. Pode ser talvez “ET IN ARCADIA EGO’ um anagrama? Pode o verbo ter sido omitido de forma que a inscrição consista apenas em certas letras precisas? Um de nossos espectadores da televisão, ao escrever para nós, sugere que isto pode ser de fato assim e então rearranjou as letras em uma coerente declaração em latim. O resultado foi : I FEGO ARCANA DEI (Afaste-se! Eu oculto os segredos de deus!). Ficamos agradecidos e intrigados por este engenhoso exercício. Não entendemos naquele tempo como era extraordinariamente apropriado o resultante aviso.
Os Cátaros e a Grande Heresia
Começamos a nossa investigação em um ponto com o qual nós já tinhamos uma certa familiaridade: a heresia Catára ou Albigense e a Cruzada que ela provocou no século XIII. Nós já estávamos cientes que os Cátaros entenderam de alguma forma o mistério que cercou Sauniere e Rennes-le-Chateau. Em primeiro lugar os hereges medievais tinham sido numerosos na vila e suas cercanias, que sofreram brutalmente durante o curso da Cruzada Albigense. De fato, a inteira região está empapada no sangue Cátaro, e os residuos deste sangue, juntamente com sua amargura, persistem até hoje. Muitos camponeses na área agora, sem nenhum inquisidor para cair sobre eles, abertamente proclamam simpatias cátaras. Lá há até mesmo uma Igreja Cátara e um chamado Papa Cátaro que, até sua morte em 1978, viveu na vila de Arques. Sabemos que Sauniere tinha mergulhado na história e no folclore de seu solo natal, assim ele possivelmente não tenha evitado o contacto com o pensamento e tradições Cátaras. Ele pode não ter estado inconsciente que Rennes-le-Chateau foi um centro importante nos séculos XII e XIII, e algo de um bastião cátaro. Sauniere pode ter estado familiarizado com as numerosas histórias relacionadas aos cátaros. Ele deve ter sabido dos rumores que os ligam com aquele fabuloso objeto, o Santo Gral. E se Richard Wagner, na busca de algo pertinente ao Santo Gral, de fato visitou Rennes-le-Chateau, Sauniere tabém não pode ter sido ignorante desse fato. Em 1890, sobretudo, um homem chamado Jules Doinel se tornou o bibliotecário em Carcassone e estabeleceu uma igreja neo-cátara. O própio Doinel escreveu prolificamente sobre o pensamento cátaro, e por 1896 tinha se tornado um membro proeminente de uma organização cultural local, a Sociedade de Arte e Ciências de Carcassonne.
Em 1898 ele foi eleito seu secretário. Esta sociedade incluia um número de associados de Sauniere, entre eles seu melhor amigo, o Abade Henri Boudet. E o próprio círculo pessoal de Doinel incluia Emma Calve. É portanto provável que Doinel e Sauniere fossem conhecidos. Há uma razão posterior e mais provocante para ligar os cátaros com o mistério de Rennes-le-Chateau. Em um dos pergaminhos encontrados por Sauniere, o texto é espalhado com um punhado de letras menores; oito, para ser preciso, que são deliberadamente muito diferentes de todas as outras. Três das letras estão na direção do topo da página, cinco em direção na parte inferior. Estas oito letras tem apenas que serem lidas em sequência para soletrar duas palavras ‘REX MUNDI’. Este é inconfundivelmente um termo cátaro, que é imediatamente reconhecível para alguém familiarizado com o pensamento cátaro. Dado estes fatores, parece bastante razoável começar nossa investigação com os cátaros. Portanto começamos a pesquisar sobre eles, suas crenças e tradições, sua história e redondezas em detalhe. Nosso inquérito abriu novas dimensões do mistério, e portanto começamos a pesquisar sobre eles, e isso gerou um número de perguntas tantalizantes.
A Cruzada Albigense
Em 1209 um exército de aproximadamente 30.000 cavaleiros e soldados a pé da Europa da Norte desceu como um rodamoinho sobre Languedoc, a escarpada montanha no nordeste dos Pirineus no que é agora o sul da França. Desde o início da guerra o inteiro território foi devastado, as plantações foram destruídas, cidades e centros foram arrasados, uma população inteira foi passada pela espada. Este extermínio ocorreu em uma escala tão vasta e terrível que bem pode constituir o primeiro caso de genocídio na moderna história européia. Apenas no centro de Beziers, por exemplo, ao menos 15.000 homens, mulheres e crianças foram massacrados por atacado, muitos deles no santuário da própria igreja. Quando um oficial inquiriu do representante do Papa como ele podia distingur os hereges dos verdadeiros crentes, ele respondeu: “Mate todo estes. Deus reconhecerá os seus”. Esta citação, embora amplamente citada, pode ser apócrifa. Não obstante, isto tipifica o zelo fanático e a sede de sangue com os quais estas atrocidades foram perpetradas.
O mesmo representante papal, escrevendo a Inocente III em Roma, anunciou orgulhosamente que “nem idade, nem sexo e nem status foram poupados”. Depois de Beziers, o exército invasor varreu todo Languedoc. Perpignan caiu, Narbonne caiu, Carcassone caiu, Toulouse caiu. E, seja por onde for que os vitoriosos passavam, eles deixavam uma trilha de sangue, morte e carnificina em seu rastro; a guerra, que durou quase quarenta anos, é agora conhecida como Cruzada Albigense. Foi uma cruzada no verdadeiro sentido da palavra. Ela tinha sido convocada pelo próprio Papa. Seus participantes usavam uma cruz em suas túnicas, como os cruzados na Palestina. E as recompensas eram as mesmas que eram as dos cruzados da Terra Santa: a remissão de todos os pecados, uma expiação de penitências, um lugar assegurado no Céu e todo o botim que pudessem pilhar. Nesta cruzada, sobretudo, ninguém teve que atravessar o mar. E de acordo com a lei feudal, ninguém estava obrigado a combater por mais de quarenta dias assumindo, com certeza, que ninguém tivesse interesse em saquear.
Ao tempo em que a Cruzada acabou, o Languedoc tinha sido completamente transformado, retornado a barbárie que caracterizava o resto da Europa. Porque? Porque toda aquela destruição, brutalidade e desvastação ocorreu? No início do século XIII a área agora conhecida como Languedoc não era oficialmente uma parte da França. Era uma principalidade independente, cuja linguagem, cultura e instituições políticas tinham menos em comum com o norte do que tinham com a Espanha com os reinos de Leão, Aragão e Castela. A principalidade era governada por um punhado de famílias nobres, cujos chefes eram os Condes de Toulouse e a poderosa casa de Trencavel. E dentro dos confins desta principalidade floresceu uma cultura que, naquele tempo, era a mais avançada e sofisticada na cristandade, com a possível exceção de Bizancio. O Languedoc tinha muito em comum com Bizancio. O aprendizado, por exemplo, era altamente estimado, como ele não o era no Norte da Europa. A filosofia e outras atividades intelectuais floresceram; a poesia e o amor enobreceram exaltados; Grego, Árabe e Hebraico eram entusiásticamente estudados; e em Lunel e Narbonne, escolas devotadas a Cabala, a antiga tradição do Judaísmo, estavam florescendo. Até mesmo a nobreza era letrada e literária, em um tempo quando a maioria dos nobres do Norte não podia nem mesmo assinar seus nomes. Como Bizancio, também, o Languedoc praticava uma tolerância religiosa civilizada em contraste com o zelo fanático que caracterizava outras partes da Europa. Meadas de pensamento islâmico ou judaico, por exemplo, eram importados pelos centros marítimos comerciais como Marselha, ou feito seu caminho através dos Pirineus vindo da Espanha. Ao mesmo tempo, a Igreja Romana não desfrutava de uma estima muito alta; os clérigos romanos em Languedoc, em virtude de sua notória corrupção, tinham sucesso primariamente em alienar a populaça. Havia igrejas, por exemplo, em que nenhuma missa tinha sido realizada por mais de trinta anos. Muitos sacerdotes ignoravam seus paroquianos e dirigiam negócios ou grandes propriedades. Um arcebispo em Narbonne nem até mesmo visitou sua diocese. Seja qual for a corrupção da igreja, o Languedoc tinha alcançado um ápice de cultura que não seria visto novamente na Europa até a Renascença.
Mas, como em Bizancio, havia elementos de complacência, decadência e trágica fraqueza que tornaram a região despreparada para a matança que subsequentemente se desencadeou sobre ela. Pelo mesmo tempo a nobreza do norte europeu e a Igreja Romana tinham estado cientes de sua vulnerabilidade e estavam ávidos em explora-la. A nobreza do norte por muitos anos tinha ambicionado a riqueza e o luxo de Languedoc. E a Igreja estava interessada em suas próprias razões. Em primeiro lugar, sua autoridade sobre a região estava faltando. E enquanto a cultura florescia em Languedoc, algo mais florescia também como a maior heresia da cristandade medieval. Nas palavras das autoridades da Igreja, o Languedoc estava ‘infectado’ pela heresia Albigense, a ‘nojenta lepra do Sul’. E embora os aderentes desta heresia fossem essencialmente não violentos, eles constituiam uma severa ameaça à autoridade Romana, de fato, a mais severa ameaça que Roma vivenciaria até três séculos mais tarde quando os ensinamentos de Martinho Lutero começaram a Reforma. Por 1200 havia uma real prespectiva dessa heresia deslocar o catolicismo romano como a forma dominante da cristandade em Languedoc. E o que era mais ominoso até os olhos da Igreja, ele já estava se irradiando a outras partes da Europa, especialmente a centros urbanos na Alemanha, Flandres e Champagne. Os hereges eram conhecidos por uma variedade de nomes. Em 1165 eles tinham sido condenados por um concílio eclesiástico na cidade em Languedoc de Albi. Por esta razão, ou talvez porque Albi continuasse a ser um dos centros deles, eles eram frequentemente chamados Albigenses. Em outras ocasiões eles foram chamados Cátaros. Na Itália eles eram chamados Patarinos. Não infrequentemente eles também eram apelidados ou estigmatizados com nomes de heresias muito anteriores – Ariano, Marcionita e Maniqueano. “Albigense e Cátaro eram essencialmente nomes genéricos. Em outras palavras, eles não se referiam a uma única igreja coerente, como aquela de Roma, com um corpo de doutrina e teologia fixo, codificado e definitivo. Os hereges em questão compreendiam uma multitude de seitas diversas, muitas sob a direção de um líder independente, cujos seguidores assumiriam seu nome. E conquanto estas seitas possam ter mantido certos princípios em comum, elas divergiam radicalmente uma da outra em detalhe. Sobretudo, a maior parte da informação sobre os hereges deriva de fontes eclesiásticas como a Inquisição.
Formar uma imagem deles de tais fontes é com tentar formar uma imagem, vamos dizer, da Resistência Francesa, dos relatos das SS e Gestapo. Portanto é virtualmente impossível apresentar um sumário coerente e definivo do que realmente constituia o ‘pensamento cátaro’. Em geral os cátaros aceitavam a doutrina da reencarnação e um reconhecimento de um princípio feminino na religião. De fato, os pregadores e professores das congregações cátaras, conhecidos como “Os Perfeitos” eram de ambos os sexos. Ao mesmo tempo, os cátaros rejeitavam a igreja católica ortodoxa e negavam a validade do todas as hierearquias clericais, ou intercessores oficiais e ordenados entre o homem e Deus. No núcleo desta posição jaz um importante mandamento cátaro que é o repudio da fé, ao menos como a Igreja insiste sobre isso. Em lugar da fé aceita em segunda mão, os cátaros insistiam no conhecimento direto e pessoal, uma experiência religiosa ou mística aprendida em primeira mão. Esta experiência havia sido chamada ‘gnose’, da palavra grega para ‘conhecimento’, e para os cátaros isto tomava precedência sobre todos os credos e dogma. Dando uma tal ênfase ao contacto pessoal direto com Deus, sacerdotes, bispos, e outras autoridades clericais se tornavam supérfluas. Os cátaros também eram dualistas. Todo pensamento cristão, de fato, pode completamente ser visto como dualista, insistindo em um conflito entre dois princípios opostos – o bem e o mal -, – o espírito e a carne -, o alto e o baixo. Mas os cátaros levavam esta dicotomia até mesmo mais longe do que o catolicismo ortodoxo estava preparado para fazer. Para os cátaros, os homens eram as espadas com as quais os espíritos combatiam, e ninguém via as mãos. Para eles, uma guerra perpétua estava sendo movida por toda a criação entre dois princípios irreconciliáveis – a luz e as trevas, o espírito e a matéria, o bem e o mal. O catolicismo propõem um Deus Supremo, cujo adversário, o Diabo, é totalmente inferior a ele. Os cátaros, contudo, proclamavam a existência não de um deus, mas de dois, com um status mais ou menos comparável. Um desses deuses, o Bem era inteiramente desencarnado, um ser ou princípio de puro espírito, completamente livre da mancha da matéria. Ele era um deus de amor. Mas o amor era considerado completamente incompatível com o poder e a manifestação material era uma manifestação de poder. Portanto , para os cátaros, a criação material do próprio mundo é intrinsecamente má. O universo, em resumo, era o trabalho manual de um ‘deus usurpador’, o deus do mal, ou, como os cátaros o chamavam, “Rex Mundi”, o rei do mundo.
O catolicismo repousa no que pode ser chamado dualismo ético. O Mal, embora emitindo-se totalmente talvez do Diabo, se manifesta primariamente através do homem e suas ações. Em contraste, os cátaros mantiveram uma forma de ‘dualismo cosmológico’, um dualismo que invadiu o todo da realidade. Para os cátaros, esta era uma premissa básica, mas a resposta deles a isso variava de seita a seita. Segundo alguns cátaros, o propósito da vida humana na Terra era transcender a matéria, renunciar perpétuamente a qualquer coisa ligada a este princípio de poder e portanto alcançar a união com o princípio de amor. Segundo outros cátaros, o propósito da vida do homem era reclamar e redimir a matéria, espiritualiza-la e transforma-la. É importante notar a ausência de qualquer dogma fixado, doutrina ou teologia. Como na maioria dos desvios da ortodoxia estabelecida há apenas certas atitudes frouxamente definidas e as obrigações morais referentes a estas atitudes que eram objeto de interpretação individual. Aos olhos da Igreja Romana os Cátaros estavam cometendo sérias heresias a respeito da criação material, em benefício das quais supostamente Jesus morreu, como intrinsicamente más e implicando que Deus, cuja ‘palavra’ havia criado o mundo, no início, era um usurpador. A heresia mais séria deles, contudo, era a atitude deles em relação ao próprio Jesus. Já que a matéria era intrinsecamente má, os cátaros negavam que Jesus partilhasse da matéria, tenha encarnado na carne e até fosse o Filho de Deus. Para alguns cátaros ele era completamente incorpóreo, um ‘fantasma’, uma entidade de puro espírito, que, com certeza, não podia ser crucificado. A maioria dos cátaros parece te-lo visto como um profeta não diferente de qualquer outro ser mortal que, em benefício do princípio do amor, morreu na cruz. Havia, em resumo, nada místico, nada sobrenatural, nada divino sobre a crucificação se, de fato, ela fosse afinal relevante, o que muitos cátaros parecem ter duvidado.
Em qualquer caso, todos os cátaros veementemente repudiavam a importância da crucificação e da cruz – talvez porque eles sentissem que estas doutrinas fossem irrelevantes, ou talvez porque Roma as repetisse tão ferventemente, ou por causa das circunstâcias brutais da morte de um profeta que não parecem dignas de veneração. E a cruz ao menos em associação ao Calvário e a Crucificação foi vista como um emblema do ‘Rex Mundi”, senhor do mundo material, a própria antítese do verdadeiro princípio redentor. Jesus, se de todo mortal, tinha sido um profeta do princípio do amor. E AMOR, quando invertido ou pervertido ou destorcido em poder, se torna ROMA, cuja Igreja opulenta e luxuosa parecia aos cátaros uma incorporação palpável e a manifestação na terra da soberania do Rex Mundi.
Em consequência os cátaros não apenas se recusavam a venerar a cruz, eles também negavam tais sacramentos como batismo e comunhão. A despeito deste pensamento sutil, complexo, abstrato e talvez irrelevantes posições teólogicas, a maioria dos cátaros não era indevidamente fanática sobre o credo deles. Isto está intelectualmente em moda hoje em dia a respeito dos Cátaros como uma congregação de sábios, místicos iluminados ou iniciados na sabedoria arcana, todos os quais partilhavam do grande segredo cósmico. Em fato real, contudo, a maioria dos Cátaros eram mais ou menos homens e mulheres comuns, que encontraram em seu credo um refúgio da restrição do catolicismo ortodoxo a despeito dos infindáveis dízimos, penitências, obséquios, restrições e outras imposições da Igreja Romana. Conquanto a teologia deles fosse de difícil compreensão, os cátaros eram pessoas eminentemente realistas na prática. Eles condenavam a procriação, por exemplo, já que a propagação da carne estava a serviço não do princípio do amor, mas do Rex Mundi; mas eles não eram tão ingênuos para advogar a abolição da sexualidade. Verdadeiro, havia um específico sacramento cátaro, ou equivalente, chamado Consolamentum, que compelia alguém a castidade. Exceto para os Perfeitos, contudo, que eram ex homens e mulheres de família, o Consolamentum não era administrado até que alguém estivesse em seu leito de morte; não é extraordinariamente difícil ser casto para alguém que está morrendo. Tanto quanto diga respeito a congregação como um todo, a sexualidade era tolerada, se não explicitamente sancionada. Como alguém condena a procriação enquanto admite a sexualidade? Há evidência que sugere que os cátaros praticavam controle da natalidade e aborto. Quando Roma subssequentemente acusou os hereges de ‘práticas sexuais não naturais’ isso foi levado como se referindo a sodomia. Contudo, os cátaros, até onde sobrevivem registros, eram extremamente estritos em sua proibição de homossexualidade. Estas “práticas não naturais sexuais” podem bem ter se referido aos vários métodos de controle de nascimento e aborto. Conhecemos a posição de Roma hoje sobre estes assuntos. Não é difícil imaginar a energia e zelo vingativo com o qual esta posição teria sido posta em vigor na Idade Média.
Geralmente os cátaros parecem ter aderido a uma vida de extrema devoção e simplicidade. Deplorando as igrejas, eles geralmente realizavam os rituais deles e serviços ao ar livre ou em um edifício prontamente disponível como um celeiro, uma casa, uma prefeitura. Eles também praticavam o que hoje chamamos de meditação. Eles eram estritamente vegetarianos, embora comer peixe fosse permitido. E quando viajavam pelo interior, os Perfeitos sempre o faziam em pares, assim dando credencial aos rumores de sodomia patrocinados por seus inimigos. O Cerco de Montsegur, então foi o credo que varreu o Languedoc e províncias adjacentes em uma escala que ameaçou o próprio catoliscismo. Por um número de razões compreensíveis, muitos nobres achavam o credo atraente. Alguns aquiesceram sua tolerância geral. Alguns eram de qualquer modo anti-clericais. Alguns estavam desiludidos com a corrupção da Igreja. Alguns tinham perdido a paciência com o sistema de dizimos, pelo qual a renda de suas propriedades desaparecia para os cofres distantes de Roma. Então muitos nobres, em sua velhice, se tornaram Perfeitos. De fato, é estimado de 30% de todos os Perfeitos foram saidos da nobreza de Languedoc.
Em 1145, meio século antes da cruzada Albigense, o próprio São Bernardo tinha viajado a Laguedoc, pretendendo pregar para os hereges. Quando ele chegou, eles ficou menos surpreso com os hereges do que com a corrupção de sua própria Igreja. No que diz respeito aos hereges, São Bernardo foi claramente impressionado por eles. “Nenhum sermão é mais cristão do que o deles”, ele declarou, ‘e sua moral é pura”. Por 1200, é desnecesário dizer, Roma tinha ficado crescentemente alarmada com a situação, Nem ela estava inconsciente da inveja com a qual os barões do norte da Europa viam as ricas terras e as cidades do Sul. Esta inveja podia ser prontamente explorada e os senhores nortistas constituiriam as tropas invasoras da Igreja. Tudo que era necessário era alguma provocação, alguma desculpa para acender a opinião popular. Uma tal desculpa logo viria.
Em 14 de janeiro de 1208, um dos Legados Papais para Languedoc, Pierre de Castelnau, foi morto. O crime parece ter sido cometido por rebeldes anti-clericais sem qualquer afiliação cátara. Possuindo a desculpa que ela precisava, contudo, Roma não hesitou em culpar os cátaros. E de uma vez o Papa Inocente III ordenou uma Cruzada. Embora tivesse havido uma perseguição intermitente dos hereges por todo século anterior, a Igreja agora mobilizava forças a vontade. A heresia era para ser extirpada de uma vez por todas. Um exército maciço foi colocado sob o comando do Abade de Citeaux. As operações militares foram confiadas grandemente a Simon de Montfort, pai do homem que subsequentemente era para desempenhar um papel crucial na história inglesa. E sob a liderança de Simon os cruzados do Papa estabeleceram reduzir a mais alta cultura européia da Idade Média pela destruição e ruína. Neste sagrado empreendimento eles foram ajudados por um novo e útil aliado: um fanático espanhol chamado Dominic Guzman. Motivado por um ódio raivoso pela heresia, Guzman, em 1216, criou a ordem monástica subsequentemente chamada como ele, os Dominicanos. E em 1233 os Dominicanos lançaram a mais infame instituição da Santa Inquisição. Os cátaros não eram as únicas vítimas. Antes da Cruzada Albigense, muitos nobres de Languedoc especialmente das casas influentes de Trencavel e Toulouse tinham sido extremamente amigáveis com a grande população judia da região. Nem toda esta proteção e apoio foi retirado pela ordem. Em 1218 Simon de Montfort foi morto cercando Toulouse. Não obstante, a depredação do Languedoc continuou, com apenas breves pausas, por outros 25 anos. Por 1243, contudo, toda resistência organizada lá nunca tinha efetivamente cessado.
Por 1243 todos os maiores centros e bastiões cátaros tinham caído diante dos invasores do norte, exceto por um punhado de pontos fortes remotos e isolados. Principal entre eles estava a majestosa montanha cidadela de Montsegur, colocada como uma arca celestial acima dos vales subjacentes. Por dez meses Montsegur foi cercada pelos invasores, suportando assaltos repetidos e mantendo uma resistência tenaz. Ao longo, em março de 1244, o forte capitulou, e o Catarismo, ao menos ostensivamente, cessou de existir no sul da França. Em seu livro best-seller, Montaillou, por exemplo, Emmanuel Le Roy Ladurie, escrevendo extensamente sobre documentos do período, faz a crônica das atividades dos cátaros sobreviventes quase que meio século depois da queda de Montsegur. Pequenos enclaves de hereges continuaram a sobreviver nas montanhas, vivendo em cavernas, aderindo ao credo deles e movendo uma amarga guerrilha contra seus perseguidores. Em muitas áreas do Languedoc incluindo as cercanias de Rennes-le-Chateau a fé cátara é geralmente reconhecida ter persistido. E muitos escritores tem traçado subsequentes heresias européias a ramos do pensamento cátaro; os Waldesianos, por exemplo; os Hussitas, os Adamitas ou a Irmandade do Espírito Livre. Os Anabatistas e os estranhos Camisardos, números dos quais encontraram refúgio em Londres durante o início do século XVIII.
O Tesouro Cátaro
Durante a Cruzada Albigense e depois, uma mística que cresceu dos cátaros que ainda persiste hoje. Em parte isto pode ser derrubado pelo elemento do romance que rodeia qualquer causa trágica e perdida que de Bonnie Príncipe Charlie, por exemplo com um ilustre mágico, com uma amedrontadora nostalgia, com a “matéria da história’. Mas ao mesmo tempo, descobrimos, houve alguns mistérios reais associados aos cátaros. Conquanto as histórias possam ser exaltadas e romantizadas, um número de enigmas permaneceu. Um deles diz respeito a origem dos cátaros; e embora isto pareça ser um ponto acadêmico para nós, ele subsequentemente se provou de considerável importância.
Alguns historiadores recentes tem argumentado que os cátaros derivaram de Bogomils, uma seita ativa na Bulgária durante os séculos X e XI, cujos missionários migraram para o ocidente. Não há questão que os hereges de Languedoc incluiam um número de Bogomils. De fato um conhecido pregador Bogomil foi proeminente nos assuntos religiosos e políticos daquele tempo. E ainda que nossa pesquisa revelasse substancial evidência de que os cátaros não derivam dos Bogomils. Ao contrário, eles parecem representar o florescimento de algo já enraizado na França por séculos. Eles parecem ter se derivado, quase diretamente, de heresias estabelecidas e enraizadas na França desde o próprio advento da era cristã. Há outros mistérios, consideravelmente mais intrigantes, associados aos Cátaros.
Jean de Joinville, por exemplo, um velho homem escrevendo sobre seu conhecimento com Luis IX durante o século XIII escreve: “o Rei Luis IX uma vez me disse como vários homens dos Albigenses tinham ido ao Conde de Montfort… e pediram a ele para vir e olhar o corpo de Nosso Senhor, que tinha se tornado carne e sangue nas mãos de seu sacerdote”. Montfort, segundo a história, declarou que seu séquito podia ir se desejasse, mas ele continuaria a acreditar de acordo com os mandamentos da Santa Igreja. Não há elaboração ou explicação posterior deste incidente. O próprio Joinville meramente reconta a passagem. Mas o que vamos fazer deste enigmático convite? O que os Cátaros estavam fazendo? Que tipo de ritual estava envolvido? Deixando de lado a missa, que de qualquer modo os cátaros repudiavam, o que podia possivelmente fazer ‘o corpo de Nosso Senhor tornar-se carne e sangue…?’ Seja o que for que possa ter sido isso, há certamente algo perturbadoramente literal nesta declaração. Um outro mistério cerca o lendário ‘tesouro’ cátaro. É sabido que os Cátaros eram extremamente ricos. Tecnicamente, o credo deles os proibia de portar armas e embora muitos ignorassem esta proibição, permanece o fato de que grandes números de mercenários eram empregados com uma despesa considerável. Ao mesmo tempo, as fontes da riqueza Cátara, a aliança que eles tinham de poderosos proprietários de terras, por exemplo, eram óbvias e inexplicáveis.
Ainda que os rumores se elevassem, até mesmo durante o curso da Cruzada Albigense, de um fantástico tesouro místico cátaro, muito além da riqueza material. Seja o que for que fosse isso, este tesouro reputadamente foi mantido em Montsegur. Quando Montsegur caiu, contudo, nada de importância foi encontrado. Ainda que haja certos incidentes singulares ligados ao cerco e a capitulação da fortaleza. Durante o cerco, os atacantes superavam em número 10.000. Com esta vasta força de cercantes tentando rodear a inteira montanha, fechando todas as entradas e saídas e esperando matar de fome os defensores. A despeito de sua força numérica, contudo, eles não tinham suficiente poder humano para tornar seu cerco completamente seguro. Muitas tropas eram locais, sobretudo, e simpáticas aos cátaros. E muitas tropas simplesmente não eram confiáveis. Em consequência não era difícil passar indetectável pelas linhas dos atacantes. Havia muitas brechas entre os homens que entravam e saiam, e suprimentos encontravam seu caminho para a fortaleza. Os cátaros tomaram vantagem destas brechas. Em janeiro, quase três meses antes da queda da fortaleza, dois Perfeitos escaparam. Segundo narrativas confiáveis, eles levaram com eles o grosso da riqueza material dos Cátaros, uma carga de ouro, prata e moedas que eles levaram primeiro a uma caverna fortificada nas montanhas e de lá para um fortaleza em um castelo. Depois o tesouro desapareceu e nunca foi ouvido falar nele novamente. Em 1o. de março Montsegur finalmente capitulou. Mas então seus defensores eram menos de 400 entre os quais uns 150 ou 180 eram Perfeitos, o resto sendo cavaleiros, escudeiros, armadores e suas famílias. Foi garantido a eles termos surpreendentemente lenientes. Os homens combatentes eram para receber pleno perdão pelos seus crimes anteriores. Eles teriam permissão para partir com suas armas, bagagem e qualquer bem, inclusive dinheiro, que eles pudessem receber de seus empregadores. Os Perfeitos também receberam uma inesperada generosidade. Garantindo que eles abjurassem suas crenças heréticas e confessassem seus ‘pecados’ à Inquisição, eles seriam libertados e submetidos apenas a penitências leves.
Os defensores solicitaram uma trégua de duas semanas, com uma completa suspensão das hostilidades, para considerar os termos. Em uma apresentação posterior de generosidade não característica, os atacantes concordaram. Em troca os defensores voluntariamente ofereceram reféns. Foi combinado que se alguém tentasse escapar da fortaleza os reféns seriam executados. Estavam os Perfeitos tão comprometidos com sua crença que eles voluntariamente escolheram o martírio ao invés da conversão? Ou havia algo que eles não podiam ou ousavam – confessar a Inquisição? Seja qual for a resposta, nenhum dos Perfeitos, até onde é conhecido, aceitou os termos dos cercadores. Ao contrário, todos eles escolheram o martírio. Sobretudo, ao menos 20 dos outros ocupantes da fortaleza, seis mulheres e 15 homens combatentes, voluntariamente receberam o Consolamentum e se tornaram Perfeitos também, assim se condenando a morte certa. Em 15 de maio a trégua expirou. No amanhecer do dia seguinte, mais de 200 Perfeitos foram arrastados rispidamente montanha abaixo. Nenhum deles reconsiderou. Não havia tempo para levantar fogueiras individuais e assim eles foram trancados em uma grande pilha de madeiras no pé da montanha e queimados em massa. Confinada ao castelo, o restante da guarnição foi compelida a assistir. Eles foram avisados que se alguém tentasse escapar isso significaria a morte para todos eles, bem como para os reféns. A despeito dos riscos, contudo, a guarnição tinha combinado esconder os Perfeitos entre eles. E na noite de 16 de março estes quatro homens, acompanhados por um guia, fizeram uma escapada ousada novamente com o conhecimento e conluio da guarnição. Eles desceram a face ocidental da montanha, suspensos por cordas e deixando eles próprios cairem de mais de cem metros de uma vez. O que estavam estes homens fazendo? Qual era o propósito de sua escapada arriscada que afigurava tal risco para a guarnição e os reféns? No dia seguinte eles poderiam andar livremente fora da fortaleza, em liberdade para reassumir a vida deles. Ainda que por alguma razão desconhecida, eles embarcassem em uma perigosa escapada noturna que podia facilmente ter resultado na morte para eles próprios e seus colegas. Segundo a tradição, estes quatro homens levaram o legendário tesouro Cátaro.
Mas o tesouro cátaro havia sido retirado de Montsegur três meses antes. E quanto ‘tesouro’, em qualquer caso, quanto ouro, prata e moedas poderiam três ou quatro homens carregarem em suas costas, pendurados em cordas em um agudo lado montanhoso? Se os quatro fugitivos estavam de fato levando algo, pareceria claro que eles estavam levando algo mais do que riqueza material. O que poderia eles estarem carregando? Acessórios da fé cátara, talvez livros, manuscritos, ensinamentos secretos, relíquias, objetos religiosos de algum tipo; talvez algo que, por uma razão ou outra, não poderia cair em mãos hostis. Isto pode explicar porque a fuga foi realizada; uma fuga que envolvia tantos riscos para todos os envolvidos. Ms se algo de natureza tão preciosa tinha, a todos os custos, que ser preservado das mãos hostis, porque não foi retirado antes? Porque foi mantido na fortaleza até o último e perigoso momento? A data precisa da trégua nos permite deduzir uma possível resposta a estas perguntas. Tinha sido solicitado pelos defensores, que voluntariamente oferecerem reféns para obter isso. Por alguma razão os defensores consideraram isso necessário até mesmo embora tudo isso apenas retardasse o inevitável por meras duas semanas. Talvez, concluimos, tal demora fosse necessária para ganhar tempo. Nenhum tempo em geral, mas um tempo específico. Isto coincidiu com o equinócio da primavera – e o equinócio pode bem ter desfrutado de algum status ritual para os cátaros. Isso também coincidiu com a Páscoa. E ainda que isso seja conhecido como um festival de algum tipo foi realizado em 14 de março, o dia anterior a tregua expirar. Parece haver pouca dúvida que a trégua foi requisitada para que o festival pudesse ser realizado. E há pouca dúvida que o festival pudesse ser realizado em uma data aleatória. Aparentemente, tinha que ser em 14 de março. Seja o que fosse o festival, ele claramente causou alguma impressão em alguns mercenários, alguns dos quais, desafiando a morte inevitável, se converteram ao credo cátaro.
Este fato pode manter ao menos a chave parcial para o que foi levado de Montsegur duas noites mais tarde? Pode, seja o que for que tenha sido levado, então necessário, de algum modo, para o festival do dia 14 de março? Isso poderia de alguma forma ser instrumental em persuadir ao menos 20 dos defensores a se tornarem Perfeitos no último momento? E isso pode de algum modo ter assegurado o conluio da guarnição, até mesmo sob o risco das próprias vidas? Se a resposta é sim a todas estas perguntas, isso explicaria porque seja o que for que foi removido mais cedo em janeiro, por exemplo, quando o tesouro monetário foi levado para segurança. Isso teria sido necessário ao festival. E isso então teria que ser preservado de mãos hostis. Na medida em que ponderamos estas conclusões, somos constantemente lembrados das histórias que ligam os cátaros e o Santo Gral. Não estamos preparados para ver o Gral como algo mais que um mito. Certamente não estamos preparados para avaliar se isto realmente existiu, nem podemos imaginar um cálice ou uma taça, que tenha ou não recebido o sangue de Jesus, que fosse tão precioso para os Cátaros para quem Jesus, em um importante grau, era incidental. Não obstante, as histórias continuaram a nos assaltar e nos deixar perplexos.
O pensamento elusivo, que parece haver alguma ligação entre os Cátaros e o inteiro culto do Gral como ele evoluiu durante os séculos XII e XIII. Um número de escritores tem argumentado que os romances do Gral – aqueles de Chretien de Troyes e Wolfram von Eschenbach, por exemplo, são uma interpolação do pensamento cátaro, oculto em um elaborado simbolismo, no coração da cristandade ortodoxa. Pode haver algum exagero nesta avaliação, mas há também alguma verdade. Durante a Cruzada Albigense os eclesiásticos fulminaram contra os romances do Gral, declarando-os perniciosos, se não hereges. E em alguns desses romances há passagens isoladas que não são apenas altamente não ortodoxas, mas muito inconfundivelmente dualistas, ou em outras palavras, cátara. O que é mais, Wolfram von Eschenbach, em um dos seus romances do Gral, declara que o castelo do Gral era situado nos Pirineus; uma avaliação que Richard Wagner, em qualquer nível, tomaria literalmente. Segundo Wolfram, o nome do castelo do Gral era Munsalvaesche, uma versão germanizada aparentemente de Montsalvat, um termo cátaro. E em um dos poemas de Wolfram o senhor do castelo do Gral era Perilla. Muito interessantemente, o senhor de Montsegur era Raimon de Pereille cujo nome, em sua forma latina, aparece nos documentos do período como Perilla.
Se tais surpreendentes coincídências persistiram nos assombrando, eles podem ter também, concluimos, ter assombrado Sauniere que era, afinal, conhecedor das histórias e folclore da região. E como qualquer outro nativo da região, Sauniere pode ter estado constantemente ciente da proximidade de Montsegur, cujo destino trágico ainda domina a consciência local. Mas para Sauniere a própria proximidade do forte pode bem ter compreendido certas implicações práticas. Algo havia sido retirado de Montsegur exatamente depois que a trégua expirou. Segundo a tradição, os quatro homens que escaparam da cidadela condenada levaram com eles o tesouro cátaro, como o ‘tesouro’ que Sauniere descobriu, tem consistido primariamente em um segredo? Pode este segredo estar relacionado, de algum modo inimaginável, a algo que se tornou conhecido como o Santo Gral? Parece inconcebível para nós que os romances do Gral possam ser considerados literalmente. Em qualquer caso, seja o que for que foi retirado de Montsegur tinha que ser levado para algum lugar. Segundo a tradição, ele foi levado para as cavernas fortificadas de Orlonac em Ariege, onde um bando de cátaros foi exterminado pouco depois. Mas nada além de esqueletos tem sido encontrado em Orlonac. Por outro lado, Rennes-le-Chateau está apenas a meio dia a cavalo de Montsegur. Seja o que for que foi retirado de Montsegur bem pode ter sido levado a Rennes-le-Chateau, ou, mais provavelmente, para uma das cavernas que abundam nas montanhas adjacentes. E se o ‘segredo’ de Montsegur foi o que subsequentemente Sauniere descobriu, isto obviamante explicaria uma grande parte. No caso dos cátaros, como com Sauniere, a palavra ‘tesouro’ parece ocultar algo mais de conhecimento ou informação de algum tipo. Dada a tenaz aderência dos cátaros ao seu credo e sua antipatia militante por Roma, imaginamos se tal conhecimento ou informação [assumindo que ela existiu] se relacionava de algum modo a cristandade – as doutrinas e teologia da cristandade, talvez sua história e origens. Se isso era possível, em resumo, o que os cátaros [ou ao menos certos cátaros] sabiam algo – algo que contribuiu para o fervor frenético com que Roma buscou o exterminio deles? O sacerdote que havia nos escrito tinha se referido a uma ‘prova incontroversa’. Poderia tal ‘prova’ ter sido conhecida pelos cátaros? A este tempo, não podemos apenas especular preguiçosamente. E a informação sobre os cátaros em geral é pouca e isso evita até mesmo uma hipótese funcional. Por outro lado nossa pesquisa sobre os cátaros tinha repetidamente impingido um outro assunto, até mesmo mais enigmático e misterioso e cercado de histórias evocativas. Este assunto era o dos Cavaleiros Templários. Portanto foram os Templários para onde a seguir dirigimos nossa investigação. E foi com os Templários que nossas buscas começaram a oferecer documentação concreta e o mistério começou a assumir proporções muito maiores do que nós podiamos ter imaginado.
Os Monges Guerreiros
Pesquisar os Cavaleiros Templários provou-se uma tarefa assustadora. A volumosa quantidade de material escrito devotada ao assunto era intimidante; e de início não podiamos estar certos de quanto desse material era confiável. Se os Cátaros tinham engendrado um reboliço de história mística e romantica, a mistificação cercando os Templários era até mesmo maior. Em um nível, eles estavam bastante familiriarizados para nós, os fanaticamente ferozes monges-guerreiros, cavaleiros místicos vestidos em um manto branco com uma cruz vermelha, que desempenharam um papel tão crucial nas Cruzadas. Aqui, em algum sentido, eram os cruzados arquetípicos as tropas de choque da Terra Santa, que combateram e morreram heroicamente por Cristo, aos milhares. Ainda que muitos escritores, até mesmo hoje, os vissem como uma instituição muito mais misteriosa, uma ordem essencialmente secreta, com intento em intrigas obscuras, maquinações clandestinas, sombrias conspirações e projetos. E lá permaneceu um fato preplexante e inexplicável. No fim da carreira deles de dois séculos, estes campeões vestidos de branco de Cristo foram acusados de negar e repudiar Cristo, de pisar e cuspir na cruz. No Ivanhoé de Scott, os Templários são apresentados como tiranos arrogantes e presunçosos, déspotas cobiçosos e hipócritas sem vergonha abusando de seu poder, manipuladores cobiçosos orquestrando os assuntos de homens e reinos. Em outros escritores do século XIX eles são apresentados como vis satanistas, adoradores do diabo, praticantes de todos os modos de obscenos, abomináveis e/ou heréticos ritos. Historiadores mais recentes tem estado inclinados a os verem como vítimas infelizes, peões sacrificiais nas manobras políticas de alto nível da Igreja e do Estado. E ainda havia outros escritores, especialmente na tradição da Livre Maçonaria, que viam os Templários como adeptos místicos e iniciados, guardiães de uma sabedoria arcana que transcende a própria cristandade. Seja qual for a tendência ou orientação particular de tais escritores, ninguém discute o zelo heróico dos templários ou a contribuição deles para a história. Nem há qualquer questão que a ordem deles é uma das mais glamurosas e enigmáticas instituições nos anais da cultura ocidental.
Nenhuma narrativa das Cruzadas ou, por este assunto, da Europa durante os séculos XII e XIII negligenciará em mencionar os Templários. Em seu zênite, eles eram a mais poderosa e influente organização da inteira cristandade, com a única possível exceção do Papado. E ainda que certas perguntas assustadoras permaneçam. Quem e o que eram os Cavaleiros Templários? Eles eram meramente o que pareciam ser, ou eram algo mais? Eles eram simples soldados sobre os quais uma aura de lenda e mistificação foi subsequentemente desenhada? Se assim o era, porque? Alternativamente havia um genuíno mistério ligado a eles? Pode haver algum fundamento para os posteriores embelezamentos do mito? Primeiro consideramos as narrativas aceitas dos Templários as narrativas oferecidas por historiadores respeitados e responsáveis. Em virtualmente cada ponto estas narrativas levantaram mais perguntas do que responderam. Elas não apenas desabavam sob exame, mas sugeriam algum tipo de ‘acobertamento’. Não podemos escapar da suspeita que algo havia sido deliberadamente ocultado e uma ‘história cobertura’ fabricada, que mais tarde os historiadores meramente repetiram.
Até onde geralmente é sabido, a primeira informação histórica sobre os Templários é fornecida por um historiador franco, Guillaume de Tyre, que escreveu entre 1175 e 1185. Este foi o pico das Cruzadas, quando os exércitos ocidentais já haviam conquistado a Terra Santa e estabelecido o Reino de Jerusalém ou, como isso foi chamado pelos próprios Templários, “Outremer”, ‘A Terra Alem do Mar’. Mas ao tempo que Guillaume de Tyre começou a escrever, a Palestina tinha estado em mãos ocidentais por 70 anos, e os Templários já estavam em existência por mais de 50 anos. Guillaume estava portanto escrevendo sobre eventos que antederam seu próprio período de vida, eventos que ele não tinha testemunhado ou vivenciado ou vivenciado pessoalmente, mas que havia aprendido de uma segunda ou mesma terceira mão. Em segunda ou terceira mão e, sobretudo, com base em uma autoridade incerta. Não houve cronistas ocidentais entre 1127 e 1144. Então não há registros escritos sobre estes anos cruciais. Não sabemos, em resumo, quanto das fontes de Guilhaume, isso pode muito bem chamar algumas de suas declaraões em questão. Ele pode ter se guiado pela palavra popular, em nenhuma tradição oral confiável. Alternativamente, ele pode ter consultado os próprios Templários e recontado o que eles disseram a ele. Se isso assim o é, isso significa que ele estava relatando apenas o que os Templários queriam que ele relatasse. Garantidamente, Guilhaume nos fornece certa informação básica; e esta é a informação sobre a qual todas as narrativs subsequentes dos Templários, todas as explicações sobre sua fundação, todas as narrativas sobre suas atividdes, tem sido baseadas. Mas por causa da imprecisão e superficialidade de Guilhaume, por causa do tempo quando ele escreveu, por causa da morte das fontes documentadas, ele constitui uma base precária sobre a qual construir uma figura definitiva. As cronicas de Guilhaume são certamente úteis. Mas é um erro e um que muitos historiadores tem sucumbido em ve-las como impugnável e completamente acuradas. Até mesmo as datas de Guilhaume, como ressalta Sir Steven Runciman, ‘são confusas e as vezes demonstravelmente erradas’.
Segundo Guillaume de Tyre, a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão foi fundada em 1118. Seu fundador é dito ser Hugues de Payen, um nobre de Champagne e vassalo do Conde de Champagne. Um dia Hugues, sem solicitação, apresentou-se com oito camaradas no palácio do Rei Bauduino, Rei de Jerusalém, cujo irmão mais velho, Godfroi de Bouillon, tinha capturado a Cidade Santa dezenove anos antes. Bauduino parece te-los recebido muito cordialmente, como o fez o Patriarca de Jerusalém, o líder religioso do novo reino e emissário especial do Papa. O objetivo declarado dos Templários, continua Guillaume de Tyre, era, “até onde sua força permitisse, eles deviam manter as estradas e caminhos seguros… com especial consideração pela proteção dos romeiros”. Tão digno era este objetivo aparentemente que o Rei colocou uma ala inteira do palácio real a disposição dos Cavaleiros. E, a despeito de seu declarado voto de pobreza, os cavaleiros se moveram para as belas acomodações. Segundo a tradição, seus aposentos eram construídos sobre as fundações do antigo Templo de Salomão, e disto a Ordem principiante derivou seu nome. Por nove anos, nos conta Guillaume de Tyre, os novos Cavaleiros não admitiram novos candidatos em sua Ordem. Eles ainda supostamente estavam vivendo em pobreza, a tal pobreza que o selo oficial mostra dois cavaleiros montados em um único cavalo, implicando não apenas a fraternidade deles, mas também a penúria que impossibilitou montarias separadas. Este estilo de selo é frequentemente visto como o mais distintivo e famoso emblema dos Templários, descendendo dos primeiros dias da Ordem. Contudo, ele realmente data de um século completo depois, quando os Templários dificilmente eram pobres se, de fato, eles até mesmo o foram.
Segundo Guillaume de Tyre, escrevendo meio século depois, os Templários foram criados em 1118 e se mudaram para dentro do palácio do rei presumivelmente navegando daqui ´para proteger romeiros nas estradas e caminhos da Terra Santa’. E ainda que houvesse, a este tempo, um historiador real oficial, empregado pelo rei. Seu nome era Fulk de Chartres, e ele estava escrevendo não apenas 50 anos depois da suposta fundação da Ordem, mas durante os mesmos anos em questão. Muito curiosamente, Fulk de Chartres não faz qualquer menção a Hugues de Payen, aos companheiros de Hugues ou qualquer coisa até mesmo remotamente ligada aos Cavaleiros Templários. De fato há um estrondoso silêncio sobre as atividades dos Templários durante os dias iniciais de sua existência. Certamente não há registro em qualquer lugar nem até mesmo mais tarde sobre eles fazerem algo para proteger os romeiros. E não se pode senão imaginar como tão poucos homens poderiam esperar cumprir tal tarefa gigantesca auto-imposta. Nove homens para proteger os romeiros em todas as passagens da Terra Santa? Apenas nove? E todos os romeiros? Se este fosse o objetivo deles, poder-se-ia certamente esperar que eles dessem boas vindas a novos recrutas. Ainda que, segundo Guillaume de Tyre, eles não admitissem novos candidatos na Ordem por nove anos. Nem ao menos, dentro de uma década a fama dos Templários parece ter se espalhado de volta a Europa. As autoridades eclesiásticas falavam altamente sobre eles e exaltavam sua tarefa cristã. Por 1128, ou pouco depois, um trato louvando suas virtudes e qualidades foi emitido por não menos uma pessoa que São Bernardo, o Abade de Clairvaux e o portavoz principal para a cristandade.
O trato de Bernardo ‘Em Louvor da Nova Cavalaria” declara os Templários serem o epítomo e a apoteose dos valores cristãos. Depois de nove anos, em 1127, a maioria dos nove Cavaleiros retornou a Europa em uma boa vinda triunfal, orquestrada em grande parte por São Bernardo. Em janeiro de 1128 um Concílio da Igreja se reuniu na côrte de Troyes do Conde de Champagne, o senhor de ligação de Hugues de Payen ao qual Bernardo era novamente o espírito guia. Neste Concílio os Templários foram oficialmente reconhecidos e incorporados como um Ordem religiosa militar. Hugues de Payen recebeu o título de Grão Mestre. Ele e seus subordinados eram para ser monges guerreiros, soldados místicos, combinando a disciplina austera do claustro com um zelo marcial supremo ao fanatismo; uma milícia de Cristo, como eles eram chamados naquele tempo. E foi novamente São Bernardo que ajudou a desenhar, com um prefácio entusiástico, a regra de conduta pela qual os cavaleiros adeririam a uma regra baseada naquela da ordem monástica cisterciana, na qual o próprio Bernardo era de influência dominante. Os Templários juravam pobreza, castidade e obediência. Eles eram obrigados a cortar o cabelo mas proibidos de cortar suas barbas, assim se distinguindo em uma era onde a maioria dos homens tinha a barba feita. Dieta, roupas e outros aspectos da vida diária eram estritamente regulados de acordo com as rotinas monástica e militar. Todos os membros da Ordem eram obrigados a vestir hábitos brancos, ou sobrecasacas e batinas, e estas logo evoluiram em um distintivo manto branco pelo qual os Templários se tornaram famosos. É garantido que ninguém vista hábitos brancos, ou tenham mantos brancos, exceto… os Cavaleiros de Cristo. Assim declarada a regra da Ordem, que elaborou o significado simbólico desta veste. Para todos os cavaleiros professos, tanto no inverno quanto no verão, damos, se eles podem ser procurados, vestimentas brancas, que aqueles que tem lançado atrás deles uma vida escura possam saber que eles eram dedicados ao seu Criador para uma vida pura e branca.
Além destes detalhes, a regra estabeleceu uma frouxa hierarquia e aparato administrativo, E o comportamento no campo de batalha era estritamente controlado. Se capturados, por exemplo, os Templários não tinham permissão para pedir misericórdia ou resgatar eles próprios. Eles eram compelidos a lutar até a morte. Eles não tinham permissão para recuar, a menos que as hordas contra eles excedessem três por um. Em 1139 uma Bula Papal foi emitida pelo Papa Inocente II, um antigo monge cisterciano em Clairvaux e protegido de São Bernardo. Segundo esta Bula, os Templários não deviam obediência a nenhum poder eclesiástico ou secular outro do que aquele do próprio Papa. Em outras palavras, eles foram deixados completamente independentes de todos os reis, príncipes e prelados, e toda interferência de ambas autoridades políticas e religiosas. Eles tinham se tornado, de fato, uma lei para eles mesmos, um império internacional autonomo. Durante as duas décadas que se seguiram ao Concílio de Troyes, a Ordem se expandiu com extraordinária rapidez e em uma escala extraordinária. Quando Hugues de Payen visitou a Inglaterra em 1128, ele foi recebido com “grande veneração’ pelo Rei Henrique I. Por toda Europa, os filhos mais novos das famílias nobres se alistaram nas fileiras da Ordem, e vastas doações em dinheiro, bens, e terra foram feitas para cada parte da cristandade. Hugues de Payen doou suas propriedades e todos os novos recrutas foram obrigados a fazerem o mesmo. Na admissão na Ordem, um homem era compelido a assinar doando todas as suas posses. Dado tais políticas, não é surpreendente que os bens dos Templários proliferassem.
Dentro de uns meros doze meses do Concílio de Troyes, a Ordem tinha propriedades substanciais na França, Inglaterra, Escócia, Flandres, Espanha e Portugal. Dentro de uma outra década, ela também tinha território na Itália, Áustria, Alemanha, Hungria a Terra Santa e pontos do oriente. Embora os cavaleiros individuais fossem ligados ao seu voto de pobreza, isto não evitou que a Ordem reunisse riqueza, e em uma escala sem precedentes. Todas as doações eram benvindas. Ao mesmo tempo, a Ordem era proibida de dispor de qualquer coisa até mesmo para resgatar seus líderes. O Templo recebia em abundância mas, como uma matéria de política estrita, ele nunca dava.
Quando Hugues de Payen voltou a Palestina em 1130, entretanto, com uma entourage bem considerável para aquele tempo de uns 300 cavaleiros, ele deixou para trás, sob a custódia de outros recrutas, vastas áreas de território europeu. Em 1146 os Templários adotaram a famosa cruz vermelha. Com este símbolo gravado em seus mantos, os Cavaleiros acompanharam o Rei Luis VII da França na Segunda Cruzada. Aqui eles estabeleceram sua reputação de zelo marcial acoplado a uma quase insana ousadia, e uma feroz arrogância também. Como um todo, contudo, eles eram magnificamente disciplinados – a mais disciplinada força combatente no mundo naquele tempo. O próprio Rei francês escreveu que foram apenas os Templários que evitaram que a Segunda Cruzada – mal concebida e mal gerenciada -, se degenerasse em um debacle total. Durante os próximos cem anos os Templários se tornaram um poder com influência internacional. Eles estavam constantemente engajados em uma diplomacia de alto nível entre nobres e monarcas pelo mundo ocidental e a Terra Santa. Na Inglaterra, por exemplo, o Mestre do Templo era regularmente chamado ao Parlamento do rei, e era visto como chefe de todas as ordens religiosas, tedo precedência sobre todos priores e abades na terra. Mantendo ligações estreitas com Henrique II e Thomas a Becket, os Templários foram instrumentais em tentar reconciliar o soberano e seu estranho arcebispo. Sucessivos reis ingleses, incluindo o Rei João, frequentemente residiram no preceptório do Templo em Londres, e o Mestre da Ordem permaneceu do lado do monarca ao assinar a Carta Magna.
Nem era o envolvimento político da Ordem confinado apenas a cristandade. Ligações estreitas foram construídas com o mundo muçulmano bem como o mundo tão frequentemente oposto ao campo de batalha e os Templários comandavam um respeito pelos líderes sarracenos que excedia o que era aceito por qualquer europeu. Ligações secretas também eram mantidas com os Hashishim ou Assassinos, a famosa seita de adeptos militantes e frequentemente fanáticos que eram o equivalente islâmico dos Templários. Os Hashishim pagavam tributo aos Templários e eram murmurados estarem a serviço deles. Em quase toda a política a Inglaterra ousou desafia-los, ameaçando confiscar os domínios deles. “Vocês Templários… tem tantas liberdades e cartas que suas possessões enormes os tornam cheios de orgulho e arrogância. O que foi imprudentemente dado deve entretanto ser prudentemente revogado; e o que foi inconsideradamente doado deve ser consideradamente tomado. ” O Mestre da Ordem respondeu, “O que dizes, Oh Rei? Longe esteja que vossa boca deva expressar uma palavra tão tola e desagradável. Tanto quanto vós deves exercer a justiça, vós reinareis. Ms se vós infrigis isso, cessará de ser Rei”. É difícil aceitar para a mente moderna a enormidade e a audácia desta declaração. Implicitamente o Mestre está tomando para sua Ordem e ele próprio o poder que nem até mesmo o Papado ousou explicitamente afirmar de fazer ou depor monarcas. Ao mesmo tempo, os interesses dos Templários se estendem além da guerra, diplomacia e intriga política. De fato eles criaram e estabeleceram a instituição dos bancos modernos. Ao emprestar vastas somas aos monarcas destituídos eles se tornaram os banqueiros para cada trono na Europa e para certos potentados muçulmanos também. Com sua rede de preceptórios por toda Europa e Oriente Médio, eles também organizaram, em modestas taxas de juros, a tranferência segura e eficiente de dinheiros para os mercadores do comércio, uma classe que se tornou crescentemente dependente deles.
O dinheiro depositado em uma cidade, por exemplo, podia ser pedido e retirado em outra, por meio de notas promissórias inscritas em intrincados códigos. Os Templários assim se tornaram os primários trocadores de dinheiro da era, e o preceptório de Paris se tornou o centro das finanças européias. É até mesmo provável que o cheque, como o conhecemos e usamos hoje, tenha sido inventado pela Ordem. E os Templários não comerciavam apenas em dinheiro, mas em pensamento também. Por meio de seu mantido e simpático contacto com as culturas islâmica e judaica, eles vieram a atuar como uma câmara de compensação para novas idéias, novas dimensões de conhecimento, novas ciências. Eles desfrutavam de um real monopólio sobre a melhor e mais avançada tecnologia de sua era, a melhor que podiam produzir os armeiros, trabalhadores em couro, pedreiros, arquitetos militares e engenheiros. Eles contribuiram para o desenvolvimento da vigilância, feitura de mapas, construção de estradas e navegação. Eles possuiam seus próprios portos marítimos, estaleiros e frotas comercial e militar, que estavam entre as primeiras a usar a bússola magnética. E como soldados, a necessidade de tratar de ferimentos e doenças os tornou adeptos do uso de drogas. A Ordem mantinha seus próprios hospitais com seus próprios médicos e cirurgiões cujo uso do extrato do mofo sugere um entendimento das propriedades dos antibióticos. Princípios modernos de higiene e limpeza eram compreendidos. E com uma compreensão também antecipada de seu tempo, eles viam a epilepsia não como uma possessão demoníaca mas como uma doença controlável. Inspirados por suas próprias realizações, o Templo na Europa se desenvolveu crescentemente rico, poderoso e complacente. Talvez não surpreendentemente, ele também ficou cada vez arrogante, brutal e corrupto. Beber como um Templário se tornou um clichê naquele tempo. E certas fontes avaliam que a Ordem estabeleceu um ponto ao recrutar cavaleiros excomungados. Mas enquanto os Templários atingiam prosperidade e notoriedade na Europa, a situação na Terra Santa tinha se deteriorado seriamente.
Em 1185 o Rei Bauduino IV de Jerusalém morreu. Na disputa dinástica que se seguiu, Gerard de Ridefort, o Grão Mestre do Templo, traiu um juramento feito ao monarca morto, e portanto colocou a comunidade européia na Palestina para trazer uma guerra civil. Nem foi esta a unica ação questionável de Ridefort. Sua atitude de cavaleiro em relação aos Sarracenos precipitou a ruptura de uma trégua de longo tempo, e provocou um novo ciclo de hostilidades. Então, em julho de 1187, Ridefort liderou seus cavaleiros, juntamente com o resto do exército cristão, em uma batalha áspera, mal concebida e, como transpirou, desastrosa em Hattin. As forças cristãs foram virtualmente aniquiladas; e dois meses depois Jerusalém foi capturada por mãos sarracenas. Durante o século seguinte a situação se tornou crescentemente sem esperança. Por 1291 quase todo Outremer havia caído, e a Terra Santa estava quase que completamente sob controle muçulmano. Somente Acre permanecia, e em maio de 1291 esta última fortaleza foi perdida também. Ao defenderem a cidade condenada, os Templários se mostraram mais heróicos. O próprio Grão Mestre, embora severamente ferido, continuou a lutar até sua morte. Como havia apenas espaço limitado nas galés da Ordem, apenas mulheres e crianças foram evacuadas, enquanto todos os cavaleiros, até mesmo os feridos, escolheram permanecer para trás. Quando o último bastião em Arce caiu, ele o fez com intensidade apocalíptica, as paredes desabando e enterrando atacantes e defensores igualmente.
Os Templários estabeleceram sua nova sede em Chipre; mas com a perda da Terra Santa, eles efetivamente haviam sido privados de sua razão de ser. Como não mais havia terras de infiéis a conquistar, a Ordem começou a voltar sua atenção para a Europa, esperando encontrar lá uma justificativa para sua continuada existência. Um século antes, os Templários haviam presidido a fundação de uma outra ordem cavaleiresca, religiosa-militar, os Cavaleiros Teutônicos. Os últimos eram ativos em pequenos números no Oriente Médio, mas por meados do século XIII tinham voltado sua atenção para as fronteiras a nordeste da cristandade. Aqui eles tinham escavado uma principalidade independente para eles próprios, a Ordenstoat ou Ordensland, que abrangia quase todo o Báltico oriental. Nesta principalidade que se estendia da Prússia ao Golfo da Finlândia e o que é agora solo russo os Cavaleiros Teutônicos desfrutavam de uma soberania não desafiada, muito longe do controle secular e eclesiástico. Para a própria inserção do Ordenstaat, os Templários tinham invejado a independência e a imunidade desta ordem similar. Depois da queda da Terra Santa, eles pensavam crescentemente em um Estado seu próprio no que eles exercessem a mesma autoridade irrestrita e autonomia dos Cavaleiros Teutônicos. Diferente dos Cavaleiros Teutônicos, contudo, os Templários não estavam interressados na selvageria ríspida da Europa Oriental. Por agora eles estavam acostumados demais com o luxo e a opulência. Consequentemente, eles sonhavam em fundar seu Estado em um solo mais acessível e congenial como o de Languedoc. De seus anos mais iniciais, O Templo havia mantido um certo entendimento caloroso com os Cátaros, especialmente no Languedoc. Muitos ricos proprietários de terras, eles próprios cátaros ou simpáticos aos cátaros, tinham doado grandes áreas de terra à Ordem. Segundo um escritor recente, ao menos um dos co-fundadores do Templo era um cátaro. Isto parece de certa forma improvável, mas está além de qualquer discussão que Bertrand de Blachefort, o quarto Grão Mestre da Ordem, veio de uma família cátara. Quarenta anos depois da morte de Bertrand, seus descendentes estavam lutando lado a lado com outros senhores cátaros contra os invasores nortistas de Simon de Montfort.
Durante a Cruzada Albigense, os Templários ostensivamente permaneceram neutros, se confinando no papel de testemunhas. Ao mesmo tempo, todavia, o Grão Mestre daquele tempo parece ter deixado clara a posição da Ordem quando declarou que havia apenas uma Cruzada, a cruzada contra os sarracenos. Sobretudo, um exame cuidadoso das narrativas contemporaneas revela que os Templários forneceram abrigo a muitos refugiados cátaros. Na ocasião, eles parecem ter tomado armas em benefício dos refugiados cátaros. E uma inspeção dos pergaminhos da Ordem na direção do início da Cruzada Albigense revela um maior influxo de cátaros nas fileiras do Templo onde nem mesmo os cruzados de Simon Montfort ousariam desafia-los. De fato, os pergaminhos dos Templários do período mostram que uma proporção significante dos dignatários de alto escalão da Ordem eram de familias cátaras. No Templo de Languedoc os oficiais eram mais frequentemente cátaros do que catolicos. E o que é mais, os nobres cátaros que se alistaram no Templo não pareciam ter se movido sobre o mundo como muitos de sua irmandade católica. Ao contrário, eles pareciam ter permanecido pela maior parte no Languedoc, assim criando para o Ordem uma base duradoura e estável na região. Em virtude de seu contacto com as culturas islâmica e judaica, os Templários já haviam absorvido muitas grandes idéias diferentes da cristandade romana ortodoxa. Os Mestres Templários, por exemplo, frequentemente empregavam secretários árabes, e muitos Templários, tendo aprendido o árabe no cativeiro, eram fluentes na lingua. Uma estreita compreensão foi também mantida com as comunidades judaicas, interesses financeiros e erudição. Pelo influxo de recrutas cátaros, eles agora também estavam expostos ao dualismo gnóstico se, de fato, eles realmente tivessem sido estranhos a isso.
Por 1306 Felipe, o Belo da França estava agudamente ansioso de livrar seu território dos Templários. Eles eram arrogantes e ingovernáveis. Eles eram eficientes e altamente treinados, uma força militar profissional muito mais forte e melhor organizada do que qualquer uma que ele próprio pudesse reunir. Eles estavam firmemente estabelecidos pela França, e por este tempo até mesmo a obediência ao Papa era apenas nominal. Felipe não tinha controle sobre a Ordem. Ela possuia o dinheiro dele. Ele havia sido humilhado quando, fugindo de uma multidão rebelada em Paris, ele foi obrigado a buscar o abjeto refúgio no preceptório do Templo. Ele invejava a imensa riqueza dos Templários, que sua residência em seus territórios tornou mais flagrantemente aparente para ele. E, tendo se aplicado para se unir a Ordem como postulante, ele sofreu a indignidade de ser claramente rejeitado. Estes fatos juntos, com certeza, com a alarmente perspectiva de um Estado Templário independente em sua porta de trás foi suficiente para estimular o rei à ação. E heresia era uma desculpa conveniente. Felipe primeiro tinha que aliciar a cooperação do Papa, ao qual, na teoria a qualquer nível, os Templários deviam fidelidade e obediência, Entre 1303 e 1305, o rei francês e seus ministros engendraram o rapto e morte de um Papa [Bonifácio VIII] e bem possivelmente o assassinato por veneno de um outro [Benedito XI]. Então, em 1305, Felipe gerenciou para assegurar a eleição de seu próprio candidato, o arcebispo de Bordeaux, para o trono papal vago. O novo pontífice tomou o nome de Clemente V. Em débito como ele estava com a influência de Felipe, ele dificilmente poderia recusar as exigências do rei. Felipe planejou cuidadosamente seus movimentos. Uma lista de acusações foi compilada, parcialmente dos espiões do rei que haviam infiltrado a Ordem, parcialmente de confissões voluntárias de um alegado Templário renegado. Armado com estas acusações, Felipe fez o último movimento; e quando ele enviou sua explosão, ela foi súbita, eficiente e letal. Em uma operação de segurança digna da SS e da Gestapo, o rei emitiu ordens secretas e lacradas aos seus senescais pelo interior. Estas ordens eram para ser abertas em todos os lugares simultaneamente e implementadas de uma vez. No amanhecer da sexta feira, 13 de outubro de 1307, todos os Templários na França eram para serem aprisionados e colocados sob prisão pelos homens do rei, seus preceptórios colocados sob sequestro real, seus bens confiscados.
Mas embora o objetivo de surpresa de Felipe possa ter sido alcançado, seu interesse primário na fortuna imensa da Ordem o enganou. Ela nunca foi encontrada, e o que se tornou o fabuloso tesouro dos templários tem permanecido um mistério. De fato é duvidoso se o ataque de surpresa à Ordem foi tão inesperado como ele, ou os historiadores subsequentes, acreditaram. Há considerável evidência a sugerir que os Templários foram avisados antecipadamente. Logo antes das prisões, por exemplo, o Grão Mestre, Jacques de Molay, pediu que muitos dos livros e regras fossem então queimados. Um cavaleiro que se retirou da Ordem naquele tempo foi dito pelo tesoureiro que ele estava sendo extremamente sábio e que a catástrofe era iminente. Uma nota oficial foi circulada em todos os preceptórios franceses, ressaltando que nenhuma informação a respeito dos costumes e rituais da Ordem tinha sido divulgada. De qualquer modo, se os templários foram avisados antecipadamente ou se eles deduziram o que estava no vento, certas precauções foram tomadas definitivamente. Em qualquer caso, os cavaleiros que foram capturados parecem terem se submetido passivamente, como se houvessem recebido instruções para assim o fazer. Em nenhum ponto há qualquer registro da Ordem na França resistindo ativamente aos senescais do rei. Em segundo lugar, há evidência persuasiva de algum tipo de fuga organizada por um grupo particular de cavaleiros virtualmente todos os quais de algum modo estavam ligados ao Tesoureiro da Ordem. Portanto, talvez não seja surpreendente, que o tesouro do Templo, juntamente com quase todos seus documentos e registros, deva ter desaparecido. Rumores persistentes mas não substanciados falam do tesouro sendo contrabandeado de noite do preceptório de Paris, pouco antes das prisões. Segundo estes rumores, ele foi transportado por vagões para a costa presumidamente para a base naval da Ordem em La Rochelle e carregado em 18 galés, e nunca foi ouvido falar dele novamente. Se isso é verdade ou não, pareceria que a frota dos Templários escapou dos guardas do rei porque não há relatos de qualquer navio da Ordem ter sido tomado. Ao contrário, estes navios parecem ter desaparecido totalmente, junto com seja o que for que eles estivessem transportando. Na França os Templários presos foram julgados e alguns submetidos a tortura. Estranhas confissões foram extraídas e até mesmo acusações mais estranhas feitas.
Rumores amargos começaram a circular pelo país. Os Templários supostamente veneravam um diabo chamado Baphomet. Em suas cerimônias secretas eles supostamente se prostravam diante de uma cabeça barbada masculina, que falava com eles e os investia de poderes ocultos. Testemunhas não autorizadas destas cerimônias nunca foram vistas novamente. E havia outras acusações também, que eram até mesmo mais vagas; de infanticídio, de ensinar as mulheres como abortar, de beijos obscenos na iniciação de postulantes; de homossexualidade. Mas de todas as acusações levantadas contra estes soldados de Cristo, que haviam lutado e dedicado suas vidas a Cristo, uma parece a mais bizarra e aparentemente improvável. Eles foram acusados de ritualmente negarem Cristo, de repudiarem, pisarem e cuspirem na cruz. Na França, ao menos, o destino dos Templários foi efetivamente selado. Felipe atormentou-os selvagemente e sem misericórdia. Muitos foram queimados, muitos mais aprisionados e torturados. Ao mesmo tempo o rei continuou a intimidar o Papa, exigindo até mesmo medidas mais restritivas contra a Ordem. Depois de resistir por um tempo, o papa abriu mão em 1312, e os Cavaleiros Templários foram oficialmente dissolvidos sem um veredito conclusivo de culpa ou inocência ter sido até mesmo produzido.
Mas nos domínios de Felipe, os julgamentos, inquéritos e investigações continuaram por outros dois anos. No final, em março de 1314, Jacques de Molay, o Grão Mestre e Geoffroi de Charnay, Preceptor da Normandia, foram queimados até a morte um fogo brando. Com a execução deles, a Ordem ostensivamente desapareceu desta parte da história. Dado ao número de cavaleiros que escaparam, que permaneceram de fora ou que eram conhecidos, seria surpreendente se tivesse. Não obstante, a Ordem não deixou de existir. Felipe havia tentado influenciar seus companheiros monarcas, esperando portanto assegurar que nenhum Templário na cristandade fosse poupado. De fato, o zelo do rei a este respeito é quase suspeito. Pode-se talvez compreende-lo querer se livrar em seus próprios domínios da presença da Ordem, mas é muito menos claro porque ele deve ter tido tal intento de exterminar os Templários em outros lugares. Certamente ele próprio não era um modelo de virtudes; e é difícil imaginar um monarca que providenciasse a morte de dois Papas sendo genuinamente preocupado pelas infrações à fé. Felipe simplesmente temia a vingança se a Ordem permanecesse intacta fora da França? Em qualquer caso, sua tentativa de eliminar os Templários fora da França não foi bem sucedida. O proprio enteado de Felipe, por exemplo, Eduardo II da Inglaterra, de início correu em defesa da Ordem. Eventualmente, pressionado pelo Papa e o rei francês, ele cumpriu as exigências deles, mas apenas parcial e tepidamente. Embora a maioria dos Templários pareça ter escapado completamente, um número foi preso. Destes contudo, a maioria recebeu sentenças leves algums vezes de não mais que poucos anos de penitência em abadias e monastérios, onde eles viviam em condições geralmente confortáveis. Suas terras foram consignadas aos Cavaleiros Hospitalários de São João, mas eles próprios foram poupados da perseguição viciosa que atingiu sua irmandade na França.
Em todos os lugares a eliminação dos Templários encontrou maior dificuldade, Na Escócia, por exemplo, havia uma guerra com a Inglaterra naquele tempo, e o consenquente caos deixou pouca oportunidade para implementar exatidões legais. Então as Bulas Papais dissolvendo a Ordem nunca foram proclamadas na Escócia e na Escócia, portanto, a Ordem nunca foi tecnicamente dissolvida. Muitos ingleses e, pareceria, Templários franceses fundaram um refúgio escocês, e um contingente considerável é dito ter lutado do lado de Robert Bruce na Batalha de Bannockburn em 1314. Segundo a história o corpo coerente na Escócia existiu por outros quatro séculos. Na luta de 1688-91, James II da Inglaterra foi deposto por William de Orange. Na Escócia os apoiadores do sitiado monarca Stuart se levantaram em revolta e, na Batalha de Killiecrankie em 1689, João Claverhouse, Visconde de Dundee, foi morto no campo. Quando seu corpo foi recuperado, ele foi reportadamente encontrado usando a Grande Cruz da Ordem dos Templários – não um recente aparelho supostamente, mas um datando de antes de 1307. Em Lorraine, que era parte da Alemanha naquele tempo, não parte da França, os Templários foram apoiados pelo duque da principalidade. Um poucos foram julgados e exonerados. A maioria, parece, obedeceu ao seu Preceptor, que reputadamente os aconselhou a raspar suas barbas, abandonar a veste secular e se assimilarem na populaça local.
Na própria Alemanha os Templários abertamente desafiaram seus juízes, ameaçando tomar armas. Intimidados, seus juízes os pronunciaram inocentes; e quando a Ordem foi oficialmente dissolvida, muitos Templários alemães acharam um paraíso nos Hospitalários de São João e na Ordem Teutônica. Na Espanha, também, os Templários resistiram aos seus perseguidores e encontraram refúgio em outras ordens. Em Portugal a Ordem foi clarificada por um inquérito e simplesmente mudou seu nome, se tornando, Cavaleiros de Cristo. Sob este título eles funcionavam bem dentro do século XVI se devotando a atividade marítima. Vasco da Gama era um Cavaleiro de Cristo, e o Príncipe Henrique o Navegador era um Grão Mestre da Ordem. Navios dos Cavaleiros de Cristo viajavam sob a familiar cruz vermelha. E foi sob a mesma cruz que Cristóvão Colombo atravessou o Atlântico para o Novo Mundo. O próprio Colombo era casado com a filha de um antigo Cavaleiro de Cristo, e tinha acesso aos mapas e diários de seu sogro. Então, em um número de modos diversos, os Templários sobreviveram ao ataque de 13 de outubro de 1307. E em 1522 a progenie prussiana dos Templários, os Cavaleiros Teutônicos, sulariri sed eles próprios, repudiaram sua aliança com Roma e deram seu apoio por trás de um rebelde e herege chamado Martinho Lutero. Dois século depois de sua dissolução, os Templários, contudo indiretamente, estavam exercendo a vingança contra a Igreja que os traiu.
Os Cavaleiros Templários e Os Mistérios
Em uma forma grandemente resumida, esta é a história dos Cavaleiros Templários como os escritores a tem aceito e apresentado, e como nós a encontramos em nossa pesquisa. Mas rapidamente descobrimos que há uma outra dimensão para a história da Ordem, consideravelmente mais evasiva, mais provocante e mais especulativa. Até mesmo durante a existência deles, uma mística tem vindo a cercar os cavaleiros. Alguns disseram que eles eram feiticeiros e mágicos, adeptos secretos e alquimistas. Muitos de seus contemporaneos os evitavam, acreditando que eles estavam em contacto com poderes não limpos. Tão cedo quanto 1208, no início da Cruzada Albigense, o Papa Inocente III tinha advertido os Templários por um comportamento não cristão, e se referiu explicitamente a necromancia. Por outro lado, havia indivíduos que os louvavam com entusiasmo estravagante. No século XII Wolfram von Eschenbach, o maior dos romancistas medievais, fez uma visita especial ao Outremer para testemunhar a Ordem em ação. E quando, entre 1195 e 1220, Wolfram compôs seu romance épico Parcival, ele conferiu aos Templários o mais exaltado status. No poema de Wolfram os cavaleiros que guardam o Santo Gral, o castelo do Gral e a família do Gral, são Templários. Depois da derrocada dos Templários, a mística que cerca isso persistiu. O ato final registrado na história da Ordem tem sido a queima do último Grão Mestre, Jacques de Molay, em março de 1314. Quando a fumaça do fogo brando chocou a vida de seu corpo, é dito que Jacques de Molay disse uma imprecação das chamas. Segundo a tradição, ele chamou seus perseguidores, o Papa Clemente e O Rei Felipe para se unirem a ele e responderem por eles próprios diante da Côrte de Deus dentro de um ano. Dentro de um mês, o Papa Clemente estava morto, supostamente de um súbito ataque de desinteria. Pelo fim do ano Felipe estava morto também, por causas que permanecem obscuras até este dia. Há, de fato, nenhuma necessidade de procurar explicações sobrenaturais, Os Templários possuiam grande talento no uso de venenos. E havia certamente bastante pessoas entre os cavaleiros refugiados viajando incógnitas, simpatizantes da Ordem e parentes da irmandade perseguida para executar a vingança apropriada.
Não obstante, o aparente cumprimento da maldição do Grão Mestre emprestou crendencial a crença nos poderes ocultos da Ordem. Nem a maldição terminou lá. Segundo a história, foi para lançar um pálio sobre a linhagem real francesa dentro do futuro. E então os ecos dos supostos poderes místicos dos Templários reverberaram pelos séculos. Pelo século XVIII várias confraternidades secretas e semi-secretas estavam louvando os Templários como os precursores e iniciados místicos. Muitos Maçons Livres do periodo se apropriaram dos Templários como seus antecedentes. Certos ritos e observâncias maçonicas afirmaram a descendência linear direta da Ordem, bem como a custódia autorizada de seus segredos arcanos. Algumas destas afirmações eram claramente ridículas. Outras repousavam, por exemplo, na possível sobrevivência da Ordem na Escócia – podem bem ter tido um núcleo de validade, até mesmo se os enfeites aplicados são espúrios.
Por 1789 as histórias que cercavam os Templários tinham atingido proporções positivamente míticas, e a realidade histórica deles foi obscurecida por uma aura de ofuscação e romance. Eles eram vistos como adeptos ocultos, alquimistas iluminados, magos e sábios, mestres maçons e altos iniciados; reais superhomens dotados de um surpreendente arsenal de poder e conhecimento arcano. Eles também eram vistos como heróis e mártires, arautos do espírito anti-clerical daquela era; e muitos Maçons Livres, ao conspirar contra Luis XVI, sentiram estarem ajudando a implementar a maldição agonizante de Jacques de Molay sobre a linhagem francesa. Quando a cabeça do rei caiu sob a guilhotina, um homem desconhecido é relatado ter saltado para o andaime. Ele molhou sua mão no sangue do manarca, sacudiu-a sobre a multidão adjacente e gritou: “Jacques de Molay, você está vingado!”
Desde a Revolução Francesa a aura que cerca os Templários não tem diminuído. Ao menos três organizações contemporâneas hoje se denominam Templários, afirmando possuir um pedigree de 1314 e cartas cuja autenticidade nunca tem sido estabelecida. Certas lojas maçonicas tem adotado o grau de Templário, bem como rituais e apelações supostamente descendendo da ordem original. Até o fim do século XIX, uma sinistra Ordem dos Novos Templários foi estabelecida na Alemanha e na Áustria, empregando a suástica como um de seus emblemas. Figuras como H. P. Blavatsky, fundadora da Teosofia, e Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia, falaram de ums esotérica tradição de sabedoria remontando aos Rosacrucianos e aos cátaros e Templários que eram supostamente o repositório de segredos ainda mais antigos. Nos Estados Unidos, adolescentes são admitidos na Sociedade De Molay, sem que até mesmo seus mentores tenham muita noção de onde deriva este nome. Na Bretanha, bem como em outras partes do ocidente, secretos ‘rotary clubs’ se dignificam com o nome Templário e incluem eminentes figuras públicas. Do reino celestial que ele devia conquistar com sua espada, Hugues de Payen deve agora olhar para baixo com uma certa perplexidade irônica sobre os cavaleiros dos últimos dias, carecas, barrigudos e de óculos, que ele criou. E ainda que ele também esteja impressionado pela durabilidade e vitalidade de seu legado. Na França este legado é especialmente poderoso. De fato, os Templários são uma real indústria na França, tanto quanto Glastonbury, as linhas de comunicação ou o Monstro de Loch Ness são na Bretanha.
Em Paris livrarias estão cheias de histórias e narrativas da Ordem, algumas válidas, algumas beirando entusiasticamente ao lunático. Durante aproximadamente o último quarto de século, um número de afirmações extravagantes tem sido avançado em benefíco dos Templários, algumas das quais podem não ser inteiramente sem fundamento. Certo escritores tem creditado a eles, ao menos em grande parte, a construção das catedrais góticas ou ao menos eles terem fornecido um ímpeto de algum tipo para a explosão da energia arquitetonica e o gênio. Outros escritores tem argumentado que a Ordem estabeleceu contacto comercial com as Américas já em 1269, e derivou grande parte de sua riqueza da importada prata mexicana. Tem sido frequentemente avaliado que os Templários possuiam algum tipo de segredo escondendo as origens da cristandade. Tem sido dito que eles eram Gnósticos, que eles eram hereges, que eles eram desertores do Islã. Tem sido declarado que eles obtiveram uma unidade criativa entre sangues, raças e religiões, uma politíca sistemática de fusão entre o pensamento islâmico, cristão e judaico. E seguidamente isto é mantido, como Wolfram von Eschenbach manteve quase oito séculos atrás, que os Templários eram os Guardiões do Santo Gral, seja o que possa ser o Santo Gral. As afirmações frequentemente são ridículas. Ao mesmo tempo, alguns dos segredos se relacionam ao que agora chamamos de esotérico. Gravações simbólicas nos preceptórios Templários, por exemplo, sugerem que alguns oficiais na hierarquia da Ordem eram familiarizados com tais disciplinas como astrologia, alquimia, geometria sagrada e numerologia, bem como, com certeza, astronomia que, nos séculos XII e XIII era inseparável da astrologia e cada porção como esotérica. Mas nem as afirmações extravagantes e nem os resíduos esoterícos foram o que nos intrigou. Ao contrário, nos encontramos fascinados por algo muito mais mundano, muito mais prosaico, a riqueza de contradições, improbabilidades, inconsistências, e aparentes ‘telas de fumaça’ na história aceita. Os segredos esotéricos dos Templários podem bem ter existido. Mas algo mais sobre eles estava sendo escondido tão bem enraizado nas correntes políticas e religiosas da época deles.
Foi a este nível que assumimos a maior parte de nossa investigação. Começamos pelo fim da história, a queda da Ordem e as acusações levantadas contra ela. Muitos livros tem sido escritos explorando e avaliando a possível verdade dessas acusações; e da evidência que nós, como a maioria dos pesquisadores, concluimos ter havido alguma base para elas. Submetidos a interrogatório pela Inquisição, um número de cavaleiros se referiu a algo chamado “Baphomet”; tantos, e em tantos lugares diferentes, para que Baphomet seja a invenção de um único indivíduo ou até mesmo um único preceptório. Ao mesmo tempo, não há indicação de quem ou o que possa ser Baphomet, o que ele ou isso representava, porque ele ou isso devesse ter um significado especial. Pareceria que Baphomet era visto com reverência, uma reverência talvez suprema até a idolatria. Em alguns casos o nome é associado com esculturas demoníacas como gárgulas encontradas em vários preceptórios. Em outras ocasiões Baphomet parece estar associado com uma aparição de uma cabeça barbada. A despeito das afirmações de alguns historiadores, parece claro que Baphomet não era uma corrupção do nome Maomé. Por outro lado, pode ter sido uma corrupção do árabe “abufihamet”, pronunciado entre os mouros espanhóis como “bufihimat”. Isto significa “Pai do Entendimento”, ou “Pai da Sabedoria” e ‘pai’ em árabe também é usado para implicar força. Se esta é de fato a origem de Baphomet, portanto ele se referiria presumidamente a algum princípio sobrenatural ou divino. Mas o que pode ter diferenciado Baphomet de qualquer outro princípio divino ou sobrenatural permanece não esclarecido. Se Baphomet era simplesmente Deus ou Alá, porque os cristãos se preocupariam em recristianiza-lo? E se Baphomet não era Deus ou Alá, quem ou o que era ele? Em qualquer caso, encontramos evidência incontestável da acusação de cerimonias secretas envolvendo uma cabeça de algum tipo.
De fato a existência de uma tal cabeça provou ser um dos temas dominantes correndo pelos registros da Inquisição. Como com Baphomet, contudo, o significado da cabeça permanece obscuro. Possa talvez pertencer a alquimia. No processo alquímico há uma fase chamada ‘Caput Mortuum’ ou ‘Cabeça Morta’, o ‘Nigredo’, ou “Enegrecido” que era dito ocorrer antes da precipitação da Pedra Filosofal. Segundo outras narrativas, contudo, a cabeça era aquela de Hugues de Payen, o fundador da Ordem e primeiro Grão Mestre; e é sugestivo que o escudo de Hugues consistisse em três cabeças negras em um campo de ouro. A cabeça pode também estar ligada ao famoso Sudário de Turim, que parece ter estado sob a possessão dos Templários entre 1204 e 1307, e o qual, se dobrado, teria parecido como nada mais que uma cabeça. De fato, em um preceptório Templário de Templecombe em Somerset foi encontrada uma reprodução de uma cabeça com barbas com surpreendente semelhança ao Sudário de Turim. Ao mesmo tempo, uma especulação recente tem ligado a cabeça, ao menos por tentativa, com a cabeça cortada de João Batista; e certos escritores tem sugerido que os Templários foram ‘infectados’ pela heresia Joanita ou Mandeana que denunciou Jesus como ‘um falso profeta’ e reconheceu João como o verdadeiro Messias. De fato no curso de suas atividades no Oriente Médio os Templários indubitavelmente estabeleceram contacto com as seitas Joanitas, e a possibilidade de tendências Joanitas na Ordem não é improvável. Mas não se pode dizer que tais tendências foram obtidas pela Ordem como um todo, nem que elas eram questão de política oficial. Durante os interrogatórios que seguiram as prisões em 1307, uma cabeça também figurou em outras duas conexões. Segundo os registros da Inquisição, entre os bens confiscados do preceptório de Paris uma relíquia sob a forma de uma cabeça de mulher foi encontrada. Ela era alada no topo e continha o que pareciam terem sido relíquias de um tipo peculiar. Ela é descrita como se segue: uma grande cabeça de prata dourada, a mais bela, e constituindo uma imagem de uma mulher. Dentro havia dois ossos da cabeça envolvidos em um pano de linho branco, com outro pano vermelho ao seu redor. Um rótulo foi anexado, no qual foi escrito a legenda CAPUT LVIIIm.
Os ossos dentro eram de uma mulher pequena. Uma relíquia curiosa, especialmente para uma rigida e monástica instituição militar como os Templários. Ainda que um cavaleiro sob interogatório, quando confrontado com esta cabeça feminina, declarou que ela não tinha qualquer relação com a cabeça do homem barbado usada nos rituais da Ordem. Caput LVIII – cabeça 58m permanece um enigma surprendente. Mas vale a pela notar que ‘m’ pode afinal não ter sido um ‘m’, mas U, o símbolo astrológico para Virgem.
As figuras das cabeças aparecem novamente em uma outra história misteriosa tradicionalmente ligada aos Templários. Vale citar uma de suas várias variantes: uma grande senhora de Maraclea foi amada por um Templário, um Senhor de Sidon; mas ela morreu em sua juventude, e na noite de seu enterro, este amante perverso invadiu sua tumba, escavou seu corpo e o violou. Então uma voz do vazio ordenou que ele voltasse no tempo de nove meses para encontrar um filho. Ele obedeceu ao comando e no tempo indicado ele abriu a tumba novamente e encontrou uma cabeça sobre os ossos da pernas do esqueleto [cranio e ossos cruzados]. A mesma voz ordenou que ele guardasse isso bem, porque isso lhe daria todas as boas coisas, e então ele levou tudo isso embora com ele. Isso se tornou seu gênio protetor, e ele foi capaz de derrotar seus inimigos ao meramente mostrar a eles a cabeça mágica. No curso devido, isso passou para a posse da Ordem. Esta narrativa horrenda pode ser traçada ao menos até aquela do Mapa Walter, escrito no final do século XII. Mas nem ele ou outro escritor, que reconta a mesma história quase um século mais tarde, especifica que este estrupador necrófilo era um Templário. Não obstante, por 1307 a história tinha se tornado estreitamente associada com a Ordem. Ela é mencionada repetidamente nos registros da Inquisição, e ao menos dois cavaleiros sob interrogatório confessaram sua familiaridade com ela. Nas narrativas subsequentes, como uma citada acima, o próprio estuprador é identificado como um Templário, e ele permanece assim ns versões preservadas pela Livre Maçonaria que adotou o cranio e os ossos cruzados, e frequentemente os empregou como um aparelho nas pedras de tumbas. Em parte a lenda pode ser vista quase como um grotesco disfarce da Imaculada Conceição. Em parte pareceria ser uma narrativa simbólica destorcida de algum rito iniciático, algum ritual envolvendo uma morte figurativa e ressureição. Um cronista cita o nome da mulher na história como Yse, que muito claramente derivaria de Isis. E certamente a lenda evoca e ecoa dos mistérios associados a Isis, bem como de aqueles associados a Tamuz ou Adonis, cuja cabeça foi atirada no mar, e de Orfeu, cuja cabeça foi atirada no rio da Via Láctea. As propriedades mágicas da cabeça também evocam a cabeça de Bran O Abençoado na mitologia celta e no Mabinogion. E este é o caldeirão místico de Bran que numerosos escritores tem tentado identificar como o precursor pagão do Santo Gral. Seja qual for a importância atribuida ao ‘culto da cabeça’, a Inquisição claramente acreditou que ele fosse importante. Em uma lista de acusações retiradas de 12 de agosto de 1308, há o seguinte: Item, que em cada província eles tinham ídolos, nomeadamante cabeças… Item, que eles adoravam estes ídolos… Item, que eles disseram que a cabeça podia salva-los. Item, que ela podia faze-los ricos… Item, que ela fez as três flores. Item, que ela fez a terrra germinar. Item, que eles cercavam ou tocavam cada cabeça dos ídolos supramencionados com pequenas cordas, que eles vestiam ao redor deles próprios perto da camisa ou da carne. A corda mencionada no último item é reminiscente dos Cátaros, que também eram alegados terem usado uma corda sagrada de algum tipo. Mas o mais surpreendente na lista é a proposta capacidade da cabeça de fazer riquezas, fazer árvores floridas e trazer fertilidade à terra. Estas propriedades coincidem notavelmente com aquelas atribuidas nos romances ao Santo Gral. De todas as acusações levantadas contra os Templários, as mais sérias eram de blasfemia e heresia de pisar, negar e cuspir na cruz. Não está precisamente claro o que ritual alegado pretendia significar – o que, em outras palavras, os Templários estavam realmente repudiando. Eles estavam repudiando Cristo? Ou eles estavam simplesmente repudiando a Crucificação? E seja o que for que eles repudiavam, o que exatamente eles enalteciam com esta posição?
Ninguém tem respondido satisfatoriamente a estas perguntas, mas parece claro que o repúdio de algum tipo ocorreu, e era um princípio integral da Ordem. Um cavaleiro, por exemplo, testemunhou que em sua iniciação na Ordem, foi dito a ele “Você crê erradamente, porque ele [o Cristo] é de fato um falso profeta. Acredite apenas em Deus no Céu e não nele.’ Um outro Templário declarou que foi dito a ele, ‘Não acredite que o homem chamado Jesus que os judeus crucificaram no Outremer é Deus e que ele pode salva-lo”. Um terceiro cavaleiro similarmente afirmou que ele foi instruido a não acreditar em Cristo, um falso profeta, mas apenas no Deus Superior. Então foi mostrado a ele um crucifixo e dito : “Não coloque muita fé nisso, porque isso é jovem demais”. Tais narrativas são frequentes e bastante consistentes para dar credencial a acusação. Eles eram também relativamente brandas; e se a Inquisição desejasse juntar evidência, ele poderia ter devisado algo muito mais dramático, mais incriminador, mais prejudicial. Então parece haver pouca dúvida que a atitude dos Templários em relação a Jesus não seguia a ortodoxia católica, mas é incerto precisamente qual era a atitude da Ordem. Em qualquer caso, há evidência que o ritual atribuido aos Templários de pisar e cuspir na cruz estava em vigor um século antes de 1307. Seu contexto é confuso, mas ele é mencionado em ligação com a Sexta Cruzada, que ocorreu em 1249.
O lado Oculto dos Cavaleiros Templários
Se o fim dos Cavaleiros Templários foi repleto de embaraçosos enigmas, a fundação e história inicial da Ordem nos pareceu ser até mesmo mais assim. Estávamos já pragueados por um número de inconsistências e improbabilidades. Nove cavaleiros, nove pobre cavaleiros apareceram como se de nenhum lugar e entre todos os outros Cruzados enxameando a Terra Santa prontamente tiveram os aposentos do rei entregues a eles! Nove pobre cavaleiros sem admitirem qualquer novo recruta em suas fileiras presumidamente, tudo por eles mesmos, defederam os caminhos da Palestina. E não há registro deles realente fazendo alguma coisa, nem mesmo de Fulk de Chartres, o cronista oficial do rei, que certamente deve ter sabido sobre o mapa. Como, imaginamos, podem as atividades deles, seus movimentos nas terras reais, ter escapado a percepção de Fulk? Parece incrível, ainda que o cronista nada diga. Ninguém diz qualquer coisa. De fato, até Guillaume de Tyre, bons cinquenta anos depois. O que podemos concluir disso? Que os Cavaleiros não estavam engajados no louvável serviço público atribuído a eles? Que ao invés, talvez, eles estivessem envolvidos em uma atividade clandestina, da qual nem mesmo o cronista oficial estava ciente? Ou que o próprio cronista foi amordaçado? Esta última parece ser a explicação mais provável. Aos cavaleiros logo se uniram dois homens nobres mais ilustres, nobres cuja presença não poderia ter sido desapercebida.
Segundo Guillaume de Tyre, a Ordem do Templo foi criada em 1118, originalmente composta por nove cavaleiros e não admitiu novos recrutas por nove anos. Contudo, está claramente em registro, que o Conde de Anjou – pai de Geoffrey Plantagenet, se uniu a Ordem em 1120, apenas dois anos depois de sua fundação. E em 1124 o Conde de Champagne, um dos senhores mais ricos da Europa, o fez igualmente. Se Guillaume de Tyre está correto, não deveria ter havido novos membros até 1127; mas por 1126 os Templários de fato haviam admitido quatro novos membros em suas fileiras. Se Guilhaume está errado, então, em dizer que nenhum membro foi admitido por nove anos depois de sua fundação, sua fundação dataria de 1118, mas no máximo, de 1111 ou 1112. De fato há uma evidência muito persuasiva desta conclusão. Em 1114 o Conde de Champagne estava se preparando para a viagem a Terra Santa. Logo antes de sua partida, ele recebeu uma carta do Bispo de Chartres. Em um ponto, o Bispo escreveu, “Temos ouvido que… antes de partir para Jerusalém você fez um voto de se unir ‘a milícia de Cristo’, que voce deseja se alistar nesta ordem militar evangélica.’ A mílícia de Cristo foi o nome pelo qual os Templários foram originalmente conhecidos, e o nome pelo qual São Bernardo alude a eles. No contexto da carta do Bispo a apelação não pode possivelmente se referir a uma outra instituição. Isto não pode significar, por exemplo, que o Conde de Champagne simplesmente decidiu se tornar um Cruzado, porque o Bispo continua a falar no voto de castidade que sua decisão envolvia. Um tal voto dificilmente teria sido requerido de um Cruzado comum. Da carta do Bispo de Chartres, então, está claro que os Templários já existiam, ou ao menos haviam sido planejados, já em 1114, quantro anos antes da data geralmente aceita; e que tão cedo quanto em 1114 o Conde de Champagne já pretendia se unir as fileiras deles – o que ele eventualmente o fez uma década depois. Um historiador que notou esta carta retirou uma curiosa conclusão que o bispo pode não ter significado o que ele disse. Ele pode não ter se referido aos Templários, argumenta o historiador em questão, porque os Templários não foram criados até quatro anos depois em 1118. Ou talvez o bispo não soubesse o ano de Nosso Senhor no qual ele estava escrevendo? Mas o bispo morreu em 1115,. Como, em 1114 ele podia enganadamente se referir a algo que ainda não existia? Há somente uma resposta possível e muito óbvia a esta pergunta que é que o bispo não estava errado, mas Guillaume de Tyre, bem como todos os historiadores subsequentes que insistem em ver Guilhaume como uma voz impecável de autoridade. Por si só uma data anterior para a fundação da Ordem do Templo, não precisa necessariamente ser suspeito. Mas há outras circunstâncias e coincidências singulares que decididamente são. Ao menos três dos noves cavaleiros fundadores, inclusive Hugues de Payen, parecem ter vindo de regiões adjacentes, terem tido laços familiares, terem conhecido uns aos outros previamente e terem sido vassalos do mesmo senhor. Este senhor era o Conde de Champagne, a quem o Bispo de Chartres doou a terra na qual São Bernardo, patrono dos Templários, construiu a famosa Abadia de Clairvaux; e um dos nove cavaleiros fundadores, Andre de Montbard, era tio de São Bernardo. Em Tryes, sobretudo, a côrte do Conde de Champagne, uma escola influente de estudos cabalísticos e esotéricos tinha florescido desde 1070. No Concílio de Troyes em 1128 os Templários foram oficialmente incorporados. Nos próximos dois anos, Troyes permaneceu um centro estratégico para a Ordem; e até mesmo hoje há uma área amadeirada adjacente chamada de Forte do Templo. E foi de Troyes, côrte do Conde de Champagne, que um dos primeiros romances do Gral foi emitido, muito possivelmente o primeiro, composto por Chretien de Troyes.
Entre esta riqueza de dados, podemos começar a ver uma rede tenue de ligações em um padrão que parece mais do que a mera coincidência. Se um tal padrão existe, certamente apoia a nossa suspeita que os Templários estavam envolvidos em alguma atividade clandestina. Não obstante, podemos apenas especular qual pode ter sido tal atividade. Com base em nossas especulações específicas estava o local específico do domicilio dos cavaleiros na ala do palácio real, o Monte do Templo, tão inexplicavelmente conferida a eles. No ano de 70 o Templo que então estava de pé foi saqueado por legiões romanas sob Tito. Seu tesouro foi saqueado e levado a Roma, então novamente saqueado e levado talvez aos Pirineus. Mas que tal se houvesse algo mais no Templo bem como algo até mesmo mais importante do que o tesouro pilhado pelos Romanos? É certamente possível que os sacerdotes do Templo, confrontados pelo avanço da falange de centuriões, teriamdeixado aos saqueadores o botim que eles esperavam encontrar. E se houvesse algo mais, pode bem estar escondido em algum lugar nas proximidades. Sob o Templo, por exemplo. Entre os Manuscritos do Mar Morto encontrados em QumrAam, há um agora conhecido como como Pergaminho de Cobre. Este pergaminho, decifrado na Universidade de Manchester em 1955-6 faz referências explícitas as grandes quantidades de barras de ouro e prata, vasos sagrados, adicional material não especificado, e um ‘tesouro’ de natureza não determinada. Ele cita vinte e quatro tesouros enterrados sob o próprio Templo. Em meados do século XII uma romaria a Terra Santa, um Johann von Wurzburg, escreveu sobre uma visita aos Estábulos de Salomão. Estes estábulos, situados diretamente sob o próprio Templo, ainda estão visíveis. Eles são suficientemente grandes, relatou Johann, para sustentar dois mil cavalos; e foi nestes estábulos que os Templários estabelecerem suas montarias. Segundo ao menos um historiador, os Templários estavam usando estes estábulos para seus cavalos já em 1124, quando eles ainda eram supostamente apenas nove em número. Parece então que a Ordem principiante, imediatamente depois de sua criação, realizou escavações sob o Templo. Tais escavações podem bem implicar que os cavaleiros estavam ativamente procurando por algo. Se esta suposição é válida, explicaria um número de anomalias – sua instalação no palácio real, por exemplo, e o silêncio do cronista. Msa se eles foram enviados a Palestina, quem os enviou? Em 1104 o Conde de Champagne tinha se encontrado em um conclave com certos nobres de alto escalão, ao menos um dos quais tinha acabado de voltar de Jerusalém. Entre estes presentes ao conclave estavam representantes de certas famílias como Brienne, Joinville e Chaumont que, como descobrimos mais tarde, figuraram importantemente em nossa história. Também presente estava o senhor de ligação de Andre de Montbard, Andre sendo um dos co-fundadores do Templo e tio de São Bernardo. Pouco depois do conclave, o Conde de Champagne partiu para a Terra Santa e permaneceu lá por quatro anos, voltando em 1108. Em 1114 ele fez uma segunda viagem a Palestina, tendando se unir a ‘milícia de Cristo’, então mudou de idéia e voltou a Europa um ano depois. Em sua volta, ele imediatamente doou um pedaço de terra a Ordem Cisterciana, cujo proeminente portavoz era São Bernardo. Neste pedaço de terra São Bernardo construiu sua própria residência e então consolidou a Ordem Cisterciana. Antes de 1112 os Cistericianos estavam perigosamente perto da falência. Então, sob a orientação de São Bernardo, eles passaram por uma surpreendente mudança de fortuna. Dentro dos próximos poucos anos meia duzia de abadias foram criadas. Por 1153 havia mais de trezentas, das quais o próprio São Bernardo fundou sessenta e nove. Este crescimento extraordinário paraleliza diretamente aquele da Ordem do Templo, que estava se expandindo do mesmo modo durante os mesmos anos. E, como temos dito, um dos co-fundadores da Ordem do Templo foi o tio de São Bernardo, Andre de Montbard.
Vale rever esta complicada sequência de eventos. Em 1104 o Conde de Champagne partiu para a Terra Santa depois de se encontrar com certos nobres, um dos quais era ligado a Andre Montbard. Em 1112 o sobrinho de Andre Montbard, São Bernardo, se uniu a Ordem Cisterciana. Em 1114 o Conde de Champagne partiu em uma segunda viagem para a Terra Santa, pretendendo se unir a Ordem do Templo que foi co-fundada pelo seu próprio vassalo com Andre Montbard, e o qual, como atesta a carta do Bispo de Chartres, já existia ou estava em processo de ser criada. Em 1115 o Conde de Champagne voltou a Europa, tendo estado lá por menos de um ano, e doou terra a Abadia de Clairvaux cujo abade era sobrinho de Andre Montbard. Nos anos que se seguiram tanto os Cistercianos quanto os Templários da Ordem de São Bernardo e de Andre Montbard se tornaram imensamente ricos e desfrutavam fases de um crescimento fenomenal. Como ponderamos esta sequência de eventos, nos tornamos crescentemente convencidos que havia algum padrão subjacente e governando tal rede intrincada. Certamente isso não nos parece ser aleatório, nem completamente coincidentes. Ao contrário, nos parece que estamos lidando com os vestígios de algum projeto completo complexo e ambicioso, os detalhes completos do qual tinham sido perdidos na história. Para reconstruir estes detalhes, desenvolvemos uma hipótese tentativa, um cenário, por assim dizer, que possa acomodar os fatos conhecidos. Supomos que algo foi descoberto na Terra Santa, por acidente ou projeto; algo de extrema importância, que levantou o interesse de alguns dos nobres europeus mais influentes. Posteriormente supomos que esta descoberta envolveu, direta ou indiretamente, uma grande parte de potencial riqueza também, talvez, como algo mais, algo que tinha que ser mantido secreto, algo que só poderia ser divulgado a um pequeno número de senhores de alto escalão. Finalmente, supomos que esta descoberta foi relatada e discutida no conclave de 1104. Imediatamente depois o Conde de Champagne partiu para a Terra Santa, talvez para verificar pessoalmente o que ele tinha ouvido, talvez para implementar algum curso de ação para a fundação, por exemplo, do que subsequentemente se tornou a Ordem do Templo. Em 1114, se não antes, os Templários foram estabelecidos com o Conde de Champagne desempenhando algum papel crucial, talvez agindo como espírito guia e patrocinador. Por 1115 o dinheiro já estava fluindo de volta a Europa e para dentro dos cofres dos Cistercianos, que, sob São Bernardo e de sua nova posição de força, endossou e conferiu credibilidade a iniciante Ordem do Templo. Sob Bernardo os Cistercianos atingiram uma ascendência espiritual na Europa. Sob Hugues de Paiens e Andre de Montbard, os Templários atingiram uma ascendência administrativa e militar na Terra Santa que rapidamente se espalhou para a Europa. Por trás do crescimento de ambas as Ordens se esgueirava a presença sombria de tio e sobrinho, bem como a riqueza, influência e patrocínio do Conde de Champagne. Estes três indivíduos constituem um link vital. Eles são como marcadores quebrando a superfície da história, indicando as sombrias configurações de algum projeto elaborado e oculto. Se um tal projeto realmente existiu, ele não pode, com certeza, ser restrito a apenas três homens. Ao contrário, ele deve ter compreendido uma grande dose de cooperação de certas outras pessoas e uma grande parte de meticulosa organização. A organização talvez seja a palavra chave; porque se nossa hipótese está correta, seria pressuposto um grau de organização somando a uma ordem nela própria uma terceira e secreta ordem por trás das Ordens conhecidas e documentadas dos Cistercianos e do Templo. A evidência para a existência uma tal terceira ordem não demorou a chegar. Enquanto isso, nesse meio tempo, devotamos nossa atenção a hipotética ‘descoberta’ na Terra Santa da base especulativa sobre a qual se estabeleceu o nosso cenário. O que pode ter sido encontrado lá? O que podem os Templários, juntamente com São Bernardo e o Conde de Champagne terem sido particularmente conhecedores? No fim da história deles, os Templários mantiveram inviolável o segredo sobre o paradeiro de seu tesouro e a natureza dele. Nem mesmo documentos sobreviveram. Se o tesouro fosse simplesmente barras de ouro e prata e financeira, por exemplo, não teria sido necessário destruir ou esconder todos os registros, todas as regras e todos os arquivos. A implicação é que os Templários tinham algo mais sob sua custódia, algo tão precioso que nem mesmo a tortura arrancaria uma intimação dos lábios deles. A riqueza sozinha não teria causado um segredo tão unanimemente absoluto. Seja o que for que isso tenha a ver com outros assuntos, como a atitude da Ordem em relação a Jesus.
Em 13 de outubro de 1307, todos os Templários pela França foram presos pelos senescais de Felipe O Belo. Mas esta declaração não é bem verdadeira. Os Templários de ao menos um preceptório escorregaram pela lei do Rei, o preceptório de Bezu, adjacente a Rennes-le-Chateau. Como e porque eles escaparam? Para responder esta pergunta, fomos compelidos a investigarmos as atividades da Ordem na vizinhança de Bezu. Estas atividades se provaram serem muitos extensas. De fato, havia uma meia dúzia de preceptórios e outras propriedades na área, o que cobria algumas vinte milhas quadradas. Em 1153 um nobre da região, um nobre com simpatias cátaras se tornou o Quarto Grão Mestre da Ordem do Templo. Seu nome era Bertrand de Blanchefort, e seu lar ancestral estava situado em um pico de montanha a umas poucas milhas de Bezu e de Rennes-le-Chateau. Bertrand de Blanchefort, que presidiu a Ordem de 1153 a 1170 foi provavelmente o mais importante de todos os Grãos Mestres Templários. Antes de seu regime, a hierarquia e a estrutura administrativa da Ordem eram, na melhor das hipóteses, nebulosas. Foi Bertrand que transformou os Cavaleiros Templários, em uma instituição soberbamente eficiente, bem organizada e magnicificamente disciplinada hierárquica que eles então se tornaram. Foi Bertrand que lançou o envolvimento deles na diplomacia de alto nível e na política internacional. Foi Bertrand que criou para eles uma maior esfera de interesse na Europa e particularmente na França. E segundo a evidência que sobrevive, alguns historiadores de Bertrand até mesmo listam o conselheiro dele precedendo como Grão Mestre, que foi Andre Montbard. Dentro de poucos anos da incorporação dos Templários, Bertrand não apenas havia se unido as suas fileiras, mas também conferiu a elas terras nas cercanias de Rennes-le-Chataux e Bezu. E em 1156, sob o regime de Bertrand como Grão Mestre, é dito que a Ordem importou para a área um contingente de mineiros de lingua alemã. Estes trabalhadores eram supostos se submeterem a uma rígida disciplina, virtualmente militar. Eles eram proibidos de confraternizar de qualquer modo com a população local e eram mantidos estritamente segregados da comunidade adjacente.
Um corpo judicial especial, ‘la Judicature des Allemands’, foi até mesmo criado para lidar com as tecnicalidades legais relativas a eles. E a alegada tarefa deles era trabalhar nas minas de ouro dos aclives da montanha em Blanchefort; minas de ouro que tinham sido completamente exauridas pelos romanos quase mil anos antes. Durante o século XVII engenheiros foram comissionados para investigar as perspectivas mineralógicas da área e escreverem relatos detalhados. No curso do relato de um deles, Cesar d’Arcons, discutiu as ruínas que ele havia encontrado, restos da atividade dos trabalhadores alemães. Com base na pesquisa dele, ele declarou que os trabalhadores alemães não parecem terem se engajado em mineração. Então, no que eles estavam engajados? Cesar d’Arcons estava incerto, fundição talvez, derreter algo lá embaixo, construir algo de metal, talvez até mesmo escavar uma cripta subterrânea de algum tipo e criar uma espécie de depositório. Seja qual for a resposta a este enigma, lá tinha havido a presença dos Templários nas vizinhanças de Rennes-le-Chateau desde ao menos meados do século XII. Por 1285 havia um maior preceptório a umas poucas milhas de Bezu, em Campagnesur-Aude. Ainda que perto do fim do século XIII, Pierre de Voisins, senhor de Bezu e Rennes-le-Chateau, tenha convidado um destacamento separado de Templários para a área, um destacamento especial da província Aragonesa de Roussillon. Este novo destacamento se estabeleceu no pico da montanha de Bezu, eregindo um posto de observação e uma capela. Ostensivamente, os Templários de Roussillon tinham sido convidados a Bezu para manterem a segurança da região e proteger a rota de romaria que passa pelo vale para Santiago de Compostela na Espanha. Mas não está claro porque estes cavaleiros extras deveriam ter sido solicitados. Em primeiro lugar eles não podem ter sido muito numerosos e nem suficientes para fazer uma diferença significativa. Em segundo lugar, já havia Templários nas vizinhanças. Finalmente, Pierre de Voisins tinha tropas suas próprias, juntamente com os Templários que já estavam lá, que podiam garantir a segurança das cercanias. Porque, então, os Templários de Roussillon vieram a Bezu? Segundo a tradição local, eles vieram para espionar. E para explorar ou enterrar ou guardar um tesouro de algum tipo. Seja qual for a misteriosa missão deles, eles obviamente desfrutaram de algum tipo de imunidade especial. De todos os Templários da França, eles foram deixados não molestados pelos senescais do Rei Felipe O Belo em 13 de outubro de 1307. Naquele dia fatídico, o comandante do contingente Tempário em Bezu era um Senhor de Goth. E antes de tomar o nome de Clemente V, o arcebispo de Bordeaux, o peão vacilante do Rei Felipe era Bertrand de Goth. Sobretudo, a mãe do novo pontífice era Ida de Blanchefort, da mesma família de Bertrand de Blanchefort. O papa então conhecia algum segredo confiado a custódia de sua família, um segredo que permaneceu na família até o século XVIII, quando o Abade Antoine Bigou, o cura de Rennes-le-Chateau e confessor de Marie de Blanchefort, compôs os pergaminhos encontrados por Sauiere? Se este foi o caso, o papa podia bem ter estendido algum tipo de imunidade ao seu comando parental dos Templários em Bezu. A história dos Templários perto de Rennes-le-Chateau foi claramente tão repleta de enigmas perplexantes quanto a história da Ordem em geral. De fato, há um número de fatores do papel de Bertrand de Blanchefort, por exemplo, que parecerem constituir uma ligação discernível entre os enigmas mais gerais e os localizados. Nesse meio tempo, contudo, fomos confrontados com um conjunto assustador de coincidências numerosas demais para serem mesmo coincidências. Estávamos de fato lidando com um padrão calculado? Se assim o for, a questão óbvia era quem divisou isso, porque padrões tão intrincados não se criam sozinhos. Toda a evidência a nós disponível aponta para o planejamento meticuloso e organização cuidadosa tão crescentemente que suspeitamos deva haver um grupo específico de indivíduos, talvez comprendendo uma ordem de algum tipo, trabalhando assiduamente por trás das cenas. Não temos buscado a confirmação para a existência de tal Ordem. A própria confirmação se empurrou sobre nós. A confirmação de documentos secretos de uma terceira ordem por trás dos Templários e dos Cistercianos pulou ela própria sobre nós. De início, todavia, não pudemos considerar isso seriamente.
Os Enigmas que Compõem a História
A materia parecia tão não confiável, tão vaga e nebulosa como fonte. Até que pudessemos autenticar a veracidade desta fonte, não podiamos acreditar nas afirmações dela. Em 1956 uma série de livros, artigos, panfletos e outros documentos relacionados a Berenger Sauniere e ao enigma de Renes-le-Chateau começou a aparecer na França. Este material tinha constantemente proliferado e agora é volumoso. De fato, ele vem a constituir a base para uma verdadeira ‘indústria’. E sua grande quantidade, bem como o esforço e os recursos envolvidos em produzir e disseminar isso, implicitamente atestam algo de imensa importância, ainda que não explicada. Não surpreendentemente, o caso tem servido para excitar o apetite de inúmeros pesquisadores independentes como nós mesmos, cujos trabalhos tem se acrescentado ao corpo do material disponível. O material original, contudo, parece ter saído de uma única fonte específica. Alguns claramente tem um vestido interesse em ‘promover’ Rennes-le-Chateau, em chamar a atenção pública para a história, em gerar publicidade e investigação posterior. Seja o que mais que isso possa ser, este vestido interesse não parece ser financeiro. Ao contrário, parece ser mais da ordem de propaganda; uma propaganda que estabelece a credibilidade para algo. E seja quem possam ser os indivíduos responsáveis por esta propaganda, eles tem buscado focar os holofotes em certas matérias enquanto mantém-se escrupulosamente nas sombras. Desde 1956 a quantidade de material relevante que tem sido deliberadamente e sistematicamente ‘vazada’, do modo pouco a pouco, fragmento por fragmento. A maioria desses fragmentos propõem uma matéria, implicita ou explicitamente, de alguma fonte ‘privilegiada’ ou ‘interna’. A maioria contém informação adicional, que suplementa o que era conhecido antes e assim contribui para o enigma completo. Nem a importação nem o significado do enigma completo ainda tem sido tornado claro, contudo. Ao invés, cada novo bocado de informação tem feito mais para intensificar do que para resolver o mistério. O resultado tem sido uma rede sempre proliferante de alusões sedutoras, pistas provocativas, referências cruzadas sugestivas e ligações. Ao confrontar a riqueza de dados agora disponível, o leitor bem pode sentir que ele está sendo brincado com, ou sendo engenhosamente e talentosamente levado de conclusão a conclusão por sucessivas cenouras penduradas diante de seu nariz. E sob tudo isso tudo está a constante e pervasiva intimação de um segredo; um segredo monumental de proporções explosivas. O material disseminado desde 1956 tem tomado um número de formas. Parte dele tem aparecido em livros populares, até mesmo best-sellers, mais ou menos sensacionais, mais ou menos cripticamente instigantes. Assim, por exemplo, Gerard de Sede tem produzido uma sequência trabalhos sobre tais aparente tópicos divergentes como os Cátaros, os Templários, a dinastia Merovíngia, a Rosa Cruz, Sauniere e Rennes-le-Chateau. Nestes trabalhos de Sede está frequentemente arqueando, modesto, deliberadamente mistificando e coquetemente evasivo. Seu tom implica constantemente que ele sabe mais do que está dizendo, talvez um instrumento para ocultar que ele não sabe tanto quanto finge saber. Mas seus livros contém bastante detalhes verificáveis para construir uma ligação entre seus temas respectivos. Seja mais o que for que possa se pensar, de Sede efetivamente estabelece que os assuntos diversos a que se dirige se entrelaçam e de alguma forma forma estão interconectados. Por outro lado, não podemos senão suspeitar que o trabalho de de Sede baseia-se pesadamente na informação fornecida por um informante e de fato, de Sede mais ou menos reconhece isso ele próprio. Muito por acidente, sabemos quem era o informante. Em 1971, quando embarcamos em nosso primeiro filme para BBC sobre Rennes-le-Chateau, escrevemos ao publicante de de Sede em Paris para certo material visual. As fotografias que solicitamos foram de acordo postadas para nós. Em cada uma delas, na parte de trás, estava impresso Plantard. Naquele tempo o nome significava pouco para nós. Mas o apêndice de um dos livros de de Sede consistia em uma entrevista com um Pierre Plantard. E subsequentemente obtivemos evidência que Pierre Plantard tinha estado envolvido com certos trabalhos de de Sede. Eventualmente Pierre Plantard começou a emergir como uma das figuras dominantes em nossa investigação.
A informação disseminada desde 1956 não tem sido sempre contida na forma popular e acessível de de Sede. Parte dela tem aparecido em tomos pesados, assustadores e até mesmo pedantes, diametralmente opostos a abordagem jornalística de de Sede. Um de tais trabalhos foi produzido por Rene Descadeillas, antigo Diretor da Biblioteca Municipal de Carcassone. O livro de Descadeillas é estenuosamente anti-sensacional. Devotado a história de Rennes-le-Chateau e suas cercanias, ele contém uma plétora de minúncias sociais e economicas por exemplo, de nascimentos, mortes, casamentos, finanças, impostos e trabalhos públicos entre os anos de 1730 e 1820. No todo, ele não pode possivelmente diferir mais dos livros para o mercado de massa de de Sede que Descadeillas em algum lugar se submete ao fatal criticismo. Além dos livros publicados, incluindo alguns que tem sido publicados particularmente, tem havido um número de artigos em jornais e revistas. Tem havido entrevistas com vários indivíduos que afirmam serem versados em uma ou outra faceta do mistério. Mas a mais importante parte da informação não tem, em sua maior parte, aparecido sob a forma de um livro. A maior parte dela tem emergido em algum lugar em documentos e planfletos não destinados a circulação geral. Muitos destes documentos e planfletos tem sido depositados, em edições impressas limitadas e particulares, na Biblioteca Nacional de Paris. Eles parecem tem sido produzidos muito baratamente. Alguns, de fato, são meras páginas datilografadas, fotolitografia, e reproduzidos em um duplicador de escritório. Até mesmo mais do que marcados trabalhos, este corpo de efemera parece ter sido emitido da mesma fonte. Por meio de anotações cripticas paralelas e notas de rodapé pertencentes a Sauniere, Rennes-le-Chateau, Poussin, a dinastia Merovíngia e outros temas, cada pedaço disso complementa, aumenta e confirma as outras. Na maioria dos casos o efemera é de autoria incerta, aparecendo sob uma variedade de pesudônimos transparentes e até mesmo ‘adoráveis” como Madeleine Blancassal, por exemplo, Nicolas Beaucean, Jean Delaude e Antoine Ermite.
”Madeleine’, com certeza, se refere a Maria Madalena, a Madalena, a quem a Igreja de Rennes-le-Chateau é dedicada e a quem Sauniere consagrou sua Torre, a Tour Magdala. ‘Blancassal’ é formado pelo nome de dois pequenos rios que convergem perto da vila de Rennes-le-Bains, o Blanque e o Sals. Beaucean é uma variação de Beauseante, o oficial grito de batalha e estandarte de batalha dos Cavaleiros Templários. Jean Delaude é Jean de Aude, ou João do Aude, o departamento no qual é situado Rennes-le-Chateau. E Antoine Ermite é Santo Antonio o Eremita cuja estátua adorna a igreja de Rennes-le-Chateau e cujo dia de festa é 17 de janeiro – a data na tumba de Marie de Blanchefort e a data na qual Sauniere sofreu seu ataque cardíaco fatal. A palavra atribuida a Madeleine Blancassal é intitulada “Os Descendentes Merovingios e o Enigma dos Razes Visigodos”. Razes sendo o velho nome para a região de Sauniere. Segundo sua página titulo, este trabalho foi originalmente publicado em alemão e traduzido para o francês por Walter Celse-Nazaire, um outro pseudônimo composto dos Santos Celso e Nazaire, a quem a igreja de Rennes-le-Bains é dedicada. E segundo a página título, o publicante do trabalho foi a Grande Loja Alpina, a suprema loja maçonica da Suiça – o equivalente suiço da Grande Loja da Bretanha ou Grande Oriente na França. Não há indicação como e porque uma moderna loja maçonica deva apresentar tal interesse no mistério que cerca um obscuro cura paroquial francês do século XIX e a história de sua paróquia um milenio e meio atrás. Um de nossos colegas e pesquisador independente afirma pessoalmente ter visto o trabalho nas prateleiras da biblioteca Alpina. E subsequentemente descobrimos que a impressão Alpina apareceu em dois outros planfletos também.
De todos os documentos particularmente publicados depositados na Biblioteca Ncional, o mais importante é uma compilação de papéis intitulados coletivamente “Dossiês Secretos’. Catalogo número 249, esta compilação agora está em microfilme. Até recentemente, contudo, ela compreendiam um pequeno volume não descrito, uma espécie de pasta com capas rígidas que contém uma frouxa semelhança dos itens ostensivamente não relacionados de novos recortes, cartas coladas em folhas, panfletos, inúmeras árvores genealógicas, e estranhas páginas impressas aparentemente extraídas de algum outro trabalho. Periodicamente algumas das páginas individuais seriam removidas. Em tempos diferentes outras páginas seriam recentemente inseridas. Em certas páginas adições e correções algumas vezes seriam feitas em uma minúscula escrita completa. Em uma data posterior, estas páginas seriam substituídas por novas, impressas e incorporando todas as emendas prévias. O groso dos Dossiês, que consiste em árvores genealógicas, é atribuido a um Henri Lobineau, cujo nome aparece na página título. Dois itens adicionais na pasta declaram que Henri Lobineau é ainda um outro pseudônimo derivado talvez de uma rua, a Rue Lobineau, que corre fora de São Suspílcio em Paris e que as genealogias são realmente o trabalho de um homem chamado Leo Schidlof, um historiador austríaco e antiquário que supostamente viveu na Suiça e morreu em 1966. Com base nesta informação, quisemos saber o que pudéssemos sobre Leo Schidlof. Em 1978 conseguimos localizar a filha de Leo Schidlof, que estava vivendo na Inglaterra. Seu pai, ela disse, era de fato austríaco. Ele não era um genealogista, historiador ou antiquário, contudo era um especialista e comerciante de miniaturas, que tinha escrito dois trabalhos sobre o assunto. Em 1948 ele havia se estabelecido em Londres, onde viveu até sua morte em Viena em 1966, o ano e lugar especificado nos Dossiês Secretos. Miss Schidlof veementemente manteve que seu pai nunca tinha tido interesse em genalogias, na dinastia Merovíngia, ou nos misteriosos acontecimentos no sul da França. Ainda que, ela continuou, certas pessoas obviamente acreditassem que ele tivesse. Durante a década de 1960, por exemplo, ele tinha recebido inúmeras cartas e telefonemas de individuos não identificados tanto da Europa quanto dos Estados Unidos, que desejavam se encontrar com ele para discutir assuntos dos quais ele não tinha qualquer conhecimento. Em sua morte em 1966, houve outra barreira de mensagens, a maioria perguntando sobre os papéis dele. Seja qual for o caso no qual o pai de Miss Schifold foi envolvido, parece ter tocado uma corda sensível do governo americano. Ele havia pedido visto de entrada nos Estados Unidos. A aplicação foi recusada com base em uma suspeita espionagem ou alguma outra forma de atividade clandestina. Eventualmente o assunto foi revisto e o visto emitido e Leo Schidlof foi admitido nos Estados Unidos. Isto bem pode ter sido uma típica confusão burocratica. Mas Miss Schidlof parecia suspeitar que ela de alguma forma estava ligada com preocupações arcanas tão perplexantes atribuidas ao seu pai. A historia de Miss Schidlof nos deu uma pausa. A recusa do visto americano pode bem ter sido uma coincidência, porque havia, entre os papéis nos Dossiês secretos, referências que ligavam o nome de Leo Schidlof com algum tipo de espionagem internacional. Neste meio tempo, todavia, um novo panfleto havia aparecido em Paris que, durante os meses que se seguiram, foi confirmado por outras fontes. Segundo este panfleto, o escorregdio Henri Lobineau não era afinal Leo Schidlof, mas um aristocrata francês de linhagem distinta, o Conde Henri de Lenoncourt. A questão da real identidde de Lobineau nÃo era o único enigma associado aos Dossiês Secretos.
Havia também um item que se referia a Maleta de Couro de Leo Schidlof. Esta maleta supostamente continha um número de papéis secretos relacionados a Rennes-le-Chateau entre 1600 e 1800. Pouco depois da morte de Schidlof, a maleta foi dita ter passado para as mãos de um mensageiro, um certo Fakhar ul Islam que, em fevereiro de 1967, estava para se encontrar na Alemanha Oriental com um ‘agente delegado de Genebra’ e confiar a maleta a ele. Antes que a transação pudesse ser efetuada, contudo, Fakhar ul Islam foi relatadamente expulso da Alemanha Oriental e voltou a Paris para aguardar ordens posteriores. Em 20 de fevereiro de 1967 seu corpo foi encontrado nos trilhos da ferrovia em Melun, tendo sido atirado do expresso Paris-Genebra. A maleta supostamente desapareceu. Iremos examinar esta lúrida história tão longe quanto pudermos. Uma serie de artigos nos jornais franceses de 21 de fevereiro confirmam isso. Um corpo decapitado tinha sido de fato encontrado nos trilhos em Melun. Ele foi identificado como um jovem paquistanês chamado Fakhar ul Islam. Por razões que permanecem oscuras, o homem morto foi expulso da Alemanha Oriental e estava viajando de Paris para Genebra engajado, assim parecia, em algum tipo de espionagem. Segundo os relatos dos jornais, as autoridades suspeitavam de um delito, e o caso estava sendo investigado pelo DST [Diretorio de Vigilância Territorial, ou Contra-espionagem]. Por outro lado, os jornais não fizeram menção a Leo Schidlof, uma maleta de couro ou qualquer coisa mais que ligasse a ocorrência com o mistério de Rennes-le-Chateau. Como resultado, nos deparamos com um número de perguntas. Por um lado, era possível que a morte de Fakhar ul Islam estivesse ligada a Rennes-le-Chateau que, o item nos Dossiês Secretos de fato dirigiam para uma ‘informação interna’ inacessível aos jornais. Por outro lado, o item nos Dossiês Secretos pode ter sido uma mistificação deliberada e espúria. Precisava-se apenas encontrar qualquer morte suspeita ou inexplicável e atribuir isto, depois do fato, a um de seus próprios cavalos. Mas se este de fato fosse o caso, qual era o propósito do exercício? Porque alguém deliberadamente tentaria criar uma atmosfera de intriga sinistra ao redor de Rennes-le-Chateau? O que poderia ser ganho pela criação de uma tal atmosfera? E quem poderia lucrar com isso? Estas questões nos deixaram a todos perplexos, mas porque a morte de Fakhar ul Islam não foi, aparentemente, uma ocorrência isolada.
Menos de um mês depois um outro trabalho particularmente impresso foi depositado na Biblioteca Nacional. Era era chamdo A Serpente Vermelha, e datado simbolícamente, e muito sigificativamente, de 17 de janeiro. Sua página título o atribuia a três autores: Pierre Feugere, Louis Saint-Maxent e Gaston de Koker. A Serpente Vermelha é um trabalho singular. Ele contém uma genealogia Merovíngia e dois mapas da França nos tempos Merovíngios, junto com um comentário apressado. Ele também contém uma planta de solo de São Suspílcio em Paris, que delineia as capelas dos vários santos da igreja. Mas o grosso do texto consistem em 13 tipos de poemas em prosa de impressiva qualidade literária, muitos deles reminescentes dos trabalhos de e cada um corresponde a um signo do Zodíaco; um zodíaco de 13 signos, com o 13o., Ophiuchus ou Mantenedor da Serpente, inserido entre Escorpião e Sagitário. Narrado na primeira pessoa, os 13 poemas em prosa são um tipo de simbólico: ou romaria alegórica, começando com Aquário e terminando com Capricórnio que, como afirma o texto explicitamente, preside sobre 17 de janeiro. Em um outro texto críptico, há referências familiares – a família Blanchefort, as decorações da igreja em Rennes-le-Chateau, a algumas das inscrições de Sauniere lá, a Poussin e a pintura dos “Pastores da Arcadia” , ao moto na tumba [Et Arcadia Ego]. Em um ponto, há menção a uma ‘serpente vermelha’, citada nos pergaminhos, enrolada através dos séculos em uma explícita alusão, assim parece, a uma linhagem sanguínea ou linhagem. E do signo astrológico de Leão, há um parágrafo enigmático digno de ser citado em sua inteireza: “Dela que eu desejo libertar, lá flutua em minha direção, a fragrância do perfume que impregna o Sepulcro. Antigamente, alguns a chamavam: Isis, rainha de todas as fontes benevolentes. Venham a mim todos que sofrem e estão aflitos e eu lhe darei o repouso. Para outros, ela é Madalena, do celebrado vaso cheio de bálsamo curador. O iniciado sabe o verdadeiro nome dela: NOTRE DAME DES CROSS.” As implicações deste parágrafo são extremamente interessantes. Isis, de fato, é a Deusa Mãe Egípcia, a patrona dos mistérios da ‘Rainha Branca’ em seus aspectos benevolentes, a ‘Rainha Negra’, nos aspectos malévolos. Inúmeros escritores, sobre mitologia, antropologia, psicologia, teologia tem traçado o culto da Mãe Deusa dos tempos pagãos à época cristã. E segundo estes escritores, ela é dita ter sobrevivido sob a Cristandade sob o disfarce da Virgem Maria, a ‘Rainha do Céu’, como a chamava São Bernardo, uma designação aplicada no Velho Testamento a Deusa Mãe Astarte, o equivalente fenício de Isis. Mas segundo o texto da Serpente Vermelha, a Deusa Mãe da Cristandade não parece ser virgem. Ao contrário, ela pareceria ser Madalena a quem a igreja de Rennes-le-Chateau é dedicada e a quem Sauniere consagrou sua torre. Sobretudo, o texto pareceria implicar que Notre Dame não se aplica a Virgem também. Este título ressonante conferido em todas as grandes catedrais da França também pareceriam se referir a Madalena. Mas porque Madalena deve ser reverenciada como ‘Nossa Senhora’ e, ainda mais, como a Deusa Mãe? A maternidade é a última coisa geralmente associada a Madalena. Na popular tradição cristã ela é uma prostituta que acha a redenção ao aprender com Jesus. E ela figura mais importantemente no Quarto Evangelho, onde ela é a primeira pessoa a ver Jesus depois da Ressureição. Em consequência, ela é exaltada como Santa, especialmente na França, onde é dito ela ter trazido o Santo Gral.
Mas entronizar Madalena no lugar gerealmente reservado a Virgem pareceria, no mínimo, ser heretíco. Seja qual for o ponto, os autores da Serpente Vermelha – ou, muito mais, os alegados autores, encontraram um destino tão pavoroso quanto aquele de Fakhar ul Islam. Em 6 de março de 1967, Louis Saint-Maxent e Gaston de Koker foram encontrados enforcados. E no dia seguinte, 7 de março, Pierre Feugere foi encontrado enforcado também. Pode-se imediatamente assumir, com certeza, que estas mortes estão de algum modo ligadas com a composição e divulgação pública da Serpente Vermelha. Como no caso de Fakhar ul Islam, contudo, não se pode descartar uma explicação alternativa. Se alguém quisesse criar uma aura de mistério sinistro, seria muito fácil o fazer. Precisaria apenas folhear os jornais até encontrar uma morte suspeita ou, neste caso, três mortes suspeitas. Depois do fato, pode-se então apensar os nomes dos mortos a um panfleto de própria criação de alguém e depositar este panfleto na Biblioteca Nacional com uma data anterior [17 de janeiro] na página título. Seria virtualmente impossível expor uma tal fraude, que certamente produziria a desejada intimação do delito. Mas porque perpetrar uma tal fraude afinal? Porque alguém desejaria evocar uma aura de violência, assassinato e intriga? Um tal golpe dificilmente deteria os investigadores. Ao contrário, ele posteriormente os atrairia. Se, por outro lado, não estamos lidando com uma fraude, havia ainda um número de pergunts perplexantes. Acreditaríamos, por exemplo, que estes três homens foram vítimas de suicídio ou de assassinato? Suicídio, nas circunstâncias, parece fazer pouco sentido e assasinato não parece fazer muito sentido mais. Pode-se entender três pessoas sendo despachadas para que elas não divulguem certa informação. Mas neste caso a informação já havia sido divulgada, já havia sido depositada na Biblioteca Nacional. Podem os assassinatos se é que eles tenham sido uma forma de punição, ou retribuição? Ou talvez um meio de evitar qulquer indiscrição subsequente? Nenhuma destas explicações é satisfatória. Se alguém está zangado pela revelação de uma certa informação, ou se alguém deseja evitar adicionais revelações, não atrai atenção sobre o assunto ao cometer um trio de lúridos e sensacionais assassinatos a menos que esteja razoavelmente confiante que não haverá um inquérito muito assíduo. Nossas próprias aventuras no curso de nossa investigação foram misericordiosamente menos dramáticas mas igualmente mistificantes. Em nossa pesquisa, por exemplo, temos encontrado repetidas referências ao trabalho de um Antoine Ermite intitulado ‘Um Tesouro Merovíngo em Rennes-le-Chateau’. Tentamos localizar este trabalho e rapidamente o encontramos listado no catálogo da Biblioteca Nacional; mas ele se provou incomumente difícil de se obter. Todo dia, durante uma semana, fomos a biblioteca e preenchemos a ficha de requisição do trabalho. Em cada ocasião a ficha retornou marcada ‘comunique’, indicando que o trabalho estava sendo usado por alguém mais. Isto por sí só não é não usual. Depois de um período de duas semanas, contudo, isso começou a se tornar assim e tão exasperante também, porque não podíamos permanecer em Paris por muito tempo mais. Pedimos a ajuda de um bibliotecário. Ele nos disse que o livro estaria indisponível por três meses – uma situação extremamente não usual e que não podiámos encomendar isto antecipadamente ao seu retorno. Na Inglaterra não muito depois uma amiga nossa anunciou que ela estava indo a Paris para umas férias. Pedimos a ela para tentar obter este trabalho fugidio de Antoine Ermite e ao menos fazer uma anotação do que ele continha.
Na Biblioteca Nacional, ela requisitou o livro. A ficha dela nem ao menos voltou. No dia seguinte, ela tentou novamente e com o mesmo resultado. Quando nós fomos a seguir a Paris, alguns quatro meses depois, fizemos uma outra tentativa. Nossa ficha novamente voltou marcada como ‘comuique’. A este ponto, começamos a sentir que o jogo de certa forma tinha sido exagerado e começamos a jogar o nosso próprio. Fizemos o nosso caminho de volta ao catálogo, adjacente as ‘áreas’ que são, com certeza, inacessíveis ao público. Encontramos um assistente de biblioteca de aparencência gentil e idosa, com o qual assumimos o papel de gaguejantes turistas ingleses com um domínio neandertalense do francês. Pedindo a ajuda dele, explicamos que estavamos procurando um trabalho em particular mas estávamos incapazes de obte-lo, sem dúvida por causa de nosso entendimento imperfeito dos procedimentos da biblioteca. O genial velho cavalheiro concordou em nos ajudar. Nós demos a ele o número de catálogo do trabalho e ele desapareceu na área reservada. Quando ele emergiu, ele se desculpou, dizendo que nada havia que ele pudesse fazer já que o livro havia sido roubado. E o que havia mais, ele acrescentou, um nosso compatriota foi aparentemente o responsável pelo roubo, um homem inglês. Depois de algum cansaço, ele consentiu em nos dar o nome dela. Era aquela nossa amiga! Quando retornarmos a Inglaterra, buscamos a assistência de um serviço de biblioteca em Londres, e eles concordaram em olhar aquele assunto bizarro. Em nosso benefício, a Biblioteca Central Nacional escreveu a Bibliteca Nacional solicitando uma explicação para o que parecia ser uma obstrução deliberada de pesquisa legitima. Nenhuma explicação foi dada posteriormente. Pouco depois, contudo, uma cópia xerox do trabalho de Antoine Ermite foi ao menos despachada para nós - junto com enfáticas instruções que ela devia ser devolvida imediatamente. Isto por si só era extremamente singular, porque as bibliotecas gralmente não solicitam a devolução de cópias xerox. Tais cópias geralmente são vistas como mero desperdício de papel e dispostas de acordo. O trabalho, que finalmente estava em nossas mãos, provou-se ser distintamente desapontador e dificilmente digno do negócio complicado de obte-lo; Como trabalho de Madeleine Blancassal, ele tinha a impressão da Grande Loja Suiça Alpina. Mas não dizia nada de novo. Muito brevemente, ele recapitulava a história do Conde de Razes, de Rennes-le-Chateau e de Sauniere.
Em resumo, ele reafirmava todos os detalhes com os quais a muito tempo estávamos familiarizados. Parece não haver qualquer razão imaginável para alguém te-lo estado usando e mantendo-o incomunicável por uma semana inteira. Nem havia qualquer razão imaginável para te-lo subtraido de nós. Mas o mais enigmático de tudo, o próprio trabalho não era original. Com a exceção de umas poucas palavras alteradas aqui e ali, ele era o texto verbatim [palavra por palavra] recopiado e reimpresso, de um capítulo de uma brochura popular, um beste seller fácil, disponível nas prateleiras por uns poucos francos, sobre tesouros perdidos pelo mundo. Ou Antoine Ermite tinha desavergonhadamente plagiarizado o livro publicado, ou o livro publicado tinha plagiarizado Antoine Ermite. Tais ocorrências são típicas da mistificação que tem atendido o material que, desde 1956, tem estado aparecendo fragmento por fragmento na França. Outros pesquisadores tem encontrado enigmas similares. Nomes ostensivamente plausíveis tem provado serem pseudônimos. Endereços, incluindo endereços de casas publicadoras e organizações, tem provado não existirem. Documentos tem desaparecido, sido alterados, ou inexplicavelmente mal catalogados na Biblioteca Nacional. As vezes alguém é tentado a suspeitar de uma piada prática. Se assim o é, contudo, é uma piada prática em uma escala enorme, envolvendo um conjunto impressionante de recursos financeiros e outros. E seja quem for que possa estar perpetrando uma tal piada pareceria estar levando isso muito seriamente. Neste meio tempo, novo material continua a aparecer, com os temas familiares recorrendo como motivos condutores: Sauniere, Rennes-le-Chateau, Poussin, ‘Os Pastores da Arcadia”, os Cavaleiros Templários, Dagoberto II e a dinastia Merovíngia. Alusões a vinocultura, o desenho de vinhas figura proeminentemente, presumidamente em algum sentido alegórico. A identificação de Henri Lobineau como o Conde de Lenoucourt é um exemplo. Um outro é uma insistência crescente embora inexplicável sobre a importância de Madalena. E duas outras locações tem sido ressaltadas repetidamente, assumindo um status agora aparentemente comensurado com Rennes-le-Chateau. Uma delas é Gisors, uma fortaleza na Normandia que era de importãncia vital e política no auge das Cruzadas. A outra é Stenay, uma vez chamada Satanicum, na borda das Ardenas, a velha capital da dinastia Merovíngia, perto da qual Dagoberto II foi assassinado em 679.
O corpo do material agora disponível não pode ser adequadamente revisto ou discutido nestas páginas. Ele é denso demais, confuso demais, desconectado demais, a sobretudo copioso demais. Mas desta sempre proliferante riqueza de informação, certos pontos chave emergem que constituem a fundação para pesquisa posterior. Eles são apresentados como incontestáveis fatos históricos e podem ser resumidos como se segue:
-1- Há uma ordem secreta por trás dos Cavaleiros Templários que criou os Templários como seu braço administrativo e militar. Esta Ordem, que tem funcionado sob uma variedade de nomes, é mais frequentemente conhecida como Priorado de Sião.
-2- O Priorado de Sião tem sido dirigido por uma sequência de Grão Mestres cujos nomes estão entre os mais ilustres na história e cultura ocidental.
-3- Embora os Cavaleiros Templários tenham sido destruídos e dissolvidos entre 1307 e 1314, o Priorado de Sião permaneceu intocável. Embora ele próprio periodicamente se despedace por luta interna e faccional, ele tem continuado a funcionar por séculos. Agindo nas sombras, por trás das cenas, ele tem orquestrado certos eventos críticos na história ocidental.
-4- O Priorado de Sião existe hoje, e ainda está operacional. Ele é influente e desempenha um papel de alto nível nos assuntos internacionais bem como nos assuntos domésticos de certos países europeus. Em alguma importante extensão ele é responsável pelo corpo de informação diseminada desde 1956.
-5- a meta jurada e o objetivo declarado do Priorado de Sião é a restauração da dinastia Merovingia e da linhagem sanguínea no trono não apenas da França, mas no trono de outras nações européias também.
-6- A restauração da dinastia Merovíngia é sancionada e justificável, tanto legal quanto moralmente. Embora deposta no século VIII, a linhagem sanguinea Merovíngea não se tornou extinta. Ao contrário, ela se perpetuou em uma linhagem direta de Dagoberto II e seu filho, Sigisberto IV. Por meio de alianças dinásticas e intercasamentos, esta linhagem veio a incluir Godfroi de Bouillon, que capturou Jerusalém em 1099, e várias outras famílias nobres e reais, passadas e presentes, Blanchefort, Gisors, Saint Clair (Sinclair na Inglaterra), Montesquieu, Montpezat, Poher, Luisignan, Plantard e Habsburg-Lorraine.
No presente, a linhagem sanguínea Merovíngia desfruta de uma reclamação legítima de seu direito de herança. Aqui, no chamado Priorado de Sião, estava a possível explicação para a referência ao Sião nos pergaminhos encontrados por Berenger Sauniere. Aqui, também, estava uma explicação para a curiosa assinatura ‘PS’ que apareceu em um dos pergaminhos, e na pedra da tumba de Marie de Blanchefort. Não obstante, éramos extremamente céticos, como a maioria das pessoas, sobre “as teorias de conspiração da história”; a a maioria das avaliações acima nos atingiu como irrelevantes, improváveis e/ou absurdas. Mas permaneceu o fato de que certas pessoas as estavam promulgando, e o fazendo muito seriamente; tão seriamente e, há razões para acreditar, de posições de considerável poder. E seja qual for a verdade de tais avaliações, eles estavam claramente ligadas de algum modo com o mistério que cerca Sauniere e Renes-le-Chateau. Nós, portanto, embarcamos em um exame sistemático do que tinhamos começado a chamar, ironicamente, os ‘Documentos do Priorado’ e das avaliações do que eles continham. Nos comportamos submetendo estas avaliações ao cuidadoso exame crítico para determinar se eles podiam ser de qualquer modo substanciados. Fizemos isso com um ceticismo cínico, quase ridículo, completamente convencidos que as afirmações estranhas desapareceriam sob até mesmo uma investigação superficial. Embora nós não pudessemos o saber naquele tempo, estávamos para ficar grandemente surpresos.
As Duas Sociedades Secretas
A Ordem por trás das Cenas
Nós já tinhamos suspeitado da existência de um grupo de indivíduos, senão uma Ordem ‘coerente’, por trás dos Cavaleiros Templários. A afirmação de que o Templo foi criado pelo Priorado de Sião então parecia ligeiramente mais plausível do que as outras avaliações nos ‘Documentos do Priorado’. Foi com esta afirmação, portanto, que começamos o nosso exame. Tão cedo quanto 1962 o Priorado de Sião tinha sido mencionado, brevemente, cripticamente e de passagem em um trabalho de Gerard de Sede. A primeira referência detalhada a isso que encontramos, contudo, foi uma única página nos Dossiês Secretos. No topo desta página há uma citação de Rene Grousset, uma das maiores autoridades sobre as Cruzadas, cuja obra monumental sobre o assunto, publicada na década de 1930, é vista como um trabalho que tem influência sobre o futuro por tais historiadores modernos como Sir Steven Runciman. A citação se refere a Bauduino I, o irmão mais novo de Godfroi de Bouillon, Duque de Lorraine e conquistador da Terra Santa. Com a morte de Godfroi, Bauduino aceitou a coroa oferecida a ele e portanto se tornou o primeiro rei oficial de Jerusalém. Segundo Rene Grousset, lá existiu, por Bauduino I, uma ‘tradição real’. E porque isso foi fundado ‘sobre a rocha de Sião’, esta tradição era igual as dinastias reinantes na Europa, a dinastia Capetiana na França, a dinastia Plantageneta [anglo-normanda] da Inglaterra, as dinastias de Hohenstauffen e Hapsburg que governavam sobre a Alemanha e a velho Sagrado Império Romano. Mas Bauduino e seus descendentes foram eleitos reis, não eram reis pelo sangue. Porque, então, devia Grousset falar de uma ‘tradição real’ que existia através dele? O próprio Grousset não explica. Nem ele explica porque esta tradição, porque ela foi fundada “sobre a rocha de Sião’, devia ser igual as principais dinastias da Europa. Na página nos Dossiês Secretos a citação de Grousset é seguida de uma alusão ao misterioso Priorado de Sião ou Ordem de Sião, como aparentemente isso era chamado naquele tempo. Segundo o texto, a Ordem de Sião foi fundada por Godfroi de Bouillon em 1090, nove anos antes da conquista de Jerusalém embora haja outros “Documentos do Priorado’ que dão a data de fundação em 1099. Segundo o texto, Bauduino, o irmão mais novo de Godfroi, ‘recebeu seu trono’ da Ordem. E segundo o texto, o assento oficial da Ordem, ou sua sede, era uma específica abadia, a Abadia de Notre Dame du Mont de Sion em Jerusalém. Ou talvez exatamente fora de Jerusalém, no Monte Sião, a famosa ‘alta montanha’ exatamente ao sul da cidade. Em consultar todos os trabalhos padrão do século XIX sobre as Cruzadas, não encontramos qualquer menção seja a qual for Ordem de Sião. Portanto tentamos estabelecer se uma tal Ordem existiu realmente e se ela poderia ter tido o poder de conferir tronos. Para fazer isso, fomos obrigados a procurar com afinco entre feixes de antiquados documentos e cartas de direitos. Não buscavamos apenas referências explícitas a Ordem. Tmbém buscávamos algum traço de sua possível influência e atividades. E buscávamos confirmar se ou não existia uma abadia chamada Notre Dame du Mont de Sion. Ao sul de Jerusalém se esgueira a ‘alta montanha’ do Monte Sião. Em 1099, quando Jerusalém caiu sob os Cruzados de Godfroi de Bouillon, lá existia nesta montanha as ruinas de uma velha basílica bizantina, datando supostamente do século IV e chamada ‘A Mãe de todas as Igrejas’ – um titulo mais que sugestivo. Segundo as numerosas cartas de direitos existentes, crônicas e narrativas contemporâneas, uma abadia foi construida no sítio destas ruínas. Ela foi construida sob o expresso comando de Godfroi de Bouillon. Ela deve ter sido um edifício imponente, uma comunidade auto-contida. Segundo um cronista, escrevendo em 1172, ela era extremamente bem fortificada, com seus próprios muros, torres e ameias. E esta estrutura foi chamada Abadia de Notre Dame du Mont de Sion. Alguém, obviamente tinha que ocupar este território. Pode eles terem sido uma ‘Ordem’ autônoma, tomando seu nome do próprio sítio? Podem os ocupantes da Abadia de fato terem sido a Ordem de Sião? Não era irrazoável assim o assumir. Os cavaleiros e monges que ocuparam a Igreja do Santo Sepulcro, também instalada por Godfroi, foram formados em uma ordem oficial e devidamente constituida, a Ordem do Santo Sepulcro. O mesmo princípio pode muito bem ter sido seguido pelos ocupantes da Abadia de Monte Sião, e isso pareceria ter sido assim. Sendo o principal especialista do século XIX sobre o assunto, a abadia era habitada por um capítulo de canons agostinianos, encarregados de servirem os santuários sob a direção de um Abade. A comunidade assumiu o duplo nome de ‘Sainte-Marie du Mont Syon et du Saint-Esprit’
Um outro historiador, ecrevendo em 1698, é ainda mais explícito: “Havia em Jerusalém durante as Cruzadas… cavaleiros anexados a Abadia de Notre Dame de Sion que receberam o nome de “Cavaleiros da Ordem de Notre Dame de Sião”. Se isto não for confirmação suficiente, também descobrimos documentos do período original – apresentando o selo e a assinatura de um ou outro prior de Notre Dame de Sião. Há por exemplo uma carta de direitos, assinada por um Prior Arnaldus e datada de 19 de julho de 1116. Em uma outra carta de direitos, datada de 2 de maio de 1125, o nome de Arnaldus aparece em conjunção com aquele de Hugues de Paiens, o primeiro Grão Mestre do Templo. Até onde se tem provado válidos os ‘Documentos do Priorado’ podemos avaliar que uma Ordem de Sião existiu pela virada do século XII. Se a Ordem foi ou não formada anteriormente, contudo, premaneceu uma questão em aberto. Não há consistência sobre o que vem primeiro, uma ordem ou as terras na qual ele é hospedada. Os Cistercianos, por exemplo, tomaram seu nome de um lugar específico, Citeaux. Por outro lado, os Franciscanos e Beneditinos, para citar apenas dois exemplos, tomaram seus nomes de indivíduos que são anteriores a qualquer abrigo específico. O máximo que podemos dizer, portanto, é que uma abadia existia por 1100 e abrigava uma ordem do mesmo nome, que pode ter sido formada anteriormente. Os ‘Documentos do Priorado’ implicam que isso era, e há alguma evidência a sugerir, embora vaga e obliquamente, este de fato pode ter sido o caso. É sabido que em 1070, 29 anos antes da Primeira Cruzada, um bando específico de monges, da Calabria ao Sul da Itália, chegou nas vizinhanças da Floresta de Ardenas, parte dos domínios de Godfroi de Bouillon.
Segundo Gerard de Sede, este bando de monges era liderado por um indivíduo chamado ‘Ursus’ – um nome que nos ‘Documentos do Priorado’ consistetemente se associa a linhagem sanguínea Merovíngia. Em sua chegada nas Ardenas, os monges calabreses obtiveram o patrocínio de Mathilde de Toscane, Duquesa de Lorreine que era tia de Godfroi de Boillon e, de fato, mãe adotiva. De Mathilde os monges receberam um pedaço de terra em Orval, não longe de Stenay, onde Dagoberto II tinha sido assassinado alguns 500 anos antes. Aqui foi estabelecida uma abadia para abriga-los. Não obstante, eles não permaneceram em Orval por muito tempo. Por 1108 ele haviam desaparecido misteriosamente e nenhum registro sobre o paradeiro deles sobrevive. A tradição diz que eles voltaram a Calabria. Orval, por 1131, tinha se tornado um feudo possuido por São Bernardo. Antes da partida deles de Orval, contudo, os monges calabreses podem ter deixado uma marca crucial na história ocidental. Segundo Gerard de Sede, ao menos, eles incluiam o homem subsequentemente conhecido como Pedro O Eremita. Se isto assim o for, seria extreamente significativo, porque Pedro O Eremita é frequentemente acreditado ser o tutor pessoal de Godfroi de Bouillon. Nem esta é a única afirmação para a fama. Em 1095, junto com o Papa Urbano II, Pedro se tornou conhecido pela cristandade pelo carismático aliado pregando a necessidade de uma guerra santa que reclamaria o Sepulcro de Cristo e a Terra Santa das mãos dos muçulmanos infiéis. Hoje Pedro O Eremita é visto como um dos principais instigadores das Cruzadas. Com base nas pistas divisadas pelos ‘Documentos do Priorado’, começamos a imaginar se podia haver algum tipo de sombria continuidade entre os monges de Orval, Pedro O Eremita e a Ordem de Sião. Certamente pareceria que os monges de Orval não eram apenas uma bando aleatório de devotos religiosos itinerantes. Ao contrário os movimentos deles de chegada coletiva nas Ardenas vindos da Calábria e o seu misterioso desaparecimento em massa atestam algum tipo de coesão, algum tipo de organização e talvez uma base permanente em algum lugar. E se Pedro fosse membro deste bando de monges, seus pregação de uma Cruzada pode ter sido uma manifestação não de claro fanatismo, mas de política calculada. Se ele era o tutor pessoal de Godfroi de Bouillon, sobretudo, pode muito bem ter desempenhado o mesmo papel em convencer seu pupilo em embarcar para a Terra Santa. E quando os monges desapareceram de Orval, eles podem não ter afinal voltado a Calabria. Eles podem ter se estabelecido em Jerusalém, talvez na Abadia de Notre Dame de Sião.
Isto, de fato, é uma hipótese especulativa, sem qualquer confirmação documental. Novamente, contudo, encontramos fragmentos de evidência circunstancial que apoie isso. Quando Godfroi de Bouillon embarcou para a Terra Santa, ele é sabido ter sido acompanhado por uma entourage de figuras anônimas que agiam como conselheiros e administradores o equivalente, de fato, de uma equipe geral moderna. Mas o de Godfroi não foi o único exército cristão a embarcar para a Palestina. Havia ao menos três outros, cada um comandado por um ilustre e influente potentado ocidental. Se a cruzada se provasse bem sucedida, se Jerusalém caísse e um reino franco fosse estabelecido, qualquer um desses quatro potentados teria sido elegível para ocupar seu trono. E ainda que Godfroi pareça ter sabido de antemão que ele seria selecionado. Só entre os comandantes europeus, ele renunciou aos seus feudos, vendeu todos os seus bens e tornou aparente que a Terra Santa, pela duração de sua vida, seria seu domínio. Em 1099, imediatamente depois da captura de Jerusalém, um grupo de figuras anônimas se reuniu em um conclave secreto. A identidade dessse grupo tem fugido a todo inquérito histórico embora Guillaume de Tyre, escrevendo uns 75 anos depois, relata que o mais importante deles era um certo Bispo da Calabria. Em qualquer caso, o propósito do encontro era claro: eleger um rei de Jerusalém. E a despeito de uma afirmação persuasiva de Raymond, Conde de Toulouse, os eleitores obviamente misteriosos e influentes prontamente ofereceram o trono a Godfroi de Bouillon. Com modéstia não característica, Godfroi declinou o título, aceitando ao invés o de ‘Defensor do Santo Sepulcro’. Em outras palavras, ele era um rei em tudo, menos no nome. E quando ele morreu, em 1100, seu irmão, Bauduino, não hesitou em aceitar o nome também. Pode este misterioso conclave que elegeu o governante Godfroi ter sido os monges fugidios de Orval, incluindo, talvez Pedro O Eremita, que estava na Terra Santa nesse tempo e desfrutava de considerável autoridade? E pode este mesmo conclave ter ocupado a Abadia de Sião? Em resumo, podem estes três grupos ostensivamente distintos de indivídos [os monges de Orval, o conclave que elegeu Godfroi e os ocupantes de Notre Dame de Sião] terem sido um só e mesmo grupo? A possibilidade não pode ser provada, mas também não pode ser descartada. E se isso é verdade, certamente atestaria o poder da Ordem de Sião, um poder que incluia o direito de conferir tronos.
O Mistério que Cerca a Fundação dos Templários
O texto nos Dossiês Secretos continuam para se referir a Ordem do Templo. Os fundadores do Templo são especificamente listados como Hugues de Payen, Bisol de St. Omer e Hugues, o Conde de Champagne, juntos com certos outros membros da Ordem de Sião, Andre de Montbard, Archambaud de Saint-Aignan, Nivard de Montdidier, Gondemar e Rossal’. Já estávamos familiarizados com Hugues de Payens e Andre de Montbard, o tio de São Bernardo. Também estávamos familiarizados com Hugues, o Conde de Champagne que doou a terra da abadia de São Bernardo em Clairvaux, ele próprio se tornando um Templário em 1124 [jurando fidelidade ao seu próprio vassalo] e recebeu do Bispo de Chartres a carta citada acima. Mas embora a ligação do Conde de Champagne com os Templários seja bem conhecida, nós nunca o tinhamos visto anteriormente citado como um de seus fundadores. Nos Dossiês Secretos ele é. E Andre de Montbard, o sombrio tio de São Bernardo, é listado como pertencendo a Ordem de Sião, em outras palavras, a uma outra ordem, que é anterior a Ordem do Templo e desempenha um papel fundamental na criação do Templo. Nem isso é tudo. O texto nos Dossiês Secretos afirma que em março de 1117, Bauduino I, ‘que possuia o trono de Sião’, foi obrigado a negociar a constituição da Ordem do Templo no sítio de Saint Leonard de Acre. Nossa própria pesquisa revelou que Saint Leonard de Acre era de fato um dos feudos da Ordem de Sião. Mas estamos incertos porque Bauduino tenha sido ‘obrigado’ a negociar a constituição do Templo. Em francês, o verbo certamente denota um grau de coação ou pressão. E a implicação nos Dossiês Secretos foi que esta pressão foi exercida para manter a Ordem de Sião de quem Bauduino recebeu seu trono. Se foi esse o caso, a Ordem de Sião teria sido a mais influente e poderosa organização; uma organização que não apenas podia conferir tronos, mas também, aparentemente, compelir um rei a cumprir sua ordem.. Se a Ordem de Sião foi de fato a responsável pela eleição de Godfroi de Bouillon, então Bauduino, o irmão mais novo de Godfroi, teria recebido seu trono por influência dela. Como já haviamos descoberto, sobretudo, há evidência incontestável que a Ordem do Templo existiu, ao menos em uma forma embrionária, por uns bons quatro anos antes da sua data de fundação geralmente aceita de 1118.
Em 1117 Bauduino era um homem doente, cuja morte estava patentemente iminente. É portanto possível que os Cavaleiros Templários fossem ativos, embora em uma capacidade ex ofício, muito antes de 1118 como, digamos, o braço militar ou administrativo da Ordem de Sião, hospedada em sua abadia fortificada. E é possível que o rei Bauduino, em seu leito de morte, foi compelido pela doença, pela Ordem de Sião ou por ambas a garantir aos Templários algum status oficial, ao dar a eles uma constituição e torna-la pública. Ao pesquisar os Templários já tínhamos começado a discernir uma rede de conexões complicadas, provocantes e elusivas, os vestígios sombrios talvez de algum projeto ambicioso. Com base nestas conexões, tinhamos formulado uma hipótese temporária. Se nossa hipótese era acurada ou não, não podiamos saber; mas os vestígios de um projeto tinham agora e tornado até mesmo mais aparentes. Reunimos os fragmentos do padrão que se segue:
[ 1 ] – No fim do século XI um misterioso grupo de monges da Calabria aparece nas Ardenas, onde eles são bem recebidos, patrocinados e recebem terra em Orval da tia e mãe adotiva de Godfroi de Bouillon.
[ 2 ] – Um membro desse grupo pode ter sido o tutor pessoal de Godfroi de Bouillon e pode ter co-instigado a Primeira Cruzada
[ 3 ] – Algum tempo antes de 1108 os monges de Orval desacamparam e desapareceram. Embora não haja registro do destino deles, este pode muito bem ter sido Jerusalém. Certo Pedro O Eremita embarcou para Jerusalém; e se ele foi um dos monges de Orval, é provavel que sua irmandade tenha se juntado a ele.
[ 4 ] – Em 1099 Jerusalém cai e é oferecido a Godfroi o trono por um conclave anônimo cujo líder, como os monges de Orval, é de origem calabresa.
[ 5 ] – Uma abadia é criada sob o comando de Godfroi em Monte Sião, que abriga uma Ordem de mesmo nome; uma ordem que compreende indivíduos que ofereceram a ele o trono.
[ 6 ] – Por 1114 os Cavaleiros Templários já estão ativos, talvez como a entourage armada da Ordem de Sião; mas sua constituição não é negociada até 1117, e eles próprios não se tornam públicos até o ano seguinte.
[ 7 ] – Em 1115, São Bernardo, membro da Ordem Cisterciana, então as margens do colapso econômico, emerge como um proeminente portavoz da Cristandade. E os anteriormente destituidos cistercianos rapidamente se tornam uma das instituições mais proeminentes, influentes e ricas na Europa.
[ 8 ] – Em 1131 São Bernardo recebe a Abadia de Orval, vaga alguns anos antes pelos monges da Calabria. Orval então se torna uma casa Cisterciana.
[ 9 ] - Ao mesmo tempo certas figuras obscuras parecem se mover constantemente para dentro e para fora desses eventos, alivanhando uma tapeçaria unida de uma maneira que não está de todo clara. O Conde de Champagne, por exemplo, doa a terra para a Abadia de São Bernardo em Clairvaux, estabelece uma côrte em Troyes, onde subsequentemente são divulgados os romances do Gral e, em 1114, pensa em se unir aos Cavaleiros Templários cujo primeiro Grão Mestre registrado, Hugues de Payens, já era seu vassalo.
[ 10 ] - Andre de Montbard, o tio de São Bernardo, e alegado membro da Ordem de Sião, se une a Hugues de Payens para fundar os Cavaleiros Templários. Logo depois, os dois irmãos de Andre se unem a São Bernardo em Clairvaux.
[ 11 ] – São Bernardo se torna um entusiástico relações públicas exponente para os Templários, contribui para a incorporação oficial deles e para escrita de suas regras – que é essencialmente aquela dos Cistercianos, a própria ordem de Bernardo.
[ 12 ] – Entre aproximadamente 1115 e 1140, tantos Cistercianos quanto Templários começam a prosperar, adquirindo vastas somas de dinheiro e pedaços de terra.
Novamente não podemos senão imaginar se esta multitude de conecções intrincadas foi de fato inteiramente coincidental. Estamos olhando para um número de pessoas essencialmente não conectadas, eventos e fenômenos que apenas ‘aconteceram’, em intervalos, para se entrelaçar e cruzar com outros caminhos? Ou estamos lidando com algo que não foi aleatório ou coincidental afinal? Estavamos lidando com um plano de algum tipo, concebido e engendrado por alguma agência humana? E pode esta agência ter sido a Ordem de Sião? Pode a Ordem de Sião ter realmente ficado por trás de São Bernardo e dos Cavaleiros Templários? E ambos podem ter agido de acordo com alguma política cuidadosamente evoluida?
Luis VII e o Priorado de Sião
Os ‘Documentos do Priorado’ não dão indicações das atividades da Ordem de Sião entre 1118 [a fundação pública dos Templários] e 1152. Por todo esse tempo, pareceria, a Ordem de Sião permaneceu baseada na Terra Santa, na abadia fora de Jerusalém. Então, na volta dele depois da Segunda Cruzada, Luis VII da França é dito ter trazido com ele 95 membros da Ordem. Não há indicação da capacidade na qual eles atendiam ao rei, nem porque ele deva ter estendido sua generosidade a eles. Mas se a Ordem de Sião fosse de fato o poder por trás do Templo, isto constituiria uma explicação já que Luis VII estava pesadamente em dívida com o Templo, tanto em dinheiro quanto em apoio militar. Em qualquer caso, a Ordem de Sião, criada meio século antes por Godfroi de Bouillon, em 1152 estabeleceu ou restabeleceu um pé na França. Segundo o texto, 62 membros da Ordem foram instalados no grande ‘priorado’ de Saint-Samson em Orleans, que o Rei Luis doou a eles. Sete deles foram relatadamente incorporados as fileiras combatentes dos Cavaleiros Templários. E 26 grupos de 13 cada um são ditos terem entrado para o ‘pequeno priorado de Sião’, situado em Saint jean le Blanc nos arredores de Orleans. Ao tentar autenticar estas declarações, subitamente nos encontramos em solo prontamente provável. As cartas de direitos pelas quais Luis VII instalou a Ordem de Sião em Orleans ainda são existentes. Cópias tem sido reproduzidas por um número de fontes, e os originais podem ser vistos nos arquivos municipais de Orleans. Em alguns arquivos há também uma Bula datada de 1178, do Papa Alexandre III, que confirma oficialmente as posses da Ordem de Sião. Estas posses atestam a riqueza da Ordem, seu poder e influência. Elas incluem casas e grandes pedaços de terra na Picardia, na França [inclindo Saint-Samson em Orleans], a Lombardia, na Calábria , Sicília e Espanha, bem como, com certeza, um número de sítios na Terra Santa, incluindo Saint Leonard de Acre. Até a Segunda Guerra Mundial, de fato, havia nos arquivos de Orleans não menos que vinte cartas de direitos especificamente citando a Ordem de Sião. Durante o bombardeio da cidade em 1940 todas, menos três, desapareceram.
O Corte do Elmo em Gizors
Se são para serem acreditados os ‘Documentos do Priorado’, 1188 foi um ano de importância crucial para o Sião e os Cavaleiros Templários. Um ano antes, em 1187, Jerusalém havia sido perdida para os Sarracenos principalmente devido a impetuosidade e inépcia de Gerard de Ridefort, Grão Mestre do Templo. O texto nos ‘Dossiês Secretos’ é cosideravelmente mais severo. Ele explica não apenas a impetuosidade de Gerard ou sua inépcia, mas sua ‘traição’ – uma palavra de fato muito dura. O que constituiu esta traição não é explicado. Mas como resultado dela os ‘iniciados’ de Sião são ditos terem voltado em massa para a França, presumidamente para Orleans. Logicamente esta avaliação é bastante plausível. Quando Jerusalém caiu diante dos Sarracenos, a Abadia de Monte Sião obviamente caiu também. Sem a base deles na Terra Santa, não seria surpreendente se os ocupantes da abadia buscassem refúgio na França, onde uma nova base já existia. Os eventos de 1187, a ‘traição’ de Gerard de Ridefort e a perda de Jerusalém parecem ter precipitado uma ruptura desastrosa entre a Ordem de Sião e a Ordem do Templo. Não está claro precisamente porque isso deva ter ocorrido, mas segundo os ‘Dossiês Secretos’ o ano seguinte testemunhou um decisivo ponto de virada nos assuntos de ambas Ordens. Em 1188 uma separação formal supostamente ocorreu entre as duas instituições. A Ordem de Sião, que tinha criado os Cavaleiros Templários, agora lavava suas mãos de seus celebrados protegidos. O ‘pai’, em outras palavras, ‘oficialmente desconheceu o filho’. Esta ruptura é dito ter sido comemorada por um ritual ou cerimonia de algum tipo. Nos Dossiês Secretos e em outros Documentos do Priorado isso é referido como ‘cortar o elmo’ e alegadamente ocorreu em Gizors em 1188. As narrativas são enfeitadas e obscuras, mas a história e a tradição confirmam que algo extremamente estranho aconteceu em Gizors em 1188 e que envolveu o corte de um elmo. Na terra adjacente a fortaleza havia um campo chamado Campo Sagrado. Segundo cronistas medievais, o sítio havia sido considerado sagrado deste os tempos pré cristãos, e durante o século XII tinha fornecido o assentamento para inúmeros encontros entre os Reis da Inglaterra e da França. No meio do Campo Sagrado ficava um elmo antigo. E em 1188, durante um encontro entre Henrique II da Inglaterra e Felipe II da França, por alguma razão desconhecida, este elmo se tornou objeto de disputa séria e até mesmo sangrenta. Segundo uma narrativa, o elmo fornecia a unica sombra do Campo Sagrado. É dito que ele tinha mais de 800 anos e tão grande quanto nove homens, unindo as mãos podiam mão abraçar seu diâmetro. Sob a sombra desta árvore Henrique II e sua entourage supostamente tomou abrigo, deixando o monarca francês, que chegou mais tarde, sem misericórdia sob a luz do sol. Pelo terceira dia das negociações a tempera francesa tinha se tornado fragilizada pelo calor, insultos foram trocados pelos homens em armas e uma flecha voou das fileiras dos mercenários de Henrique. Isto provocou uma matança em escala completa pelos franceses, que grandemente superavam em número os ingleses. Os últimos buscaram refúgio dentro dos próprios muros de Gizors, enquanto foi dito que os franceses cortaram a árvore em frustração. Felipe II então disparou para Paris declarando que não faria o papel de um lenhador. A história tem a característica simplicidade e encanto medieval , contentando-se com a narrativa superficial que aponta entra as linhas para algo de maior importância e motivações que foram deixadas inexploradas. Por si só, ela quase parece absurda – tão absurda e possivelmente apócrifa como, digamos, as histórias associadas coma fundação da Ordem de Garter. Ainda que haja confirmação da história, se não em seus detalhes específicos, em outras narrativas. Segundo um outro cronista, Felipe parece ter dado a perceber a Henrique que ele pretendia cortar a árvore. Henrique supostamente respondeu ao reforçar o tronco do elmo com bandas de ferro. No dia seguinte os franceses se armaram e formaram uma falange de cinco esquadrões, cada um comandado por um senhor distinto do reino, que avançou sobre o elmo, acompanhado por arqueiros bem como carpinteiros equipados de machados e martelos. é dito ter começado uma luta, na qual Ricardo Coração de Leão, o filho mais velho e herdeiro de Henrique, participou, tentando proteger a árvore perdendo muito sangue no processo. Não obstante, os franceses mantinham o campo no dia seguinte e no fim do dia, a árvore foi cortada. Esta segunda narrativa implica em algo mais do que uma diputa medíocre ou escaramuça menor. Ela implica em um engajamento em escala completa, envolvendo números substanciais e possivelmente baixas substanciais. Ainda que nenhuma biografia de Ricardo faça muito de tal caso, ainda menos que o explore. Novamente, contudo, nos Documentos do Priorado foram confirmados a história registrada e a tradição na extensão, ao menos, de uma curiosa disputa que ocorreu em Gizors em 1188, que envolveu o corte de um elmo. Não há confirmação externa que esse evento foi relacionado de qualquer modo aos Cavaleiros Templários ou a Ordem de Sião. Por outro lado, as narrativas existentes do caso são tão vagas , tão reduzidas, tão incompreensíveis, tão contraditórias para serem aceitas como definitivas. É extremamente provável que os Templários estivesem presentes no incidente já que Ricardo I era frequentemente acompanhado pelos cavaleiros da Ordem, e sobretudo, Gizors, trinta anos antes, tinha sido confiada ao Templo. Dado a evidência existente, é certamente possível, se não provável, que o corte do elmo envolveu algo mais ou alguém mais do que as narrativas que tem sido preservadas para a posteridade implicam. De fato, dado a absoluta estranheza das narrativas sobreviventes, não seria surpreendente se algo mais ou alguma outra coisa estivesse envolvida – algo desprezado, ou talvez nunca tornado público, pela história, algo, em resumo, das narrativas sobreviventes como uma espécie de alegoria, simultaneamente intimando e ocultando um caso de muito maior importância.
Ormus de 1188 em diante
Os documentos do priorado mantém, os Cavaleiros Templários eram autônomos e não mais estavam sob a autoridde da Ordem de Sião, ou agindo como seu braço administrativo e militar. A partir de 1188 os Templários estavam oficialmente livres para buscarem seus próprios objetivos e fins, seguirem seu próprio curso pelo resto do século aproximadamente e até sua amarga destruição em 1307.
E nesse meio tempo, a Ordem de Sião é dita ter passado por uma maior reestruturação administrativa sua própria. Até 1188 a Ordem de Sião e a Ordem do Templo eram ditas terem partilhado do mesmo Grão Mestre. Hugues de Payen e Bertrand de Blanchefort, por exemlo, teriam presidido as duas instituições simultaneamente. Começando em 1188, todavia, depois de ‘ter cortado o elmo’, a Ordem de Sião reportadamente selecionou seu próprio Grão Mestre, que não tinha qualquer ligação com o Templo. O primeiro de tais Grão Mestres, segundo os Documentos do Priorado, foi Jean de Gizors, Em 1188 é dito que a Ordem de Sião alterou seu nome, adotando um que tem sido alegadamente obtido até o presente de Priorado de Sião. E, como um tipo de sub-título, é dito ter adotado o curioso nome de Ormus. Este sub-título foi supostamente usado até 1306 – um ano antes da prisão dos Templários franceses. O símbolo para Ormus era um ‘U’ e envolve um tipo de acróstico ou anagrama que combina um número de palavras chave e símbolos. Ours significa urso em latim, um eco, como subsequentemente se tornou aparente, de Dagoberto II e da dinastia Merovíngia. Ome é o francês para elmo. Or de fato é ouro. e o ‘m’ que forma a estrutura envolvendo as outras letras não é a letra ‘m’, mas o símbolo astrológico de Virgem, significando, na iconografia medieval, Notre Dame. As nossas pesquisas não revelaram qualquer referência em qualquer lugar a uma ordem medieval ou instituição que tivesse o nome Ormus. Neste caso não encontramos substanciação externa para o texto nos Dossiês Secretos, nem até mesmo qualquer evidência circunstancial para argumentar sua veracidade. Por outro lado ‘Ormus’ ocorre em dois outros contextos radicalmente diferentes. Ele figura no pensamento zoroastriano e nos textos gnósticos onde é sinônimo do princípio de luz. E ele aparece novamente entre os pedigrees afirmados pelo final do século XVII da Livre Maçonaria. Segundo os ensinamentos maçonicos, Ormus era o nome de um sábio e místico egípcio, um adepto gnóstico da Alexandria. Ele viveu, supostamente, durante os anos inciais da época cristã. Em 46 ele e seis de seus seguidores foram supostamente convertidos a uma forma de cristianismo por um dos discípulos de Jesus, São Marcos, na maioria das narrativas. Desta conversão é dito ter nascido uma nova seita ou ordem que fundiu os dogmas da cristandade inicial com os ensinamentos de outra escola de mistério até mesmo mais antiga. A nosso conhecimento esta história não pode ser autenticada. Ao mesmo tempo, contudo, é certamente plausível. Durante o século I de nossa era Alexandria era um real leito quente de atividade mística, uma encruzilha na qual as doutrinas judaicas, mitraicas, zoroastrianas, pitagoreanas, herméticas, e neo-platonicas expandiam-se no ar e se combinavam com inumeráveis outras. Professores de todos os tipos concebíveis abundavam. E dificilmente seria surpreendente se um deles adotasse um nome implicando no princípio da luz. Segundo a tradição maçonica, em 46 Ormus é dito ter conferido a sua recentemente constituida ordem de ‘iniciados’ um específico símbolo identificador – uma cruz vermelha ou rosa. Garantidamente, a cruz vermelha foi subsequentemente para encontrar um eco no brazão dos Cavaleiros Templários, mas a importancia dos textos nos Dossiês Secretos, e em outros Documentos do Priorado é inequivocamente clara. Alguém pretendia ver em Ormus as origens da chamada Rosacruz, ou Rosacrucianos. E em 1188 é dito que o Priorado de Sião tem adotado um segundo sub-título, em adição a Ormus. É dito ter sido Ordem da Verdade Rosacruz [Ordre de la RoseCroix Veritas]. A este ponto nos pareceu ser um território muito questionável, e o texto dos Documentos do Priorado começaram a parecer altamente suspeitos. Estavamos familiarizados com as declarações dos modernos Rosacrucianos na Califórnia e outras organizações contemporaneas, que afirmam elas próprias, depois de um fato, um pedigree remotando as névoas da antiguidade que inclue a maioria dos grandes homens do mundo.
Uma Ordem Rosacruz datando de 1188 pareceu igualmente espúria. Como tem demonstrado convincentemente Frances Yates, não há qualquer evidência connhecida de Rosacrucianos [ao menos no nome] antes do início do século XVII ou talvez os últimos anos do século XVI. O mito que cerca a legendária Ordem data de aproximadamente 1605, 1615 e 1616 respectivamente, proclamada a existência de uma fraternidade secreta ou confraternidade iniciados místicos, alegadamente fundada por um Cristão Rosacruz que, foi mantido, nasceu em 1378 e morreu, aos 106 anos, em 1484. Cristão Rosacruz e sua fraternidade secreta são agora geralmente reconhecidos terem sido ficticiamente uma fraude de tipos, divisada para algum propósito que ainda não foi satisfatoriamente explicado, embora não sem repercussões políticas naquele tempo. Sobretudo, o autor de um dos três tratados, o famoso Casamento Alquímico do Cristão Rosacruz, que apareceu em 1616, é agora conhecido. Ele foi Johann Valentin Andrea, um escritor e teólogo alemão vivendo em Wurttemberg, que os neo-platonicos confessaram que ele compôs o Casamento Alquímico como uma ‘troça’, uma ‘piada’ ou talvez uma comédia no sentido da palavra de Dante e Balzac. Há razão para acreditar que Andrea, ou um de seus associados, compôs os outros tratados rosacrucianos também. E esta é a fonte do Roascrucianismo, como ela evoluiu e como alguém pensa nela hoje, pode ser traçada. Se os Documentos do Priorado eram acurados, contudo, teriamos que reconsiderar, e pensar em algo difernte de uma farsa do século XVII. Teriamos que pensar em termos de uma ordem ou sociedade secreta que realmente existiu, uma genuina fraternidade clandestina. Ela não precisava ser inteiramente ou até mesmo primariamente mística. Ela podia ser grandemente política. Mas ela teria existido 425 anos completos antes que seu nome se tornasse público, e uns bons dois séculos antes que seu legendario fundador é ajegadamente ter vivido. Novamente não encontramos evidência substanciante. Certamente a rosa tem sido um símbolo místico desde tempo imemoriais e desfrutou de uma cultura particular durante a Idade Média no romance popular da Rosa de Jean de Meung, por exemplo, e no paraíso de Dante. Ela subsequentemente tornou-se a cruz de São Jorge e, como tal, foi adotada pela Ordem de Garter criada alguns trinta anos depois da queda do Templo. Mas embora rosas e cruzes vermelhas abundem como motivos simbólicos, não há evidencias de uma instituição ou uma ordem, ainda menos de uma sociedade secreta. Por outro lado, Frances Yates mantém que havia sociedades secretas funcionando muito antes do século XVII, ‘rosacrucianas’, e que estas sociedades iniciais eram, de fato, ‘rosacrucianas’ na orientação política e filosófica, se não necessariamente no nome. Assim, em conversa com uma de nossas pesquisadoras, ela descreveu Leonardo da Vinci como um ‘rosacruciano’ usando o termo como uma metáfora para definir seus valores e atitudes. Não apenas isso. Em 1629, quando o interesse ‘rosacruciano’ na Europa estava em seu zênite, um homem chamado Robert Denyau, cura de Gisors, compôs uma história exaustiva de Gizors e da família Gizors. Em seu manuscrito, Denyau afirma explicitamente que a Rosacruz foi fundada por Jean de Gizors em 1188. Em outras palavras, há uma confirmação verbatim do século XVII das afirmações feitas nos Documentos do Priorado. Garantidamente, o manuscrito de Denyau foi composto alguns quatro séculos e meio depois do fato alegado. Mas ele constitui um fragmento extremamente importante de evidência. E o fato de que ele tenha sido emitido de Gizors o torna ainda mais importante. Somos deixados, todavia, sem confirmação, somente com uma possiblidade. Mas em cada aspecto até onde diga respeito aos Documentos do Priorado, eles tem se mostrado atonitamente acurados. Então teria sido muito difícil descarta-los de antemão. Não estamos preparados para aceita-los com uma fé cega e inquestionável. Mas nos sentimos obrigados a reservar o julgamento.
O Priorado de Orleans
Além de suas afirmações mais grandiosas, os Documentos do Priorado ofereceram informação de um tipo muito diferente, minunciosamente assim aparentemente trivial e inconsequente que sua importância nos fugiu. Ao mesmo tempo a imensa importância desta informação argumentou a favor de sua veracidde. Muito simplesmente lá não parecia haver um ponto para inventar ou criar tais detalhes menores. E ainda mais, a autenticidade de alguns desses detalhes pode ser confirmada. Então, por exemplo, Girard, abade do pequeno priorado em Orleans entre 1239 e 1244, é dito ter cedido um pedaço de terra em Acre para os Cavaleiros Teutônicos. Porque isso devesse ser mencionado não está claro, mas isso pode ser definitivamente estabelecido. A real carta de direitos existe, datando de 1239 e tendo a assinatura de Girard. Informação de um tipo similar, embora mais sugestivo, é oferecida sobre um abade chamado Adam, que presidiu sobre o pequeno priorado em Orleans em 1281. Neste ano, segundo os Documentos do Priorado, Adam cedeu um pedaço de terra perto de Orval aos monges que então ocupavam a abadia lá – cistercianos, que tinham se mudado sob a égide de São Bernardo um século e meio antes. Não pudemos encontrar evidência escrita desta particular transação, mas ela nos parece bastante plausível já que há cartas de direitos atestando inumeras outras transações da mesma natureza. O que torna esta interessante, com certeza, é a recorrência de Orval, que tem figurdo anteriormente em nosso inquérito. Sobretudo, o pedaço de terra em questão parece ter sido de especial importância, porque os Documentos do Priorado nos dizem que Adam incorreu na ira da irmandade de Sião por esta doação; tanto que aparentemente ele foi compelido a renunciar a sua posição. O ato de abdicação, segundo os Dossiês Secretos, foi formalmente testemunhado por Thomas de Sainville, o Grão Mestre da Ordem de São Lázaro em 1281 e a sede de São Lázaro era próxima a Orleans onde a abdicação de Adam teria acontecido. Duas proclamações e duas cartas foram de fato assinadas por ele lá, a primeira datada de agosto de 1281 e a segunda de março de 1289.
O Chefe dos Templários,
Segundo os documentos do Priorado, o Priorado de Sião não era, estritamente falando, uma perpetuação ou continuação da Ordem do Templo: ao contrário, o texto ressalta enfaticamente que a separação entre as duas ordens data de ‘cortar o elmo’ em 1188. Aparentemente, contudo, algum tipo de entendimento continuou a existir, e em 1307, Guillaume de Gisors recebeu a cabeça dourada, Caput LVIII Fa da Ordem do Templo. Nossa investigação sobre os Templários já nos havia famiiarizado com esta misteriosa cabeça. Liga-la ao Sião, contudo, e com a aparentemente importante família de Gizors, novamente nos atingiu como duvidosa como se os Documentos do Priorado estivessem se esticando para fazer ligações poderosas e evocativas. E ainda que fosse precisamente a este ponto que encontramos algumas de nossas mais sólidas e intrigantes confirmações. Segundo os registros oficiais da Inquisição: O guardião e administrador dos bens do Templo de Paris, depois das prisões, foi um homem do rei chamado Guillaume Pidoye. Diante dos inquisidores em 11 de maio de 1308, ele declarou que ao tempo da prisão dos Cavaleiros Templários, ele, juntamente com seu colega Guillaume de Gisors e um Raynier Bourdon, tinham sido ordenados a apresentarem a Inquisição todas as figuras de metal ou madeira que encontrassem. Entre os bens do templo eles encontraram uma grande cabeça de prata… a imagem de uma mulher, que Gulhaume, em 11 de maio, apresentou diante da Inquisição. A cabeça carregava um rótulo: CAPUT LVIIIm. Se a cabeça continuava a nos surpreender, o contexto no qual Gulhaume de Gizors apareceu foi igualmente perpexante. Ele é especificamente citado como sendo colega de Guillaume Pidoye, um dos homens do Rei Felipe. Em outras palavras, ele, como Felipe, pareceriam terem sido hostis aos Templários e participado do ataque a eles. Segundo os Documentos do Priorado, contudo, Guilhaume era Grão Mestre do Priorado de Sião naquele tempo. Isto significou que o Priorado endossou a ação de Felipe contra os Templários, talvez até mesmo colaborando nisso? Há certos documentos do Priorado que apontam para que este pode ter sido o caso, que Sião, de algum modo não especificado, autorizou e presidiu a dissolução de seus desgovernados protegidos. Por outro lado, os Documentos do Priorado também implicam queo Sião exercia um tipo de proteção paternal em relação ao menos a certos Templários durante os últimos dias da Ordem. Se isso é verdade, Guilhaume de Gizors pode ter sido um ‘agente duplo’. Ele bem pode ter sido o responsável pelo vazamento dos planos de Felipe, o meio portanto pelo qual os Templários receberam o aviso antecipado ds maquinações do Rei contra eles. Se depois da separação formal em 1188, o Sião de fato continuou a exercer algum controle clandestino sobre os assuntos do Templo, Guillaume de Gisors pode ter sido parcialmente responsável pela cuidadosa destruição dos documentos da Ordem e pelo desaparecimento inexplicável de seu tesouro.
Os Grão Mestres dos Templários
Além da informação fragmentada discutida acima, o texto nos Dossiês Secretos incluem três listas de nomes. A primeira desta é direta o suficiente – ao menos interessante, e ao menos aberta a controvérsia ou dúvida, sendo meramente uma lista de abades que presidiram as terras de Sião na Palestina entre 1152 e 1281. Nossa pesquisa confirmou sua veracidade: ela aparece em outros lugares, independentes dos Dossiês Secretos, e em fontes acessíveis e não impugáveis. As listas nestas fontes concordam com a história verificável, mas muito compreensivo no que elas preenchem certas lacunas. A segunda lista nos Dossiês secretos é uma lista dos Grão Mestres dos Cavaleiros Templários de 1118 até 1190, em outra palavras, da fundação pública do Templo até sua separação de Sião e do ‘cortar o elmo’ em Gizors . De início parecia não haver algo não usual ou extraordinário sobre esta lista. Quando a comparamos com outras listas, contudo aquelas citadas por historiadores reconhecidos escrevendo sobre os Templários, por exemplo certas discrepâncias óbvias rapidamente emergiram.
Segundo virtualmente todas as outras listas conhecidas, houve dez Grão Mestres entre 1118 e 1190. Segundo os Dossiês Secretos, houve apenas oito. Segundo a maioria das outras listas o tio de São Bernardo, Andre de Montbard não era apenas co-fundador da Ordem, mas também seu Grão Mestre entre 1153 e 1156. Segundo os Dossiês Secretos, contudo, Andre de Montbard, o tio de São Bernardo, nunca foi Grão Mestre da Ordem, mas parecia ter continuado funcionando como ele o fez por toda a sua carreira, por trás das cenas. Segundo a maioria das outras listas, Bertrand de Blanchefort aparece como o sexto Grão Mestre da Ordem do Templo, assumindo esta função depois de Andre Montbard, em 1156. Segundo os Dossiês Secretos, Bertrand não é o sexto, mas o quarto na sucessão, se tornando Grão Mestre em 1153. Há outras tais discrepâncias e contradições, e estamos incertos sobre o que fazer com ela ou quão seriamente considera-las. Porque ele discorda daqueles compiladas por historiadores estabelecidos, não iriamos ver a lista nos Dossiês Secretos como errada? Deve ser enfatizado que nenhuma lista oficial ou definitiva dos Grão Mestres do Templo existe. Nada de tal tipo foi preservado para a posteridade. Os próprios registros do Templo foram destruídos ou desapareceram, e a mais antiga compilação conhecida dos Grão Mestres da Ordem data de 1342, trinta anos depois que a própria Ordem foi suprimida e 225 anos depois de sua fundação. Como resultado, os historiadores compilando as listas dos Grão Mestres tem baseado seus achados nos cronistas contemporaneos sobre um homem escrevendo em 1170, por exemplo, que faz uma ligeira alusão a um ou outro indivíduo como Mestre ou Grão Mestre do Templo. Uma evidência adicional pode ser obtida ao examinar os documentos e as cartas de direitos do período, na qual um ou outro oficial Templário anexaria um título ou outro a sua assinatura. Portanto dificilmente é surpreendente que a sequência e a datação deva variar, algumas vezes dramaticamente, de escritor para escritor, narrativa a narrativa. Não obstante, há certos detalhes cruciais como aqueles resumidos acima nos quais os Documentos do Priorado se desviam sigificativamente de todas as outras fontes. Não podemos, entretanto, ignorar tais desvios. Tivemos que determinar, até onde pudemos, se a lista nos Dossiês Secretos era baseada em negligência, ignorância ou ambas; ou, alternativamente, se esta lista era de fato a definitiva, baseada em uma informação ‘interna’, inacessível aos historiadores.
Se Sião criou os Cavaleiros Templários, e se Sião [ou ao menos seus registros] sobrevivem até o presente dia, podemos razoavelmente esperar que ele esteja familiriazado com os detalhes não obteníveis em outros lugares. A maioria das discrepâncias entre a lista nos Dossiês Secretos e aquelas de outras fontes pode ser explicada muito facilmente. A este ponto, não vale a pena explorar cada uma de tais discrepâncias e responsabilizar-se por isso. Mas um único exemplo deve servir para ilustrar como e porque tais discrepâncias possam ocorrer. Além do Grão Mestre, o Templo tinha uma multitude de mestres locais e um Mestre para a Inglaterra, para a Normandia, para a Aquitania, para todos os territórios que compreendiam seus domínios. Haviam também um predominante Mestre Europeu, e, assim pareceria, um mestre marítimo também. Nos documentos e cartas de direitos estes mestres locais ou regionais invariavelmente assinariam “Magister Templi’ – Mestre do Templo. E em muitas ocasiões, o Grão Mestre – por modéstia, descuido, indiferença ou despreocupação descuidada também ele próprio assinaria como nada mais do que ‘Magister Templi’. Em outras palavras, Andre Montbard, Mestre regional de Jerusalém, em uma carta de direitos, teria a mesma designação depois de seu nome de seu Grão Mestre, Bertrand de Blancheford. Portanto não é difícil ver como um historiador, trabalhando com uma ou duas cartas de direitos e não entrecruzando as referências, pode prontalmente interpretar mal o verdadeiro status de Andre na Ordem. Em virtude precisamente deste tipo de erro, muitas listas dos Grão Mestres Templários incluem um homem chamado Everard des Barres. Mas o Grão Mestre, pelas próprias constituições do Templo, tinha que ser eleito por um capítulo geral em Jerusalém e tinham que residir lá. Nossa pesquisa revelou que Everard des Barres foi um mestre regional, eleito e residente na França, que nunca pôs o pé na Terra Santa senão muito mais tarde. Nesta base ele pode ser retirado da lista dos Grão Mestres como de fato ele foi nos Dossiês Secretos. Foi especificamente em tais bons pontos acadêmicos que os ‘Documentos do Priorado’ apresentavam uma acurácia e precisão meticulosa que nós não podiamos imaginar não sendo alcançada depois do fato. Passamos mais de um ano considerando e comparando as várias listas dos Grão Mestres Templários. Consultamos todos os escritores sobre a Ordem, em inglês, francês e alemão, e então examinamos as fontes deles também. Examinamos as cronicas do tempo como estes de Guilhaume de Tyre – e outras narrativas contemporaneas. Consultamos todas as cartas de direitos que pudemos encontrar e obtivemos informação compreensiva sobre todos estas conhecidas serem ainda existentes. Comparamos assinaturas e títulos em numerosas proclamações, éditos, deveres e outros documentos Templários. Como resultado desse inquérito exaustivo, tornou-se aparente que a lista nos Dossiês Secretos era mais acurada do que qualquer outra não apenas sobre a identidade dos Grão Mestres mas sobre as datas de seus respectivos regimes também. As implicações disso eram muito mais amplas. Garantidamente, uma tal lista pode talvez ter sido compilada por um pesquisador extremamente cuidadoso, mas a tarefa teria sido monumental. Nos parece muito mais provável que uma lista de tal acurácia atestasse algum repositório de informação interna ou privilegiada; informação portanto inacessível aos historiadores. Se a nossa conclusão é ou não garantida, fomos confrontados por um fato incontestável de que alguém havia obtido acesso, de algum modo, a uma lista que era muito mais acurada que as outras. E desde que a lista, a despeito de sua divergência das outras mais aceitas, provou-se tão frequentemente estar correta, ela conferiu uma considerável credibilidade aos Documentos do Priorado como um todo. Se os Dossiês Secretos eram demonstravelmente confiáveis neste aspecto crítico, então de certa forma havia menos razão para duvidar deles em outros. Tal reasseguração foi oportuna e necessária. Sem ela, poderiamos muito bem ter descartado a terceira lista nos Dossiês Secretos dos Grão Mestres do Priorado de Sião imediatamente. Desta terceira lista, até mesmo uma olhada superficial, parece absurda.
Os Grão Mestres e A Corrente Subterrânea nos Dossiês Secretos
Os seguintes indivíduos são listados como Grão Mestres sucessivos do Priorado de Sião ou, para usar o termo oficial, ‘Nautonnier’, uma velha palavra francesa que significa ‘navegador’ ou ‘homem do elmo’:
Jean de Gisors 1188-1220
Marie de Saint-Clair 1220-66
Guillaume de Gisors 1266-1307
Edouard de Bar 1307-36
Jeanne de Bar 1336-51
Jean de Saint-Clair 1351-66
Blanche d’Evreux 1366-98
Nicolas Flamel 1398-1418
Rene d’Anjou 1418-80
Iolande de Bar 1480-83
Sandro Filipepi 1483-1510
Leonard de Vinci 1510-19
Connetable de Bourbon 1519-27
Ferdinand de Gonzague 1527-75
Louis de Nevers 1575-95
Robert Fludd 1595-1637
J. Valentin Andrea 1637-54
Robert Boyle 1654-91
Isaac Newton 1691-1727
Charles Radclyffe 1727-46
Charles de Lorraine 1746-80
Maximilian de Lorraine 1780-1801
Charles Nodier 1801-44
Victor Hugo 1844-85
Claude Debussy 1885-1918
Jean Cocteau 1918
Quando primeiramente vimos esta lista, ela imediatamente provocou o nosso ceticismo. Por um lado ela inclui um número de nomes que automaticamene se esperaria encontrar em uma tal lista de nomes de indivíduos famosos associados ao oculto e ao esotérico. Por outro lado, ela inclui um número de indivíduos ilustres e improváveis que, em certos casos, não podemos imaginar presidindo uma sociedade secreta. Ao mesmo tempo, muitos desses nomes são precisamente o tipo que as organizações do século XX teriam frequentemente tentado se apropriar elas próprias, assim estabelecendo uma espécie de pedigree espúrio. Há, por exemplo, listas publicadas pela AMORC, a Rosacruz moderna baseada na Califórnia, que incluem virtualmente cada figura importante na história e cultura ocidental, cujos valores, até mesmo se apenas tangencialmente, aconteceram coincidir com os da própria Ordem. Um entrelaçamento frequentemente casual ou convergência de atitudes é deliberadmente mal interpretada como algo supremo para a ‘afiliação iniciada’. E assim é dito a alguém que Dante, Shakespeare, Goethe e inumeráveis outros eram Rosacrucianos, implicando que eles eram membros que carregavam as cartas que pagavam seus deveres com regulariddae. Nossa atitude inicial em relação a lista acima foi igualmente cínica. Novamente, havia nomes previsíveis – nomes associados ao oculto e ao esotérico. Nicholas Flamel, por exemplo, é talvez o mais famoso e bem documentado dos alquimistas medievais. Robert Fludd, filósofo do século XVII, foi um expoente do pensamento hermético e outros assuntos arcanos. Johann Valentim Andre, contemporâneo alemão de Fludd, compôs, entre outras coisas, alguns dos trabalhos que divulgaram o mito do fabuloso Cristão Rosacruz. E há também nomes como o de Leonardo da Vinci e Sandro Filipepi, que é melhor conhecido como Boticelli. Há nomes de importantes cientistas, como Robert Boyle e Sir Issac Newton. Durante os últimos dois séculos os Grão Mestres do Priorado de Sião são alegados terem incluido tais importantes figuras literárias e culturais como Vitor Hugo, Claude Debussy e Jean Cocteau. Ao incluir tais nomes, a lista nos Dossiês Secretos não podia parecer senão suspeita. Foi quase inconcebível que alguns dos indivíduos citados tivessem presidido uma sociedade secreta e ainda mais, uma sociedade secreta devota ao oculto e a interesses esotéricos. Boyle e Newton, por exemplo, dificilmente são nomes que as pessoas no século XX associem ao oculto e ao esotérico. E embora Hugo, Debussy e Cocteau estivessem imersos em tais assuntos, eles pareceriam ser bem conhecidos demais, pesquisados e documentados demais, para terem exercido o papel de Grão Mestre em uma sociedade secreta. Não, a qualquer nível, sem que alguma palavra sobre isso de certa forma pudesse ter vazado.
Por outro lado os nomes distintos não são os únicos nomes na lista. A maioria dos outros nomes pertencem a nobres europeus de alto escalão, muitos dos quais eram obscuramente não familiarres não apenas ao leitores em geral, mas até mesmo ao historiador profisional. Há Guilhaume de Gizors, por exemplo, que em 1306 é dito ter organizado o Priorado de Sião em uma ‘maçonaria livre hermética’. E há o avô de Guilhaume, Jean de Gizors, que é dito ter sido o primeiro Grão Mestre independente do Priorado de Sião, assumindo sua posição depois de ‘cortar o elmo’ e da separação do Templo em 1188. Não há dúvida de que Jean de Gozors existiu historicamente. Ele nasceu em 1133 e morreu em 1220. Ele é mencionado nas cartas de direitos e foi ao menos o senhor nominal da famosa fortaleza na Normandia onde os encontros tradicionalmente se realizavam entre os reis inglês e francês, como o foi o ‘corte do elmo’. Jean parece ter sido um proprietário de terras extremamente poderoso e rico e até 1193, um vassalo do Rei da Iglaterra. Ele também é conhecido por possuir uma propriedade na Inglaterra em Sussex, e a mansão de Titchfield em Hampshire. Segundo os Dossiês Secretos, ele se encontrou com Thomas a Becket em Gisors em 1169 embora não haja indicação do propósito deste encontro. Fomos capazes de confirmar que Becket esteve de fato em Gizors em 1169 e portanto é provável que ele tivesse algum contrato com o senhor da fortaleza. Mas não pudemos encontrar registro de qualquer encontro real entre os dois homens. Em resumo, Jean de Gizors, fora uns poucos detalhes leves, se provou virtualmente não rastreável. Ele parece não ter deixado qualquer marca, seja o que for, na história, salvo sua existência e seu título. Não pudemos encontrar qualquer indicação de que ele fez que possa ter constituido sua afirmação para a fama, ou teremos garantido sua assunção de Grão Mestre de Sião.
Se a lista dos propostos Grão Mestres de Sião era autêntica, o que, imaginamos, fez Jean para merecer seu lugar nela? E se a lista era uma fabricação de última hora, porque alguém tão obscuro seria incluído afinal? Nos pareceu uma única explicação possível, que realmente não explica muito de fato. Como outros nomes aristocráticos da lista dos Grão Mestres de Sião, Jean de Gizors aparece em complicadas genealogias que figuram em outros lugares dos Documentos do Priorado. Juntamente com outros nobres esquivos, ele aparentemente pertencia a mesma densa floresta de árvores de famílias que ultimamente descendiam, supostamente, da dinastia Merovíngia. Assim parecia evidente para nós que o Priorado de Sião em uma extensão significativa, ao menos, era um assunto doméstico. De algum modo a Ordem pareceu estar intimamente ligada com uma linhagem sanguinea. E foi a sua ligação com esta linhagem sanguinea que talvez fosse a responsável pelos vários nomes intitulados na lista dos Grão Mestres. Da lista citada acima, o Grão Mestrado de Sião tinham recorrentemente mudado entre dois grupos essencialmente distintos de indivíduos. Por um lado havia figuras de estura monumental que pelo esoterismo, as artes ou ciências tem produzido algum impacto na tradição ocidental, história e cultura. Por outro lado, há membros de uma rede de famílias nobres específica e interligada, algumas vezes real. Em algum grau esta curiosa justaposição conferiu plausibilidade a lista. Se alguém meramente quisesse ‘fabricar’ um pedigree, não seria o ponto incluir tantos aristocratas desconhecidos e a muito tempo esquecidos. Não seria o ponto, por exemplo, incluir Charles de Lorreine, o austríaco marechal de campo do século XVIII, cunhado da Imperatriz Maria Tereza que se provou claramente inepto no campo de batalha e foi golpeado em um engajamento após outro por Frederico o Grande, da Prússia. A este respeito, ao menos, o Priorado de Sião pareceria ser modesto e realista. Ele não afirma haver funcionado sob os auspícios de genios qualificados, mestres sobre-humanos, iniciados iluminados, santos, sábios ou imortais. Ao contrário, ele reconhece que seus Grão Mestres são seres humanos falíveis, uma representativa seção cruzada da humanidade – uns poucos genios, uns poucos notáveis e uns poucos espécimens médios, um poucos sem importância e até mesmo uns poucos tolos. Porque, não podemos senão imaginar, deveria uma lista forjada ou fabricada incluir um tal espectro? Se se deseja conceber uma lista de Grão Mestres, porque não tornar todos os nomes nela ilustres? Se alguém deseja ‘fabricar’ um pedrigree que inclua Leonardo, Newton e Vitor Hugo, porque não também incluir Dante, Miguelangelo, Goethe e Tolstoi ao invés de pessoas obscuras como Edouard de Bar e Maximilian de Lorreine? Porque, sobretudo, havia tantas ‘luzes menores’ na lista? Porque um escritor relativamente menor como Charles Nodier, muito mais do que os contemporaneos como Byron ou Pushkin? Porque um aparente ‘excêntrico’ como Cocteau muito mais que homens de tal prestígio internacional como Andre Gide ou Albert Camus? E porque a omissão de indivíduos como Poussin, cuja ligação com o mistério já havia sido estabelecida? Tais questões nos intrigaram, e argumentaram que a lista merecia consideração antes que nós a descartássemos como fraude. Portanto embarcamos em um estudo longo e detalhado dos alegados Grão Mestres e suas biografias, atividades e realizações. Ao realizar este estudo tentávamos, até onde podíamos,submeter cada nome na lista a certas perguntas críticas:
[1] – Houve qualquer contacto pessoal, direto ou indireto, entre cada alegado Grão Mestre, seu predecessor imediato e sucessor imediato?
[2] – Houve qualqer afiliação, por sangue ou outra, entre cada alegado Grão Mestre e as famílias que figuravam nas genealogias dos Documentos do Priorado com qualquer das famílias de suposta descendência Merovíngia, e especialmente com a casa ducal de Lorreine?
[3] – Estava cada um dos alegados Grão Mestres de algum modo ligado a Rennes-le-Chateau, Gozors, Stenay, São Suspílcio ou qualquer outro sítio que tem recorrido no curso de nossa investigação anterior?
[4] – Se Sião se definia como uma Livre Maçonaria Hermética, cada alegado Grão Mestre apresenta uma predisposição em relação ao pensamento hermético ou a um envolvimento com sociedades secetas?
Embora a alegada informação sobre os Grão Mestres antes de 1400 fosse difícil, algumas vezes impossível de se obter, nossas investigações sobre as figuras posteriores mantém alguns resultados e consistência perplexantes. Muitos deles eram associados, de um modo ou outro, com um ou mais sítios que pareciam ser relevantes: Reenes-le-Chateau, Gizors, Stenay ou São Suspílcio. A maioria dos nomes da lista era aliada por sangue a casa de Lorreine ou asssocida a ela de algum modo, Até mesmo Robert Fludd, por exemplo, serviu como tutor para os filhos do Duque de Lorraine. De Nicholas Flamel em diante, cada nome na lista, sem exceção, era impregnado no pensamento hermético, e frequentemente associado com sociedades secretas até mesmo homens que não associariamos prontamente a estas coisas, como Boyle e Newton. E com apenas uma única exceção, cada alegado Grão Mestre teve algum contacto algums vezes por meio de amigos íntimos mútuos, com aqueles que o sucederam. Até onde pudemos determinar, havia apenas uma queda aparente na cadeia. E até mesmo esta parece ter ocorrido ao redor da Revolução Francesa, entre Maximilian de Lorreine e Charles Nodier que não é por qualquer meio conclusiva. No contexto deste capítulo, não é possível discutir cada alegado Grão Mestre em detalhes. Algumas das figuras mais obscuras assumem importância somente contra o fundo de uma dada época, e para explicar esta importância completamente compreenderia longas digressões nos caminhos esquecidos da história. No caso dos nomes mais famosos, seria impossível fazer a eles justiça em umas poucas páginas. O presente capítulo abrigará os desenvolvimentos mais amplos sociais e culturais, nos quais a sucessão dos alegados Grão Mestres desempenhou uma parte coletiva. Foi em tais desenvolvimentos culturais e sociais que nossa pesquisa pareceu manter um traço discernível da mão do Priorado de Sião.
Rene d’Anjou
Embora hoje seja pouco conhecido, Rene d’Anjou – ‘O Bom Rei do Reno’ como ele era conhecido nos anos imediatamente precedentes a Renascença. Nascido em 1408, durante sua vida ele veio a manter um surpreendente conjunto de titulos. Entre os mais importantes estavam o Conde de Bar, o Conde de Provença, o Conde de Piemonte, o Conde de Guise, o Duque de Calábria, o Duque de Anjou, o Duque de Lorreine, Rei da Hungria, Rei de Nápoles e Sicília, Rei de Aragão, Valença, Maiorca e Sardenha – e, talvez, o mais ressonante de todos, Rei de Jerusalém. Este último era, com certeza, puramente titular. Não obstante ele evocava uma continuidade remontando a Godfroi de Bouillon, e foi reconhecido por outros potentados europeus. Uma das filhas de Rene, Marguerite d’Anjou, em 1445 se casou com Henrique VI da Inglaterra e desempenhou um papel importante na Guerra das Rosas. Em suas fases iniciais a carreira de Rene d’Anjou parece ter sido de algum modo obscuro associada aquela de Joana D’Arc. Até onde é conhecido, Joana nasceu na cidade de Domremy, no ducado de Bar, o que a tornava sudida de Rene. Ela primeiramente impressionou a história em 1429, quando ela apareceu na fortaleza de Vaucoleurs, a umas poucas milhas acima de Meuse de Domremy. Se apresentando ao comandante da fortaleza, ela anunciou sua ‘divina missão’ de salvar a França dos invasores ingleses e assegurar que o dolfim, subsequentemente Carlos VII, fosse o rei coroado. Para realizar a missão dela, ele teria que se unir a côrte dele em Chinon, no Loire, longe a sudoeste. Mas ela não solicitou uma passagem para Chonou ao comandante em Vaucoleurs; ela solicitou uma audiência especial com o sogro do duque de Lorreine Rene e tio-avô. Em deferência a solicitação dela, foi garantida a Joana uma audiência com o duque em sua capital em Nancy. Quando ela chegou lá, é sabido que Rene D’Anjou estava presente. E quando o duque de Lorreine perguntou a ela o que ela desejava, ele respondeu explicitamente, nas palavras quem tem constantemente perplexado os historiadores. “Seu filho por lei, um cavalo e alguns bons homens para me levarem por dentro da França”. Naquele tempo e mais tarde, a especulação era prevalescente sobre a natureza da ligação de Rene com Joana. Segundo algumas fontes, provavelmente inacuradas, os dois eram amantes. Mas permanece o fato que eles conheciam um ao outro, e que Rene estava presente quando Joana pela primeira vez embarcou em sua missão. Sobretudo, os cronistas contemporaneos sustentam que quando Joana partiu para a côrte do Dolfim em Chinou, Rene a acompanhou. E não apenas isso. Os mesmos cronistas avaliam que Rene realmente estava presente ao lado dela durante o cerco de Orleans. Nos séculos que se seguiram uma tentativa sistemática parece ter sido feita para expurgar todo traço do possível papel de Rene na vida de Joana. Ainda que os biógrafos posteriores de Rene não possam responder sobre o paradeiro dele ou atividades entre 1429 e 1431, o ápice da carreira de Joana. É geral e tacitamente assumido que ele estava vegetando na corte ducal em Nancy, mas não há evidência que sustente esta avaliação. As circunstâcias argumentam que Rene acompanhou Joana a Chinon. Porque se havia qualquer uma personalidade dominante em Chinon naquele tempo, esta personalidade era Iolanda D’Anjou. Era Iolanda que fornecia ao dolfim febril, de fraca vontade incessantes tranfusões de moral. Foi Iolanda que inexpicavelmente se auto-indicou patrona oficial de Joana. E foi Iolanda que superou a resistência da côrte à garota visionária e obteve a autorização para que ela acompanhasse o exército a Orleans. Foi Iolanda que convenceu o dolfim que Joana de fato podia ser a salvadora que ela afirmava ser. Foi Iolanda que concebeu o casamento do dolfim com a sua própria filha. E Iolanda era a mãe de Rene D’Anjou. Na medida em que estudamos estes detalhes, nos tornamos crescentemente convencidos, como muitos historiadores modernos, que algo está sendo encenado por trás das cenas; algo intrincado, uma intriga de alto nivel, ou projeto audacioso. Quanto mais examinamos isso, mas a carreira metórica de Joana D’Arc começou a sugerir um negócio programado como se alguém, explorando as lendas populares da ‘Virgem de Lorreine’ e jogado engenhosamente com a psicologia de massa, tivesse engendrando e orquestrado a missão da chamada Donzela de Orleans. Isto não pressupôs, com certeza, a existência de uma sociedade secreta. Mas isto mostrou que a existência de uma tal sociedade decididamente fosse mais plausível. E se uma tal sociedade existiu, o homem que a presidia bem pode ter sido Rene D’Anjou.
Rene e o Tema da Arcadia
Se Rene estava associado a Joana D’Arc, sua carreira posterior, em sua maior parte, foi distintamente menos belicosa. Diferente de muitos de seus contemporaneos, Rene era menos um guerreiro que um cortesão. A este respeito ele foi mal colocado em sua própria era; ele era, em resumo, um homem a frente de seu tempo, antecipando os príncipes cultos da Renascença. Uma pessoa extremamente letrada, ele escreveu prolificamente e iluminou seu próprios livros. Ele compôs poesia e alegorias místicas, bem como compêndios de regras de torneio. Ele buscou promover o avanço do conhecimento e a um tempo empregou Cristóvão Colombo. Ele estava familiarizado com a tradição esotérica e sua côrte incluia um astrólogo judeu, cabalista e físico conhecido como Jeam de Saint Remy. Segundo um número de narrativas, Jean Saint-Remy era o avô de Nostradamus, o famoso profeta do século XVI que também figurou em nossa história. Os interesses de Rene incluiam a cavalaria, e os romances arturianos e do Gral. De fato ele parece ter tido uma preocupação particular como Ele a havia obtido, ele afirmou, em Marselha onde Madalena, segundo a tradição, chegou com o Gral. Outros cronistas falam de uma taça na posse de Rene – talvez a mesma que tinha uma inscrição misteriosa gravada na borda: ‘Qui bien beurra Dieu voira. Qui beurra tout dune baleine Voita Dieu et la Madeleine. [ Ele que bebe bem verá Deus. Ele que "saboreia um único gole verá Deus e Madalena] Não seria inacurado ver Rene D’Anjou como um maior ímpeto por trás do fenômeno agora chamado Renascença. Em virtude de suas inúmeras possessões italianas ele passou alguns anos na Itália; e por sua amizade íntima com a regente família Sforza de Milão ele estabeleceu contacto com os Medicis de Florença. Há boas razões para acreditar que foi grandemente a influência de Rene que fez com que Cisimo de Medici embarcasse em uma série de ambiciosos projetos. Projetos destinados a transformar a civilização ocidental. Em 1439, quando Rene estava residindo na Itália, Cosimo de Medici começou a enviar seus agentes por todo o mundo em busca de manuscritos antigos. Então, em 1444, Cosimo fundou a primeira biblioteca pública, a Bibliteca de São Marcos, e assim começou a desafiar o longo monopólio da Igreja sobre o ensino. Por expressa comissão de Cosimo, o corpo de pensamento platonico, neo-platonico, pitagoreano, gnóstico e hermético encontrou seu caminho para a tradução pela primeira vez e se tornou imediatamente acessível. Cosimo também instruiu a Universidade de Florença a começar a ensinar grego, pela primeira vez na Europa por alguns 700 anos. E ele assumiu criar uma academia de estudos pitagoreanos e platonicos. A academia de Cosimo rapidamente gerou uma multitude de instituições similares pela península italiana, que se tornaram bastiões da tradição esotérica ocidental. E delas a alta cultura da Renascença começou a florescer. Rene D’Anjou não apenas contribuiu em alguma medida para a formação destas academias, mas também parece ter conferido sobre elas um de seus favoritos temas simbólicos, aquele da Arcadia. Certamente é na própria carreira de Rene que o motivo da Arcadia parece ter feito sua estréia na cultura ocidental pós cristã. Em 1449, por exemplo, em sua côrte em Tarrascon, Rene preparou uma série de “pas dames’ curiosas amálgamas híbridas de torneio e máscara, que foi chamada de ‘The Pas dAmes of the Shepherdess’. Representada por sua amante naquele tempo, A Pastora era explicitamente uma figura arcadiana, incorporando os atributos românticos e filosóficos. Ela presidiu um torneio no qual os cavaleiros assumiram identidades alegóricas representando valores e idéias conflitantes. O evento foi uma fusão singular do pastoral romance arcadiano com a ostentação da Távola Redonda e os mistérios do Santo Gral. A Arcadia figura em outros lugares nos trabalhos de Rene também. É frequentemente denotada como uma fonte ou pedra de túmulo, ambas sendo associadas com uma corrente subterrânea. Esta corrente é igualmente equiparada ao Rio Alfeu, o rio central na geral geográfica Arcadia na Grécia, que flui subterraneamente e é dito emergir novamente na Fonte de Aretusa na Sicília. Desde a mais remota antiguidade até o Kubla Kan de Coleridge o rio Alfeu tem sido considerado sagrado. Seu próprio nome deriva da mesma raiz grega da palavra ‘alfa’ que significa ‘primeiro’ ou ‘fonte’. Para Rene, o motivo de uma corrente subterrânea parece ter sido extremamente rico nas ressonâncias simbólicas e alegóricas. Entre outras coisas, ele pareceria ligar a tradição esotérica subterrânea do pensamento pitagoriano, gnóstico, cabalístitico e hermético.
Mas ele também pode indicar algo mais do que um corpo geral de ensinamentos, talvez alguma informação factual muito específica de um ‘segredo’ de algum tipo, transmitido de maneira clandestina de geração a geração. E ele pode ligar uma não reconhecida e assim subterrânea linhagem sanguinea. Nas academias italianas a imagem da corrente subterrânea parece ter sido investida com todos os níveis de significado. E ela recorre consistentemente tanto assim, de fato, que as próprias academias tem sido frequentemente rotuladas como Arcadianas. Assim, em 1502, um maior trabalho foi publicado, um longo poema intitulado Arcadia, por Jacopo Sannazaro e a entourage italiana de Rene d’Anjou de alguns anos antes incluia um Jacques Sannazar, provavelmente o pai do poeta. Em 1553 o poema de Sannazaro foi traduzido para o francês. Ele foi dedicado, muito interessantemente, ao Cardeal de Unocourt, que compilou as genealogias nos Documentos do Priorado. Durante o século XVI a Arcadia e a corrente subterrânea se tornaram uma moda proeminentemente cultural. Na Inglaterra eles inspiraram o mais importante trabalho de Sir Philip Sidney, Arcadia, Na Itália eles inspiraram tais figuras ilustres como Torquato lasso cuja peça magistral, Jerusalém Libertada, lida com a captura da Cidade Santa por Godfroi de Bouillon. Pelo século XVII o motivo da Arcadia havia culminado na pintura ‘Os Pastores da Arcadia” de Nicholas Poussin. Quanto mais exploramos o assunto, mais aparente se torna que algo – uma tradição de algum tipo, uma hierarquia de valores ou atitudes, talvez um corpo específico de informação estava constantemente sendo intimado pela corrente subterranea. Esta imagem parece ter assumido proporções obsessivas nas mentes de certas eminentes famílias políticas do período todo do qual, direta ou indiretamente, figuram nas genealogias dos Documentos do Priorado. E as famílias em questão tem transmitido a imagem aos seus protegidos nas artes. De Rene D’Anjou, algo parece ter sido passado aos Medicis, aos Sforzas, aos Estes e aos Gonzagas, os últimos dos quais, segundo os Documentos do Priorado, forneceram ao Sião dois Grão Mestres, Ferrante de Gonzaga e Louis de Gonzaga, Duque de Nevers. Dele isso parece ter encontrado seu caminho nos trabalhos dos mais ilustres pintores e poetas da época, inclindo Boticelli e Leonardo da Vinci.
O Manifesto Rosacruz
Uma disseminação de idéias de certa forma similar ocorreu no século XVII, primeiro na Alemanha e então se espalhando para a Inglaterra. Em 1614 o primeiro dos chamados Manifestos Rosacrucianos apareceu, seguido de um segundo tratado um ano mais tarde. Estes manifestos criaram um furor naquele tempo, provocando fulminações da Igreja e dos Jesuítas, e despertando um apoio freventemente entusiástico das facções liberais na Europa Protestante. Entre os mais eloquentes e influentes expoentes do pensamento rosacruciano estava Robert Fludd, que é listado como o sexto Grão Mestre do Priorado de Sião, presidindo entre 1595 e 1637. Entre outras coisas, os Manisfestos Rosacrucianos promulgavam a história do lendário Cristão Rosacruz. Eles apoiavam a matéria de uma confraternidade secreta, invisível de iniciados na Alemanha e na França. Eles prometiam uma transformação do mundo e do conhecimento humano de acordo com os príncipios esotéricos e herméticos, a corrente subterrânea que tinha fluido de Rene D’Anjou para a Renascença. Uma nova época de liberdade espiritual foi anunciada, uma época na qual o homem podia se libertar de suas antigas algemas, destrancar os domentes ‘segredos da natureza’ e governar o seu próprio destino de acordo com leis harmoniosas, universais e cósmicas. Ao mesmo tempo, os manisfestos eram altamente inflamatoriamente políticos, ferozmente atacando a Igreja Católica e o velho Santo Império Romano. Estes manisfestos agora são acreditados terem sido escritos por um teólogo e sotetérico alemão, Johann Valentin Andrea, listado como Grão Mestre do Priorado de Sião depois de Robert Fludd. Se eles não foram escritos por Andrea, eles certamente foram escritos por um ou mais de seus associados. Em 1616, um terceiro tratado apareceu, O Casamento Alquímico do Cristão Rosacruz. Como os dois trabalhos anteriores, O Casamento Alquimico foi originalmente de autoria anônima; mas o próprio Andrea mais tarde confessou ter composto isso como uma ‘piada’ ou comédia. O Casamento Alquimico é uma alegoria complexa, que subsequentemente influenciou trabalhos tais como Fausto de Goethe. Como tem demonstrado Frances Yates, ele contém inumeráveis ecos do esotérico inglês, John Dee, que também influenciou Robert Fludd. O trabalho de Andrea também evoca ressonâncias dos romances do Gral e dos Cavaleiros Templários. Cristão Rosacruz, por exemplo, é dito usar uma tunica branca com uma cruz vermelha no ombro. No curso da narrativa, uma peça realizou uma alegoria dentro de uma alegoria. Esta peça envolve uma princesa, de linhagem real não específica, cujos domínios por direito tinham sido usurpados pelos mouros e que foi lançada para fora do litoral em um bau de madeira. O resto da peça lida com as vicissitudes dela e seu casamento com um príncipe que a ajudaria a reconquistar sua herança. Nossa pesquisa revelou variados links de segunda e terceira mão entre Andrea e as famílias cujas genealogias figuravam nos Documentos do Priorado. Não descobrimos links diretos ou em primeira mão, contudo, exceto talvez para Frederico, o Eleitor Palatino do Reno. Frederico era sobrinho de um importante líder protestante francês, Henri de la Tour dAuvergne, Visconde de Turenne e Duque de Bouillon, o velho título de Godfroi. Henrique era também associado a família Longueville, que figurou proeminentemente tanto nos Documentos do Priorado quanto em nossa própria pesquisa. E em 1591 ele tinha entrado em grandes problemas ao adquirir o centro de Stenay. Em 1613, Frederico do Palatinado havia se casado com Elizabeth Stuart, filha de James I da Inglaterra, neta da Rainha Mary da Escócia e bisneta de Marie de Guise e Guise era o ramo cadete da casa de Lorreine. Marie de Guise, um século antes, havia se casado com o duque de Longueville e então, com a morte dele, com James V da Escócia. Isto criou uma aliança dinástica entre as casas de Stuart e Lorreine. Em consequência, os Stuarts começaram a figurar nas genealogias dos Documentos do Priorado. E Andrea, bem como outros três alegados Grão Mestres que o seguiram, apresentarm vários graus de interesse na casa real escocesa. Durante este periodo a casa de Lorreine estava, em um grau significativo, em eclipse.
Se Sião fosse uma ordem coerente e ativa naquele tempo, ele pode portanto ter transferido sua fidelidade – ao menos parcial e temporariamente aos decididamente mais influentes Stuarts. Em qualquer caso, Frederico do Palatinado, depois de seu casamento com Elizabeth Stuart, estabeleceu uma côrte aliada de orientação esotérica em sua capital de Heidelberg. Como escreve Frances Yates, umaa cultura estava se formando no Palatinado que veio diretamente da Renascença mas com mais tendências recentes acrescentadas, uma cultura que pode ser definida pelo adjetivo de rosacruciana. O príncipe ao redor do qual estas profundas correntes estavam fazendo rodamoinho era Frederico, o Eleitor Palatino, e seus exponentes estavam esperando por uma expressão politico-religiosa de suas metas… O movimento de Frederico… foi uma tentativa de dar a estas correntes político-religiosas uma expressão, para realizar o ideal da reforma hermética centrada em um príncipe real… Isto… criou uma cultura… um estado ‘rosacruciano’ que a côrte dele centrou em Heidelberg. Em resumo os anônimos rosacrucianos e seus simpatizantes parecem ter investido em Frederico com um sentido de missão, tanto espiritual quando política. E Frederico parece ter aceitado prontamente o papel imposto a ele, juntamente com as esperanças e expectativas que isso compreendia. Então, em 1618, ele aceitou a coroa da Boemia, oferecida a ele pelos nobres rebeldes daquele país. Ao fazer isso, ele incorreu na ira do Papado e do Santo Império Romano e precipitou o caos da Guerra dos Trinta Anos. Dentro de dois anos ele e Elizabeth tinham sido levados ao exílio na Holanda, e Heidelberg foi dominada por tropas católicas. E pelo seguinte quarto de século, a Alemanha se tornou o maior campo de batalha para o conflito mais amargo e mais sangrento e custoso na historia européia antes do conflito do século XX no qual a Igreja quase gerenciou para reimpor a hegemonia que ela havia desfrutado durante a Idade Média. Entre o turbilhão que corria solto ao redor dele, Andrea criou uma rede de sociedades mais ou menos secretas conhecidas como Uniões Cristãs. Segundo o projeto de Andrea, cada sociedade era chefiada por um príncipe anônimo, assistido por doze outros divididos em grupos de três cada um dos quais era para ser um especialista em uma dada esfera de estudo. O propósito original das Uniões Cristãs era preservar o conhecido ameaçado especialmente os mais recentes avanços científicos, muitos dos quais eram considerados pela Igreja como heréticos. Ao mesmo tempo, contudo, as Uniões Cristãs também funcionavam como um refugio para pessoas que fugiam da Inquisição que acompanhava os invasores exércitos católicos, e pretendia desenraizar todos os vestígios do pensamento rosacruciano. Assim inúmeros eruditos, cientistas, filósofos e esotéricos encontraram um paraíso nas instituições de Andrea. Por elas muitos deles eram contrabandeados para a segurança na Inglaterra onde a Maçonaria Livre estava apenas começando a coalescer. Em algum significado importante as Uniões Cristãs de Andrea podem ter contribuido para o organização do sistema maçonico de lojas. Entre os europeus deslocados encontrando seu caminho para a Inglaterra estava um número de associados pessoais de Andrea: Samuel Hartlib, por exemplo; Adam Komensky, mais conhecido como Comenius, com quem Andrea manteve uma corespondência contínua; Theodore Haak, que também era uma amigo pessoal de Elizabeth Stuart e mantinha correspondência com ela; e o Doutor John Wilkins, ex capelão pessoal de Frederico do Palatinado e subsequentemente bispo de Chester. Uma vez na Inglaterra, estes homens se tornaram intimamente associados aos círculos maçonicos. Eles eram íntimos de Robert Morau, por exemplo, cuja iniciação na loja maçonica em 1641 é um dos primeiros registros; com Elias Ashmole, antiquário e especialista em ordens caveleirescas, que foi iniciado em 1646, com o jovem e precoce Robert Boyle que embora ele próprio não fosse um maçom livre, foi um membro de uma outra mais fugidia sociedade secreta.
Não há evidência concreta que esta sociedade secreta fosse o Priorado de Sião, mas Boyle, segundo os documentos do Priorado, sucedeu Andrea como Grão Mestre de Sião. Durante o Protetorado de Cromwell, estas mentes dinâmicas, tanto inglesas quanto européias, formaram o que Boyle em um eco deliberado dos manifestos rosacrucianos chamou de ‘colégo invisível’ que se tornou a Real Sociedade com o governante Stuart, Carlos II como seu patrono e patrocinador. Virtualmente todos os membros fundadores da Sociedade Real eram Maçons Livres. Pode-se razoavelmente argumentar que a própria Sociedade Real, ao menos em sua iniciação, era uma instituição maçonica derivada, das Uniões Cristãs de Andrea, da ‘invisível fraternidade rosacruciana’. Mas esta não era para ser a culminação da corrente subterrânea. Ao contrário, ela iria fluir de Boyle para Sir Isaac Newton, listado como o Grão Mestre seguinte de Sião, e dai para complexos tributários da Maçonaria Livre do século XVIII.
A Dinastia Stuart
Segundo os Documentos do Priorado, Newton foi sucedido como Grão Mestre do Sião por Charles Radclyffe. O nome era dificilmente tão ressonante para nós quanto os de Newton, Boyle ou até mesmo Andrea. De fato, incialmente não estávamos certos sobre quem era Charles Raddcliffe. Então começamos a pesquisar sobre ele, e contudo, ele emergiu como uma figura de considerável, se subterrânea, consequência na história cultural do século XVIII. Desde o século XVI os Raddcliffes tinham sido uma influente família Nortumbriana. Em 1688, pouco antes dele ser deposto, James II os havia tornado Condes de Derwentwater. Chales Raddcliffe nasceu em 1693. Sua mãe era filha ilegítima de Carlos II com sua amante, Moll Davies. Radcliffe era então, pelo lado de sua mãe, de sangue real, um neto do quase último monarca Stuart. Ele era primo de Bonnie Príncipe Charlie e de George Lee, Conde de Lichfield, um outro neto ilegítimo de Carlos II. Não surpreendentemente, portanto, Raddcliffe devotou a maior parte de sua vida, a causa Stuart.
Em 1715 esta causa repousava com o Velho Pretendente, James III, então no exílio e residindo em Bar-le-Duc, sob a proteção especial do Duque de Lorreine. Radcliffe e seu irmão mais velho participaram da rebelião escocesa daquele ano. Ambos foram capturados e aprisionados e James foi executado. Charles, neste meio tempo, aparentemente ajudado pelo Conde de Lichfield, fez uma fuga ousada e sem precendentes da prisão de Newgate, e encontrou refúgio nas fileiras Jacobitas na França. Nos anos que se seguiram ele se tornou secretário pessoal do Jovem Pretendente, Bonnie Prince Charlie. Em 1745 o último chegou a Escócia e embarcou em sua tentativa quixotesca de reinstalar os Stuarts no trono britânico. No mesmo ano, Raddcliffe, em rota para se unir a ele, foi capturado em um navio francês fora de Dogger Bank. Um ano mais tarde, O Jovem Pretendente foi desastrosamente derrotado na Batalha de Culloden Moor. Uns poucos meses depois, Charles Raddcliffe morreu sob o machado do carrasco na Torre de Londres. Durante sua estada na França os Stuarts tinham estado profundamente envolvidos na disseminação da Maçonaria Livre. De fato, eles geralmente são vistos como a fonte de uma forma particular de Maçonaria conhecida como Rito Escocês. A Livre Maçonaria introduziu graus superiores aqueles oferecidos por outros sistemas maçonicos naquele tempo. Ela prometia iniciação em mistérios maiores e mais profundos – mistérios supostamente preservados e manipulados na Escócia. Ela estabelecia ligações mais diretas entre a Maçonaria Livre e várias atividades: alquimia, cabalismo e pensamento hermético, por exemplo, eram vistos como rosacrucianos. E ela elaborava não apenas sobre a antiguidade mas também sobre o pedigree ilustre da ‘arte’. É provável que o Rito Escocês da Maçonaria Livre fosse originalmente promulgado, se não de fato divisado, por Charles Raddcliffe. Em qualquer caso, Charles Raddcliffe, em 1725, é dito ter fundado a primeira loja maçonica no continente, em Paris. Durante o mesmo ano, ou talvez no ano seguinte, ele parece ter sido reconhecido como Grão Mestre de todas as lojas francesas, e ainda é citado uma década depois, em 1736. A disseminação da Livre Maçonaria do século XVIII deve mais, ultimamente, a Charles Raddcliffe que a qualquer outro homem.
Isto nem sempre tem sido prontamente aparente porque Raddcliffe, especialmente depois de de 1738, manteve um perfil relativamente baixo. Em um grau muito significativo, ele parece ter trabalhado através de intermediários e portavozes. O mais importante deles, e o mais famoso, foi o enigmático indivíduo conhecido como Cavaleiro Andrew Ramsay. Ramsay nasceu na Escócia em algum tempo nos anos de 1680. Como um jovem homem ele foi membro de uma sociedade rosacruciana quase maçonica chamado Os Filadelfianos. Entre os outros membros desta sociedade estavam ao menos dois amigos íntimos de Sir Issac Newton. O próprio Ramsay via Newton com imitigada reverência, considerando-o um tipo de alto iniciado místico – um homem que havia descoberto e reconstruido as verdades eternas ocultas nos antigos mistérios. Ramsay tinha outras ligações com Newton. Ele era associado a Jean Desaguliers, um dos amigos mais próximos de Newton. Em 1708 ele estudou matemática sob um Nicolas Fatio de Duillier, o mais íntimo companheiro de Newton. Como Newton, ele apresentava um interesse simpático nos Camisardos – uma seita de Cátaros de tipo herege então sofrendo perseguição no sul da França, e um tipo de causa célebre para Fatio de Duillier. Por 1710 Ramsay estava em Cambrai e em termos íntimos com o filósofo místico Fenelon, anteriormente cura de São Suspílcio que, até mesmo naquele tempo, era um bastião de ortodoxia mais que questionável. Não é sabido precisamente quando Ramsay travou conhecimento com Charles Raddcliffe, mas pelos anos de 1720 ele estava intimamente afiliado a causa Jacobita. Por um tempo ele até mesmo serviu como tutor de Bonnie Prince Charlie. A despeito de suas ligações Jacobitas, Ramsay voltou a Inglaterra em 1729 onde não obstante, uma aparente falta de qualificações apropriadas, ele foi admitido prontamewnte na Sociedade Real. Ele também tornou-se um membro de uma instituição ainda mais obscura chamada Clube de Spalding de Cavalheiros. Este ‘clube’ incluia homens como Desaguliers, Alexander Pope e, até sua morte em 1727, Isaaac Newton. Por 1730 Ramsay estava de volta a França e incrivelmente ativo em benefício da Livre Maçonaria. Ele está a registro como tendo comparecido a encontros da loja com um número de figuras notáveis, incluindo Desaguliers. E ele recebeu o patrocínio especial da família Tour dAuvergne, os viscondes de Turenne e o duque de Bouillon que, três quartos de século antes, tinha sido relacionado a Frederico do Palatinado. Ao tempo de Ramsay o Duque de Bouillon era um primo de Bonnie Prince Charlie e estava entre as mais proeminentes figuras da Livre Maçonaria. Ele conferiu uma propriedade imobiliária e uma casa na cidade a Ramsay, que ele também indicou tutor de seu filho. Em 1737 Ramsay enviou sua famosa ‘Oração’ – uma longa dissertação sobre a história da Livre Maçonaria que subsequentemente se tornou um documento embrionário para a ‘arte’. Com base nesta ‘Oração’ Ramsay se tornou o portavoz proeminente maçonico de sua era. Nossa pesquisa nos convenceu, contudo, que a voz real por trás de Ramsay era aquela de Charles Radclyffe que presidia a loja na qual Ramsay tinha feito seu discurso e que apareceu novamente, em 1743, como signatário principal no funeral de Ramsay. Mas se Radcliffe era o poder por trás de Ramsay, poderia ter sido Ramsay que constituiu a ligação entre Radcliffe e Newton. A despeito da morte prematura de Ramsay em 1746, as sementes que ele havia plantado na Europa continuaram a dar frutos. Cedo nos anos de 1750 um novo embaixador da Livre Maçonaria apareceu; um alemão chamado Karl Gottlieb von Hund. Hund afirmou ter sido iniciado em 1742, um ano antes da morte de Ramsay, quatro anos antes da de Radcliffe. Em sua iniciação, ele afirmou, ele tinha sido introduzido em um novo sistema de Maçonaria Livre, confiado a ele por ‘superiores desconhecidos’. Estes ‘superiores desconhecidos’, mantinha Hund, eram estreitamente associados a causa Jacobita. De fato, ele até mesmo acreditou de início que o homem que presidiu sua iniciação fosse Bonnie Prince Charlie. E embora isso tenha se provado não ser o caso, Hund permaneceu convencido que o personagem não identificado em questão estava estreitamente ligado ao Jovem Pretendente. Parece razoável supor que o homem que realmente presidiu foi Charles Radcliffe. O sistema da Maçonaria Livre em que Hund foi introduzido era uma extensão posterior do Rito Escocês e que foi subsequentemente chamado Estrita Observância. Seu nome derivou do voto que ele exigiu, de obediência inquestionável aos misteriosos ‘superiores desconhecidos’.
E a doutrina básica da Estrita Observância era que ela tinha descendido diretamente dos Cavaleiros Templários, alguns dos quais propostamente sobreviveram a purga de 1307-14 e perpetuaram sua Ordem na Escócia. Nós já estávamos familiarizados com esta afirmação. Com base em nossa pesquisa podemos admitir nisso alguma verdade. Um contingente de Templários tinha alegadamente combatido do lado de Robert Bruce na Batalha de Bannockburn. Por causa da Bula Papal dissolvendo os Templários nunca ter sido promulgada na Escócia, a Ordem nunca foi oficialmente suprimida lá. E nós mesmos temos localizado o que parece ser um cemitério templário em Argyllshire. As mais iniciais sepulturas neste cemitério datavam do século XIII, e as últimas, do século XVIII. As pedras mais antigas mantém certas gravações únicas e símbolos gravados idênticos aqueles encontrados nos conhecidos preceptórios Templários na Inglaterra e na França. As pedras mais recentes combinaram estes símbolos com motivos especificamente maçonicos, atestando desta forma algum tipo de fusão. Portanto não é impossível, concluimos, que a Ordem de fato tenha se perpetuado nas selvagerias sem trilhas da medieval Argyll – mantendo uma existência clandestina, gradualmente se secularizando e se tornando associada as guildas maçonicas e aos prevalecentes sistemas de clãs. O pedigree que Hund afirmou para a Estrita Observância não nos parecia, portanto, improvável. Para seu próprio embaraço e subsequente desgraça, contudo, ele foi incapaz de eleborar posteriormente sobre este novo sistema de Livre Maçonaria. Como resultado seus contemporaneos o descartaram como charlatão, e o acusaram de ter fabricado a história de sua iniciação, seu encontro com os ‘superiores desconhecidos’, sua ordem para disseminar a Estrita Observância. A estas acusações Hund apenas podia responder que seus ‘superiores desconhecidos’ o tinham inexplicavelmente abandonado. Eles haviam prometido contacta-lo novamente e dar a ele instruções posteriores, ele protestou, mas eles nunca o fizeram. Pelo fim de sua vida ele afirmou sua integridade, mantendo que ele havia sido desertado de seus patronos originais que, ele insistiu, realmente haviam existido. Quanto mais consideramos as avaliações de Hund, mais plausíveis elas soam e ele parece ter sido uma vítima infeliz não tanto de traição deliberada como de circunstâncias além do controle de todos. Segundo sua própria narrativa, Hund havia sido iniciado em 1742, quando os Jacobitas ainda eram uma poderosa força política nos assuntos do continente. Por 1746, contudo, Radcliffe estava morto. E assim o estavam tantos de seus colegas, enquanto outros estavam na prisão ou no exilio muito distante, em alguns casos, na América do Norte.
Se os ‘superiores desconhecidos’ de Hund falharam em reestabelecer contacto com seu protegido, a omissão não parece ter sido voluntária. O fato de que Hund foi abandonado imediatamente depois do colapso da causa Jacobita pareceria, se algo, confirmar sua história. Há um outro fragmento de evidência que confere credencial não apenas as afirmações de Hund mas aos Documentos do Priorado também. Esta evidência é uma lista dos Grão Mestres dos Cavaleiros Templários, que Hund insistiu ter obtido de seus ‘superiores desconhecidos’ e que pareceu se derivar de ‘informação interna’. Salvo pela soletração de um único sobrenome, a lista que Hund apresentou concorda com aquela nos Dossiês Secretos. Em resumo, de algum modo Hund havia obtido a lista dos Grão Mestres Templários mais acurada do que qualquer outra de seu tempo. Sobretudo, ele a obteve quando muito muitos documentos nos quais confiamos as cartas de direitos, deveres, proclamações ainda estavam sequestradas no Vaticano e não obtíveis. Isto pareceria confirmar que a história de Hund sobre ‘superiores desconhecidos’ não era uma fabricação. Isto também pareceria indicar que estes ‘superiores desconhecidos’ eram extraordinariamente conhecedores da Ordem do Templo e mais conhecedores do que eles possivelmente tivessem sido sem o acesso a ‘fontes privilegiadas’. Em qualquer caso, a despeito das acusações levantadas contra ele, Hund não estava completamente sem amigos. Depois do colapso da causa Jacobita ele encontrou um patrono simpático e um estreito companheiro, não menos na pessoa do Santo Imperador Romano. O Santo Imperador Romano naquele tempo era François, o Duque de Lorreine que, pelo seu casamento com Maria Teresa da Áustria em 1735, tinha ligado as casas dos Hapsburgs e Lorreine e inaugurado a dinastia Hapsburg-Lorreine.
E segundo os Documentos do Priorado, o irmão de François, Charles de Lorreine, que sucedeu Radcliffe como Grão Mestre de Sião. François foi o primeiro príncipe europeu a se tornar maçom e tornar pública sua afiliação a Maçonaria. Ele foi iniciado em Haia, um bastião de atividade esotérica desde que os círculos rosacrucianos haviam se instalado lá durante a Guerra dos Trinta Anos. E o homem que presidiu a iniciação de François foi Jean Desaguliers, íntimo associado de Newton, Ramsay e Radcliffe. Pouco depois de sua iniciação sobretudo, François embarcou para uma longa estada na Inglaterra. Aqui ele se tornou um membro daquela instituição de aparência inócua, O Clube de Spalding de Cavalheiros. Nos anos que se seguiram François de Lorreine foi provavelmente mais responsável do que qualquer outro potentado europeu na disseminação da Livre Maçonaria. Sua côrte em Viena se tornou, em um sentido, a capital Maçonica da Europa, e um centro para um amplo espectro de outros interesses esotéricos também. O próprio François era um alquimista praticante, com um laboratório alquimico no palácio imperial, o Hofburg. Na morte do último Medici ele se tornou Grão Duque da Toscana, e com habilidade frustrou a perseguição dos Maçons Livres em Florença. Por meio de François, Charles Radcliffe que fundou a primeira loja maçonica no continente, deixou um legado duravel.
Charles Nodier e Seu Círculo
Comparado aas importantes figuras politicas e culturais que o precederam, comparado ate mesmo a um homem como Charles Radcliffe, Charles Nodier parecia uma escolha das mais improváveis para Grão Mestre. O conhecemos primariamente como um tipo de curiosidade literária de uma bela arte relativamente menor, um ensaista de certo modo tagarela, um novelista de segundo nível e um escritor de histórias curtas na tradição bizarra de E. T. A. Hoffmann e, mais tarde, de Edgar Allan Poe. Em seu próprio tempo, todavia, Nodier era visto como uma maior figura cultural, e sua influência era enorme. Sobretudo, ele se provou estar ligado a nossa pesquisa em um número de modos surpreendentes. Por 1824 Nodier já era uma celebridade literária. Neste ano ele foi indicado bibliotecário chefe da Arsenal Library, o maior depositório francês para manuscritos medievais e especificamente ocultos. Entre os vários tesouros do Arsenal foi dito que teria contido os trabalhos alquímicos de Nicholas Flamel, o alquimista medieval listado como um dos iniciais Grão Mestres de Sião. O Arsenal também continha a biblioteca do Cardeal Richelieu; uma coleção exaustiva de trabalhos sobre pensamento mágico, cabalístico e hermético. E havia outros tesouros também. Ao romper a Revolução Francesa os monastérios pelo país foram saqueados e todos os livros e manuscritos enviados a Paris para armazenamento. Então em 1810 Napoleão, como parte de sua ambição de criar uma definitiva biblioteca mundial, confiscou e trouxe a Paris quase que o arquivo inteiro do Vaticano. Havia mais de três mil caixas de material, algumas das quais todas de documentos pertencentes aos Templários, por exemplo – que tinham sido especificamente solicitados. Embora alguns desses papéis fossem subsequentemente devolvidos a Roma, uma grande quantidade permaneceu na França. E era material deste tipo – livros ocultos e manuscritos, trabalhos pilhados de monastérios e do arquivo do Vaticano que passaram às mãos de Nodier e seus associados. Metodicamente eles filtraram isso, catalogaram, exploraram. Entre os colegas de Nodier nesta tarefa estavam Eliphas Levi e Jean Baptiste Pitois, que adotou o nome de pena de Paul Christian. Os trabalhos desses dois homens, e de Charles Nodier, o mentor deles, é aquele ‘renascimento’ francês do século XIX, como tem sido chamado, e que pode ultimamente ser traçado. De fato, a “História e Prática da Magica’ de Pitois se tornou uma bíblia para os estudantes do arcano do século XIX. Recentemente republicada na tradução completa inglesa com sua dedicatória original a Nodier este agora é um trabalho cobiçado pelos estudantes do oculto. Durante seu tempo no Arsenal, Nodier continuou a escrever e publicar prolificamente. Entre os mais importantes de seus últimos trabalhos está um multi volume maciço, belamente ilustrado, obra de interese de antiquário, devotado aos sítios de particular consequência na antiga França. Neste compêndio monumental Nodier devotou um espaço considerável a época Merovíngia, um fato o mais surpreendente já que ele em que em nenhum tempo apresentou o menor interesse nos Merovíngios. Há também longas seções sobre os Templários, e há um artigo especial sobre Gizors incluindo uma narrativa detalhada do ‘corte do elmo’ em 1188, que, segundo os Documentos do Priorado, marcou a separação dos Cavaleiros Templários e o Priorado de Sião. Ao mesmo tempo Nodier era mais do que um bibliotecário e um escritor. Ele era também um indivíduo gregário, egocêntrico e excentrico que constantemente buscava ser o centro da atenção e não hesitava em exagerar sua própria importância. Em suas salas em Arsenal Library ele inaugurou um salão que o estabelecia como um dos mais influentes e prestigiados ‘potentados estéticos’ da época. Ao tempo de sua morte em 1845, ele havia servido como mentor de uma inteira geração muitos dos quais bem o eclipsaram em suas obtenções subsequentes. Por exemplo, o principal discípulo de Nodier e seu mais estreito amigo era o jovem Vitor Hugo, o próximo Grão Mestre segundo os Documentos do Priorado. HAvia François-Rene de Chateaubriand que fez uma romaria especial a tumba de Poussin em Roma e tinha uma pedra ereta lá sustentando a reprodução dos “Pastores da Arcadia”. Havia Balzac, Delacroix, Dumas pai, Lamartine, Musset, Theophile Gautier, Gerard de Nerval e Alfred de Vigny. Como os poetas e pintores da Renascença, estes homens frequentemente desenharam pesamente sobre o esotérico, e especialmente sobre a tradição hermética. Eles também incorporaram em seus trabalhos um número de motivos, temas, referências e alusões ao mistério que, para nós, começou com Sauniere e Rennes-le Chateau. Em 1832, por exemplo, um livro foi publicado intitulado ‘Uma Jornada a Rennes-le-Bains”, que fala longamente de um legendário tesouro associado com Blanchefort e Rennes-le-Chateau. O autor deste livro obscuro, Auguste de Laboulsse-Rochefort, também produziu um outro trabalho, ‘Os Amantes Para Eleonore’. Na página título lá aparece, sem qualquer explicação, o moto ‘ET ARCADIA EGO’. As atividades literárias e esotéricas de Nodier eram muito claramente pertinentes a nossa investigação. Mas havia um outro aspecto da carreira dele que era, se algo, ainda mais pertinente. Porque Nodier, desde sua infância, esteve profundamente envolvido em sociedades secretas. Já em 1790, por exemplo, aos dez anos, ele é sabido ter se envolvido com um grupo conhecido como Os Filadelfos. Por volta de 1793 ele criou um outro grupo ou talvez um círculo interno do primeiro – que incluia um dos subsequentes conspiradores contra Napoleão. Uma carta de direitos datada de 1797 atesta a fundação de ainda um outro grupo também chamado Os Filadelfos naquele ano. Na biblioteca de Besanion há um ensaio criptico composto e recitado por este grupo escrito por um dos mais íntimos amigos de Nodier. Ele é intitulado “Os Pastores da Arcadia Soam os Primeiros Acentos de uma flauta Rústica”.
Em Paris em 1802 Nodier escreveu sobre sua afiliação a uma sociedade secreta que ele descreveu como ‘Bíblica e Pitagoriana”. Então, em 1816, ele publicou anonimamente um de seus mais curiosos e influentes trabalhos: “a História das Sociedades Secretas em um Exército sob Napoleão”. Neste livro Nodier é deliberadamente ambíguo. Ele não esclarece se estava escrevendo pura ficção ou puro fato. Se algo, ele implica, o livro é uma espécie de alegoria pequeninamente disfarçada de reais ocorrências históricas. Em qualquer caso o livro desenvolve uma filosofia compreensiva ds sociedades secretas. E ele credita a tais sociedades um número de realizações históricas, inclusive a queda de Napoleão. Há muitas grandes sociedades secretas em operação, declara Nodiers. Mas há uma, ele acrescenta, que tem precedência sobre todas as outras, que de fato preside todas as outras. Segundo Nodier, esta ‘suprema’ sociedade secreta é chamada Os Filadelfos. Ao mesmo tempo, todavia, ele fala do juramento que me curva aos Filadelfos e me proibe de torna-los conhecidos sob seu nome social. Não obstante há uma pista de Sião em uma fala que Nodier cita. Ela supostamente foi dada em uma assembléia dos Filadelfos por um dos conspiradores contra Napoleão. O homem em questão está falando de seu filho recém nascido: “Ele é tão jovem para se engajar com vocês pelo voto a Anibal; mas lembrem que o tenho chamado Eliacin, e que delego a ele a guarda do templo e do altar, se eu deva morrer e tenho visto cair de seu trono os últimos opressores de Jerusalém.” O livro de Nodier entra em cena quando o medo das sociedades secretas tinha assumido virtualmente proporções patologicas. Tais sociedades eram frequentemente acusadas de instigarem a Revolução Francesa; e a atmosfera da Europa pós Napoleonica era similar, em muitos aspectos, aquela da “Era McCarthy” nos Estados Unidos durante a década de 1950. As pesoas viam, ou pareciam ver, conspirações em todos os lugares. Cada perturbação pública, cada rompimento menor, cada ocorrência desconfortável era atribuida a ‘atividade subversiva’ do trabalho de organizações clandestinas altamente organizadas por trás das cenas, erodindo o tecido das instituições estabelecidas, perpetrando de todas as maneiras malignas sabotagens. Esta mentalidade engendrou medidas de extrema repressão. E a repressão, dirigida frequentemente contra uma ameaça fictícia, em troca gerou reais oponentes, grupos reais de conspiradores subversivos que se formariam de acordo com os projetos ficticios. Até mesmo como invenções da imaginação, as sociedades secretas estimularam uma paranóia contagiosa nos escalões superiores do governo; e esta paranóia frequentemente realizou mais do que qualquer própia sociedade secreta poderia possivelmente ter feito. Não há dúvida de que o mito da sociedade secreta, se não a própria sociedade secreta, desempenhou um papel maior na história européia do século XIX. E um dos principais arquitetos deste mito, e possivelmente da realidade por trás dele, foi Charles Nodier.
Debussy e a Rosa Cruz
As tendências as quais Nodier deu uma expressão de fascinação com as sociedades secretas e um interesse renovado no esotérico continuaram a ganhar influência e aderentes pelo século XIX. Ambas as tendências alcançaram o auge em Paris no fim do século e os arredores de Claude Debussy, o alegado Grão Mestre de Sião quando Berenger Sauniere, em 1891, descobriu os misteriosos pergaminhos em Rennes-le-Chateau. Debussy parece ter feito conhecimento com Vitor Hugo por meio do poeta simbolista Paul Verlaine. Subsequentemente ele estabeleceu um número de trabalhos de Hugo para a música. Ele também se tornou um membro integral dos círculos simbolistas que, pela última década do século, tinham vindo a dominar a vida cultural parisiense.
Estes círculos algumas vezes eram ilustres, algumas vezes estranhos e algumas vezes ambos. Eles incluiam o jovem clérigo Emile Hoffet e Emma Calve pelos quais Debussy veio a conhecer Sauniere. Havia também o mago enigmático da poesia simbolista francesa, Stephane Mallarme, que uma das peças principais, ‘L’Apres-Midi dun Faune’, Debussy criou em música. Havia o teatrólogo simbolista Maurice Maeterlinck, cujo drama Merovígio, ‘Pelleas et Me1isande’, Debussy transformou em ópera de fama mundial. Havia o excêntrico Conde Philippe Auguste Villiers de Isle-Adam, cuja peça rosacruciana, ‘Axel’, se tornou uma biblia para o inteiro Movimento Simbolista. Embora sua morte em 1918 evitasse a sua conclusão, Debussy começou a compor um libreto para o drama oculto de Viliers, pretendendo transforma-lo, também, em uma ópera. Entre seus outros associados, estavam os luminares que frequentavam as famosas soarées das noites de sexta feira de Mallarme: Oscar Wilde, W. B. Yeats, Stefan George, Paul Valery, o jovem Andre Gide e neles próprios os círculos de Debussy e Mallarme eram baseados no esotérico. Ao mesmo tempo, eles entrelaçavam círculos ainda mais esotéricos. Então Debussy conviveu e se associou com virtualmente todos os nomes proeminentes no chamado revivalismo oculto francês. Nestes estavam o Marquês Stanislas de Guaita, um íntimo de Emma Calve e fundador da chamada Ordem Cabalística da Rosa Cruz. Um segundo era Jules Bois, um notório satanista, um outro íntimo de Emma Calve e um amigo de MacGregor Mathers. Estimulado por Jules Bois, Mathers estabeleceu a mais famosa sociedade oculta britânica, A Ordem do Amanhecer Dourado [Order of the Golden Dawn]. Um outro ocultista de conhecimento de Debussy era o Doutor Gerard Encausse mais conhecido como Papus, sob cujo nome ele publicou e que ainda é considerado um dos trabalhos definitivos sobre o Tarot. Papus não era apenas um membro de numerosas ordens esotéricas e sociedades, mas também era um confidente do Tzar e da Tzarina, Nicholas e Alexandra da Rússia. E entre os mais íntimos associados de Papus estava um nome que já figurava em nossa pesquisa que era Jules Doinel.
Em 1890 Doinel se tronou bibliotecário em Carcassone e estabeleceu uma igreja neo-cátara em Languedoc na qual ele e Papus funcionavam como bispos. Doinel de fato se proclamou o Bispo Gnóstico de Mirepoix, que incluia a paróquia de Montsegur e de Alet, que incluia a paróquia de Reenes-le-Chateau. A igreja de Doinel foi supostamente consagrada por um bispo oriental em Paris em casa, e muito interessantemente, de Lady Caithness, esposa do Conde de Caithness, Lord James Sinclair. Em retrospecto esta igreja parece ter sido meramente um outra seita ou culto inócuo, como tantos do fim do século. Naquele tempo, contudo, ela causou uma alarme considerável nas sedes oficiais. Um relato especial foi preparado para a Santa Sé do Vaticano sobre a ‘ressurgência das tendências cátaras’. E o Papa divulgou uma explícita condenação da instituição de Doinel, por meados dos anos de 1890, foi ativo no território lar de Sauniere e precisamente ao tempo em que o cura de Rennes-le-Chateau começou a ostentar sua riqueza. Os dois homens podem bem terem sido apresentados por Debussy. Ou por Emma Calve. Ou pelo Abade Henri Budet, cura de Rennes-le-Bains, o melhor amigo de Sauniere e colega de Doinel na Sociedade das Artes e Ciências de Carcassone. Um dos mais íntimos contactos ocultos de Debussy era Josephin Peladan, um outro amigo de Papus e, muito previsivelmente, um outro íntimo de Emma Calve. Em 1889 Peladan embarcou em uma visita a Terra Santa. Quando ele voltou, ele afirmou ter descoberto a tumba de Jesus não o sítio tradicional do Santo Sepulcro mas sob a Mesquita de Omar, antigamente parte do enclave dos Templários. Nas palavras de um admirador entusiástico, a alegada descoberta de Peladan era ‘tão perplexante que em qualquer outra era teria abalado o mundo católico em suas fundações”. Nem Peladan e nem seus associados, contudo, voluntariaram qualquer indicação de como a tumba de Jesus poderia ter sido tão definitivamente identificada e verificada como tal, nem porque esta descoberta devesse necessariamente abalar o mundo católico a menos, com certeza, que ela contivesse algo importante, controverso e talvez até mesmo explosivo. De qualquer modo, Peladan não elaborou sobre sua proposta descoberta. Mas embora um católico auto-professo, ele não obstante insistiu na mortalidade de Jesus. Em 1890 Peladan fundou uma nova ordem de Rosa Cruz Católica, O Templo e o Gral.
E esta Ordem, diferente das outras instituições rosacruzes do período, de algum modo escapou da condenação papal. Neste meio tempo, Peladan voltou crescentemente sua atenção para as artes. O artista, ele declarou, deve ser ‘um cavaleiro em uma armadura, avidamente engajado na busca simbólica do Santo Gral”. E em aderencia e este princípio, Peladan embarcou em uma cruzada estética completamente madura. Ela tomou a forma de uma série altamente publicada de exibições anuais, conhecida como Salão da Rosa Cruz cujo propósito declarado era “arruinar o realismo, reformar o gosto latino e criar uma escola de arte idealista”. Para este fim certos temas e assuntos eram sumária e autocraticamente rejeitados como indignos “não importa quão bem executados , até mesmo se perfeitamente’. A lista de temas e assuntos rejeitados incluia a pintura da história prosaica, a pintura patriótica e militar, reprsentações da vida contemporanea, retratos, cenas rústicas e todos os panoramas exceto aqueles compostos da maneira de Poussin’. Nem Paladan se confinou a pintura. Ao contrário, ele tentou promulgar sua estética para o teatro e a música também. Ele formou sua própria companhia de teatro, que representava especialmente os trabalhos compostos sobre tais assuntos como Orfeu, os Argonautas, e a Busca pela Flecha Dourada, o Mistério da Rosacruz, e o Mistério do Gral. Um dos regulares promotores e patronos dessas produções era Claude Debussy. Entre outros associados de Debussy e de Paladan estava Maurice Barres que, como um homem jovem, que tinha estado envolvido no círculo da Rosacruz com Vitor Hugo.
Em 1912 Barres publicou sua mais famosa novela, A Colina Inspirada. Certos comentaristas modernos tem sugerido que seu trabalho é de fato uma alegoria pequeninamente disfarçada de Berenger Sauniere e Rennes-le-Chateau. Certamente há paralelos que seriam tão surpreendentes para serem completamente coincidentais. Mas Barres não situa sua narrativa em Rennes-le-Chateau ou qualquer outro lugar no Languedoc. Ao contrário, o monte inspirado do titulo é uma montanha acima de uma vila em Lorreine, e a vila é um velho centro de romaria de Sião.
Jean Cocteau
Mais do que Charles Radclyffe, mais do que Charles Nodier, Jean Cocteau nos pareceu um candidato mais improvável para o Grão Mestrado de uma influente sociedade secreta. Nos casos de Radcliffe e Nodier, contudo, nossa investigação tinha sustentado certas ligações de considerável interesse. Na investigação de Cocteau descobrimos muito poucas. Certamente ele foi criado em um ambiente próximo aos ‘corredores de poder’; sua famíla era politicamente proeminente e seu tio era um importante diplomata. Mas Cocteau, ao menos ostensivamente, abandonou este mundo, deixando o lar com a idade de 15 anos e se atirando dentro da miserável sub-cultura de Marselha. Por 1908 ele se estabeleceu nos círculos artísticos boemios. No início de seus vinte anos ele se tornou associado a Proust, Gide e Maurice Barres. Ele também era um grande amigo do bisneto de Vito Hugo, Jean, com quem ele embarcou em excursões variadas no espiritualismo e no oculto. Ele rapidamente tornou-se versado no esotérico; e o pensamento hermético não formou somente muito de seu trabalho, mas também sua inteira estética. Por 1912, se não antes, ele tinha começado a se consorciar com Debussy, a quem ele alude frequentemente, senão não comitantemente em seus jornais. Em 1926 ele projetou o set para uma produção da ópera ‘Pelleas et Me1isande’ porque, segundo um comentador, ele era incapaz de resistir de ligar seu nome durante todo tempo ao de Claude Debussy. A vida privada de Cocteau que incluia surtos de vícios de drogas e uma sequência de casos homossexuais era notoriamente errática. Isto tem estimulado uma imagem dele como um indivíduo volátil e imprudentemente irresponsável. De fato, contudo, ele sempre foi agudamente consciente de sua persona pública; e fossem quais fossem suas escapadas pessoais, ele não as deixou impedirem seu acesso a pessoas de influência e poder. Como ele próprio admitiu, ele sempre havia ansiado pelo reconhecimento público, honra, estima, até mesmo a Admissão na Academia Francesa. E ele estabeleceu o ponto de se conformar suficientemente para se assegurar do status que buscava. Assim ele nunca esteve afastado das figuras proeminentes como Jacques Maritain e Andre Malraux. Embora nunca ostensivamente interessado em política, ele denunciou o Governo de Vichy durante a guerra e parece ter estado discretamente em liga com a Resistência. Em 1949 ele foi feito Cavaleiro da Legião de Honra. Em 1958 ele foi convidado pelo irmão de deGaulle a fazer uma fala pública sobre o assunto geral da França. Este não era o tipo de papel geralmente atribuido a Cocteau, mas ele parece o ter desempenhado suficientemente frequentemente e ter saboreado assim o fazer. Por uma boa parte de sua vida, Cocteau esteve associado, algumas vezes intimamente, algumas vezes perifericamente aos círculos roialistas católicos. Aqui ele frequentemente tinha relações amigáveis com membros da velha aristocracia, incluindo alguns dos amigos e patronos de Proust. Ao mesmo tempo, contudo, o catolicismo de Cocteau era altamente suspeito, altamente não ortodoxo, e parece ter sido mais um comprometimento estético do que religioso. Na última parte de sua vida, ele devotou grande parte de sua energia redecorando igrejas – um eco curioso, talvez, de Berenger Sauniere. Ainda que até mesmo sua piedade seja questionável: “Eles me tomam por um pintor religioso porque tenho decorado uma capela. Sempre a mesma mania de rotular as pessoas.’ Como Sauniere, Cocteau em suas redecorações, incorporou certos dados curiosos e sugestivos. Alguns estão visíveis na Igreja de Notre Dame de France, ao redor do esquina de Leicester Square em Londres. A própria igreja data de 1865 e pode, em sua consagração, ter tido certas conexões maçonicas. Em 1940, no auge da blitz, ela estava seriamente danificada. Não obstante, ela permaneceu o centro favorito de veneração para muitos membros das Forças Livres Francesas e depois da guerra foi restaurada e redecorada por artistas de toda França. Entre eles estava Cocteau, que, em 1960, três anos antes de sua morte, executou um mural apresentando a Cricificação. Há um sol negro, e uma figura sinistra não identificada pintada de verde no canto inferior direito. Há um soldado romano sustentando um escudo com um pássaro emblazonado nele sobre isso, um pássaro em alto estilo sugerindo uma restituição egípcia de Horus. Entre as mulheres que lamentam e os centuriões que jogam dados há duas figuras incongruentemente modernas – uma das quais é o próprio Cocteau, apresentado em um auto-retrato com suas costas significativamente viradas para a cruz. A mais desconcertante de todas é o fato de que o mural apresenta somente a parte inferior da cruz. Seja o que for que esteja pendurado nela é visível apenas até os joelhos e assim não se pode ver a face ou determinar a identidade de quem está sendo crucificado. E fixado na cruz, imediatamente abaixo do pé da vítima anônima, está uma rosa gigantesca. O projeto, em resumo, é um flagrante aparelho rosacruz. E se nada mais, é um motivo muito singular para uma igreja católica.
Os Dois Joões e a Igreja Católica
Os Dossiês Secretos, nos quais apareceu a lista dos alegados Grão Mestres de Sião, foram datados de 1956. Cocteau não morreu senão em 1963. Assim não há indicação sobre quem pode te-lo sucedido, ou quem pode presidir o Priorado de Sião no presente. Mas o próprio Cocteau apresentou um ponto adicional de imenso interesse. Até o ‘corte do elmo’ em 1188, avaliaram os documentos do Priorado, Sião e a Ordem do Templo partilhavam do mesmo Grão Mestre. Depois de 1188 é dito que Sião escolheu um Grão Mestre próprio, o primeiro deles sendo Jean de Gizors. Segundo os Documentos do Priorado, cada Grão Mestre, ao assumir a sua posição, tem adotado o nome de Jean [João] ou, como houve quatro mulheres, Joana. Portanto os Grão Mestres de Sião tem alegadamente compreendido uma sucessão de Joões e Joanas, de 1188 até o presente. Esta sucessão era claramente pretendida para implicar um papado hermético e esotérico baseado em João, em contraste [e talvez oposição] aquele exotérico baseado em Pedro. Uma questão maior, com certeza, era que João. João Batista? João Evangelista, o Discípulo Amado no Quarto Evangelho? O ou João o Divino, autor do Livro da Revelação? Parecia muito bem ser um desses três porque Jean de Gizors em 1188 tinha supostamente tomado o título de João II. Quem era então João I? Seja qual for a resposta a esta questão, Jean Cocteau aparece na lista dos alegados Grão Mestres como João XXIII. Em 1959, enquanto Cocteau ainda presumidamente mantinha o Grão Mestrado, morreu o Papa Pio XII e os cardeais reunidos elegeram, como seu novo pontífice, o Cardeal Angelo Roncalli de Veneza. Qualquer Papa reecém eleito escolhe seu próprio nome e o Cardeal Roncalli causou uma consternação considerável quando ele escolheu o nome de João XXIII. Tal consternação não era injustificada. Em primeiro lugar o nome João tem sido anatematizado implicitamente desde que ele foi por último usado no século V por um anti-papa. Sobretudo, já havia existido um João XXIII. O papa que abdicou em 1415 e que, muito interessantemente, tinha anteriormente sido bispo de Alet era de fato João XXIII. Isto era então não usual, para dizer o mínimo, para o Cardeal Roncalli assumir o mesmo nome. Em 1976 um pequeno livro enigmático foi publicado na Itália e logo depois traduzido para o francês. Ele era chamado ‘As Profecias do Papa João XXIII’ e continha uma compilação de obscuros poemas em prosa compostos pelo pontífice que morreu 13 anos antes em 1963, no mesmo ano de Cocteau. Em sua maior parte estas profecias são extremamente ‘opacas’ e desafiam qualquer interpretração coerente. Se este é de fato um trabalho de João XXIII é também uma questão em aberto. Mas a introdução ao trabalho mantém que elas sejam de fato trabalho do Papa João. E ela mantém algo posterior bem como João XXIII era um membro secreto da Rosacruz, a qual ele se afiliou enquanto atuava como núncio papal na Turquia em 1935. É desnecessário dizer que esta avaliação soa incrível. Certamente isso não pode ser provado e não encontramos evidência externa que sustente isso. Mas porque, imaginamos, deve uma tal avaliação até mesmo ter sido feita em primeiro lugar? Pode ela ser verdadeira afinal? Pode haver ao menos um grão de verdade nisto? Em 1188 o Priorado de Sião é dito ter adotado o sub-título de ‘Rose-Croix Veritas’. Se o Papa João fosse afiliado a uma organização Rosacruz, e se esta Rosacruz fosse o Priorado de Sião, as implicações seriam extremamente intrigantes. Entre outras coisas elas sugeririam que o Cardeal Roncalli, ao se tornar Papa, escolheu o nome de seu próprio Grão Mestre, de forma que, por alguma razão simbólica, haveria um João XXIII presidindo simultaneamente sobre o Papado e Sião. Em qualquer caso o governo simultaneo de um João XXIII sobre Sião e Roma teria sido uma extraordinária coincidência. Nem podia os Documentos do Priorado divisarem uma tal lista para criar uma tal coincidêcia; uma lista que culminava com João XXIII ao mesmo tempo em que um homem com este título ocupava o trono de São Pedro. Porque a lista dos Grão Mestres tinha sido composta e depositada na Biblioteca Nacional não mais tarde do que 1956, três anos antes de João XXIII se tornar Papa.
Havia uma outra coincidência desconcertante: no século XII um monge irlandês chamado Malaquias compilou uma série de profecias do tipo das de Nostradamos. Nestas profecias, que, incidentalmente, são ditas serem altamente estimadas por muitos católicos romanos importantes, incluindo o papa atual, João Paulo II, Malaquias enumera os pontífices que ocuparação o trono de São Pedro nos séculos a virem. Para cada pontífice ele oferece uma espécie de moto descritivo. E para João XXIII, o moto, traduzido para o francês, é ‘Pasteur et Nautonnier’ – [Pastor e Navegador]. O título oficial do alegado Grão Mestre de Sião é também “Nautonnier”. Seja qual for a verdade subjacente a estas estranhas coincidências, não há dúvida de que mais do que qualquer outro homem o Papa João XXIII foi responsável pela reorientação da Igreja Católica Romana e por traze-la, como tem frequentemente dito seus comentaristas, para o século XX. Muito disso foi realizado por reformas do Segundo Concílio do Vaticano, que João inaugurou. Ao mesmo tempo, contudo, João foi responsável por outras mudanças também. Ele revisou a posição católica sobre a Livre Maçonaria, por exemplo rompendo com ao menos dois séculos de tradição enraizada e pronunciando que um católico pode ser um Maçom Livre. E em junho de 1960 ele emitiu uma carta apostólica extremamente importante. Esta missiva se dirigia especificamente ao assunto do ‘Precioso Sangue de Jesus’. E ela atribuiu um até aqui sem precendentes significado a este sangue. Ela enfatizava o sofrimento de Jesus como um ser humano, e mantinha que a redenção da humanidade tinha sido afetada pelo derramamento do sangue Dele. No contexto da carta do Papa, a paixão humana de Jesus, e o derramamento de seu sangue, assumem uma maior consequência do que a Ressureição ou até mesmo do que a mecânica da Crucificação. As implicações desta carta são ultimamente enormes. Como tem observado um comentador, eles alteram a inteira base da crença cristã. Se a redenção da humanidade foi alcançada pelo derramamento do sangue de Jesus, sua morte e ressureição se tornam incidentais, se não de fato superfluos. Jesus não precisava ter morrido na cruz para que a fé mantivesse sua validade.
A Conspiração Através dos Séculos
Como iriamos sintetizar a evidência que tinhamos acumulado? Muito dela era impressiva e parecia manter o testemunho de algo de algum padrão, algum projeto coerente. A lista dos alegados Grão Mestres do Sião, contudo improvável como originalmente tinha se parecido, agora apresentava algumas consistências interessantes. A maioria das figuras na lista estavam ligadas, por exemplo, ou por sangue ou associação pessoal, com as famílias cujas genealogias figuravam nos Documentos do Priorado e particularmente com a casa de Lorreine. A maioria das figuras na lista estavam envolvidas com ordens de um tipo ou outro, ou com sociedades secretas. Virtualmente todas as figuras na lista, até mesmo quando nominalmente católicas, mantinham crenças religiosas não ortodoxas. Virtualmente todas elas estavam imersas no pensamento e tradição esotéricos. E em quase todos os casos tem havido alguma espécie de contacto íntimo entre um alegado Grão Mestre, seu predecessor e seu sucessor. Não obstante, estas consistências, tão impressivas quanto possam ser, necessariamente não provam algo. Elas não provam, por exemplo, que o Priorado de Sião, cuja existência durante a Idade Média tinha sido confirmada, tivesse realmente continuado a sobreviver pelos séculos subsequentes. Ainda menos elas provam, por exemplo, que indivíduos citados como Grão Mestres realmente mantiveram esta posição. Ainda que nos pareça incrível que alguns deles realmente o tenham feito. Tanto quanto diga respeito a certos indivíduos, a idade na qual eles alegadamente se tornaram Grão Mestres argumenta contra eles. Garantidamente, era possível que Edouard de Bar possa ter sido eleito Grão Mestre aos cinco anos de idade ou que Rene D’Anjou o fosse aos oito anos com base em princípio hereditário. Mas nenhum de tal princípio parece ser obtido para Robert Fludd ou Charles Nodier, que supostamente se tornaram Grão Mestres aos 21 anos, ou para Debussy, que supostamente o fez aos 23.
Tais indivíduos não tiveram tempo para percorrer seu caminho pelos escalões, como alguém pode, por exemplo, na Livre Maçonaria. Nem eles haviam se tornado solidamente estabelecidos em suas próprias esferas. Esta anomalia não faz qualquer sentido aparente. A menos que se assuma que o Grão Mestrado de Sião fosse frequentemente puramente simbolico, uma posição ritual ocupada por uma figura cabeça que, talvez, não estivesse ciente do status atribuido a ela. Contudo tem se provado fútil especular ao menos com base na informação que possuimos. Portanto voltamos novamente a história, buscando a evidência do Priorado de Sião em outros lugares, diferentes da lista citada dos alegados Grão Mestres. Lançamos particularmente nossa sorte na casa de Lorreine, e algumas outras famílias citadas nos Documentos. E buscamos evidência adicional para o trabalho de uma sociedade secreta, agindo mais ou menos encobertamente por trás das cenas. Se ela fosse de fato genuinamente secreta, não podiamos, com certeza, esperar encontrar o Priorado de Sião explicitamente mencionado por este nome. Se ela tivesse continuado a funcionar através dos séculos, ela o teria feito sob uma variedade de máscaras e disfarces, frentes e fachadas exatamente como ela supostamente funcionou por um tempo sob o nome de Ormus, o que é descartado. Nem ela teria apresentado uma única e óbvia política específica, posição política ou atitude prevalente. De fato qualquer tal caso coesivo e unificado, até mesmo se visto de relance, teria sido altamente suspeito. Se estamos lidando com uma organização que tem sobrevivido por nove séculos, temos que creditar a ela uma considerável flexibilidade e adaptabilidade. Sua própria sobrevivência deve ter dependido destas qualidades. E sem elas, ela teria degenerado em uma forma vazia, tão vazia de poder real, como, vamos dizer, o Oficial da Casa Real da Guarda. Em resumo, o Priorado de Sião não pode ter permanecido rígido e imutável por toda sua história. Ao contrário, ele deve ter sido compelido a mudar periodicamente, se modificar e suas atividades, se ajustar e aos seus objetivos, a um mutante caleidoscópio dos assuntos mundiais exatamente como as unidades de cavalaria durante o século passado tem sido compelidas a trocarem seus cavalos por tanques e carros blindados. Nesta capacidade de se corformar a uma dada idade e explorar e dominar sua tecnologia e seus recursos, o Sião teria constituido um paralelo ao que pareceria seu rival exotérico, a Igreja Catolico Romana; ou talvez para citar um exemplo enganosamente sinistro, a organização conhecida como Máfia. Não vemos, com certeza, o Priorado de Sião como vilões não adulterados. Mas a Máfia ao menos forneceu o testemunho de como, ao se adaptar de idade a idade, uma sociedade secreta pode existir, e um tipo de poder que ela pode exercer.
O Priorado de Sião na França
Segundo os Documentos do Priorado, o Sião entre 1306 e 1480 possuia nove membros de comando. Em 1481, quando Rene D’Anjou morreu, este número foi supostamente expandido para 27. Os mais importantes são listados como tendo sido situados em Bouges, Gizors, Jarnac, Mont Saint-Michel, Montreval, Paris, Le Puy, Solesmes e Stenay. E os Dossiês Secretos acrescentam cripticamente, havia ‘um arco chamado Bethanis cas de Anne situada em Rennes-le-Chateau”. Não está precisamente claro o que significa esta passagem, exceto que Rennes-le-Chateau pareceria desfrutar de algum tipo de significado altamente especial. E certamente não pode ser coincidental que Sauniere, ao construir sua vila, então a batizou de Vila Bethania. Segundo os Dossiês Secretos, a jurisdição do comandante em Gizors datou de 1306 e estava situada na Rue de Vienne. De lá isso supostamente se comunicava, por meio de uma passagem subterrânea, com o cemiterio local e com a capela subterrânea de Santa Catarina localizada sob a fortaleza. No século XVI esta capela, ou talvez uma cripta adjacente a ela, é dito ter se tornado um depositório dos arquivos do Priorado de Sião, guardados em trinta cofres. Já em 1944, quando Gizors foi ocupada pelo pessoal alemão, uma missão especial foi enviada de Berlim, com instruções para planejar uma série de excavações sob a fortaleza. A invasão aliada da Normandia impediu tal realização; mas não muito depois, um trabalhador francês chamado Roger Lhomoy embarcou em suas próprias escavações. Em 1946 ele anunciou ao Prefeito de Gizors que ele tinha encontrado uma capela subterrânea contendo nove sarcófagos de pedra e trinta cofres de metal. Sua petição para escavar poteriormente, e tornar pública sua descoberta, foi retardada quase deliberadamente e pode ver por uma oficial fita vermelha. Ao menos, em 1962, Lhomoy começou suas solicitadas escavações em Gizors. Elas foram realizadas sob os auspícios de Andre Malraux, o Ministro francês da Cultura naquele tempo, e não foram oficialmente abertas ao público. Certamente nenhum cofre ou sarcófago foi encontrado. Se a capela subterrânea foi encontrada tem sido debatido na imprensa, bem como em vários livros e artigos. Lhomoy insistiu que ele encontrou novamente seu caminho para a capela, mas seus conteúdos haviam sido removidos. Seja qual for a verdade sobre este assunto, há menção da capela subterrânea de Santa Catarina em dois velhos manuscritos, um datado de 1696 e o outro de 1375. Sobre esta base, a história de Lhomoy se torna ao menos plausível. Assim o faz a avaliação de que a capela subterrânea era um depositório dos arquivos de Sião. Para nós, em nossa própria pesquisa, encontramos prova conclusiva que o Priorado de Sião continuou a existir por ao menos três séculos depois das Cruzadas e da dissolução dos Cavaleiros Templários. Entre o início do século XIV e até o século XVII, por exemplo, os documentos pertinentes a Orleans, e a base em Sião lá em Saint Samson, faz referências esporádicas a Ordem. Então está no registro que no início do século XVI membros do Priorado de Sião em Orleans ao desconsiderar suas ‘regras’ e se recusar ‘a viver em comum’ sendo licensiosos, residindo fora dos muros de Saint-Samson, boicotando os serviços divinos e negligenciando em reconstruir as paredes da casa, que haviam sido seriamente danificadas em 1562. Por 1619 as autoridades pareciam ter perdido a paciencia. Naquele ano, segundo os registros, o Priorado de Sião foi expluso de Saint- Samson e a casa foi entregue aos Jesuítas. A partir de 1619 não pudemos encontrar referências ao Priorado de Sião, a qualqur nível sob seu nome. Mas se nada mais, podemos ao menos provar sua existência até o século XVII. E ainda que a própria prova, tal como ela era, levantasse um número de questões cruciais.
Em primeiro lugar as referências encontradas não lançam luz sobre quais foram as reais atividades do Sião, seus objetivos e interesses ou possivelmente sua influência. Em segundo lugar, estas referências, parecia, tinham o testemunho somente de algo de consequência insignificante, uma fraternidade curiosamente fugidia de monges ou devotos religiosos cujo comportamento, embora não ortodoxo e talvez clandestino, era relativamente de menor importância. Não pudemos reconciliar os ocupantes aparentemente negligentes de Saint-Samson com os celebrados e legendários Rosacruzes, ou um bando de monges voluntariosos com uma instituição cujos Grão Mestres supostamente compreendiam alguns dos nomes mais ilustres no história e cultura ocidentais. Segundo os Documentos do Priorado, Sião era uma organização de considerável poder e influência, responsável pela criação dos Templários e por manipular o curso dos assuntos internacionais. As referências que encontramos nada sugeriram de uma tal magnitude. Uma explicação possível, com certeza, foi que Saint-Samson em Orleans era apenas um assento isolado, e provavelmente um menor, das atividades de Sião. E de fato a lista das importantes jurisdições de comando nos Dossiês Secretos nem mesmo incluem Orleans. Se Sião era de fato uma força a ser reconhecida, Orleans pode ter sido apenas um pequeno fragmento de um padrão muito mais amplo. E se este foi o caso, teriamos que procurar por traços da Ordem em outros lugares.
Os Duques de Guise e Lorreine
Durante o século XVI a casa de Lorreine e seu ramo cadete, a casa de Guise, fex uma tentativa combinada e determinada de derrubar a dinastia Valois da França e exterminar a linhagem de Valois e reclamar o trono francês. Esta tentativa, em várias ocasiões veio com um alento fino de suprendente sucesso. No curso de alguns trinta anos todos os governantes Valois, herdeiros e príncipes foram dizimados, e a linhagem levada a extinção. A tentativa de se apoderar do trono francês se estendeu através de três gerações de familia dos Guises e Lorraine. Ela chegou mais perto do sucesso nos anos de 1550 e 1560 sob os auspícios de Charles, Cardeal de Lorraine e de seu irmão, François, Duque de Guise. Charles e François eram relacionados a família Gonzaga de Mantua e a Charles de Montpensier, Policial de Bourbon listado nos Dossiês Secretos como Grão Mestre de Sião até 1527. Sobretudo, François, Duque de Lorrraine, tem sido estigmatizado pelos últimos historiadores tão raivosamente e fanáticos católicos, intolerante, brutal e sedento de sangue. Mas há evidência substancial a sugerir que a reputação dele é em alguma extensão não justificada, ao menos quanto diga respeito a aderência ao catolismo. François e seu irmão aparecem, muito patentemente, terem sido acalorados, se não ambiciosos, oportunistas, cortejando tanto católicos quanto protestantes em nome de seu projeto ulterior. Em 1562, por exemplo, no Concílio de Trento, o Cardeal de Lorraine lançou uma tentativa para descentralizar o Papado e conferir autonomia aos bispos locais e restaurar a hierarquia eclesiástica ao que havia sido nos tempos Merovíngios.
Por 1563 François de Guise já era virtualmente o rei quando caiu sob uma bala de um assassino. Seu irmão, o Cardeal de Lorraine, morreu doze anos depois, em 1575. Mas a vingança contra a linhagem real francesa não cessou. Em 1584 o novo Duque de Guise e o novo cardeal de Lorraine embarcaram em um novo assalto contra o trono. Seu principal aliado neste emprendimento era Luis Gonzaga, Duque de Nevers, que, segundo os Documentos do Priorado, tinha se tornado Grão Mestre de Sião nove anos antes. A bandeira dos conspiradores era a cruz de Lorraine, o antigo emblema de Rene D’Anjou. A luta continuou. Pelo fim do século os Valois estavam extintos. Mas a casa de Guise tinha ela própria sangrado até a morte no processo, e não podia apresentar nenhum candidato elegível para um trono que finalmente tinha caído sob suas garras. Simplesmente não é sabido se havia uma sociedade secreta, ou ordem secreta, apoiando as casas de Guise e Lorraine. Certamente eles foram auxiliados por uma rede internacional de emissários, embaixadores, assasinos, agentes provocadores, espiões e agentes que podem muito bem ter compreendido uma tal instituição clandestina. Segundo Gerard de We, um desses agentes era Nostradamus que de fato era um agente secreto trabalhando para François de Guise e Charles, Cardeal de Lorraine. Se Nostradamus era um agente para as casas de Guise e Lorraine, ele pode ter sido responsável por fornecer a elas importante informação concernente as atividades e planos de seus adversários, mas ele também, em sua capacidade de astrólogo da côrte francesa, teria sido familiarizado de todas as maneira com os segredos íntimos, bem como costumes diferentes e fraquezas de personalidade. Ao jogar com as vulnerabilidades com as quais ele se tornou familiriarizado, ele pode ter manipulado psicologicamente os Valois nas mãos de seus inimigos. E em virtude de sua familiaridade com os horóscopos deles, ele pode muito bem ter avisado aos inimigos deles sobre, vamos dizer, um momento aparentemente propício para assassinato. Muitas das profecias de Nostradamus, em resumo, podem não terem afinal profecias. Elas podem ter sido mensagens crípticas, cifras, programações, tabelas de tempo, instruções, projetos para ação. Se este realmente foi ou não o caso, não há dúvida de que algumas profecias de Nostradamus não eram profecias, mas se referiam, muito explicitamente, ao passado dos Cavaleiros Templários, a dinastia Merovíngia, a história da casa de Lorraine. Um número desconcertante delas se refere aos Razes, o velho Conde de Rennes-le-Chateau. E númerosas quartilhas se referem ao advento de um ‘Grande Monarca’. O Grande Monarca indica que este soberano derivará ultimamente de Languedoc. Nossa pesquisa revelou um fragmento adicional que ligava Nostradamus ainda mais diretamente a nossa investigação. Segundo Gerard de Sede, bem como a história popular, Nostradamus, antes de embarcar em sua carreira como profeta, passou um tempo considerável em Lorraine. Isto pareceria ser algum tipo de noviciado, ou período de provação, depois do qual ele teria sido supostamente iniciado em algum segredo portentoso. Mais especificamente ele é dito ter sido apresentado a um livro antigo e arcano, sobre o qual ele baseou todo seu trabalho subsequente. E este livro foi reportadamente divulgado a ele em um lugar muito importante na misteriosa Abadia de Orval, doado pela mãe adotiva de Godfroi de Bouillon, onde nossa pesquisa sugeriu que o Priorado de Sião pode ter tido o seu início. Em qualquer caso, Orval continuou, por outros dois séculos, a ser associado ao nome de Nostradamus. Tão tarde quanto durante a Revolução Francesa e a era Napoleônica os livros de profecias, supostamente de autoria de Nostradamus, eram emitidos de Orval.
O Lance pelo Trono da França
Por meados dos anos de 1620 o trono da França foi ocupado por Luis XIII. Mas o poder por trás do trono, e o real arquiteto da política francesa, era o primeiro ministro do rei, o Cardeal Richelieu. Richelieu é geralmente reconhecido por ter sido super maquiavélico, o supremo maquinador de sua era. Ele pode também ter sido algo mais. Conquanto Richelieu estabelecesse uma estabilidade sem precedentes na França, o resto da Europa e especialmente a Alemanha se inflamavam nos sofrimentos da Guerra dos Trinta Anos. Em suas origens, a Guerra dos Trinta Anos não era essencialmente religiosa. Não obstante, ela rapidamente se tornou polarizada em termos religiosos. Por um lado estavam as forças resolutamente católicas da Espanha e da Áustria. Por outro lado estavam os exércitos protestantes da Suécia e de pequenas principalidades alemãs – incluindo o Palatinado do Reno, cujos regentes, o Eleitor Frederico e sua esposa Elizabeth Stuart estavam no exílio em Haia. Frederico e seus aliados de campo eram endossados e apoiados pelos pensadores e escritores rosacrucianos do continente e da Inglaterra. Em 163 o Cardeal Richelieu embarcou em uma política audaciosa e aparentemente incrível. Ele levou a França para a Guerra dos Trinta Anos mas não do lado que se poderia esperar. Para Richelieu, um número de considerações tomaram precedência sobre suas obrigações religiosas como Cardeal. Ele buscava estabelecer a supremacia da França na Europa. Ele buscava neutralizar a perpétua e tradicional ameaça oferida à segurança francesa pela Áustria e a Espanha. Ele buscava abalar a hegemonia espanhola que havia sido obtida por mais de um século especialmente no velho coração da terra Merovíngia dos Países Baixos e partes da moderna Lorraine. Como resultado destes fatores, a Europa foi tomada de surpresa pela ação sem precedentes de um Cardeal católico, presidindo um país católico, despachando tropas católicas para combater com os protestantes contra outros católicos. Nenhum historiador tem até mesmo sugerido que Richelieu fosse um rosacruciano. Mas ele não podia possivelmente ter feito algo mais do que manter atitudes rosacrucianas, ou mais provavelmente ganhar o favor rosacruciano. Neste meio tempo a casa de Lorraine tinha novamente começado a aspirar, embora obliquamente, o trono francês. Desta vez o reclamante era Gaston D’Orleans, o irmão mais jovem de Luis XIII. Gaston não era ele próprio da casa de Lorraine. Em 1632, contudo, ele havia se casado com a irmã do Duque de Lorraine. Seu herdeiro portanto teria o sangue de Lorraine pelo lado materno; e se Gaston subisse ao trono Lorraine presidiria a França na próxima geração. Esta perspectiva era suficiente para mobilizar apoio. Entre estes avaliados apoiadores dos direitos de sucessão de Gaston encontramos um individuo que já haviamos encontrado antes de Charles, o Duque de Guise. Charles tinha sido tutelado pelo jovem Robert Fludd. E ele havia se casado com Henriette Catarine de Joueeuse, proprietária de Couiza e Arques – onde a tumba identica aquela da pintura de Poussin foi encontrada.
Tentativas para depor Luis em favor de Gaston fracassaram, mas o tempo parecia estar do lado de Gaston; ou ao menos do lado dos herdeiros de Gaston, porque Luis XIII e sua esposa Anne da Áustria permaneciam sem herdeiros. Já existiam rumores em circulação que o rei era homossexual ou sexualmente incapacitado; e de fato, segundo certos relatos a seguir sua subsequente autópsia, ele foi pronunciado incapaz de gerar filhos. Mas então, em 1638, depois de 23 anos de casamento consideradamente estéril, Anne da Áustria subitamente teve um filho. Poucas pessoas naquele tempo acreditaram na legitimidade do menino, e ainda há considerável dúvida quanto a isso. Segundo autores contemporaneos e posteriores, o pai do menino era o Cardeal Richelieu, ou talvez alguém empregado por Richelieu, muito possivelmente seu protegido e sucessor Cardeal Mazarin. Foi até mesmo afirmado que depois da morte de Luis XIII Mazarin a Anne se casaram secretamente. Em qualquer caso, o nascimento do herdeiro de Luis XIII foi uma séria explosão nas esperanças de Gaston d’Orleans e da casa de Lorraine. E quando Luis e Richelieu morreram em 1642, a primeira de uma série de tentativas concertadas foi lançada para expulsar Mazarin e tirar o jovem Luis XIV do trono. Estas tentativas, que começaram como levantes populares, culminaram em uma guerra civil que irrompeu intermitentemente por dez anos. Para os historiadores, a guerra é conhecida como Fronde. Além de Gaston D’Orleans, seus instigadores principais incluem um número de nomes, famílias e títulos que já nos são familiares. Houve Frederic-Maurice de la Tour dAuvergne, Duque de Bouillon. Houve o Visconde de Turenne. Houve o Duque de Longueville – neto de Luis Gonzaga, Duque de Nevers, e alegado Grão Mestre de Sião meio século antes. A sede e capital dos ‘frondeurs’ era, muito significativamente, a antiga cidade das Ardenas de Stenay.
A Companhia do Santo Sacramento
Segundo os Documentos do Priorado, o Priorado de Sião, durante meados do século XVII, se dedicou a depor Mazarin. Muito claramente isso pareceria não ter sido bem sucedido. A Fronde fracassou, Luis XIV ascendeu ao trono da França e Mazarin, emboras brevemente removido, foi rapidamente reinstalado, presidindo como primeiro ministro até sua morte em 1660. Mas se Sião de fato se devotou a depor Mazarin, ao menos temos algum vetor para isso, alguns meios de localizar e verificar isso. Dado as famílias envolvidas no Fronde, famílias cujas genealogias figuram nos Documentos do Priorado, pareceu razoável associar Sião aos instigadores do tumulto. Os Documentos do Priorado tem avaliado que Sião se opunha ativamente a Mazarin. Eles também avaliaram que certas famílias e títulos – Lorraine, por exemplo, Gonzaga, Nevers, Guise, Longueville e Bouillon não tinham sido apenas abertamente ligadas a Ordem, mas também forneceram a ela alguns de seus Grão Mestres. E a história confirmou que foram estes nomes e títulos que tinham se esgueirado na linha de frente da resistência ao Cardeal. Assim parece que haviamos localizado o Priorado de Sião, e que tinhamos identificado ao menos alguns de seus membros. Se estivesssemos certos, Sião durante o período em questão, ao mesmo a qualquer nível, foi um outro nome para um movimento e uma conspiração que a muito os historiadores tem reconhecido e identificado. Mas se os ‘freudeurs’ constituem um enclave de oposição a Mazarin, eles não eram os únicos de tais enclaves. Havia outros também, enclaves entrelaçados que funcionavam não apenas durante o Fronde mas muito depois. Os Documentos do Priorado, eles próprios, se referem repetida e insistentemente a Companhia do Santo Sacramento. Eles implicam, muito claramente, que a Companhia era de fato Sião, ou uma fachada para Sião, operando sob um outro nome. E certamente a Companhia em suas estruturas, organização, atividade e modos de operação se conformavam a imagem que haviamos começado a formar de Sião. A Companhia do Santo Sacramento era uma sociedade secreta altamente organizada e eficiente. Não há questionamento disso ser fictício. Ao contrário, sua existência tem sido reconhecida por seus contemporaneos, bem como pelos historiadores subsequentes. Ela tem sido exaustivamente documentada, e numerosos livros e artigos tem sido devotados a ela. Seu nome é bastante familiar na França, e continua a desfrutar de uma certa mística atual.
Alguns de seus papéis tem até mesmo vindo a luz. A Companhia é dito ter sido fundada, entre 1627 e 1629, por um nobre associado a Gaston d’Orleans. Os indivíduos que guiaram e formaram sua política permaneceram escrupulosamente anônimos, contudo, e ainda hoje o são. Os únicos nomes definitivamente asociados a ela são aqueles de membros de baixo escalão ou intermediários de sua hierarquia de ‘homens de frente’, por assim dizer, que agiam sob instruções dos acima. Um desses era o irmão da Duquesa de Longueville. Um outro era Charles Fouquet, irmão do Superintendente de Finanças de Luis XIV. E havia um tio do filósofo Fenelon que, meio século mais tarde, exerceu uma profunda influência na Livre Maçonaria como Cavaleiro Ramsay. Entre estes mais proeminentemente associados a Companhia estava a figura misteriosa agora conhecida como São Vicente de Paulo, e Nicolas Pavillon, bispo de Alet, o centro a poucas milhas de Rennes-le-Chateau, e Jean Jacques Olier, fundador do Seminário de São Suspílcio. De fato São Suspílcio é reconhecido agora geralmente ter sido o centro de operações da Companhia. Em suas organizações e atividades, a Companhia ecoava a Ordem do Templo e prefigurava a posterior Maçonaria Livre. Trabalhando de São Suspílcio, ela estabeleceu uma rede intrincada de ramos e capítulos provinciais. Os membros provinciais permaneceram ignorantes da identidade de seus diretores. Eles eram frequentemente manipulados em benefício de objetivos que eles próprios não partilhavam. Eles eram até mesmo proibidos de contactar uns aos outros exceto via Paris, assim assegurando um controle altamente centralizado. E até mesmo em Paris os arquitetos da sociedade permaneciam desconhecidos daqueles que obedientemente os serviam. Em resumo, a Companhia compreendia uma organização em cabeça de hidra com um coração invisível. Até hoje não é sabido o que constituia o coração. Nem quem o constituia. Mas é sabido que o coração bate de acordo com algum segredo velado e poderoso. Narrativas contemporaneas referem-se expecificamente ao ‘segredo que está no núcleo da companhia’. Segundo um dos estatutos da sociedade, descoberto não muito depois, ‘o canal primário que forma o espírito da Companhia, e que é essencial a ela, é o segredo’. Até onde diga respeito aos membros noviços não iniciados, a Companhia era ostensivamente devotada ao trabalho caritativo, especialmente em regiões devastadas pelas Guerras de Religião e subsequentemente o Fronde na Picardia, por exemplo, Champagne e Lorraine.
Agora é geralmente aceito, contudo, que este ‘trabalho caritativo’ era meramente uma fachada conveniente e engenhosa, que tinha pouco a ver com a razão de ser da Companhia. A real razão de ser era duplamente se engajar no que era chamado de ‘pia espionagem’, reunir ‘informação de inteligência’, e infiltrar os ofícios mais importantes na terra, incluindo os círculos em proximidade direta ao trono. Nestes objetivos a Companhia parece ter desfrutado um notável sucesso. Como membro do real ‘Conselho de Consciência’, por exemplo, Vicente de Paulo se tornou confessor de Luis XIII. Ele também foi um íntimo conselheiro de Luis XIV até que sua oposição a Mazarin o forçou a abdicar de sua posição. E a Rainha Mãe, Anne da Áustria, foi, em muitos aspectos, um peão infeliz da Companhia, que por um tempo gerenciou a qualquer nível volta-la contra Mazarin. Mas a Companhia não se confinou exclusivamente ao trono. Em meados do século XVII ela podia manter o poder sobre a aristocracia, o parlamento, o judiciário e a polícia – tanto assim, que em várias ocasiões estes corpos abertamente ousaram desafiar o rei. Em nossas pesquisas não encontramos historiadores, escrevendo seja na época ou mais recentemente, que explicassem adequadamente a Companhia do Santo Sacramento. A maioria das autoridades a apresentam como uma organização militante arqui católica, um bastião rigidamente entrincheirado e ortodoxamente fanático. As mesmas autoridades afirmam que ela se devotava a remover os heréticos. Mas porque, em um país devotamente católico, deve uma tal organização ter vindo a funcionar com tal estrito segredo? E quem constituia um herético naquele tempo? Os Protestantes? os Jansenistas? De fato havia inúmeros protestantes e jansenistas dentro das fileiras da Companhia. Se a Companhia era piamente católica, ela devia, na teoria, ter endossado o Cardeal Mazarin, que, afinal, incorporava os interesses católicos naquele tempo. Ainda que a Companhia militantemente se opusesse ao Cardeal e tanto que Mazarin, perdendo toda sua tempera, jurou empregar todos os seus recursos para destrui-la. E o que é mais, a Companhia provocou a vigorosa hostilidade em outras partes convencionais também.
Os Jesuítas, por exemplo, assiduamente faziam campanha contra ela. Outras autoridades católicas acusavam a Companhia de ‘heresia’, a própria coisa que a Companhia propôs se opor. Em 1651 o bispo de Toulouse acusou a Companhia de ‘práticas ímpias’ e apontou algo altamente irregular em suas cerimônias – um eco curioso das acusações levantadas contra os Templários. Ele até mesmo ameaçou os membros da sociedade com a excomunhão. A maioria deles acaloradamente desafiava esta ameaça com uma resposta extremamente singular aos supostamente pios católicos. A Companhia havia sido sido formada quando o furor rosacruciano ainda estava em seu zênite. A ‘fraternidade invisível’ era acreditada estar em todos os lugares, omnipresente e isto gerou não apenas pânico e paranóia mas também a inevitável ‘caça às bruxas’. E ainda que nem mesmo um traço tenha sido encontrado de um rosacruciano carregando os cartões em qualquer lugar, ao menos em toda França católica. Até onde diga respeito a França, os rosacrucianos permaneceram invenções de uma imaginação popular alarmista. Ou eles existiram? Se houve de fato interesses ‘rosacrucianos’ determinados a estabelecer um apoio para os pés na França, que melhor fachada poderia ser que uma organização dedicada a caçar rosacrucianos? Em resumo, os rosacrucianos podem ter levado adiante seus objetivos, e ganhado um acompanhamento na França, ao se passar por seu próprio arqui inimigo. A Companhia bem sucedidamente desafiou Mazarin e Luis XIV. Em 1660, menos de um ano antes da morte de Mazarin, o rei pronunciou-se oficialmente contra a Companhia e ordenou sua dissolução. Pelos próximos cinco anos a Companhia desdenhosamente ignorou o édito real. Ao menos, em 1665, ela concluiu que não podia continuar a operar em sua ‘presente forma’. Concomitantemente todos os documentos pertinentes a sociedade foram reconvocados e escondidos em algum depositório secreto em Paris. Este depositório nunca foi localizado embora geralmente seja acreditado ter sido em São Suspílcio. Se assim o foi, os arquivos da Companhia teriam sido disponíveis, mais do que dois séculos mais tarde, para homens como o Abade Emile Hoffet. Mas embora a Companhia deixasse de existir no que era então sua ‘presente forma’, não menos ela continuou a operar ao menos até o início do século seguinte, ainda constituindo um espinho no quadril de Luis XIV.
Segundo tradições não confirmadas ela sobreviveu bem para dentro do século XX. Se esta última avaliação é verdadeira ou não, não há dúvida de que a Companhia sobreviveu a sua suposta dissolução em 1665. Em 1667 Moliere, um leal aderente de Luis XIV, atacou a Companhia por certas veladas mas agudas alusões em ‘Le Tartuffe’. A despeito de sua aparente extinção, a Companhia retaliou ao ter a peça suprimida e a guardando por dois anos, a despeito do patrocínio real de Moliere. E a Companhia parece ter empregado seu próprio portavoz literário também. É murmurado, por exemplo, ter incluido La Rochefoucauld que certamente foi ativo no Fronde. Segundo Gerard de Sede, La Fontaine também era um membro da Companhia, e suas fábulas encantadoras e ostensivamente inócuas eram de fato ataques alegoricos ao trono. Isto não é inconcebível. Luis XIV desgostava intensamente de La Fontaine, e ativamente se opôs a sua admissão na Academia Francesa. E os patronos e patrocinadores de La Fointaine incluiam o Duque de Guise, o Duque de Bouillon e o Visconde de Turenne e a viúva de Gaston d’Orleans. Na Companhia do Santo Sacramento assim encontramos uma real sociedade secreta, muitas das quais a história estava a registro. Ela era ostensivamente católica, mas não obstante ligada a atividades distintamente não católicas. Ela era intimamente associada com certas famílias aristocráticas que tinham sido ativas no Fronde e cujas genealogias figuravam nos Documentos do Priorado. Ela estava estreitamente ligada a São Suspílcio. Ela trabalhava primariamente pela infiltração e veio a exercer enorme influência. E ela era ativamente oposta ao Cardeal Mazarin. Em todos estes aspectos, ela se conformava quase que perfeitamente a imagem do Priorado de Sião como apresentada nos Documentos do Priorado. Se Sião de fato estava ativo durante o século XVII, podemos assumir razoavelmente que ele tenha sido sinônimo da Companhia. Ou talvez com o poder por trás da Companhia.
Castelo Barberie
Segundo os Documentos do Priorado, a oposição de Sião a Mazarin provocou a amarga retribuição do Cardeal. Entre as principais vítimas desta retribuição é dito ter estado a família Plantard, descendentes lineares de Dagoberto II e da dinastia Merovíngia. Em 1548, afirmam os documentos do Priorado, Jean des Plantard tinha se casado com Marie de Saint-Clair assim fabricando um outro link entre a sua famíla e aquela de Saint-Clair/Gizors. Por aquele tempo também, a família Plantard estava supostamente estabelecida em um certo Chateau Barberie perto de Nevers, na região Nivernais da França. Este castelo supostamente constituia a residência oficial da família Plantard pelo século seguinte. Então, em 11 de julho de 1659, segundo os Documentos do Priorado, Mazarin ordenou o arrasamento e a destruição total do castelo. Na conflagração que se seguiu, é dito que a família Plantard perdeu todas as suas posses. Nenhum livro convencional ou estabelecido de história, nem a biografia de Mazarin, confirmaram estas avaliações. Nossas pesquisas não encontraram menção seja ela qual fosse a uma família Plantard em Nivernais, ou, de início, a qualquer Castelo Barberie. E ainda que Mazarin, por alguma razão não especificada, cobiçasse Nivernais e invejassse o Duque de Nevers. Eventualmente ele conseguiu comprar deles e o contrato é assinado em 11 de julho de 1659, o mesmo dia no qual é dito que o Castelo Barberie foi destruido. Isto nos provocou investigar o assunto posteriormente. Eventualmente exumamos uns poucos fragmentos esparsos de evidência. Eles não eram suficientes para explicar as coisas, mas eles atestaram a veracidade dos Documentos do Priorado. Em uma compilação, datada de 1506, de propriedades e bens em Nivernais é mencionado um Barberie. Uma carta de direitos de 1575 mencionou um pequeno vilarejo em Nivernais chamado Les Plantards. Mais convincente de todos, ele transpirava a existência de um Castelo Barberie que de fato tinha sido estabelecido. Durante 1874-5 membros da Sociedade de Letras, Ciências e Artes de Nevers realizaram uma escavação exploratória no sítio de certas ruínas. Foi um empreendimento difícil, porque as ruínas estavam quase irreconhecíveis como tais, as pedras haviam sido vitrificadas pelo fogo e o próprio sítio foi espessamente encoberto por árvores. Eventualmente, contudo, remanescentes de uma parde de torre e de um castelo foram descobertos. Este sítio agora é reconhecido ter sido Barberie.
Antes de sua destruição ele aparentemente consistia de um pequeno centro fortificado e um castelo. E está dentro de uma pequena distância do pequeno vilarejo de Les Plantards, e não há razão para não ter sido possuído por um família deste nome. O fato curioso é que não há registro de quando o castelo foi desrtuído, nem por quem. Se Mazarin foi o responsável, ele parece ter tido extraordinárias dores para erradicar todos os traços de sua ação. De fato pareceu ter sido uma tentativa metódica e sistemática de dizimar o Castelo Barberie do mapa e da história. Porque embarcar em um tal processo de obliteração, a menos que haja algo a esconder?
Nicolas Fouquet
Mazarin tinha outros inimigos além dos ‘frondeurs’ e da Companhia do Santo Sacramento. Entre os mais poderosos deles estava Nicolas Fouquet, que em 1653, tinha se tornado Superintendente das Finanças de Luis XIV. Um homem dotado, ambicioso e precoce, Fouquet, dentro dos próximos poucos anos, tiha se tornado o mais rico e mais poderoso indivíduo no reino. Ele as vezes era chamado de ‘o verdadeiro rei da França’. E ele não era sem aspirações políticas. Era murmurado que ele pretendia fazer da Britania um ducado independente e ele próprio seu duque presidente. A mãe de Fouquet era um membro proeminente da Companhia do Santo Sacramento. E assim o era seu irmão Charles, Arcebispo de Narbonne no Languedoc. Seu irmão mais novo, Luis, também era um eclesiástico. Em 1656 Nicolas Fouquet despachou Luis para Roma, por razões – não necessariamente misteriosas – nunca explicadas. De Roma, Luis escreveu uma carta enigmática citada anteriormente que fala de um encontro com Poussin e um segredo ‘que até mesmo os reis teriam grandes dores para tirar dele”. E de fato, se Luis foi indiscreto na correspondência, Poussin nada deu seja o que fosse. Seu selo pessoal tinha o moto ‘Tenet Confidentiam’.
Em 1661 Luis XIV ordenou a prisão de Nicolas Fouquet. As acusações eram estremamente gerais e nebulosas. Havia acusações vagas de mal versação de fundos e outras, até mesmo mais vagas, de sedição. Com base nestas acusações todas as propriedades de Fouquet foram colocadas sob sequestro real. Mas o rei proibiu seus oficiais de tocar nos papéis de correspondência do Superintendente. Ele insistiu em mergulhar e esmiuçar estes documentos pessoalmente e em particular. O seguinte julgamento se arrastou por quatro anos e se tornou uma sensação na França daquele tempo, violentamente partindo e polarizando a opinião pública. Luis Fouquet que havia se encontrado com Poussin e escrito a carta de Roma estava morto então. Mas a mãe do Superintendente e o irmão sobrevivente mobilizaram a Companhia do Santo Sacramento, cuja afiliação também incluia um dos juízes presidentes. A Companhia lançou todo seu apoio por trás do Superintendente, trabalhando ativamente pelas cortes e na mente popular. Luis XIV que não era sedento de sangue exigia nada menos do que uma sentença de morte. Recusando-se a ser intimidada por ele, a corte aprovou uma sentença de banimento perpétuo. Ainda exigindo a morte, o rei enraivecido removeu os juízes recalcitrantes e os substituiu por outros mais obedientes, mas a Companhia ainda parecia te-lo desafiado. Eventualmente, em 1665, Fouquet foi sentenciado a prisão perpétua. Por ordens do rei ele era mantido em um rigoroso isolamento. Ele foi proibido de escrever e de todos os meios pelos quais ele podia se comunicar com alguém. E qualquer soldado que alegadamente conversasse com ele era destinado as navios de prisão ou, em alguns casos, enforcado. Em 1665, o ano da prisão de Fouquet, Poussin morreu em Roma. Durante os anos que se seguiram Lus XIV persistentemente se comportou por meio de seus agentes para obter a pintura única dos “Pastores da Arcadia”. Em 1685 ele finalmente o conseguiu. Mas a pintura não foi mostrada ou exibida nem mesmo na residência real. Ao contrário, ela foi sequestrada nos apartamentos particulares do rei, onde ninguém podia ve-la sem a autoridade pessoal do monarca. Há uma nota de rodapé na história de Fouquet, para sua própria desgraça, seja qual for suas causas e magnitude, ele nunca foi visitado por seus filhos.
Em meados do século seguinte o neto de Fouquet, o Marquês de Belle-Isle, tinha se tornado, de fato, o único homem mais importante na França. Em 1718 o Marquês de Belle-Isle cedeu a própria Belle-Isle, uma ilha fortificda fora da costa de Breton para a coroa. Em troca ele recebeu certos territórios interessantes. Um deles foi Longueville, cujos antigos duques e duquesas tinham figurado recorrentemente em nossa investigação. E um outro foi Gizors. Em 1718 o Marquês de Belle-Isle tornou-se Conde de Gizors. Em 1742 ele se tornou Duque de Gizors. E em 1748 Gizors foi elevada ao status de primeiro ducado.
Nicolas Poussin
O próprio Poussin nasceu em 1594 em um pequeno centro chamado Les Andelys – a umas poucas milhas, descobrimos, de Gizors. Como um jovem homem ele deixou a França e estabeleceu residência em Roma, onde passou a duração de sua vida, voltando apenas uma vez ao seu país natal. Ele voltou a França na década de 1640 a pedido do Cardeal Richelieu, que o havia convidado a realizar uma específica comissão. Embora ele não fosse ativamente envolvido em política, e poucos historiadores tem tocado em seus interesses politicos, Poussin era de fato estreitamente associado ao Fronde. Ele não deixou seu refúgio em Roma. Mas sua correspondência do período o revela tendo estado profundamente envolvido no movimento anti-Mazarin, e em termos surpreendentemente familiares com um número de ‘frondeours’ influentes tanto que, de fato, ao falar deles, ele repetidamente usou o pronome nós. E assim claramente se implicando. Nós já tinhamos traçado os motivos da corrente subterrânea de Alfeu, da Arcadia e dos Pastores da Arcadia, até Rene D’Anjou. Agora buscamos encontrar um antecedente para a frase específica na pintura de Poussin: “ET ARCADIA EGO’. Ela apareceu em uma pintura anterior de Poussin, na qual a tumba é sobreposta por um cranio e não constitui um edifício ela mesma, mas está embebida do lado de um penhasco. No fundo desta pintura repousa uma deidade aquária barbada em uma atitude de melancolia pensativa o rio deus Alfeu, senhor da corrente subterrânea. O trabalho data de 1630 ou 1635, cinco ou dez anos antes da versão mais familiar dos ‘Pastores da Arcadia’. A frase ‘ET ARCADIA EGO’ fez seu aparecimento público entre 1618 e 1623 em uma pintura de Giovanni Francesco Guercino – uma pintura que constitui a base real para o trabalho de Poussin. Na pintura de Guercino, dois pastores, entrando em clareira na floresta, tem apenas dado com sepulcro de pedra. Ele tem a inscrição agora famosa, e há um grande cranio repousando no topo dele. Seja qual for o significado simbólico deste trabalho, o próprio Guercino levantou um número de questões. Não apenas ele era bem versado na tradição esotérica. Ele também parece ter sido um conhecedor da história das sociedades secretas, e algumas outras de suas pinturas lidam com temas de um caráter especificamente maçonico, uns bons vinte anos antes que as lojas começassem a proliferar na Inglaterra e na Escócia. Uma pintura, ‘O Elevar-se do Mestre’ pertence expicitamente a história maçonica de Hiram Abiff, arquiteto e construtor do Templo de Salomão. Ela foi executada quase um século antes que a história de Hiram seja geralmente acreditada e encontre seu caminho na maçonaria. Nos Documentos do Priorado, ‘ET ARCADIA EGO’ é dito ter sido o instrumento oficial da família Plantard desde ao menos o século XII, quando Jean des Plantard se casou com Idoine de Gizors. Segundo uma fonte citada nos Documentos do Priorado, é citado como tal já em 1210 por um Robert, Abade de Mont Saint Michel. Não fomos capazes de obter acesso aos arquivos de Mont Saint Michel e assim não pudemos verificar esta afirmação. Contudo, nossa pesquisa nos convenceu, que a data de 1210 era demostravelmente errada. Como questão de fato, não havia um abade em Mont Saint Michel chamado Robert em 1210. Por outro lado, um Robert de Torigny foi de fato abade de Mont Saint Michel entre 1154 e 1186. E Robert de Tourigny é conhecido ter sido um historiador prolífico e assíduo cujos hobies incluiam colecionar motos, instrumentos, brasões e cotas de armas das famílias nobres pela cristandade. Seja qual for a origem da frase, ‘ET ARCADIA EGO’ parece, para Guercino e Poussin, ter mais do que uma linha de poesia elegíaca. Muito claramente isto parece ter desfrutado de algum significado de importancia secreta, que era reconhecível ou identificável para certas outras pessoas; o equivalente, em resumo, de um sinal ou senha maçonica.
É precisamente em tais termos que uma declaração nos Documentos do Priorado define o caráter da arte simbólica ou alegórica; os trabalhos alegóricos tem esta vantagem, que uma única palavra seja suficiente para iluminar ligações que a multidão não pode alcançar. Tais trabalhos estão disponíveis a todos, mas seu significado se dirige a uma elite. Acima e além das massas, o remetente e o destinatário entendem um ao outro. O sucesso inexplicável de certos trabalhos deriva de sua qualidade de alegoria, que constitui não uma mera moda, mas uma forma de comunicação esotérica. Neste contexto, esta declaração foi dada em relação a Poussin. Como tem demonstrado Frances Yates, contudo, ela pode igualmente ser bem aplicada aos trabalhos de Leonardo, Botticelli e outros artistas da Renascença. Ela também pode ser aplicada a figuras posteriores para Nodier, Hugo, Debussy, Cocteau e seus círculos respectivos.
A Capela Rosslynn e Shugborough Hall
Em nossa pesquisa prévia temos encontrado um número de importantes ligações entre os alegados Grão Mestres de Sião dos séculos XVII e XVIII e a Livre Maçonaria européia. No curso do nosso estudo da Livre Maçonaria descobrimos certas outras ligações também. Estas ligações adicionais não se relacionam aos alegados Grão Mestres como tais, mas elas se relacionam a outros aspectos de nossa investigação, Então, por exemplo, encontramos repetidas referências a família Sinclair, o ramo escocês da família normanda de Saint-Clair/Gizors. O domínio deles em Rosslynn ficava a apenas umas poucas milhas da antiga sede escocesa dos Cavaleiros Templários, e a capela de Rosslynn construída entre 1446 e 1486 a muito tem sido associada a Livre Maçonaria e a Rosacruz. Em uma carta de direitos acreditada datar de 1601, sobretudo, os Sinclairs são reconhecidos como Grão Mestres hereditários da Maçonaria Escocesa. Este é o mais inicial documento específicamente maçonico a registro.
Segundo fontes maçonicas, contudo, o Grão Mestrado hereditário foi conferido aos Sinclairs por James II, que governou entre 1437 e 1469 na era de Rene D’Anjou. Uma peça ainda mais misteriosa de nosso quebra-cabeças também apareceu na Bretanha desta vez em Staffordshire, que tinha sido um leito quente para a atividade maçonica em meados do século XVII. Quando Charles Radcliffe, alegado Grão Mestre de Sião, escapou da Prisão Newgate em 1714, ele foi ajudado por seu primo, o Conde de Lichfield. Mais tarde no século a linhagem do Conde de Lichfield tornou-se extinta e seu título se interrompeu. Ele foi comprado no início do século XIX pelos descendentes da família Anson, que são os atuais Condes de Lichfield. O assento dos atuais Condes de Lichfield é Shugborough Hall em Staffordshire. Antigamente uma residência de um bispo, Shugborough foi comprado pela família Anson em 1697. Durante o século seguinte ele foi a residência do irmão de George Anson, o famoso almirante que circumnavegou o globo. Quando George Anson morreu em 1762, um poema elegíaco foi lido alto no Parlamento. Em uma estancia deste poema se lê: “Sobre este mármore celebre lance seu olho. A cena exige uma visão moralisante. E em Arcadia plana o abençoado Elísio, entre ninfas sorridentes e cisnes esportivos, Veja alegria festiva se acalmar, com graça enternecida, E a piedosa visita de uma face meio sorrindo; Onde agora a dança, o luto, a festa nupcial, A paixão palpitando no peito do amante, o emblema da vida aqui, na juventude e florescer vernal, Mas o dedo da razão aponta para a tumba.’ Esta seria uma alusão explícita a pintura de Poussin e a inscrição ‘et arcadia ego’ exatamente no ‘dedo apontando para a tumba’. E nos solos de Shugborough há um mármore imponente que tem um relevo executado a mando da família Anson entre 1761 e 1767. Este relevo compreende uma versão invertida, a modo de espelho, da pintura “Os Pastores da Arcadia” de Poussin e imediatamente abaixo dele está uma inscrição enigmática, uma que nunca tem sido decifrada satisfatoriamente: O.U.O3N.ANN. DM
A Carta Secreta do Papa
Em 1738 o Papa Clemente XII emitiu uma Bula Papal condenando e excomungando todos os Maçons Livres, que ele pronunciou ‘inimigos da Igreja Romana’. Nunca tem sido claro porque eles devessem ter sido vistos como tais especialmente já que muitos deles, como os Jacobitas eram católicos. Talvez o Papa estivesse ciente da ligação que tinhamos descoberto entre os maçons iniciais e os ‘rosacrucianos’ anti-romanos do século XVII. Em qualquer caso, alguma luz pode ser lançada sobre o assunto pr uma carta liberada e publicada pela primeira vez em 1962. Esta carta tinha sido escrita pelo Papa Clemente XII e dirigida a um correspondente desconhecido. Em seu texto o papa declara que o pensamento maçonico repousa em uma heresia que temos encontrado repetidamente antes da negativa da divindade de Jesus. E ele posteriormente avalia que os espíritos guias, as ‘mentes mestras’ por trás da Livre Maçonaria são os mesmas que provocaram a Reforma Luterana. O papa pode muito bem ter sido paranóide; mas é importante notar que ele não está falando de nebulosas correntes de pensamento ou vagas tradições. Ao contrário,ele está falando de um grupo altamente organizado de indivíduos, uma seita, uma ordem, uma sociedade secreta que, através das idades, tem se dedicado a subverter o edifício da cristandade católica.
A Rocha de Sião
No século XVIII, quando diferentes sistemas maçonicos estavam proliferando selvagemente, o chamado Rito Oriental de Mênfis fez seu aparecimento. Neste rito o nome Ormus ocorreu, para nosso conhecimento, pela primeira vez, o nome alegadamente adotado pelo Priorado de Sião entre 1188 e 1307. Segundo o Rito Oriental de Mênfis, Ormus era um sábio egípcio que, por volta de 46, amalgamou os mistérios cristãos e pagãos e, ao fazer isso, fundou a Rosacruz. Em outros ritos maçonicos do século XVIII aparecem repetidas referências a ‘Rocha de Sião’. A mesma ‘Rocha de Sião’ que, nos Documentos do Priorado, tornou a ‘tradição real’ estabelecida por Godfroi de Bouillon e Bauduino de Bouillon ‘igual’ a qualquer outra dinastia governante na Europa. Tinhamos previamente asumido que a Rocha de Sião fosse simplesmente o Monte Sião, a alta colina ao sul de Jerusalém na qual Godfroi construiu uma abadia para abrigar a ordem que se tornou o Priorado de Sião. Mas fontes maçonicas atribuem uma importância adicional a Rocha de Sião. Dado a preocupação deles com o Templo de Jerusalém, não é surpreendente que eles se refiram a passagens específicas da Bíblia. E nestas passagens a Rocha de Sião é algo mais que uma alta colina; é uma pedra em particular desprezada ou injustificavelmente negligenciada durante a construção do Templo, que deve subsequentemente ser recuperada e reincorporada como a pedra chave da estrutura. Segundo o Salmo 118, por exemplo: ‘A pedra que os construtores recusaram é para vir a ser a pedra fundamental no canto’. Em Mateus 21:42 Jesus alude especificamente a este salmo: ‘Você nunca leu as escrituras, a pedra que os construtores rejeitaram, a mesma é para se tornar a principal do canto’. Em Romanos 9:33 há uma outra referência , muito mais ambígua: ‘Preste atenção, Eu coloco em Sião uma pedra de tropeço e uma rocha de ofensa; e seja quem for que acredite nele não deve ser envergonhado’. Em Atos 4:11 ‘a Rocha de Sião pode bem ser interpetrada como uma metáfora para o próprio Jesus; pelo nome de Jesus Cristo de Nazaré… este homem permanece aqui antes de você inteiro. Esta é a pedra que foi colocada desprezada de vocês construtores, que é para se tornar a principal do canto. Em Efésios 2:20 a equação de Jesus e a Rocha de Sião se torna mais aparente : ‘construa sob a fundação dos apóstolos e profetas, o próprio Jesus Cristo sendo a pedra principal do canto’. E em Pedro 2:3-8 esta equação é tornada ainda mais explícita : ‘O Senhor é gracioso, Para quem vem, como sob uma pedra viva, desautorizado de fato dos homens, mas escolhido de Deus, e precioso. Nós também, como pedras vivas, estamos construidos acima de uma casa espiritual, um sacerdócio sagrado, para oferecer sacrifícios espirituais, aceitaveis a Deus por Jesus Cristo. Por consequinte issso também está contido na escritura, Acautele-se, estou em Sião uma pedra principal de canto, eleito, precioso; e aquele que acreditou Nele não deve ser confundido. Até você portanto que acredita que ele é precioso, mas até eles que são desobedientes, a pedra que os construtores não autorizaram, a mesa é feita a principal do canto. E uma pedra de tropeço, e uma rocha de ofensa, até mesmo para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para a qual eles eram apontados.’ No próprio próximo verso, o texto contuna para ressaltar temas cuja importância não se torna aparente a nós senão mais tarde. Ele fala de uma linhagem eleita de reis que são líderes seculares e espirituais, uma linhagem de reis-sacerdotes: Mas vocês são uma geração escolhida, um sacerdócio real, uma nação sagrada, um povo peculiar… ‘ O que iriamos fazer destas passagens surpreendentes? O que iríamos fazer da Rocha de Sião, a pedra chave do Templo, que parecia figurar tão salientemente entre os ‘segredos internos’ da Livre Maçonaria? O que iriamos fazer da identificação explícita desta pedra chave com o próprio Jesus? E o que iriamos fazer com a ‘tradição real’
que se tornou fundada na Rocha de Sião ou o próprio Jesus que era ‘igual’ as dinastias governantes da Europa durante s Cruzadas?
O Movimento Modernista Católico
Em 1833 Jean Baptiste Pitois, antigo discípulo de Charles Nodier em Arsenal Library, era um funcionário no Ministério da Educação Pública. E neste ano o Ministério assumiu o projeto ambicioso de publicar todos os documentos suprimidos pertinentes à história da França. Dois comitês foram formados para presidirem o empreendimento. Estes comitês incluiam, entre outros, Victor Hugo, Jules Michelet e uma autoridade sobre as Cruzadas, o Barão Emmanuel Rey. Entre os trabalhos subsequentemente publicados sob os auspícios do Ministério da Educação Pública estava o monumental de Michelet ‘Le Proces des Templiers’, uma compilação exaustiva dos registros da Inquisição lidando com os julgamentos de Cavaleiros Templários. Sob os mesmos auspícios o Barão Rey publicou um número de trabalhos lidando com as Cruzadas e o reino franco de Jerusalém. Nestes trabalhos apareceram em impressão pela primeira vez as cartas de direitos originais relativas ao Priorado de Sião. Em certos pontos do texto que Rey cita são quase verbatim as passagens dos Documentos do Priorado. Em 1875 o Barão Rey co-fundou a Sociedade do Latim ou Franco Oriente Médio. Baseada em Genebra, esta sociedade se devotou a ambiciosos projetos arqueológicos. Ela também publicava sua própria revista, ‘ Revue de Orient Latin’, que agora é uma das fontes primárias para historiadores modernos como Sir Steven Runciman, A Revue de Orient Latin reproduziu um número de cartas de direitos adicionais do Priorado de Sião. A pesquisa de Rey era típica de uma nova forma de erudição histórica aparecendo na Europa naquele tempo, mais proeminentemente na Alemanha, que constituia uma ameaça extremamente séria à Igreja. A disseminação do pensamento darwiniano e do agnosticismo já haviam produzido uma ‘crise de fé’ no século XIX, e a nova erudição magnificou a crise. No passado, a pesquisa histórica tinha sido, em sua maior parte, um caso não confiável, repousando em fundações altamente tenues – em lendas e tradição, em memórias pessoais, em exageros promulgados para o bem de uma ou outra causa. Somente no século XIX os eruditos alemães começaram a introduzir técnicas rigorosas, meticulosas que agora são aceitas como lugar comum, a reserva de base de qualquer historiador responsável. Tal preocupação com o exame crítico, com a investigação de fontes em primeira mão, com referências cruzadas e cronologia exata, estabeleceram o esteriótipo convencional do pedante teutônico. Mas se os escritores alemães do período tendiam a se perderem em minuncias, eles também forneceram uma base sólida para a pesquisa. E para um número de maiores descobertas arqueológicas também. O exemplo mais famoso, com certeza, é a escavação de Heinrich Schliemann do sítio de Tróia. Foi apenas uma questão de tempo antes que as técnicas da erudição alemã fossem aplicadas, com diligência similar, à Bíblia. E a Igreja, que repousava na aceitação inquestionável do dogma, estava também ciente que a própria Bíblia não poderia resistir a um tal exame crítico. Em seu livro best seller e altamente controvertido ‘A Vida de Jesus’, Ernest Renan já havia aplicado a metodologia alemã ao Novo Testamento e os resultados, para Roma, eram altamente embaraçantes.
O Movimento Católico Modernista elevou-se inicialmente como uma resposta a este novo desafio. Seu objetivo original era produzir uma geração de especialistas eclesiásticos treinados na tradição alemã, que pudessem defender a verdade literal das Escrituras com toda sua pesada munição de erudição crítica. Na medida em que isto transpirava, o plano explodia antes do tempo. Quanto mais a Igreja buscava equipar seus clérigos mais jovens com os instrumentos para o combate no polêmico mundo moderno, mais estes mesmos clérigos começaram a desertar da causa para qual eles foram recrutados. O exame crítico da Bíblia revelou uma multitude de inconsistências, discrepâncias e implicações que eram positivitamente inimigas do dogma católico. E pelo fim do século os Modernistas não eram mais as tropas de choque de elite da Igreja que ela esperava que eles fossem, mas os desertores e hereges incipientes. De fato, eles constituiam a mais séria ameaça que a Igreja havia vivenciado desde Martinho Lutero, e trouxeram o inteiro edifício do catolicismo a beira de um cisma sem precedentes por séculos. O leito quente da atividade Modernista, como ela havia sido para a Companhia do Santo Sacramento, era São Suspílcio em Paris. De fato, uma das vozes mais ressonantes no Movimento Modernista era o homem que era diretor do Seminário de São Suspílcio de 1852 a 1884. As atitudes modernistas de São Suspílcio espalharam-se rapidammente para o resto da França, Itália e Espanha. Segundo estas atitudes, os textos Bíblicos não eram unicamente autoritários, mas tinham de ser entendidos no contexto específico de seu tempo. E os modernistas também se rebelaram contra a crescente centralização do poder eclesiástico especialmente na doutrina recentemente instituida da infalibilidade papal, que ia flagrantemente contra a nova tendência.
Muito antes que as atitudes modernistas estivessem sendo disseminadas não somente pelos clérigos intelectuais, mas por distinguidos e influentes escritores também. Figuras como Roger Martin du Gard na França, e Miguel de Unamuno na Espanha estavam entre os portavozes primários do Modernismo. A Igreja respondeu com o previsível vigor e ira. Os Modernistas foram acusados de serem Maçons Livres. Muitos deles foram suspensos e até mesmo excomungados, e seus livros foram colocados no Index. Em 1903, o Papa Leão XII estabeleceu a Pontifícia Comissão Bíblica para monitorar o trabalho dos eruditos escriturais. Em 1907 o Papa Pio X emitiu uma condenação formal do Modernismo. E em 1o. de setembro de 1910 a Igreja exigiu que seus clérigos fizessem um voto contra as tendências modernistas. Não obstante, o Modernismo continuou a florescer até a Primeira Guerra Mundial desviar a atenção pública para outras preocupações. Até 1914 ele permaneceu uma causa célebre.
Um autor Modernista, o Abade Turmel, provou-se um indivíduo particularmente prejudicial. Conquanto ostensivamente se comportava impecavelmente em seu posto de ensino na Britania, ele publicou uma série de trabalhos modernistas sob não menos que quatorze pseudonimos diferentes. Cad um deles foi colocado no Index ms não foi até 1929 que Turmel se identificou como autor deles. É desnecessário dizer, ele foi então sumariamente excomungado. Enquanto isso o Modernismo espalhava-se na Britania, onde ele foi calorosamente benvindo e endossado pela Igreja Anglicana. Entre seus aderentes anglicanos estava William Temple, mais tarde arcebispo de Canterbury, que declarou que o Modernismo era o que as pessoas mais educadas já acreditavam. Um dos associados de Temple era Canon A. L. Liney. E Liney conhecia o sacerdote do qual ele havia recebido aquela carta portentosa que fala da ‘prova incontroversa’ que Jesus não morreu na cruz. Liney, como sabemos, tinha trabalhado por algum tempo em Paris, onde ele fez conhecimento com o Abade Emile Hoffet, o homem a que Sauniere levou os pergaminhos encontrados em Rennes-le-Chateau. Com seu talento em história, linguagem e linguística, Hoffet era um típico jovem erudito Modernista de sua era. Contudo, ele não tinha sido treinado em São Suspílcio. Ao contrário, ele tinha sido treinado em Lorraine. Na Escola Seminário de Sião: A Colina Ispirada.
Os Protocolos de Sião
Um dos testemunhos mais persuasivos que encontramos da existência e atividade do Priorado de Sião datou do final do século XIX. O testemunho em questão é suficientemente bem conhecido ms não é reconhecido como testemunho. Ao contrário, ele sempre tem sido associado a coisas mais sinistras. Ele tem desempenhao um papel notório na história recente e ainda tende a levantar tais violentas emoções, amargos antagonismos e pavorosas memórias que a maioria dos escritores ficam felizes em antecipadamente o descartar. Na extensão em que este testemunho tem contribuido significativamente para o preconceito e sofrimento humanos, uma tal reação é perfeitamente compreensível. Mas se o testemunho tem sido criminosamente mal usado, nossas pesquisas nos convenceram que ele também tem sido seriamente mal entendido. O papel de Rasputin na côrte de Nicholas e Alexandra da Rússia é mais ou menos geralmente conhecido, contudo, havia influentes e até mesmo poderosos enclaves esotéricos na corte russa muito antes de Rasputin. Durante os anos de 1890 e 1900 um de tais enclaves se formou ao redor de um indivíduo conhecido como Monsieur Philippe, e ao redor de seu mentor, que fez visitas periódicas a côrte imperial em Petersburg. E o mentor de Monsieur Philippe não era outro que o homem chamado Papus, o esoterista francês associado a Jules Doinel (o fundador da igreja neo-cátara em Languedoc), Peladan (que afirmou haver descoberto a tumba de Jesus), Emma Calve e Claude Debussy. Em uma palavra, o ‘reavivamento oculto francês’ do final do século XIX não tinha apenas se espalhado a Petersburg. Seus representantes também desfrutavam de um status privilegiado de confidentes pessoais do Tzar e da Tzarina. Contudo, o enclave esotérico de Papus e de Monsieur Philippe era ativamente oposto a certos outros interesses poderosos da Grande Duquesa Elizabeth, por exemplo, que tinha a intenção de instalar seus próprios favoritos na proximidade do trono imperial. Um dos favoritos da Grande Duquesa era um homem mais que desprezível conhecido pela posteridade como Sergei Nilus.
Em algum tempo por volta de 1903 Nilus apresentou um documento altamente controvertido ao Tzar; um documento que supostamente continha o testemunho de uma grande conspiração. Mas se Nilus esperava a gratidão do Tzar por esta revelação, ele deve ter ficado profundamente desapontado. O Tzar declarou o documento uma ultrajante fabricação e ordenou que todas as cópias fossem destruídas. E Nilus foi banido da corte em desgraça. De fato o documento, ou, a qualquer nível, uma cópia dele, sobreviveu. Em 1903 ele foi serializado em um jornal mas fracassou em atrair interesse. Em 1905 ele foi novamente publicado desta vez na forma de um apendice de um livro por um distinto filósofo místico, Vladimir Soloviov. A este ponto o documento começou a atrair atenção. Nos anos que se seguiram ele se tornou um dos mais infames documentos do século XX.
O documento em questão era um tratado, ou falando mais estritamente, um proposto programa social e político. Ele tem aparecido sob uma variedade de títulos ligeiramente diferentes, o mais comum dos quais é ‘Os Protocolos dos Sábios de Sião’. Os Protocolos alegadamente sairam de fontes especialmente judias. E para uma grande quantidade de anti-semitas daquele tempo eles eram a prova convincente de uma ‘conspiração internacional judaica’. Em 1919, por exemplo, eles foram distribuídos às tropas do Exército Russo Branco e estas tropas, durante os seguintes dois anos, massacraram uns 60.000 judeus que eram considerados responsáveis pela revolução de 1917. Por 1919 os Protocolos estavam também sendo circulados por Alfred Rosenberg, mais tarde o chefe racial teórico e propagandista do Partido Nacional Socialista na Alemanha. Em Mein Kampft Hitler usou os Protocolos para alimentar seus próprios preconceitos fanáticos, e é dito ter acreditado inquestionavelmente em sua autenticidade. Na Inglaterra aos Protocolos foram imediatamente concedidas credenciais no Morning Post. Até mesmo o The Times, em 1921, os considerou seriamente e somente mais tarde admitiu seu erro. Hoje os especialistas concluem muito certamente, como nós concluimos, que os Protocolos, ao menos em sua forma presente, são uma fraude viciosa e insidiosa. Não obstante, eles ainda circulam na América Latina, Espanha e até mesmo na Bretanha na propaganda anti-semita.
Os Protocolos propõem um projeto para nada menos do que o total domínio mundial. À primeira leitura eles nos parecem um programa maquiavélico, um tipo de memorando inter-ofício, por assim dizer de um grupo de indivíduos determinados a imporem uma nova ordem mundial, com eles próprios como déspotas supremos. O texto advoga uma conspiração de uma cabeça de hidra com muitos tentáculos dedicada a desordem e anarquia, e a derubar certos regimes existentes, infiltrando a Livre Maçonaria e outras tais organizações e eventualmente tomando o controle absoluto das instituições políticas, economicas e sociais do mundo ocidental. E os autores anônimos dos Protocolos declaram que eles explicitamente gerenciam por estágio povos inteiros ‘de acordo com um plano político, que ninguém tem suposto imaginar mas que está em curso por séculos’. Para um leitor moderno os Protocolos podem parecer terem sido divisados de alguma organização fictícia como SPECTRE - o adversário de James Bond ns novelas de Ian Fleming. Quando eles foram primeiramente publicados, contudo, os Protocolos foram alegados terem sido compostos em um Congresso Internacional Judaico que se reuniu em Basle em 1897. Esta alegação a muito tempo tem sido desaprovada. As mais iniciais cópias dos Protocolos, são conhecidas terem sido escritas em francês e o Congresso de 1897 em Basle não incluiu um único delegado francês. Sobretudo, uma cópia dos Protocolos é sabida ter estado em circulação em 1884 – 13 anos antes do encontro do Congresso em Basle. A cópia de 1884 aparece nas mãos de um membro de uma loja maçonica; a mesma loja maçonica da qual Papus era um membro e consequentemente um Grão Mestre. Sobretudo esta foi a mesma loja na qual a tradição de Ormus tinha primeiro aparecido; o legendário sábio egípcio que amalgamou os mistérios cristão e pagãos e fundou a Rosacruz. Os eruditos modernos tem estabelecido no fato que os Protocolos, em sua forma publicada, são baseados ao menos em parte em um trabalho satírico escrito e impresso em Genebra em 1864. O trabalho foi composto como um ataque a Napoleão III por um homem chamado Maurice Joly, que foi subsequentemente preso. Joly é dito ter sido um membro de uma Ordem Rosacruz. Se isto é ou não verdade, ele era amigo de Victor Hugo; e Hugo, que partilhava da antipatia de Joly por Napoleão III, era membro de uma Ordem Rosacruz.
Portanto pode ser provado conclusivamente que os Protocolos não sairam do Congresso Judaico em Basle em 1897. Sendo assim, a pergunta óbvia é de onde eles sairam. Os eruditos modernos o tem descartado como uma fraude total, um documento completamente espúrio criado por interesses anti-semitas que pretendiam desacreditar o Judaismo. Ainda que os Protocolos argumentem fortemente contra esta conclusão. Eles contém, por exemplo, um número de referências enigmáticas – que são claramente não judaicas. Mas estas referências são tão claramente não judaicas que elas podem plausivelmente terem sido fabricadas por um fraudador também. Nenhum fraudador anti-semita com até mesmo uma inteligência média possivelmente teria criado tais referências para desacreditar o Judaísmo. Porque ninguém teria acreditado que estas referências fossem de origem judaica. Então, por exemplo, o texto nos Protocolos termina com uma única declaração, ‘Assinado pelos Representantes de Sião do 33o Grau’. Porque um fraudador anti-semita teria feito uma tal afirmação? Porque ele não teria tentado incriminar todos os judeus, muito mais que uns poucos que constituem ‘os representantes de Sião do 33o grau’? Porque ele não declararia por exemplo que este documento era assinado pelos representantes do Congresso Internacional Judaico? De fato, pareceria se referir a algo especificamente maçonico. E o 33o grau na Livre Maçonaria é o chamado ‘Estrita Observância’, o sistema da Livre Maçonaria introduzido por Hund em benefício de seus ‘superiores desconhecidos’, um dos quais parece ter sido Charles Radcliffe. Os Protocolos contém outras anomalias até mesmo mais flagrantes. O texto fala repetidamente, por exemplo, do advento de um ‘Reino Maçonico’ e de ‘Um Rei do Sangue de Sião’, que presidirá o Reino Maçonico. Ele avalia que o futuro Rei dos Judeus será o real Papa e ‘patriarca da igreja internacional’. E ele conclui de uma maneira mais críptica, ‘certos membros da semente de David prepararão o Rei e seus herdeiros… Somente o Rei e a árvore que permanece patrocinando-o saberão o que está vindo”.
Como uma expresssão do pensamento judaico, real ou fabricado, tais afirmações são claramente absurdas. Desde os templos bíblicos, rei algum tem figurado na tradição judaica, e o próprio princípio de reinado tem sido completammente irrelevante. O conceito de um rei teria sido tão sem sentido para os judeus de 1897 quanto ele o seria para os judeus hoje; e ninguém pode ser ignorante desse fato. De fato, as referencias citadas pareceriam mais cristãs do que judaicas. Pelos últimos dois milênios o único ‘Rei dos Judeus’ tem sido o próprio Jesus e Jesus, segundo os Evangelhos, era ‘das raízes dinásticas de David’. Se alguém está fabricando um documento e o atribuindo a uma conspiração judaica, porque este documento inclue tais ecos patentemente cristãos? Porque fala de um conceito táo especifico e unicamente cristão quanto o de Papa? Porque falar de uma ‘igreja internacional’ muito mais que de uma sinagoga internacional ou um templo internacional? E porque incluir a alusão enigmática ao ‘Rei e a árvore que permanece o patrocinador’ que é menos sugestiva do judaismo e da cristandade do que o é das sociedades secretas de Johann Valentin Andrea e Charles Nodier? Se os Protocolos sairam inteiramente de uma imaginação propagandista anti-semita, é difícil imaginar um propagandista tão inepto, ou tão ignorante e desinformado. Com base na pesquisa prolongada e sistemática, chegamos a certas conclusões sobre os Protocolos dos Sábios de Sião. Elas são as seguintes:
[1] – Houve um texto original no qual a versão publicada dos Protocolos foi baseada. Este texto original não era uma fraude. Ao contrário, ele era autêntico. Mas ele nada tinha a ver com o judaismo ou com uma ‘conspiração intrenacional judaica’. Ele foi emitido muito mais de alguma organização maçonica ou sociedade secreta maçonicamente orientada que incorporou a palavra ‘Sião’.
[2] – O texto original sobre o qual a versão publicada dos Protocolos foi baseado necesariamente não precisava ser provocativo ou inflamatório em sua linguagem. Mas pode muito bem ter incluindo um programa de ganhar poder, por infiltrar a Maçonaria Livre, por controlar as instituições sociais, políticas e economicas. Um tal programa teria sido perfeitamente de acordo com as sociedades secretas da Renascença, bem como com a companhia do Santo Sacramento e as instituições de Andrea e Nodier.
[3] – O texto original sobre a qual foi baseada a versão publicada dos Protocolos caiu nas mãos de Sergei Nilus; Nilus de início não pretendia desacreditar o judaismo. Ao contrário, ele o levou ao Tzar com a intenção de desacreditar o enclave esotérico na corte imperial – o enclave de Papus, Mosieur Philippe e outros que eram membros da sociedade secreta em questão. Mais antes de fazer isso, ele quase certamente doutorou a linguagem, tornando-a mais venenosa e inflamatória do que o era inicialmente. Quando o Tzar o menosprezou, Nilus então liberou os Protocolos em sua forma doutorada para publicação. Eles tinham falhado em seu objetivo primário de comprometer Papus e Monsieur Philippe. Mas eles ainda podiam muito bem servir ao propósito secundário de estimular o anti-semitismo. Embora os alvos principais de Nilus tivessem sido Papus e Monsieur Philippe, ele era hostil ao judaismo também.
[4 - - A versão publicada dos Protocolos não é, portanto, um texto totalmente fabricado. Ele é muito mais um texto radicalmente alterado. Mas a despeito de tais alterações, certos vestígios da versão original podem ser discernidos como em um manuscrito em pergaminho ou como nas passagens da Bíblia. Estes vestígios que se referem a um Rei, um Papa, uma igreja internacional, e ao Sião provavelmente significavam pouco ou nada para Nilus. Ele certamente não teria ele próprio os inventado. Mas se eles já estavam lá, ele não teria tido qualquer razão, dado sua ignorância, para exclui-los. E conquanto tais vestígios possam ter sido irrelevantes para o judaismo, eles podem ter sido extremamente relevantes para uma sociedade secreta. Como aprendemos subsequentemente, eles eram e ainda são de suprema importância para o Priorado de Sião.
Hieron du Val d’Or
Enquanto buscávamos a nossa pesquisa independente, novos 'Documentos do Priorado' tinham continuado a aparecer. Alguns deles trabalhos particularmente impressos, como os Dossiês Secretos, e que se destinavam a uma circulação limitada, tornaram-se disponível para nós por meio de ações de amigos na França ou por meio da Biblioteca Nacional. Outros apareceram sob a forma de livro, recentemente publicados e liberados no mercado pela primeira vez.
Em alguns destes trabalhos havia informação adicional sobre o século XIX e especificamente sobre Berenger Sauniere. Segundo uma de tais narrativas atualizadas Sauniere não descobriu os fatídicos pergaminhos em sua igreja por acidente. Ao contrário, é dito que ele tenha sido dirigido a eles por emissários do Priorado de Sião que o visitaram em Renes-le-Chateau e o alistaram como seu faz-tudo. Em 1916 Sauniere é relatado ter desafiado os emissários de Sião e brigado com eles. Se isto é verdade, a morte do cura em 17 de janeiro adquire uma qualidade mais sinistra do que geralmente é atribuída a ela. Dez dias antes de sua morte ele tinha estado em saúde satisfatória. Não obstante, dez dias antes de sua morte um caixão foi encomendado para ele. O recibo do caixão, datado de 12 de janeiro de 1917, é entregue a governante e amiga de Sauniere, Marie Denarnaud. Uma publicação mais recente e aparentemente de mais autoridade do Priorado elabora a posterior história de Sauniere e parece confimar, ao menos em parte, a narrativa resumida acima. Segundo esta publicação, o próprio Sauniere era pouco mais do que um peão e seu papel no mistério de Rennes-le-Chateau tem sido exagerado. A força real por trás dos eventos na vila da montanha é dita ter sido o amigo de Sauniere, o Abade Henri Boudet, cura da vila adjacente de Rennes-le-Bains. Boudet é dito ter fornecido a Sauniere todo seu dinheiro, um total de 13 milhões de francos, entre 1887 e 1915. E Boudet é dito ter guiado Sauniere em seus vários projetos e trabalhos públicos, a construção da Vila Bethania e da Tour Magdala. Ele também é dito ter supervisionadoo a restauração da igreja de Renes-le-Chateau, e ter projetado as perplexantes Estações da Cruz de Sauniere como um tipo de versão ilustrada, ou equivalente visual, de um livro críptico de sua propriedade. Segundo esta recente publicação do Priorado, Sauniere permaneceu essencialmente ignorante do real segredo para o qual ele agia como tutor até que Boudet, ao se aproximar da morte, o confidenciou a ele em março de 1915. Segundo a mesma publicação, Marie Denarnaud, a governanta de Sauniere, era de fato agente de Boudet. Era por meio dela que Boudet supostamente transmitia instruções a Sauniere. E foi para ela que todo dinheiro era pagável. Ou ao menos, a maior parte do dinheiro.
Boudet, entre 1885 e 1901, é dito ter pago 7.655.250 francos ao bispo de Carcassone; o homem que, por sua própria conta, despachou Sauniere para Paris com os pergaminhos. O bispo, também, pareceria então ser essencialmente empregado de Boudet. É certamente uma situação incongruente um importante bispo regional sendo pago por um servidor ou um humilde sacerdote pároco do interior. E o próprio sacerdote da paróquia? Para quem estava Boudet trabalhando? Que interesses ele representava? O que pode ter dado a ele o poder de alistar os serviços e o silêncio de seu superior eclesiástico? E quem pode ter fornecido a ele os vastos recursos financeiros a serem dispensados prodigamente? Estas perguntas não são respondidas explicitamente. Mas a resposta está constantemente implícita no Priorado de Sião. Uma luz posterior sobre a matéria foi lançada por um outro trabalho recente que, como seus predecessores, parece vir de 'fontes privilegiadas de informação'. O trabalo em questão é "O Tesouro do Triângulo de Ouro' de Jean-Luc Chaumiel , publicado em 1979. Segundo Chaumiel, um número de clérigos envolvidos no enigma de Rennes-le-Chateau - Sauniere, Boudet, muito provavelmente outros como Hoffet, o tio de Hoffet em São Suspílcio e o bispo de Carcassone eram afiliados a uma forma de Rito Escocês da Livre Maçonaria. Esta maçonaria, declara Chaumiel, difere das muitas outras formas no que ele era 'cristã, hermética e aristocrática'. Em resumo, ele não consistia, como muitos ritos da Livre Maçonaria, primariamente em livres pensadores e ateus. Ao contrário, ele parece ter sido profundamente religiosa e magicamente orientada, enfatisando uma sagrada hierarquia social e política, uma ordem divina, um subjacente plano cósmico. E os graus superiores desta Livre Maçonaria, segundo Chaumiel, eram os graus inferiores do Priorado de Sião. Em nossas próprias pesquisas nós já tinhamos encontrado uma Livre Maçonaria do tipo que Chaumiel descreve. De fato, a descrição de Chaumiel pode prontamente ser aplicada ao original Rito Escocês introduzido por Charles Radcliffe e seus associados. Tanto a maçonaria de Radcliffe quanto a maçonaria de Chaumiel descrevem o que teria sido aceitável, a despeito da condenação papal, a católicos devotos sejam eles Jacobitas do século XVIII ou sacerdotes franceses do século XIX. Em ambos os casos Roma desaprovou muito veementemente.
Não obstante, os indivíduos envolvidos não parecem apenas terem persistido em se verem como cristãos e católicos. Eles também parecem, com base na evidência disponível, terem recebido uma maior e estimulante transfusão de fé, uma transfusão que os habilitou a se verem como, se algo, mais verdadeiramente cristãos do que o Papado. Embora Chaumiel seja vago e evasivo, ele implica fortemente que nos anos anteriores a 1914 a Maçonaria Livre da qual Boudet e Sauniere eram membros se tornou amalgamada a uma outra instituição esotérica - uma instituição que pode bem explicar algumas referências curiosas a um monarca nos Protocolos dos Sábios de Sião, especialmente se, como indica Chaumiel posteriormente, o real poder por trás desta outra instituição fosse também o Priorado de Sião. A instituição em questão foi chamada Hieron du Val d’Or o que pareceria uma transposição verbal de um sítio recorrente, Orval. A Hieron du Val d’Or era uma espécie de sociedade secreta política fundada, pareceria, por volta de 1873. Ela parece ter partilhado muito de outras organizações esotéricas do período. Havia, por exemplo, uma ênfase característica na geometria sagrada e vários sítios sagrados. Havia uma insistência na verdade mística ou gnóstica que subjazem aos motivos mitológicos. Havia uma preocupação com as origens dos homens, raças, linguagens e símbolos tais como ocorre na Teosofia. E como muitas outras seitas e sociedades daquele tempo, a Hieron du Val d’Or era simultaneamente cristã e trans-cristã. Ela soube reconciliar como é dito que o legendário Ormus reconciliou os mistérios cristãos e pagãos. Ela atribuiu uma importãncia especial ao pensamento druidico que, como muitos especialistas modernos, é visto como parcialmente pitagoriano. Todos estes temas estão descritos no trabalho publicado do amigo de Sauniere, o Abade Henri Boudet. Para os propósitos de nossa pesquisa, o Hieron du Val d’Or se provou relevante em virtude de sua formulação do que Chaumiel chama de 'geopolítica esotérica' e 'ordem mundial entárquica'. Traduzido em termos mais mundanos, isto compreende, de fato, o estabelecimento de um novo Sagrado Império Romano na Europa do século XIX - um Sagrado Império Romano revitalizado e reconstituido, um Estado secular que unificasse todos os povos e repousasse em fundações espirituais muito mais que sociais, políticas ou economicas. Diferente de seu predecessor, este novo Sagrado Império Romano teria sido genuinamente 'sagrado', genuinamente 'romano' e genuinamente 'imperial' embora o significado específico destes termos tivessem diferido crucialmente do significado aceito pela tradição e convenção. Um tal Estado teria realizado o velho sonho de séculos de um 'reino celestial' na terra, uma réplica terrena ou uma imagem em espelho da ordem, harmonia, hierarquia do cosmos.
Isto teria atualizado a antiga premissa hermética "Como é encima, é embaixo". E não era utópica ou ingenua. Ao contrário, ela era ao menos remotamente possivel no contexto da Europa do século XIX. Segundo Chaumiel, os objetivos do Hieron du Val d’Or eram: uma teocracia onde as nações não seriam mais do que províncias, seus líderes apenas pró-consuls a serviço de um governo mundial oculto consistente de uma elite. Para a Europa, este regime do Grande Rei implicava em uma dupla hegemonia do Papado e do Império, do Vaticano e dos Hapsburgs, que teriam sido o braço direito do Vaticano. Pelo século XIX, com certeza, os Hapsburgs eram sinônimo da casa de Lorraine. O conceito de um Grande Rei assim teria constituido um cumprimento das profecias de Nostradamus. E isso também teria atualizado, ao menos em algum sentido, o projeto monarquista ressaltado nos Protocolos dos Sabios de Sião. Ao mesmo tempo, a realização de um projeto tão grandioso, claramente teria compreendido um número de mudanças nas instituições existentes. O Vaticano, por exemplo, presumidamente teria sido um Vaticano muito diferente daquele situado em Roma. E os Hapsburgs teriam sido mais do que imperiais cabeças do Estado. Eles teriam se tornado, de fato, uma dinastia de reis-sacerdotes como os faraós do antigo Egito. Ou como o Messias antecipado pelos judeus no amanhecer da era cristã. Chaumiel não esclarece a extensão, se alguma, que os próprios Hapsburgs estivessem ativamente envolvidos nestes ambiciosos projetos clandestinos.
Há contudo uma quantidade de evidência, incluindo a visita de um arquiduque Hapsburg a Rennes-le-Chateau que aparentemente atesta ao menos alguma implicação. Mais sejam quais forem os planos que estavam em ação, eles foram impedidos pela Primeira Guerra Mundial, que, entre outras coisas, derrubou os Hapsburgs do poder. Como Chaumiel os explicou, os objetivos do Hieron du Val d’Or ou do Priorado de Sião fazem um certo sentido de lógica no contexto do que temos descoberto. Eles lançam uma nova luz sobre os Protocolos dos Sábios de Sião. Eles concorreram com os objetivos afirmados de várias sociedades secretas, inclusive daquelas de Charles Radcliffe e Charles Nodier. E o mais importante de tudo, eles conformaram as aspirações politicas que, pelos séculos, temos traçado na casa de Lorraine. Mas se os objetivos do Hieron du Val d’Or fazem um sentido lógico, eles não fazem um sentido politico prático. Em que bases, imaginamos, os Hapsburgs teriam avaliado seu direito a funcionar como um dinastia de reis-sacerdotes? A menos que eles conquistassem o completo apoio popular, um tal direito possivelmente não teria sido avaliado contra o governo republicano da França, sem mencionar as dinastias imperiais então presidindo sobre a Rússia, Alemanha e Bretanha. E como poderia o necessário apoio popular ter sido obtido? No contexto das realidades políticas do século XIX um tal esquema, conquanto logicamente consistente, nos pareceu efetivamente absurdo. Talvez, concluimos, tivessemos interpretado mal o Hieron du Val d’Or. Ou talvez os membros do Hieron du Val d’Or fossem muito simplesmente sem importância. Até que obtivéssemos informação posterior, mão tinhamos outra escolha senão colocar o assunto na prateleira. Neste meio tempo, voltamos nossa atenção ao presente para determinar se o Priorado de Sião existia hoje. Como rapidamente descobrimos, ele existia. Seus membros não eram todos insignificantes, e eles estavam buscando, no século XX pós guerra, um programa essencialmewnte similar aquele buscado no século XIX pelo Hieron du Val d’Or.
A Sociedade Secreta Hoje
O jornal Francês Offciel é uma publicação semanal do governo na qual todos os grupos, sociedades e organizações no país devem se declarar. No Jounal Officiel para a semana de 20 de julho de 1956 [publicação número 167], há a seguinte entrada: 25 de junho de 1956. Declaração a sub-prefeitura de Saint-Julien-en-Genevois. Priorado de Sião. Objetivos: estudos e ajuda mútua a membros. Chefe oficial: SousCassan, Annemasse, Haute Savoie. O Priorado de Sião foi oficialmente registrado com a polícia. Aqui, a qualquer nível, pareceu ser a prova definitiva de sua existência em nossa própria idade até mesmo embora achemos de certa forma estranho que uma sociedade supostamente secreta deva então se revelar. Mas talvez isso não fosse assim tão estranho. Não havia listagem para o Priorado de Sião em qualquer diretório telefônico francês. O endereço se provou vago demais para identificar um escritório específico, casa, construção ou até mesmo rua. E a sub-prefeitura, quando telefonamos para ela, foi de pouca ajuda. Tem havido inúmeras pesquisas, ele disseram, com uma resignação de longo sofrimento e cansaço. Mas ele não puderam nos oferecer uma informação posterior. Até onde sabemos, o endereço era não rastreável. Se nada mais, isto nos deu uma pausa. Entre outras coisas, isto nos fez imaginar como certos indivíduos tinham conseguido registrar um endereço fictício ou não rastreável com a polícia e então, aparentemente escapar de todas as consequências subsequentes e processo da matéria. Estava a polícia realmente tão despreocupada e indiferente como parecia? Ou Sião de algum modo tinha alistado sua cooperação e discrição?
A sub-prefeitura, a nosso pedido, nos forneceu uma cópia do que é proposto ser os estatutos do Priorado de Sião. Este documento, que consistia em 21 artigos, não era controvertido nem aparentemente esclarecedor. Ele não dava qualquer indicação da possível influência de Sião, seus membros ou recursos. No todo, ele era mais que brando enquanto ao mesmo tempo compunha a nossa perplexidade. A um ponto, por exemplo, o documento declarava que a admissão a ordem não estava restrita em base de linguagem, origem social, classe ou ideologia política. Em outro ponto, eles estipulavam que todos os católicos acima da idade de 21 anos eram elegíveis para candidatura. De fato os estatutos em geral pareciam ter derivado de uma pia instituição até mesmo ferventemente católica. E ainda que o alegado Grão Mestre de Sião e a história passada, até onde tinhamos sido capazes de rastrea-la, dificilmente atestasse qualquer ortodoxia católica. Para este assunto, até mesmo os modernos Documentos do Priorado, muito deles publicados ao mesmo tempo que os estatutos, eram menos catolicos em orientação do que herméticos, até mesmo hereticamente gnósticos. A contradição não parecia fazer sentido – a menos que Sião, como os Cavaleiros Templários, e a Companhia do Santo Sacramento exigiam o catolicismo como um pré requesito exotérico , que pode então ser transcedido dentro da Ordem. Em qualquer nível Sião, como o Templo e a Companhia do Santo Sacramento, aparentemente exigiam uma obediência que, em sua natureza absoluta, resumia todos os outros compromissos, seculares ou espirituais. Segundo o Artigo VII dos estatutos, ‘O candidato deve renunciar a sua personalidade para se devotar ao serviço de um apostolado alto moral’. Os estatutos posteriormente declaram que Sião funciona sob o sub-título de Cavalaria de Instituições e Regras Católicas da União Independente e Tradicionalista. Isto é abreviado para CIRCUIT, o nome de uma revista que, segundo os estatutos, é publicada internamente pela Ordem e que circulava dentro de suas fileiras. Talvez a informação mais interessante nos estatutos é que desde 1956 o Priorado de Sião pareceria ter expandido sua afiliação quase cinco vezes. Segundo uma página reproduzida nos Dossiês Secretos, impressa em algum tempo antes de 1956, Sião tinha um total de 1.093 enfileirados em sete graus. A estrutura era tradicionalmente piramidal. No topo estava um Grão Mestre, ou ‘Nautonnier’. Havia três no grau abaixo dele [Príncipe Noaquita de Notre Dame], nove no grau abaixo desse [Cruz de São João]. Cada um dos graus abaixo era tão grande tres vezes quando o grau adiante dele 27, 81, 243, 729. Os três graus mais altos do Grão Mestre e seus doze subordinados imediatos eram ditos constituirem os 13 Rosacruz. O número também corresponderia, com certeza, a algo de uma cobertura satânica a Jesus e seus doze discípulos. Segundo os estatutos pós 1956, Sião tinha uma afiliação total de 9.841 enfileirados não em sete graus, mas em nove. A estrutura parece ter permanecido essencialmente a mesma, embora fosse esclarecido, e dois nove graus tivessem sido introduzidos na parte inferior da hierarquia assim posteriormente insulando a liderança por trás de uma grande rede de noviços. O Grão Mestre ainda retinha o título de Nautonnier. Os Três Príncipes Noaquitas de Notre Dame eram simplesmente chamados de Senescais. Os nove Cruzes de São João eram chamados de ‘Constables’. A organização da Ordem, em seu jargão portentosamente enigmático dos estatutos, era como se segue: A assembléia geral é composta de todos os membros da associação. Ela consiste em 729 províncias, 27 comamdanterias e um Arco chamado de Kyria. Cada uma das comandanterias bem como o Arco deve consistir em quarenta membros e cada província tinha treze membros. Os membros são divididos em dois grupos efetivos:
[a] – A Legião, encarregada do apostolado
[b] – A falange, guardiã da tradição.
Os membros compõe uma hierarquia de nove graus . A herarquia de nove graus consiste em:
a) nas 729 províncias [1 - noviços: 6.561 membros; [2] – Cruzados: 2187 membros
[b] – nas 27 comandanterias [3] – preux: 729 membros [4] – Ecuyers: 243 membros [5] – cavaleiros: 81 membros [6] Comandantes: 27 mebros
c) no Arco ‘Kyria’: 7) Connetables: 9 membros 8) Senechaux: 3 membros 9) Nautonnier: 1 membro
Aparentemente por propósitos legais e oficiais burocráticos, quatro indivíduos estavam listados como comprendendo “O Conselho’. Três dos nomes não nos eram familiares e muito possivelmente, pseudônimos – Pierre Bonhomme, nascido em 7 de dezembro de 1934, presidente; Jean Delaval, nascido em 7 de março de 1931, vice-presidente; Pierre Defagot, nascido em 11 de dezembro de 1928, tesoureiro. Um nome, contudo, nós já tinhamos encontrado antes: Pierre Plantard, nascido em 18 de março de 1920, secretário geral. Segundo a pesquisa de um outro escritor, o título oficial de Plantard era Secretário Geral do Departamento de Documentação o que implica, com certeza, que há outros departamentos também.
Alain Poher
Pelo início dos anos de 1970 o Priorado de Sião tinha se tornado uma modesta causa célebre entre certas pessoas na França. Havia um número de artigos de revista e alguma cobertura nos jornais. Em 13 de fevereiro de 1973, o Midi Libre publicou uma longa apresentação sobre Sião, Sauniere e o mistério de Rennes-le-Chateau. Esta apresetação especificamente ligava Sião com a possível sobrevivência da linhagem sanguínea Merovíngia no século XX. Isso também sugeriu que os descendentes merovíngios incluiam um verdadeiro pretendente ao trono da França que eles identificaram como M. Alain Poher. Conquanto não especialmente bem conhecido na Bretanha ou nos Estados Unidos, Alain Poeher era [e ainda é] um nome familiar na França.
Durante a Segunda Guerra Mundial ele ganhou a Medalha da Resistência e a Cruz de Guerra. Depois da resignação de deGaulle ele foi o Presidente Provisório da França de 28 de abril a 19 de junho de 1969. Ele ocupou a mesma posição na morte de Georges Pompidou, de 2 de abril a 27 de maio de 1974. Em 1973, quando apareceu a apresentação de Midi Libre, Poher era Presidente do Senado Francês. Até onde sabemos, Poher nunca comentou, de um modo ou outro, sobre suas alegadas ligações com o Priorado de Sião e/ou linhagem sanguinea Merovíngia. Nas genealogias dos Documentos do Priorado, contudo, há menção de Arnaud, Conde de Poher, que, em algum tempo entre 894 e 896, se entrecasou com a família Plantard, os descendentes supostamente diretos de Dagoberto II. O neto de Arnaud Poher, Alain, se tornou duque da Bretanha em 937. Se ou não Poher reconhece Sião, então parece claro que Sião o reconhece como sendo, ao menos, de descendência Merovíngia.
O Rei Perdido.
Neste meio tempo, enquanto buscavamos a nossa pesquisa e a media francesa despertava períodicas exaltações de atenção do caso inteiro, novos Documentos do Priorado continuaram a aparecer. Como antes, alguns apareceram sob a forma de livro, outros como panfletos particularmente impressos, ou artigos depositados na Biblioteca Nacional. Se algo, eles somente compunham a mistificação. Alguém obviamente estava produzindo este material, mas seu real objetivo permanecia não esclarecido. As vezes quase descartamos o caso inteiro como uma piada elaborada, uma farsa de extravag